Poemas neste tema
Outros
Silvestre de Oliveira Serpa
A El-Rei Nosso Senhor e Protetor
Essa de Jove parto mais que humano,
Palas douta, Tritônia belicosa
Ao arnês militar, a toga honrada
Antepõe por obséquio o Lusitano.
As armas que lhe foram timbre ufano,
Pelas Letras demite vangloriosa;
De que nome maior nas letras goza,
Pelo Rei Luso, Jove Soberano.
Estes dos Renascidos luzimentos,
Por quanto gira o Sol e o pólo abarca,
De glória para o Rei são instrumentos:
Que a Fênix superando as leis da Parca
Tanto são para as letras, os aumentos
Quanto são os pregões para o Monarca.
Palas douta, Tritônia belicosa
Ao arnês militar, a toga honrada
Antepõe por obséquio o Lusitano.
As armas que lhe foram timbre ufano,
Pelas Letras demite vangloriosa;
De que nome maior nas letras goza,
Pelo Rei Luso, Jove Soberano.
Estes dos Renascidos luzimentos,
Por quanto gira o Sol e o pólo abarca,
De glória para o Rei são instrumentos:
Que a Fênix superando as leis da Parca
Tanto são para as letras, os aumentos
Quanto são os pregões para o Monarca.
735
Tasso da Silveira
Poema 17
Esquece o tempo. O tempo não existe.
Acende a chama às límpidas lanternas.
Nossas almas, a ansiar no mundo triste,
são de uma mesma idade: são eternas.
Se no meu rosto lês mortais cansaços,
é natural.A luta foi renhida:
caminhei tantos passos, tantos passos
para que te encontrasse em minha vida...
Não medites o tempo. Se muito antes
de ti cheguei, para a áspera, inclemente
sina de navegar por este mar,
foi para que tivesse olhos orantes,
e me purificasse longamente
na infinita aflição de te esparar...
Acende a chama às límpidas lanternas.
Nossas almas, a ansiar no mundo triste,
são de uma mesma idade: são eternas.
Se no meu rosto lês mortais cansaços,
é natural.A luta foi renhida:
caminhei tantos passos, tantos passos
para que te encontrasse em minha vida...
Não medites o tempo. Se muito antes
de ti cheguei, para a áspera, inclemente
sina de navegar por este mar,
foi para que tivesse olhos orantes,
e me purificasse longamente
na infinita aflição de te esparar...
1 112
Sílvio Péllico
O Suspiro
(Tradução de Luís Vicente Simoni)
O amor é suspiro
De uma alma gemente,
A qual só se sente
E quer compaixão.
A dor é suspiro
De uma alma oprimida
A qual acha a vida
Sem satisfação.
A esperança é suspiro
De uma alma, se aspira,
Se sonha, se ira
Risonho fuzil.
O medo é suspiro
De uma alma abatida,
Talvez por perdida
Lisonja gentil.
Dor, medo, esperança
E amor do leviano
Coração humano,
Suspiros vêm ser.
Suspiro são breve
A pena, o prazer,
São breve suspiro
A vida e o morrer.
Mas neste suspiro,
Meu Deus, breve assim,
Me deste o desejo
Que venhas a mim;
Deste-me uma luz
Que diva se sente,
Me deste uma mente
Que a ti me conduz.
O amor é suspiro
De uma alma gemente,
A qual só se sente
E quer compaixão.
A dor é suspiro
De uma alma oprimida
A qual acha a vida
Sem satisfação.
A esperança é suspiro
De uma alma, se aspira,
Se sonha, se ira
Risonho fuzil.
O medo é suspiro
De uma alma abatida,
Talvez por perdida
Lisonja gentil.
Dor, medo, esperança
E amor do leviano
Coração humano,
Suspiros vêm ser.
Suspiro são breve
A pena, o prazer,
São breve suspiro
A vida e o morrer.
Mas neste suspiro,
Meu Deus, breve assim,
Me deste o desejo
Que venhas a mim;
Deste-me uma luz
Que diva se sente,
Me deste uma mente
Que a ti me conduz.
1 425
José Carlos Souza Santos
Na Janela
Veja essa moça na janela
repare bem nos olhos dela
Veja em seus olhos e leia
no verde daqueles campos
quanta esperança de luz
Veja como se aninha
lá em cima entre os cílios
um clarão de bem luzir
Veja essa moça na janela
repare bem nos olhos dela
Veja quantas serenatas
dançando em suas pupilas
e quantos nomes e datas
brincando de recordar
Veja essa moça na janela
não repare bem nos olhos dela
Veja suas mãos
um lírio pálido de aflição
Veja o seio que escorre
deslembrado
Veja os gestos
esquecidos e cansados
Veja aquele corpo
que se esconde na janela
e em nada se assemelha
à dona daqueles olhos
Quanto ingrato é o tempo meus Deus !
apagou toda a beleza naquela mulher
e para marcá-la mais ainda
plantou viva nos seus olhos
a semente das lembranças.
repare bem nos olhos dela
Veja em seus olhos e leia
no verde daqueles campos
quanta esperança de luz
Veja como se aninha
lá em cima entre os cílios
um clarão de bem luzir
Veja essa moça na janela
repare bem nos olhos dela
Veja quantas serenatas
dançando em suas pupilas
e quantos nomes e datas
brincando de recordar
Veja essa moça na janela
não repare bem nos olhos dela
Veja suas mãos
um lírio pálido de aflição
Veja o seio que escorre
deslembrado
Veja os gestos
esquecidos e cansados
Veja aquele corpo
que se esconde na janela
e em nada se assemelha
à dona daqueles olhos
Quanto ingrato é o tempo meus Deus !
apagou toda a beleza naquela mulher
e para marcá-la mais ainda
plantou viva nos seus olhos
a semente das lembranças.
