Poemas neste tema
Alma
Carlos Frydman
Sintonia
"A certo nível de abstração, a matemática e a poesia
devem se encontrar."
(Albert Einstein)
Equilibrado no universo condescendente,
o desequilíbrio humano sobrevive
em seu próprio ofuscar envenenado.
E, eu tento sintonizar-me no mundo
nestas probabilidades, pouco prováveis,
intuindo como pássaro desnorteado
que conhece, no âmago,
o segredo do equilíbrio
em vôo árduo, nas tempestades.
Nesta relatividade artificializada,
entre o fim tangente
e as metáforas afloradas
tornadas em nada,
tento encontrar-me
no afoito intento
e pousar num recanto sereno.
E, na vez buscada
tantas vezes roubada, fazem-me alçar vôo
como pássaro perseguido.
Os que não se perderam nas correntezas adversas,
vasculham nos cantos sombrios,
onde a vida floresce e semeia segredos segregados, ativos
em razões bem tecidas.
Porque os fugitivos das circunstâncias intrigantes,
libertam-se em suas visões profundas
e guardam sementes das explosões tardias,
em suas mentes e almas imperecíveis.
Nesta contingência enfeitada, nojenta, opaca,
onde a clareza foi obstruída,
temer nova caminhada,
é como fechar a única janela
onde mal se respira.
Nesta jornada milenar de sabedoria desvirtuada,
os pobres homens fecham
um ciclo de riqueza empobrecida.
Uma mesma nuvem densa,
forjada,
inclemente
e abrangente,
de ganância cientificada,
soterra a todos
no estratificado nada.
Existem vidas buscando uma pausa
para restaurar no fôlego que resta
a esperança enjaulada.
Nesta derradeira contingência do salto,
nem todas sementes foram desperdiçadas:
alguém puxará a cortina na manhã seguinte,
se faltarem nossos olhos esmaecidos.
Há uma vigília corajosa e temida,
nesta insônia que nos consola
e a esperança, embora cansada,
terá nova jornada
nos que despertam.
A Vida,
a paisagem,
ressurgirão em sua teimosia.
O pouco do restante,
será fartura,
porque o amor e as mãos são magos,
que refazem magias roubadas.
Imagem - 01330001
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
devem se encontrar."
(Albert Einstein)
Equilibrado no universo condescendente,
o desequilíbrio humano sobrevive
em seu próprio ofuscar envenenado.
E, eu tento sintonizar-me no mundo
nestas probabilidades, pouco prováveis,
intuindo como pássaro desnorteado
que conhece, no âmago,
o segredo do equilíbrio
em vôo árduo, nas tempestades.
Nesta relatividade artificializada,
entre o fim tangente
e as metáforas afloradas
tornadas em nada,
tento encontrar-me
no afoito intento
e pousar num recanto sereno.
E, na vez buscada
tantas vezes roubada, fazem-me alçar vôo
como pássaro perseguido.
Os que não se perderam nas correntezas adversas,
vasculham nos cantos sombrios,
onde a vida floresce e semeia segredos segregados, ativos
em razões bem tecidas.
Porque os fugitivos das circunstâncias intrigantes,
libertam-se em suas visões profundas
e guardam sementes das explosões tardias,
em suas mentes e almas imperecíveis.
Nesta contingência enfeitada, nojenta, opaca,
onde a clareza foi obstruída,
temer nova caminhada,
é como fechar a única janela
onde mal se respira.
Nesta jornada milenar de sabedoria desvirtuada,
os pobres homens fecham
um ciclo de riqueza empobrecida.
Uma mesma nuvem densa,
forjada,
inclemente
e abrangente,
de ganância cientificada,
soterra a todos
no estratificado nada.
Existem vidas buscando uma pausa
para restaurar no fôlego que resta
a esperança enjaulada.
Nesta derradeira contingência do salto,
nem todas sementes foram desperdiçadas:
alguém puxará a cortina na manhã seguinte,
se faltarem nossos olhos esmaecidos.
Há uma vigília corajosa e temida,
nesta insônia que nos consola
e a esperança, embora cansada,
terá nova jornada
nos que despertam.
A Vida,
a paisagem,
ressurgirão em sua teimosia.
O pouco do restante,
será fartura,
porque o amor e as mãos são magos,
que refazem magias roubadas.
Imagem - 01330001
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 788
Fernando Paixão
91 [Não se revê a imagem
Não se revê a imagem
do espelho
na mesma lâmina.
Não se vê a mulher
duas vezes
com o mesmo espanto.
Não se vê o outro
em si próprio:
à procura do mesmo.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.60
NOTA: Poema concebido a partir do fragmento 91 do filósofo Heráclito: "Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se
do espelho
na mesma lâmina.
Não se vê a mulher
duas vezes
com o mesmo espanto.
