Poemas neste tema
Alma
Cláudio Alex
Metamorfose Blues
O pensamento, essas mãos remotas
que te tocaram.
Te transformaram, fluindo em ti
uma vontade louca.
Um gosto acre, de amor,
invade a boca.
Uma sensação de contradição
revela o inatingível.
Dissera que o prazer
supremo libera a alma.
E traz a calma das manhãs
dormidas ao relento.
Mas o pensamento
navega em turvas águas
E nas mágoas que brotam
em teus segredos.
As mãos do pensamento
acharam teu recanto.
E a voz te penetrou
em íntimos encantos
E o gozo inundou...
E a noite prosseguiu...
E um choro convulsivo
te descobriu em ti.
que te tocaram.
Te transformaram, fluindo em ti
uma vontade louca.
Um gosto acre, de amor,
invade a boca.
Uma sensação de contradição
revela o inatingível.
Dissera que o prazer
supremo libera a alma.
E traz a calma das manhãs
dormidas ao relento.
Mas o pensamento
navega em turvas águas
E nas mágoas que brotam
em teus segredos.
As mãos do pensamento
acharam teu recanto.
E a voz te penetrou
em íntimos encantos
E o gozo inundou...
E a noite prosseguiu...
E um choro convulsivo
te descobriu em ti.
751
Antero Coelho Neto
Estou Velho
Eu procuro as palavras certas
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na idéia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na idéia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...
1 373
António Osório
Sonetos da Ausência III
O que a memória havia sepultado
em sábia rejeição, nos seus arcanos
a ausência faz voltar, ressuscitados
a morta dor, o morto amor, os mortos anos.
As já esquecidas mágoas emergem
deste oceano de lágrimas revoltas
a sargaços se agarram, quase soltas
ao sal amargo dos infrenes ventos.
Em luta uns com os outros os sentidos
Sangue e mem6ria em guerra com o silêncio.
E surge a tentação nesta golfada
de pranto que sufoca as coronárias:
: melhor quem sabe o sofrimento antigo
do que este negror de tua ausência.
em sábia rejeição, nos seus arcanos
a ausência faz voltar, ressuscitados
a morta dor, o morto amor, os mortos anos.
As já esquecidas mágoas emergem
deste oceano de lágrimas revoltas
a sargaços se agarram, quase soltas
ao sal amargo dos infrenes ventos.
Em luta uns com os outros os sentidos
Sangue e mem6ria em guerra com o silêncio.
E surge a tentação nesta golfada
de pranto que sufoca as coronárias:
: melhor quem sabe o sofrimento antigo
do que este negror de tua ausência.
1 191
Amílcar Dória
Eu vou contar a história de uma lida
1.
Eu vou contar a história de uma lida
como quem narra a dor de uma saudade,
pois de saudade ela se faz, embora
ninguém saudade sinta de quem vive.
Que não se estranhe a minha narrativa.
Nada no mundo mais pode espantar.
Quando é o estranho ser que se retrata,
ainda mais estranha é a batalha.
O homem a que refiro ainda existe,
melhor talvez dizer sempre existiu
e entre nós habita igual ao vento
que ocorre em toda parte, onipresente,
e agita folhas, mexe com sentidos
onde o homem vai buscar a sua origem.
Eu vou contar a história de uma lida
como quem narra a dor de uma saudade,
pois de saudade ela se faz, embora
ninguém saudade sinta de quem vive.
Que não se estranhe a minha narrativa.
Nada no mundo mais pode espantar.
Quando é o estranho ser que se retrata,
ainda mais estranha é a batalha.
O homem a que refiro ainda existe,
melhor talvez dizer sempre existiu
e entre nós habita igual ao vento
que ocorre em toda parte, onipresente,
e agita folhas, mexe com sentidos
onde o homem vai buscar a sua origem.
901
Adailton Medeiros
Auto-retrato
Diante do espelho grande do tempo
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer
Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)
Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer
Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)
Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio
945
Arlete Nogueira da Cruz
Rua dos Afogados
Rua de verdade e de sobrado
onde um sol lhe cai em vertical
onde um herói quer-se afogado
libertando sua ilha natural.
Rua que recolhe o moribundo
sacrifício de quem por ser mortal
mergulha e eleva-se num mundo
de mariscos, de algas e de sal,
Rua que sobre rumo ao porto
desta ilha que se quer liberta
rua que transformava o morto
silêncio da cidade — ó rua
de indormidas noites e aberta
para o poeta descer a sua lua.
onde um sol lhe cai em vertical
onde um herói quer-se afogado
libertando sua ilha natural.
Rua que recolhe o moribundo
sacrifício de quem por ser mortal
mergulha e eleva-se num mundo
de mariscos, de algas e de sal,
Rua que sobre rumo ao porto
desta ilha que se quer liberta
rua que transformava o morto
silêncio da cidade — ó rua
de indormidas noites e aberta
para o poeta descer a sua lua.
1 452
Antônio Brasileiro
Estudo 11
Os homens me fizeram assim.
Assim permaneço, assim,
uma constante negação de mim dentro de mim.
