Poemas neste tema
Casa e Lar
Manuel Bandeira
O Suave Milagre
Quando cheguei, a tua casa sossegada,
Tua casa colonial de telhas côncavas,
Tinha o aspecto infeliz de casa abandonada.
Tinha o ar de sofrer, numa funda saudade,
A dor fina e sem remissão da tua ausência,
Da tua adolescente e clara mocidade.
Não havia uma flor nas roseiras desertas,
E esse riso estival dos púrpuros gerânios
Na treva interior das janelas abertas.
A casa, hoje toda alegria hospitaleira.
Era uma capelinha a que uma mão sacrílega
Houvesse arrebatado a santa padroeira.
Mas a santa voltou na graça do milagre,
E por influição de seu gesto silente
Abriram rosas, e na graça do milagre
O jardim refloriu miraculosamente...
Tua casa colonial de telhas côncavas,
Tinha o aspecto infeliz de casa abandonada.
Tinha o ar de sofrer, numa funda saudade,
A dor fina e sem remissão da tua ausência,
Da tua adolescente e clara mocidade.
Não havia uma flor nas roseiras desertas,
E esse riso estival dos púrpuros gerânios
Na treva interior das janelas abertas.
A casa, hoje toda alegria hospitaleira.
Era uma capelinha a que uma mão sacrílega
Houvesse arrebatado a santa padroeira.
Mas a santa voltou na graça do milagre,
E por influição de seu gesto silente
Abriram rosas, e na graça do milagre
O jardim refloriu miraculosamente...
726
Marina Colasanti
Da Passeggiata Archeologica, em Roma
A casa do meu avô
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.
Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.
A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.
A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.
Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.
A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.
A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
1 009
Marina Colasanti
De volta
As sete da manhã
o trânsito não para
engarrafado,
não se a manhã é sábado
e a via expressa.
Quero um táxi amarelo
eu havia dito saindo do aeroporto
quero um táxi chinês
havia brincado
porque vinha de longe
e a brincadeira
servia-me de arremate da viagem.
Agora no viaduto,
favela dos dois lados
campos de futebol sem bola ou gente
dois cavalos pastando,
o trânsito não anda.
Adiante piscam luzes elevadas. Um desastre
talvez.
Não é desastre
é um corpo estendido no asfalto
rosto em sangue
braços abandonados
e ao lado
já esperando
aquela maca plástica
espécie de bacia
contêiner dos sem vida.
"Bandido não perdoa"
diz o chofer sem virar a cabeça.
Só então percebo
que não foi atropelado
aquele homem
mas atirado ali
como cão morto.
E eu tranco os dentes
e digo sem dizer:
Cheguei em casa!
o trânsito não para
engarrafado,
não se a manhã é sábado
e a via expressa.
Quero um táxi amarelo
eu havia dito saindo do aeroporto
quero um táxi chinês
havia brincado
porque vinha de longe
e a brincadeira
servia-me de arremate da viagem.
Agora no viaduto,
favela dos dois lados
campos de futebol sem bola ou gente
dois cavalos pastando,
o trânsito não anda.
Adiante piscam luzes elevadas. Um desastre
talvez.
Não é desastre
é um corpo estendido no asfalto
rosto em sangue
braços abandonados
e ao lado
já esperando
aquela maca plástica
espécie de bacia
contêiner dos sem vida.
"Bandido não perdoa"
diz o chofer sem virar a cabeça.
Só então percebo
que não foi atropelado
aquele homem
mas atirado ali
como cão morto.
E eu tranco os dentes
e digo sem dizer:
Cheguei em casa!
1 131
Marina Colasanti
Quem saberá?
Aqui
luz de montanha fria como um espelho
e como espelho límpida e
cortante
blocos de luz que varam as
vidraças da casa sem cortinas e
sem panos
arestas claras navalhando sombras.
Há um remador num quarto
inseto de madeira gigantesco
libélula sem asas
pousada
sobre o brilho do chão
rígida água.
Além dos vidros
o vale azul é poço
inalcançável
e o olhar despenca nas escarpas
nuas.
Aqui
onde não sou filha
onde não sou parte
menina de tranças
como tantas meninas de tranças
quem saberá quem sou
se o ônibus
que acabou de levar a minha mãe
não regressar?
luz de montanha fria como um espelho
e como espelho límpida e
cortante
blocos de luz que varam as
vidraças da casa sem cortinas e
sem panos
arestas claras navalhando sombras.
Há um remador num quarto
inseto de madeira gigantesco
libélula sem asas
pousada
sobre o brilho do chão
rígida água.
Além dos vidros
o vale azul é poço
inalcançável
e o olhar despenca nas escarpas
nuas.
Aqui
onde não sou filha
onde não sou parte
menina de tranças
como tantas meninas de tranças
quem saberá quem sou
se o ônibus
que acabou de levar a minha mãe
não regressar?
