Poemas neste tema
Alma
José Eustáquio da Silva
Psicograma
já estou morto de viver
basta-me ver a lua
não tem rua onde moro
nem motivo porque choro
existem espinhos demais
não quero mais
chega de poesia
bastam-me as estrelas
quando eu puder sorrir
a lua será cheia
a rua será alegre
motivo não terá motivo
e as estrelas
sorriram também
basta-me ver a lua
não tem rua onde moro
nem motivo porque choro
existem espinhos demais
não quero mais
chega de poesia
bastam-me as estrelas
quando eu puder sorrir
a lua será cheia
a rua será alegre
motivo não terá motivo
e as estrelas
sorriram também
865
João Marcio Furtado Costa
Amartemática
Amartemática
(03/96)
Tem-se na adrenalina,
um perfeito combustível,
pra tornar a linha reta,
caminho impossível.
Por que, então, sentir-se,
andando em círculos,
se na verdade, somente,
perdeste os vínculos?
Vê que a sensação,
é de tormento e de frio,
quando a interseção,
é um conjunto vazio.
Se não é quadrado, o cateto,
ou se a hipotenusa é saliente,
pode pintar um triângulo,
de amor resiliente.
Relações de conjuntos,
tendendo a viscerais,
resolvem-se na união,
de soluções integrais.
Se plenas de prazer,
que sejam constantes,
ou frequência baixa,
para fases distantes.
Derivadas do amor,
são riscos incólumes,
dão origem às flores,
e séries de proles.
(03/96)
Tem-se na adrenalina,
um perfeito combustível,
pra tornar a linha reta,
caminho impossível.
Por que, então, sentir-se,
andando em círculos,
se na verdade, somente,
perdeste os vínculos?
Vê que a sensação,
é de tormento e de frio,
quando a interseção,
é um conjunto vazio.
Se não é quadrado, o cateto,
ou se a hipotenusa é saliente,
pode pintar um triângulo,
de amor resiliente.
Relações de conjuntos,
tendendo a viscerais,
resolvem-se na união,
de soluções integrais.
Se plenas de prazer,
que sejam constantes,
ou frequência baixa,
para fases distantes.
Derivadas do amor,
são riscos incólumes,
dão origem às flores,
e séries de proles.
658
Jorge Nascimento
Temporalidade do Desígnio
Já é tempo de construir o poema,
sentir que tudo foi exposto à crítica
e assim revisitar ocultos locais da mente.
Já é tempo de codificar o estilo,
confrontá-lo com as horas mortas
e reanimar todos os sentimentos vazios.
Já é tempo de atribuir-se condição
e sobrepor-se acima do tédio vital,
reanimando sozinho todas as vicissitudes.
Já é tempo de não contemporizar com os erros
e demonstrá-los na imperfeita tábua da lei,
feita para administrar os mais íntimos conflitos.
Já é tempo de renunciar ao medo e expor-se
aos desígnios do tempo magoados de esperanças.
Já é tempo de retornar ao amor das palavras impronunciadas,
readquirindo confiança na sabedoria das sílabas tortas
e novamente sentir a febre de quem recomeça a vida
com a certeza de estiolar novas e gradativas angústias
em meio ao torpor das inutilidades,
fazendo-se monge da solidão e confessor de si mesmo
e fugir para o desvão das ruas noturnas e becos absconsos.
Somente assim será possível a reconstrução tão almejada
de reflorescer no presente as esperanças mortas do passado
que ainda insistem em sobreviver de alegorias
e expectativas elementares que se iniciam
com a nitidez das auroras e fundam-se
com o ácido arrebol das ilusões partidas.
Já é tempo de recomeçar a viver mais uma vez
cultivando sonhos e recusando realidades
e deste modo retornar tranqüilo e confiante
ao deserto onírico das mágoas crepusculares
tão sábias em tecer enigmas e decifrar antigos sofrimentos.
sentir que tudo foi exposto à crítica
e assim revisitar ocultos locais da mente.
Já é tempo de codificar o estilo,
confrontá-lo com as horas mortas
e reanimar todos os sentimentos vazios.
Já é tempo de atribuir-se condição
e sobrepor-se acima do tédio vital,
reanimando sozinho todas as vicissitudes.
Já é tempo de não contemporizar com os erros
e demonstrá-los na imperfeita tábua da lei,
feita para administrar os mais íntimos conflitos.
Já é tempo de renunciar ao medo e expor-se
aos desígnios do tempo magoados de esperanças.
Já é tempo de retornar ao amor das palavras impronunciadas,
readquirindo confiança na sabedoria das sílabas tortas
e novamente sentir a febre de quem recomeça a vida
com a certeza de estiolar novas e gradativas angústias
em meio ao torpor das inutilidades,
fazendo-se monge da solidão e confessor de si mesmo
e fugir para o desvão das ruas noturnas e becos absconsos.
Somente assim será possível a reconstrução tão almejada
de reflorescer no presente as esperanças mortas do passado
que ainda insistem em sobreviver de alegorias
e expectativas elementares que se iniciam
com a nitidez das auroras e fundam-se
com o ácido arrebol das ilusões partidas.
Já é tempo de recomeçar a viver mais uma vez
cultivando sonhos e recusando realidades
e deste modo retornar tranqüilo e confiante
ao deserto onírico das mágoas crepusculares
tão sábias em tecer enigmas e decifrar antigos sofrimentos.