Não se vê o outro
em si próprio:
à procura do mesmo.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.60
NOTA: Poema concebido a partir do fragmento 91 do filósofo Heráclito: "Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se
1 461
Antonio Fernando De Franceschi
Serpente
cauda e dente
inteira
se morde
a serpente
lenta se devora
ao norte
funda se engole
ao sul
e nada sobra
de uma e outra
a que come
e a comida
mais que a mesma
ancestral serpente
e a infinda fome
que a devasta
e nem morta
de si mesma
se sacia
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Silva Rerum
inteira
se morde
a serpente
lenta se devora
ao norte
funda se engole
ao sul
e nada sobra
de uma e outra
a que come
e a comida
mais que a mesma
ancestral serpente
e a infinda fome
que a devasta
e nem morta
de si mesma
se sacia
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Silva Rerum
1 583
Joaquim Cardozo
Autômatos
No barulho das usinas,
Na sombra áspera e pálida que desce dos sheds,
Um dia os homens desapareceram.
No entanto
Braços de ferro gesticulam enérgicos,
Bocas, abertas, de fogo vociferam,
Ouvem-se vozes telegráficas de comando.
Autômatos!
Os homens se encantaram,
Se enlearam, se perderam
Nas formas e movimentos dos grandes maquinismos?
Ou são as almas que trabalham,
Almas forçadas, almas perdidas, almas penadas?
Oh! Com certeza os homens morreram
E às máquinas legaram
O sopro divino.
Publicado no livro Poemas (1947).
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.1
Na sombra áspera e pálida que desce dos sheds,
Um dia os homens desapareceram.
No entanto
Braços de ferro gesticulam enérgicos,
Bocas, abertas, de fogo vociferam,
Ouvem-se vozes telegráficas de comando.
Autômatos!
Os homens se encantaram,
Se enlearam, se perderam
Nas formas e movimentos dos grandes maquinismos?
Ou são as almas que trabalham,
Almas forçadas, almas perdidas, almas penadas?
Oh! Com certeza os homens morreram
E às máquinas legaram
O sopro divino.
Publicado no livro Poemas (1947).
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.1
1 321
Alcides Villaça
Horizontal
A Margot
I Tua falta é toda
horizontal. Como teus braços
que não cabiam entre estátuas
requisitando espaços
desconhecidos.
Teus amigos nunca marcaram
teu limite ilimitável. Eras de todos
e de ninguém, como também sabias
te ausentar, presente,
e longe, nos saudar.
Não perdestes a mania.
Ficou nuns versos que leste
para mim, sem exclusividade,
a marca de uns lábios eternamente fantasmas
que reclamarão eternamente por vida.
Querias vida, ela te queria,
como irmãos que se entendem.
II Tua falta é toda
horizontal. Teu corpo se ressentia
de ar em pleno campo, e o suprias
no leque dos gestos largos
empinadores de nuvens,
Tudo em volta contaminação.
Gostaste das palavras. Pegaste
em minha mão para a cartilha imensa
de ti mesma, e enfileiraste amigos entre
dedos e anéis mágicos, dentes
dolorosos, marcas.
Prevenias, vingativamente, uma ausência
súbita: vivas pelo tempo que sempre
te faltaria, fosse em ti incontável,
em ti se reduzindo.
III Tua falta é toda
horizontal. Não atinge de vez,
de sempre fantasma que reclama a colheita.
Por isso te censuras, sorrindo,
o que de teu sorriso não frutificou.
Não frutificou o grito agudo de morte.
Não frutificou um abandono a todos os desesperos.
Não frutificou a inocência entre as relatividades.
Teu fruto único é o horizonte, a suavidade
de tua falta, o conforto de tua falta.
Pois já existiu quem faltava
e, sem dor, nos faz companhia.
In: VILLAÇA, Alcides. O tempo e outros remorsos. Pref. Alfredo Bosi. Il. Edgard Rodrigues de Souza. São Paulo: Ática, 1975. Poema integrante da série Os Amigos
I Tua falta é toda
horizontal. Como teus braços
que não cabiam entre estátuas
requisitando espaços
desconhecidos.
Teus amigos nunca marcaram
teu limite ilimitável. Eras de todos
e de ninguém, como também sabias
te ausentar, presente,
e longe, nos saudar.
Não perdestes a mania.
Ficou nuns versos que leste
para mim, sem exclusividade,
a marca de uns lábios eternamente fantasmas
que reclamarão eternamente por vida.
Querias vida, ela te queria,
como irmãos que se entendem.
II Tua falta é toda
horizontal. Teu corpo se ressentia
de ar em pleno campo, e o suprias
no leque dos gestos largos
empinadores de nuvens,
Tudo em volta contaminação.
Gostaste das palavras. Pegaste
em minha mão para a cartilha imensa
de ti mesma, e enfileiraste amigos entre
dedos e anéis mágicos, dentes
dolorosos, marcas.
Prevenias, vingativamente, uma ausência
súbita: vivas pelo tempo que sempre
te faltaria, fosse em ti incontável,
em ti se reduzindo.
III Tua falta é toda
horizontal. Não atinge de vez,
de sempre fantasma que reclama a colheita.
Por isso te censuras, sorrindo,
o que de teu sorriso não frutificou.
Não frutificou o grito agudo de morte.
Não frutificou um abandono a todos os desesperos.
Não frutificou a inocência entre as relatividades.
