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Daniela Name
Poeta e fingidor atrás das grades
A balada do cárcere
Bruno Tolentino.
Editora Topbooks
130 páginas • R$ 20
Com quem Bruno Tolentino vai brigar desta vez? Muitos podem estar se fazendo esta pergunta agora, enquanto lêem mais uma reportagem sobre o polêmico autor de "As horas de Katharina".
Faz sentido. Tolentino se especializou em provocar debates inflamados nos jornais. Já discutiu com Caetano Veloso, os irmãos concretistas Haroldo e Augusto de Campos, o ensaísta Antônio Paulo Graça e o poeta Ivan Junqueira. Agora, aproveita o lançamento de um novo livro para desenferrujar a metralhadora giratória.
Sentado à mesa de um restaurante no Centro, Tolentino reza para agradecer o peixe grelhado com batatas antes de começar a falar sobre "A balada do cárcere", livro de poemas que narra a sua experiência numa penitenciária de Londres. O poeta foi preso em 1989, por porte de drogas, passou 22 meses detido e acabou organizando um workshop de criação poética para os outros presos - a maioria semi-analfabeta.
- Foi nessa época que percebi que conseguia escrever sem o auxílio da cocaína - conta Tolentino. - Devo isso à cadeia. Achava que era a droga que me inspirava, porque eu tinha que achar uma explicação para tanta inspiração. Tive um longo envolvimento com o "sublime pó" e ficava espantadíssimo de escrever tão bem, mas depois vi que não era a droga que tornava meus versos magníficos: eles já eram muito bons mesmo.
Poeta diz que será compreendido pela próxima geraçãoNo almoço de duas horas, o auto-elogio aumenta à medida em que o peixe e as batatas vão sumindo do prato. Tolentino não parece se incomodar em ser mais conhecido pelo que fala nos jornais do que pelo que escreve nos livros. Perguntado se sua obra terá fôlego para continuar sendo lida daqui a cem anos, ele disse acreditar que muito antes disso os leitores já terão se rendido ao seu talento:
- Fui bonito, rico, gostoso, inteligente e poliglota, enfim, uma obra-prima - afirma. - A vaidade para mim sempre foi uma coisa natural... Quando descobri que eu também escrevia bem, me pareceu um pouquinho demais, mas era verdade. Mas sempre fui mais orgulhoso do que vaidoso. Sei que vai demorar muito menos que cem anos para eu ser lido e aceito, isso já vai se dar na próxima geração. Vão entender que sou o Fernando Pessoa daqui, que eu trouxe universalidade à nossa poesia.
Tolentino se considera um oásis de talento no deserto da poesia nacional. Acredita que as mulheres de sua geração são muito melhores que os homens, e por isso dedica "A balada do cárcere" a Orides Fontela, Adélia Prado e Neide Archanjo. Ele diz que o título de sua "balada" é um clara citação ao livro homônimo de Oscar Wilde, embora acredite que seus versos são menos pessoais que os do autor inglês.
- Dou voz a um preso, Nick, que matou a mulher. Através dele, falo da cadeia e da experiência com minha própria mulher, de quem tinha me separado um pouco antes. Enquanto escrevia, lembrava da imagem dela, belíssima, me olhando através da janela do trem. Oscar Wilde fala de si mesmo mais diretamente.
Também garante que existem diferenças em relação ao conteúdo homossexual do poema de Wilde. Acusado por Antônio Paulo Graça de ter feito um "opúsculo homossexual", Tolentino conta que ficou isolado na cadeia, por isso não recebeu nenhuma cantada:
- O único contato que tinha com os outros era na hora dos seminários de poesia. Mas lá dá vontade de fazer muita coisa, ainda mais porque minha sentença inicial era de 11 anos. Não sei o que aconteceria se eu ficasse com um daqueles homens na mesma cela. Meu poema tem um mesmo ponto de partida que o de Oscar Wilde: um sujeito que matou a mulher. Mas ele é muito mais pessoal do que eu, embora eu use o poema para refletir sobre a relação com minha mulher.