870
José Eustáquio da Silva
Visões
vida vale violão
lambada lombo
poesia pingada peão
caravelas colombo
mar morto multidão
ter tudo testamento
alma alma assombração
coração consentimento
filho falho fatalidade
dúvida doentia
moço moça mocidade
arrebanhando alegria
lambada lombo
poesia pingada peão
caravelas colombo
mar morto multidão
ter tudo testamento
alma alma assombração
coração consentimento
filho falho fatalidade
dúvida doentia
moço moça mocidade
arrebanhando alegria
875
Jorge Nascimento
Auto-retrato
Cresce dentro de mim, doloroso, humilde pranto;
Alma surda e esquizofrênica, inútil de tristezas,
Desertei da vida pela aspiração do amargo canto
E mesmo assim ainda tive que banhar-me de torpezas;
Quem agora irá prover a insanidade do meu sonho,
Eu, que sempre tive o bem ajustado e negro desvario
De nunca permanecer nas proporções onde me ponho,
Errante e só, comandado pela minha bússola de desvio
Sempre a refulgir, nos oceanos de uma sinistra paz;
Meu reino imbecil, descoberto por defeituoso impostor,
Repetente de todas as classes da infâmia sempre audaz;
Minha terra sombria de obscenidade, na voz de um homem
A quem determinaram inteira sujeição ao destino opressor,
Abençoado, enquanto vida tiver, as horas que me consomem!
Alma surda e esquizofrênica, inútil de tristezas,
Desertei da vida pela aspiração do amargo canto
E mesmo assim ainda tive que banhar-me de torpezas;
Quem agora irá prover a insanidade do meu sonho,
Eu, que sempre tive o bem ajustado e negro desvario
De nunca permanecer nas proporções onde me ponho,
Errante e só, comandado pela minha bússola de desvio
Sempre a refulgir, nos oceanos de uma sinistra paz;
Meu reino imbecil, descoberto por defeituoso impostor,
Repetente de todas as classes da infâmia sempre audaz;
Minha terra sombria de obscenidade, na voz de um homem
A quem determinaram inteira sujeição ao destino opressor,
Abençoado, enquanto vida tiver, as horas que me consomem!
1 043
José Eustáquio da Silva
Coadjuvante
não sou dono, tomo conta
não sou pai, sou referência
não sou filho sou produto
não sou estou
não tenho alugo
não choro me calo
não sorrio riem de mim...
não sofro, me agüento
não rezo, espero
não faço, obedeço
não crio, recrio
não durmo, adormeço
não quero, basta-me sonhar
não vejo, me mostram
não penso, dispenso
não falo, ouço
não vou, já estou de volta
não grito, silencio
não dou opiniões, observo
não tenho amigos, brinco com letras
não tenho motivos, faço poesias
não tenho razão, tenho coração
não tenho dinheiro, tenho inspiração
não construo, imagino
não canto, caetaneio
não escrevo, sinto
não minto, invento
não sou nada, sou eu
não tento, desisto
não vivo
existo...
não sou pai, sou referência
não sou filho sou produto
não sou estou
não tenho alugo
não choro me calo
não sorrio riem de mim...
não sofro, me agüento
não rezo, espero
não faço, obedeço
não crio, recrio
não durmo, adormeço
não quero, basta-me sonhar
não vejo, me mostram
não penso, dispenso
não falo, ouço
não vou, já estou de volta
não grito, silencio
não dou opiniões, observo
não tenho amigos, brinco com letras
não tenho motivos, faço poesias
não tenho razão, tenho coração
não tenho dinheiro, tenho inspiração
não construo, imagino
não canto, caetaneio
não escrevo, sinto
não minto, invento
não sou nada, sou eu
não tento, desisto
não vivo
existo...
1 085
José Eustáquio da Silva
Confidente
dedos à deriva
navegando entre cordas
nau sem direção
neste mar meu violão
toada dissonante
mar revolto intrigante
maremoto de saudade
avesso de realidade
desafino de coração
geme violão
confidente dos meus ais
não quero mais
navegar assim
geme violão
confidente dos meus ais
não quero mais
me afogar assim
navegando entre cordas
nau sem direção
neste mar meu violão
toada dissonante
mar revolto intrigante
maremoto de saudade
avesso de realidade
desafino de coração
geme violão
confidente dos meus ais
não quero mais
navegar assim
geme violão
confidente dos meus ais
não quero mais
me afogar assim
1 073
João Gulart de Souza Gomos
blas fêmea
Há uma vastidão de desejos
entre os teus seios...
...que ira maior poderia haver
que o varrer dos meus dentes
no teu ventre?
E me deixar
sumir em teus abismos
Nem os braços abertos de um cristo
tanto fariam.
Iludiriam mesmo a alma
do mais crente dos homens
(não são para mim, demasiado humano)
mortal demais,
insano
indigno dos teus lençóis
Goulart Gomes, Salvador, BA
entre os teus seios...
...que ira maior poderia haver
que o varrer dos meus dentes
no teu ventre?
E me deixar
sumir em teus abismos
Nem os braços abertos de um cristo
tanto fariam.
Iludiriam mesmo a alma
do mais crente dos homens
(não são para mim, demasiado humano)
mortal demais,
insano
indigno dos teus lençóis
Goulart Gomes, Salvador, BA
903
João Nepomuceno Kubitschek
Eurico
Hermengarda! ousei amá-la
De Favila a nobre filha,
Das Espanhas maravilha,
Mimoso esmero dos céus!
Ousei construir-lhe um templo
De adoração na minha alma,
Sonhei a vida tão calma,
Vendo o céu nos olhos seus!
Que era eu pra tão alto
Erguer meu amor ardente?
Era um tiufado valente,
Um gardingo, nada mais!
Na raça dos meus não tinha
Priscos brasões de nobreza,
Não tinha tanta riqueza
Como os cofres de seus pais.
O orgulho e a ambição se ergueram
Entre nós — muro gigante!
