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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Arte Poética I

Em Lagos em Agosto o sol cai a direito e há sítios onde até o chão é caiado. O sol é pesado e a luz leve. Caminho no passeio rente ao muro mas não caibo na sombra. A sombra é uma fita estreita. Mergulho a mão na sombra como se a mergulhasse na água.

A loja dos barros fica numa pequena rua do outro lado da praça. Fica depois da taberna fresca e da oficina escura do ferreiro.

Entro na loja dos barros. A mulher que os vende é pequena e velha, vestida de preto. Está em frente de mim rodeada de ânforas. À direita e à esquerda o chão e as prateleiras estão cobertos de louças alinhadas, empilhadas e amontoadas: pratos, bilhas, tigelas, ânforas. Há duas espécies de barro: barro cor-de-rosa pálido e barro vermelho-escuro. Barro que desde tempos imemoriais os homens aprenderam a modelar numa medida humana. Formas que através dos séculos vêm de mão em mão. A loja onde estou é como uma loja de Creta. Olho as ânforas de barro pálido poisadas em minha frente no chão. Talvez a arte deste tempo em que vivo me tenha ensinado a olhá-las melhor. Talvez a arte deste tempo tenha sido uma arte de ascese que serviu para limpar o olhar.

A beleza da ânfora de barro pálido é tão evidente, tão certa que não pode ser descrita. Mas eu sei que a palavra beleza não é nada, sei que a beleza não existe em si mas é apenas o rosto, a forma, o sinal de uma verdade da qual ela não pode ser separada. Não falo de uma beleza estética mas sim de uma beleza poética.

Olho para a ânfora: quando a encher de água ela me dará de beber. Mas já agora ela me dá de beber. Paz e alegria, deslumbramento de estar no mundo, religação.

Olho para a ânfora na pequena loja dos barros. Aqui paira uma doce penumbra. Lá fora está o sol. A ânfora estabelece uma aliança entre mim e o sol.

Olho para a ânfora igual a todas as outras ânforas, a ânfora inumeravelmente repetida mas que nenhuma repetição pode aviltar porque nela existe um princípio incorruptível.

Porém, lá fora na rua, sob o peso do mesmo sol, outras coisas me são oferecidas. Coisas diferentes. Não têm nada de comum nem comigo nem com o sol. Vêm de um mundo onde a aliança foi quebrada. Mundo que não está religado nem ao sol nem à lua, nem a Ísis, nem a Deméter, nem aos astros, nem ao eterno. Mundo que pode ser um habitat mas não é um reino.

O reino agora é só aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece.

Este é o reino que buscamos nas praias de mar verde, no azul suspenso da noite, na pureza da cal, na pequena pedra polida, no perfume do orégão. Semelhante ao corpo de Orpheu dilacerado pelas fúrias este reino está dividido. Nós procuramos reuni-lo, procuramos a sua unidade, vamos de coisa em coisa.

É por isso que eu levo a ânfora de barro pálido e ela é para mim preciosa. Ponho-a sobre o muro em frente do mar. Ela é ali a nova imagem da minha aliança com as coisas. Aliança ameaçada. Reino que com paixão encontro, reúno, edifico. Reino vulnerável. Companheiro mortal da eternidade.

Notas: Arte Poética I foi publicado pela primeira vez na revista "Távola Redonda", Dezembro 1962. Seguidamente a Arte Poética I e II foram publicadas com alterações em "Geografia", 1967
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Olavo Bilac

Olavo Bilac

O Carnaval no Olimpo

Resplandece o Olimpo. Júpiter está sentado... no Alto da
Serra, mais fulgurante do que um sol. Mercúrio, Apolo, Marte,
Netuno, Minerva, Plutão, estão sentados mais abaixo, em
atitude respeitosa. Gênios alados correm o cenário,
oferecendo aos deuses copos de caldo de cana e caprade.


Júpiter

Não falta nenhum deus? Estamos todos, não?
Vai começar...

Apolo

...A Inana

Júpiter (severo)

Aquiete-se!... A Sessão!

Como sabeis, aí vem o Carnaval. Vejamos:
Não brincaremos também? Não nos fantasiamos?
Quero, entre os ideais com que me preocupo,
Dar um exemplo ao povo, organizando um grupo.

(...)

Se saíssemos nós sem braços e em salmoura
Para representar o Grupo da Lavoura!
Mas não convém baixar o preço do café...
Tome a palavra alguém! Netuno, por quem é...
Salva esta situação!

Netuno

Lá vou! Estou pensando...
Podíamos sair todos sete... imitando
Uns sete Aquidabãs, como um ar aborrecido
Voltando para o porto... antes de ter saído:
Seria essa a alusão melhor do Carnaval!

Plutão

E o nome do Cordão?

Netuno

Grupo Glória Naval!

(...)

Minerva

Eu já tinha pensado em um grande cordão
Com tudo o que se disse aqui num carroção:
Hidra, Aquidabã, Abel, Lavoura e Notas,
E por cima de tudo um mineiro com botas!
Mas, ó povo! Com essa quebradeira
Por que não pensar em simples zé-pereira,
Com três caixas, um bumbo e o nosso bom humor?