1 097
Marina Colasanti
O perigo é quando
No ano de mil quinhentos e quarenta e dois
cento e cinquenta licantropos
foram vistos
uivando em alcateia
na escura praça escura de Constantinopla.
O perigo
quando um licantropo sai
em noites de lua cheia
não é seu cheiro entranhado em cada sombra
não é seu andar furtivo junto aos muros
nem sua presença nas ruas
com outros lobos.
O perigo é quando o licantropo
volta para casa.
Que não abra a mulher à primeira batida.
Do alto da janela
o veria junto à porta
hirsuto pelo e dentes
lobo inteiro
pronto a saltar-lhe em cima
e devorá-la.
Que não abra a mulher à segunda batida.
Pelas frinchas veria
que no corpo do homem
ainda pousa
a nefanda cabeça.
À terceira batida
abrir pode a mulher.
Frente à porta
sem lembrar que foi lobo
só seu marido espera
pronto a entrar na sua sua cama
e possuí-la.
Aí
no fero licantropo
que invisível o habita
começa
o perigo.
cento e cinquenta licantropos
foram vistos
uivando em alcateia
na escura praça escura de Constantinopla.
O perigo
quando um licantropo sai
em noites de lua cheia
não é seu cheiro entranhado em cada sombra
não é seu andar furtivo junto aos muros
nem sua presença nas ruas
com outros lobos.
O perigo é quando o licantropo
volta para casa.
Que não abra a mulher à primeira batida.
Do alto da janela
o veria junto à porta
hirsuto pelo e dentes
lobo inteiro
pronto a saltar-lhe em cima
e devorá-la.
Que não abra a mulher à segunda batida.
Pelas frinchas veria
que no corpo do homem
ainda pousa
a nefanda cabeça.
À terceira batida
abrir pode a mulher.
Frente à porta
sem lembrar que foi lobo
só seu marido espera
pronto a entrar na sua sua cama
e possuí-la.
Aí
no fero licantropo
que invisível o habita
começa
o perigo.
1 126
Marina Colasanti
Era um jardim
Macacos se fartam
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
1 072
Marina Colasanti
Cuidando de comida
Na sala de cima
meu marido escreve.
Embaixo
na cozinha
faço tinir as louças.
Ponho-me em seu lugar
ouvindo sem ouvir
este bater de prato
contra prato
acalanto que encobre o ronronar macio
do laptop.
Ponho-me em meu lugar
nesta cozinha
e escorro
e enxugo
e pico sobre a tábua
palavras e verduras
com que depois
à mesa
darei comida
à alma.
meu marido escreve.
Embaixo
na cozinha
faço tinir as louças.
Ponho-me em seu lugar
ouvindo sem ouvir
este bater de prato
contra prato
acalanto que encobre o ronronar macio
do laptop.
Ponho-me em meu lugar
nesta cozinha
e escorro
e enxugo
e pico sobre a tábua
palavras e verduras
com que depois
à mesa
darei comida
à alma.
1 202
Marina Colasanti
Aquele ponto preciso
Na minha sala apascento
um rebanho de cadeiras
mudas ovelhas pacientes
desde sempre tosquiadas
que sobre o piso encerado
seu próprio reflexo pastam.
Com elas faço o que quero
ponho ao redor da mesa
encosto perto da porta
arrasto levanto empurro
sem quebrantar sua obediência
sem que nas quatro patas
-rijas embora
se manifeste impaciência.
Mas como o touro na arena busca
entre areia a querência
assim as minhas cadeiras
marcam de taco a taco
seu ponto de preferência
e nesse lugar se assentam
- se assim se pode dizer -
com muito mais conveniência.
É como se em certos pontos
dessa quietude aparente
as cadeiras escolhessem
aquele ponto preciso
único ponto entre tantos
em que já não são ovelhas
aquele ponto secreto
em que os dentes se arreganham
e se desfraldam as unhas
e os seres mansos se voltam
capazes de fazer frente
ao fero ataque
do lobo.
um rebanho de cadeiras
mudas ovelhas pacientes
desde sempre tosquiadas
que sobre o piso encerado
seu próprio reflexo pastam.
Com elas faço o que quero
ponho ao redor da mesa
encosto perto da porta
arrasto levanto empurro
sem quebrantar sua obediência
sem que nas quatro patas
-rijas embora
se manifeste impaciência.
Mas como o touro na arena busca
entre areia a querência
assim as minhas cadeiras
marcam de taco a taco
seu ponto de preferência
e nesse lugar se assentam
- se assim se pode dizer -
com muito mais conveniência.
É como se em certos pontos
dessa quietude aparente
as cadeiras escolhessem
aquele ponto preciso
único ponto entre tantos
em que já não são ovelhas
aquele ponto secreto
em que os dentes se arreganham
e se desfraldam as unhas
e os seres mansos se voltam
capazes de fazer frente
ao fero ataque
do lobo.