Quem pode transpô-lo ovante?
O leão rugiu de dor.
Entre nós abriu-se a fauce
De imenso abismo sem fundo:
De um lado, os homens, o mundo;
De outro lado, o nosso amor!
Era impossível! Que importa
Tivesse os afetos santos,
Como o diziam meus prantos,
Minhas lágrimas de fel?
Das esferas diamantinas,
Do céu azul da ventura,
Despenhei-me à noite escura,
Como o arcanjo revel.
Nunca da virgem o amículo
Beijará meu lábio ardente;
Sua alma pura, inocente,
Não me dará um sorrir;
Nunca a bênção do presbítero
Ligará nossos destinos;
Do noivado os santos hinos
No templo não hei de ouvir!
Nunca! Flama dos infernos
Que a flor da esperança abrasa;
Estilete agudo em brasa
Nas fibras do coração;
Nuvem prenhe de tormentas
Que no céu rugindo passa;
Hiena que despedaça
Minha mais bela ilusão!
Fugi dos homens! No claustro
Fui chorar minha desdita;
À santa virgem bendita
Fui pedir consolações;
Quis de mim próprio exilar-me,
Exilando-me do mundo,
Do olvido arrojar ao fundo
Do passado as aflições.
E o céu na profunda chaga
Doce bálsamo vertia;
Serena melancolia
Pairou no servo da cruz;
E dos meus lábios brotaram
Cânticos pios, suaves,
Que reboaram nas naves,
Das catedrais de Jesus.
Depois... travou-se o conflito
Entre Deus e a imagem linda,
Porque no meu peito ainda
Não se extinguira a paixão:
Ora a razão imperando
Na consciência — Deus — bradava
Ora em delírios clamava
— Hermengarda — o coração.
Em vão entre mim e o mundo
Ergui a imensa barreira,
E do templo na soleira
Lhe disse um eterno adeus;
Toda vestida de encantos,
Vinha a imagem da donzela
Sorrir-me na erma cela,
Qual mensageiro dos céus.
Ei-la — do cair das tardes
Nos coloridos vapores,
Da aurora nos resplendores,
Na branca luz do luar,
Na hóstia do sacrifício,
Nas flores ao pé das cruzes,
Dos bentos círios nas luzes,
Nos ornamentos do altar.
Dizei, virações noturnas,
Esta história de agonias,
Do Calpe nas penedias,
Na mais funda solidão!
Que não chegue ao mundo um eco
Deste amor que me acompanha,
Que como brônzea montanha,
Me pesa no coração.
Cala estas dores, minha alma...
A serpente do deserto
Já dispara o bote certo
E ensangüenta o chão natal;
Sobre um montão de ruínas
Campeia altivo o Crescente,
Por onde avança a torrente
Surgem os gênios do mal.
E tu, bela Espanha! o louro,
Colhido ao sol das vitórias,
Emblema das tuas glórias,
Te vai da fronte cair?
Na espúria raça de hoje
Não tens mais valentes filhos,
Que acendam de novo os brilhos
Da estrela do teu porvir?
Como tigres da vingança,
Teus soldados não mais rugem?
Embotou a vil ferrugem
Os gládios da nobre grei?
Não é mais fouce de morte
O franskisk do visigodo?
Não provaram-lhe o denodo
As águias do povo — rei?
Silêncio! O vento do norte
Lá passa em busca dos mares!
Silêncio! Ecoou nos ares
Um grito de maldição!
É o César das montanhas,
É o Pelaio, aceso em fúrias,
Na caverna das Astúrias
Bramindo como um leão.
Também no horror dos combates,
Eu fui um soldado forte,
Semeei o estrago, a morte,
Como um raio vingador;
Pela armadura de ferro
Troquei a estringe sagrada,
Pela borda ensangüentada
Meu cajado de pastor.
E as hostes fugiam lívidas
Diante do meu aspeito...
Nem uma flecha meu peito
Não veio rasgar sequer!
E ainda no caos revolto
Dessas guerreiras falanges,
No afuzilar dos alfanjes
Tu me sorrias, mulher!
Disseste-me um dia a história
De teus infantis amores...
Por que orvalhaste flores
Que não podiam viçar?
Fundir minha alma na tua
Em cadeia indestrutível...
Oh! nunca! nunca! impossível
Entre nós está o altar!
Ó Deus! do abismo do nada
Por que meu ser arrancaste?
Por que no mundo o atiraste,
Como em funesta prisão?
Que uma alma cristã não possa
Apagar da vida o lume,
Enterrar de um ferro o gume
Bem fundo no coração!...
De Favila a nobre filha,
Das Espanhas maravilha,
Mimoso esmero dos céus!
Ousei construir-lhe um templo
De adoração na minha alma,
Sonhei a vida tão calma,
Vendo o céu nos olhos seus!
Que era eu pra tão alto
Erguer meu amor ardente?
Era um tiufado valente,
Um gardingo, nada mais!
Na raça dos meus não tinha
Priscos brasões de nobreza,
Não tinha tanta riqueza
Como os cofres de seus pais.
O orgulho e a ambição se ergueram
Entre nós — muro gigante!
Quem pode transpô-lo ovante?
O leão rugiu de dor.
Entre nós abriu-se a fauce
De imenso abismo sem fundo:
De um lado, os homens, o mundo;
De outro lado, o nosso amor!
Era impossível! Que importa
Tivesse os afetos santos,
Como o diziam meus prantos,
Minhas lágrimas de fel?
Das esferas diamantinas,
Do céu azul da ventura,
Despenhei-me à noite escura,
Como o arcanjo revel.
