Poemas neste tema
Alma
Noel de Arriaga
Guitarra
Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
Na atmosfera de fumo,
Roçando pelo vício,
Em mim dum outro rumo
Encontro um vago indício.
Unem-se em gestos vãos,
Ao sabor da guitarra,
Suplicantes as mãos
Da fadista bizarra.
Se canta, logo após
Nos prende e enfeitiça
O que perdura em nós
Da sua voz castiça.
Meu coração já batia
Muito antes de te ver,
Mas só depois desse dia
É que eu o senti bater! ...
Candeeiros de cobre
Pousados sobre as mesas
Tingem de aspecto nobre
longas velas acesas.
Perfume de recado,
Em pouco se resume
O mistério do fado:
— No amor e no ciúme.
E também na saudade,
Mais funda hora a hora,
Que, fugindo à cidade,
Foi pela barra fora!
Saudade? Ciúme? Amor?
As naus da índia onde
Estão? Envolto em dor
Quem é que me responde?
Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
Na atmosfera de fumo,
Roçando pelo vício,
Em mim dum outro rumo
Encontro um vago indício.
Unem-se em gestos vãos,
Ao sabor da guitarra,
Suplicantes as mãos
Da fadista bizarra.
Se canta, logo após
Nos prende e enfeitiça
O que perdura em nós
Da sua voz castiça.
Meu coração já batia
Muito antes de te ver,
Mas só depois desse dia
É que eu o senti bater! ...
Candeeiros de cobre
Pousados sobre as mesas
Tingem de aspecto nobre
longas velas acesas.
Perfume de recado,
Em pouco se resume
O mistério do fado:
— No amor e no ciúme.
E também na saudade,
Mais funda hora a hora,
Que, fugindo à cidade,
Foi pela barra fora!
Saudade? Ciúme? Amor?
As naus da índia onde
Estão? Envolto em dor
Quem é que me responde?
Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
832
Natalício Barroso
De manhã eu sei que o sol vai morrer
De manhã eu sei que o sol vai morrer
depois das dezoito horas.
Mas não me apavoro.
Ele pode morrer antes, se quiser.
Há muito tempo que a minha vida é uma sucessão de expectativas.
Nenhuma delas realizada.
Por isso espero o sol morrer depois das dezoito horas
e ele morre.
Uma tarde, quando o sol era uma estrela cadente,
eu pedi para uma bailarina nascer no lugar da lua.
Mas não nasceu.
Primeiro porque nenhuma bailarina vai nascer no lugar da lua.
Depois porque, se nascesse, não seria uma bailarina.
Mas uma deusa. Eu ri. Não porque fosse impossível
uma deusa nascer no lugar da lua.
Mas porque as deusas não nascem mais.
Elas se afogaram nos Lusíadas e nunca mais emergiram.
Estão lá, no fundo de um poema,
presas às barbas e aos cabelos de Netuno.
Camões que o diga. Ele que teceu
os raios de luar no rosto de Netuno
e deu-lhe o nome de Vasco da Gama.
depois das dezoito horas.
Mas não me apavoro.
Ele pode morrer antes, se quiser.
Há muito tempo que a minha vida é uma sucessão de expectativas.
Nenhuma delas realizada.
Por isso espero o sol morrer depois das dezoito horas
e ele morre.
Uma tarde, quando o sol era uma estrela cadente,
eu pedi para uma bailarina nascer no lugar da lua.
Mas não nasceu.
Primeiro porque nenhuma bailarina vai nascer no lugar da lua.
Depois porque, se nascesse, não seria uma bailarina.
Mas uma deusa. Eu ri. Não porque fosse impossível
uma deusa nascer no lugar da lua.
Mas porque as deusas não nascem mais.
Elas se afogaram nos Lusíadas e nunca mais emergiram.
Estão lá, no fundo de um poema,
presas às barbas e aos cabelos de Netuno.
Camões que o diga. Ele que teceu
os raios de luar no rosto de Netuno
e deu-lhe o nome de Vasco da Gama.
1 016
Neide Archanjo
Neste mezzo del camin
Neste mezzo del camin
carrego comigo obras e cânticos
alguns alheios outros próprios
coisas que escolhi.
Entre vogais e vocábulos
componho a biografia
construção sonora de rostos
reflexos sentimentos
tão grande tão grandes
uns rindo como gralhas
outros mansos
todos não perdidos
pressentida romã entreaberta
assim esta memória existe.
Vou como o discípulo
de um velho pintor chinês
que curvado sob o peso de pincéis
potes de laca
rolos de seda e de papel arroz
sonhava carregar montanhas rios
falcões reais
e se assim sonhava
certamente assim o fazia.
carrego comigo obras e cânticos
alguns alheios outros próprios
coisas que escolhi.
Entre vogais e vocábulos
componho a biografia
construção sonora de rostos
reflexos sentimentos
tão grande tão grandes
uns rindo como gralhas
outros mansos
todos não perdidos
pressentida romã entreaberta
assim esta memória existe.
Vou como o discípulo
de um velho pintor chinês
que curvado sob o peso de pincéis
potes de laca
rolos de seda e de papel arroz
sonhava carregar montanhas rios
falcões reais
e se assim sonhava
certamente assim o fazia.
1 017
Neide Archanjo
Ah, meu coração
Ah, meu coração
fluente atento apocalíptico resoluto
pleno de vícios
alegre formoso
e em forma de gota.