996
Marina Colasanti
E estremecem na aragem
Agora, nos subúrbios,
mais pra lá dos subúrbios,
na terra de ninguém que liga
um nome de cidade a outro
nome de cidade,
as pequenas casas de laje
- nem bem casas mas que
casas são e
são chamadas
porque únicas casas possíveis
para os que nelas moram -
exibem estranha coroa de
antenas coloridas.
São vergalhões que afloram
no cimento para que um dia
talvez
se venda a laje
ou se levante outro andar
quase luxo
para filhos e netos.
Em algum lugar
um animal pasta atado a uma corda
o calor se arrasta entre lama e mato.
Ao alto, garrafas pet invertidas
protegem os sonhos.
mais pra lá dos subúrbios,
na terra de ninguém que liga
um nome de cidade a outro
nome de cidade,
as pequenas casas de laje
- nem bem casas mas que
casas são e
são chamadas
porque únicas casas possíveis
para os que nelas moram -
exibem estranha coroa de
antenas coloridas.
São vergalhões que afloram
no cimento para que um dia
talvez
se venda a laje
ou se levante outro andar
quase luxo
para filhos e netos.
Em algum lugar
um animal pasta atado a uma corda
o calor se arrasta entre lama e mato.
Ao alto, garrafas pet invertidas
protegem os sonhos.
1 060
Marina Colasanti
Respiram à noite
À noite
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 038
Marina Colasanti
RÉDEAS NAS MÃOS
Nos corredores da minha infância
mulheres esticam lençóis.
Brancas mãos recortadas sobre
escuros vestidos
pálidos rostos empoados
de sombras.
Postadas
na nascente e na foz
do negro rio que liga
copa e sala
empunham pelas pontas
branco linho
e puxam e sacodem
num estalar de vela em tempestade.
Como se domam éguas
a poder de pulso
assim domam-se as fibras.
Logo se aquieta o linho
doce o freio na boca
manso o dorso no escuro
e elas deitam um lado sobre o outro
em todo o comprimento.
Só então
duelantes
escolhendo as armas
as duas avançam
com medidos passos
erguem as mãos
e selam
branco a branco
as quatro pontas
Dobrado está o lençol
no seu silêncio.
Que amanhã
sobre a cama
se desdobra.
mulheres esticam lençóis.
Brancas mãos recortadas sobre
escuros vestidos
pálidos rostos empoados
de sombras.
Postadas
na nascente e na foz
do negro rio que liga
copa e sala
empunham pelas pontas
branco linho
e puxam e sacodem
num estalar de vela em tempestade.
Como se domam éguas
a poder de pulso
assim domam-se as fibras.
Logo se aquieta o linho
doce o freio na boca
manso o dorso no escuro
e elas deitam um lado sobre o outro
em todo o comprimento.
Só então
duelantes
escolhendo as armas
as duas avançam
com medidos passos
erguem as mãos
e selam
branco a branco
as quatro pontas
Dobrado está o lençol
no seu silêncio.
Que amanhã
sobre a cama
se desdobra.
1 076
Marina Colasanti
NO APARTAMENTO EM COLÔNIA
Um silêncio alemão
naquela casa
um edredom dobrado sobre a cama
e lá fora o verão.
Havia cisnes no lago que eu não via
uma fêmea no choco
uma mansa alegria
andando em bicicletas.
E na janela em frente
ao sol da tarde
vinha um pássaro negro
bicar negras cerejas
enquanto no tapete serpejavam
longos fios de cabelos japoneses.
Colona 1952
naquela casa
um edredom dobrado sobre a cama
e lá fora o verão.
Havia cisnes no lago que eu não via
uma fêmea no choco
uma mansa alegria
andando em bicicletas.
E na janela em frente
ao sol da tarde
vinha um pássaro negro
bicar negras cerejas
enquanto no tapete serpejavam
longos fios de cabelos japoneses.
Colona 1952
1 049
Marina Colasanti
CASA EM MEIO AO CAMPO
A casa abandonada
foi tomada por vacas.
Nos cômodos vazios
dorsos e chifres
são paisagem castanha
montanhas
que no vão da janela
o olho estranha.
Sobre tacos
uma vaca não pasta
uma vaca se basta
com o verde pasto
que na boca masca
Uma vaca na sala
não é sofá nem mesa
embora as quatro patas.
Não é um móvel
a vaca
que no entanto se move.
Sem ter função precisa
uma vaca na sala
visita sua estranheza.
A vaca no banheiro
não se alarma
de parede a chão
tudo é tão leite
que ela se põe
calma.
Não cabe
uma vaca
no caco
de espelho esquecido
no prego do quarto
no entanto
a prata oxidada reflete
uma curva
e o olho da vaca se abre
no olho de vidro.
