Poemas neste tema
Alma
Cida Jappe
Papel em Branco
Eu quis
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
1 010
Truck Tumleh
Poeta
Eu sou o poeta...
Talvez diferente de muitos
Já conhecido por você,
Mas eu sou poeta...
Aquele que não fala ou fala...
Aquele que não olha ou olha...
É eu sou poeta...
No centro olhando os cantos
Em um dos cantos
Vendo o centro
E os outros cantos.
Felizmente eu sou poeta....
Não me cobre por isto.
Nasce uma flor...Nasce um pássaro...
Nasce uma criança...
E tudo surge:
A água, o vento e o poeta...
Eu sou a poesia
Talvez diferente de muitos
Já conhecido por você,
Mas eu sou poeta...
Aquele que não fala ou fala...
Aquele que não olha ou olha...
É eu sou poeta...
No centro olhando os cantos
Em um dos cantos
Vendo o centro
E os outros cantos.
Felizmente eu sou poeta....
Não me cobre por isto.
Nasce uma flor...Nasce um pássaro...
Nasce uma criança...
E tudo surge:
A água, o vento e o poeta...
Eu sou a poesia
921
Isabel Machado
Suprema
Suprema força que me atrai
para o que temo
e o meu temor me excita mais
e mais... e mais...
Suprema calma que te encarna
e não me acalma
e a tua mansa, mansa fala
já calou...
Supremo canto dos teus lábios
talvez escárnio
de mim mesma...
talvez a vida
louca vida
me roubou...
Suprema luz que me fascina...
supremo enlevo
que me toca
e dia-a-dia
dia-a-dia
me assassina...
para o que temo
e o meu temor me excita mais
e mais... e mais...
Suprema calma que te encarna
e não me acalma
e a tua mansa, mansa fala
já calou...
Supremo canto dos teus lábios
talvez escárnio
de mim mesma...
talvez a vida
louca vida
me roubou...
Suprema luz que me fascina...
supremo enlevo
que me toca
e dia-a-dia
dia-a-dia
me assassina...
967
Jacira Lima
Amor, namorados do tempo sem fronteiras
Não és Deus, Deusa.
E no entanto, fazes parte deste ser.
Fazes parte do todo.
Sinto tua presença quando aqueces meu corpo que treme de frio.
É o teu calor!
Sinto teu cheiro, na brisa que passa.
Sei que me olhas, quando vejo o brilho mais ousado de uma estrela a
piscar.
Quando vem o vento, sinto teus lábios a tocar de leve os meus.
Ao caminhar na chuva, sinto tuas lágrimas saudosas.
Já o trovão, é o teu grito!
Por saber que tuas lágrimas traduzem uma saudade feliz.
Eu fico feliz, pois não me esqueceste, faço parte de ti, estou na tua
lembrança.
Saio da terra molhada e vou ao país dos sonhos.
Lá, eu te encontro nos tocamos e contemplamos o universo até a
alvorada.
Não percebemos, mas amanheceu!
Tu me acordas com tua ousadia de adolescente.
Banhas meu quarto com teus olhos invisíveis.
Bom dia amor!
Felicidades!
E no entanto, fazes parte deste ser.
Fazes parte do todo.
Sinto tua presença quando aqueces meu corpo que treme de frio.
É o teu calor!
Sinto teu cheiro, na brisa que passa.
Sei que me olhas, quando vejo o brilho mais ousado de uma estrela a
piscar.
Quando vem o vento, sinto teus lábios a tocar de leve os meus.
Ao caminhar na chuva, sinto tuas lágrimas saudosas.
Já o trovão, é o teu grito!
Por saber que tuas lágrimas traduzem uma saudade feliz.
Eu fico feliz, pois não me esqueceste, faço parte de ti, estou na tua
lembrança.
Saio da terra molhada e vou ao país dos sonhos.
Lá, eu te encontro nos tocamos e contemplamos o universo até a
alvorada.
Não percebemos, mas amanheceu!
Tu me acordas com tua ousadia de adolescente.
Banhas meu quarto com teus olhos invisíveis.
Bom dia amor!
Felicidades!
883
Joaquim Cardozo
O Espelho
O Espelho
Pisando na areia fina
Passaste de lado a lado,
Agora te vejo rindo
No espaço recuperado.
Marchaste, enfim, resoluta
sobre cascalho e restolhos,
Chegaste à fonte do vidro,
Nas águas banhaste os olhos.
Depois ficaste indecisa,
Quase inumana e confusa,
Moldando gestos dolentes
Na cera da luz difusa.
Cuidado! Há sempre um sorriso
De irrefletida maldade:
As coisas se estão reunindo
Por detrás da realidade.
Num brilho de claro céu
- Lampejo de meio-dia,
Unidos, iluminados
Orgulho e melancolia.
Neves do tempo dos anjos;
Véus de noivas e de monjas,
Bem tramados, bem tecidos
De renúncias e lisonjas.
Comparo, combino, arrisco,
Passagens procuro a êsmo
sobre o profundo intervalo
Que vai de mim a mim mesmo.
Lua cheia, emoldurada,
Semblante da claridade
Luzindo as asas de um vôo
Recluso na intimidade.
De diamante ou de prata?
Ou são cristais de adulárias?
-Este é o fiel da balança
Entre as paixões solitárias.
Pisando na areia fina
Passaste de lado a lado,
Agora te vejo rindo
No espaço recuperado.
Marchaste, enfim, resoluta
sobre cascalho e restolhos,
Chegaste à fonte do vidro,
Nas águas banhaste os olhos.
Depois ficaste indecisa,
Quase inumana e confusa,
Moldando gestos dolentes
Na cera da luz difusa.