Teu fruto único é o horizonte, a suavidade
de tua falta, o conforto de tua falta.
Pois já existiu quem faltava
e, sem dor, nos faz companhia.
In: VILLAÇA, Alcides. O tempo e outros remorsos. Pref. Alfredo Bosi. Il. Edgard Rodrigues de Souza. São Paulo: Ática, 1975. Poema integrante da série Os Amigos
1 208
Antonio Fernando De Franceschi
Esteio
te palmilho
perfiladas coxas
contra vento e marés
te percorro
mediterrâneo
promontórios
te amparo a fronte
e o espasmo
— ato final
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
perfiladas coxas
contra vento e marés
te percorro
mediterrâneo
promontórios
te amparo a fronte
e o espasmo
— ato final
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 408
Antonio Fernando De Franceschi
Capitão Blood
no assalto
em que me lanço
temeroso
ancas acima
desato ao vento
dorso e cabelos
mas teus velames
travo firme
sustenidos
em meu medo:
a que porto
afinal
me destina
esta viagem?
em que ilha
me socorro
se o mar
me der vertigem?
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
em que me lanço
temeroso
ancas acima
desato ao vento
dorso e cabelos
mas teus velames
travo firme
sustenidos
em meu medo:
a que porto
afinal
me destina
esta viagem?
em que ilha
me socorro
se o mar
me der vertigem?
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 107
Carlos Frydman
Primeiro Canto ao Mar
Mar,
exortação serena,
corpo sensual, dadivoso,
ondulando desejos
em busca dos segredos.
Na carícia sedutora e amena,
no arfar incontido que aconchega,
seio de mulher inebriante,
ninando vidas extasiadas;
presença etérea, uterina,
benevolente ventre que recria.
Tristes saudosos das águas,
atracados em nossas securas intermitentes,
somos navegadores estranhos, distanciados,
em nossos portos desolados.
Fugitivos da existência inexistente,
introjetamo-nos no regresso desaprendido,
em busca das brisas em nós esvaída,
nas águas que secamos.
E, ante o mar amado,
somos amantes esmaecidos,
no amor que não alimentamos.
Agora,
buscamos a amada
que na lembrança ainda se banha,
de nossos desejos afastada,
o mar benevolente
faz carícias vagas
de amor tênue
onde vagamos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
exortação serena,
corpo sensual, dadivoso,
ondulando desejos
em busca dos segredos.
Na carícia sedutora e amena,
no arfar incontido que aconchega,
seio de mulher inebriante,
ninando vidas extasiadas;
presença etérea, uterina,
benevolente ventre que recria.
Tristes saudosos das águas,
atracados em nossas securas intermitentes,
somos navegadores estranhos, distanciados,
em nossos portos desolados.
Fugitivos da existência inexistente,
introjetamo-nos no regresso desaprendido,
em busca das brisas em nós esvaída,
nas águas que secamos.
E, ante o mar amado,
somos amantes esmaecidos,
no amor que não alimentamos.
Agora,
buscamos a amada
que na lembrança ainda se banha,
de nossos desejos afastada,
o mar benevolente
faz carícias vagas
de amor tênue
onde vagamos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
773
Antonio Fernando De Franceschi
Geografia
"... Touch me, touch the palm of your hand
to my body as I pass..."
Walt Whitman
O leve arrepio de tuas mãos
me comanda suave
sigo-te pelos lugares de mim
que não conheço
amanheço-me vales
me percorro colinas
sou o campo em que te apraz
me transformares
ou senda perdida
num dorso de montanha
Me desvelo geografia
ao teu desejo
qual queiras
para colher-te em prados
ravinas
e na fina erva que me cobre o peito
te sentir os dentes
palmo a palmo cortando rente
sem pressa de me cegares
no olho da paixão
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
to my body as I pass..."
Walt Whitman
O leve arrepio de tuas mãos
me comanda suave
sigo-te pelos lugares de mim
que não conheço
amanheço-me vales
me percorro colinas
sou o campo em que te apraz
me transformares
ou senda perdida
num dorso de montanha
Me desvelo geografia
ao teu desejo
qual queiras
para colher-te em prados
ravinas
e na fina erva que me cobre o peito
te sentir os dentes
palmo a palmo cortando rente
sem pressa de me cegares
no olho da paixão
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 397
Carlos Frydman
Nós
Para Luzia Salvi Frydman
Quando nos deparamos
meu outono era imenso
— um descampado queimado
um vazio sem ventos.
Tua afogada primavera trazia
brisas ao meu íntimo naufrágio.
Fertilizaste minha estiagem
numa repentina sementeira.
Havia um sol adormecido
em teu olhar distante, perdido,
abrandando minhas quimeras.
Nossos beijos foram temerosos
envoltos de incertezas.
Éramos cativos de tempos amargos,
fugidos de encontros vagos.
Despertamos um clamor de desejos sufocados,
e nos bebemos... e nos buscamos...
Nossas feições turvas e solitárias,
nossos peitos, campo fértil abandonado
— duas almas fugitivas enlaçaram-se.
