Poemas neste tema
Alma
Myriam Fraga
Banquete
O vinho
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
1 144
Truck Tumleh
Mar
Sinto dentro do corpo
Um mar de sentimentos.
Tenho canalizá-lo
E expressá-lo em palavras.
Não consigo.
É muita água...
É muito sentimento..
Peço que entenda mais,
Do que possa perdoar...
Você não imagina...
O que sinto
Quando o mar
Que carrego
Entra em ressaca.
Um mar de sentimentos.
Tenho canalizá-lo
E expressá-lo em palavras.
Não consigo.
É muita água...
É muito sentimento..
Peço que entenda mais,
Do que possa perdoar...
Você não imagina...
O que sinto
Quando o mar
Que carrego
Entra em ressaca.
822
Lucila Issa
Prisma de Momentos
floresta escura
imensidão fechada
onde tudo começa
e tudo acaba
luz acende
e logo apaga
me vejo
não reconheço
fantasia nasce e morre
coração bate
e logo se acalma
imensidão fechada
onde tudo começa
e tudo acaba
luz acende
e logo apaga
me vejo
não reconheço
fantasia nasce e morre
coração bate
e logo se acalma
776
João Antônio
Choros — Para Pintagol e Cuíca
A mulher que eu não tenho sequer anda,
apenas desliza sutil feito ave.
Gaivota, à vôo preciso e espaçoso da gaivota,
e quem, quem são as outras perante
a que eu não tenho —
atrizes, babás , damas, mucamas,
faxineiras, serão verdureiras
mãos encardidos, quadradas,
hão de ser novatas na vida, desajeitadas,
tentando o trottoir da avenida
aventurando, meio envergonhadas,
mas empurradas pela fome,
aprendizes vacilantes de manicure
ou banhistas marrons de sol,
falsas madames vão à feira,
regateiam uma dúzia e meia de bananas
e mulheres de vida andeja serão
chamadas de tudo quanto é nome,
ciganinhas suburbanas e de araque,
ciganaqem descida com a gana e a necessidade
escorrida de algum enfiado escondido, da Baixada Fluminense,
a engambelar nos praças, no centro da cidade,
lendo a sorte questionável nas mãos dos passantes
— um olho na palma, outro na polícia —
rodam lépidas, o vestido longo e ordinário de chita,
escafedem-se espaventadas pelos becos,
erradas, erradias já que analfabetas,
por penúria ou orfandade corridas da área rural,
perdidaças ignorantes de tudo
e, entanto, mais carregam dentro de si
uma enorme aflição, tumultuada necessidade de amor,
ou serão aqueles que, em solidão e no escuro comem chocolate,
bombons de chocolate.
A que eu não tenho terá sido do vizinho.
Professor de inglês,
aranha escrevedor de jogo do bicho,
deputado salafrário,
ou no aparente ridículo da vida,
inusitada mas tosca, azeda e possível inversão, banal e não,
mulher de outra mulher?
Sem que eu pedisse
ó, não minha,
alma, retomada, semente, fêmea, vida,
far-me-ia cafuné, dar-me-ia um copo dágua,
socaria no pilão a magnífica paçoca com carne seca,
dividiria comigo a fatia de goiabada,
a agrura de um despejo, uma prisão,
a correria pela vida, a vida, ou correntia,
ou o recacau de uma pancadaria na barriga da rua,
chuva e sol, após,
acordar-me-ia com beijos,
relassem na minha barba de três dias,
nas rugas da minha cara.
Também na linha do horizonte,
onde céu e mar se tocam, de lá
ela vem vindo e pode chega
baixando a conspiração dos demônios.
Em nada lembraria as outras
com quem me droguei em paixão,
coxas de Diana,
em chispas e trama de paixão,
fogo de palha a durar sete anos cada um,
carismático número sete,
em cada conhaque a duração de sete janeiros,
foram quatro vezes sete
perfazendo vinte e oito anos
ah, montanha russa,
em que cheirei, cheiramos, fumei, fumamos,
cafunguei, cafungamos, joguei com exagero, arrepiado bebi,
sobe-e-desce, prende a respiração,
antes e depois da mulher que eu não tive,
ó benditas, as anteriores,
melhor me ensinaram,
o meu corpo a tal ponto e detalhes,
não se lembra
e nem se esquece de todos os pontos,
o fremir de cada ondulação dos corpos
dessas benditas mulheres da rua e de casa
para quem o amor tem cheiro,
sobe pelas paredes, prolonga-se,
engalfinha, espicha,
escarrapacha, encolhe,
grito arfado, indômito,
suga o ar e quebra camas,
é boêmio fora de hora
tampouco escolhe lugar,
jamais cronometrado
junto, grudado a essas benditas mulheres
olhos mortiços ou sonhadores,
como os olhos de uma criança.
A mulher que eu não tenho
não joga bilhar francês, sequer carteia bridge,
é outro o seu pano verde,
joga sinuca, ganha partidas,
remata pelo golpe dos vinte-e-sete,
e pelo dos vinte-e-sete,
conserva a extrema elegância
fecha à marinheira, os seus cigarros de papel
e fumo desfiado nas coxas nuas, grossas, morenas coxas,
sustentadas pelas canelas finas de sabiá.
Guarda, estelante.
Reproduz, a capricho, um perfume onipresente.
Luminar, guardará para o sempre o enigma —
onde, segredado, em que noite única,
ficou escondido deveras o frescor superfino
ondeava, emanado das perna dançarinas,
passos de descalça odalisca dos antigos cabarés.
A que eu não tive, novinha,
não tem idade,
tem treze anos e não é virgem
e me ensina na cama
e tem mais de trinta e cinco
tem, em principal, todas as carnes
e as idéias no lugar.
Palmeira, o esguia ao vento,
é o meu calor na madrugada
o meu novo Morro da Geada
a reinvenção do primeiro estilingue
levanta a voz e grave de crioula sacudida,
o susto, o arrepio da primeira boca em que suguei
a mulher que eu não tive
e se esconde nas estrofes de aço e ferro batido,
um só Nelson Cavaquinho.
Acresce espontânea, delicada, dolente,
malandra, macia, sestrosa,
dengosa, nítida, límpida,
como um sorriso brasileiro
e como um choro de Garoto,
Aníbal Augusto Sardinha.
Trata-se, mais do que a musa morena,
ainda mais que perfeita
a mulher que eu não tenho
só tem linhas sinuosas e não faz elipses mentais
arruma o trilho e é a um só tempo locomotiva
e, tão perfeita, não tem passado.
Ser inteiriço em palmeira
tem o pescoço longo,
apertada vagina pequena,
corta e não é dentada, fecha
engole, acalora, corta
e fecha como alicate.
Nunca usou óculos
o que eu não tenho
tem os olhos negros sombreados
onde baila a alma,
e trinta e dois dentes límpidos na boca
jamais usou dentifrício,
escovados com a areia dos rios pelo dedo indicador.
Caída, caída na vida e mulher chamada pública
a que eu não tenho
é quem requebra só pra mim
e quando acorda, me entreolha e diz,
se ainda durmo, vida, ficaste mais linda.
O bamboleio sarado dos ancas
o empinado dos seios
rijas coxas avançam
marcam de tal desenho o andar,
mulher que eu não tive,
assista exímia, quase nua, guerreira ritmada,
de tal sorriso, sambeiro,
ao pisar adona-se a avenida toda
e parece ser todo dela.
Sendo crioula, cabrocha ou irmã rara em nefertite,
mulata melhormente,
quase um sorriso e quase meio sorriso,
a harmonia da indagação sábia,
humilde leveza tão solene,
cabe uma enciclopédia em sua cara,
não livresca, só humano,
em olhos grandes, antigos e sofridos das pretas,
à voz grave das negras dos morros
quando fala é feito o pintassilgo
mestiçado com a canária-do-reino
ganhou o conto magnífico, incansável,
politonado e contínuo, quase metálico,
híbrido bailarino pintagol.