Cuidado! Há sempre um sorriso
De irrefletida maldade:
As coisas se estão reunindo
Por detrás da realidade.
Num brilho de claro céu
- Lampejo de meio-dia,
Unidos, iluminados
Orgulho e melancolia.
Neves do tempo dos anjos;
Véus de noivas e de monjas,
Bem tramados, bem tecidos
De renúncias e lisonjas.
Comparo, combino, arrisco,
Passagens procuro a êsmo
sobre o profundo intervalo
Que vai de mim a mim mesmo.
Lua cheia, emoldurada,
Semblante da claridade
Luzindo as asas de um vôo
Recluso na intimidade.
De diamante ou de prata?
Ou são cristais de adulárias?
-Este é o fiel da balança
Entre as paixões solitárias.
2 017
Truck Tumleh
Rotina
a lua
se esconde,
estrelas desaparecem,
o pássaro canta.
o sol
entra sala a dentro
e o relógio dispara;
o sono se despede
acordo.
saio.
como se fosse
um robô,
caio na rotina.
as coisas
que antes havia citado,
somem por trás
dos meus ombros.
pego um ônibus cheio,
por estar cheio de tudo
e eu de todos
não percebo
quem levou minha carteira.
uma bala perdida
atinge o poema.
he-mor-ra-gia!
sinal vermelho.
freio!
como um coração
que anuncia
sua última batida.
se esconde,
estrelas desaparecem,
o pássaro canta.
o sol
entra sala a dentro
e o relógio dispara;
o sono se despede
acordo.
saio.
como se fosse
um robô,
caio na rotina.
as coisas
que antes havia citado,
somem por trás
dos meus ombros.
pego um ônibus cheio,
por estar cheio de tudo
e eu de todos
não percebo
quem levou minha carteira.
uma bala perdida
atinge o poema.
he-mor-ra-gia!
sinal vermelho.
freio!
como um coração
que anuncia
sua última batida.
896
Myriam Fraga
Trajetória
Eu,
Que decepei a cabeça
De Holofernes
E apascentava os leões
Com vinhos de Marsala.
Eu,
Que dormi com Pizarro
Numa tenda encarnada,
Sacerdotisa do jaguar
E da serpente emplumada.
Eu,
Maria, a Sanguinária,
Isabel, a Católica,
Rainha destronada
Inocente e assassina.
Hoje masco chicletes
Perfumados a menta,
Estrela absoluta
Dos filmes de pornô.
Que decepei a cabeça
De Holofernes
E apascentava os leões
Com vinhos de Marsala.
Eu,
Que dormi com Pizarro
Numa tenda encarnada,
Sacerdotisa do jaguar
E da serpente emplumada.
Eu,
Maria, a Sanguinária,
Isabel, a Católica,
Rainha destronada
Inocente e assassina.
Hoje masco chicletes
Perfumados a menta,
Estrela absoluta
Dos filmes de pornô.
1 182
João Bosco da Encarnação
O cavalo é Momento
O cavalo é Momento
O cavalo é Momento,
o cavaleiro é Eu.
Momento jamais se perdeu,
mas Eu tem seus tormentos!
Momento é tão leve
que Eu nunca se atreve
a frear seus galopes.
Não entende a Beleza,
porém, dessa Leveza,
que encanta, sendo golpes.
Momento, na sua destreza,
engana seu montador,
que sofre uma dor,
destruidora tristeza.
Essa dor, que a sente
na forma de um prazer,
e assim, sem se atrever.
A tentar frear Momento,
no próprio ausente
de si, seu leve tormento!"
O cavalo é Momento,
o cavaleiro é Eu.
Momento jamais se perdeu,
mas Eu tem seus tormentos!
Momento é tão leve
que Eu nunca se atreve
a frear seus galopes.
Não entende a Beleza,
porém, dessa Leveza,
que encanta, sendo golpes.
Momento, na sua destreza,
engana seu montador,
que sofre uma dor,
destruidora tristeza.
Essa dor, que a sente
na forma de um prazer,
e assim, sem se atrever.
A tentar frear Momento,
no próprio ausente
de si, seu leve tormento!"
948
João Antônio
Choros — Para Pintagol e Cuíca
A mulher que eu não tenho sequer anda,
apenas desliza sutil feito ave.
Gaivota, à vôo preciso e espaçoso da gaivota,
e quem, quem são as outras perante
a que eu não tenho —
atrizes, babás , damas, mucamas,
faxineiras, serão verdureiras
mãos encardidos, quadradas,
hão de ser novatas na vida, desajeitadas,
tentando o trottoir da avenida
aventurando, meio envergonhadas,
mas empurradas pela fome,
aprendizes vacilantes de manicure
ou banhistas marrons de sol,
falsas madames vão à feira,
regateiam uma dúzia e meia de bananas
e mulheres de vida andeja serão
chamadas de tudo quanto é nome,
ciganinhas suburbanas e de araque,
ciganaqem descida com a gana e a necessidade
escorrida de algum enfiado escondido, da Baixada Fluminense,
a engambelar nos praças, no centro da cidade,
lendo a sorte questionável nas mãos dos passantes
— um olho na palma, outro na polícia —
rodam lépidas, o vestido longo e ordinário de chita,
escafedem-se espaventadas pelos becos,
erradas, erradias já que analfabetas,
por penúria ou orfandade corridas da área rural,
perdidaças ignorantes de tudo
e, entanto, mais carregam dentro de si
uma enorme aflição, tumultuada necessidade de amor,
ou serão aqueles que, em solidão e no escuro comem chocolate,
bombons de chocolate.
A que eu não tenho terá sido do vizinho.
Professor de inglês,
aranha escrevedor de jogo do bicho,
deputado salafrário,
ou no aparente ridículo da vida,
inusitada mas tosca, azeda e possível inversão, banal e não,
mulher de outra mulher?