1 045
José Carlos Souza Santos
Na Janela
Veja essa moça na janela
repare bem nos olhos dela
Veja em seus olhos e leia
no verde daqueles campos
quanta esperança de luz
Veja como se aninha
lá em cima entre os cílios
um clarão de bem luzir
Veja essa moça na janela
repare bem nos olhos dela
Veja quantas serenatas
dançando em suas pupilas
e quantos nomes e datas
brincando de recordar
Veja essa moça na janela
não repare bem nos olhos dela
Veja suas mãos
um lírio pálido de aflição
Veja o seio que escorre
deslembrado
Veja os gestos
esquecidos e cansados
Veja aquele corpo
que se esconde na janela
e em nada se assemelha
à dona daqueles olhos
Quanto ingrato é o tempo meus Deus !
apagou toda a beleza naquela mulher
e para marcá-la mais ainda
plantou viva nos seus olhos
a semente das lembranças.
repare bem nos olhos dela
Veja em seus olhos e leia
no verde daqueles campos
quanta esperança de luz
Veja como se aninha
lá em cima entre os cílios
um clarão de bem luzir
Veja essa moça na janela
repare bem nos olhos dela
Veja quantas serenatas
dançando em suas pupilas
e quantos nomes e datas
brincando de recordar
Veja essa moça na janela
não repare bem nos olhos dela
Veja suas mãos
um lírio pálido de aflição
Veja o seio que escorre
deslembrado
Veja os gestos
esquecidos e cansados
Veja aquele corpo
que se esconde na janela
e em nada se assemelha
à dona daqueles olhos
Quanto ingrato é o tempo meus Deus !
apagou toda a beleza naquela mulher
e para marcá-la mais ainda
plantou viva nos seus olhos
a semente das lembranças.
1 045
Marcelo Tápia
céu de mil e uma noites
Se eu
não fosse poeta
seria astrônomo
por certo.
Maiakóvski (trad. Augusto de Campos)
olho o céu e vejo um céu antigo
como aquele que eu tenho comigo
desde que o mundo era o meu umbigo
um céu de tecido azul escuro
com os pontos de luz em furo e uma
meia meia lua de futuro
nesga, um rasgo fino reluzente
numa renda quase transparente
com o vulto do clarão ausente
crescente sobre o pano profundo
que conquista um negrume de fundo
quanto mais e mais cai com o mundo
e se consome o vermelho púrpura
(desvanece a cor à ausência pura)
quanto mais e mais o brilho fura
não fosse poeta
seria astrônomo
por certo.
Maiakóvski (trad. Augusto de Campos)
olho o céu e vejo um céu antigo
como aquele que eu tenho comigo
desde que o mundo era o meu umbigo
um céu de tecido azul escuro
com os pontos de luz em furo e uma
meia meia lua de futuro
nesga, um rasgo fino reluzente
numa renda quase transparente
com o vulto do clarão ausente
crescente sobre o pano profundo
que conquista um negrume de fundo
quanto mais e mais cai com o mundo
e se consome o vermelho púrpura
(desvanece a cor à ausência pura)
quanto mais e mais o brilho fura
904
Samuel Nogueira Filho
O Soneto Imortal
Beleza está patente é na simplicidade...
O alexandrino, bem se pode consagrar...
A poesia aparece... Aflora, e na verdade
um verso musical nem precisa rimar...
Se rima, tem a forma, é melhor. Recitar
um soneto rimado é prazer. E quem há de
um soneto de cor não querer declamar
em vez de lê-lo escrito, e ter dificuldade?
Palavras, expressões, todas da mesma gama
em português castiço alguém jamais reclama
nem vai ao Dicionário. Eis do escritor o ideal.
Quem não gosta de ver seu soneto falado
em recital qualquer? Vê-lo ser aclamado,
aquele que fará seu autor imortal?
O alexandrino, bem se pode consagrar...
A poesia aparece... Aflora, e na verdade
um verso musical nem precisa rimar...
Se rima, tem a forma, é melhor. Recitar
um soneto rimado é prazer. E quem há de
um soneto de cor não querer declamar
em vez de lê-lo escrito, e ter dificuldade?
Palavras, expressões, todas da mesma gama
em português castiço alguém jamais reclama
nem vai ao Dicionário. Eis do escritor o ideal.
Quem não gosta de ver seu soneto falado
em recital qualquer? Vê-lo ser aclamado,
aquele que fará seu autor imortal?
1 025
Samuel Nogueira Filho
O Soneto Imortal
Beleza está patente é na simplicidade...
O alexandrino, bem se pode consagrar...
A poesia aparece... Aflora, e na verdade
um verso musical nem precisa rimar...
Se rima, tem a forma, é melhor. Recitar
um soneto rimado é prazer. E quem há de
um soneto de cor não querer declamar
em vez de lê-lo escrito, e ter dificuldade?
Palavras, expressões, todas da mesma gama
em português castiço alguém jamais reclama
nem vai ao Dicionário. Eis do escritor o ideal.
Quem não gosta de ver seu soneto falado
em recital qualquer? Vê-lo ser aclamado,
aquele que fará seu autor imortal?
O alexandrino, bem se pode consagrar...
A poesia aparece... Aflora, e na verdade
um verso musical nem precisa rimar...
Se rima, tem a forma, é melhor. Recitar
um soneto rimado é prazer. E quem há de
um soneto de cor não querer declamar
em vez de lê-lo escrito, e ter dificuldade?