Nunca da virgem o amículo
Beijará meu lábio ardente;
Sua alma pura, inocente,
Não me dará um sorrir;
Nunca a bênção do presbítero
Ligará nossos destinos;
Do noivado os santos hinos
No templo não hei de ouvir!
Nunca! Flama dos infernos
Que a flor da esperança abrasa;
Estilete agudo em brasa
Nas fibras do coração;
Nuvem prenhe de tormentas
Que no céu rugindo passa;
Hiena que despedaça
Minha mais bela ilusão!
Fugi dos homens! No claustro
Fui chorar minha desdita;
À santa virgem bendita
Fui pedir consolações;
Quis de mim próprio exilar-me,
Exilando-me do mundo,
Do olvido arrojar ao fundo
Do passado as aflições.
E o céu na profunda chaga
Doce bálsamo vertia;
Serena melancolia
Pairou no servo da cruz;
E dos meus lábios brotaram
Cânticos pios, suaves,
Que reboaram nas naves,
Das catedrais de Jesus.
Depois... travou-se o conflito
Entre Deus e a imagem linda,
Porque no meu peito ainda
Não se extinguira a paixão:
Ora a razão imperando
Na consciência — Deus — bradava
Ora em delírios clamava
— Hermengarda — o coração.
Em vão entre mim e o mundo
Ergui a imensa barreira,
E do templo na soleira
Lhe disse um eterno adeus;
Toda vestida de encantos,
Vinha a imagem da donzela
Sorrir-me na erma cela,
Qual mensageiro dos céus.
Ei-la — do cair das tardes
Nos coloridos vapores,
Da aurora nos resplendores,
Na branca luz do luar,
Na hóstia do sacrifício,
Nas flores ao pé das cruzes,
Dos bentos círios nas luzes,
Nos ornamentos do altar.
Dizei, virações noturnas,
Esta história de agonias,
Do Calpe nas penedias,
Na mais funda solidão!
Que não chegue ao mundo um eco
Deste amor que me acompanha,
Que como brônzea montanha,
Me pesa no coração.
Cala estas dores, minha alma...
A serpente do deserto
Já dispara o bote certo
E ensangüenta o chão natal;
Sobre um montão de ruínas
Campeia altivo o Crescente,
Por onde avança a torrente
Surgem os gênios do mal.
E tu, bela Espanha! o louro,
Colhido ao sol das vitórias,
Emblema das tuas glórias,
Te vai da fronte cair?
Na espúria raça de hoje
Não tens mais valentes filhos,
Que acendam de novo os brilhos
Da estrela do teu porvir?
Como tigres da vingança,
Teus soldados não mais rugem?
Embotou a vil ferrugem
Os gládios da nobre grei?
Não é mais fouce de morte
O franskisk do visigodo?
Não provaram-lhe o denodo
As águias do povo — rei?
Silêncio! O vento do norte
Lá passa em busca dos mares!
Silêncio! Ecoou nos ares
Um grito de maldição!
É o César das montanhas,
É o Pelaio, aceso em fúrias,
Na caverna das Astúrias
Bramindo como um leão.
Também no horror dos combates,
Eu fui um soldado forte,
Semeei o estrago, a morte,
Como um raio vingador;
Pela armadura de ferro
Troquei a estringe sagrada,
Pela borda ensangüentada
Meu cajado de pastor.
E as hostes fugiam lívidas
Diante do meu aspeito...
Nem uma flecha meu peito
Não veio rasgar sequer!
E ainda no caos revolto
Dessas guerreiras falanges,
No afuzilar dos alfanjes
Tu me sorrias, mulher!
Disseste-me um dia a história
De teus infantis amores...
Por que orvalhaste flores
Que não podiam viçar?
Fundir minha alma na tua
Em cadeia indestrutível...
Oh! nunca! nunca! impossível
Entre nós está o altar!
Ó Deus! do abismo do nada
Por que meu ser arrancaste?
Por que no mundo o atiraste,
Como em funesta prisão?
Que uma alma cristã não possa
Apagar da vida o lume,
Enterrar de um ferro o gume
Bem fundo no coração!...
1 130
João Gulart de Souza Gomos
a insustentável leveza do amor
Que ninguém saiba:
falo dos teus olhos
Terras castanhas, precipício de almas;
Que ninguém veja:
falo do teu riso
Oceano de ritmos, vertigem e calma.
Que ninguém ouça:
falo da tua voz
Perdição de Ulisses em alto mar;
Que ninguém toque:
falo das tuas mãos
Recriar do mundo, elementar.
Que ninguém sinta:
falo da tua boca
Pura seda, roçar de borboletas;
Que ninguém aspire:
falo do teu cheiro
Inspiração eterna de poetas.
Que ninguém ouse:
falo do teu corpo
Porção visível do infinito;
Que ninguém duvide:
falo do que sinto
Amor assim não houve, mais bonito.
Que ninguém entenda:
o amor é um hiato
Entre o vivido e o sonhado;
Que ninguém tema:
o amor é imponderável
Fluido, muito além do leve ou do pesado.
Goulart Gomes, Salvador, BA
falo dos teus olhos
Terras castanhas, precipício de almas;
Que ninguém veja:
falo do teu riso
Oceano de ritmos, vertigem e calma.
Que ninguém ouça:
falo da tua voz
Perdição de Ulisses em alto mar;
Que ninguém toque:
falo das tuas mãos
Recriar do mundo, elementar.
Que ninguém sinta:
falo da tua boca
Pura seda, roçar de borboletas;
Que ninguém aspire:
falo do teu cheiro
Inspiração eterna de poetas.
Que ninguém ouse:
falo do teu corpo
Porção visível do infinito;
Que ninguém duvide:
falo do que sinto
Amor assim não houve, mais bonito.