Sem que eu pedisse
ó, não minha,
alma, retomada, semente, fêmea, vida,
far-me-ia cafuné, dar-me-ia um copo dágua,
socaria no pilão a magnífica paçoca com carne seca,
dividiria comigo a fatia de goiabada,
a agrura de um despejo, uma prisão,
a correria pela vida, a vida, ou correntia,
ou o recacau de uma pancadaria na barriga da rua,
chuva e sol, após,
acordar-me-ia com beijos,
relassem na minha barba de três dias,
nas rugas da minha cara.
Também na linha do horizonte,
onde céu e mar se tocam, de lá
ela vem vindo e pode chega
baixando a conspiração dos demônios.
Em nada lembraria as outras
com quem me droguei em paixão,
coxas de Diana,
em chispas e trama de paixão,
fogo de palha a durar sete anos cada um,
carismático número sete,
em cada conhaque a duração de sete janeiros,
foram quatro vezes sete
perfazendo vinte e oito anos
ah, montanha russa,
em que cheirei, cheiramos, fumei, fumamos,
cafunguei, cafungamos, joguei com exagero, arrepiado bebi,
sobe-e-desce, prende a respiração,
antes e depois da mulher que eu não tive,
ó benditas, as anteriores,
melhor me ensinaram,
o meu corpo a tal ponto e detalhes,
não se lembra
e nem se esquece de todos os pontos,
o fremir de cada ondulação dos corpos
dessas benditas mulheres da rua e de casa
para quem o amor tem cheiro,
sobe pelas paredes, prolonga-se,
engalfinha, espicha,
escarrapacha, encolhe,
grito arfado, indômito,
suga o ar e quebra camas,
é boêmio fora de hora
tampouco escolhe lugar,
jamais cronometrado
junto, grudado a essas benditas mulheres
olhos mortiços ou sonhadores,
como os olhos de uma criança.
A mulher que eu não tenho
não joga bilhar francês, sequer carteia bridge,
é outro o seu pano verde,
joga sinuca, ganha partidas,
remata pelo golpe dos vinte-e-sete,
e pelo dos vinte-e-sete,
conserva a extrema elegância
fecha à marinheira, os seus cigarros de papel
e fumo desfiado nas coxas nuas, grossas, morenas coxas,
sustentadas pelas canelas finas de sabiá.
Guarda, estelante.
Reproduz, a capricho, um perfume onipresente.
Luminar, guardará para o sempre o enigma —
onde, segredado, em que noite única,
ficou escondido deveras o frescor superfino
ondeava, emanado das perna dançarinas,
passos de descalça odalisca dos antigos cabarés.
A que eu não tive, novinha,
não tem idade,
tem treze anos e não é virgem
e me ensina na cama
e tem mais de trinta e cinco
tem, em principal, todas as carnes
e as idéias no lugar.
Palmeira, o esguia ao vento,
é o meu calor na madrugada
o meu novo Morro da Geada
a reinvenção do primeiro estilingue
levanta a voz e grave de crioula sacudida,
o susto, o arrepio da primeira boca em que suguei
a mulher que eu não tive
e se esconde nas estrofes de aço e ferro batido,
um só Nelson Cavaquinho.
Acresce espontânea, delicada, dolente,
malandra, macia, sestrosa,
dengosa, nítida, límpida,
como um sorriso brasileiro
e como um choro de Garoto,
Aníbal Augusto Sardinha.
Trata-se, mais do que a musa morena,
ainda mais que perfeita
a mulher que eu não tenho
só tem linhas sinuosas e não faz elipses mentais
arruma o trilho e é a um só tempo locomotiva
e, tão perfeita, não tem passado.
Ser inteiriço em palmeira
tem o pescoço longo,
apertada vagina pequena,
corta e não é dentada, fecha
engole, acalora, corta
e fecha como alicate.
Nunca usou óculos
o que eu não tenho
tem os olhos negros sombreados
onde baila a alma,
e trinta e dois dentes límpidos na boca
jamais usou dentifrício,
escovados com a areia dos rios pelo dedo indicador.
Caída, caída na vida e mulher chamada pública
a que eu não tenho
é quem requebra só pra mim
e quando acorda, me entreolha e diz,
se ainda durmo, vida, ficaste mais linda.
O bamboleio sarado dos ancas
o empinado dos seios
rijas coxas avançam
marcam de tal desenho o andar,
mulher que eu não tive,
assista exímia, quase nua, guerreira ritmada,
de tal sorriso, sambeiro,
ao pisar adona-se a avenida toda
e parece ser todo dela.
Sendo crioula, cabrocha ou irmã rara em nefertite,
mulata melhormente,
quase um sorriso e quase meio sorriso,
a harmonia da indagação sábia,
humilde leveza tão solene,
cabe uma enciclopédia em sua cara,
não livresca, só humano,
em olhos grandes, antigos e sofridos das pretas,
à voz grave das negras dos morros
quando fala é feito o pintassilgo
mestiçado com a canária-do-reino
ganhou o conto magnífico, incansável,
politonado e contínuo, quase metálico,
híbrido bailarino pintagol.
Estrela-guia não minha
singular e não rara
supina dona do impossível
a quem não dói perder dinheiro
doma, fina, a ousado equação delirante,
quanto menos tem mais gasta
e alvejante, luminosa se presta,
quando a questão é ruça
usa como nenhuma
a excelência da conjugação do verbo coisar.
Aperta-se o cerco, o jogo é jogado,
a que eu não tenho
mantém a vagina molhada
e bom o coração,
aprendeu com o sete-estrelo dos pontos
a descrer na lei do mínimo esforço,
sabe, não somos brinquedo e brincamos,
e diz de cor e salteado
a manha das ruas,
os sambas-de-preto
em que mulher de malandro é rapaz
num dia apanha, no outro quer mais.