Palavras, expressões, todas da mesma gama
em português castiço alguém jamais reclama
nem vai ao Dicionário. Eis do escritor o ideal.
Quem não gosta de ver seu soneto falado
em recital qualquer? Vê-lo ser aclamado,
aquele que fará seu autor imortal?
1 025
Samuel Nogueira Filho
O Soneto Imortal
Beleza está patente é na simplicidade...
O alexandrino, bem se pode consagrar...
A poesia aparece... Aflora, e na verdade
um verso musical nem precisa rimar...
Se rima, tem a forma, é melhor. Recitar
um soneto rimado é prazer. E quem há de
um soneto de cor não querer declamar
em vez de lê-lo escrito, e ter dificuldade?
Palavras, expressões, todas da mesma gama
em português castiço alguém jamais reclama
nem vai ao Dicionário. Eis do escritor o ideal.
Quem não gosta de ver seu soneto falado
em recital qualquer? Vê-lo ser aclamado,
aquele que fará seu autor imortal?
O alexandrino, bem se pode consagrar...
A poesia aparece... Aflora, e na verdade
um verso musical nem precisa rimar...
Se rima, tem a forma, é melhor. Recitar
um soneto rimado é prazer. E quem há de
um soneto de cor não querer declamar
em vez de lê-lo escrito, e ter dificuldade?
Palavras, expressões, todas da mesma gama
em português castiço alguém jamais reclama
nem vai ao Dicionário. Eis do escritor o ideal.
Quem não gosta de ver seu soneto falado
em recital qualquer? Vê-lo ser aclamado,
aquele que fará seu autor imortal?
1 025
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Pátria
Vasto no solo, forte pela raça,
na livre América um país prospera.
E desde os Guararapes o encouraça
o nume do valor que retempera.
Os conceitos pacíficos abraça,
e no labor refaz a sua esfera.
Dando o exemplo benéfico, sem jaça,
na norma da igualdade persevera.
Altos cimos de luz que a fé redoura !
Do belo e verdadeiro na confiança,
a justiça reside, imorredoura.
É esse país, que a humanidade inteira
contem no coração e na esperança,
outro não é que a pátria brasileira.
na livre América um país prospera.
E desde os Guararapes o encouraça
o nume do valor que retempera.
Os conceitos pacíficos abraça,
e no labor refaz a sua esfera.
Dando o exemplo benéfico, sem jaça,
na norma da igualdade persevera.
Altos cimos de luz que a fé redoura !
Do belo e verdadeiro na confiança,
a justiça reside, imorredoura.
É esse país, que a humanidade inteira
contem no coração e na esperança,
outro não é que a pátria brasileira.
985
Tatiana Ramminger
Espera
Espera
Aqui estou
de corpo e asas feridas
pernas e alma abertas
para você
Aqui estou
de corpo e asas feridas
pernas e alma abertas
para você
1 433
Sousa Caldas
Aos Anos de uma Menina
Não creias, gentil Márcia, na pintura
Com que malignos Gênios figuraram
O veloz Tempo, quando a mão lhe armara
De cruenta, implacável foice dura.
Inimigo fatal da formosura,
Com fantásticas cores o pintaram;
E nem ser ele, ao menos, acenaram
Quem desenvolve as graças da figura.
Qual cerrado botão de fresca rosa,
Que o ligeiro volver de um novo dia
Abre, e transforma em flor a mais mimosa:
Tal, a infantil beleza, inerte e fria,
De ano em ano se torna mais formosa,
E novo brilho, novas graças cria.
Com que malignos Gênios figuraram
O veloz Tempo, quando a mão lhe armara
De cruenta, implacável foice dura.
Inimigo fatal da formosura,
Com fantásticas cores o pintaram;
E nem ser ele, ao menos, acenaram
Quem desenvolve as graças da figura.
Qual cerrado botão de fresca rosa,
Que o ligeiro volver de um novo dia
Abre, e transforma em flor a mais mimosa:
Tal, a infantil beleza, inerte e fria,
De ano em ano se torna mais formosa,
E novo brilho, novas graças cria.
1 060
Sinésio Cabral
Remembranças
Domingo. Noite calma. Um piston em surdina
me traz evocações. Na varanda ensombrada,
eu mergulho no tempo, e o quadro me fascina:
perdidos na distância, uns longes de alvorada.
Em tomo à mesa, ali, conversas de rotina,
logo após o jantar. Bate-papo e mais nada.
E eu retorno à varanda, o olhar na chuva fina
e o pensamento longe, alma enfim deslumbrada.
Daqui deste edifício, entre instantâneos vários,
suponho ver no mar, e com os mesmos ardis,
nos veleiros de outrora, os antigos corsários.
Recordo, neste ensejo, ilhado em São Luís,
meus Pais, irmãos, Madrinha, a Escola, meus canários...
Taperoá, de antanho, em cenas infantis.
me traz evocações. Na varanda ensombrada,
eu mergulho no tempo, e o quadro me fascina:
perdidos na distância, uns longes de alvorada.
Em tomo à mesa, ali, conversas de rotina,
logo após o jantar. Bate-papo e mais nada.
E eu retorno à varanda, o olhar na chuva fina
e o pensamento longe, alma enfim deslumbrada.
Daqui deste edifício, entre instantâneos vários,
suponho ver no mar, e com os mesmos ardis,
nos veleiros de outrora, os antigos corsários.
Recordo, neste ensejo, ilhado em São Luís,
meus Pais, irmãos, Madrinha, a Escola, meus canários...