Elogiado pelo poeta Ferreira Gullar, que assina a quarta capa do livro, "A balada do cárcere" mistura a realidade da cadeia e mitologia grega e recebeu o Prêmio Cruz e Souza de 1995. Meio brincando, meio falando a verdade, Tolentino diz que irá à Academia Brasileira de Letras perguntar se vai receber o Prêmio
Machado de Assis este ano ou no ano que vem. Ele acredita que a crítica literária brasileira vive um de seus piores momentos:
- Não consigo achar nenhum crítico bom - diz ele. - São todos uns canalhas, não destaco ninguém, a não ser para o pelotão de fuzilamento. São todos podres, todos vendidos. Prestam mais atenção em Mano Caê e nos Chicos-chicos no fubá da vida do que nos verdadeiros poetas. Há uma menina que está publicando uma tese feita na Sorbonne sobre a solidão na literatura brasileira vista pela obra de Caetano Veloso. Francamente, um ensaio como esse cabe num bueiro de Liliputh. Mas nossos críticos vão dar atenção, porque não estão interessados em literatura.
O peixe já está no fim, sobram as batatas. Tolentino pede barrigas-de-freira como sobremesa, explicando minuciosamente a um espantado garçom que a culpa da "gravidez das freirinhas" não é dele. Enquanto espera, o poeta mostra que não aposentou o veneno da língua. Diz que soube por outras pessoas que tinha brigado com Ivan Junqueira, mas adorou romper relações com o poeta:
- Ele tinha me chamado para ser jurado de um concurso. Aceitei, mas resolvi sair do júri na última hora, para poder me candidatar ao prêmio. Ele ficou magoado. Tudo bem, isso foi uma bênção. Fiquei livre de uma múmia empolada. O fato de eu escrever muito bem milita contra mim, minha briga com Juju-quequeira vem daí.
Os irmãos Campos são o alvo predileto do poeta, que escreveu o ensaio "Os sapos de ontem" com o único intuito de criticar o concretismo. Para Tolentino, o movimento só pôde existir porque São Paulo é uma terra cheia de pensadores e filósofos - como Sérgio Buarque de Holanda e Sergio Milliet - mas sempre foi pobre de poetas.
- Os paulistas só produziram Vicente de Carvalho e Ribeiro Couto, este um poeta menorzinho - avalia. - Cassiano Ricardo nem comento, porque estamos à mesa. E Mario de Andrade me dá vontade de rir. O concretismo está fazendo 40 anos de farsa.
Haroldo e Augusto ainda não conseguiram ser tão bonitos por dentro quanto são por fora.
Bruno Tolentino.
Editora Topbooks
130 páginas • R$ 20
Com quem Bruno Tolentino vai brigar desta vez? Muitos podem estar se fazendo esta pergunta agora, enquanto lêem mais uma reportagem sobre o polêmico autor de "As horas de Katharina".
Faz sentido. Tolentino se especializou em provocar debates inflamados nos jornais. Já discutiu com Caetano Veloso, os irmãos concretistas Haroldo e Augusto de Campos, o ensaísta Antônio Paulo Graça e o poeta Ivan Junqueira. Agora, aproveita o lançamento de um novo livro para desenferrujar a metralhadora giratória.
Sentado à mesa de um restaurante no Centro, Tolentino reza para agradecer o peixe grelhado com batatas antes de começar a falar sobre "A balada do cárcere", livro de poemas que narra a sua experiência numa penitenciária de Londres. O poeta foi preso em 1989, por porte de drogas, passou 22 meses detido e acabou organizando um workshop de criação poética para os outros presos - a maioria semi-analfabeta.