Estrela-guia não minha
singular e não rara
supina dona do impossível
a quem não dói perder dinheiro
doma, fina, a ousado equação delirante,
quanto menos tem mais gasta
e alvejante, luminosa se presta,
quando a questão é ruça
usa como nenhuma
a excelência da conjugação do verbo coisar.
Aperta-se o cerco, o jogo é jogado,
a que eu não tenho
mantém a vagina molhada
e bom o coração,
aprendeu com o sete-estrelo dos pontos
a descrer na lei do mínimo esforço,
sabe, não somos brinquedo e brincamos,
e diz de cor e salteado
a manha das ruas,
os sambas-de-preto
em que mulher de malandro é rapaz
num dia apanha, no outro quer mais.
Beldroegas, à pascácios, inquietos, farisaicos,
mondrongos aturdidos —
ela não desconhece que a maioria
é mosca de padaria.
Encostado à esquina eu não fique
já que é nunca morto o Morro da Geada,
mas esper
apenas desliza sutil feito ave.
Gaivota, à vôo preciso e espaçoso da gaivota,
e quem, quem são as outras perante
a que eu não tenho —
atrizes, babás , damas, mucamas,
faxineiras, serão verdureiras
mãos encardidos, quadradas,
hão de ser novatas na vida, desajeitadas,
tentando o trottoir da avenida
aventurando, meio envergonhadas,
mas empurradas pela fome,
aprendizes vacilantes de manicure
ou banhistas marrons de sol,
falsas madames vão à feira,
regateiam uma dúzia e meia de bananas
e mulheres de vida andeja serão
chamadas de tudo quanto é nome,
ciganinhas suburbanas e de araque,
ciganaqem descida com a gana e a necessidade
escorrida de algum enfiado escondido, da Baixada Fluminense,
a engambelar nos praças, no centro da cidade,
lendo a sorte questionável nas mãos dos passantes
— um olho na palma, outro na polícia —
rodam lépidas, o vestido longo e ordinário de chita,
escafedem-se espaventadas pelos becos,
erradas, erradias já que analfabetas,
por penúria ou orfandade corridas da área rural,
perdidaças ignorantes de tudo
e, entanto, mais carregam dentro de si
uma enorme aflição, tumultuada necessidade de amor,
ou serão aqueles que, em solidão e no escuro comem chocolate,
bombons de chocolate.
A que eu não tenho terá sido do vizinho.
Professor de inglês,
aranha escrevedor de jogo do bicho,
deputado salafrário,
ou no aparente ridículo da vida,
inusitada mas tosca, azeda e possível inversão, banal e não,
mulher de outra mulher?
Sem que eu pedisse
ó, não minha,
alma, retomada, semente, fêmea, vida,
far-me-ia cafuné, dar-me-ia um copo dágua,
socaria no pilão a magnífica paçoca com carne seca,
dividiria comigo a fatia de goiabada,
a agrura de um despejo, uma prisão,
a correria pela vida, a vida, ou correntia,
ou o recacau de uma pancadaria na barriga da rua,
chuva e sol, após,
acordar-me-ia com beijos,
relassem na minha barba de três dias,
nas rugas da minha cara.
Também na linha do horizonte,
onde céu e mar se tocam, de lá
ela vem vindo e pode chega
baixando a conspiração dos demônios.
Em nada lembraria as outras
com quem me droguei em paixão,
coxas de Diana,
em chispas e trama de paixão,
fogo de palha a durar sete anos cada um,
carismático número sete,
em cada conhaque a duração de sete janeiros,
foram quatro vezes sete
perfazendo vinte e oito anos
ah, montanha russa,
em que cheirei, cheiramos, fumei, fumamos,
cafunguei, cafungamos, joguei com exagero, arrepiado bebi,
sobe-e-desce, prende a respiração,
antes e depois da mulher que eu não tive,
ó benditas, as anteriores,
melhor me ensinaram,
o meu corpo a tal ponto e detalhes,
não se lembra
e nem se esquece de todos os pontos,
o fremir de cada ondulação dos corpos
dessas benditas mulheres da rua e de casa
para quem o amor tem cheiro,
sobe pelas paredes, prolonga-se,
engalfinha, espicha,
escarrapacha, encolhe,
grito arfado, indômito,
suga o ar e quebra camas,
é boêmio fora de hora
tampouco escolhe lugar,
jamais cronometrado
junto, grudado a essas benditas mulheres
olhos mortiços ou sonhadores,
como os olhos de uma criança.
A mulher que eu não tenho
não joga bilhar francês, sequer carteia bridge,
é outro o seu pano verde,
joga sinuca, ganha partidas,
remata pelo golpe dos vinte-e-sete,
e pelo dos vinte-e-sete,
conserva a extrema elegância
fecha à marinheira, os seus cigarros de papel
e fumo desfiado nas coxas nuas, grossas, morenas coxas,
sustentadas pelas canelas finas de sabiá.
Guarda, estelante.
Reproduz, a capricho, um perfume onipresente.
Luminar, guardará para o sempre o enigma —
onde, segredado, em que noite única,
ficou escondido deveras o frescor superfino
ondeava, emanado das perna dançarinas,
passos de descalça odalisca dos antigos cabarés.
A que eu não tive, novinha,
não tem idade,
tem treze anos e não é virgem
e me ensina na cama
e tem mais de trinta e cinco
tem, em principal, todas as carnes
e as idéias no lugar.
Palmeira, o esguia ao vento,
é o meu calor na madrugada
o meu novo Morro da Geada
a reinvenção do primeiro estilingue
levanta a voz e grave de crioula sacudida,
o susto, o arrepio da primeira boca em que suguei
a mulher que eu não tive
e se esconde nas estrofes de aço e ferro batido,
um só Nelson Cavaquinho.
Acresce espontânea, delicada, dolente,
malandra, macia, sestrosa,
dengosa, nítida, límpida,
como um sorriso brasileiro
e como um choro de Garoto,
Aníbal Augusto Sardinha.
Trata-se, mais do que a musa morena,
ainda mais que perfeita
a mulher que eu não tenho
só tem linhas sinuosas e não faz elipses mentais
arruma o trilho e é a um só tempo locomotiva
e, tão perfeita, não tem passado.
Ser inteiriço em palmeira
tem o pescoço longo,
apertada vagina pequena,
corta e não é dentada, fecha
engole, acalora, corta
e fecha como alicate.
Nunca usou óculos
o que eu não tenho
tem os olhos negros sombreados
onde baila a alma,
e trinta e dois dentes límpidos na boca
jamais usou dentifrício,
escovados com a areia dos rios pelo dedo indicador.
Caída, caída na vida e mulher chamada pública
a que eu não tenho
é quem requebra só pra mim
e quando acorda, me entreolha e diz,
se ainda durmo, vida, ficaste mais linda.
O bamboleio sarado dos ancas
o empinado dos seios
rijas coxas avançam
marcam de tal desenho o andar,
mulher que eu não tive,
assista exímia, quase nua, guerreira ritmada,
de tal sorriso, sambeiro,
ao pisar adona-se a avenida toda
e parece ser todo dela.
Sendo crioula, cabrocha ou irmã rara em nefertite,
mulata melhormente,
quase um sorriso e quase meio sorriso,
a harmonia da indagação sábia,
humilde leveza tão solene,
cabe uma enciclopédia em sua cara,
não livresca, só humano,
em olhos grandes, antigos e sofridos das pretas,
à voz grave das negras dos morros
quando fala é feito o pintassilgo
mestiçado com a canária-do-reino
ganhou o conto magnífico, incansável,
politonado e contínuo, quase metálico,
híbrido bailarino pintagol.