Taperoá, de antanho, em cenas infantis.
957
Sinésio Cabral
Introspecção II
A vida, neste mundo, é mesmo passageira.
Certeza ninguém tem de estar vivo, amanhã.
O ímpio endeusa a matéria, ao encher a algibeira.
Longe o Povo de Deus de qualquer coisa vã.
A alma — sopro divino. O corpo, esfeito em poeira,
sob outra forma, um dia... A doutrina cristã,
dentro da BOA NOVA — a fonte verdadeira —
diz sobre o Bem e o Mal — no maior talismã.
Nesta minha rotina, há pesados encargos.
E, se não fosse Deus, como suportaria
ver-te a sofrer, também, momentos tão amargos!
Mas me ajudas, meu bem, na luta, noite e dia,
a carregar a cruz, em gestos sempre largos
e a trazer nosso lar em constante harmonia.
Certeza ninguém tem de estar vivo, amanhã.
O ímpio endeusa a matéria, ao encher a algibeira.
Longe o Povo de Deus de qualquer coisa vã.
A alma — sopro divino. O corpo, esfeito em poeira,
sob outra forma, um dia... A doutrina cristã,
dentro da BOA NOVA — a fonte verdadeira —
diz sobre o Bem e o Mal — no maior talismã.
Nesta minha rotina, há pesados encargos.
E, se não fosse Deus, como suportaria
ver-te a sofrer, também, momentos tão amargos!
Mas me ajudas, meu bem, na luta, noite e dia,
a carregar a cruz, em gestos sempre largos
e a trazer nosso lar em constante harmonia.
820
Sidney Frattini
Hai Kai
O que sobraDo homemÉ só a obra.
É sempre um sim,Ou sempre um não.Mas sempre em mim.
É sempre um sim,Ou sempre um não.Mas sempre em mim.
899
Sérgio José Rodrigues Saraiva
KaReN é belo nome feminino
KaReN é belo nome feminino,
Muito gosto tiveste tu outrora;
Espero que igualmente, sempre e agora,
Despontes o teu claro figurino.
Vives envolta pelo mar salino,
Em lugar com extensa e larga flora;
Vês o sol difundir a roxa aurora,
Ao fundo, no oceano, paulatino.
Tens sorta amiga KaReN portuária,
Contudo não te chamarei sereia
Que és real e não imaginária.
Que não tem uma estatua ou uma deia,
Uma vontade própria, ou arbitrária,
Ou o explendor que o coração ateia.
Muito gosto tiveste tu outrora;
Espero que igualmente, sempre e agora,
Despontes o teu claro figurino.
Vives envolta pelo mar salino,
Em lugar com extensa e larga flora;
Vês o sol difundir a roxa aurora,
Ao fundo, no oceano, paulatino.
Tens sorta amiga KaReN portuária,
Contudo não te chamarei sereia
Que és real e não imaginária.
Que não tem uma estatua ou uma deia,
Uma vontade própria, ou arbitrária,
Ou o explendor que o coração ateia.
640
Sidney Frattini
A Pessoa - Carta
Ah, meu bom Fernando.
Tua linha reta é um prolongamento de vidas.
Vidas como esta, olha,
atitude de tua expressão,
ridículo igual,
vil igual,
titubeante igual,
e verificas que tens, sim, par neste mundo,
modéstia à parte - nós,
que te encontro, agora, surpreso,
não um semideus, mas um Homem,
um(a) Pessoa, pessoal, gente;
gente, arre, enfim.
Pois é.
Não há mais discípulos: só mestres;
e não mais aprendizados: só ensinamentos,
e só droites, não gauches,
que estes são exceções,
últimos companheiros, sobrantes,
vis benditos que fazem nossa (relativa) paz,
porque não nos abandonam à
solidão do ridículo,
da mesquinhez,
da vileza,
das pequenas coisas que se fazem grandes,
da condição de súditos de uma população de príncipes,
da comicidade triste e só,
de quixotes,
de lúcidos, enfim. Lúcidos, Fernando.
Os lúcidos são os sós, bens sabes.
Tua linha reta é um prolongamento de vidas.
Vidas como esta, olha,
atitude de tua expressão,
ridículo igual,
vil igual,
titubeante igual,
e verificas que tens, sim, par neste mundo,
modéstia à parte - nós,
que te encontro, agora, surpreso,
não um semideus, mas um Homem,
um(a) Pessoa, pessoal, gente;
gente, arre, enfim.
Pois é.
Não há mais discípulos: só mestres;
e não mais aprendizados: só ensinamentos,
e só droites, não gauches,
que estes são exceções,
últimos companheiros, sobrantes,
vis benditos que fazem nossa (relativa) paz,
porque não nos abandonam à
solidão do ridículo,
da mesquinhez,
da vileza,
das pequenas coisas que se fazem grandes,
da condição de súditos de uma população de príncipes,
da comicidade triste e só,
de quixotes,
de lúcidos, enfim. Lúcidos, Fernando.
Os lúcidos são os sós, bens sabes.
767
Silva Dutra
Soneto da Amiga Andando na Praia
Dá gosto vê-la andando na praia,
pisando firme sobre a areia fina!
Maria Aparecida o olhar espraia,
dando a impressão de ser a própria ondina.
A mão direita segurando a saia,
o corpo ereto e o busto que se empina,
quando ela, esbelta, uma corrida ensaia
para exaltar a graça feminina.
Toda a esbelteza por meus olhos vista,
é de vê-la passando à minha frente,
tipo garboso de mulher sulista.
E quando franze a face cor de rosa,
abre-se em mar meu coração contente,
toda minhalma em praia luminosa!
pisando firme sobre a areia fina!