No amor tem seu reino:
exercício inquieto e longo
(de claro e lúcido desempenho)
invadindo o outro
mas invadindo-o de fato
além do tato do cansaço do medo
cavalgando-o como idéia
esporas leves
pernas rudes
égua e cavalos
galope escancarado
à luz de outras janelas.
Porque se não agarra assim o outro
meu coração se perde
deixa-se ficar como coisa conclusa
vendo e tendo como urgente
um limite falso e amortizado.
Solidão de árvore
esperando o fruto.
Solidão de Lázaro
esperando o Cristo.
Solidão de alvo
esperando a seta.
Ave, poeta.
fluente atento apocalíptico resoluto
pleno de vícios
alegre formoso
e em forma de gota.
No amor tem seu reino:
exercício inquieto e longo
(de claro e lúcido desempenho)
invadindo o outro
mas invadindo-o de fato
além do tato do cansaço do medo
cavalgando-o como idéia
esporas leves
pernas rudes
égua e cavalos
galope escancarado
à luz de outras janelas.
Porque se não agarra assim o outro
meu coração se perde
deixa-se ficar como coisa conclusa
vendo e tendo como urgente
um limite falso e amortizado.
Solidão de árvore
esperando o fruto.
Solidão de Lázaro
esperando o Cristo.
Solidão de alvo
esperando a seta.
Ave, poeta.
1 160
Neide Archanjo
Estou aqui
Estou aqui
numa das esquinas do planeta
entre o Mediterraneu e o Oceanus Atlanticus
nestas costas
onde cerraram-se para sempre
rios abras e baías
e mesmo algumas ilhas
estuários interiores.
Eu, selvagem, mulher silvestre,
florida em telas e museus
vergonhas não-cobertas
—ah, Iracemas Paraguaçus Moemas! —
entre os deleites da corte instalada.
Eu que não tive por trisavô nenhum celta
bem rico e bem atrevido no mar
a quem chamasse armador.
Eu que deixei para trás
sertões não-navegados
em terra e mar fundidos
nossas Aljubarrotas e Alcácer-Quibires
chão de estrelas e derrotas
compostas identidades
onde o imenso amadurece.
numa das esquinas do planeta
entre o Mediterraneu e o Oceanus Atlanticus
nestas costas
onde cerraram-se para sempre
rios abras e baías
e mesmo algumas ilhas
estuários interiores.
Eu, selvagem, mulher silvestre,
florida em telas e museus
vergonhas não-cobertas
—ah, Iracemas Paraguaçus Moemas! —
entre os deleites da corte instalada.
Eu que não tive por trisavô nenhum celta
bem rico e bem atrevido no mar
a quem chamasse armador.
Eu que deixei para trás
sertões não-navegados
em terra e mar fundidos
nossas Aljubarrotas e Alcácer-Quibires
chão de estrelas e derrotas
compostas identidades
onde o imenso amadurece.
1 012
Nauro Machado
Apenas uma Coisa
Existe amor?
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nitrindo em tantas coisas?
Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?
Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nitrindo em tantas coisas?
Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?
Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.
1 616
Joaquim Namorado
ARS
Os muros brancos da indiferença
desafiam os pintores
a pintar neles a esperança
amarelos sóis girando
roxos violetas azuis
gente animais árvores flores
como há e não há inventados
largas janelas abertas
para a vida e para o sonho
vermelhos entusiasmos
castanhos terra serenos
verdes e verdes terrenos
de horizontes rasgados
onde caibam os países
e os continentes e os mares ainda por descobrir
e o homem caiba inteiro
na verdadeira grandeza
em profundas perspectivas
tudo o que é grande e pequeno
dos outros o que a nós pertence
de nós o que a todos damos
a noite intensa povoada de sóis
que outros dias iluminam
a esperança neles pintada
a Paz o Pão o Amor.
E nas mansardas escuras
com os brancos muros em frente
da gelada indiferença
os artistas febris
esboçam em traços difusos
a própria morte do sonho.
Mas já na sombra da sombra
que sobre os brancos muros se estende
O coro das carpideiras
tece flores de retórica
para coroar-lhes as caveiras
e os conservadores misantropos
dos museus do que já foi
fazem o espólio das artes
com requintes de molduras.
Nos muros brancos da indiferença
gela o frio esquecimento…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
desafiam os pintores
a pintar neles a esperança
amarelos sóis girando
roxos violetas azuis
gente animais árvores flores
como há e não há inventados
largas janelas abertas
para a vida e para o sonho
vermelhos entusiasmos
castanhos terra serenos
verdes e verdes terrenos
de horizontes rasgados
onde caibam os países
e os continentes e os mares ainda por descobrir
e o homem caiba inteiro
na verdadeira grandeza
em profundas perspectivas
tudo o que é grande e pequeno
dos outros o que a nós pertence
de nós o que a todos damos
a noite intensa povoada de sóis
que outros dias iluminam
a esperança neles pintada
a Paz o Pão o Amor.
E nas mansardas escuras
com os brancos muros em frente
da gelada indiferença
os artistas febris
esboçam em traços difusos
a própria morte do sonho.
Mas já na sombra da sombra
que sobre os brancos muros se estende
O coro das carpideiras
tece flores de retórica
para coroar-lhes as caveiras
e os conservadores misantropos
dos museus do que já foi
fazem o espólio das artes
com requintes de molduras.