Jamais eu fui eu mesmo, eu mesmo,
porque foram os homens que me fizeram,
sempre foram os homens que me fizeram.
Eu sou assim, negando-me negando-me,
— outro irão eu alimentando-se de mim —
porque jamais Eu Mesmo teria sido assim.
Os homens me fizeram o que eu não seria
se eu fosse eu próprio.
Mas sou assim.
Milhões de vozes falam milhões de olhos vêem
milhões de braços clamam milhões de lábios tremem
milhões de peitos sofrem milhões de vozes
calam dentro de mim.
— Outro não eu alimenta-se de mim —
Eu lutarei eu lutarei eu lutarei eu lutarei.
Assim permaneço, assim,
uma constante negação de mim dentro de mim.
Jamais eu fui eu mesmo, eu mesmo,
porque foram os homens que me fizeram,
sempre foram os homens que me fizeram.
Eu sou assim, negando-me negando-me,
— outro irão eu alimentando-se de mim —
porque jamais Eu Mesmo teria sido assim.
Os homens me fizeram o que eu não seria
se eu fosse eu próprio.
Mas sou assim.
Milhões de vozes falam milhões de olhos vêem
milhões de braços clamam milhões de lábios tremem
milhões de peitos sofrem milhões de vozes
calam dentro de mim.
— Outro não eu alimenta-se de mim —
Eu lutarei eu lutarei eu lutarei eu lutarei.
998
Antero Coelho Neto
De Novo A Vida
Depois de um sopro,
de novo a vida.
Depois da grande inércia,
novamente o fluxo.
Depois dos tempos de nada,
novamente a emoção.
Depois da grande ausência,
a enorme alegria do movimento.
Depois de um enorme vácuo,
eis que sou alguém outra vez.
De repente,
o pulsar do sangue,
novamente,
rápido,
o coração a bater,
o sangue a correr.
Vivo de novo,
eu conheci você!
de novo a vida.
Depois da grande inércia,
novamente o fluxo.
Depois dos tempos de nada,
novamente a emoção.
Depois da grande ausência,
a enorme alegria do movimento.
Depois de um enorme vácuo,
eis que sou alguém outra vez.
De repente,
o pulsar do sangue,
novamente,
rápido,
o coração a bater,
o sangue a correr.
Vivo de novo,
eu conheci você!
1 155
Antonio de Deus Teles Filho
Olhos
Nos seus olhos,
a beleza de sua serenidade,
sua sensibilidade.
Na sua face,
o encanto cativante
e sedutor do seu sorriso.
Os movimentos do seu corpo,
despertando em mim
um sentimento forte
e bom como a luz que você irradia.
Nos nossos passos,
o rítmo de nossas vidas,
querendo durar acima do tempo
e eternizar-se na quietude da noite.
a beleza de sua serenidade,
sua sensibilidade.
Na sua face,
o encanto cativante
e sedutor do seu sorriso.
Os movimentos do seu corpo,
despertando em mim
um sentimento forte
e bom como a luz que você irradia.
Nos nossos passos,
o rítmo de nossas vidas,
querendo durar acima do tempo
e eternizar-se na quietude da noite.
921
Antero Coelho Neto
A Criança do meu Passado
A criança chorou longe,
enquanto o tempo de hoje
se fez presente em mim.
Assim o fato de agora
perturba o homem em si
e a criança chora longe.
Sinto o choro distante,
cada vez mais, na imagem
do passado que lembro.
São soluços e são gritos
de fome, raiva e desespero
que hoje ainda persistem.
São diferentes os sentimentos,
mas continuam os mesmos
soluços e gritos da alma.
A criança de ontem
perde-se muito na lembrança,
mas é a mesma que chora agora
enquanto o tempo de hoje
se fez presente em mim.
Assim o fato de agora
perturba o homem em si
e a criança chora longe.
Sinto o choro distante,
cada vez mais, na imagem
do passado que lembro.
São soluços e são gritos
de fome, raiva e desespero
que hoje ainda persistem.
São diferentes os sentimentos,
mas continuam os mesmos
soluços e gritos da alma.
A criança de ontem
perde-se muito na lembrança,
mas é a mesma que chora agora
1 502
Álvaro Feijó
Varina
Eu mudei de pincel e de paleta
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
1 633
Arita Damasceno Pettená
Tarde demais
Tarde demais
Era frio, muito frio .
Frio na tarde, frio em mim..
Olhos em pranto,
Alma em desencanto,
Parti a caminhar .
E no melancólico crepúsculo,
Ouvi uma voz que dizia :
Esqueça !
ConTinuei a caminhada .
Era noite, muito noite então .
Estrelas perfilavam o firmamento,
Num brilho nostálgico o solitário .
E dentro da noite vazia,
Rosto banhado em luar,
Ouvi outra voz que dizia :
Perdoa !
Prossegui a cavalgada .
E já não havia mágoa
E nem mais ressentimento .
Foi quando então o coração falou :
Volta !
Voltei .
Mas era tarde,
Muito tarde então .
Nunca mais o encontrei!
Era frio, muito frio .
Frio na tarde, frio em mim..