Maria Aparecida o olhar espraia,
dando a impressão de ser a própria ondina.
A mão direita segurando a saia,
o corpo ereto e o busto que se empina,
quando ela, esbelta, uma corrida ensaia
para exaltar a graça feminina.
Toda a esbelteza por meus olhos vista,
é de vê-la passando à minha frente,
tipo garboso de mulher sulista.
E quando franze a face cor de rosa,
abre-se em mar meu coração contente,
toda minhalma em praia luminosa!
1 086
Silva Dutra
Soneto da Amiga Andando na Praia
Dá gosto vê-la andando na praia,
pisando firme sobre a areia fina!
Maria Aparecida o olhar espraia,
dando a impressão de ser a própria ondina.
A mão direita segurando a saia,
o corpo ereto e o busto que se empina,
quando ela, esbelta, uma corrida ensaia
para exaltar a graça feminina.
Toda a esbelteza por meus olhos vista,
é de vê-la passando à minha frente,
tipo garboso de mulher sulista.
E quando franze a face cor de rosa,
abre-se em mar meu coração contente,
toda minhalma em praia luminosa!
pisando firme sobre a areia fina!
Maria Aparecida o olhar espraia,
dando a impressão de ser a própria ondina.
A mão direita segurando a saia,
o corpo ereto e o busto que se empina,
quando ela, esbelta, uma corrida ensaia
para exaltar a graça feminina.
Toda a esbelteza por meus olhos vista,
é de vê-la passando à minha frente,
tipo garboso de mulher sulista.
E quando franze a face cor de rosa,
abre-se em mar meu coração contente,
toda minhalma em praia luminosa!
1 086
Rodrigo Carvalho
Distante Perfeição
Há tempos,
sinto um desejo
que impulsiona-me a cada dia,
como agora.
Gostaria de ter tua presença,
mesmo que fosse somente para contemplar
toda esta tua beleza doce.
Não estabeleceria regras,
nem mediria as palavras.
Apenas expressaria-me para você
com todo o meu desejo.
Gostaria de por em prática
toda a perfeição do meu sentir.
Gostaria de deixar-me envolver por você
muito mais do que já estou.
E aí você já estaria envolvida.
Gostaria de ser capaz.
Apenas capaz.
Capaz de fazer com que você também sentisse o mesmo.
O mesmo sentimento que habita em mim.
Só assim você entenderia os meus desejos.
Desejos tais que não excerço domínio algum,
pois o poder deste domínio,
é só você quem possui.
Salvador, 16 maio de 1996
sinto um desejo
que impulsiona-me a cada dia,
como agora.
Gostaria de ter tua presença,
mesmo que fosse somente para contemplar
toda esta tua beleza doce.
Não estabeleceria regras,
nem mediria as palavras.
Apenas expressaria-me para você
com todo o meu desejo.
Gostaria de por em prática
toda a perfeição do meu sentir.
Gostaria de deixar-me envolver por você
muito mais do que já estou.
E aí você já estaria envolvida.
Gostaria de ser capaz.
Apenas capaz.
Capaz de fazer com que você também sentisse o mesmo.
O mesmo sentimento que habita em mim.
Só assim você entenderia os meus desejos.
Desejos tais que não excerço domínio algum,
pois o poder deste domínio,
é só você quem possui.
Salvador, 16 maio de 1996
905
Sidney Frattini
Canto ao Homem do Povo, Drummond
I
(Não) Era preciso que, nem poeta, nem maior, porém um tanto exposto à galhofa, girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver como na poética e essencial atmosfera de sonhos translúcidos.
Era preciso que este pequeno cantor mudo, de ritmos inexistentes, vindo de lugar-nenhum, onde nem nunca se usa gravata, e raro alguém é polido, e a opressão é desestranha, e o heroísmo se banha, também, em ironia, era preciso que atual velho vinte-e-tantos-tombos, preso à tua "gauchice" por filamentos de ternura e vida, viesse ousar falar-te e, fruto imaturo, te visitasse para dizer-te alguns nadas, sobcolor de despoema.
Para dizer-te como os nós te amamos e que nisso, como em nada mais, nossa gente não se parece com qualquer gente do mundo - exclusive os que perderam bondes e esperanças, e voltam pálidos para casa, e cujos corpos transigem na confluência do amor, iludindo a brutalidade e a brutal idade, e que, secretamente, pronunciam tuas palavras de vida e sonho.
Bem sei que o discurso, acalanto freguês, não te esmorece, e esta tua vivência é tua entrevista aos hebdomadários. Não é a saudação dos entusiasmados que te ofereço. Eles existem, mas é a de gente comum em mundo incomum.
Nem faço muita questão da anti-matéria de meu canto, tão abaixo de ti, como uma letra mal sucedida, mandada por vida real ao escritor de todas as cartilhas.
Falam por mim sei quantos, sujos de inexpressåo e gente, levados a refletir, ainda que microssegundo, que te percorreram papel adentro e, em meio ao Palácio das Jóias, descobriram anéis que lhes serviam e se sentiram imensamente ricos.
Falam por mim os que simplesmente simples de coração nunca ouviram falar de ti, ou si, a não ser por adjetivos e nunca por eles mesmos, líricos ou cismarentos, irresponsáveis ou patéticos, cariciosos ou loucos, e os que não chegam a ser nada disso.
II
A noite dissolve os homens, e não te apaga, não, a visão.
A noite é mortal, mas já não o és, mesmo despido de fardões que não te caem bem, deselegante predestinado, condenado à Eternidade, independente de certidões.