Mas,
por sermos cativos inconformados
de longos tempos contritos,
nossos braços vacilaram nos abraços
e cruzamos nossos caminhos desencontrados.
Nossos primeiros atos,
com poucas palavras, harmonizaram-se.
Cresceu uma crença buscada,
e nossos corpos se confluíram
como dois rios incendiados
em nosso amor secreto e profundo,
onde no amor serenamos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
Quando nos deparamos
meu outono era imenso
— um descampado queimado
um vazio sem ventos.
Tua afogada primavera trazia
brisas ao meu íntimo naufrágio.
Fertilizaste minha estiagem
numa repentina sementeira.
Havia um sol adormecido
em teu olhar distante, perdido,
abrandando minhas quimeras.
Nossos beijos foram temerosos
envoltos de incertezas.
Éramos cativos de tempos amargos,
fugidos de encontros vagos.
Despertamos um clamor de desejos sufocados,
e nos bebemos... e nos buscamos...
Nossas feições turvas e solitárias,
nossos peitos, campo fértil abandonado
— duas almas fugitivas enlaçaram-se.
Mas,
por sermos cativos inconformados
de longos tempos contritos,
nossos braços vacilaram nos abraços
e cruzamos nossos caminhos desencontrados.
Nossos primeiros atos,
com poucas palavras, harmonizaram-se.
Cresceu uma crença buscada,
e nossos corpos se confluíram
como dois rios incendiados
em nosso amor secreto e profundo,
onde no amor serenamos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 203
Menotti del Picchia
Germinal - 5
Juca Mulato cisma. Olha a lua e estremece.
Dentro dele um desejo abre-se em flor e cresce
e ele pensa, ao sentir esses sonhos ignotos,
que a alma é como uma planta, os sonhos como brotos,
vão rebentando nela e se abrindo em floradas...
Franjam de ouro, o ocidente, as chamas das queimadas
Mal se pode conter de inquieto e satisfeito.
Adivinha que tem qualquer coisa no peito
e, às promessas do amor, a alma escancara ansiado
como os áureos portais de um palácio encantado!...
Mas a mágoa que ronda a alegria de perto
entra no coração sempre que o encontra aberto...
Juca Mulato sofre... Esse olhar calmo e doce
fulgiu-lhe como a luz, como luz apagou-se.
Feliz até então tinha a alma adormecida...
Esse olhar que o fitou o acordou para a vida!
A luz que nele viu deu-lhe a dor que ora o assombra
como o sol que traz a luz e, depois, deixa a sombra...
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.21. (Prestígio
Dentro dele um desejo abre-se em flor e cresce
e ele pensa, ao sentir esses sonhos ignotos,
que a alma é como uma planta, os sonhos como brotos,
vão rebentando nela e se abrindo em floradas...
Franjam de ouro, o ocidente, as chamas das queimadas
Mal se pode conter de inquieto e satisfeito.
Adivinha que tem qualquer coisa no peito
e, às promessas do amor, a alma escancara ansiado
como os áureos portais de um palácio encantado!...
Mas a mágoa que ronda a alegria de perto
entra no coração sempre que o encontra aberto...
Juca Mulato sofre... Esse olhar calmo e doce
fulgiu-lhe como a luz, como luz apagou-se.
Feliz até então tinha a alma adormecida...
Esse olhar que o fitou o acordou para a vida!
A luz que nele viu deu-lhe a dor que ora o assombra
como o sol que traz a luz e, depois, deixa a sombra...
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.21. (Prestígio
1 797
Amadeu Amaral
2 - A um Manancial de Água Pura
No alto da escarpa, além, escorre e brilha
um leve, pequenino manancial:
é, entre rochas, uma fina estilha
de prata com sonidos de cristal.
Filha do morro, a fonte, boa filha,
agarra-se teimosa ao chão natal,
à trama das raízes, à escumilha
das ervas, aos farpões do pedregal.
Doce água! Aquele que a tomasse à fonte,
após lenta ascensão por duro monte,
esse a pudera bem julgar, enfim;
mas, não merece tanto esforço: escorre
abandonada e no abandono morre...
Dentro de nós há mananciais assim.
16 de junho de 1921
Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.246. (Obras de Amadeu Amaral
um leve, pequenino manancial:
é, entre rochas, uma fina estilha
de prata com sonidos de cristal.
Filha do morro, a fonte, boa filha,
agarra-se teimosa ao chão natal,
à trama das raízes, à escumilha
das ervas, aos farpões do pedregal.
Doce água! Aquele que a tomasse à fonte,
após lenta ascensão por duro monte,
esse a pudera bem julgar, enfim;
mas, não merece tanto esforço: escorre
abandonada e no abandono morre...
Dentro de nós há mananciais assim.
16 de junho de 1921
Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.246. (Obras de Amadeu Amaral
1 738
Carlos Felipe Moisés
Em Minhas Mãos
Em minhas mãos
estas paredes ardem.
Não são retratos
nas paredes
não são remorsos
em minhas mãos
estas paredes ardem.
A mesma casa? O corredor
vazio, o quarto imenso
em minhas mãos?