Nos muros brancos da indiferença
gela o frio esquecimento…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 919
Narcisa Amália
Sandness
"Still visit thus my nights, for you reserved,
And mount my soaring soul thougts like yours."
(James Thomson)
XX
Meu anjo inspirador não tem nas faces
As tintas coralíneas da manhã,;
Nem tem nos lábios as canções vivaces
Da cabocla pagã!
Não lhe pesa na fronte deslumbrante
Coroa de esplendor e maravilhas,
Nem rouba ao nevoeiro flutuante
As nítidas mantilhas.
Meu anjo inspirador é frio e triste
Como o sol que enrubesce o céu polar!
Trai-lhe o semblante pálido — do antiste
O acerbo meditar!
Traz na cabeça estema de saudades,
Tem no lânguido olhar a morbideza;
Veste a clâmide eril das tempestades,
E chama-se — Tristeza!...
And mount my soaring soul thougts like yours."
(James Thomson)
XX
Meu anjo inspirador não tem nas faces
As tintas coralíneas da manhã,;
Nem tem nos lábios as canções vivaces
Da cabocla pagã!
Não lhe pesa na fronte deslumbrante
Coroa de esplendor e maravilhas,
Nem rouba ao nevoeiro flutuante
As nítidas mantilhas.
Meu anjo inspirador é frio e triste
Como o sol que enrubesce o céu polar!
Trai-lhe o semblante pálido — do antiste
O acerbo meditar!
Traz na cabeça estema de saudades,
Tem no lânguido olhar a morbideza;
Veste a clâmide eril das tempestades,
E chama-se — Tristeza!...
2 857
Mario Ribeiro Martins
O Triste
Ei-la, tristonha, como nunca esteve:
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.
888
Marcelo Penido Silva
O que é a Poesia?
Poesia é como pó
que num sôpro é
o que não sopro
e que jamais seria.
Poesia é
sem ser
meu querer, meu dis ser
e cobre
de prata e ouro
a mais preciosa linha.
Meu veio de Vida
nas mãos de outro.
que num sôpro é
o que não sopro
e que jamais seria.
Poesia é
sem ser
meu querer, meu dis ser
e cobre
de prata e ouro
a mais preciosa linha.
Meu veio de Vida
nas mãos de outro.
991
Marco Valadares
Nossos Caminhos Pela Vida
Eu não saberia da vida
Muito que dela aprendi
Se por caminhos passados
Passasse por longe de ti
E nesses caminhos vividos...
Com amor, mágoa e paixão
Certas vezes eu era sozinho
Mas longe da solidão
Pois solidão é nunca ter tido
Nada pra pensar ou sentir
Mas desde que te conheço
Não me conheço longe de ti
E nesse novo caminho que estamos
Ando com muito cuidado
Pois estou tendo que aprender
A não andar mais do teu lado
Mas quero ter sempre em mente
Que isso é coisa passageira
Pois quero viver novamente
Daquela velha maneira
Como quando numa praia deserta
Ficamos juntos por dez dias
Dias de amor, carinho, amizade,
E um sentimento que crescia
Ou mesmo de um carnaval
Que muitas tristezas senti
Mas quando voltamos pra casa
Podia estar perto de ti
Queria muito me desculpar
Por aquele nosso passado
Mas é de se compreender
Pelo caminho que começou errado
E a vida que desejávamos
Lhe digo com muito amor
Que está mais perto do que pensas
Se reconhecer nosso valor
Pois a tua falta pra mim
Faz com que viver pareça
Semanas durarem anos
E faz, com isso, que eu cresça
Faz com que eu me arrependa
Da liberdade que não lhe dei
Mas foi tão inconsciente
Que fui eu quem me aprisionei
Tanto que não lhe devo desculpas
Pois me sinto em igual situação
Mas devo com muita esperança
Propor-lhe uma solução
De que nossas pegadas na areia
Pelos caminhos que passamos
Não sejam jamais esquecidas
Pra não esquecermos que erramos
Mas que sejam deixadas expostas
Nossas pegadas na vida
Para que o vento possa fechá-las
Fechando nossas feridas
E, nesse dia, finalmente
No meu ombro se deitarás
Como era antigamente
E não deixará de ser mais...
Muito que dela aprendi
Se por caminhos passados
Passasse por longe de ti
E nesses caminhos vividos...
Com amor, mágoa e paixão
Certas vezes eu era sozinho
Mas longe da solidão
Pois solidão é nunca ter tido
Nada pra pensar ou sentir
Mas desde que te conheço
Não me conheço longe de ti
E nesse novo caminho que estamos
Ando com muito cuidado
Pois estou tendo que aprender
A não andar mais do teu lado
Mas quero ter sempre em mente
Que isso é coisa passageira
Pois quero viver novamente
Daquela velha maneira
Como quando numa praia deserta
Ficamos juntos por dez dias
Dias de amor, carinho, amizade,
E um sentimento que crescia
Ou mesmo de um carnaval
Que muitas tristezas senti
Mas quando voltamos pra casa
Podia estar perto de ti
Queria muito me desculpar
Por aquele nosso passado
Mas é de se compreender
Pelo caminho que começou errado
E a vida que desejávamos
Lhe digo com muito amor
Que está mais perto do que pensas
Se reconhecer nosso valor
Pois a tua falta pra mim
Faz com que viver pareça
Semanas durarem anos
E faz, com isso, que eu cresça
Faz com que eu me arrependa
Da liberdade que não lhe dei
Mas foi tão inconsciente
Que fui eu quem me aprisionei
Tanto que não lhe devo desculpas
Pois me sinto em igual situação
Mas devo com muita esperança
Propor-lhe uma solução
De que nossas pegadas na areia
Pelos caminhos que passamos
Não sejam jamais esquecidas
Pra não esquecermos que erramos
Mas que sejam deixadas expostas
Nossas pegadas na vida
Para que o vento possa fechá-las
Fechando nossas feridas
E, nesse dia, finalmente
No meu ombro se deitarás
Como era antigamente
E não deixará de ser mais...