Assim, perdida a sábia infância, acumulas a noite na calvície plena e adquires a dimensão do grande e o pedaço vital da trajetória.
E te fazes em frases.
E então sentimos a noite.
Não como trevas, mas como fonte natural de nostalgia e brisa, como se ao contato da tua mensagem voltássemos ao país secreto onde dormem meninos ambiciosos de soltar coisas ocultas no peito.
III
Vazio de sugestões alimentícias, matas a fome dos que foram (ou não) chamados à ceia celeste ou industrial. E notas na toalha da mesa, em plena janta, impurezas no branco - lição de coisas que a vida te ensinou.
IV
E agora, Carlos? Não sossegues.
Teus ombros suportam o mundo, embora tenhas apenas duas mãos e a poesia seja, definitivamente, incomunicável, teu verso é nossa consolação e cachaça.
Oitenta por cento de ferro nas almas e brejo e vontade de amar doem, e o tempo é matéria, definitivamente.
V
Fazendeiro aéreo, habilitado para a noite, carregas no bolso viola eternamente encordoada. És apenas um homem e teu presente inunda nossa vida inteira.
VI
No meio do caminho tinha uma retina que enxergava a pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento.
A pedra que ontem não vi hoje seria avalanche.
Ela repousa na vida, sem esconderijo, enxergada.
No meio do caminho tinha uma retina.
VII
E, ao contrário do que dizes, todos os meninos saltam de tua vida, a restaurar as suas.
Suspeitaste o velho em ti? Sabe o sábio que és, com tuas rugas e tua calva.
Foi bom que te expusésses: meditavas e meditávamos.
E tudo dizias... (ó palavras gastas, entretanto salvas, ditas de novo).
Poder de mais-que-humana voz, inventando novos caminhos, dando sopro aos exaustos; dignidade digna, amor profundo, crispação de ser humano, árvore firme ante desastres ecológicos, ó Carlos, meu e nosso amigo, tua vida e poesia FABRICAM a estrada de pó e esperança.
(Não) Era preciso que, nem poeta, nem maior, porém um tanto exposto à galhofa, girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver como na poética e essencial atmosfera de sonhos translúcidos.
Era preciso que este pequeno cantor mudo, de ritmos inexistentes, vindo de lugar-nenhum, onde nem nunca se usa gravata, e raro alguém é polido, e a opressão é desestranha, e o heroísmo se banha, também, em ironia, era preciso que atual velho vinte-e-tantos-tombos, preso à tua "gauchice" por filamentos de ternura e vida, viesse ousar falar-te e, fruto imaturo, te visitasse para dizer-te alguns nadas, sobcolor de despoema.
Para dizer-te como os nós te amamos e que nisso, como em nada mais, nossa gente não se parece com qualquer gente do mundo - exclusive os que perderam bondes e esperanças, e voltam pálidos para casa, e cujos corpos transigem na confluência do amor, iludindo a brutalidade e a brutal idade, e que, secretamente, pronunciam tuas palavras de vida e sonho.
Bem sei que o discurso, acalanto freguês, não te esmorece, e esta tua vivência é tua entrevista aos hebdomadários. Não é a saudação dos entusiasmados que te ofereço. Eles existem, mas é a de gente comum em mundo incomum.
Nem faço muita questão da anti-matéria de meu canto, tão abaixo de ti, como uma letra mal sucedida, mandada por vida real ao escritor de todas as cartilhas.
Falam por mim sei quantos, sujos de inexpressåo e gente, levados a refletir, ainda que microssegundo, que te percorreram papel adentro e, em meio ao Palácio das Jóias, descobriram anéis que lhes serviam e se sentiram imensamente ricos.
Falam por mim os que simplesmente simples de coração nunca ouviram falar de ti, ou si, a não ser por adjetivos e nunca por eles mesmos, líricos ou cismarentos, irresponsáveis ou patéticos, cariciosos ou loucos, e os que não chegam a ser nada disso.
II
A noite dissolve os homens, e não te apaga, não, a visão.
A noite é mortal, mas já não o és, mesmo despido de fardões que não te caem bem, deselegante predestinado, condenado à Eternidade, independente de certidões.
Assim, perdida a sábia infância, acumulas a noite na calvície plena e adquires a dimensão do grande e o pedaço vital da trajetória.
E te fazes em frases.
E então sentimos a noite.
Não como trevas, mas como fonte natural de nostalgia e brisa, como se ao contato da tua mensagem voltássemos ao país secreto onde dormem meninos ambiciosos de soltar coisas ocultas no peito.
III
Vazio de sugestões alimentícias, matas a fome dos que foram (ou não) chamados à ceia celeste ou industrial. E notas na toalha da mesa, em plena janta, impurezas no branco - lição de coisas que a vida te ensinou.
IV
E agora, Carlos? Não sossegues.
Teus ombros suportam o mundo, embora tenhas apenas duas mãos e a poesia seja, definitivamente, incomunicável, teu verso é nossa consolação e cachaça.
Oitenta por cento de ferro nas almas e brejo e vontade de amar doem, e o tempo é matéria, definitivamente.
V
Fazendeiro aéreo, habilitado para a noite, carregas no bolso viola eternamente encordoada. És apenas um homem e teu presente inunda nossa vida inteira.
VI
No meio do caminho tinha uma retina que enxergava a pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento.
A pedra que ontem não vi hoje seria avalanche.
Ela repousa na vida, sem esconderijo, enxergada.
No meio do caminho tinha uma retina.
VII
E, ao contrário do que dizes, todos os meninos saltam de tua vida, a restaurar as suas.