Estas paredes ardem.
Não o desejo impuro
o amor saciado
(sequer desejado)
em minhas mãos
agora esvaído
ardendo no alto de um muro
mas o vício lento
implacável da memória,
óleo espesso a descer
das paredes
do sono
que o fogo devora
em minhas mãos.
Vitória e cansaço,
a lembrança impossível
e o medo extinto,
as paredes
a casa
estas palavras —
tudo a mesma combustão
em minhas mãos.
Estas palavras ardem em minhas mãos.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série II. Sentimental.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
estas paredes ardem.
Não são retratos
nas paredes
não são remorsos
em minhas mãos
estas paredes ardem.
A mesma casa? O corredor
vazio, o quarto imenso
em minhas mãos?
Estas paredes ardem.
Não o desejo impuro
o amor saciado
(sequer desejado)
em minhas mãos
agora esvaído
ardendo no alto de um muro
mas o vício lento
implacável da memória,
óleo espesso a descer
das paredes
do sono
que o fogo devora
em minhas mãos.
Vitória e cansaço,
a lembrança impossível
e o medo extinto,
as paredes
a casa
estas palavras —
tudo a mesma combustão
em minhas mãos.
Estas palavras ardem em minhas mãos.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série II. Sentimental.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
861
Carlos Frydman
Viaduto do Chá
"E me largo desarmado nos transes da enorme cidade."
(Mário de Andrade)
IV
Perpassam, o viaduto
carrancas petrificadas em carnes rijas,
sorrisos sofridos deflagram estigmas
de alegrias pálidas e seriedades temerárias.
Viaduto,
destino impingido, caminho sem escolha,
ultrajante travessia,
aorta da evasão,
perdição de filosofias e blasfêmias;
patamar das discordâncias unissonantes,
murmúrios monocórdios de vulcões soterrados.
Viaduto,
inabalável frieza de serventia petrificada,
estático aos retornos inevitáveis,
de sobreviventes desfalcados, diuturnos.
Mas, se no ímpio transcurso
alguém salta do viaduto,
já não é mais drama:
faz parte do panorama.
Domingo, o viaduto será belo e ameno
em sua feição exata e domingueira.
Na segunda, a vida desfilará desvivida.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
(Mário de Andrade)
IV
Perpassam, o viaduto
carrancas petrificadas em carnes rijas,
sorrisos sofridos deflagram estigmas
de alegrias pálidas e seriedades temerárias.
Viaduto,
destino impingido, caminho sem escolha,
ultrajante travessia,
aorta da evasão,
perdição de filosofias e blasfêmias;
patamar das discordâncias unissonantes,
murmúrios monocórdios de vulcões soterrados.
Viaduto,
inabalável frieza de serventia petrificada,
estático aos retornos inevitáveis,
de sobreviventes desfalcados, diuturnos.
Mas, se no ímpio transcurso
alguém salta do viaduto,
já não é mais drama:
faz parte do panorama.
Domingo, o viaduto será belo e ameno
em sua feição exata e domingueira.
Na segunda, a vida desfilará desvivida.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 302
Colombina
A Estátua
Impecável na forma, esplêndida na alvura
do mármore sem jaça, era mais que divina!
Inspirado, a criara um mestre da escultura
dessa eterna e genial península apenina.
Num museu de além-mar, um dia (peregrina
que, viajando, esquecer um grande mal procura),
pude ver e admirar, sob a luz matutina,
a extrema perfeição de sua formosura.
Não invejei, porém, sua beleza rara.
que, no mármore puro e rijo de Carrara,
se ostentava integral, magnífica e desnuda.
Quisera apenas ter igual serenidade
e contemplar o mundo, a vida, a humanidade,
num pedestal de bronze, indiferente e muda!
Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
do mármore sem jaça, era mais que divina!
Inspirado, a criara um mestre da escultura
dessa eterna e genial península apenina.
Num museu de além-mar, um dia (peregrina
que, viajando, esquecer um grande mal procura),
pude ver e admirar, sob a luz matutina,
a extrema perfeição de sua formosura.
Não invejei, porém, sua beleza rara.
que, no mármore puro e rijo de Carrara,
se ostentava integral, magnífica e desnuda.
Quisera apenas ter igual serenidade
e contemplar o mundo, a vida, a humanidade,
num pedestal de bronze, indiferente e muda!
Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 276
Menotti del Picchia
Germinal - 1
Nuvens voam pelo ar como bandos de garças.
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
1 657
Colombina
A Carne
Exiges. És ciumenta e egoísta. Não admites
qualquer rivalidade, ou que algo te suplante.
És forte e audaz no teu domínio sem limites,
capaz de transformar a vida, num instante.
És mísera e brutal. Mas nada obsta que agites
e açambarques o mundo! E que essa alucinante
e estranha sensação, que aos humanos transmites,
tenha, como nenhuma, um halo deslumbrante.
Ó carne que possuis no teu imo maldito
mais lodo que contém um charco pantanoso,
mais esplendor também que os astros do Infinito!
