CANTIGA DE CAMINHO
Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
sei rezar latim pro nobis
sou primo do preto Brás
Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
vou vivendo como vivo
faço o que ninguém mais faz
Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sei somar zero com zero
e ainda divido por dois
Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sempre que posso eu passo
o carro à frente dos bois
Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
sou rosa e pedra no caminho
sou capaz de guerra e paz
Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
dou volta e meia no mundo
e o mundo não acaba mais
TREVA
vazio até o
fundo
crispado na
treva
mais um
día des
liza para
dentro
de um
dos tres
caminhos
sem volta
Noite
O menino viu
sair da boca
da mulher, talvez
sua mãe, uma voz
estrídula e lábil, que
logo desandou,
em cadência
de sonho, a quê?
– A enumerar desas-
tres já ocorridos
e por ocorrer,
a fecundar
harpias, a frisar
as marcas
da passagem
da pantera pelo quarto,
a aturdir relógios,
a enegrecer o sol
e outras mais
de tais proezas.
E rir à solta e não morrer
Poder morrer
Ainda no ventre
da mulher
que me pariu.
E não ter
morrido lá.
Poder morrer
de algum veneno
que alguém
insuflou num fruto
que eu menino
colheria enquanto
brincava sozinho.
E não morrer.
Poder morrer
Adolescente sob
as patas distraídas
de uma esquina
de domingo.
E rir à solta e
não morrer.
Poder morrer
num dia quente,
tudo já seco
por dentro, e a
cidade e o mundo
alheios. Não morri
num dia assim.
Poder morrer
de tantas formas
e não ter morrido
nunca nenhum
desses tantos anos
que eu vivo
aqui entre
os humanos.
As metades do corpo
Marianne
Moore
apreciava animais
e atletas
em igual
escala. Motivo: o
"estilo"
das duas
espécies citadas
"é, prova
-velmente,
desleixado"; uns e
outros, dis
-se Miss
Moore numa entre
-vista,
alcançam a
"exatidão" devido
à prática
que "as
metades do corpo",
neles (nos
animais
e nos atletas que
possuem
um estilo),
adquiriram
"para se
contra
-balançarem".
RAINHA ONÇA
Sou Elza.
Sou onça.
Canto
sem pedir
licença.
Sou onça.
Sou Elza.
Eu onço
desde
nascença.
Labirinto
Conheço a cidade
como a sola do meu pé.
Espírito e corpo prontos
para evitar
outros humanos polícias
carros ônibus buracos
e dejetos na calçada,
incorporo hoje o Sombra amanhã
o Homem In
visível sexta à noite
o perigoso Ninguém
e sigo.
Como os cegos
conheço o labirinto
por pisá-lo
por tê-lo
de cor na ponta dos pés
à maneira também do que
fazem uns poucos
com a bola
num futebol descalço
qualquer. Conheço a
cidade toda (a
mínima dobra retas cada borda
curvas) e nela – à
custa de me
perder – me
reconheço.
Dedicatória
Prefiro a paciente
proeza das traças,
meu caquético rapaz,
aos versinhos
bem traçados
dos quais
te mostras capaz
(assépticos e sérios
como os de
ninguém mais).
Ah! Ler-te é
penetrar na paz
dos cemitérios.
Pelo modo como caminhas,
nota-se que ainda
respiras, mas
já entreleio,
junto aos títulos
dos teus livros,
os dois precisos
vocábulos
("Aqui jaz")
com que, um dia,
te saudarão os vivos.
Alheio
escolho ouvir,
sei muito bem que o risco não é pequeno, meio
adormecido no banco do
ônibus, a não ser que ela voltasse a cabeça, não
pensamos palavras,
mas a cada novo
ângulo descortinado, sempre a ponto
de cair, é
quando o sujeito retorna, escolho
não falar, não
considero prudente
falar, ela insiste,
a imagem fixa na retina,
rastros na areia, chega
um momento em que já não se pode
recuar, um garoto sonha e ri muito
alto, guardar sigilo,
uma página em branco,
o pensamento um corte,
animais de corpos cilíndricos,
imaginar o que há
dentro de uma árvore,
escolho olhar o fogo, ainda ontem, o todo inacabado,
dois seixos na beira do lago, falava alheio,
uma sequência de desvios, ouvia sem entender,
estou só, aqui, escrito
ÁLBUM DE FAMÍLIA
Meu pai viu Casablanca três vezes (duas
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.