Máquina zero
Quarto dia: entendo que o q
ue preciso, se q
uero mesmo continuar a p
erambular com alguma chance de êxito p
or uma cidade ( duas ) como Berlim, é
de sapatos de largo fôlego. Caminho ( penso e
nquanto caminho ), permeável a t
udo: ao frio sol cortante, às crianças t
urcas com seu comércio informal de b
rinquedos usados, à b
eleza sem rumo da adolescente que ( longas p
ernas abertas sobre um p
rosaico selim de bicicleta ) c
avalga o c
omeço da tarde, aos grafites que “d
ariam belas fotos”, à Topografia d
o Terror, às ruínas, ao r
asta que me saúda ( “R
asta!” ) na Wilhelmstrasse, às l
ascas do Muro na vitrine da pequena l
oja, ao a
marelo-zoom do metrô a
pontando na curva a
ntes do teatro, à
História,
UMA ALEGRIA
jamais minas gerais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
Brancos
eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
CINE-OLHO
Um
menino
não.
Era
mais
um
felino,
um
Exu
afelinado
chispando
entre
os
carros
um
ponto
riscado
a
laser
na
noite
de
rua
cheia
para
os
lados
do
Mercado.
E rir à solta e não morrer
Poder morrer
Ainda no ventre
da mulher
que me pariu.
E não ter
morrido lá.
Poder morrer
de algum veneno
que alguém
insuflou num fruto
que eu menino
colheria enquanto
brincava sozinho.
E não morrer.
Poder morrer
Adolescente sob
as patas distraídas
de uma esquina
de domingo.
E rir à solta e
não morrer.
Poder morrer
num dia quente,
tudo já seco
por dentro, e a
cidade e o mundo
alheios. Não morri
num dia assim.
Poder morrer
de tantas formas
e não ter morrido
nunca nenhum
desses tantos anos
que eu vivo
aqui entre
os humanos.
Misturam-se ao rumor do mar
Misturam-se ao rumor do mar,
mas são e serão sempre o que são:
ecos de tentativas de conversa
em línguas estranhas entre elas,
dentro dos tumbeiros, a caminho
de novos sucessivos desastres.
Como ouvi-las sem tentar inter-
pretá-las, dada a total impossibi-
lidade de ignorar suas cadências,
suas inflexões, o granulado dos
seus timbres, seu quê de coisa e de
água fluindo em meio a água e mais
água e um nunca se acabar de água?
OIÁ
Repito o que
recita o vento:
que as coisas vem
a seu tempo,
que elas sabem
qual tempo é o delas,
que esse tempo
quase nunca
é o dos viventes mas
que, assim sendo,
forca é render-se
á forca delas
movendo-se folha
ao vento, rasgacéus,
deusa ciosa das coisas
que lhe ofertem
e de cada corpo quando
dance na festa
em seu nome ao vento
veja-a: resplendente
aqui, já recontando
ali-epa, Oiá-Ó!
TREVA
vazio até o
fundo
crispado na
treva
mais um
día des
liza para
dentro
de um
dos tres
caminhos
sem volta
Alheio
escolho ouvir,
sei muito bem que o risco não é pequeno, meio
adormecido no banco do
ônibus, a não ser que ela voltasse a cabeça, não
pensamos palavras,
mas a cada novo
ângulo descortinado, sempre a ponto
de cair, é
quando o sujeito retorna, escolho
não falar, não
considero prudente
falar, ela insiste,
a imagem fixa na retina,
rastros na areia, chega
um momento em que já não se pode
recuar, um garoto sonha e ri muito
alto, guardar sigilo,
uma página em branco,
o pensamento um corte,
animais de corpos cilíndricos,
imaginar o que há
dentro de uma árvore,
escolho olhar o fogo, ainda ontem, o todo inacabado,
dois seixos na beira do lago, falava alheio,
uma sequência de desvios, ouvia sem entender,
estou só, aqui, escrito
RAINHA ONÇA
Sou Elza.
Sou onça.
Canto
sem pedir
licença.
Sou onça.
Sou Elza.
Eu onço
desde
nascença.