Lista de Poemas

NANÃ

Mãe sem marido,
avó do universo.
Senhora da alvura.
Nanã, a de rosto
sempre coberto.
Ó poderosa
dona dos cauris,
filha do grande pássaro Atioró.
Água.
Lama.
Morte.
Mãe do segredo
do mundo.
O úmido.
O que flui.
Água.
Lama.
Filhos.
Teus gestos
lentos
no fundo
da água escura.
796

ÁLBUM DE FAMÍLIA

Meu pai viu Casablanca três vezes (duas
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.
713

Homens

Leonilson
pintava
e
bordava.

Bispo do Rosário
colecionava
delírios
e bordava.

Lampião
tocava o terror
no sertão
e bordava.

João Cândido
punha a República
no curé
e bordava.
940

MÚSICA MESMO

música
música mesmo
é milton
quem faz

só com
o som
que sai
da sua boca
ele toca
o oco
da vida
por dentro

do centro
da terra
até o breu
do céu
sem deus
que pesa
imenso
sobre nós

como se apenas
“palmilhasse
vagamente”
as estradas
deste mundo
com a voz
855

RAINHA ONÇA

Sou Elza.
Sou onça.

Canto
sem pedir
licença.

Sou onça.
Sou Elza.

Eu onço
desde
nascença.
753

CANTIGA DE CAMINHO

Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
sei rezar latim pro nobis
sou primo do preto Brás

Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
vou vivendo como vivo
faço o que ninguém mais faz

Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sei somar zero com zero
e ainda divido por dois

Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sempre que posso eu passo
o carro à frente dos bois

Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
sou rosa e pedra no caminho
sou capaz de guerra e paz

Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
dou volta e meia no mundo
e o mundo não acaba mais
814

Até perder

Meus 5 sentidos querem
                       olhar os seus 5 sentidos ouvir os seus
                                                          5 sentidos tocar os seus 5
                                          sentidos cheirar os seus 5 sentidos até perder
                                                          os sentidos
760

TEOFAGIA

Aqui, eu —
consumada falha
de papai e mamãe:
meia ¾ (acho
que de menina),
uma palma
e uma folha
de papel na mão,
minutos depois
de deglutir
Deus, à guisa
de primeira
comunhão.
638

E rir à solta e não morrer

Poder morrer
Ainda no ventre

da mulher
que me pariu.

E não ter
morrido lá.

Poder morrer
de algum veneno

que alguém
insuflou num fruto

que eu menino
colheria enquanto

brincava sozinho.
E não morrer.

Poder morrer
Adolescente sob

as patas distraídas
de uma esquina

de domingo.
E rir à solta e

não morrer.
Poder morrer

num dia quente,
tudo já seco

por dentro, e a
cidade e o mundo

alheios. Não morri
num dia assim.

Poder morrer
de tantas formas

e não ter morrido
nunca nenhum

desses tantos anos
que eu vivo

aqui entre
os humanos.
680

Alheio

escolho ouvir,
sei muito bem que o risco não é pequeno, meio

adormecido no banco do
ônibus, a não ser que ela voltasse a cabeça, não

pensamos palavras,
mas a cada novo

ângulo descortinado, sempre a ponto
de cair, é

quando o sujeito retorna, escolho
não falar, não

considero prudente
falar, ela insiste,

a imagem fixa na retina,
rastros na areia, chega

um momento em que já não se pode
recuar, um garoto sonha e ri muito

alto, guardar sigilo,
uma página em branco,


o pensamento um corte,
animais de corpos cilíndricos,

imaginar o que há
dentro de uma árvore,

escolho olhar o fogo, ainda ontem, o todo inacabado,
dois seixos na beira do lago, falava alheio,

uma sequência de desvios, ouvia sem entender,
estou só, aqui, escrito
740

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Identificação e contexto básico

Ricardo Aleixo é um poeta, performer e artista visual brasileiro, nascido em Belo Horizonte. É conhecido por sua atuação na vanguarda da poesia experimental, explorando as relações entre linguagem, corpo, tecnologia e performance. Sua nacionalidade é brasileira e a língua principal de sua obra é o português.

Infância e formação

Pouca informação pública detalhada sobre sua infância e formação inicial está disponível. No entanto, é notório o seu percurso autodidata e a profunda imersão em estudos sobre linguagem, arte e tecnologia, que moldaram sua visão artística.

Percurso literário

Ricardo Aleixo iniciou sua trajetória explorando a poesia de forma experimental, logo se destacando pela originalidade de sua proposta. Seu percurso literário é intrinsecamente ligado à sua prática artística, onde a palavra é levada para além do suporte do livro, em performances e instalações. É um dos nomes mais relevantes da poesia contemporânea brasileira, com atuação internacional.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ricardo Aleixo caracteriza-se pela experimentação radical com a linguagem poética. Ele frequentemente desconstrói a palavra, o som e o corpo, utilizando-os como matéria-prima para performances, instalações sonoras e textos. Temas como a memória, a identidade, a tecnologia, o corpo e as relações sociais são recorrentes. Seu estilo é marcado pela hibridização de mídias e pela busca de novas formas de percepção e cognição. A relação com a tradição poética é de ruptura e reinvenção, inserindo-se no contexto da poesia contemporânea expandida e da arte conceitual.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Aleixo atua em um contexto cultural marcado pela globalização, pela revolução digital e pelas transformações sociais e políticas do Brasil e do mundo. Sua obra dialoga com as questões da contemporaneidade, refletindo sobre o impacto da tecnologia nas relações humanas e na produção de sentido. Ele se insere em um movimento de renovação da poesia brasileira, que busca superar as fronteiras entre as artes.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Ricardo Aleixo é mantida com discrição, mas sua dedicação à arte é evidente em sua trajetória. A intensidade de sua pesquisa artística e sua presença marcante em performances sugerem uma profunda imersão em seu trabalho.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ricardo Aleixo é amplamente reconhecido no meio artístico e literário, tanto no Brasil quanto internacionalmente. Sua obra tem sido objeto de exposições, performances e estudos em diversas instituições culturais e acadêmicas. É considerado um dos poetas mais inovadores de sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora seja difícil apontar influências específicas de forma conclusiva, sua obra dialoga com tradições da poesia concreta, da poesia experimental, da arte conceitual e da performance. Seu legado reside na redefinição dos limites da poesia e na sua capacidade de pensar e propor novas formas de expressão na era digital, inspirando artistas e poetas a explorarem a materialidade da linguagem e do corpo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Aleixo convida a múltiplas interpretações, desafiando o espectador/leitor a repensar a relação entre forma e conteúdo, som e silêncio, corpo e linguagem. Críticos destacam sua capacidade de criar experiências sensoriais e intelectuais complexas, que levantam questões sobre a condição humana na contemporaneidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua metodologia de trabalho envolve pesquisa aprofundada em áreas diversas, muitas vezes não diretamente ligadas à literatura, o que enriquece sua produção com perspectivas inesperadas. A constante experimentação com diferentes suportes e tecnologias é um traço marcante.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até o presente momento, Ricardo Aleixo encontra-se vivo e ativo em sua produção artística e literária.