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Poemas neste tema

Alma

Iderval Miranda

Iderval Miranda

Do Amor e da Loucura

I

diz-se o amor,
o divino
em sua proximidade.

a loucura,
ele mesmo
em sua simplicidade.

juntos,
ainda ele em sua totalidade.

II

o simples traço fará desvendar
o desespero contido no coração
de quem se quer prazer e dor.

e este corpo de mulher
dilacerado pela recusa incontida
do não?

basta, que venha o longe
e eterna seja a carne,
catedral de prazer e dor.

III

buscar o amor
em claro dia
é vã tentativa.

ao longe,
um brilho na escuridão
da tormentosa noite.

adiante,
além do obscuro
do obscuro.

IV

pois o obscuro
revela-se num rosto de mulher.

e quem
loucamente ama o longe
verá o um
eternizado em amor e gozo.

pois o um
revela-se no rosto do um.

V

pois que tudo seja
vanidade e absinto,
o nada será sempre o nada
e o longe findará aqui, dentro de nós.

e esta busca insensata,
quando terá fim?

VI

terás a argila como princesa
e no vergel dos desesperados
serás o fruto maior.

é certo que tudo é um
e mesmo assim,
ante ele, serás o outro.

e o amor mostrará sua face
em forma de mulher e sonho,
e terás o fogo, a paixão e o prazer
não a felicidade,
pois tu és tu,
outro um ante o um.

VII

(desperto pela guitarra do morto)
o prazer
é um.

(ao lado da mulher amada)
o prazer
é um.

(ante a última deidade)
o prazer
é um.

- o prazer é um -

(ainda assim)

o prazer
é um.

VIII

e eis o corpo
do longe e longe
ainda.

e quem mais,
pois o tudo lembrar
é apenas renegar-se.

e esta sombra
do longe e longe
ainda?

IX

e eis que meus sonhos
nomeiam teu corpo
a diluir-se em bruma, névoa
e nada

X

clara paisagem do nada

tu dirás

longe longe longe
mulher

deserto e desespero.

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Hildeberto Abreu Magalhães

Hildeberto Abreu Magalhães

Neurônios

Não seria capaz de te escrever um poema confesso,
um poema capaz de autenticidade e odor?
Fico onde estou, mascarando o sofrimento, sozinho,
sem necessitar da simplicidade da saudação triste;
corro o olhar, à vista de um olho vermelho, todo
segredo binário transforma-se em conto...

Será que lhe roubei o sossego? Meu corpo vertido em fumaça,
movimentando-se como bailarina, roçando teu ventre:
apresentas-te sofreguidão e descaso, re-flexo opaco;
como vou olhar-te sem desejar-te o contato caro,
o sussurro perto da nuca, teu cheiro que me corta.
Penso antes que roubaste-me a paz e nada de bom
restou desta história morta.

Em pleno meio-dia, parado aqui, nesta rua, aguardando um
beijo indeciso, estás querendo derreter-me; verás
como se comporta um triste ice cub orvalhado,
umedecendo o vale entre teus seios belos e pequenos,
descendo por tua barriga como uma língua ardente.
Custa-me pensar que do teu lado sou uma criança tola...

Quando penso em ti, minha cabeça dói; como fosses
sair de lá, por acreditar-me afim a Zeus: mas
que vão apelo à Natureza. Revelo-me miserável!
A vontade necessária para tanto não é consistente!
Antes, zelo por estares aconchegada e quente, então,
nos pequenos fios condutores de minha parca luz.

Ah! como quero poder descrever e dissertar, e assim
escrever-te um romance para as horas fúteis, mas
tenho pouca memória (pouca vitamina, talvez) e
sintetizo a vida analisando o dia por vez.
Teria que ser um conto, ainda que aprecies o canto.
Teria que ser uma curta história, que deixa saudade;

Miss me? Eu sinto tanta falta, me falta força para
seguir-me fartando a vida, na falta e na tortura;
fazer-te nova escultura, servir-me-ás como modelo.
Mas estou longe e tua imagem é vaga e sombria.
Quero lançar-me às pedras, ou antes, fazer delas
talismãs, teus voodoos secretos, uma fruta saborosa.

Quero me lambuzar de cores variadas e pintar-te
o corpo, quem sabe deixar de ser tão cínico.
O amor de Prometeu, o amor de Dioniso, o amor de Zeus,
que mais posso desejar-te como signo fatal?
"Demos as mão e ao correr juntos, esbarramos em fórmulas
mal-ditas e satíricas, de refrões seculares".