Na cozinha
uma vaca
se avizinha
do mistério que o fogão apagado
não delata.
Incauta
não fareja sangue ou faca
não sabe que ali termina
sua carne
que a fome mata.
foi tomada por vacas.
Nos cômodos vazios
dorsos e chifres
são paisagem castanha
montanhas
que no vão da janela
o olho estranha.
Sobre tacos
uma vaca não pasta
uma vaca se basta
com o verde pasto
que na boca masca
Uma vaca na sala
não é sofá nem mesa
embora as quatro patas.
Não é um móvel
a vaca
que no entanto se move.
Sem ter função precisa
uma vaca na sala
visita sua estranheza.
A vaca no banheiro
não se alarma
de parede a chão
tudo é tão leite
que ela se põe
calma.
Não cabe
uma vaca
no caco
de espelho esquecido
no prego do quarto
no entanto
a prata oxidada reflete
uma curva
e o olho da vaca se abre
no olho de vidro.
Na cozinha
uma vaca
se avizinha
do mistério que o fogão apagado
não delata.
Incauta
não fareja sangue ou faca
não sabe que ali termina
sua carne
que a fome mata.
984
Marina Colasanti
TARDE FRIA
Frio
nesta tarde de pinheiros azuis
nesta casa
neste casal à frente desta casa
sentado ele no degrau da entrada
chamando inutilmente o cão.
Frio na grama descorada e alta
nos braços que ela cruza sobre o peito
no pelo do cão tocado por um vento
que não move as cortinas.
Frio na luz
a última do dia e
na atenção do cão voltada para um ponto
um ponto além do quadro
que só Edward Hopper conhece.
nesta tarde de pinheiros azuis
nesta casa
neste casal à frente desta casa
sentado ele no degrau da entrada
chamando inutilmente o cão.
Frio na grama descorada e alta
nos braços que ela cruza sobre o peito
no pelo do cão tocado por um vento
que não move as cortinas.
Frio na luz
a última do dia e
na atenção do cão voltada para um ponto
um ponto além do quadro
que só Edward Hopper conhece.
1 156
Marina Colasanti
ACQUA MARCIA
Em todo lugar sou estrangeira
menos na minha casa.
E mesmo na minha casa
nenhum habitante sabe
que o gosto justo da água
é aquele daquela água
que em minha terra se bebe.
menos na minha casa.
E mesmo na minha casa
nenhum habitante sabe
que o gosto justo da água
é aquele daquela água
que em minha terra se bebe.
1 658
Marina Colasanti
Sistema solar
No prato oval
três peras
e o friso azul
barrado de dourado.
Quietude posta à mesa.
Lá fora a escuridão
feita de chuva.
Aqui três sóis
servidos no jantar
três peras
e o friso azul
barrado de dourado.
Quietude posta à mesa.
Lá fora a escuridão
feita de chuva.
Aqui três sóis
servidos no jantar
1 093
Marina Colasanti
JASMIM E JARRO CHINÊS
Ramos cortados de jasmim
verdes tranças de moça decepadas
e o perfume
o perfume no ar
como se altas acima
estivessem as flores
e não deitadas sobre o chão de pedra.
Ponho os ramos no jarro
de paisagem pintada
estrelas brancas
coroando a montanha
indigo blue.
E acendo a luz.
Cem watts de falso sol
aquecem o perfume.
verdes tranças de moça decepadas
e o perfume
o perfume no ar
como se altas acima
estivessem as flores
e não deitadas sobre o chão de pedra.
Ponho os ramos no jarro
de paisagem pintada
estrelas brancas
coroando a montanha
indigo blue.
E acendo a luz.
Cem watts de falso sol
aquecem o perfume.
1 020
Marina Colasanti
SALEIRO NA SERRA
Aqui, onde são largas
as sombras
e o sol nunca chega à cozinha
a umidade molha o sal
com língua grossa.
Enfia-se no saleiro
lambe grão a grão.
e a baba escorre ao fundo
ardida
poça de mar.
as sombras
e o sol nunca chega à cozinha
a umidade molha o sal
com língua grossa.
Enfia-se no saleiro
lambe grão a grão.
e a baba escorre ao fundo
ardida
poça de mar.
974
Allen Ginsberg
Transcrição de música de órgão
A flor na jarra de manteiga de cacau que estava antes na cozinha, contorcida para chegar até a luz,
a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.
Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.
O quarto fechou-se por cima de mim, esperava a presença do Criador, vi minhas paredes pintadas de cinza e o forro, elas contêm meu quarto, ele me contém
e o céu contém meu jardim,
abro minha porta
O pé da trepadeira subiu pela pilastra do chalé, as folhas da noite lá onde o dia as havia deixado, as cabeças animais das flores lá onde haviam aparecido
para pensar ao sol
Posso trazer as palavras de volta? Pensar na transcrição, isso embaçará meu olho mental aberto?