- Foi nessa época que percebi que conseguia escrever sem o auxílio da cocaína - conta Tolentino. - Devo isso à cadeia. Achava que era a droga que me inspirava, porque eu tinha que achar uma explicação para tanta inspiração. Tive um longo envolvimento com o "sublime pó" e ficava espantadíssimo de escrever tão bem, mas depois vi que não era a droga que tornava meus versos magníficos: eles já eram muito bons mesmo.
Poeta diz que será compreendido pela próxima geraçãoNo almoço de duas horas, o auto-elogio aumenta à medida em que o peixe e as batatas vão sumindo do prato. Tolentino não parece se incomodar em ser mais conhecido pelo que fala nos jornais do que pelo que escreve nos livros. Perguntado se sua obra terá fôlego para continuar sendo lida daqui a cem anos, ele disse acreditar que muito antes disso os leitores já terão se rendido ao seu talento:
- Fui bonito, rico, gostoso, inteligente e poliglota, enfim, uma obra-prima - afirma. - A vaidade para mim sempre foi uma coisa natural... Quando descobri que eu também escrevia bem, me pareceu um pouquinho demais, mas era verdade. Mas sempre fui mais orgulhoso do que vaidoso. Sei que vai demorar muito menos que cem anos para eu ser lido e aceito, isso já vai se dar na próxima geração. Vão entender que sou o Fernando Pessoa daqui, que eu trouxe universalidade à nossa poesia.
Tolentino se considera um oásis de talento no deserto da poesia nacional. Acredita que as mulheres de sua geração são muito melhores que os homens, e por isso dedica "A balada do cárcere" a Orides Fontela, Adélia Prado e Neide Archanjo. Ele diz que o título de sua "balada" é um clara citação ao livro homônimo de Oscar Wilde, embora acredite que seus versos são menos pessoais que os do autor inglês.
- Dou voz a um preso, Nick, que matou a mulher. Através dele, falo da cadeia e da experiência com minha própria mulher, de quem tinha me separado um pouco antes. Enquanto escrevia, lembrava da imagem dela, belíssima, me olhando através da janela do trem. Oscar Wilde fala de si mesmo mais diretamente.
Também garante que existem diferenças em relação ao conteúdo homossexual do poema de Wilde. Acusado por Antônio Paulo Graça de ter feito um "opúsculo homossexual", Tolentino conta que ficou isolado na cadeia, por isso não recebeu nenhuma cantada:
- O único contato que tinha com os outros era na hora dos seminários de poesia. Mas lá dá vontade de fazer muita coisa, ainda mais porque minha sentença inicial era de 11 anos. Não sei o que aconteceria se eu ficasse com um daqueles homens na mesma cela. Meu poema tem um mesmo ponto de partida que o de Oscar Wilde: um sujeito que matou a mulher. Mas ele é muito mais pessoal do que eu, embora eu use o poema para refletir sobre a relação com minha mulher.
Elogiado pelo poeta Ferreira Gullar, que assina a quarta capa do livro, "A balada do cárcere" mistura a realidade da cadeia e mitologia grega e recebeu o Prêmio Cruz e Souza de 1995. Meio brincando, meio falando a verdade, Tolentino diz que irá à Academia Brasileira de Letras perguntar se vai receber o Prêmio
Machado de Assis este ano ou no ano que vem. Ele acredita que a crítica literária brasileira vive um de seus piores momentos:
- Não consigo achar nenhum crítico bom - diz ele. - São todos uns canalhas, não destaco ninguém, a não ser para o pelotão de fuzilamento. São todos podres, todos vendidos. Prestam mais atenção em Mano Caê e nos Chicos-chicos no fubá da vida do que nos verdadeiros poetas. Há uma menina que está publicando uma tese feita na Sorbonne sobre a solidão na literatura brasileira vista pela obra de Caetano Veloso. Francamente, um ensaio como esse cabe num bueiro de Liliputh. Mas nossos críticos vão dar atenção, porque não estão interessados em literatura.