Que ninguém entenda:
o amor é um hiato
Entre o vivido e o sonhado;
Que ninguém tema:
o amor é imponderável
Fluido, muito além do leve ou do pesado.
Goulart Gomes, Salvador, BA
900
José Eustáquio da Silva
Quem Somos Nós?
desenvolva
não envolva
lute e deguste
o prazer de se chegar
a um merecido
nenhum lugar
arrase a razão
prenda a prisão
da precisa imprecisão
dos infames imprestáveis
ame o ódio
dos que te odeiam
leia os lábios mudos
daqueles que te olham
ame tudo que não existe
e acredite no amor
a existência é uma experiência
cujos ratos somos nós...
meu deus eu não agüento mais
ficar assim tão quieto
me diga então enquanto vivo:
será que vamos dar certo?
não envolva
lute e deguste
o prazer de se chegar
a um merecido
nenhum lugar
arrase a razão
prenda a prisão
da precisa imprecisão
dos infames imprestáveis
ame o ódio
dos que te odeiam
leia os lábios mudos
daqueles que te olham
ame tudo que não existe
e acredite no amor
a existência é uma experiência
cujos ratos somos nós...
meu deus eu não agüento mais
ficar assim tão quieto
me diga então enquanto vivo:
será que vamos dar certo?
929
João Marcio Furtado Costa
O Tempo e a Vida
O Tempo e a Vida
(04/96)
Da vida vivida, a medida é o estado de energia,
e o limite é o próprio tempo: remédio e dimensão.
Passado, presente e futuro, fases da cronologia,
resultante da vivência, da razão e emoção.
Não se vive do passado, o passado, já passou,
não se muda ou se arrepende, se aprende e a bola rola.
Se o presente está errado, se ele é o fardo que restou,
então se muda, se corrige ou se joga a vida fora.
A vida se apresenta e vivo hoje, e vivendo eu faço a hora.
O sonho, eu sonho agora e realizo no amanhã.
O passado foi embora, é uma novela que acabou.
Se o tempo não parou, não sou eu quem vai parar,
comete suicídio, quem vive de passa-tempo,
desperdiçar o momento, é a vida, que se quer matar.
(04/96)
Da vida vivida, a medida é o estado de energia,
e o limite é o próprio tempo: remédio e dimensão.
Passado, presente e futuro, fases da cronologia,
resultante da vivência, da razão e emoção.
Não se vive do passado, o passado, já passou,
não se muda ou se arrepende, se aprende e a bola rola.
Se o presente está errado, se ele é o fardo que restou,
então se muda, se corrige ou se joga a vida fora.
A vida se apresenta e vivo hoje, e vivendo eu faço a hora.
O sonho, eu sonho agora e realizo no amanhã.
O passado foi embora, é uma novela que acabou.
Se o tempo não parou, não sou eu quem vai parar,
comete suicídio, quem vive de passa-tempo,
desperdiçar o momento, é a vida, que se quer matar.
888
João Marcio Furtado Costa
Soneto da Mulher Azul
Soneto da Mulher Azul
(10/93)
Me inspiro em ti, valor vital, inestimável,
E miro as sombras do teu lado inexplorado.
Mesmo da poesia, sendo inexperiente,
Transformo em versos teu mistério inescrutável.
Te sinto fonte, de prazer, inesgotável,
Mas meu desejo, de tão grande é inexistente,
Pois te alcançar, plenamente, é inexeqüível,
Se tu és, às vezes, tranca inexpugnável.
Não veja em mim um homem inescrupuloso,
Por procurar não explicar teu inexplicável,
E te vestir com essas metáforas inexatas.
Pois o teor das palavras talvez seja inexpressivo,
Diante da magia, que de forma inesperada,
Te esculpiu em minha mente, mulher inesquecível.
(10/93)
Me inspiro em ti, valor vital, inestimável,
E miro as sombras do teu lado inexplorado.
Mesmo da poesia, sendo inexperiente,
Transformo em versos teu mistério inescrutável.
Te sinto fonte, de prazer, inesgotável,
Mas meu desejo, de tão grande é inexistente,
Pois te alcançar, plenamente, é inexeqüível,
Se tu és, às vezes, tranca inexpugnável.
Não veja em mim um homem inescrupuloso,
Por procurar não explicar teu inexplicável,
E te vestir com essas metáforas inexatas.
Pois o teor das palavras talvez seja inexpressivo,
Diante da magia, que de forma inesperada,
Te esculpiu em minha mente, mulher inesquecível.
885
Capinan
Canção de Minha Descoberta
Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
e pelo caminho de minha renúncia
venho buscar bandeiras novas.
Agora persigo a palavra nova
por eles que esperam com o coração amargo
e o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
e ficar em paz com a morte dos desgraçados
caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas,
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
e vou surgindo novo entre lenços brancos
agitados de dor pela mão dos homens.
Fugi de tudo que fui
e pelo caminho de minha renúncia
venho buscar bandeiras novas.
Agora persigo a palavra nova
por eles que esperam com o coração amargo
e o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
e ficar em paz com a morte dos desgraçados
caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas,
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
e vou surgindo novo entre lenços brancos
agitados de dor pela mão dos homens.
1 249
José Fernandes Fafe
Sonho
A sua presença de mulher foi-se ausentando...
A um gesto seu, diáfano, alou-se o sofrimento...
Tudo era sua voz, mas sem significar
mais que o murmúrio dum encantamento...
Prendia-nos um fio de segredo, murmurado
pelos seus olhos baixados, antes dum sorriso,
com que a meus olhos as coisas se velaram
para lá do seu rosto assim preciso...