A suave busca do crescimento, o gracioso desejo de existir das flores, meu quase êxtase de existir no meio delas.
O privilégio de testemunhar minha própria existência – você também deve procurar o sol...
Meus livros empilhados à minha frente para meu uso
aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o
tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse – minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.
Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.
Vi as flores vermelhas na luz da noite, o sol que se foi, todas elas cresceram em um momento e estavam aguardando paradas no tempo para que o sol do dia viesse e lhes desse...
Flores que num sonho ao anoitecer eu reguei fielmente sem perceber o quanto as amava.
Estou tão só em minha glória – exceto por elas também lá fora – olhei para cima – essas inflorescências dos arbustos vermelhos acenando e despontando na janela à espera em cego amor, suas folhas também sentem esperança e estão com sua parte de cima virada para o céu para receber –
toda a criação aberta para receber – até a terra achatada.
A música desce, assim como desce o pesado ramo cheio de flores, pois assim tem que ser, para continuar vivendo, para continuar até a última gota de alegria.
O mundo conhece o amor no seu seio assim como na flor, o solitário mundo sofredor.
O Pai é piedoso.
O soquete da lâmpada está cruelmente atarrachado ao forro, desde quando a casa foi construída, para receber um conector bem ligado nela e que agora está ligado também à minha vitrola...
A porta do armário está aberta para mim, lá onde a deixei, e já que a deixei aberta, continuou graciosamente aberta.
A cozinha não tem porta, o buraco que está lá me aceitará se eu quiser entrar na cozinha.
Lembro-me da primeira vez que fui fodido, HP graciosamente me desvirginou, eu estava no cais de Provincetown, 23 anos, alegre, exaltado com a esperança do Pai, a porta do ventre estava aberta para aceitar-me se eu quisesse entrar.
Há tomadas de eletricidade ainda não usadas por toda a casa, se eu precisar delas.
A porta da cozinha está aberta para deixar o ar entrar...
O telefone – é triste contar – largado no chão – não tenho dinheiro para ligá-lo –
Quero que as pessoas se inclinem ao ver-me e digam que ele recebeu o dom da poesia, ele viu a presença do Criador.
E o Criador me deu um instante da sua presença para satisfazer meu desejo, para que eu não me desiluda no meu anseio de conhecê-lo.
a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.
Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.
O quarto fechou-se por cima de mim, esperava a presença do Criador, vi minhas paredes pintadas de cinza e o forro, elas contêm meu quarto, ele me contém
e o céu contém meu jardim,
abro minha porta
O pé da trepadeira subiu pela pilastra do chalé, as folhas da noite lá onde o dia as havia deixado, as cabeças animais das flores lá onde haviam aparecido
para pensar ao sol
Posso trazer as palavras de volta? Pensar na transcrição, isso embaçará meu olho mental aberto?
A suave busca do crescimento, o gracioso desejo de existir das flores, meu quase êxtase de existir no meio delas.
O privilégio de testemunhar minha própria existência – você também deve procurar o sol...
Meus livros empilhados à minha frente para meu uso
aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o
tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse – minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.
Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.
Vi as flores vermelhas na luz da noite, o sol que se foi, todas elas cresceram em um momento e estavam aguardando paradas no tempo para que o sol do dia viesse e lhes desse...
Flores que num sonho ao anoitecer eu reguei fielmente sem perceber o quanto as amava.
Estou tão só em minha glória – exceto por elas também lá fora – olhei para cima – essas inflorescências dos arbustos vermelhos acenando e despontando na janela à espera em cego amor, suas folhas também sentem esperança e estão com sua parte de cima virada para o céu para receber –
toda a criação aberta para receber – até a terra achatada.
A música desce, assim como desce o pesado ramo cheio de flores, pois assim tem que ser, para continuar vivendo, para continuar até a última gota de alegria.
O mundo conhece o amor no seu seio assim como na flor, o solitário mundo sofredor.
O Pai é piedoso.
O soquete da lâmpada está cruelmente atarrachado ao forro, desde quando a casa foi construída, para receber um conector bem ligado nela e que agora está ligado também à minha vitrola...
A porta do armário está aberta para mim, lá onde a deixei, e já que a deixei aberta, continuou graciosamente aberta.
A cozinha não tem porta, o buraco que está lá me aceitará se eu quiser entrar na cozinha.
Lembro-me da primeira vez que fui fodido, HP graciosamente me desvirginou, eu estava no cais de Provincetown, 23 anos, alegre, exaltado com a esperança do Pai, a porta do ventre estava aberta para aceitar-me se eu quisesse entrar.
Há tomadas de eletricidade ainda não usadas por toda a casa, se eu precisar delas.
A porta da cozinha está aberta para deixar o ar entrar...