Rugindo de volúpia e de sensualidade,
espalhando na terra apoteoses de gozo,
ó carne, serás tu, a única verdade?
Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
qualquer rivalidade, ou que algo te suplante.
És forte e audaz no teu domínio sem limites,
capaz de transformar a vida, num instante.
És mísera e brutal. Mas nada obsta que agites
e açambarques o mundo! E que essa alucinante
e estranha sensação, que aos humanos transmites,
tenha, como nenhuma, um halo deslumbrante.
Ó carne que possuis no teu imo maldito
mais lodo que contém um charco pantanoso,
mais esplendor também que os astros do Infinito!
Rugindo de volúpia e de sensualidade,
espalhando na terra apoteoses de gozo,
ó carne, serás tu, a única verdade?
Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 432
Carlos Frydman
Chuvisco Espanhol
Para Priscila Marie Netto Soares
Há chuviscos
em obliquidade precisa,
brincando, variando
na gravidade das tardes.
Há chuviscos
sem pressa,
indiferentes ao tempo
que nos levam
sem percebermos.
Sendo véus diáfanos, os chuviscos
clareiam anseios abandonados.
Sendo lantejoulas cristalinas,
projetam recordações nubladas.
Sendo tules de odaliscas
de natureza amainada,
casam com meu amor circunspecto
em meus ímpetos serenados.
Tomado pelo chuvisco
penso numa tarde flamenca
e vislumbro uma triste espanhola.
Seu olhar é envolvente e aguçado
e seu corpo esguio é enlaçado
num atávico chale rendado.
Ela ignora meu amor silente
mas me envolve num sonho realista
porque me conformo em sonhá-la
perdido num chuvisco,
afogado
em meus desejos contidos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
Há chuviscos
em obliquidade precisa,
brincando, variando
na gravidade das tardes.
Há chuviscos
sem pressa,
indiferentes ao tempo
que nos levam
sem percebermos.
Sendo véus diáfanos, os chuviscos
clareiam anseios abandonados.
Sendo lantejoulas cristalinas,
projetam recordações nubladas.
Sendo tules de odaliscas
de natureza amainada,
casam com meu amor circunspecto
em meus ímpetos serenados.
Tomado pelo chuvisco
penso numa tarde flamenca
e vislumbro uma triste espanhola.
Seu olhar é envolvente e aguçado
e seu corpo esguio é enlaçado
num atávico chale rendado.
Ela ignora meu amor silente
mas me envolve num sonho realista
porque me conformo em sonhá-la
perdido num chuvisco,
afogado
em meus desejos contidos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
991
Alcides Villaça
Viagem Antiga
Havia vezes eu me via
como um menino não se vê.
A água na nuvem se adivinha,
a sede vem antes de sua vez.
Havia vezes eu me renascia
sem nunca ter saído além de mim:
emprestava-me espelhos e outras vias
de ver tocar sentir o fundo o si.
Era um segundo inteiro ou todo um dia
quando lançava o olhar além de mim
e me via em tudo o que não via?
Que trem cortava o tempo desse abril?
Em que viagem eu era o meu caminho?
Às vezes os meninos pousam olhos
no fim das paralelas, e descansam
o corpo de seus pesos e medidas.
Se nesta noite fixo a luz da esquina
e torno lento o sangue em seu caminho,
nem sombra apanho da viagem antiga
que, quando eu não queria, me fazia.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior
como um menino não se vê.
A água na nuvem se adivinha,
a sede vem antes de sua vez.
Havia vezes eu me renascia
sem nunca ter saído além de mim:
emprestava-me espelhos e outras vias
de ver tocar sentir o fundo o si.
Era um segundo inteiro ou todo um dia
quando lançava o olhar além de mim
e me via em tudo o que não via?
Que trem cortava o tempo desse abril?
Em que viagem eu era o meu caminho?
Às vezes os meninos pousam olhos
no fim das paralelas, e descansam
o corpo de seus pesos e medidas.
Se nesta noite fixo a luz da esquina
e torno lento o sangue em seu caminho,
nem sombra apanho da viagem antiga
que, quando eu não queria, me fazia.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior
1 557
Carlos Frydman
Poema da Prece e do Amor Perdido
Aos adolescentes de Israel, Gaza, Cisjordânia e Soweto,
vítimas da incoerência e do obscurantismo.
"... porque Israel traz na sua carne a marca sagrada
da Aliança".
(ZAHAR III, 72b)
"Se um convertido residir contigo na tua aldeia,
não o maltrates, trata-o como os teus conterrâneos,
ama-o como teu próximo que eu, o Senhor, sou vosso
Deus; e vós foste estrangeiro em terras do Egito".
(Levítico, 19: 26-34)
II
Ninguém é uno.
Nem o homem, nem os povos,
nem os planetas, nem os sistemas:
todos se atraem na busca inevitável de horizontes.
Não há caminhos que não cruzem caminhos.
E não haverá destino
se barrarmos os caminhos dos que buscam.
Jamais uma verdade será eternamente soterrada.
Queiramos, ou não, em nosso judaísmo
habitam todos os povos;
todos estão presentes, indeléveis,
em nossa carne, em nossos atos,
como nas ruínas que escavamos.