371
Mário Pederneiras
Íntimo
(fragmento)
A boa vida é esta:
O sossego normal deste meu quarto,
Em luz e paz imerso,
Onde as horas reparto
Entre o — do ganha-pão — rude trabalho
E o Culto do meu Verso,
Que me dá e atesta
A certeza orgulhosa do que valho.
E numa esfera assim, clara e discreta,
Que um bem-estar pacífico resuma,
Ter, como eu tenho, quando leio e escrevo,
O suave enlevo,
De uma
Doce figura feminina e casta
Que, alegremente e carinhosa, arrasta
A vida heróica de mulher de Poeta.
Não que o Poeta seja um mau, um triste
Merecedor de insultos e de apodos,
De ódio e menoscabo...
Nele, ao contrário, só doçura existe,
Mas porque é um pobre diabo
Que sofre mais que todos.
A boa vida é esta:
O sossego normal deste meu quarto,
Em luz e paz imerso,
Onde as horas reparto
Entre o — do ganha-pão — rude trabalho
E o Culto do meu Verso,
Que me dá e atesta
A certeza orgulhosa do que valho.
E numa esfera assim, clara e discreta,
Que um bem-estar pacífico resuma,
Ter, como eu tenho, quando leio e escrevo,
O suave enlevo,
De uma
Doce figura feminina e casta
Que, alegremente e carinhosa, arrasta
A vida heróica de mulher de Poeta.
Não que o Poeta seja um mau, um triste
Merecedor de insultos e de apodos,
De ódio e menoscabo...
Nele, ao contrário, só doçura existe,
Mas porque é um pobre diabo
Que sofre mais que todos.
1 146
Marcelo Reis
Entorpecer
Entorpecer
Vida, se tu pudesses ser bebericada
Em xícaras de fumaça,
Lá estaria eu, entorpecido
Pelas nuvens do mesmo líquido
Eu poderia voar até o teu colo
Até o teu beijo e até o teu olhar
E penetrar no manto da noite
Para te encarar verdadeiramente
Vida, te quis face a face
E para isso dancei uma valsa,
Uma valsa com a Morte
A doce, inofensiva e serena Morte
Tão fácil de se apaixonar, apaixonou-se
O que me restou foi levá-la para a cama
Lavar-lhe o corpo, oferecer-lhe um pouco de meu amor
E por fim molhar-lhe as pálpebras cansadas
Agora, Vida, que sucumbi a Morte de paixão,
Te quero imensa e fanaticamente
Cubra-me todas as pequenas noites frias
E me liberte nas grandes noites quentes
Ao comando de teus arcanjos
Estou submetido
E de ti, tenho certeza,
As cores todas se alimentam
Vida, se tu pudesses ser bebericada
Em xícaras de fumaça,
Lá estaria eu, entorpecido
Pelas nuvens do mesmo líquido
Eu poderia voar até o teu colo
Até o teu beijo e até o teu olhar
E penetrar no manto da noite
Para te encarar verdadeiramente
Vida, te quis face a face
E para isso dancei uma valsa,
Uma valsa com a Morte
A doce, inofensiva e serena Morte
Tão fácil de se apaixonar, apaixonou-se
O que me restou foi levá-la para a cama
Lavar-lhe o corpo, oferecer-lhe um pouco de meu amor
E por fim molhar-lhe as pálpebras cansadas
Agora, Vida, que sucumbi a Morte de paixão,
Te quero imensa e fanaticamente
Cubra-me todas as pequenas noites frias
E me liberte nas grandes noites quentes
Ao comando de teus arcanjos
Estou submetido
E de ti, tenho certeza,
As cores todas se alimentam
1 141
Matheus Tonello
Eclipse Solar
Foi num dia límpido de verão
Que tudo chegou ao seu fim
Tendo o Sol como testemunha
Você disse: -Eu não te quero pra mim!
Neste dia, as pombas não voaram para o sul
O vento parou de soprar ao norte
O dia perdeu todo seu encanto
Para mim, só restou a morte.
O Sol neste dia se escondeu por completo
E logo cessou de brilhar
Se escondeu por trás da formosa Lua
E em prantos, pôs-se inteiramente a chorar!
Que tudo chegou ao seu fim
Tendo o Sol como testemunha
Você disse: -Eu não te quero pra mim!
Neste dia, as pombas não voaram para o sul
O vento parou de soprar ao norte
O dia perdeu todo seu encanto
Para mim, só restou a morte.