Beldroegas, à pascácios, inquietos, farisaicos,
mondrongos aturdidos —
ela não desconhece que a maioria
é mosca de padaria.
Encostado à esquina eu não fique
já que é nunca morto o Morro da Geada,
mas esper
apenas desliza sutil feito ave.
Gaivota, à vôo preciso e espaçoso da gaivota,
e quem, quem são as outras perante
a que eu não tenho —
atrizes, babás , damas, mucamas,
faxineiras, serão verdureiras
mãos encardidos, quadradas,
hão de ser novatas na vida, desajeitadas,
tentando o trottoir da avenida
aventurando, meio envergonhadas,
mas empurradas pela fome,
aprendizes vacilantes de manicure
ou banhistas marrons de sol,
falsas madames vão à feira,
regateiam uma dúzia e meia de bananas
e mulheres de vida andeja serão
chamadas de tudo quanto é nome,
ciganinhas suburbanas e de araque,
ciganaqem descida com a gana e a necessidade
escorrida de algum enfiado escondido, da Baixada Fluminense,
a engambelar nos praças, no centro da cidade,
lendo a sorte questionável nas mãos dos passantes
— um olho na palma, outro na polícia —
rodam lépidas, o vestido longo e ordinário de chita,
escafedem-se espaventadas pelos becos,
erradas, erradias já que analfabetas,
por penúria ou orfandade corridas da área rural,
perdidaças ignorantes de tudo
e, entanto, mais carregam dentro de si
uma enorme aflição, tumultuada necessidade de amor,
ou serão aqueles que, em solidão e no escuro comem chocolate,
bombons de chocolate.
A que eu não tenho terá sido do vizinho.
Professor de inglês,
aranha escrevedor de jogo do bicho,
deputado salafrário,
ou no aparente ridículo da vida,
inusitada mas tosca, azeda e possível inversão, banal e não,
mulher de outra mulher?
Sem que eu pedisse
ó, não minha,
alma, retomada, semente, fêmea, vida,
far-me-ia cafuné, dar-me-ia um copo dágua,
socaria no pilão a magnífica paçoca com carne seca,
dividiria comigo a fatia de goiabada,
a agrura de um despejo, uma prisão,
a correria pela vida, a vida, ou correntia,
ou o recacau de uma pancadaria na barriga da rua,
chuva e sol, após,
acordar-me-ia com beijos,
relassem na minha barba de três dias,
nas rugas da minha cara.
Também na linha do horizonte,
onde céu e mar se tocam, de lá
ela vem vindo e pode chega
baixando a conspiração dos demônios.
Em nada lembraria as outras
com quem me droguei em paixão,
coxas de Diana,
em chispas e trama de paixão,
fogo de palha a durar sete anos cada um,
carismático número sete,
em cada conhaque a duração de sete janeiros,
foram quatro vezes sete
perfazendo vinte e oito anos
ah, montanha russa,
em que cheirei, cheiramos, fumei, fumamos,
cafunguei, cafungamos, joguei com exagero, arrepiado bebi,
sobe-e-desce, prende a respiração,
antes e depois da mulher que eu não tive,
ó benditas, as anteriores,
melhor me ensinaram,
o meu corpo a tal ponto e detalhes,
não se lembra
e nem se esquece de todos os pontos,
o fremir de cada ondulação dos corpos
dessas benditas mulheres da rua e de casa
para quem o amor tem cheiro,
sobe pelas paredes, prolonga-se,
engalfinha, espicha,
escarrapacha, encolhe,
grito arfado, indômito,
suga o ar e quebra camas,
é boêmio fora de hora
tampouco escolhe lugar,
jamais cronometrado
junto, grudado a essas benditas mulheres
olhos mortiços ou sonhadores,
como os olhos de uma criança.
A mulher que eu não tenho
não joga bilhar francês, sequer carteia bridge,
é outro o seu pano verde,
joga sinuca, ganha partidas,
remata pelo golpe dos vinte-e-sete,
e pelo dos vinte-e-sete,
conserva a extrema elegância
fecha à marinheira, os seus cigarros de papel
e fumo desfiado nas coxas nuas, grossas, morenas coxas,
sustentadas pelas canelas finas de sabiá.
Guarda, estelante.
Reproduz, a capricho, um perfume onipresente.
Luminar, guardará para o sempre o enigma —
onde, segredado, em que noite única,
ficou escondido deveras o frescor superfino
ondeava, emanado das perna dançarinas,
passos de descalça odalisca dos antigos cabarés.
A que eu não tive, novinha,
não tem idade,
tem treze anos e não é virgem
e me ensina na cama
e tem mais de trinta e cinco
tem, em principal, todas as carnes
e as idéias no lugar.
Palmeira, o esguia ao vento,
é o meu calor na madrugada
o meu novo Morro da Geada
a reinvenção do primeiro estilingue
levanta a voz e grave de crioula sacudida,
o susto, o arrepio da primeira boca em que suguei
a mulher que eu não tive
e se esconde nas estrofes de aço e ferro batido,
um só Nelson Cavaquinho.
Acresce espontânea, delicada, dolente,
malandra, macia, sestrosa,
dengosa, nítida, límpida,
como um sorriso brasileiro
e como um choro de Garoto,
Aníbal Augusto Sardinha.
Trata-se, mais do que a musa morena,
ainda mais que perfeita
a mulher que eu não tenho
só tem linhas sinuosas e não faz elipses mentais
arruma o trilho e é a um só tempo locomotiva
e, tão perfeita, não tem passado.