Navegam em nossa essência
todas reconditórias vivências trucidadas.
Somam-se a nossa consciência,
todos os anseios impedidos.
Aflora de nosso passado compulsivo
caudais de ódio e vingança,
porque não soubemos estar presentes
com nossas vivências desoladas;
contra desavenças impingidas
e fazer fluir — a História — numa mesma harmonia.
(...)
Aprendemos com o Nazismo
que não se faz uma nação com instintos;
assim como nossa vivência provou,
que não se forja uma nação com submissão.
Os líderes opostos são sabiamente frios
no fogo de suas palavras ensaiadas
— enganam-se contornando labaredas insufladas.
Nossos erros, quando leves, são pesados.
Impedimo-nos em nossos pecados,
e nos condenam à expiação eterna
deste auto-afogamento.
Só afloraremos com todos os náufragos,
estendendo nossas mãos esperadas.
Jamais seremos êxodos
e jamais esmolaremos um canto,
se abrigarmos como filhos, filhos alheios.
Jamais teremos luz, se levantarmos sombras de ódio.
III
Em Israel, amanhecemos temerários e fatigados
porque nossa certeza é fustigada em todas as latitudes.
Assim como nossas mentes cresceram
quando queimaram nossos livros,
também cresce a presença de outros povos humilhados,
dentro de nosso destino.
As dores do mundo têm um mesmo embrião;
os povos devem espicaçá-lo até a morte, antes que nos anule.
O sangue envaído em Israel, Chalita,
Gaza, Cisjordânia ou Soweto,
continuará fluindo em nossa milenar tristeza
e ficará um pranto em todos os olhos semitas.
Deus!
Como sobreviveremos deste dilúvio
engendrado em ódio e sangue,
se a onipresença das armas
fustiga a onipresença dos povos?
Neste crepúsculo com silhuetas de morte,
um adolescente se afirma numa arma;
outro adolescente se incendeia no ódio
— ambos esqueceram a vida que descortinavam.
Uma mãe chora o filho morto,
outra mãe chora a alma do filho vivo e perdido
Imagem - 01330002
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
vítimas da incoerência e do obscurantismo.
"... porque Israel traz na sua carne a marca sagrada
da Aliança".
(ZAHAR III, 72b)
"Se um convertido residir contigo na tua aldeia,
não o maltrates, trata-o como os teus conterrâneos,
ama-o como teu próximo que eu, o Senhor, sou vosso
Deus; e vós foste estrangeiro em terras do Egito".
(Levítico, 19: 26-34)
II
Ninguém é uno.
Nem o homem, nem os povos,
nem os planetas, nem os sistemas:
todos se atraem na busca inevitável de horizontes.
Não há caminhos que não cruzem caminhos.
E não haverá destino
se barrarmos os caminhos dos que buscam.
Jamais uma verdade será eternamente soterrada.
Queiramos, ou não, em nosso judaísmo
habitam todos os povos;
todos estão presentes, indeléveis,
em nossa carne, em nossos atos,
como nas ruínas que escavamos.
Navegam em nossa essência
todas reconditórias vivências trucidadas.
Somam-se a nossa consciência,
todos os anseios impedidos.
Aflora de nosso passado compulsivo
caudais de ódio e vingança,
porque não soubemos estar presentes
com nossas vivências desoladas;
contra desavenças impingidas
e fazer fluir — a História — numa mesma harmonia.
(...)
Aprendemos com o Nazismo
que não se faz uma nação com instintos;
assim como nossa vivência provou,
que não se forja uma nação com submissão.
Os líderes opostos são sabiamente frios
no fogo de suas palavras ensaiadas
— enganam-se contornando labaredas insufladas.
Nossos erros, quando leves, são pesados.
Impedimo-nos em nossos pecados,
e nos condenam à expiação eterna
deste auto-afogamento.
Só afloraremos com todos os náufragos,
estendendo nossas mãos esperadas.
Jamais seremos êxodos
e jamais esmolaremos um canto,
se abrigarmos como filhos, filhos alheios.
Jamais teremos luz, se levantarmos sombras de ódio.
III
Em Israel, amanhecemos temerários e fatigados
porque nossa certeza é fustigada em todas as latitudes.
Assim como nossas mentes cresceram
quando queimaram nossos livros,
também cresce a presença de outros povos humilhados,
dentro de nosso destino.
As dores do mundo têm um mesmo embrião;
os povos devem espicaçá-lo até a morte, antes que nos anule.
O sangue envaído em Israel, Chalita,
Gaza, Cisjordânia ou Soweto,
continuará fluindo em nossa milenar tristeza
e ficará um pranto em todos os olhos semitas.
Deus!
Como sobreviveremos deste dilúvio
engendrado em ódio e sangue,
se a onipresença das armas
fustiga a onipresença dos povos?
Neste crepúsculo com silhuetas de morte,
um adolescente se afirma numa arma;
outro adolescente se incendeia no ódio
— ambos esqueceram a vida que descortinavam.