O Sol neste dia se escondeu por completo
E logo cessou de brilhar
Se escondeu por trás da formosa Lua
E em prantos, pôs-se inteiramente a chorar!
1 328
Matheus Tonello
O Show da Vida
Abrem-se as cortinas, o show vai começar,
Não é só o dia que amanhece, com ele vem as marionetes incansáveis,
Controladas pela força básica da vida;
Todos os gestos, ações, movimentos, nada é nosso
Somos manipulados por um destino, seja ele bom ou ruim...
Nossas lágrimas, nossos risos são puramente encomendados,
Para dar vida ao espetáculo
O show tem momentos de dor, paixão, tristeza e encantamento,
Há momentos em que a emoção é tão forte,
Que nos dá a nítida impressão de estarmos
VIVOS!
O que temos a fazer? E a felicidade?
Talvez não sejamos o mais feliz possível,
Mas diante das circunstâncias inconstantes de vida e
morte,
Acondicionaremos a felicidade a uma palavra muito importante,
FÉ!
Não é só o dia que amanhece, com ele vem as marionetes incansáveis,
Controladas pela força básica da vida;
Todos os gestos, ações, movimentos, nada é nosso
Somos manipulados por um destino, seja ele bom ou ruim...
Nossas lágrimas, nossos risos são puramente encomendados,
Para dar vida ao espetáculo
O show tem momentos de dor, paixão, tristeza e encantamento,
Há momentos em que a emoção é tão forte,
Que nos dá a nítida impressão de estarmos
VIVOS!
O que temos a fazer? E a felicidade?
Talvez não sejamos o mais feliz possível,
Mas diante das circunstâncias inconstantes de vida e
morte,
Acondicionaremos a felicidade a uma palavra muito importante,
FÉ!
965
Mário Pederneiras
Meu Casal
Fica distante da cidade e em frente
À remansosa paz de uma enseada
Esta dos meus romântica morada,
Que olha de cheio para o Sol nascente.
Árvores dão-lhe a sombra desejada
Pela calma feição da minha gente,
E ela toda se ajusta ao tom dolente
Das cantigas que o Mar lhe chora à entrada.
Lá dentro o teu olhar de calmos brilhos,
Todo o meu bem e todo o meu empenho,
E a sonora alegria de meus filhos.
Outros que tenham com mais luxo o lar,
Que a mim me basta, Flor, o que aqui tenho,
Árvores, filhos, teu amor e o mar.
À remansosa paz de uma enseada
Esta dos meus romântica morada,
Que olha de cheio para o Sol nascente.
Árvores dão-lhe a sombra desejada
Pela calma feição da minha gente,
E ela toda se ajusta ao tom dolente
Das cantigas que o Mar lhe chora à entrada.
Lá dentro o teu olhar de calmos brilhos,
Todo o meu bem e todo o meu empenho,
E a sonora alegria de meus filhos.
Outros que tenham com mais luxo o lar,
Que a mim me basta, Flor, o que aqui tenho,
Árvores, filhos, teu amor e o mar.
2 280
Mário Simões
Corpos e Almas
Oh, Se eu pudesse esquecer,
Do que já vi e volto a ver,
E que também nunca soubesse,
Do que me lembra e não me esquece!
E já que outra não posso ter,
Só tenho olhos para te ver.
O meu grito embriagado,
Cantou bem alto por todo lado,
Cerrados meus lábios, recordam,
O ar que atrofia os que choram,
O vento húmido escondeu o meu destino,
Minhas coisas de enlevo e de menino,
Nem um sonho palpável eu vejo
Para dissipar os braços do desejo.
Para quebrar os delírios minha alma canta,
À peganhenta calma que mata,
Última lembrança do segredo,
Lembrando-me que esta luz sumida,
É o subir a baixar a vida.
O negrume do céu que baixa e clama,
Aos jardins para lhes regar a chama,
O mundo novo nos espera um só aceno,
As vozes de rebate entram em combate ameno.
E o grito audaz da revolta,
É o espirito sereno que solta.
Os rouxinóis enlevados na saudade,
Que se quedem no desleixo da obscuridade,
Felizes, desgraçadas, e sem idade!....
(In livro Culpas Mortais)
Do que já vi e volto a ver,
E que também nunca soubesse,
Do que me lembra e não me esquece!
E já que outra não posso ter,
Só tenho olhos para te ver.
O meu grito embriagado,
Cantou bem alto por todo lado,
Cerrados meus lábios, recordam,
O ar que atrofia os que choram,
O vento húmido escondeu o meu destino,
Minhas coisas de enlevo e de menino,
Nem um sonho palpável eu vejo
Para dissipar os braços do desejo.
Para quebrar os delírios minha alma canta,
À peganhenta calma que mata,
Última lembrança do segredo,
Lembrando-me que esta luz sumida,
É o subir a baixar a vida.
O negrume do céu que baixa e clama,
Aos jardins para lhes regar a chama,
O mundo novo nos espera um só aceno,
As vozes de rebate entram em combate ameno.
E o grito audaz da revolta,
É o espirito sereno que solta.
Os rouxinóis enlevados na saudade,
Que se quedem no desleixo da obscuridade,
Felizes, desgraçadas, e sem idade!....
(In livro Culpas Mortais)
797
Murillo Mendes
Reflexão No 1
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
1 138
Marcelo Penido Silva
A fonte luminosa
A fonte luminosa da praça
não brilha mais.