Suspeitaste o velho em ti? Sabe o sábio que és, com tuas rugas e tua calva.
Foi bom que te expusésses: meditavas e meditávamos.
E tudo dizias... (ó palavras gastas, entretanto salvas, ditas de novo).
Poder de mais-que-humana voz, inventando novos caminhos, dando sopro aos exaustos; dignidade digna, amor profundo, crispação de ser humano, árvore firme ante desastres ecológicos, ó Carlos, meu e nosso amigo, tua vida e poesia FABRICAM a estrada de pó e esperança.
1 397
Sidney Frattini
Canto ao Homem do Povo, Drummond
I
(Não) Era preciso que, nem poeta, nem maior, porém um tanto exposto à galhofa, girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver como na poética e essencial atmosfera de sonhos translúcidos.
Era preciso que este pequeno cantor mudo, de ritmos inexistentes, vindo de lugar-nenhum, onde nem nunca se usa gravata, e raro alguém é polido, e a opressão é desestranha, e o heroísmo se banha, também, em ironia, era preciso que atual velho vinte-e-tantos-tombos, preso à tua "gauchice" por filamentos de ternura e vida, viesse ousar falar-te e, fruto imaturo, te visitasse para dizer-te alguns nadas, sobcolor de despoema.
Para dizer-te como os nós te amamos e que nisso, como em nada mais, nossa gente não se parece com qualquer gente do mundo - exclusive os que perderam bondes e esperanças, e voltam pálidos para casa, e cujos corpos transigem na confluência do amor, iludindo a brutalidade e a brutal idade, e que, secretamente, pronunciam tuas palavras de vida e sonho.
Bem sei que o discurso, acalanto freguês, não te esmorece, e esta tua vivência é tua entrevista aos hebdomadários. Não é a saudação dos entusiasmados que te ofereço. Eles existem, mas é a de gente comum em mundo incomum.
Nem faço muita questão da anti-matéria de meu canto, tão abaixo de ti, como uma letra mal sucedida, mandada por vida real ao escritor de todas as cartilhas.
Falam por mim sei quantos, sujos de inexpressåo e gente, levados a refletir, ainda que microssegundo, que te percorreram papel adentro e, em meio ao Palácio das Jóias, descobriram anéis que lhes serviam e se sentiram imensamente ricos.
Falam por mim os que simplesmente simples de coração nunca ouviram falar de ti, ou si, a não ser por adjetivos e nunca por eles mesmos, líricos ou cismarentos, irresponsáveis ou patéticos, cariciosos ou loucos, e os que não chegam a ser nada disso.
II
A noite dissolve os homens, e não te apaga, não, a visão.
A noite é mortal, mas já não o és, mesmo despido de fardões que não te caem bem, deselegante predestinado, condenado à Eternidade, independente de certidões.
Assim, perdida a sábia infância, acumulas a noite na calvície plena e adquires a dimensão do grande e o pedaço vital da trajetória.
E te fazes em frases.
E então sentimos a noite.
Não como trevas, mas como fonte natural de nostalgia e brisa, como se ao contato da tua mensagem voltássemos ao país secreto onde dormem meninos ambiciosos de soltar coisas ocultas no peito.
III
Vazio de sugestões alimentícias, matas a fome dos que foram (ou não) chamados à ceia celeste ou industrial. E notas na toalha da mesa, em plena janta, impurezas no branco - lição de coisas que a vida te ensinou.
IV
E agora, Carlos? Não sossegues.
Teus ombros suportam o mundo, embora tenhas apenas duas mãos e a poesia seja, definitivamente, incomunicável, teu verso é nossa consolação e cachaça.
Oitenta por cento de ferro nas almas e brejo e vontade de amar doem, e o tempo é matéria, definitivamente.
V
Fazendeiro aéreo, habilitado para a noite, carregas no bolso viola eternamente encordoada. És apenas um homem e teu presente inunda nossa vida inteira.
VI
No meio do caminho tinha uma retina que enxergava a pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento.
A pedra que ontem não vi hoje seria avalanche.
Ela repousa na vida, sem esconderijo, enxergada.
No meio do caminho tinha uma retina.
VII
E, ao contrário do que dizes, todos os meninos saltam de tua vida, a restaurar as suas.
Suspeitaste o velho em ti? Sabe o sábio que és, com tuas rugas e tua calva.
Foi bom que te expusésses: meditavas e meditávamos.
E tudo dizias... (ó palavras gastas, entretanto salvas, ditas de novo).
Poder de mais-que-humana voz, inventando novos caminhos, dando sopro aos exaustos; dignidade digna, amor profundo, crispação de ser humano, árvore firme ante desastres ecológicos, ó Carlos, meu e nosso amigo, tua vida e poesia FABRICAM a estrada de pó e esperança.
(Não) Era preciso que, nem poeta, nem maior, porém um tanto exposto à galhofa, girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver como na poética e essencial atmosfera de sonhos translúcidos.
Era preciso que este pequeno cantor mudo, de ritmos inexistentes, vindo de lugar-nenhum, onde nem nunca se usa gravata, e raro alguém é polido, e a opressão é desestranha, e o heroísmo se banha, também, em ironia, era preciso que atual velho vinte-e-tantos-tombos, preso à tua "gauchice" por filamentos de ternura e vida, viesse ousar falar-te e, fruto imaturo, te visitasse para dizer-te alguns nadas, sobcolor de despoema.