Já vimos juntos o arrebol? É um risco a mais;
metáforas espessas, o que podem expressar?
Pergunta-se do que "sub-jaz" ou do que "aparece"?
Tento acreditar em "Lethes", deixar-te na memória,
escorregarem-se os dias nestes rios fluentes;
estamos navegando à deriva de uma intersecção de setas.

E ainda a alma rebelde que me cospe o rosto:
constrange-me o suicídio, por ser uma utilidade inútil.
O sonho está diminuindo; a estrada, eu sempre
retorno àquele mesmo ponto, encruzilhada de
escolhas, no mais das vezes, interpeladas pela barbaridade.
Tenho medo do exílio de teus olhos, no assalto ao céu...

Assim quer o Deus? Desenhos de fumaça, crianças brincam,
a vida correndo mais um setembro, construindo o caráter
da prima-vera, sob auspícios diversos e be careful!.
Acredito realmente na guerra e na morte, mas não
na dor. Como se estivesse perdido no caminho,
mesmo sabendo exatamente onde me encontro.

Mesmo pre-sentindo que tudo correrá como antes e
poderei beijar-te cálida ou calorosamente, assim
exijo uma seta para o arco que curva sóbrio:
teu suor em minha boca, teus sais para salvar-me
da solidão, teu sexo para energizar minhas glândulas.
Ou somente o teu cheiro, teu olhar, e go away alone.

Veja, os animais, todos se soltaram: veja o coelho
Bob Dylan e a galinha Janis, o porco Rotten;
corra, ou vamos perdê-los! Agora, pastor!
Traga-me o vinho do odre mais antigo, comemore
comigo o brotar da estação, dilacera-me com
teu punhal, pareço anestesiado? Serei símbolo-diverso?

Deita do meu lado esquerdo, cobre-me com teu corpo,
para sentir-lhe o peso; diga-me apenas querido e
já a música inquietante absorve-nos em cristais.
Lamento não poder gritar! Lamento a guerra e o
rosto no espelho. O que estou fazendo? Nada.
"Não é nada orgânico, obrigado". Ecos primaveris.

Passa o passo rápido no
auge do contraste que
sobe ou desce e que
seca e umedece agora...
Alçou vôo e desapareceu,
roçou o enjôo e vomitou,
olvidou voar como pássaro...

Um vento que rodeia minha amada, um vento quente
do norte, aliás, tórrido e puro éter, e mudança
de modo-contínuo, mesmo sendo um e o mesmo,
movimento ávido do mesmo calor, estátua na chuva!

Preciso preencher uma ânsia de vacuidade e dispersão,
para arrebatar a lâmina de tua mão, naquele dia,
quando os medos e paixões subsistiram num gesto;
quando mudas o fim do poema e descubro que foi

antigamente projetado e me vejo nele feliz e
absorto por ser divinamente dirigido a ti,
em todas as súplicas surdas e canções, em

novas re-edições de línguas mortas, que não se tocam
mais, que feneceram por falta de uso devido
ou mesmo impróprio. Não houve o fato. Ridículo?

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Hernâni Cidade

Hernâni Cidade

À Pertubadora

Olho-te muita vez tão fixamente,
com tal desejo a crepitar no olhar,
que ficas a pensar, vaidosa e crente:
— Mais duas lâmpadas no meu altar…

Vê lá, porém, não te envaideça a ideia
que nestes olhos — lâmpadas votivas —
arda o álcool subtil que em nós ateia
paixões candentes como chamas vivas…

Eu sou romeiro de mais duma santa
e a todos presto um culto assim — banal.
Se não encontro — a ventura é tanta! —
mais que fragmentos do meu santo Graal!…

De alguém eu amo a santidade calma
e os gestos brandos e pacificantes…
E, envolta em seu olhar, minha alma
veste alma túnica em rituais distantes…

Há outra — inacessível Peregrina! —
em que adoro a perfeição sonhada,
fê-la o Senhor numa hora sossegada,
sem descuido ou tremor na mão divina…

Mas em ti amo a graça acidulada
por uma gota de cinismo ingénuo;
muito mais perturbante e desejada
que o vinho mais alcoólico do Reno!

E amo-te a boca… Irregular gomil.
Quando abre em riso, sente-se evolar
não sei que odor de sensação subtil…
(Fermenta nela os beijos que hás-de dar?…)

E a graça dos teus olhos oequeninos!
São duas frestas dum "hyaly" do Oriente,
onde a tua alma — uma sultana ardente —
às vezes surge, a fulminar destinos!