Suas luzes secas esgotaram-se
na noite de anos atrás;
suas águas tão lúcidas
apagaram-se ruivas
no rosto verde
azul dos casais.
E o poço de outrora
agora repousa
apenas auroras
e um canto roxo e repleto
do luar vazio
da lua nova.
E a última gota
os casais perguntam
- seria rosa? -
A última boca,
suspensa num beijo :
nossa.
não brilha mais.
Suas luzes secas esgotaram-se
na noite de anos atrás;
suas águas tão lúcidas
apagaram-se ruivas
no rosto verde
azul dos casais.
E o poço de outrora
agora repousa
apenas auroras
e um canto roxo e repleto
do luar vazio
da lua nova.
E a última gota
os casais perguntam
- seria rosa? -
A última boca,
suspensa num beijo :
nossa.
877
Mário Pederneiras
Madrigal
Teu olhar é tão manso,
Tão de ardências febris desprevenido e leigo,
Tão suave, tão bom, tão cheio de descanso;
Tão sereno é teu beijo,
Tão leve, tão sutil o teu próprio desejo;
Tudo
Em ti é tão meigo.
Sentimentos e Carne, Olhar, Voz e Carinhos.
Que muita vez sentindo,
Junto de mim o teu aspecto lindo,
Que meu amor intenso,
Indômito, açulado, espera e espreita,
Penso
Que tu, Querida, tu, és toda feita
De arminhos
E veludo.
Quer num suave enleio
Sentimental,
De idílio e de bondade,
Onde somente se destaque e arda
De ser querida a íntima alegria;
Quer na intimidade
Dominadora e treda,
De um lascivo coleio,
Quase de invertebrada e quase de oriental,
És a mesma de sempre, aromada e macia,
Oh! meu anjo de guarda!
Oh! minha linda Salomé de seda!
Um lago,
Sem ritmos agitados,
De água de brilho de aço,
Clara, fresca, parada,
Sob a seda de um Céu, à noite, em pleno Outono;
Um recanto de terra estéril, isolada,
Cheia de sugestões, de sossego e de sono,
De distância e de espaço,
Não tem a penugem do afago
Deste afago normal dos teus olhos dourados.
Estas longas arcadas solitárias,
De antigas abadias
Largas, sonoras e sombrias
E legendárias,
Da simbolizarão do sossego e da paz,
Da vida que repousa,
A fugir do rumor que atormenta e que infesta
O caminho vulgar que a vida humana pousa,
Tem qualquer coisa
Da honesta mansidão da tuAlma de honesta.
Quando mais para a Terra teu amor dirijo
E o quero mais humano
E exijo
Que meu desejo dessedentes
Em carícias mais fortes e mais francas
E te imploro
O sabor aromal do teu beijo sonoro,
Não me ficam nos lábios
Acídulos ressábios
Da ânsia sensual de onde a Volúpia espouca...
Só me fica na boca
A macia impressão de que beijo asas brancas.
Tão de ardências febris desprevenido e leigo,
Tão suave, tão bom, tão cheio de descanso;
Tão sereno é teu beijo,
Tão leve, tão sutil o teu próprio desejo;
Tudo
Em ti é tão meigo.
Sentimentos e Carne, Olhar, Voz e Carinhos.
Que muita vez sentindo,
Junto de mim o teu aspecto lindo,
Que meu amor intenso,
Indômito, açulado, espera e espreita,
Penso
Que tu, Querida, tu, és toda feita
De arminhos
E veludo.
Quer num suave enleio
Sentimental,
De idílio e de bondade,
Onde somente se destaque e arda
De ser querida a íntima alegria;
Quer na intimidade
Dominadora e treda,
De um lascivo coleio,
Quase de invertebrada e quase de oriental,
És a mesma de sempre, aromada e macia,
Oh! meu anjo de guarda!
Oh! minha linda Salomé de seda!
Um lago,
Sem ritmos agitados,
De água de brilho de aço,
Clara, fresca, parada,
Sob a seda de um Céu, à noite, em pleno Outono;
Um recanto de terra estéril, isolada,
Cheia de sugestões, de sossego e de sono,
De distância e de espaço,
Não tem a penugem do afago
Deste afago normal dos teus olhos dourados.
Estas longas arcadas solitárias,
De antigas abadias
Largas, sonoras e sombrias
E legendárias,
Da simbolizarão do sossego e da paz,
Da vida que repousa,
A fugir do rumor que atormenta e que infesta
O caminho vulgar que a vida humana pousa,
Tem qualquer coisa
Da honesta mansidão da tuAlma de honesta.
Quando mais para a Terra teu amor dirijo
E o quero mais humano
E exijo
Que meu desejo dessedentes
Em carícias mais fortes e mais francas
E te imploro
O sabor aromal do teu beijo sonoro,
Não me ficam nos lábios
Acídulos ressábios
Da ânsia sensual de onde a Volúpia espouca...
Só me fica na boca
A macia impressão de que beijo asas brancas.
1 279
Mário Simões
Amor: Luz e Trevas
Que coisas que ao coração vêm!
Que suplício... Que caso de dor...
Se fossemos só nós, de amor;
Mas o mal que o corpo tem,
por outrem é igual sentido!
Se no peito escondido,
Ou na alma sepultado,
Há quem viva de amor contente;
Mesmo que o amor mate gente,
Há quem se diga de amor curado!...