Estrela-guia não minha
singular e não rara
supina dona do impossível
a quem não dói perder dinheiro
doma, fina, a ousado equação delirante,
quanto menos tem mais gasta
e alvejante, luminosa se presta,
quando a questão é ruça
usa como nenhuma
a excelência da conjugação do verbo coisar.
Aperta-se o cerco, o jogo é jogado,
a que eu não tenho
mantém a vagina molhada
e bom o coração,
aprendeu com o sete-estrelo dos pontos
a descrer na lei do mínimo esforço,
sabe, não somos brinquedo e brincamos,
e diz de cor e salteado
a manha das ruas,
os sambas-de-preto
em que mulher de malandro é rapaz
num dia apanha, no outro quer mais.
Beldroegas, à pascácios, inquietos, farisaicos,
mondrongos aturdidos —
ela não desconhece que a maioria
é mosca de padaria.
Encostado à esquina eu não fique
já que é nunca morto o Morro da Geada,
mas esper
699
Ivan Junqueira
Esse punhado de ossos
A Moacyr Félix
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo.
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo.
2 438
Lucila Issa
Beyond the Invisible
Os olhos
sentem e distinguem:
real ou outro sonho
você, você e eu.
Neste lado,
remoto é aprender a voar:
se cair vai crer e ver,
mudar a noite,
além da realidade.
sentem e distinguem:
real ou outro sonho
você, você e eu.
Neste lado,
remoto é aprender a voar:
se cair vai crer e ver,
mudar a noite,
além da realidade.
703
Ivan Sarney da Costa
Sou Apenas um Homem
Sou apenas um homem
Perscrutando a Cidade.
Por favor, não temam meus passos.
Nem sei se são passos que me conduzem.
Às vezes, são sobressaltos, angústias e medos.
É necessário que acreditem no que digo.
Não direi muito porque não conheço muito.
Na verdade, eu sei tão pouco.
Tudo o que aprendi foi me extrair das coisas
E me integrar às coisas.
Nesse processo, sou poeira, limo, sujo,
Folhas, frutos, pétalas, pau e pedra.
Sou fontes do passado
E daquilo que há de vir,
Me confundo com o anônimo das faces.
Me escureço com o asfalto do chão.
Às vezes, brilho e resplandeço
Como as paredes de azulejos e as luzes da noite.
Perscrutando a Cidade.
Por favor, não temam meus passos.
Nem sei se são passos que me conduzem.
Às vezes, são sobressaltos, angústias e medos.
É necessário que acreditem no que digo.
Não direi muito porque não conheço muito.
Na verdade, eu sei tão pouco.
Tudo o que aprendi foi me extrair das coisas
E me integrar às coisas.
Nesse processo, sou poeira, limo, sujo,
Folhas, frutos, pétalas, pau e pedra.
Sou fontes do passado
E daquilo que há de vir,
Me confundo com o anônimo das faces.
Me escureço com o asfalto do chão.
Às vezes, brilho e resplandeço
Como as paredes de azulejos e as luzes da noite.
978
Ildásio Tavares
Glosa
Mote
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Gil Vicente
Houve tempo e sacrifício
Houve sonho e muita lida
Mas no trato do ofício
Só houve ilusões perdidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas... "
Há vozes que sempre falam
Na escura noite envolvidas
Mas todas vozes se calam
E se perdem diluídas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nosso corpo fez-se estrume,
Nossas forças são tolhidas,
Nossa espada está sem gume,
Nossas dores repetidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas..."
Sempre à margem dos processos
Nossas bocas são retidas
Para nós só há inversos
Todas luzes são vendidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas.
Estruturas poderosas
Todas podres, corrompidas
Nos compram e vendem gulosas
Cada vez mais entupidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nem sangue de muitas mortes
Nos trouxe a luz escondida,
Poderes sempre mais fortes
Nos levaram de vencida —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nas trevas de há muito e tanto
Marchamos safras sofridas,
Amargando nosso canto
Em vozes enrouquecidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Distante brilha esperança
De promessas esquecidas;
Atrás ficou a lembrança
De derrotas cometidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Mas em cores diferentes
As danças serão corridas
Não pensem os poderosos
Que as almas nos têm vencidas
Somos muitos e teimosos
Nossas cabeças erguidas
Sob o fardo dos milênios
Marcham tenções decididas,
Várias faces, vários gênios,
todos faces retorcidas, —
Nós teremos a chegança
Será nossa a esperança,
Nós teremos nossas vidas.
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Gil Vicente
Houve tempo e sacrifício
Houve sonho e muita lida
Mas no trato do ofício
Só houve ilusões perdidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas... "
Há vozes que sempre falam
Na escura noite envolvidas
Mas todas vozes se calam
E se perdem diluídas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nosso corpo fez-se estrume,
Nossas forças são tolhidas,
Nossa espada está sem gume,
Nossas dores repetidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas..."
Sempre à margem dos processos
Nossas bocas são retidas
Para nós só há inversos
Todas luzes são vendidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas.
Estruturas poderosas
Todas podres, corrompidas
Nos compram e vendem gulosas
Cada vez mais entupidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nem sangue de muitas mortes
Nos trouxe a luz escondida,
Poderes sempre mais fortes
Nos levaram de vencida —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nas trevas de há muito e tanto
Marchamos safras sofridas,
Amargando nosso canto
Em vozes enrouquecidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Distante brilha esperança
De promessas esquecidas;
Atrás ficou a lembrança
De derrotas cometidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Mas em cores diferentes
As danças serão corridas
Não pensem os poderosos
Que as almas nos têm vencidas
Somos muitos e teimosos
Nossas cabeças erguidas
Sob o fardo dos milênios
Marcham tenções decididas,
Várias faces, vários gênios,
todos faces retorcidas, —
Nós teremos a chegança
Será nossa a esperança,
Nós teremos nossas vidas.
1 161
Ives Gandra da Silva Martins
Elegia da Ponte Descoberta
Sobre a ponte do meu ao teu retrato
O silêncio cantava silencioso.
Ponte nascida, de repente,
Descortinando espantos e desejos.
Eram duas montanhas existentes,
Sem saberem das fontes.
E as fontes eram lá.
As fontes gêmeas sombras, entretanto,
Não compreendiam
Os reflexos celestes das irmãs.
Mas as fontes já se amavam.
Ó desconhecimento gerador,
Quanta vaga descoberta na suspeita
Da tua própria origem!
A criação instântica vivida
Mostra, sempre, mais vivência rediviva,
Que uma existência inteira de miragens.
As fontes brotaram para o amor
E as fontes amam fontes desiguais.
Eis porque
As fontes eram lá,
Sem saberem das fontes.
E as fontes já se amavam.
O silêncio cantava silencioso.
Ponte nascida, de repente,
Descortinando espantos e desejos.
Eram duas montanhas existentes,
Sem saberem das fontes.
E as fontes eram lá.
As fontes gêmeas sombras, entretanto,
Não compreendiam
Os reflexos celestes das irmãs.
Mas as fontes já se amavam.
Ó desconhecimento gerador,
Quanta vaga descoberta na suspeita
Da tua própria origem!
A criação instântica vivida
Mostra, sempre, mais vivência rediviva,
Que uma existência inteira de miragens.
As fontes brotaram para o amor
E as fontes amam fontes desiguais.
Eis porque
As fontes eram lá,
Sem saberem das fontes.
E as fontes já se amavam.
783
Iracema de Camargo Aranha
Primavera
Menino chora
Pipa sumiu no espaço
Linha partida.
Galhos curvados
como a pedir perdão
Nobre chorão.
Finados... Mortos
Presença dos ausentes
Quanta saudade...
Pipa sumiu no espaço
Linha partida.
Galhos curvados
como a pedir perdão
Nobre chorão.
Finados... Mortos
Presença dos ausentes
Quanta saudade...