Mas o que mais me turba é o mistério
da tua carne em febre de desejo,
e, assim, a arder, radiando em halo etéreo,
como se a Virgem lhe aflorasse um beijo…

Eis quanto eu amo em ti. É muito?… É pouco?…
Paixão… não creio. Isto é — bem podes ver,
de menos, p’ra seguir-te como louco,
mas demais p’ra te olhar sem estremecer!

(in Antologia de poetas Alentejanos)

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Humberto Fialho Guedes

Humberto Fialho Guedes

Contemplação da Aurora

Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Por entre as mãos por entre os gestos
invisíveis no tecer as cores
formas e objetos compondo panoramas.

Deixar-se estar. Os olhos mansos
(derramado olhar banhando muros)
amanhecendo em concreção de pedra e limo;
o cais solene vai barrando águas
em postura de silêncio e longa espera.

Deixar-se estar. E as mãos
amaciando gestos revolvendo sonhos
na modulação do instante percebido
pelos rostos e corações em muda contemplação.

Deixar-se estar. Enquanto
(vivazes e esquivas) gaivotas brancas
sobrevoam ilhas; e o mar azul
(traçado em vagas e horizontes)
derrama nas praias restos de vento.

Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Para que nem um pensamento (fímbria de luz)
perturbe o enovelar-se que há no vôo
marítimo das ondas convertido em salto.

Deixar-se estar.
Contemplando os objetos esquecidos
( limitadas formas de extensão exata)
com amor de quem os tem como encontrados
depois de longa busca após os ter perdido.

(Velhos remos lembram velhos braços
ancorados ao velho porto do esquecimento;
contariam velhas estórias se pudessem
ser ouvidos em silêncio e muita fé)

Contemplando os objetos esquecidos:
barcos lemes búzios quilhas
velas e mastros tombados ao som dos ventos.

E enquanto o instante se consome lento
na floração de formas colorindo espaços
derramados sons revelam idos
e anunciam no tempo o que se aguarda:

ao longe se divisa e vão surgindo
corcéis de espuma patinando águas
desfazendo brumas semeando cravos
(brancos e breves) que se vão abrindo
em jorros de luz: cristais da aurora.

891
Hildeberto Abreu Magalhães

Hildeberto Abreu Magalhães

Vice-Verso

I
Não canso nunca de dizer (a mim mesmo!)
que a tua sanidade é a medida
da minha loucura e vice-versa,
que vice eu o sofrimento teu, sentindo
alegria? E meu verso transparente
opaculasse tua com versa? Não meço,
não me despeço, porque prefiro ficar.

Não aqui, vem comigo, voar longe do abrigo,
rimar perante abismos transponíveis:
perante deve ser per, antes mesmo de
chegar a algum lugar, que não aqui.

Não agora, deixa pra agora o amor e o vagar,
deixa ficar solto que mais preso sentiu.
O agora eu não vi passar,
foi-se já? O vice-momento.
Antes já era quase, quase ninguém sabe...

Continuo sentindo o coração bater, e
como os primatas, tenho ânsia de voz
em minha boca amarga, sabe-me o enjôo
do grito entranhado; eu sinto, sinto
muito; não me é dado saber antes do
que eu estou sentindo, saber só depois
de agora, do vice-verso.

Do tempo congelado na imagem, do âmbito
pouco convencional do estado primordial,
do drama banal do instante completa-
mente perdido.
Ai! de mim que me é dado sentir antes
de saber, depois,
que sentir é, que ver foi,
que toco sempre em estar com tigo.

II

Desprezo-me por ti, não me magoes, pois
já magôo-me, não sofras por uma unha
quebrada na junta da porta (ai!), não
temas a tua morte, sê forte; se morrer
antes é pior, quero o pior para mim.

Por quê querer manter a dormência?
Antes um prazer manso, que dor é
sinal de acidente e eu nasci pra ser
cientista, e um cientista hedônico, de
ver a humanidade sem reflexão e
chorar vertiginosamente, se esconder
embaixo da cama.

Eis! Há um enigma para cada cabeça
de Medusa que Perseu corta, há vá-
rios de espelhos refletem imagens:
Eis! os segredos dos enigmas revelados!

Será que um Deus merece julgamento?
Antes tarde que nunca? Adam-eterno
quer as profundidades vertiginosas
do ser, ou prefere a superfície
da posse? Será que eu nunca senti
tanto medo quanto
agora?

Medo, medo, necessitamos urgentes
deixar ao medo seu pequeno fardo,
seu descuido exagerado; agora! do it.
Tempo congelado, frio, congela e resseca,
ressaca e temporal: virá o sol,
o rei do degelo, conterá o ritmo
das águas em sua luz, trará!

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