Ser inteiriço em palmeira
tem o pescoço longo,
apertada vagina pequena,
corta e não é dentada, fecha
engole, acalora, corta
e fecha como alicate.
Nunca usou óculos
o que eu não tenho
tem os olhos negros sombreados
onde baila a alma,
e trinta e dois dentes límpidos na boca
jamais usou dentifrício,
escovados com a areia dos rios pelo dedo indicador.
Caída, caída na vida e mulher chamada pública
a que eu não tenho
é quem requebra só pra mim
e quando acorda, me entreolha e diz,
se ainda durmo, vida, ficaste mais linda.
O bamboleio sarado dos ancas
o empinado dos seios
rijas coxas avançam
marcam de tal desenho o andar,
mulher que eu não tive,
assista exímia, quase nua, guerreira ritmada,
de tal sorriso, sambeiro,
ao pisar adona-se a avenida toda
e parece ser todo dela.
Sendo crioula, cabrocha ou irmã rara em nefertite,
mulata melhormente,
quase um sorriso e quase meio sorriso,
a harmonia da indagação sábia,
humilde leveza tão solene,
cabe uma enciclopédia em sua cara,
não livresca, só humano,
em olhos grandes, antigos e sofridos das pretas,
à voz grave das negras dos morros
quando fala é feito o pintassilgo
mestiçado com a canária-do-reino
ganhou o conto magnífico, incansável,
politonado e contínuo, quase metálico,
híbrido bailarino pintagol.
Estrela-guia não minha
singular e não rara
supina dona do impossível
a quem não dói perder dinheiro
doma, fina, a ousado equação delirante,
quanto menos tem mais gasta
e alvejante, luminosa se presta,
quando a questão é ruça
usa como nenhuma
a excelência da conjugação do verbo coisar.
Aperta-se o cerco, o jogo é jogado,
a que eu não tenho
mantém a vagina molhada
e bom o coração,
aprendeu com o sete-estrelo dos pontos
a descrer na lei do mínimo esforço,
sabe, não somos brinquedo e brincamos,
e diz de cor e salteado
a manha das ruas,
os sambas-de-preto
em que mulher de malandro é rapaz
num dia apanha, no outro quer mais.
Beldroegas, à pascácios, inquietos, farisaicos,
mondrongos aturdidos —
ela não desconhece que a maioria
é mosca de padaria.
Encostado à esquina eu não fique
já que é nunca morto o Morro da Geada,
mas esper
695
Inácio Raposo
Tântalos
Não pode ter de certo os olhos sempre enxutos
Quem sofre qual, no Erebo, o Tântalo maldito:
Sedento — vê debalde um córrego infinito;
Faminto — vê debalde os floridos produtos!...
Ante um castigo tal, que apiedava os brutos,
Leve talvez pareça um bárbaro delito!...
Foge sempre a torrente ao mísero precito
E, se tenta comer, escapam-se-lhe os frutos!
Há Tântalos também na vida transitória:
Querem estes a lympha e os pomos do talento,
E morrem no hospital para viver na história.
Desditosos que são... no malogrado intento!...
Longe de haverem ganho os loiros da vitória,
Encontram no sepulcro o eterno esquecimento!
Quem sofre qual, no Erebo, o Tântalo maldito:
Sedento — vê debalde um córrego infinito;
Faminto — vê debalde os floridos produtos!...
Ante um castigo tal, que apiedava os brutos,
Leve talvez pareça um bárbaro delito!...
Foge sempre a torrente ao mísero precito
E, se tenta comer, escapam-se-lhe os frutos!
Há Tântalos também na vida transitória:
Querem estes a lympha e os pomos do talento,
E morrem no hospital para viver na história.
Desditosos que são... no malogrado intento!...
Longe de haverem ganho os loiros da vitória,
Encontram no sepulcro o eterno esquecimento!
1 005
Iron Alves
Narciso
Vejo céus debaixo dos lençóis
outra esfera e uma esfera após a outra
depois do amor a voz é rouca
navegando ao largo dos faróis
Depois de saciada a fome
o tempo nos empresta novos olhos
torna belo nossos traços falhos
e finalmente a ansiedade dorme
Portanto tudo tem razão
lá fora neva de tanto sol
para que desabrigar-se então
A cor latina da ilusão sensual
frutifica em langor brutal
como as plantas protegidas no hall
outra esfera e uma esfera após a outra
depois do amor a voz é rouca
navegando ao largo dos faróis
Depois de saciada a fome
o tempo nos empresta novos olhos
torna belo nossos traços falhos
e finalmente a ansiedade dorme
Portanto tudo tem razão
lá fora neva de tanto sol
para que desabrigar-se então
A cor latina da ilusão sensual
frutifica em langor brutal
como as plantas protegidas no hall
796
Ives Gandra da Silva Martins
Elegia do Tempo e da Saudade
"Os espinhos de roseira contavam
histórias medievais
e não faltava ao menino
a nítida imagem do que é uma princesa".
ALEXANDRE GRAVINAS
"Ele sabe que rondas indiferente
O muro do seu jardim
.............
Ele está preso no jardim. Crê no jardim".
MÁRIO CHAMIE
I
Ah! não poder antecipar manhãs,
Circundado pelas noites do impossível...
Erguer as mãos inúteis para o céu,
Em súplica sincera,
E os olhos, para o inferno dirigidos,
Em lagoas de azul desesperado,
No silêncio, navegar...
Ó dunas transatlânticas,
desérticas,
Que o calor de teu contato, perdoe-me!
Destino sem destino. Meu destino.
II
Mistério do anterior. Pouco mais e nada.
O passado inexistia.
Futuro manchado de desejos,
Colorido de cores irreais.