O peixe já está no fim, sobram as batatas. Tolentino pede barrigas-de-freira como sobremesa, explicando minuciosamente a um espantado garçom que a culpa da "gravidez das freirinhas" não é dele. Enquanto espera, o poeta mostra que não aposentou o veneno da língua. Diz que soube por outras pessoas que tinha brigado com Ivan Junqueira, mas adorou romper relações com o poeta:
- Ele tinha me chamado para ser jurado de um concurso. Aceitei, mas resolvi sair do júri na última hora, para poder me candidatar ao prêmio. Ele ficou magoado. Tudo bem, isso foi uma bênção. Fiquei livre de uma múmia empolada. O fato de eu escrever muito bem milita contra mim, minha briga com Juju-quequeira vem daí.
Os irmãos Campos são o alvo predileto do poeta, que escreveu o ensaio "Os sapos de ontem" com o único intuito de criticar o concretismo. Para Tolentino, o movimento só pôde existir porque São Paulo é uma terra cheia de pensadores e filósofos - como Sérgio Buarque de Holanda e Sergio Milliet - mas sempre foi pobre de poetas.
- Os paulistas só produziram Vicente de Carvalho e Ribeiro Couto, este um poeta menorzinho - avalia. - Cassiano Ricardo nem comento, porque estamos à mesa. E Mario de Andrade me dá vontade de rir. O concretismo está fazendo 40 anos de farsa.
Haroldo e Augusto ainda não conseguiram ser tão bonitos por dentro quanto são por fora.
1 509
Carolina Vigna Prado
Angústias de uma espera
Deixei o telefone no máximo na esperança de você ligar.
Percorri bares, restaurantes, esquinas, lares.
Te escrevi dezenas de cartas que nunca entreguei.
Arrumei a casa.
Comprei roupa.
Fui aos lugares que você freqüenta.
Tentei largar o cigarro.
Me perfumei.
Me tornei feminina.
Mudei meu horário.
Emagreci.
Amei os teus.
Te liguei, disseram que tinha saído.
Te pedi, você não respondeu.
Fiz planos.
Comprei espartilho, cinta-liga e lingerie.
Te fiz cafuné.
Me fiz disponível.
Consertei a cama.
Comprei lençóis.
Fiz cópia da chave para o caso de você ficar.
Tomo pílulas para o caso de você querer.
Carrego sua foto na minha carteira.
Aprendi a andar no seu bairro.
Chorei por você.
Ri com você.
Ri de você.
Não me importei com seu atraso.
Inventei você ao meu lado.
Te convidei para entrar.
Te convidei para ficar.
Te contei tanto.
Te dei a chave.
Te desejei.
Te atrapalhei.
Te sufoquei.
Te matei.
E você nem percebeu.
Percorri bares, restaurantes, esquinas, lares.
Te escrevi dezenas de cartas que nunca entreguei.
Arrumei a casa.
Comprei roupa.
Fui aos lugares que você freqüenta.
Tentei largar o cigarro.
Me perfumei.
Me tornei feminina.
Mudei meu horário.
Emagreci.
Amei os teus.
Te liguei, disseram que tinha saído.
Te pedi, você não respondeu.
Fiz planos.
Comprei espartilho, cinta-liga e lingerie.
Te fiz cafuné.
Me fiz disponível.
Consertei a cama.
Comprei lençóis.
Fiz cópia da chave para o caso de você ficar.
Tomo pílulas para o caso de você querer.
Carrego sua foto na minha carteira.
Aprendi a andar no seu bairro.
Chorei por você.
Ri com você.
Ri de você.
Não me importei com seu atraso.
Inventei você ao meu lado.
Te convidei para entrar.
Te convidei para ficar.
Te contei tanto.
Te dei a chave.
Te desejei.
Te atrapalhei.
Te sufoquei.
Te matei.
E você nem percebeu.
860
António Manuel Couto Viana
António Patrício
Não teve tempo de escrever a poesia
Que poderia começar: Em Macau, um Estio…
Estava aqui havia um dia.