Pudor na sua alma ou nos meus dedos?
Como é indizível essa experiência de morrer!
O que me resta é regressar à Vida,
amá-la, delicadamente, como os mortos
— se os mortos pudessem reviver.
A um gesto seu, diáfano, alou-se o sofrimento...
Tudo era sua voz, mas sem significar
mais que o murmúrio dum encantamento...
Prendia-nos um fio de segredo, murmurado
pelos seus olhos baixados, antes dum sorriso,
com que a meus olhos as coisas se velaram
para lá do seu rosto assim preciso...
Pudor na sua alma ou nos meus dedos?
Como é indizível essa experiência de morrer!
O que me resta é regressar à Vida,
amá-la, delicadamente, como os mortos
— se os mortos pudessem reviver.
999
Jorge Fonseca Jr.
Haicai
Este abacateiro
acende, ante a luz do luar,
suas suaves lâmpadas...
Ah! Uns olhos sem luz
vêm ver jasmins florescer
diante de uma cruz...
acende, ante a luz do luar,
suas suaves lâmpadas...
Ah! Uns olhos sem luz
vêm ver jasmins florescer
diante de uma cruz...
1 280
José Fernandes Fafe
Testamento, entre os pinheiros e o mar
Se eu morrer primeiro do que tu,
salva a ternura que salvei.
Depois, se te doer, firma o olhar
nas ondas mais longínquas do mar largo,
destrói a dor nas lágrimas, e o vento
que te esvoace a saia e o cabelo,
pinheiro firme, cego dos sentidos,
entre as flores silvestres e a espuma...
E o indício de tudo ter passado
(eu, um tempo feliz que se recorda)
é sentires o longo, íntimo afago
do marulho do mar, mão pelos cabelos...
salva a ternura que salvei.
Depois, se te doer, firma o olhar
nas ondas mais longínquas do mar largo,
destrói a dor nas lágrimas, e o vento
que te esvoace a saia e o cabelo,
pinheiro firme, cego dos sentidos,
entre as flores silvestres e a espuma...
E o indício de tudo ter passado
(eu, um tempo feliz que se recorda)
é sentires o longo, íntimo afago
do marulho do mar, mão pelos cabelos...
953
João Fortunato
Estela
Para Manuel Ribeiro de Paiva
Orgulho natural,
Integridade,
Um corpo que não se vende,
Humilha, ou trai.
Só agora,
Toda claridade,
Sua alma a nós se rende
E não se retrai.
E alva,frágil,
Agreste como flor de esteva,
Acima do turbilhão
Da cidade que a colheu,
Liberta, se eleva…
Orgulho natural,
Integridade,
Um corpo que não se vende,
Humilha, ou trai.
Só agora,
Toda claridade,
Sua alma a nós se rende
E não se retrai.
E alva,frágil,
Agreste como flor de esteva,
Acima do turbilhão
Da cidade que a colheu,
Liberta, se eleva…
790
João Cardoso de Meneses e Silva
A Serra de Paranapiacaba
Dorme; repousa em teu sono,
Da força pujante emblema,
Que tens o oceano por trono
E as nuvens por diadema!
Imóvel, muda, imponente,
Entestas com a excelsa frente
Das águias o azul império;
E em vastíssimo cenário
Da tormenta o quadro vário
Contemplas do espaço etéreo.
Salve, soberbo gigante,
Altivo Titã do mar,
Que aos pés contínuo descante
Ouves a vaga entoar!
Em teu manto de esmeraldas
Envolves as vastas faldas
E as empinadas cimeiras;
E a brisa te agita os cachos
E os verdejantes penachos
Da coroa de palmeiras.
Teus troncos, gravados do selo do tempo,
Meneiam aos ventos as soltas madeixas;
Quais harpas eólias, sussurram nos ares
Canções jubilosas, ou ternas endeixas.
És berço do raio; troantes estrofes
Entoa em teus bosques a voz dos trovões
E os ecos das grotas fiéis, repercutem
O tom fragoroso de roucos tufões.
Do raio ao fuzil horrendo,
E ao crebro trovão, que estruge,
De pavor estremecendo,
A feroz pantera ruge
A sinfonia assombrosa
Une-se nota estrondosa,
Que do fundo abismo sai:
É o som da catarata,
Que em alvos flocos de prata
Num leito de pedras cai.
Que majestade sublime,
Que poesia inefável
O belo ideal se imprime
Nesse quadro incomparável.
Essa cascata da serra
Parece um hino, que a terra,
Espontânea, aos céus eleva!
Então, nossa alma se humilha,
E, ante tanta maravilha,
Em santo arroubo se enleva.
Metais preciosos e gemas em cópia
Ocultas, ó serra, nas lúgubres furnas;
Retalham teu solo torrentes sem conto,
Que o velho granito despeja das urnas.
Povoam-te as selvas e negras gargantas
Inúmeras feras e enormes reptis;
Aí cantam aves, que as cores do íris
Desdobram nas asas de vário matiz.
Escuros despenhadeiros,
Se escuta o surdo ribombo,
Que vai ressoando, a espaços;
É despegado rochedo,
Pelo eriçado fraguedo
A fazer-se em mil pedaços.
Ali, que azul dilatado
Se vai prender ao dos céus?
É o mar que, encapelado,
Ergue os móveis escarcéus.
Então a vista desmaia,
Na amplidão, que além se espraia,
A perder-se no infinito.
E esse imenso panorama
De Deus o nome proclama,
Da face da terra escrito.
Desenham-se, às vezes, arfando nas ondas,
As velas de um barco, do vento enfunadas,
Quais alvas gaivotas, que à flor do oceano,
Brincando, resvalam com as asas nevadas.