O telefone – é triste contar – largado no chão – não tenho dinheiro para ligá-lo –
Quero que as pessoas se inclinem ao ver-me e digam que ele recebeu o dom da poesia, ele viu a presença do Criador.
E o Criador me deu um instante da sua presença para satisfazer meu desejo, para que eu não me desiluda no meu anseio de conhecê-lo.
1 294
Affonso Romano de Sant'Anna
Construção, 1967
1.500 telhas, 5 portas, sendo 1 de entrada 2 laterais 1 de fundo 7 internas 8 janelas, sendo 3 laterais 3 frontais 2 de fundo 30.000 tijolos, mais
reboco, vidraças, fios, lâmpadas, canos,
fechaduras, maçanetas, trincos, esquadrias
fios, tacos, privadas, banheiros e pias,
azulejos e lambris vermelhos
– tudo isto amontoado
não é uma casa
como um dicionário
não é ainda um poema.
reboco, vidraças, fios, lâmpadas, canos,
fechaduras, maçanetas, trincos, esquadrias
fios, tacos, privadas, banheiros e pias,
azulejos e lambris vermelhos
– tudo isto amontoado
não é uma casa
como um dicionário
não é ainda um poema.
978
Pablo Neruda
Meio-Dia - XXXVIII
Tua casa ressoa como um trem ao meio-dia,
zumbem as vespas, cantam as caçarolas,
a cascata enumera os feitos do orvalho
teu riso desenvolve seu trinar de palmeira.
A luz azul do muro conversa com a pedra,
chega como um pastor silvando um telegrama
e, entre as duas figueiras de voz verde,
Homero sobe com sapatos sigilosos.
Somente aqui a cidade não tem voz nem pranto,
nem sem-fim, nem sonatas, nem lábios, nem buzina
mas um discurso de cascata e de leões,
e tu que sobes, cantas, corres, caminhas, desces,
plantas, coses, cozinhas, pregas, escreves, voltas
ou te foste e se sabe que começou o inverno.
zumbem as vespas, cantam as caçarolas,
a cascata enumera os feitos do orvalho
teu riso desenvolve seu trinar de palmeira.
A luz azul do muro conversa com a pedra,
chega como um pastor silvando um telegrama
e, entre as duas figueiras de voz verde,
Homero sobe com sapatos sigilosos.
Somente aqui a cidade não tem voz nem pranto,
nem sem-fim, nem sonatas, nem lábios, nem buzina
mas um discurso de cascata e de leões,
e tu que sobes, cantas, corres, caminhas, desces,
plantas, coses, cozinhas, pregas, escreves, voltas
ou te foste e se sabe que começou o inverno.
1 059
Pablo Neruda
Meio-Dia - XXXIII
Amor, agora nos vamos à casa
onde a trepadeira sobe pelas escadas:
antes que chegues, alcançou teu quarto
o verão nu com pés de madressilva.
Nossos beijos errantes percorreram o mundo:
Armênia, espessa gota de mel desenterrada,
Ceilão, pomba verde, e Yang Tsé separando
com antiga paciência os dias das noites.
E agora, bem-amada, pelo mar crepitante
voltamos como duas aves cegas ao muro,
ao ninho da longínqua primavera,
porque o amor não pode voar sem deter-se:
ao muro ou às pedras do mar vão nossas vidas,
a nosso território regressaram os beijos.
onde a trepadeira sobe pelas escadas:
antes que chegues, alcançou teu quarto
o verão nu com pés de madressilva.
Nossos beijos errantes percorreram o mundo:
Armênia, espessa gota de mel desenterrada,
Ceilão, pomba verde, e Yang Tsé separando
com antiga paciência os dias das noites.
E agora, bem-amada, pelo mar crepitante
voltamos como duas aves cegas ao muro,
ao ninho da longínqua primavera,
porque o amor não pode voar sem deter-se:
ao muro ou às pedras do mar vão nossas vidas,
a nosso território regressaram os beijos.
1 046
Pablo Neruda
O Grande Amor
No entanto,
Inglaterra,
há algo de caoba
em tua cintura,
velha madeira usada
pela mão do homem,
banco de igreja, coro
de catedral na névoa.
Algo
a ti nos une,
há algo
contido
detrás de tuas janelas,
um vento brusco, uma ave
de litoral selvagem,
uma melancolia matutina,
algo impossivelmente solitário.
Amei a vida
de teus homens, falsos
conquistadores conquistados,
derramados rumo aos quatro ventos do planeta
para encher teu cofre. No entanto,
se o ouro os moveu com sua onda negra
não só foram isso
mas seres,
tímidos seres em trevas, sós,
enquanto o estandarte com leões
sufocava a luta dos povos.
Pobres meninos ingleses, amos pobres
de um mundo debulhado,
eu sei que entre vós
é natural
o rouxinol terrestre.
