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Poemas neste tema

Alma

Carlos Frydman

Carlos Frydman

Sintonia

"A certo nível de abstração, a matemática e a poesia
devem se encontrar."
(Albert Einstein)

Equilibrado no universo condescendente,
o desequilíbrio humano sobrevive
em seu próprio ofuscar envenenado.
E, eu tento sintonizar-me no mundo
nestas probabilidades, pouco prováveis,
intuindo como pássaro desnorteado
que conhece, no âmago,
o segredo do equilíbrio
em vôo árduo, nas tempestades.

Nesta relatividade artificializada,
entre o fim tangente
e as metáforas afloradas
tornadas em nada,
tento encontrar-me
no afoito intento
e pousar num recanto sereno.

E, na vez buscada
tantas vezes roubada, fazem-me alçar vôo
como pássaro perseguido.

Os que não se perderam nas correntezas adversas,
vasculham nos cantos sombrios,
onde a vida floresce e semeia segredos segregados, ativos
em razões bem tecidas.
Porque os fugitivos das circunstâncias intrigantes,
libertam-se em suas visões profundas
e guardam sementes das explosões tardias,
em suas mentes e almas imperecíveis.

Nesta contingência enfeitada, nojenta, opaca,
onde a clareza foi obstruída,
temer nova caminhada,
é como fechar a única janela
onde mal se respira.

Nesta jornada milenar de sabedoria desvirtuada,
os pobres homens fecham
um ciclo de riqueza empobrecida.

Uma mesma nuvem densa,
forjada,
inclemente
e abrangente,
de ganância cientificada,
soterra a todos
no estratificado nada.

Existem vidas buscando uma pausa
para restaurar no fôlego que resta
a esperança enjaulada.

Nesta derradeira contingência do salto,
nem todas sementes foram desperdiçadas:
alguém puxará a cortina na manhã seguinte,
se faltarem nossos olhos esmaecidos.

Há uma vigília corajosa e temida,
nesta insônia que nos consola
e a esperança, embora cansada,
terá nova jornada
nos que despertam.

A Vida,
a paisagem,
ressurgirão em sua teimosia.
O pouco do restante,
será fartura,
porque o amor e as mãos são magos,
que refazem magias roubadas.

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In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
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Alcides Villaça

Alcides Villaça

Horizontal

A Margot

I Tua falta é toda
horizontal. Como teus braços
que não cabiam entre estátuas
requisitando espaços
desconhecidos.

Teus amigos nunca marcaram
teu limite ilimitável. Eras de todos
e de ninguém, como também sabias
te ausentar, presente,
e longe, nos saudar.
Não perdestes a mania.

Ficou nuns versos que leste
para mim, sem exclusividade,
a marca de uns lábios eternamente fantasmas
que reclamarão eternamente por vida.
Querias vida, ela te queria,
como irmãos que se entendem.

II Tua falta é toda
horizontal. Teu corpo se ressentia
de ar em pleno campo, e o suprias
no leque dos gestos largos
empinadores de nuvens,
Tudo em volta contaminação.

Gostaste das palavras. Pegaste
em minha mão para a cartilha imensa
de ti mesma, e enfileiraste amigos entre
dedos e anéis mágicos, dentes
dolorosos, marcas.

Prevenias, vingativamente, uma ausência
súbita: vivas pelo tempo que sempre
te faltaria, fosse em ti incontável,
em ti se reduzindo.

III Tua falta é toda
horizontal. Não atinge de vez,
de sempre fantasma que reclama a colheita.
Por isso te censuras, sorrindo,
o que de teu sorriso não frutificou.

Não frutificou o grito agudo de morte.
Não frutificou um abandono a todos os desesperos.
Não frutificou a inocência entre as relatividades.

Teu fruto único é o horizonte, a suavidade
de tua falta, o conforto de tua falta.
Pois já existiu quem faltava
e, sem dor, nos faz companhia.


In: VILLAÇA, Alcides. O tempo e outros remorsos. Pref. Alfredo Bosi. Il. Edgard Rodrigues de Souza. São Paulo: Ática, 1975. Poema integrante da série Os Amigos
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Carlos Frydman

Carlos Frydman

Poema da Prece e do Amor Perdido

Aos adolescentes de Israel, Gaza, Cisjordânia e Soweto,
vítimas da incoerência e do obscurantismo.
"... porque Israel traz na sua carne a marca sagrada
da Aliança".
(ZAHAR III, 72b)
"Se um convertido residir contigo na tua aldeia,
não o maltrates, trata-o como os teus conterrâneos,
ama-o como teu próximo que eu, o Senhor, sou vosso
Deus; e vós foste estrangeiro em terras do Egito".
(Levítico, 19: 26-34)

II

Ninguém é uno.
Nem o homem, nem os povos,
nem os planetas, nem os sistemas:
todos se atraem na busca inevitável de horizontes.
Não há caminhos que não cruzem caminhos.
E não haverá destino
se barrarmos os caminhos dos que buscam.
Jamais uma verdade será eternamente soterrada.
Queiramos, ou não, em nosso judaísmo
habitam todos os povos;
todos estão presentes, indeléveis,
em nossa carne, em nossos atos,
como nas ruínas que escavamos.
Navegam em nossa essência
todas reconditórias vivências trucidadas.
Somam-se a nossa consciência,
todos os anseios impedidos.
Aflora de nosso passado compulsivo
caudais de ódio e vingança,
porque não soubemos estar presentes
com nossas vivências desoladas;
contra desavenças impingidas
e fazer fluir — a História — numa mesma harmonia.

(...)

Aprendemos com o Nazismo
que não se faz uma nação com instintos;
assim como nossa vivência provou,
que não se forja uma nação com submissão.
Os líderes opostos são sabiamente frios
no fogo de suas palavras ensaiadas
— enganam-se contornando labaredas insufladas.
Nossos erros, quando leves, são pesados.
Impedimo-nos em nossos pecados,
e nos condenam à expiação eterna
deste auto-afogamento.
Só afloraremos com todos os náufragos,
estendendo nossas mãos esperadas.
Jamais seremos êxodos
e jamais esmolaremos um canto,
se abrigarmos como filhos, filhos alheios.
Jamais teremos luz, se levantarmos sombras de ódio.

III

Em Israel, amanhecemos temerários e fatigados
porque nossa certeza é fustigada em todas as latitudes.
Assim como nossas mentes cresceram
quando queimaram nossos livros,
também cresce a presença de outros povos humilhados,
dentro de nosso destino.
As dores do mundo têm um mesmo embrião;
os povos devem espicaçá-lo até a morte, antes que nos anule.
O sangue envaído em Israel, Chalita,
Gaza, Cisjordânia ou Soweto,
continuará fluindo em nossa milenar tristeza
e ficará um pranto em todos os olhos semitas.
Deus!
Como sobreviveremos deste dilúvio
engendrado em ódio e sangue,
se a onipresença das armas
fustiga a onipresença dos povos?
Neste crepúsculo com silhuetas de morte,
um adolescente se afirma numa arma;
outro adolescente se incendeia no ódio
— ambos esqueceram a vida que descortinavam.
Uma mãe chora o filho morto,
outra mãe chora a alma do filho vivo e perdido

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In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
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