Era-lhe tudo, ainda, uma mancha, um vazio.
Talvez quisesse ver, sentir, mais do que a mancha
(Em seda baça, ténues tons esquivos),
Porém, o coração, em Santa Sancha,
Fechou-lhe, pra Macau, os olhos sensitivos.
Cantor do mar e da morte
Que os seus versos souberam envolver, respirar,
Teve a suprema sorte
De achar a morte frente ao mar.
Que poderia começar: Em Macau, um Estio…
Estava aqui havia um dia.
Era-lhe tudo, ainda, uma mancha, um vazio.
Talvez quisesse ver, sentir, mais do que a mancha
(Em seda baça, ténues tons esquivos),
Porém, o coração, em Santa Sancha,
Fechou-lhe, pra Macau, os olhos sensitivos.
Cantor do mar e da morte
Que os seus versos souberam envolver, respirar,
Teve a suprema sorte
De achar a morte frente ao mar.
1 368
Dante Milano
Canção Bêbeda
Estou bêbedo de tristeza,
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.
Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: "Foi suicídio!"
"É um bêbedo!" outros dirão.
E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.
Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.
Ninguém perdoa o meu sonho,
Riem da minha tristeza,
Bêbedo, bêbedo, bêbedo,
Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,
Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.
E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.
Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: "Foi suicídio!"
"É um bêbedo!" outros dirão.
E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.
Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.
Ninguém perdoa o meu sonho,
Riem da minha tristeza,
Bêbedo, bêbedo, bêbedo,
Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,
Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.
E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.
1 152
Dante Milano
Canção Bêbeda
Estou bêbedo de tristeza,
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.
Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: "Foi suicídio!"
"É um bêbedo!" outros dirão.
E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.
Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.
Ninguém perdoa o meu sonho,
Riem da minha tristeza,
Bêbedo, bêbedo, bêbedo,
Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,
Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.
E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.
Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: "Foi suicídio!"
"É um bêbedo!" outros dirão.
E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.
Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.
Ninguém perdoa o meu sonho,
Riem da minha tristeza,
Bêbedo, bêbedo, bêbedo,
Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,
Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.
E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.
1 152
Dante Milano
Lagryma Negra
Aperte fortemente a penna ingratta
entre os dêdos nervosos e trementes,
e os versos jórram, claros e estridentes,
numa cascata, numa cataracta!
Escrevo, e canto cânticos ardentes,
enquanto dos meus olhos se desata
uma fiada de lagrymas de prata
como um collar de pérolas pendentes...
Eu canto o soffrimento, a ancia incontida
de amor, que é a maior ancia desta vida,
- vida a que a Humanidade se condemna!
E todo o meu sofrer, todo, se pinta
neste pingo de dor -- pingo de tinta,
lagryma negra que me cáe da penna.
entre os dêdos nervosos e trementes,
e os versos jórram, claros e estridentes,
numa cascata, numa cataracta!
Escrevo, e canto cânticos ardentes,
enquanto dos meus olhos se desata
uma fiada de lagrymas de prata
como um collar de pérolas pendentes...
Eu canto o soffrimento, a ancia incontida
de amor, que é a maior ancia desta vida,
- vida a que a Humanidade se condemna!
E todo o meu sofrer, todo, se pinta
neste pingo de dor -- pingo de tinta,
lagryma negra que me cáe da penna.
1 385
Dante Milano
Lagryma Negra
Aperte fortemente a penna ingratta
entre os dêdos nervosos e trementes,
e os versos jórram, claros e estridentes,
numa cascata, numa cataracta!
Escrevo, e canto cânticos ardentes,
enquanto dos meus olhos se desata
uma fiada de lagrymas de prata
como um collar de pérolas pendentes...
Eu canto o soffrimento, a ancia incontida
de amor, que é a maior ancia desta vida,
- vida a que a Humanidade se condemna!