Uma mãe chora o filho morto,
outra mãe chora a alma do filho vivo e perdido
Imagem - 01330002
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
832
Auta de Souza
Num Leque
Na gaze loura deste leque adeja
Não sei que amora místico e encantado...
Doce morena! Abençoado seja
O doce aroma de teu leque amado
Quando o entreabres, a sorrir, na Igreja,
O templo inteiro fica embalsamado...
Até minh'alma carinhosa o beija,
Como a toalha de um altar sagrado.
E enquanto o aroma inebriante voa,
Unido aos hinos que, no coro, entoa
A voz de um órgão soluçando dores,
Só me parece que o choroso canto
Sobe da gaze de teu leque santo,
Cheio de luz e de perfume e flores!
In: SOUSA, Auta de. Horto. 4.ed. Natal: Fundação José Augusto, 197
Não sei que amora místico e encantado...
Doce morena! Abençoado seja
O doce aroma de teu leque amado
Quando o entreabres, a sorrir, na Igreja,
O templo inteiro fica embalsamado...
Até minh'alma carinhosa o beija,
Como a toalha de um altar sagrado.
E enquanto o aroma inebriante voa,
Unido aos hinos que, no coro, entoa
A voz de um órgão soluçando dores,
Só me parece que o choroso canto
Sobe da gaze de teu leque santo,
Cheio de luz e de perfume e flores!
In: SOUSA, Auta de. Horto. 4.ed. Natal: Fundação José Augusto, 197
2 294
Carlos Felipe Moisés
A Noite Flutua no Ar
Por saber-te distante,
a noite se fez mais densa
sobre as casas e o desassossego
Parou diante
(por que não defronte?)
diante de mim,
o rosto escondido na bruma.
Agora caminha.
Percorre-me bolsos e alma
por saber-te ausente,
não mais distante
que a sombra que apalpo
no recesso da vida que é minha.
Noite!
Por que não o dia?
Dia pleno de avisos e medo
oculto na roupa que despi.
A noite, flutua no ar sozinha
por saber-te distante
(e fez-se o quê? lembrança?),
nuvem perdida, lentidão, rainha.
Poema integrante da série Urna Diurna, 1965/1973.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Poemas reunidos, 1956/1973. São Paulo: Cultrix, 197
a noite se fez mais densa
sobre as casas e o desassossego
Parou diante
(por que não defronte?)
diante de mim,
o rosto escondido na bruma.
Agora caminha.
Percorre-me bolsos e alma
por saber-te ausente,
não mais distante
que a sombra que apalpo
no recesso da vida que é minha.
Noite!
Por que não o dia?
Dia pleno de avisos e medo
oculto na roupa que despi.
A noite, flutua no ar sozinha
por saber-te distante
(e fez-se o quê? lembrança?),
nuvem perdida, lentidão, rainha.
Poema integrante da série Urna Diurna, 1965/1973.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Poemas reunidos, 1956/1973. São Paulo: Cultrix, 197
868
da Costa e Silva
Saudade
Saudade! és a ressonância
De uma cantiga sentida,
Que, embalando a nossa infância,
Nos segue por toda a vida!
Publicado no livro Pandora (1919).
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.22
De uma cantiga sentida,
Que, embalando a nossa infância,
Nos segue por toda a vida!
Publicado no livro Pandora (1919).
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.22
2 467
Alberto da Costa e Silva
Hoje: Gaiola sem Paisagem
Nada quis ser, senão menino. Por dentro e por fora, menino.
Por isso, venho de minha vida adulta como quem esfregasse na
pureza e na graça o pano sujo dos atos nem sequer vazios, apenas
mesquinhos e com frutos sem rumo.
Como se escovar os dentes fosse montar num cavalo e levá-lo a
beber água ao riacho! Como se importasse à causa humana ler os
jornais do dia!
Era melhor, talvez, ficar olhando, completo, perfeito, os calangos
a tomar sol no muro, sem trair o silêncio, sentindo o dia, para
conhecer o mundo, para saber que estou vivo.
Se não se têm esses olhos de infantil verdade, todas as cousas nos
enganam, tornam-se as palavras sem carne com que construímos a
árida abstração que é o curral dos adultos.
Depois dos quinze anos, quase nada aprendemos: a dar laço em
gravatas, por exemplo.
Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.8
Por isso, venho de minha vida adulta como quem esfregasse na
pureza e na graça o pano sujo dos atos nem sequer vazios, apenas
mesquinhos e com frutos sem rumo.
Como se escovar os dentes fosse montar num cavalo e levá-lo a
beber água ao riacho! Como se importasse à causa humana ler os
jornais do dia!
Era melhor, talvez, ficar olhando, completo, perfeito, os calangos
a tomar sol no muro, sem trair o silêncio, sentindo o dia, para
conhecer o mundo, para saber que estou vivo.
Se não se têm esses olhos de infantil verdade, todas as cousas nos
enganam, tornam-se as palavras sem carne com que construímos a
árida abstração que é o curral dos adultos.
Depois dos quinze anos, quase nada aprendemos: a dar laço em
gravatas, por exemplo.
Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.8
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