(...)

Coro

Se o Padre Santo soubesse
O gostinho que isto tem,
Vinha de Roma até cá
Tocar zabumba também. (Cai o pano.)


In: BILAC, Olavo. Poesia. Org. Alceu Amoroso Lima. Rio de Janeiro: Agir, 1957. p.33-37. (Nossos clássicos, 2
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Odylo Costa Filho

Odylo Costa Filho

O Oratório de Djanira

(...)

2. OFERTÓRIO

Djanira apresenta seus santos.
Vestidos de ouro e luar sobre o traço aberto da madeira,
o mesmo lenho em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado.
São cinco homens e quatro mulheres, pois
a Mãe de Deus aparece sob duas imagens:
a da Imaculada Conceição, que foi como ela nasceu,
e a de Nossa Senhora do Bom Parto, que zela pelas outras nascenças.
Aqui encontrarás, se tiveres nos olhos o coração,
os caminhos da santidade pelos desertos da solidão.
Bento, que lia, e Pedro, que chorava,
com o galo que cantou três vezes, o sudário que enxugava as lágrimas,
e o bastão que governa a Igreja;
Antônio, que trouxe nos braços o Menino;
Matias, o primeiro a ser escolhido pelo povo de Deus e o primeiro a
[sofrer o martírio,
e São José de Botas — as mesmas botas que calçou quando buscou
[refúgio no deserto e nas árvores do Egito.
Entre as mulheres estão Teresa, que sofreu no amor divino
as angústias e o gozo do amor físico,
Rita, que tem a chave dos impossíveis e se dói dos limites da nossa
[condição,
e Sant'Ana, que sempre ensina no livro à filha predestinada para o
[sopro de Deus e a resignação com as Sete Dores.
Piedoso ou carregado de culpas, ajoelha-te ao lado de Djanira e reza
[com ela,
para que todos os barcos cheguem a bom porto,
as crianças brinquem de roda na noite leve,
as casas descansen tranquilas na paisagem,
mar azul, chão de ervas mui verde, olhos d'água, caminhos no morro,
e todas as almas vejam a nudez de Deus no paraíso,
não o Deus que mede, na luz impalpável, etérea,
sem contorno, sem forma e sem limite,
mas o pobre Deus que acabou de nascer Homem,
deitado nas palhas do velho presepe.


Poema integrante da série Arca da Aliança.

In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971
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Gonçalves de Magalhães

Gonçalves de Magalhães

Ode à Despedida de Mr J B Debret

Pela Pátria, e por mim a voz desprendo
Ao som da lira que a saudade empunha;
Verdade, e gratidão guiam meu canto,
Não sórdida cobiça

Debret, digno Francês, Pintor preclaro,
Caro Amigo; Homem firme, sábio Mestre,
Eu te agradeço os bens, que tu fizeste
A mim, e à Pátria minha.

De um bom filho é dever ao pai ser útil;
Mas de homem o dever é ser a todos:
Assaz útil nos fôste, assaz nos deste
De homem, de amigo provas.

Saudosa a tua Pátria ora te chama,
E para receber-te estende os braços;
Chama-te a Pátria, não hesites, cumpre
Os deveres de filho.

Deixa embora o Brasil, que tanto prezas;
Não mais encares suas belas cenas;
Sei que ele é sedutor, que tem encantos
Que os alvedrios prendem.

Sei quanto no meu peito a Pátria impera,
Que mais o meu amor subir não pode;
Como pois poderei aconselhar-te
Que a tua Pátria deixes?

Ah não! não se dirá, que um Brasileiro
A tanto se atreveu; embora, embora
Não honre o teu pincel a nossa história,
Nem as nossas paisagens.

Tu conheces meu peito, assaz tu sabes
Que honra, e virtude assim n'alma me gritam.
Indócil coração eu não possuo,
Indiferente a tudo.

Morno pesar me enluta, e me profliga
Agora que o Brasil, e a mim tu deixas.
Ah não condenes que entrecorte o canto
Com ais, e com suspiros.

Em nossos corações agradecidos
Tu soubeste, oh Debret, gravar teu nome,
E neles viverás, enquanto as Artes
Amadores tiverem.

(...)

Sim, oh Debret, será teu nome eterno;
E quando outro penhor tu nos não desses,
Um Araújo só bastante fôra
Para honra tua, e nossa.

(...)

Mas outros deixas monumentos vivos;
Existem os Carvalhos, e os Arrudas,
Que a muda Natureza em breves quadros
Mimosos representam.

Oxalá que eu também sem desonrar-te
Que teu discíp'lo fui dizer pudesse;
Mas ao menos direi, sou teu amigo,
E basta-me tal glória.

Se este fraco tributo de amizade
For aos olhos do Mundo apresentado,
Conheça o quanto a gratidão domina
No peito Brasileiro.

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Publicado no livro Poesias (1832).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
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