E todo o meu sofrer, todo, se pinta
neste pingo de dor -- pingo de tinta,
lagryma negra que me cáe da penna.
entre os dêdos nervosos e trementes,
e os versos jórram, claros e estridentes,
numa cascata, numa cataracta!
Escrevo, e canto cânticos ardentes,
enquanto dos meus olhos se desata
uma fiada de lagrymas de prata
como um collar de pérolas pendentes...
Eu canto o soffrimento, a ancia incontida
de amor, que é a maior ancia desta vida,
- vida a que a Humanidade se condemna!
E todo o meu sofrer, todo, se pinta
neste pingo de dor -- pingo de tinta,
lagryma negra que me cáe da penna.
1 385
Dante Milano
O Amor de Agora é o Mesmo Amor de Outrora
O Amor de Agora é o Mesmo Amor de Outrora
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
1 309
Daniel Loureiro
Oscilações na Linha Tênue da Loucura
O impulso
fazia de mim
avulso.
Depois cedi
ao pulso e ele
me mantinha
aqui assim.
O discurso
que me possui
agora é outro;
é o torto
de volta à superfície.
fazia de mim
avulso.
Depois cedi
ao pulso e ele
me mantinha
aqui assim.
O discurso
que me possui
agora é outro;
é o torto
de volta à superfície.
921
Clinio Jorge de Souza
Haicai
Seca... urubus
na vida vazia o vento
assobia blues
Cigarra vadia:
vida-melodia escorrida
da casca vazia
na vida vazia o vento
assobia blues
Cigarra vadia:
vida-melodia escorrida
da casca vazia
1 174
Carlos Nejar
Abandonei-me ao Vento
Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe
quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.
E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.
Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe
quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.
E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.
Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.
1 552
Chico Noronha
Jacumã
antes que o orvalho lave teu rosto
colherei
flores do campo
e com elas prenderei
a rebeldia
de teus cabelos
colherei
flores do campo
e com elas prenderei
a rebeldia
de teus cabelos
936
Camilo Mota
Alice
As palavras fundiram-se à montanha
sem nada dizerem
...
tempo consumido memória
...
grita o coração: te amo,
incógnita mulher!
metamorfose de cidade
e nuvem,
istmo do beijo anônimo
inaugurando rugas
Na tarde dourada e rósea
vovó virou neblina
sem nada dizerem
...
tempo consumido memória
...
grita o coração: te amo,
incógnita mulher!
metamorfose de cidade
e nuvem,
istmo do beijo anônimo
inaugurando rugas
Na tarde dourada e rósea
vovó virou neblina
885
Cleonice Rainho
Astronauta
Entrar num satélite,
mergulhar no horizonte
pela azul distância.
Encontrar as estrelas
na esfera imensa,
dando adeusinho
aos corpos celestes.
Com a velocidade da luz,
tomar o rumo de Saturno
e ficar na órbita
do planeta fascinante:
as palmas bailando,
os anéis luminosos
nos dedos de minhas mãos.
mergulhar no horizonte
pela azul distância.
Encontrar as estrelas
na esfera imensa,
dando adeusinho
aos corpos celestes.
Com a velocidade da luz,
tomar o rumo de Saturno
e ficar na órbita
do planeta fascinante:
as palmas bailando,
os anéis luminosos
nos dedos de minhas mãos.
1 298
Carlos Magalhães de Azeredo
Despedida
Não me coroes, Alma querida, de rosas: o encanto
Da juventude é efêmero; e a minha é quase extinta.
Também não me coroes de louros: a Glória não fala
Ao coração, nem o ouve; passa, longínqua e fria.
Coroa-me des heras, que abraçam as graves ruínas:
São da humildade símbolo e da tristeza eterna ...
Da juventude é efêmero; e a minha é quase extinta.
Também não me coroes de louros: a Glória não fala
Ao coração, nem o ouve; passa, longínqua e fria.
Coroa-me des heras, que abraçam as graves ruínas:
São da humildade símbolo e da tristeza eterna ...