Presente suspeitante foi a véspera,
Presente suspeitante, mas contente.
Era o sonho do calmo da existência,
Concretizado na falta de tormenta.
(Vivência da vida!
Quanta angústia refletida nas lembranças!
Ó arrependimento, que não cria
O quando inatural das coisas nuas,
Povoadas de mundos diferentes!)
E a marcha, não sentida, desvendava
Jardins adormecidos, sem princesa,
Na fragrância envitativa do repouso,
Para os que tinham sonhos a sonhar.
Era tudo irreal como o futuro,
Que o cerco do deserto circundante
Nunca veio a penetrar.
E, assim, embriagado,
O menino fez-se, ao toque da ambiência,
Poeta e descoberta,
Até que certa vez,
Sorridente, com a lira,
Partiu para o deserto conhecer.
III
Nasceu quando o tempo era da lua
E foi aurora sempre.
Imagem feita coração cansado,
Na invasão da filha do deserto.
(Pobre jardim intemporal da ingenuidade,
Fenecido, à distância,
Por onde o teu espectro silente!)
E o menino espantado percebeu
A sensação agonizante do infindável
Prender-lhe a alma sem resguardo
E levaram-lhe do peito a própria imagem,
Era o tempo da lua. A lua grande, no entretanto,
Trazia a lividez materna indissolúvel
Dos momentos da perda irreparável.
Ah! Morte no jardim.
Aurora de fogo surgida em tempo novo.
Dois mares de azul desesperado.
Montanhas sanguíneas entreabertas
A pedirem o sangue das irmãs,
Por que teus vultos pela areia quente?
Tudo longínquo e tudo perto do menino.
E o menino sentindo, então,
A sede da ilusão insaciável.
Ilusão, não mais que isto.
Todo o mal foi excesso de ilusão
E a pouca realidade das areias quentes.
Areias quentes, onde o menino
Veio a esquecer-se
Que foi poeta no jardim.
E o jardim dos tempos idos
Era mais descoberta que aventura!
Para que a nova descoberta?
Marinheiro sem viagem,
Tragado na viagem da tortura...
Foi aurora quando o tempo era da lua
E o brilho de seu rapto fugaz
Fez o ódio do menino no deserto,
Esquecido o jardim.
histórias medievais
e não faltava ao menino
a nítida imagem do que é uma princesa".
ALEXANDRE GRAVINAS
"Ele sabe que rondas indiferente
O muro do seu jardim
.............
Ele está preso no jardim. Crê no jardim".
MÁRIO CHAMIE
I
Ah! não poder antecipar manhãs,
Circundado pelas noites do impossível...
Erguer as mãos inúteis para o céu,
Em súplica sincera,
E os olhos, para o inferno dirigidos,
Em lagoas de azul desesperado,
No silêncio, navegar...
Ó dunas transatlânticas,
desérticas,
Que o calor de teu contato, perdoe-me!
Destino sem destino. Meu destino.
II
Mistério do anterior. Pouco mais e nada.
O passado inexistia.
Futuro manchado de desejos,
Colorido de cores irreais.
Presente suspeitante foi a véspera,
Presente suspeitante, mas contente.
Era o sonho do calmo da existência,
Concretizado na falta de tormenta.
(Vivência da vida!
Quanta angústia refletida nas lembranças!
Ó arrependimento, que não cria
O quando inatural das coisas nuas,
Povoadas de mundos diferentes!)
E a marcha, não sentida, desvendava
Jardins adormecidos, sem princesa,
Na fragrância envitativa do repouso,
Para os que tinham sonhos a sonhar.
Era tudo irreal como o futuro,
Que o cerco do deserto circundante
Nunca veio a penetrar.
E, assim, embriagado,
O menino fez-se, ao toque da ambiência,
Poeta e descoberta,
Até que certa vez,
Sorridente, com a lira,
Partiu para o deserto conhecer.
III
Nasceu quando o tempo era da lua
E foi aurora sempre.
Imagem feita coração cansado,
Na invasão da filha do deserto.
(Pobre jardim intemporal da ingenuidade,
Fenecido, à distância,
Por onde o teu espectro silente!)
E o menino espantado percebeu
A sensação agonizante do infindável
Prender-lhe a alma sem resguardo
E levaram-lhe do peito a própria imagem,
Era o tempo da lua. A lua grande, no entretanto,
Trazia a lividez materna indissolúvel
Dos momentos da perda irreparável.
Ah! Morte no jardim.
Aurora de fogo surgida em tempo novo.
Dois mares de azul desesperado.
Montanhas sanguíneas entreabertas
A pedirem o sangue das irmãs,
Por que teus vultos pela areia quente?
Tudo longínquo e tudo perto do menino.
E o menino sentindo, então,
A sede da ilusão insaciável.
Ilusão, não mais que isto.
Todo o mal foi excesso de ilusão
E a pouca realidade das areias quentes.
Areias quentes, onde o menino
Veio a esquecer-se
Que foi poeta no jardim.
E o jardim dos tempos idos
Era mais descoberta que aventura!
Para que a nova descoberta?
Marinheiro sem viagem,
Tragado na viagem da tortura...
Foi aurora quando o tempo era da lua
E o brilho de seu rapto fugaz
Fez o ódio do menino no deserto,
Esquecido o jardim.
781
Ivan Junqueira
Esse punhado de ossos
A Moacyr Félix
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo.
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro
adunco do assassino,
nas úlceras do mendigo,
na voz melíflua do bispo,
no martírio dos suicidas,
na mão crispada das vítimas,
na forca e na Guilhotina,
no sangue sobre o patíbulo,
no sexo do hermafrodita,
no ventre da meretriz
que deu à luz uma harpia,
nas bestas do Apocalipse,
no selo que foi rompido,
nas trombetas do Juízo,
no êxtase mudo dos místicos,
na agonia dos epígonos,
no corvo que bica as vísceras
de alguém cujo sacrifício
vale tanto quanto a epígrafe
de uma página vazia.