Shelley canta na chuva
e decora a chuva
sua citara escarlate.
Nasce em teu litoral o agressivo
punhal de proa rumo a todos os mares,
mas em tua areia o perseguido
encontrou o pão e construiu sua casa.
Lenin sob a névoa
entrando no Museu
em busca de uma linha,
de uma data, de um nome,
enquanto toda a terra
parecia oprimida,
solidão sozinha, etapa impenetrável,
ali, com seus óculos
e seu livro,
Lenin,
mudando em luz a névoa.
E então, isso eras,
Inglaterra,
torre de asilo,
catedral de refúgio,
e os que agora
fecham com a polícia
as linhas, as palavras,
o tesouro
das sabedorias que resguardas,
os que recusam tua areia
ao peregrino da luz errante,
não são dignos
de tua antiga verdade, de tua madeira,
mas te esfaqueiam,
matam em ti o que te resguardava,
não coração, mas o decoro.
Pátria de aves marinhas,
me ensinaste
quanto sei dos pássaros.
Mostraste-me a escama
polida dos peixes,
o tesouro plenário
da natureza,
foste catalogando rios, flores,
moluscos e vulcões.
Nas encarniçadas
regiões de minha pátria
chegou Darwin o jovem,
com sua lâmpada
e sua luz alumiou sob a terra
e sob o mar profundo
tudo o que temos:
plantas, metais, vidas
que tecem a estrutura
de nossa obscura estrela.
Mais tarde Hudson
nas campinas
se ocupou dos pássaros que haviam
sido esquecidos pelos livros
e com eles
encheu a geografia
que nos está parindo pouco a pouco.
Inglaterra,
és doce
descobridora
de plumas e raízes,
pudeste
ser o conhecimento enamorado,
e agora
por que permites
que em tua beira
vivam os destruidores de aves,
os rapaces, os enterradores?
Foste
penetradora
do mais secreto
labirinto
da vida e as vidas,
e agora,
quando escutamos
tua voz
ouvimos a cinza,
a destruição do pó, a agonia.
Eu sei que cantas
e és
singela como tua perdida gente
de subúrbios e minas,
grave e crepitante
como o carvão que escavas.
Peço-te,
Inglaterra,
que voltes
a ser
inglesa,
me ouves?
Sim, que sejas
inglesa,
que não te macaquizem,
que não te policiem, que respires,
que sejas e que sejas
o que tens sido
em teu campo e teus povoados,
horto frutal de pássaros e gentes,
humanidade simples,
refugio dos homens perseguidos,
descobridora de aves.
Inglaterra,
peço-te
que sejas uma rainha das ilhas,
não uma vassala insular,
que obedeças
a teu coro de pássaros marinhos,
a tua simples estirpe
mineira e marinheira.
Eu vou dizer-te em segredo
que desejamos amar-te.
E difícil,
tu sabes
quantas coisas ocorreram
nos distantes territórios,
sangue, explorados,
etcetera e etcetera.
E então, agora,
na hora do amor
te queremos amar.
Prepara-te como antes
para o amor que volta,
para o amor que sobe
na onda mais alta
do oceano humano.
Prepara-te
na paz,
e então,
volta a ser o que amamos,
homens como nós,
terra como a nossa,
isso é o que desejamos.
Todos
vivemos
na terra
sob os mesmos bosques,
sobre a mesma areia.
Não podemos
contrariar o outono,
ou lutar
contra a primavera,
temos
que viver
sobre as mesmas ondas.
São nossas, dos homens,
dos meninos.
Todas
as ondas,
não têm selo algum,
nem a terra
tem selo,
por isso
homens de tantas raças e regiões
nesta época
da fertilidade, dos destinos
e das invenções,
podemos descobrir
o grande amor
e implantá-lo
sobre os mares e sobre a terra.
Inglaterra,
há algo de caoba
em tua cintura,
velha madeira usada
pela mão do homem,
banco de igreja, coro
de catedral na névoa.
Algo
a ti nos une,
há algo
contido
detrás de tuas janelas,
um vento brusco, uma ave
de litoral selvagem,
uma melancolia matutina,
algo impossivelmente solitário.
Amei a vida
de teus homens, falsos
conquistadores conquistados,
derramados rumo aos quatro ventos do planeta
para encher teu cofre. No entanto,
se o ouro os moveu com sua onda negra
não só foram isso
mas seres,
tímidos seres em trevas, sós,
enquanto o estandarte com leões
sufocava a luta dos povos.
Pobres meninos ingleses, amos pobres
de um mundo debulhado,
eu sei que entre vós
é natural
o rouxinol terrestre.
Shelley canta na chuva
e decora a chuva
sua citara escarlate.
Nasce em teu litoral o agressivo
punhal de proa rumo a todos os mares,
mas em tua areia o perseguido
encontrou o pão e construiu sua casa.