914
Cludia Nobre de Oliveira
Meu Trabalho, Meu Viver
Meu instrumento é o violino, a flauta, é a lira
é o dó , o ré é a musica...
Meu instrumento é a enxada, é a colheita é a chuva
é o alimento...
Meu instrumento é a massa, é a areia é a água..
é a casa levantada...
Meu instrumento é o barulho, a correria,
é o trânsito, o volante, o leva e trás...
Meu instrumento é o remédio, é a receita
é o estudo é a cura....
Seja qual for seu instrumento de trabalho, e´ com certeza o
seu meio de crescer de evoluir para ser instrumento de luz
da laboriosa natureza......
mas sede, sede de vida.
é o dó , o ré é a musica...
Meu instrumento é a enxada, é a colheita é a chuva
é o alimento...
Meu instrumento é a massa, é a areia é a água..
é a casa levantada...
Meu instrumento é o barulho, a correria,
é o trânsito, o volante, o leva e trás...
Meu instrumento é o remédio, é a receita
é o estudo é a cura....
Seja qual for seu instrumento de trabalho, e´ com certeza o
seu meio de crescer de evoluir para ser instrumento de luz
da laboriosa natureza......
mas sede, sede de vida.
907
Cleonice Rainho
O Vento
Eu gosto do vento
e neste momento
vejo-o passar.
Ele faz coisas boas
que fazem pensar.
Da minha janela
fico horas
ouvindo-o falar.
Histórias bonitas,
de terras distantes,
ele sabe contar.
E palavras e idéias
colhe no mundo
para ensinar.
E canções e cantos
o vento traz tantos!
Trá-lá-li... Trá-lá-lá...
Traz o ar da montanha,
os marulhos do mar
e perfumes tão puros
que o mando parar:
Ô vento, volta, volta,
vem cá!
e neste momento
vejo-o passar.
Ele faz coisas boas
que fazem pensar.
Da minha janela
fico horas
ouvindo-o falar.
Histórias bonitas,
de terras distantes,
ele sabe contar.
E palavras e idéias
colhe no mundo
para ensinar.
E canções e cantos
o vento traz tantos!
Trá-lá-li... Trá-lá-lá...
Traz o ar da montanha,
os marulhos do mar
e perfumes tão puros
que o mando parar:
Ô vento, volta, volta,
vem cá!
1 041
Cleonice Rainho
Da Janela
O mar
de repente
mudou de cor.
Rolam as águas
às rajadas de vento,
altas e bravas as ondas
se rebentam e
sobem, explodem
montes de espuma.
Rugindo, raivoso,
varre o mar
barcos e homens
e peixes — até baleias!
Turbulento e feio,
o mar tormentoso
é um monstro dágua
que transtorna a paisagem
e escurece meus olhos.
Não faz mal, da janela
espero as nuvens azuis.
de repente
mudou de cor.
Rolam as águas
às rajadas de vento,
altas e bravas as ondas
se rebentam e
sobem, explodem
montes de espuma.
Rugindo, raivoso,
varre o mar
barcos e homens
e peixes — até baleias!
Turbulento e feio,
o mar tormentoso
é um monstro dágua
que transtorna a paisagem
e escurece meus olhos.
Não faz mal, da janela
espero as nuvens azuis.
898
Camilo Mota
Mantra
torno-me puro
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja
palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor
não se perde nas veias
o sagrado fluído...
em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser
ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã
a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja
palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor
não se perde nas veias
o sagrado fluído...
em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser
ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã
a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser
972
Camilo Mota
Mantra
torno-me puro
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja
palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor
não se perde nas veias
o sagrado fluído...
em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser
ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã
a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja
palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor
não se perde nas veias
o sagrado fluído...
em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser
ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã
a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser
972
Otacílio Colares
Unicamente
Amor, desperta... Há um luar, lá fora,
por tal forma tranqüilo e derramado
que é crime adormecer assim, agora,
podendo estar-se, a dois, inda acordado.