Paz, enfim, até no ríctus
que torce a boca do Cristo.
2 421
Jáder de Carvalho
Eu me enganei
Eu me enganei quando disse: "É o fim!"
Via-me no espelho: a neve no cabelo.
As rugas se cruzavam no meu rosto.
A vista se cansava. Ah, era o fim!
Dentro do peito, o coração batia.
Em contraste com o rosto, a alma era jovem.
Eu gostava do cheiro das mulheres:
ia do olfato às profundezas d’alma.
Pensei: "A vida não me chega ao termo.
Sou todo vida. Só por fora é a morte."
E o mundo viu minha ressurreição.
Ah, quantas noites dormirei contigo!
Ah, quanto sol-nascente inda me espera!
A estrada é longa, mas não cansarei!...
Via-me no espelho: a neve no cabelo.
As rugas se cruzavam no meu rosto.
A vista se cansava. Ah, era o fim!
Dentro do peito, o coração batia.
Em contraste com o rosto, a alma era jovem.
Eu gostava do cheiro das mulheres:
ia do olfato às profundezas d’alma.
Pensei: "A vida não me chega ao termo.
Sou todo vida. Só por fora é a morte."
E o mundo viu minha ressurreição.
Ah, quantas noites dormirei contigo!
Ah, quanto sol-nascente inda me espera!
A estrada é longa, mas não cansarei!...
765
Jônatas Batista
A Aranha
Estende o fio fino e a fina trama tece
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.
E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dansa executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...
O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...
O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.
E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dansa executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...
O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...
O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...
1 157
Iracema de Camargo Aranha
Primavera
Menino chora
Pipa sumiu no espaço
Linha partida.
Galhos curvados
como a pedir perdão
Nobre chorão.
Finados... Mortos
Presença dos ausentes
Quanta saudade...
Pipa sumiu no espaço
Linha partida.
Galhos curvados
como a pedir perdão
Nobre chorão.
Finados... Mortos
Presença dos ausentes
Quanta saudade...
973
Truck Tumleh
Mar
Sinto dentro do corpo
Um mar de sentimentos.
Tenho canalizá-lo
E expressá-lo em palavras.
Não consigo.
É muita água...
É muito sentimento..
Peço que entenda mais,
Do que possa perdoar...
Você não imagina...
O que sinto
Quando o mar
Que carrego
Entra em ressaca.
Um mar de sentimentos.
Tenho canalizá-lo
E expressá-lo em palavras.
Não consigo.
É muita água...
É muito sentimento..
Peço que entenda mais,
Do que possa perdoar...
Você não imagina...
O que sinto
Quando o mar
Que carrego
Entra em ressaca.
817
Myriam Fraga
Banquete
O vinho
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
1 135
João Bosco da Encarnação
Essa Noite
Essa Noite
Essa noite estranha,
é uma noite de medo,
pavor de mim mesmo.
Quando penso eme vejo
pensante,
ouço o ruído incessante
— enervante —
do mar,
tenho medo.
Do latido de um cão
longínquo,
tenho medo.
E receio tanto
a escuridão silenciosa
da noite...
E me assusto tanto
com o barulho da folha seca
e do vento tenebroso
na encosta...
A existência só
e a coexistência só
de um mundo de mortos
me amedrontam,
apavoram.
E tenho um pavor imenso
de ser e de sentir...
Queria ser apenas algo
e não querer...
O pavor do silêncio noturno,
povoado de fantasmas
que riem do meu temor,
o medo da morte
porque parece uma noite
de silêncio profundo,
faz ouvir minha fraqueza,
um cão latindo ao longe,
triste,
um som de silêncio no ouvido,
enlouquece
e assusta como se houvesse
— e talvez haja —
algum estranho na escuridão.
E me assusto
com a escuridão e o silêncio
— nadas —
que reinam em mim...
Vazio que reina em mim
— tudo —
possível e impossível.
Alma solitária
jogada num abismo,
vê-se lá de cima do penhasco
onde o mar encontra as pedras,
um grunhido,
um bafo ofegante
— monstro —
nas minhas costas infinitas,
do tamanho da escuridão
que esconde o mar dos olhos
e nos ouvidos
preenche a imaginação.
Essa noite estranha,
é uma noite de medo,
pavor de mim mesmo.
Quando penso eme vejo
pensante,
ouço o ruído incessante
— enervante —
do mar,
tenho medo.
Do latido de um cão
longínquo,
tenho medo.
E receio tanto
a escuridão silenciosa
da noite...
E me assusto tanto
com o barulho da folha seca
e do vento tenebroso
na encosta...
A existência só
e a coexistência só
de um mundo de mortos
me amedrontam,
apavoram.
E tenho um pavor imenso
de ser e de sentir...
Queria ser apenas algo
e não querer...
O pavor do silêncio noturno,
povoado de fantasmas
que riem do meu temor,
o medo da morte
porque parece uma noite
de silêncio profundo,
faz ouvir minha fraqueza,
um cão latindo ao longe,
triste,
um som de silêncio no ouvido,
enlouquece
e assusta como se houvesse
— e talvez haja —
algum estranho na escuridão.
E me assusto
com a escuridão e o silêncio
— nadas —
que reinam em mim...
Vazio que reina em mim
— tudo —
possível e impossível.
Alma solitária
jogada num abismo,
vê-se lá de cima do penhasco
onde o mar encontra as pedras,
um grunhido,
um bafo ofegante
— monstro —
nas minhas costas infinitas,
do tamanho da escuridão
que esconde o mar dos olhos
e nos ouvidos
preenche a imaginação.