Lenin sob a névoa
entrando no Museu
em busca de uma linha,
de uma data, de um nome,
enquanto toda a terra
parecia oprimida,
solidão sozinha, etapa impenetrável,
ali, com seus óculos
e seu livro,
Lenin,
mudando em luz a névoa.
E então, isso eras,
Inglaterra,
torre de asilo,
catedral de refúgio,
e os que agora
fecham com a polícia
as linhas, as palavras,
o tesouro
das sabedorias que resguardas,
os que recusam tua areia
ao peregrino da luz errante,
não são dignos
de tua antiga verdade, de tua madeira,
mas te esfaqueiam,
matam em ti o que te resguardava,
não coração, mas o decoro.
Pátria de aves marinhas,
me ensinaste
quanto sei dos pássaros.
Mostraste-me a escama
polida dos peixes,
o tesouro plenário
da natureza,
foste catalogando rios, flores,
moluscos e vulcões.
Nas encarniçadas
regiões de minha pátria
chegou Darwin o jovem,
com sua lâmpada
e sua luz alumiou sob a terra
e sob o mar profundo
tudo o que temos:
plantas, metais, vidas
que tecem a estrutura
de nossa obscura estrela.
Mais tarde Hudson
nas campinas
se ocupou dos pássaros que haviam
sido esquecidos pelos livros
e com eles
encheu a geografia
que nos está parindo pouco a pouco.
Inglaterra,
és doce
descobridora
de plumas e raízes,
pudeste
ser o conhecimento enamorado,
e agora
por que permites
que em tua beira
vivam os destruidores de aves,
os rapaces, os enterradores?
Foste
penetradora
do mais secreto
labirinto
da vida e as vidas,
e agora,
quando escutamos
tua voz
ouvimos a cinza,
a destruição do pó, a agonia.
Eu sei que cantas
e és
singela como tua perdida gente
de subúrbios e minas,
grave e crepitante
como o carvão que escavas.
Peço-te,
Inglaterra,
que voltes
a ser
inglesa,
me ouves?
Sim, que sejas
inglesa,
que não te macaquizem,
que não te policiem, que respires,
que sejas e que sejas
o que tens sido
em teu campo e teus povoados,
horto frutal de pássaros e gentes,
humanidade simples,
refugio dos homens perseguidos,
descobridora de aves.
Inglaterra,
peço-te
que sejas uma rainha das ilhas,
não uma vassala insular,
que obedeças
a teu coro de pássaros marinhos,
a tua simples estirpe
mineira e marinheira.
Eu vou dizer-te em segredo
que desejamos amar-te.
E difícil,
tu sabes
quantas coisas ocorreram
nos distantes territórios,
sangue, explorados,
etcetera e etcetera.
E então, agora,
na hora do amor
te queremos amar.
Prepara-te como antes
para o amor que volta,
para o amor que sobe
na onda mais alta
do oceano humano.
Prepara-te
na paz,
e então,
volta a ser o que amamos,
homens como nós,
terra como a nossa,
isso é o que desejamos.
Todos
vivemos
na terra
sob os mesmos bosques,
sobre a mesma areia.
Não podemos
contrariar o outono,
ou lutar
contra a primavera,
temos
que viver
sobre as mesmas ondas.
São nossas, dos homens,
dos meninos.
Todas
as ondas,
não têm selo algum,
nem a terra
tem selo,
por isso
homens de tantas raças e regiões
nesta época
da fertilidade, dos destinos
e das invenções,
podemos descobrir
o grande amor
e implantá-lo
sobre os mares e sobre a terra.
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Pablo Neruda
Manhã - XXXII
A casa na manhã com a verdade revolta
de lençóis e plumas, a origem do dia
sem direção, errante como uma pobre barca,
entre os horizontes da ordem e do sonho.
As coisas querem arrastar vestígios,
aderências sem rumo, heranças frias,
os papéis escondem vogais enrugadas
e na garrafa o vinho quer continuar seu ontem.
Ordenadora, passas vibrando como abelha
tocando as regiões perdidas pela sombra,
conquistando a luz com tua branca energia.
E se constrói então de novo a claridade:
obedecem as coisas ao vento da vida
e a ordem estabelece seu pão e sua pomba.
de lençóis e plumas, a origem do dia
sem direção, errante como uma pobre barca,
entre os horizontes da ordem e do sonho.
As coisas querem arrastar vestígios,
aderências sem rumo, heranças frias,
os papéis escondem vogais enrugadas
e na garrafa o vinho quer continuar seu ontem.
Ordenadora, passas vibrando como abelha
tocando as regiões perdidas pela sombra,
conquistando a luz com tua branca energia.
E se constrói então de novo a claridade:
obedecem as coisas ao vento da vida
e a ordem estabelece seu pão e sua pomba.
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