E vós, grossa ameaça,
Cá por dentro nos matais...
Mas, se acaso amor só por nós passa,
Ou de nós vos escapais,
Lançais-nos em cruel tormento,
Num labirinto o pensamento,
Furioso desimaginado
Que vos digo bem magoado,
Se todos fossem iguais,
Eu julgava-vos uma desgraça!...
O fogo das flores
São quimeras populares...
(In Árvores de Fogo, Cinza do Tempo)
Que suplício... Que caso de dor...
Se fossemos só nós, de amor;
Mas o mal que o corpo tem,
por outrem é igual sentido!
Se no peito escondido,
Ou na alma sepultado,
Há quem viva de amor contente;
Mesmo que o amor mate gente,
Há quem se diga de amor curado!...
E vós, grossa ameaça,
Cá por dentro nos matais...
Mas, se acaso amor só por nós passa,
Ou de nós vos escapais,
Lançais-nos em cruel tormento,
Num labirinto o pensamento,
Furioso desimaginado
Que vos digo bem magoado,
Se todos fossem iguais,
Eu julgava-vos uma desgraça!...
O fogo das flores
São quimeras populares...
(In Árvores de Fogo, Cinza do Tempo)
883
Maria do Socorro Ribeiro
Quando eu tinha você
Quando a vida era nós dois,
O nosso mundo era festa...
Cantavam as coisas naturais,
Nossos canteiros eram floridos,
Nossa mansão - um gorgeio,
Tínhamos o nosso Irapuru...
Quando a vida era nós dois,
Multiplicavam-se os afetos,
Cresciam as afeições...
O nosso endereço era convite,
Chama de cartões dourados...
Quando a vida era nós dois,
As manifestações sociais
Enchiam nossa sombra
e cantavam "parabéns prá você"..
O nosso balão subia
Como uma afirmação de fé
Para as bençãos de Deus...
O nosso mundo era festa...
Cantavam as coisas naturais,
Nossos canteiros eram floridos,
Nossa mansão - um gorgeio,
Tínhamos o nosso Irapuru...
Quando a vida era nós dois,
Multiplicavam-se os afetos,
Cresciam as afeições...
O nosso endereço era convite,
Chama de cartões dourados...
Quando a vida era nós dois,
As manifestações sociais
Enchiam nossa sombra
e cantavam "parabéns prá você"..
O nosso balão subia
Como uma afirmação de fé
Para as bençãos de Deus...
858
Gerardo Mello Mourão
Digo o que vi — pois vi os anjos
Digo o que vi — pois vi os anjos
montados no lombo das poldras azuis
galopando nos potreiros ao redor da cidade — e digo
o que ouvi —
pois ouvi dizer que as deusas moribundas
voltavam à adolescência no crepúsculo
e se entregavam aos anjos
no lombo das poldras azuis
e muitas outras coisas sei
de ver e de ouvir dizer
sobre anjos e deuses
alguns deuses:
subi à montante do rio dos jaguares
no dorso dos crocodilos e achei
a nascente das águas — e escanchado
no espinhado dos sáurios
passei a divisa das águas — perguntei
todos os caminhos do mar
ao abismo à espuma à latitude
e à longitude — pois habitei
minha própria lonjura
e meu álibi:
a corrente das águas carregando
a imagem de meu rosto por onde
a figura se configura — pois habito
meus próprios álibis:
ali estou onde desejo estar — e desejo
o caminho de teus rastros onde
confinado e livre
confino o mundo — pois o prisioneiro
engenha a liberdade —
engenheiro
do dia e da noite
aloeste a sudeste a nornordeste
e quem queira encontrar-me há de seguir
a rota dos abismos — pois
incola do abismo — o abismo
é meu porto e minha pátria
ego poeta cidadão do abismo
pois mordi, Apolo, a fruta de teu nome
e, conheci o sal e o mel e o vinagre e a pimenta
da palavra — o sangue
dos seres e das coisas e seu vinho e sou
o bêbado dos abismos onde
veraneio os meses entre
demônios cartomantes:
— um moço louro a traição periga há uns
papéis confusos longas viagens dinheiros
curtos a mulher morena em lágrimas uma solteira
uma casada e lágrimas pela porta da rua
outra mulher mais outra
empalidece e treme o valete de espadas
uma ruiva pela porta da. rua por onde as já
citadas lágrimas risco de morte uma herança uma estrela
seus astres e desastres:
— "embaralhe o baralho" — e a mão astuta
arqueava as cartas e embaralhava os naipes
descia
ao abismo de seus signos cercado
de profecias por todos os lados
pois enxergava sempre a musa ali
e o coração estremecia aos olhos
da pythia alcovitada — e às vezes
fulgurei em seus olhos e em meus olhos
conheci minha verônica
— pois o que sei de mim
sei por uma sibila, pelas cartomantes
pelas ciganas rastreando as linhas
de minha mão
e o que sei do mundo
é o que sei de mim pelos profetas
é o que sei de mim
por ouvir dizer
é o que sei dos defuntos
na lívida escritura de seus rostos hirtos
entre cravos e rosas quando
meus olhos se agoniam sobre
seus pergaminhos — entre
o hieróglifo de seus dedos rúnicos
e o silêncio pulcro de seus lábios rupestres
Mas um dia rompo o meu silêncio — e as rosas
começam a cair de minha boca
as rosas e as estrelas
e os circunstantes atônitos
me tiram reverentes o chapéu
e dobram os joelhos e me beijam os pés
e quando se erguem
escarnecem de mim e de si mesmos
pois já não se vê mais
que a poeira de um rastro
a aparição e a desaparição — e as rosas
voltam a fechar-se em seus botões de silêncio diante
das estejas apagadas pelo sopro do vento
e sou apenas o que fui — e fui
apenas o que serei na boca dos profetas
dos contadores de lendas
eterno
toda vez que as cartomantes inventem
ao olhar de uma trêmula mulher
o perigo de um príncipe a caminho
e na palma da mão entre o monte de Vênus
e a linha do destino — o presságio
de meu nome alegrará um coração que espera
a chegada da esperança.