Dos topes aéreos, estreitos e golfos
Semelham regatos, talhando as campinas;
Quais pontos esparsos, desdobram-se aos olhos
As casas e torres, ilhéus e colinas.
De teu cimo, a luz vibrando,
O sol na esfera flutua,
E o clarão pálido e brando
Merencória, verte a lua.
Outro céu de anil cintila
Na superfície tranqüila
Do mar, ardendo em fulgor;
E a onda, que não vanzeia,
Vem morrer na branca areia,
Orlando-a de espuma em flor.
Quem sabe se o cataclismo,
Que puniu a humanidade,
Não te fez surgir do abismo
Das ondas na imensidade?
Quem sabe, altaneira serra,
Se és coetânea da terra,
E do berço oriental?
Quem sabe de quanta vida
Foste a suprema guarida
No dilúvio universal?
Plantou-te nos mares o braço divino,
Ingente montanha — barreira das ondas! —
Quem dera perder-me contigo nas nuvens,
Também devassando mistérios, que sondas!
Prodígios, que encerras, são cordas sonoras
De uma harpa celeste de excelsa harmonia,
Que os hinos, que exala, perene descansam
A glória do Eterno, de noite e de dia.
Da força pujante emblema,
Que tens o oceano por trono
E as nuvens por diadema!
Imóvel, muda, imponente,
Entestas com a excelsa frente
Das águias o azul império;
E em vastíssimo cenário
Da tormenta o quadro vário
Contemplas do espaço etéreo.
Salve, soberbo gigante,
Altivo Titã do mar,
Que aos pés contínuo descante
Ouves a vaga entoar!
Em teu manto de esmeraldas
Envolves as vastas faldas
E as empinadas cimeiras;
E a brisa te agita os cachos
E os verdejantes penachos
Da coroa de palmeiras.
Teus troncos, gravados do selo do tempo,
Meneiam aos ventos as soltas madeixas;
Quais harpas eólias, sussurram nos ares
Canções jubilosas, ou ternas endeixas.
És berço do raio; troantes estrofes
Entoa em teus bosques a voz dos trovões
E os ecos das grotas fiéis, repercutem
O tom fragoroso de roucos tufões.
Do raio ao fuzil horrendo,
E ao crebro trovão, que estruge,
De pavor estremecendo,
A feroz pantera ruge
A sinfonia assombrosa
Une-se nota estrondosa,
Que do fundo abismo sai:
É o som da catarata,
Que em alvos flocos de prata
Num leito de pedras cai.
Que majestade sublime,
Que poesia inefável
O belo ideal se imprime
Nesse quadro incomparável.
Essa cascata da serra
Parece um hino, que a terra,
Espontânea, aos céus eleva!
Então, nossa alma se humilha,
E, ante tanta maravilha,
Em santo arroubo se enleva.
Metais preciosos e gemas em cópia
Ocultas, ó serra, nas lúgubres furnas;
Retalham teu solo torrentes sem conto,
Que o velho granito despeja das urnas.
Povoam-te as selvas e negras gargantas
Inúmeras feras e enormes reptis;
Aí cantam aves, que as cores do íris
Desdobram nas asas de vário matiz.
Escuros despenhadeiros,
Se escuta o surdo ribombo,
Que vai ressoando, a espaços;
É despegado rochedo,
Pelo eriçado fraguedo
A fazer-se em mil pedaços.
Ali, que azul dilatado
Se vai prender ao dos céus?
É o mar que, encapelado,
Ergue os móveis escarcéus.
Então a vista desmaia,
Na amplidão, que além se espraia,
A perder-se no infinito.
E esse imenso panorama
De Deus o nome proclama,
Da face da terra escrito.
Desenham-se, às vezes, arfando nas ondas,
As velas de um barco, do vento enfunadas,
Quais alvas gaivotas, que à flor do oceano,
Brincando, resvalam com as asas nevadas.
Dos topes aéreos, estreitos e golfos
Semelham regatos, talhando as campinas;
Quais pontos esparsos, desdobram-se aos olhos
As casas e torres, ilhéus e colinas.
De teu cimo, a luz vibrando,
O sol na esfera flutua,
E o clarão pálido e brando
Merencória, verte a lua.
Outro céu de anil cintila
Na superfície tranqüila
Do mar, ardendo em fulgor;
E a onda, que não vanzeia,
Vem morrer na branca areia,
Orlando-a de espuma em flor.
Quem sabe se o cataclismo,
Que puniu a humanidade,
Não te fez surgir do abismo
Das ondas na imensidade?
Quem sabe, altaneira serra,
Se és coetânea da terra,
E do berço oriental?
Quem sabe de quanta vida
Foste a suprema guarida
No dilúvio universal?
Plantou-te nos mares o braço divino,
Ingente montanha — barreira das ondas! —
Quem dera perder-me contigo nas nuvens,
Também devassando mistérios, que sondas!
Prodígios, que encerras, são cordas sonoras
De uma harpa celeste de excelsa harmonia,
Que os hinos, que exala, perene descansam
A glória do Eterno, de noite e de dia.
1 613
José Eduardo Mendes Camargo
Recordações
Desejo me enlear em teus braços,
Envolver o teu corpo,
Penetrar a tua alma...
E num momento de fusão e intenso prazer,
Exorcizar todos os medos e julgamentos,
Libertar-me de quaisquer preconceitos
E na alegria sublime do amor
Encontrar a paz e a eternidade,
No encontro de mim mesmo
E com o passar do tempo,
Recolher este momento mágico de ternura,
Em nosso álbum das melhores recordações.
Envolver o teu corpo,
Penetrar a tua alma...