942
Isabel Vilhena
Alma das Coisas
Olhando a serra, lá distante,
E o sol que sobre a serra desce,
Escuto nesse instante
O pássaro feliz e as flores da campina,
O arvoredo que vive sem saber
Agasalhando a paz dos ninhos,
Dizerem sua prece!
E quando no horizonte o dia acorda,
Na pompa da alvorada,
À hora virginal do amanhecer,
É para mim como se eu mesma visse
O próprio Deus olhando para o mundo!
Então, minha alma reza ajoelhada,
Em silêncio profundo,
A prece mais bonita que eu já disse
E que a ninguém na terra eu vou dizer!
Ao ver o rio deslizar sereno,
Na sua vida plena de bonança,
Nessa marcha saudosa de partida,
Refletindo no espelho de águas mansas
Um retalho do céu todo estrelado,
Os ninhos e um pedaço da montanha,
Eu o comparo àquele que, na vida,
É bem feliz, porque o rio
Sonha acordado...
E sem saber que sonha!
E o sol que sobre a serra desce,
Escuto nesse instante
O pássaro feliz e as flores da campina,
O arvoredo que vive sem saber
Agasalhando a paz dos ninhos,
Dizerem sua prece!
E quando no horizonte o dia acorda,
Na pompa da alvorada,
À hora virginal do amanhecer,
É para mim como se eu mesma visse
O próprio Deus olhando para o mundo!
Então, minha alma reza ajoelhada,
Em silêncio profundo,
A prece mais bonita que eu já disse
E que a ninguém na terra eu vou dizer!
Ao ver o rio deslizar sereno,
Na sua vida plena de bonança,
Nessa marcha saudosa de partida,
Refletindo no espelho de águas mansas
Um retalho do céu todo estrelado,
Os ninhos e um pedaço da montanha,
Eu o comparo àquele que, na vida,
É bem feliz, porque o rio
Sonha acordado...
E sem saber que sonha!
1 028
José Blanc de Portugal
Dia de Todos-os-Santos
Supõe que morri
(Aos mortos se escreve também algumas vezes).
Não sou de cá.
O que me dizem estranho
E ouço o que não há.
Assim, talvez, como estrangeiro,
Encontres palavras que me interessem,
Saibas dar-me o que me tarda...
coisas perdidas que procuro
e talvez se possam dar
aos que partiram e esqueceram
e, por isso,
se lhes oferece o resto de tudo
sem mesmo se saber
que alguma coisa é dada.
Supõe que morri e diz
todas as verdades que se dão aos mortos
o que se confessa a quem não ouve
e espera resposta de ninguém ...
Dizem que os deuses morreram:
Sou da raça deles
à espera de Deus.
(Aos mortos se escreve também algumas vezes).
Não sou de cá.
O que me dizem estranho
E ouço o que não há.
Assim, talvez, como estrangeiro,
Encontres palavras que me interessem,
Saibas dar-me o que me tarda...
coisas perdidas que procuro
e talvez se possam dar
aos que partiram e esqueceram
e, por isso,
se lhes oferece o resto de tudo
sem mesmo se saber
que alguma coisa é dada.
Supõe que morri e diz
todas as verdades que se dão aos mortos
o que se confessa a quem não ouve
e espera resposta de ninguém ...
Dizem que os deuses morreram:
Sou da raça deles
à espera de Deus.
1 958
J. Anderson
Invenção do Vento
No casarão vazio...
Uma canção triste
Esquecida numa vitrola,
Despertou a nostalgia.
E o vento...
Inventou de trazer lembranças.
Uma canção triste
Esquecida numa vitrola,
Despertou a nostalgia.
E o vento...
Inventou de trazer lembranças.
1 085
Lucila Issa
Beyond the Invisible
Os olhos
sentem e distinguem:
real ou outro sonho
você, você e eu.
Neste lado,
remoto é aprender a voar:
se cair vai crer e ver,
mudar a noite,
além da realidade.
sentem e distinguem:
real ou outro sonho
você, você e eu.
Neste lado,
remoto é aprender a voar:
se cair vai crer e ver,
mudar a noite,
além da realidade.
696
Ivan Sarney da Costa
Sou Apenas um Homem
Sou apenas um homem
Perscrutando a Cidade.
Por favor, não temam meus passos.
Nem sei se são passos que me conduzem.
Às vezes, são sobressaltos, angústias e medos.
É necessário que acreditem no que digo.
Não direi muito porque não conheço muito.
Na verdade, eu sei tão pouco.
Tudo o que aprendi foi me extrair das coisas
E me integrar às coisas.
Nesse processo, sou poeira, limo, sujo,
Folhas, frutos, pétalas, pau e pedra.
Sou fontes do passado
E daquilo que há de vir,
Me confundo com o anônimo das faces.
Me escureço com o asfalto do chão.
Às vezes, brilho e resplandeço
Como as paredes de azulejos e as luzes da noite.
Perscrutando a Cidade.
Por favor, não temam meus passos.
Nem sei se são passos que me conduzem.
Às vezes, são sobressaltos, angústias e medos.
É necessário que acreditem no que digo.
Não direi muito porque não conheço muito.
Na verdade, eu sei tão pouco.
Tudo o que aprendi foi me extrair das coisas
E me integrar às coisas.
Nesse processo, sou poeira, limo, sujo,
Folhas, frutos, pétalas, pau e pedra.
Sou fontes do passado
E daquilo que há de vir,
Me confundo com o anônimo das faces.
Me escureço com o asfalto do chão.
Às vezes, brilho e resplandeço
Como as paredes de azulejos e as luzes da noite.
966