980
Cida Jappe
Papel em Branco
Eu quis
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
1 015
Myriam Fraga
Inquisição
Costuraram sua boca
Com alfinetes
E ele dizia que NÃO
E perguntavam.
E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço
E ele dizia que não, que não, que não
E seus cabelos cresciam como chamas.
Com alfinetes
E ele dizia que NÃO
E perguntavam.
E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço
E ele dizia que não, que não, que não
E seus cabelos cresciam como chamas.
1 384
José Blanc de Portugal
Dia de Todos-os-Santos
Supõe que morri
(Aos mortos se escreve também algumas vezes).
Não sou de cá.
O que me dizem estranho
E ouço o que não há.
Assim, talvez, como estrangeiro,
Encontres palavras que me interessem,
Saibas dar-me o que me tarda...
coisas perdidas que procuro
e talvez se possam dar
aos que partiram e esqueceram
e, por isso,
se lhes oferece o resto de tudo
sem mesmo se saber
que alguma coisa é dada.
Supõe que morri e diz
todas as verdades que se dão aos mortos
o que se confessa a quem não ouve
e espera resposta de ninguém ...
Dizem que os deuses morreram:
Sou da raça deles
à espera de Deus.
(Aos mortos se escreve também algumas vezes).
Não sou de cá.
O que me dizem estranho
E ouço o que não há.
Assim, talvez, como estrangeiro,
Encontres palavras que me interessem,
Saibas dar-me o que me tarda...
coisas perdidas que procuro
e talvez se possam dar
aos que partiram e esqueceram
e, por isso,
se lhes oferece o resto de tudo
sem mesmo se saber
que alguma coisa é dada.
Supõe que morri e diz
todas as verdades que se dão aos mortos
o que se confessa a quem não ouve
e espera resposta de ninguém ...
Dizem que os deuses morreram:
Sou da raça deles
à espera de Deus.
1 968
Jacira Lima
Amor, namorados do tempo sem fronteiras
Não és Deus, Deusa.
E no entanto, fazes parte deste ser.
Fazes parte do todo.
Sinto tua presença quando aqueces meu corpo que treme de frio.
É o teu calor!
Sinto teu cheiro, na brisa que passa.
Sei que me olhas, quando vejo o brilho mais ousado de uma estrela a
piscar.
Quando vem o vento, sinto teus lábios a tocar de leve os meus.
Ao caminhar na chuva, sinto tuas lágrimas saudosas.
Já o trovão, é o teu grito!
Por saber que tuas lágrimas traduzem uma saudade feliz.
Eu fico feliz, pois não me esqueceste, faço parte de ti, estou na tua
lembrança.
Saio da terra molhada e vou ao país dos sonhos.
Lá, eu te encontro nos tocamos e contemplamos o universo até a
alvorada.
Não percebemos, mas amanheceu!
Tu me acordas com tua ousadia de adolescente.
Banhas meu quarto com teus olhos invisíveis.
Bom dia amor!
Felicidades!
E no entanto, fazes parte deste ser.
Fazes parte do todo.
Sinto tua presença quando aqueces meu corpo que treme de frio.
É o teu calor!
Sinto teu cheiro, na brisa que passa.
Sei que me olhas, quando vejo o brilho mais ousado de uma estrela a
piscar.
Quando vem o vento, sinto teus lábios a tocar de leve os meus.
Ao caminhar na chuva, sinto tuas lágrimas saudosas.
Já o trovão, é o teu grito!
Por saber que tuas lágrimas traduzem uma saudade feliz.
Eu fico feliz, pois não me esqueceste, faço parte de ti, estou na tua
lembrança.
Saio da terra molhada e vou ao país dos sonhos.
Lá, eu te encontro nos tocamos e contemplamos o universo até a
alvorada.
Não percebemos, mas amanheceu!
Tu me acordas com tua ousadia de adolescente.
Banhas meu quarto com teus olhos invisíveis.
Bom dia amor!
Felicidades!
888
Myriam Fraga
Trajetória
Eu,
Que decepei a cabeça
De Holofernes
E apascentava os leões
Com vinhos de Marsala.
Eu,
Que dormi com Pizarro
Numa tenda encarnada,
Sacerdotisa do jaguar
E da serpente emplumada.
Eu,
Maria, a Sanguinária,
Isabel, a Católica,
Rainha destronada
Inocente e assassina.
Hoje masco chicletes
Perfumados a menta,
Estrela absoluta
Dos filmes de pornô.
Que decepei a cabeça
De Holofernes
E apascentava os leões
Com vinhos de Marsala.
Eu,
Que dormi com Pizarro
Numa tenda encarnada,
Sacerdotisa do jaguar
E da serpente emplumada.
Eu,
Maria, a Sanguinária,
Isabel, a Católica,
Rainha destronada
Inocente e assassina.
Hoje masco chicletes
Perfumados a menta,
Estrela absoluta
Dos filmes de pornô.
1 193
Jáder de Carvalho
Eu me enganei
Eu me enganei quando disse: "É o fim!"
Via-me no espelho: a neve no cabelo.
As rugas se cruzavam no meu rosto.
A vista se cansava. Ah, era o fim!
Dentro do peito, o coração batia.
Em contraste com o rosto, a alma era jovem.
Eu gostava do cheiro das mulheres:
ia do olfato às profundezas d’alma.
Pensei: "A vida não me chega ao termo.
Sou todo vida. Só por fora é a morte."
E o mundo viu minha ressurreição.
Ah, quantas noites dormirei contigo!
Ah, quanto sol-nascente inda me espera!
A estrada é longa, mas não cansarei!...
Via-me no espelho: a neve no cabelo.
As rugas se cruzavam no meu rosto.
A vista se cansava. Ah, era o fim!
Dentro do peito, o coração batia.
Em contraste com o rosto, a alma era jovem.
Eu gostava do cheiro das mulheres:
ia do olfato às profundezas d’alma.
Pensei: "A vida não me chega ao termo.
Sou todo vida. Só por fora é a morte."
E o mundo viu minha ressurreição.
Ah, quantas noites dormirei contigo!
Ah, quanto sol-nascente inda me espera!
A estrada é longa, mas não cansarei!...
775
João Bosco da Encarnação
Essa Noite
Essa Noite
Essa noite estranha,
é uma noite de medo,
pavor de mim mesmo.
Quando penso eme vejo
pensante,
ouço o ruído incessante
— enervante —
do mar,
tenho medo.
Do latido de um cão
longínquo,
tenho medo.
E receio tanto
a escuridão silenciosa
da noite...
E me assusto tanto
com o barulho da folha seca
e do vento tenebroso
na encosta...
A existência só
e a coexistência só
de um mundo de mortos
me amedrontam,
apavoram.
E tenho um pavor imenso
de ser e de sentir...
Queria ser apenas algo
e não querer...
O pavor do silêncio noturno,
povoado de fantasmas
que riem do meu temor,
o medo da morte
porque parece uma noite
de silêncio profundo,
faz ouvir minha fraqueza,
um cão latindo ao longe,
triste,
um som de silêncio no ouvido,
enlouquece
e assusta como se houvesse
— e talvez haja —
algum estranho na escuridão.
E me assusto
com a escuridão e o silêncio
— nadas —
que reinam em mim...
Vazio que reina em mim
— tudo —
possível e impossível.
Alma solitária
jogada num abismo,
vê-se lá de cima do penhasco
onde o mar encontra as pedras,
um grunhido,
um bafo ofegante
— monstro —
nas minhas costas infinitas,
do tamanho da escuridão
que esconde o mar dos olhos
e nos ouvidos
preenche a imaginação.
Essa noite estranha,
é uma noite de medo,
pavor de mim mesmo.
Quando penso eme vejo
pensante,
ouço o ruído incessante
— enervante —
do mar,
tenho medo.