Para dizer-te como os nós te amamos e que nisso, como em nada mais, nossa gente não se parece com qualquer gente do mundo - exclusive os que perderam bondes e esperanças, e voltam pálidos para casa, e cujos corpos transigem na confluência do amor, iludindo a brutalidade e a brutal idade, e que, secretamente, pronunciam tuas palavras de vida e sonho.
Bem sei que o discurso, acalanto freguês, não te esmorece, e esta tua vivência é tua entrevista aos hebdomadários. Não é a saudação dos entusiasmados que te ofereço. Eles existem, mas é a de gente comum em mundo incomum.
Nem faço muita questão da anti-matéria de meu canto, tão abaixo de ti, como uma letra mal sucedida, mandada por vida real ao escritor de todas as cartilhas.
Falam por mim sei quantos, sujos de inexpressåo e gente, levados a refletir, ainda que microssegundo, que te percorreram papel adentro e, em meio ao Palácio das Jóias, descobriram anéis que lhes serviam e se sentiram imensamente ricos.
Falam por mim os que simplesmente simples de coração nunca ouviram falar de ti, ou si, a não ser por adjetivos e nunca por eles mesmos, líricos ou cismarentos, irresponsáveis ou patéticos, cariciosos ou loucos, e os que não chegam a ser nada disso.
II
A noite dissolve os homens, e não te apaga, não, a visão.
A noite é mortal, mas já não o és, mesmo despido de fardões que não te caem bem, deselegante predestinado, condenado à Eternidade, independente de certidões.
Assim, perdida a sábia infância, acumulas a noite na calvície plena e adquires a dimensão do grande e o pedaço vital da trajetória.
E te fazes em frases.
E então sentimos a noite.
Não como trevas, mas como fonte natural de nostalgia e brisa, como se ao contato da tua mensagem voltássemos ao país secreto onde dormem meninos ambiciosos de soltar coisas ocultas no peito.
III
Vazio de sugestões alimentícias, matas a fome dos que foram (ou não) chamados à ceia celeste ou industrial. E notas na toalha da mesa, em plena janta, impurezas no branco - lição de coisas que a vida te ensinou.
IV
E agora, Carlos? Não sossegues.
Teus ombros suportam o mundo, embora tenhas apenas duas mãos e a poesia seja, definitivamente, incomunicável, teu verso é nossa consolação e cachaça.
Oitenta por cento de ferro nas almas e brejo e vontade de amar doem, e o tempo é matéria, definitivamente.
V
Fazendeiro aéreo, habilitado para a noite, carregas no bolso viola eternamente encordoada. És apenas um homem e teu presente inunda nossa vida inteira.
VI
No meio do caminho tinha uma retina que enxergava a pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento.
A pedra que ontem não vi hoje seria avalanche.
Ela repousa na vida, sem esconderijo, enxergada.
No meio do caminho tinha uma retina.
VII
E, ao contrário do que dizes, todos os meninos saltam de tua vida, a restaurar as suas.
Suspeitaste o velho em ti? Sabe o sábio que és, com tuas rugas e tua calva.
Foi bom que te expusésses: meditavas e meditávamos.
E tudo dizias... (ó palavras gastas, entretanto salvas, ditas de novo).
Poder de mais-que-humana voz, inventando novos caminhos, dando sopro aos exaustos; dignidade digna, amor profundo, crispação de ser humano, árvore firme ante desastres ecológicos, ó Carlos, meu e nosso amigo, tua vida e poesia FABRICAM a estrada de pó e esperança.
1 397
Rodrigo Carvalho
Ausência II
É o mesmo céu;
longe.
São as mesmas estrelas;
egoístas.
É o mesmo ambiente;
insignificante.
É a mesma saudade. É a mesma dor.
Mas eu não queria essa "mesmice"!
Eu só queria o mesmo carinho,
a mesma boca,
o mesmo corpo,
a mesma alma,
o mesmo Amor.
O mesmo amor que me faz ficar de pé.
Eu só queria dançar.
Queria, com ela, dançar,
numa atmosfera rosada. . .
Salvador, 22 de setembro de 1996
longe.
São as mesmas estrelas;
egoístas.
É o mesmo ambiente;
insignificante.
É a mesma saudade. É a mesma dor.
Mas eu não queria essa "mesmice"!
Eu só queria o mesmo carinho,
a mesma boca,
o mesmo corpo,
a mesma alma,
o mesmo Amor.
O mesmo amor que me faz ficar de pé.
Eu só queria dançar.
Queria, com ela, dançar,
numa atmosfera rosada. . .
Salvador, 22 de setembro de 1996
758
Silva Dutra
Soneto do Mistério Ontológico
Simone, a amada que não sai da mente,
e cuja ausência o próprio amor deplora,
lembra ser o que eu era antigamente
e não o que eu podia ter agora.
Não é mais o problema, em mim tão triste
um mistério de forma disfarçada;
mesmo porque alguma coisa existe,
alguma coisa no lugar do nada.
Qualquer coisa de essência põe Simone
diante de mim, assim como um mistério.
Mas o problema, o que me deixa insone,
é ter que refletir num "eu" tão sério.
Nada há oculto do que me seduz,
que a sombra só existe pela luz.
e cuja ausência o próprio amor deplora,
lembra ser o que eu era antigamente
e não o que eu podia ter agora.
Não é mais o problema, em mim tão triste
um mistério de forma disfarçada;
mesmo porque alguma coisa existe,
alguma coisa no lugar do nada.
Qualquer coisa de essência põe Simone
diante de mim, assim como um mistério.
Mas o problema, o que me deixa insone,
é ter que refletir num "eu" tão sério.
Nada há oculto do que me seduz,
que a sombra só existe pela luz.
930