Não sou — já fui
não fui — serei
serei o que teria sido
num país que carrego nas pupilas
ego, poeta, Pigafetta
meus olhos pisam meu chão
e caminho pisando os próprios olhos
meus pés escrevem no celeste espaço
com o coruscante stil nuovo
do pentestrelo
minha bitácora — pois escrivão
de Capricórnio tenho por nome
meu pseudônimo
—Caramuru
ou Monteverde? —
montados no lombo das poldras azuis
galopando nos potreiros ao redor da cidade — e digo
o que ouvi —
pois ouvi dizer que as deusas moribundas
voltavam à adolescência no crepúsculo
e se entregavam aos anjos
no lombo das poldras azuis
e muitas outras coisas sei
de ver e de ouvir dizer
sobre anjos e deuses
alguns deuses:
subi à montante do rio dos jaguares
no dorso dos crocodilos e achei
a nascente das águas — e escanchado
no espinhado dos sáurios
passei a divisa das águas — perguntei
todos os caminhos do mar
ao abismo à espuma à latitude
e à longitude — pois habitei
minha própria lonjura
e meu álibi:
a corrente das águas carregando
a imagem de meu rosto por onde
a figura se configura — pois habito
meus próprios álibis:
ali estou onde desejo estar — e desejo
o caminho de teus rastros onde
confinado e livre
confino o mundo — pois o prisioneiro
engenha a liberdade —
engenheiro
do dia e da noite
aloeste a sudeste a nornordeste
e quem queira encontrar-me há de seguir
a rota dos abismos — pois
incola do abismo — o abismo
é meu porto e minha pátria
ego poeta cidadão do abismo
pois mordi, Apolo, a fruta de teu nome
e, conheci o sal e o mel e o vinagre e a pimenta
da palavra — o sangue
dos seres e das coisas e seu vinho e sou
o bêbado dos abismos onde
veraneio os meses entre
demônios cartomantes:
— um moço louro a traição periga há uns
papéis confusos longas viagens dinheiros
curtos a mulher morena em lágrimas uma solteira
uma casada e lágrimas pela porta da rua
outra mulher mais outra
empalidece e treme o valete de espadas
uma ruiva pela porta da. rua por onde as já
citadas lágrimas risco de morte uma herança uma estrela
seus astres e desastres:
— "embaralhe o baralho" — e a mão astuta
arqueava as cartas e embaralhava os naipes
descia
ao abismo de seus signos cercado
de profecias por todos os lados
pois enxergava sempre a musa ali
e o coração estremecia aos olhos
da pythia alcovitada — e às vezes
fulgurei em seus olhos e em meus olhos
conheci minha verônica
— pois o que sei de mim
sei por uma sibila, pelas cartomantes
pelas ciganas rastreando as linhas
de minha mão
e o que sei do mundo
é o que sei de mim pelos profetas
é o que sei de mim
por ouvir dizer
é o que sei dos defuntos
na lívida escritura de seus rostos hirtos
entre cravos e rosas quando
meus olhos se agoniam sobre
seus pergaminhos — entre
o hieróglifo de seus dedos rúnicos
e o silêncio pulcro de seus lábios rupestres
Mas um dia rompo o meu silêncio — e as rosas
começam a cair de minha boca
as rosas e as estrelas
e os circunstantes atônitos
me tiram reverentes o chapéu
e dobram os joelhos e me beijam os pés
e quando se erguem
escarnecem de mim e de si mesmos
pois já não se vê mais
que a poeira de um rastro
a aparição e a desaparição — e as rosas
voltam a fechar-se em seus botões de silêncio diante
das estejas apagadas pelo sopro do vento
e sou apenas o que fui — e fui
apenas o que serei na boca dos profetas
dos contadores de lendas
eterno
toda vez que as cartomantes inventem
ao olhar de uma trêmula mulher
o perigo de um príncipe a caminho
e na palma da mão entre o monte de Vênus
e a linha do destino — o presságio
de meu nome alegrará um coração que espera
a chegada da esperança.
Não sou — já fui
não fui — serei
serei o que teria sido
num país que carrego nas pupilas
ego, poeta, Pigafetta
meus olhos pisam meu chão
e caminho pisando os próprios olhos
meus pés escrevem no celeste espaço
com o coruscante stil nuovo
do pentestrelo
minha bitácora — pois escrivão
de Capricórnio tenho por nome
meu pseudônimo
—Caramuru
ou Monteverde? —
1 220
Mario Ribeiro Martins
Sonhador
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
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