Do latido de um cão
longínquo,
tenho medo.
E receio tanto
a escuridão silenciosa
da noite...
E me assusto tanto
com o barulho da folha seca
e do vento tenebroso
na encosta...
A existência só
e a coexistência só
de um mundo de mortos
me amedrontam,
apavoram.
E tenho um pavor imenso
de ser e de sentir...
Queria ser apenas algo
e não querer...
O pavor do silêncio noturno,
povoado de fantasmas
que riem do meu temor,
o medo da morte
porque parece uma noite
de silêncio profundo,
faz ouvir minha fraqueza,
um cão latindo ao longe,
triste,
um som de silêncio no ouvido,
enlouquece
e assusta como se houvesse
— e talvez haja —
algum estranho na escuridão.
E me assusto
com a escuridão e o silêncio
— nadas —
que reinam em mim...
Vazio que reina em mim
— tudo —
possível e impossível.
Alma solitária
jogada num abismo,
vê-se lá de cima do penhasco
onde o mar encontra as pedras,
um grunhido,
um bafo ofegante
— monstro —
nas minhas costas infinitas,
do tamanho da escuridão
que esconde o mar dos olhos
e nos ouvidos
preenche a imaginação.
952
Hildeberto Abreu Magalhães
Neurônios
Não seria capaz de te escrever um poema confesso,
um poema capaz de autenticidade e odor?
Fico onde estou, mascarando o sofrimento, sozinho,
sem necessitar da simplicidade da saudação triste;
corro o olhar, à vista de um olho vermelho, todo
segredo binário transforma-se em conto...
Será que lhe roubei o sossego? Meu corpo vertido em fumaça,
movimentando-se como bailarina, roçando teu ventre:
apresentas-te sofreguidão e descaso, re-flexo opaco;
como vou olhar-te sem desejar-te o contato caro,
o sussurro perto da nuca, teu cheiro que me corta.
Penso antes que roubaste-me a paz e nada de bom
restou desta história morta.
Em pleno meio-dia, parado aqui, nesta rua, aguardando um
beijo indeciso, estás querendo derreter-me; verás
como se comporta um triste ice cub orvalhado,
umedecendo o vale entre teus seios belos e pequenos,
descendo por tua barriga como uma língua ardente.
Custa-me pensar que do teu lado sou uma criança tola...
Quando penso em ti, minha cabeça dói; como fosses
sair de lá, por acreditar-me afim a Zeus: mas
que vão apelo à Natureza. Revelo-me miserável!
A vontade necessária para tanto não é consistente!
Antes, zelo por estares aconchegada e quente, então,
nos pequenos fios condutores de minha parca luz.
Ah! como quero poder descrever e dissertar, e assim
escrever-te um romance para as horas fúteis, mas
tenho pouca memória (pouca vitamina, talvez) e
sintetizo a vida analisando o dia por vez.
Teria que ser um conto, ainda que aprecies o canto.
Teria que ser uma curta história, que deixa saudade;
Miss me? Eu sinto tanta falta, me falta força para
seguir-me fartando a vida, na falta e na tortura;
fazer-te nova escultura, servir-me-ás como modelo.
Mas estou longe e tua imagem é vaga e sombria.
Quero lançar-me às pedras, ou antes, fazer delas
talismãs, teus voodoos secretos, uma fruta saborosa.
Quero me lambuzar de cores variadas e pintar-te
o corpo, quem sabe deixar de ser tão cínico.
O amor de Prometeu, o amor de Dioniso, o amor de Zeus,
que mais posso desejar-te como signo fatal?
"Demos as mão e ao correr juntos, esbarramos em fórmulas
mal-ditas e satíricas, de refrões seculares".
Já vimos juntos o arrebol? É um risco a mais;
metáforas espessas, o que podem expressar?
Pergunta-se do que "sub-jaz" ou do que "aparece"?
Tento acreditar em "Lethes", deixar-te na memória,
escorregarem-se os dias nestes rios fluentes;
estamos navegando à deriva de uma intersecção de setas.
E ainda a alma rebelde que me cospe o rosto:
constrange-me o suicídio, por ser uma utilidade inútil.
O sonho está diminuindo; a estrada, eu sempre
retorno àquele mesmo ponto, encruzilhada de
escolhas, no mais das vezes, interpeladas pela barbaridade.
Tenho medo do exílio de teus olhos, no assalto ao céu...
Assim quer o Deus? Desenhos de fumaça, crianças brincam,
a vida correndo mais um setembro, construindo o caráter
da prima-vera, sob auspícios diversos e be careful!.
Acredito realmente na guerra e na morte, mas não
na dor. Como se estivesse perdido no caminho,
mesmo sabendo exatamente onde me encontro.
Mesmo pre-sentindo que tudo correrá como antes e
poderei beijar-te cálida ou calorosamente, assim
exijo uma seta para o arco que curva sóbrio:
teu suor em minha boca, teus sais para salvar-me
da solidão, teu sexo para energizar minhas glândulas.
Ou somente o teu cheiro, teu olhar, e go away alone.
Veja, os animais, todos se soltaram: veja o coelho
Bob Dylan e a galinha Janis, o porco Rotten;
corra, ou vamos perdê-los! Agora, pastor!
Traga-me o vinho do odre mais antigo, comemore
comigo o brotar da estação, dilacera-me com
teu punhal, pareço anestesiado? Serei símbolo-diverso?
Deita do meu lado esquerdo, cobre-me com teu corpo,
para sentir-lhe o peso; diga-me apenas querido e
já a música inquietante absorve-nos em cristais.
Lamento não poder gritar! Lamento a guerra e o
rosto no espelho. O que estou fazendo? Nada.
"Não é nada orgânico, obrigado". Ecos primaveris.
Passa o passo rápido no
auge do contraste que
sobe ou desce e que
seca e umedece agora...
Alçou vôo e desapareceu,
roçou o enjôo e vomitou,
olvidou voar como pássaro...
Um vento que rodeia minha amada, um vento quente
do norte, aliás, tórrido e puro éter, e mudança
de modo-contínuo, mesmo sendo um e o mesmo,
movimento ávido do mesmo calor, estátua na chuva!
Preciso preencher uma ânsia de vacuidade e dispersão,
para arrebatar a lâmina de tua mão, naquele dia,
quando os medos e paixões subsistiram num gesto;
quando mudas o fim do poema e descubro que foi
antigamente projetado e me vejo nele feliz e
absorto por ser divinamente dirigido a ti,
em todas as súplicas surdas e canções, em
novas re-edições de línguas mortas, que não se tocam
mais, que feneceram por falta de uso devido
ou mesmo impróprio. Não houve o fato. Ridículo?
um poema capaz de autenticidade e odor?
Fico onde estou, mascarando o sofrimento, sozinho,
sem necessitar da simplicidade da saudação triste;
corro o olhar, à vista de um olho vermelho, todo
segredo binário transforma-se em conto...
Será que lhe roubei o sossego? Meu corpo vertido em fumaça,
movimentando-se como bailarina, roçando teu ventre:
apresentas-te sofreguidão e descaso, re-flexo opaco;
como vou olhar-te sem desejar-te o contato caro,
o sussurro perto da nuca, teu cheiro que me corta.
Penso antes que roubaste-me a paz e nada de bom
restou desta história morta.
Em pleno meio-dia, parado aqui, nesta rua, aguardando um
beijo indeciso, estás querendo derreter-me; verás
como se comporta um triste ice cub orvalhado,
umedecendo o vale entre teus seios belos e pequenos,
descendo por tua barriga como uma língua ardente.
Custa-me pensar que do teu lado sou uma criança tola...
Quando penso em ti, minha cabeça dói; como fosses
sair de lá, por acreditar-me afim a Zeus: mas
que vão apelo à Natureza. Revelo-me miserável!
A vontade necessária para tanto não é consistente!