Pensando bem, o sono me apavora
pelo que tem da morte assemelhado.
Vamos fluir da vida a cada hora
— olhar no olhar, silentes, lado a lado.
A lua é irmã, a lua é casta e pura.
Façamos dela a doce confidente
deste amor que é doença e não tem cura.
Quando o sol sobreviver, inconseqüente,
fechemos a janela e a alcova escura
será só de nós dois, unicamente...
por tal forma tranqüilo e derramado
que é crime adormecer assim, agora,
podendo estar-se, a dois, inda acordado.
Pensando bem, o sono me apavora
pelo que tem da morte assemelhado.
Vamos fluir da vida a cada hora
— olhar no olhar, silentes, lado a lado.
A lua é irmã, a lua é casta e pura.
Façamos dela a doce confidente
deste amor que é doença e não tem cura.
Quando o sol sobreviver, inconseqüente,
fechemos a janela e a alcova escura
será só de nós dois, unicamente...
975
José Costa Matos
Louvação a André Breton
(A Mentira das Aparências Sensoriais)
A flor, o mar, o rosto de meu filho,
pão na mesa, o retrato de meu pai,
o circo, a vaca a olhar o pé de milho,
o azul da serra, a névoa que se esvai;
a igreja, o sino, o padre, o mapa, o trilho
sob a pedra que finge, mas não cai;
a pupila estrangeira do andarilho,
a carta sem razão que já não vai;
Judas, a queima, a Festa de Aleluia,
meus banhos de menino, a grota, a cuia,
bênçãos brancas da preta Juliana...
Nada disso, em verdade, eu vi no mundo?
Faltou-me a luz e aquele olhar profundo,
mais forte que a ilusão da raça humana?
A flor, o mar, o rosto de meu filho,
pão na mesa, o retrato de meu pai,
o circo, a vaca a olhar o pé de milho,
o azul da serra, a névoa que se esvai;
a igreja, o sino, o padre, o mapa, o trilho
sob a pedra que finge, mas não cai;
a pupila estrangeira do andarilho,
a carta sem razão que já não vai;
Judas, a queima, a Festa de Aleluia,
meus banhos de menino, a grota, a cuia,
bênçãos brancas da preta Juliana...
Nada disso, em verdade, eu vi no mundo?
Faltou-me a luz e aquele olhar profundo,
mais forte que a ilusão da raça humana?
904
José Costa Matos
Louvação a André Breton
(A Mentira das Aparências Sensoriais)
A flor, o mar, o rosto de meu filho,
pão na mesa, o retrato de meu pai,
o circo, a vaca a olhar o pé de milho,
o azul da serra, a névoa que se esvai;
a igreja, o sino, o padre, o mapa, o trilho
sob a pedra que finge, mas não cai;
a pupila estrangeira do andarilho,
a carta sem razão que já não vai;
Judas, a queima, a Festa de Aleluia,
meus banhos de menino, a grota, a cuia,
bênçãos brancas da preta Juliana...
Nada disso, em verdade, eu vi no mundo?
Faltou-me a luz e aquele olhar profundo,
mais forte que a ilusão da raça humana?
A flor, o mar, o rosto de meu filho,
pão na mesa, o retrato de meu pai,
o circo, a vaca a olhar o pé de milho,
o azul da serra, a névoa que se esvai;
a igreja, o sino, o padre, o mapa, o trilho
sob a pedra que finge, mas não cai;
a pupila estrangeira do andarilho,
a carta sem razão que já não vai;
Judas, a queima, a Festa de Aleluia,
meus banhos de menino, a grota, a cuia,
bênçãos brancas da preta Juliana...
Nada disso, em verdade, eu vi no mundo?
Faltou-me a luz e aquele olhar profundo,
mais forte que a ilusão da raça humana?
904