E num momento de fusão e intenso prazer,
Exorcizar todos os medos e julgamentos,
Libertar-me de quaisquer preconceitos
E na alegria sublime do amor
Encontrar a paz e a eternidade,
No encontro de mim mesmo
E com o passar do tempo,
Recolher este momento mágico de ternura,
Em nosso álbum das melhores recordações.
727
José Eduardo Mendes Camargo
Luminescência
Vou despertar como o Sol,
Atravessando nuvens,
Desvirginando sombras,
Aquecendo corpos
E perdendo-me no horizonte.
Vou me recolher como a Lua
Refletindo-me no espelho das águas,
Dançando entre as estrelas,
Iluminando os caminhos dos encontros.
Vou me fundir em tua Luz,
E da nossa união
Um clarão de luminosidade
Resplandecerá no Universo.
Atravessando nuvens,
Desvirginando sombras,
Aquecendo corpos
E perdendo-me no horizonte.
Vou me recolher como a Lua
Refletindo-me no espelho das águas,
Dançando entre as estrelas,
Iluminando os caminhos dos encontros.
Vou me fundir em tua Luz,
E da nossa união
Um clarão de luminosidade
Resplandecerá no Universo.
773
João Dummar
Oceano
Eu quero, amada
que versos brotem
de meu pensamento e de meus lábios
com a força do repente
na alegria dos cantadores.
Que não sejam palavras vãs
e não se percam
no vento da tarde
mas que se gravem no seu coração
que te impulsionem,
na direção do ser
que nos façam descobrir
o mistério de conviver.
Fascinante é penetrar
no mundo dos enigmas
e mergulhar na profundeza
destes oceanos
que se espraiam
em nós.
que versos brotem
de meu pensamento e de meus lábios
com a força do repente
na alegria dos cantadores.
Que não sejam palavras vãs
e não se percam
no vento da tarde
mas que se gravem no seu coração
que te impulsionem,
na direção do ser
que nos façam descobrir
o mistério de conviver.
Fascinante é penetrar
no mundo dos enigmas
e mergulhar na profundeza
destes oceanos
que se espraiam
em nós.
850
José da Cunha Cardoso
Soneto
Essa nobre matrona, que impelida
De um generoso amor, fez a memória
Do seu ilustre nome tão notória,
Quanto no mundo todo esclarecida,
Os golpes não temeu do matricida
(Exemplo digno de imortal história)
Antes ambicionou do filho a glória
Dando por preço dela a própria vida.
Agripina, que a vida assim despreza,
Segura as adoções da eternidade
Nesta de amor materno alta fineza.
Que é duas vezes mãe nos persuade;
Porque lhe dá no sangue a natureza,
E com sangue lhe compra a majestade.
De um generoso amor, fez a memória
Do seu ilustre nome tão notória,
Quanto no mundo todo esclarecida,
Os golpes não temeu do matricida
(Exemplo digno de imortal história)
Antes ambicionou do filho a glória
Dando por preço dela a própria vida.
Agripina, que a vida assim despreza,
Segura as adoções da eternidade
Nesta de amor materno alta fineza.
Que é duas vezes mãe nos persuade;
Porque lhe dá no sangue a natureza,
E com sangue lhe compra a majestade.
932
Capinan
Aprendizagem
(I)
Como entre homem e ave sobrevive imagem
busquei em mim, e éramos parecidos
mas, quando edifiquei, achei-me
pois cada espécie está em seu ato.
O homem é um ato homem. o pássaro, um ato pássaro.
(II)
Das coisas mais simples minha textura tornou-se
tanto da iniciação a severidade do que sei
(o homem faz a bala, a bala mata o homem
derruba-se o cavalo, cai o rei).
Na premissa de noites custosas
aprendi meu rosto, os olhos e mais sentidos,
não nascendo a vida em episódios
mas em ciclos, em fases, dolorosos ciclos de noite.
A vida é consciência de seu exercício
e até saber-se mais homem que ave
é preciso sensibilidade como peixes
e o vínculo da prática à própria imagem.
(III)
Agora que me sei não pássaro
mas homem ato, guardando vínculos
sou um gesto particular dos atos
do homem geral em geral ofício.
Sou assim compreendido de outros.
O que eu seria outro ser não fôra,
embora juntos na inteireza do todo,
diversos de carne, fôssemos a classe;
ato classe, homem ato, homem classe.
E pela classe minha palavra seria repugnância,
coragem de permanecer e dizer,
fosse poesia ou pornografia.
Como entre homem e ave sobrevive imagem
busquei em mim, e éramos parecidos
mas, quando edifiquei, achei-me
pois cada espécie está em seu ato.
O homem é um ato homem. o pássaro, um ato pássaro.
(II)
Das coisas mais simples minha textura tornou-se
tanto da iniciação a severidade do que sei
(o homem faz a bala, a bala mata o homem
derruba-se o cavalo, cai o rei).
Na premissa de noites custosas
aprendi meu rosto, os olhos e mais sentidos,
não nascendo a vida em episódios
mas em ciclos, em fases, dolorosos ciclos de noite.
A vida é consciência de seu exercício
e até saber-se mais homem que ave
é preciso sensibilidade como peixes
e o vínculo da prática à própria imagem.
(III)
Agora que me sei não pássaro
mas homem ato, guardando vínculos
sou um gesto particular dos atos
do homem geral em geral ofício.
Sou assim compreendido de outros.
O que eu seria outro ser não fôra,
embora juntos na inteireza do todo,
diversos de carne, fôssemos a classe;
ato classe, homem ato, homem classe.
E pela classe minha palavra seria repugnância,
coragem de permanecer e dizer,
fosse poesia ou pornografia.
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