Antes, zelo por estares aconchegada e quente, então,
nos pequenos fios condutores de minha parca luz.
Ah! como quero poder descrever e dissertar, e assim
escrever-te um romance para as horas fúteis, mas
tenho pouca memória (pouca vitamina, talvez) e
sintetizo a vida analisando o dia por vez.
Teria que ser um conto, ainda que aprecies o canto.
Teria que ser uma curta história, que deixa saudade;
Miss me? Eu sinto tanta falta, me falta força para
seguir-me fartando a vida, na falta e na tortura;
fazer-te nova escultura, servir-me-ás como modelo.
Mas estou longe e tua imagem é vaga e sombria.
Quero lançar-me às pedras, ou antes, fazer delas
talismãs, teus voodoos secretos, uma fruta saborosa.
Quero me lambuzar de cores variadas e pintar-te
o corpo, quem sabe deixar de ser tão cínico.
O amor de Prometeu, o amor de Dioniso, o amor de Zeus,
que mais posso desejar-te como signo fatal?
"Demos as mão e ao correr juntos, esbarramos em fórmulas
mal-ditas e satíricas, de refrões seculares".
Já vimos juntos o arrebol? É um risco a mais;
metáforas espessas, o que podem expressar?
Pergunta-se do que "sub-jaz" ou do que "aparece"?
Tento acreditar em "Lethes", deixar-te na memória,
escorregarem-se os dias nestes rios fluentes;
estamos navegando à deriva de uma intersecção de setas.
E ainda a alma rebelde que me cospe o rosto:
constrange-me o suicídio, por ser uma utilidade inútil.
O sonho está diminuindo; a estrada, eu sempre
retorno àquele mesmo ponto, encruzilhada de
escolhas, no mais das vezes, interpeladas pela barbaridade.
Tenho medo do exílio de teus olhos, no assalto ao céu...
Assim quer o Deus? Desenhos de fumaça, crianças brincam,
a vida correndo mais um setembro, construindo o caráter
da prima-vera, sob auspícios diversos e be careful!.
Acredito realmente na guerra e na morte, mas não
na dor. Como se estivesse perdido no caminho,
mesmo sabendo exatamente onde me encontro.
Mesmo pre-sentindo que tudo correrá como antes e
poderei beijar-te cálida ou calorosamente, assim
exijo uma seta para o arco que curva sóbrio:
teu suor em minha boca, teus sais para salvar-me
da solidão, teu sexo para energizar minhas glândulas.
Ou somente o teu cheiro, teu olhar, e go away alone.
Veja, os animais, todos se soltaram: veja o coelho
Bob Dylan e a galinha Janis, o porco Rotten;
corra, ou vamos perdê-los! Agora, pastor!
Traga-me o vinho do odre mais antigo, comemore
comigo o brotar da estação, dilacera-me com
teu punhal, pareço anestesiado? Serei símbolo-diverso?
Deita do meu lado esquerdo, cobre-me com teu corpo,
para sentir-lhe o peso; diga-me apenas querido e
já a música inquietante absorve-nos em cristais.
Lamento não poder gritar! Lamento a guerra e o
rosto no espelho. O que estou fazendo? Nada.
"Não é nada orgânico, obrigado". Ecos primaveris.
Passa o passo rápido no
auge do contraste que
sobe ou desce e que
seca e umedece agora...
Alçou vôo e desapareceu,
roçou o enjôo e vomitou,
olvidou voar como pássaro...
Um vento que rodeia minha amada, um vento quente
do norte, aliás, tórrido e puro éter, e mudança
de modo-contínuo, mesmo sendo um e o mesmo,
movimento ávido do mesmo calor, estátua na chuva!
Preciso preencher uma ânsia de vacuidade e dispersão,
para arrebatar a lâmina de tua mão, naquele dia,
quando os medos e paixões subsistiram num gesto;
quando mudas o fim do poema e descubro que foi
antigamente projetado e me vejo nele feliz e
absorto por ser divinamente dirigido a ti,
em todas as súplicas surdas e canções, em
novas re-edições de línguas mortas, que não se tocam
mais, que feneceram por falta de uso devido
ou mesmo impróprio. Não houve o fato. Ridículo?
1 350
Inaura Carneiro Leão
Predestinação
Uma onda imprevisível
de luz e sons
atravessou o país dos anjos azuis
e penetrou impetuosamente
no mundo submerso
de meus sonhos
Veio de longe
dos abismos perfumados
onde florescem as rainhas da noite
que enebriam
os viandantes descuidados
Veio dos gestos espontâneos
e talvez despretensiosos
que tocaram a pele de minh’alma
e avassaladoramente
me deixaram estática
silente
e transbordante
de ternura e de desejo.
de luz e sons
atravessou o país dos anjos azuis
e penetrou impetuosamente
no mundo submerso
de meus sonhos
Veio de longe
dos abismos perfumados
onde florescem as rainhas da noite
que enebriam
os viandantes descuidados
Veio dos gestos espontâneos
e talvez despretensiosos
que tocaram a pele de minh’alma
e avassaladoramente
me deixaram estática
silente
e transbordante
de ternura e de desejo.
902
Hélio Pellegrino
LHomme Révolté
Venho de um negro tempo irredutível,
anterior a mim.
Vou para um negro tempo desmedido,
infinito campo de ébano
onde me apagarei.
De uma escarpa a outra,
transfixado entre negro e negror,
danço — centelha breve — o meu furor.
anterior a mim.
Vou para um negro tempo desmedido,
infinito campo de ébano
onde me apagarei.
De uma escarpa a outra,
transfixado entre negro e negror,
danço — centelha breve — o meu furor.
1 341
Helena Parente Cunha
Retrato
de agora a mil horas
o meu retrato
ainda estará aqui
quem aparece
onde pareço?
pouso de passagem
na fotografia
atrás do quadro
que me contorna
desapareço
quem comparece
na própria face?
poso de novo
(me encontra pronta
cada hora que mil)
de agora a mil horas
quem perece
no meu retrato?
o meu retrato
ainda estará aqui
quem aparece
onde pareço?
pouso de passagem
na fotografia
atrás do quadro
que me contorna
desapareço
quem comparece
na própria face?
poso de novo
(me encontra pronta
cada hora que mil)
de agora a mil horas
quem perece
no meu retrato?
1 521
Helena Parente Cunha
Quem
quem me habita provisória
nesta paisagem súbita
onde sou?
quem chora pranto antigo
nos meus olhos contemporâneos
desta viagem?
quem fui quando passei
aqui tão longe
de onde sou agora?
nesta paisagem súbita
onde sou?
quem chora pranto antigo
nos meus olhos contemporâneos
desta viagem?
quem fui quando passei
aqui tão longe
de onde sou agora?
1 095
Israel Correia
Sabedoria, Idade e Vida
Precoce cansaço do assédio dos fracos
E dos agudos latidos em torno da caravana
Cometo crime sensato buscando o nirvana
Abandonando de vez a loucura dos palcos
Nada a ser provado. Pois na solidão existo.
Sabedoria chega quando o calvário ferra
Necessária é a dor da coroa de espinhos
Ao judeu despercebido do que ela revela
Assim, idade perfeita estes trinta e três
Tenho anos nesta vida pela última vez
Nunca fui o fruto duma só semente
Nunca a mesma terra, nunca a mesma gente
Povo que doravante não vê, não ouve, não fala
Massa inanimada, só consente e cala!
E dos agudos latidos em torno da caravana
Cometo crime sensato buscando o nirvana
Abandonando de vez a loucura dos palcos
Nada a ser provado. Pois na solidão existo.
Sabedoria chega quando o calvário ferra
Necessária é a dor da coroa de espinhos
Ao judeu despercebido do que ela revela
Assim, idade perfeita estes trinta e três
Tenho anos nesta vida pela última vez
Nunca fui o fruto duma só semente
Nunca a mesma terra, nunca a mesma gente
Povo que doravante não vê, não ouve, não fala
Massa inanimada, só consente e cala!
501
Hildeberto Abreu Magalhães
Falas a Dioniso en Crise
I
Páginas não riscadas, muros não pichados,
paredes sorvidas em tintas unicores,
paisagem verde encostada na parede,
número nove paredes pintadas por
crianças multicoloridas que se
extravasam à parede e tecem-lhe
veias disformes e lamentando
o pouco sangue que lhes percorre
e como desejariam voar e tolher
ao espírito o vento mais alto.
Crianças choram, paredes choram,
lágrimas desusadas fecundam
óvulos dissolvendo-se evaporando-se
à temperatura da superfície e
enervando a eletricidade dos dedos;
escuta: dispara a seta e atingirás
o alvo. O que se pensa não se
determina. Termina tua estada
com glória e boa companhia.
Ecoam belos risos e os vejo
debocharem e persuadirem-se...
II
Deixe tocar tua mão... Apega-me
o teu calor. E agora que estou
agonizando, verto-me em frio
e luz opaca, rapto-te da memória,
desmancho-me e desmancho-te
em éter de outrora e agora
ficar acordado, agora permanecer
e ser longe de ti, éter comum!
Deixar-te é enfim um máximo de
beleza: agora és bela como os cegos
a vissem pela primeira vez: és tu
e não-eu és a mim e a ti juntos.
Ainda és e eu não sou mais que
isso: eu e tu. Despeço-me antes
que despedace-me a visão que
elegi como última: a que eu
realmente não sei...
III
O que pertubaria a tua consciência,
nesta tarde, neste minuto vesperal,
nesta canção, o que te pertuba?
Serão lembranças a te perturbar,
a afastar de ti a felicidade,
será o passado tão pesado que
não possa ser posto de lado
para o presente, tua memória
te esfalecendo a felicidade?
De que vale a vida, cheia de símbolos diversos,
se quem vale a vida é cheio de símbolo-fixo?
Expõe o passado à sua podridão e
à sua morte e verás como foge.
Paraste de pensá-lo e já escutas!
A música harmônica do vazio pe-
netra em ti para esvair-se e
repenetrar a tua energia nos
cúmulos e cônscios onipresentes.
IV
Se um dia precisar de proteção
contra o frio, já tenho o tapete,
que comprei no Seixas. Deus
me fez assim, Dioniso, procuro
sempre me converter, prezo fazer
acima de tudo e todo ter ou
saber. Prefiro a autenticidade
no homem e admiro nele sua
loucura lúcida e sua louca lucidez.
Sabe lá como não se faz o quê
constituir-se como não é ou é,
sendo assim ou não sendo assado.
Se precisar um dia de algo e não terei,
terei de fazer e tornar para fazer e ser depois,
se for a mídia que a compre e a tenha enclausurada.
Ninguém necessita minha proteção,
visto que cada um pode se proteger
sozinho; até eu não quero exércitos.
Se comprares algo, terás feito nas mãos.
Terás uma imagem nova para idolatrares...
V
Definitivamente eu sou um mutante;
não posso conter em mim o Adão que
compraz-se ver sua humanidade reinar,
quebrando degraus, saudando novas vias,
ao mesmo tempo que ruge a tradição
e amamos a tradição mais que tudo
ao esfumaçá-la e tornar-lhe nova
tradição que não susterá sequer um
grande ser que se movimenta, que
soluça por todo o Bem consumado
por si e por Tao, por mim e
por ti. Reina homem, mas conhece teus
estragos miserentos! Não podes manchar
tua humanidade com tão vil chaga!
Espera a embriaguez benévola, pacífico-guerreira.
A estupidez da desordem organizada.
A ens-vitae torna-se, o homem
torna-se, cada célula faz-se e
somos construídos para construir,
destruindo as velhas tábuas,
simbolizar o movimento, o moto-
-contínuo, Dioniso.
VI
Sinta-me: levemente esvoaço o tempo ao teu redor;
neste instante não me vês, mas estarei aí a roçar
tua pele e beijar teus cabelos, estarei agora
planejando uma visão desvirtualmente divina, tuas
mãos praguejam moscas impertinentes e me acaricias,
sem o saber, o vento que te rodeia é meu.
Oh! Diana, que mataste Actéon por ter visto tua beleza,
o que não farias se soubesses que tens um vigilante
cósmico, uma sentinela de tua respiração ofegante.
É the best part of the trip, the very best; ser
"companhia incesta amabilíssima elétrica ácida salutar"
é a viagem, movimento, a melhor parte...
Se olho o céu, se olho mesmo o céu, sol ou noite,
realmente não te vejo, mas vejo-te ao meu lado,
não na lua, teu maior espelho celeste, Deus;
vejo-te aqui como eu concentrado em ti e
cheirando tua pele, nessa carícia que ma faz
um vento que rodeia minha amada, Deusa.
Toque-me, veja-o ao vento que esvoaça teu ins,
éter-me-ei para sentir saudades do que não vi,
furtar-me-ão os sentidos, atolar-nos-ão no
racionalismo-idealismo, mas nunca a memória terá
sido importante, ¿nunca verei de novo o novo?
Ésse, essa letra sibilante, sss, como o ser
"novo atuante tórrido actus purus Adam filho".
VII
Talvez não seja sincero; pensar em ti tão cedo pode ser
uma deslavada coreografia da minha mente, que te deseja
próxima, que me permite acordá-la de madrugada, e
dentro do teu sonho dizer que te amo. Não,
não pode ser sincera, esta vontade que, rasgando
o peito imberbe, sangra-o facilmente à distância,
de te tornar companhia hodierna e na tua pre-
sença devo permanecer escutando o estrondo dos
vulcões sob sua pele, devo permanecer calado,
nessa extrema angústia que quer me levar por
baixo de tuas roupas, quer colar-me à tua pele.
Estás longe, perdida e vaga lembrança, cada vez mais
longe. Mas! como fazes, se não te esfumaças em
minha vã memória? Não consigo te matar-em-mim?
Não te amo sinceramente, estás longe, eu invento
uma doença que me matiamorte, sangro indiscreta-
mente, mas! como faço para esfumaçar-te em minha
vã memória? E se não estiveres só aí? E se dominas
algo em mim, algo que não pode ser chamado vão?
Estou com tendências à repressão neste território...
Mas pensar em ti tão cedo só poderia terminar confundindo
a mim e acordando o vizinho, para escutar-te a música.
O fato não foge à tendência tradicional de sonhar
a noiva antes do casamento, ou querer mais das
bebidas bacantes ou do néctar divino ou apenas lembrar que
há pouco nasceu o sol, já ontem choveu, há muito não
quero tanta solidão, me dói pensar-te e não tocar,
por isso farei-te a estátua; desejo adorá-la, enquanto estás longe.
VIII
Ah! criança selvagem brilhando no meio-dia nuestra vida.
Rasgarias meu coração, adoçarias minhas entranhas e
sacrificarias-me a algum Deus cruel sangüentino.
Emprestarias minh´alma como virtude ao Deus solar,
meu inimigo humano, meu pólo destruidor, meu degelo,
a morte dos meus amigos e amigas, varão coloquial.
Eu posso ver do vão pórtico teu fulgor, usurpo a ti
a energia que movimenta o vento e o círculo;
¿podes ser maior? Do tamanho de um pé, podes
insignificantizar-me? Podes deixar teu fulgor, Deus?
Um sempre-pronto, o semi-pronto-círculo, proto-Deus.
Gravita sobre mim, chegas-me à necessidade, sabes-me.
Teu sopro me acorda, teu vento quente me cerca e
desalmado arranca as epidermes, leva-as de mim, o
que não me possui, livra-me do frio, tirando-me.
Teu corpo suado liberta o meu, teu trabalho duro,
meu corpo semeado em tuas entranhas, os frutos
Páginas não riscadas, muros não pichados,
paredes sorvidas em tintas unicores,
paisagem verde encostada na parede,
número nove paredes pintadas por
crianças multicoloridas que se
extravasam à parede e tecem-lhe
veias disformes e lamentando
o pouco sangue que lhes percorre
e como desejariam voar e tolher
ao espírito o vento mais alto.
Crianças choram, paredes choram,
lágrimas desusadas fecundam
óvulos dissolvendo-se evaporando-se
à temperatura da superfície e
enervando a eletricidade dos dedos;
escuta: dispara a seta e atingirás
o alvo. O que se pensa não se
determina. Termina tua estada
com glória e boa companhia.
Ecoam belos risos e os vejo
debocharem e persuadirem-se...
II
Deixe tocar tua mão... Apega-me
o teu calor. E agora que estou
agonizando, verto-me em frio
e luz opaca, rapto-te da memória,
desmancho-me e desmancho-te
em éter de outrora e agora
ficar acordado, agora permanecer
e ser longe de ti, éter comum!
Deixar-te é enfim um máximo de
beleza: agora és bela como os cegos
a vissem pela primeira vez: és tu
e não-eu és a mim e a ti juntos.
Ainda és e eu não sou mais que
isso: eu e tu. Despeço-me antes
que despedace-me a visão que
elegi como última: a que eu
realmente não sei...
III
O que pertubaria a tua consciência,
nesta tarde, neste minuto vesperal,
nesta canção, o que te pertuba?
Serão lembranças a te perturbar,
a afastar de ti a felicidade,
será o passado tão pesado que
não possa ser posto de lado
para o presente, tua memória
te esfalecendo a felicidade?
De que vale a vida, cheia de símbolos diversos,
se quem vale a vida é cheio de símbolo-fixo?
Expõe o passado à sua podridão e
à sua morte e verás como foge.
Paraste de pensá-lo e já escutas!
A música harmônica do vazio pe-
netra em ti para esvair-se e
repenetrar a tua energia nos
cúmulos e cônscios onipresentes.
IV
Se um dia precisar de proteção
contra o frio, já tenho o tapete,
que comprei no Seixas. Deus
me fez assim, Dioniso, procuro
sempre me converter, prezo fazer
acima de tudo e todo ter ou
saber. Prefiro a autenticidade
no homem e admiro nele sua
loucura lúcida e sua louca lucidez.
Sabe lá como não se faz o quê
constituir-se como não é ou é,
sendo assim ou não sendo assado.
Se precisar um dia de algo e não terei,
terei de fazer e tornar para fazer e ser depois,
se for a mídia que a compre e a tenha enclausurada.
Ninguém necessita minha proteção,
visto que cada um pode se proteger
sozinho; até eu não quero exércitos.
Se comprares algo, terás feito nas mãos.
Terás uma imagem nova para idolatrares...
V
Definitivamente eu sou um mutante;
não posso conter em mim o Adão que
compraz-se ver sua humanidade reinar,
quebrando degraus, saudando novas vias,
ao mesmo tempo que ruge a tradição
e amamos a tradição mais que tudo
ao esfumaçá-la e tornar-lhe nova
tradição que não susterá sequer um
grande ser que se movimenta, que
soluça por todo o Bem consumado
por si e por Tao, por mim e
por ti. Reina homem, mas conhece teus
estragos miserentos! Não podes manchar
tua humanidade com tão vil chaga!
Espera a embriaguez benévola, pacífico-guerreira.
A estupidez da desordem organizada.
A ens-vitae torna-se, o homem
torna-se, cada célula faz-se e
somos construídos para construir,
destruindo as velhas tábuas,
simbolizar o movimento, o moto-
-contínuo, Dioniso.
VI
Sinta-me: levemente esvoaço o tempo ao teu redor;
neste instante não me vês, mas estarei aí a roçar
tua pele e beijar teus cabelos, estarei agora
planejando uma visão desvirtualmente divina, tuas
mãos praguejam moscas impertinentes e me acaricias,
sem o saber, o vento que te rodeia é meu.
Oh! Diana, que mataste Actéon por ter visto tua beleza,
o que não farias se soubesses que tens um vigilante
cósmico, uma sentinela de tua respiração ofegante.
É the best part of the trip, the very best; ser
"companhia incesta amabilíssima elétrica ácida salutar"
é a viagem, movimento, a melhor parte...
Se olho o céu, se olho mesmo o céu, sol ou noite,
realmente não te vejo, mas vejo-te ao meu lado,
não na lua, teu maior espelho celeste, Deus;
vejo-te aqui como eu concentrado em ti e
cheirando tua pele, nessa carícia que ma faz
um vento que rodeia minha amada, Deusa.
Toque-me, veja-o ao vento que esvoaça teu ins,
éter-me-ei para sentir saudades do que não vi,
furtar-me-ão os sentidos, atolar-nos-ão no
racionalismo-idealismo, mas nunca a memória terá
sido importante, ¿nunca verei de novo o novo?
Ésse, essa letra sibilante, sss, como o ser
"novo atuante tórrido actus purus Adam filho".
VII
Talvez não seja sincero; pensar em ti tão cedo pode ser
uma deslavada coreografia da minha mente, que te deseja
próxima, que me permite acordá-la de madrugada, e
dentro do teu sonho dizer que te amo. Não,
não pode ser sincera, esta vontade que, rasgando
o peito imberbe, sangra-o facilmente à distância,
de te tornar companhia hodierna e na tua pre-
sença devo permanecer escutando o estrondo dos
vulcões sob sua pele, devo permanecer calado,
nessa extrema angústia que quer me levar por
baixo de tuas roupas, quer colar-me à tua pele.
Estás longe, perdida e vaga lembrança, cada vez mais
longe. Mas! como fazes, se não te esfumaças em
minha vã memória? Não consigo te matar-em-mim?
Não te amo sinceramente, estás longe, eu invento
uma doença que me matiamorte, sangro indiscreta-
mente, mas! como faço para esfumaçar-te em minha
vã memória? E se não estiveres só aí? E se dominas
algo em mim, algo que não pode ser chamado vão?
Estou com tendências à repressão neste território...
Mas pensar em ti tão cedo só poderia terminar confundindo
a mim e acordando o vizinho, para escutar-te a música.
O fato não foge à tendência tradicional de sonhar
a noiva antes do casamento, ou querer mais das
bebidas bacantes ou do néctar divino ou apenas lembrar que
há pouco nasceu o sol, já ontem choveu, há muito não
quero tanta solidão, me dói pensar-te e não tocar,
por isso farei-te a estátua; desejo adorá-la, enquanto estás longe.
VIII
Ah! criança selvagem brilhando no meio-dia nuestra vida.
Rasgarias meu coração, adoçarias minhas entranhas e
sacrificarias-me a algum Deus cruel sangüentino.
Emprestarias minh´alma como virtude ao Deus solar,
meu inimigo humano, meu pólo destruidor, meu degelo,
a morte dos meus amigos e amigas, varão coloquial.
Eu posso ver do vão pórtico teu fulgor, usurpo a ti
a energia que movimenta o vento e o círculo;
¿podes ser maior? Do tamanho de um pé, podes
insignificantizar-me? Podes deixar teu fulgor, Deus?
Um sempre-pronto, o semi-pronto-círculo, proto-Deus.
Gravita sobre mim, chegas-me à necessidade, sabes-me.
Teu sopro me acorda, teu vento quente me cerca e
desalmado arranca as epidermes, leva-as de mim, o
que não me possui, livra-me do frio, tirando-me.
Teu corpo suado liberta o meu, teu trabalho duro,
meu corpo semeado em tuas entranhas, os frutos
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