Olhos em pranto,
Alma em desencanto,
Parti a caminhar .
E no melancólico crepúsculo,
Ouvi uma voz que dizia :
Esqueça !
ConTinuei a caminhada .
Era noite, muito noite então .
Estrelas perfilavam o firmamento,
Num brilho nostálgico o solitário .
E dentro da noite vazia,
Rosto banhado em luar,
Ouvi outra voz que dizia :
Perdoa !
Prossegui a cavalgada .
E já não havia mágoa
E nem mais ressentimento .
Foi quando então o coração falou :
Volta !
Voltei .
Mas era tarde,
Muito tarde então .
Nunca mais o encontrei!
1 152
Adriana Lustosa
Linguística
Um ponto
eu pensei que fosse o fim de tudo.
Depois do hiato,
vi romper a intercalação do desejo,
essa vírgula e a surpresa.
Você me beijou
ficou no ar aquela imensa interrogação,
efeito da linguística
Apenas começavamos um novo parágrafo
mas eu não sabia,
imaginei coisas tolas sobre a língua.
Não tive palavras para disfarçar
meu falso cognato
ao invés de gritar
quase silencio de uma vez por todas
A poesia fez as vozes do meu coração
Apertei a gramática
com alguns métodos pouco ortodoxos
consegui um ponto final
que não terminou com o q já existia.
Daí, então, fiz a vez de poeta romântico,
num português impecável;
entre um beijo e outro
consegui dizer: eu te amo.
E outras tantas coisas
Depois esqueci do ponto e da vírgula:
resolvi ser professor de matemática.
eu pensei que fosse o fim de tudo.
Depois do hiato,
vi romper a intercalação do desejo,
essa vírgula e a surpresa.
Você me beijou
ficou no ar aquela imensa interrogação,
efeito da linguística
Apenas começavamos um novo parágrafo
mas eu não sabia,
imaginei coisas tolas sobre a língua.
Não tive palavras para disfarçar
meu falso cognato
ao invés de gritar
quase silencio de uma vez por todas
A poesia fez as vozes do meu coração
Apertei a gramática
com alguns métodos pouco ortodoxos
consegui um ponto final
que não terminou com o q já existia.
Daí, então, fiz a vez de poeta romântico,
num português impecável;
entre um beijo e outro
consegui dizer: eu te amo.
E outras tantas coisas
Depois esqueci do ponto e da vírgula:
resolvi ser professor de matemática.
968
António Osório
O Sítio
O mundo sitiou o sonho, e o tem preso
em débeis cidadelas
— suas últimas guaridas.
Os soldados oníricos têm medo
sem armas
e suas caravelas
não têm velas.
Inúteis seus desvelos desarmados
até os sentinelas
fatigados
já estão cedendo ao peso das vigílias.
Vai longo o sítio, e já vão se esgotando
as frágeis provisões
dos sitiados.
O mundo tem seus ásperos soldados
nos dias
pontuais
que na luta não cedem nem recuam.
E nunca erram as duras cimitarras
os seus golpes
diretos e fatais.
O assédio continua, já inúteis os galopes
dos bravos cavaleiros sitiados.
Têm cavalos de mar
e o sítio é em terra.
Têm cavalos de paz
e sítio é guerra.
Fácil de prever o resultado
dos combates travados
desiguais.
Já se aprestam os dias, bons guerreiros
aos ataques certeiros
e finais.
em débeis cidadelas
— suas últimas guaridas.
Os soldados oníricos têm medo
sem armas
e suas caravelas
não têm velas.
Inúteis seus desvelos desarmados
até os sentinelas
fatigados
já estão cedendo ao peso das vigílias.
Vai longo o sítio, e já vão se esgotando
as frágeis provisões
dos sitiados.
O mundo tem seus ásperos soldados
nos dias
pontuais
que na luta não cedem nem recuam.
E nunca erram as duras cimitarras
os seus golpes
diretos e fatais.
O assédio continua, já inúteis os galopes
dos bravos cavaleiros sitiados.
Têm cavalos de mar
e o sítio é em terra.
Têm cavalos de paz
e sítio é guerra.
Fácil de prever o resultado
dos combates travados
desiguais.
Já se aprestam os dias, bons guerreiros
aos ataques certeiros
e finais.
2 003
Antero Coelho Neto
Eu Aprendi a Dizer Sim
Eu aprendi a dizer sim quando via natureza
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
1 433
Antero Coelho Neto
Solidão, Meu Vício
Solidão, querida amiga!
Te amo e te desejo,
assim no teu silêncio
e na tua tranqüilidade.
Minha querida Solidão
tu me consolas tanto
e me convidas sempre
para ficar sozinho
nesta gostosa tristeza.
Momento sem dor,
sem dano ou agressão.
Momento do só eu
e de meus pensamentos.
Momento meu só
e de ninguém mais.
Momento que me seduz
e que me encanta.
Onde eu encontro
as palavras do poema,
em que canto à vida
e choro o mundo.
Onde eu grito
as coisas que quero,
da minha maneira,
sem qualquer explicação.
Silêncio do nada dizer,
já que não quero responder
o que ninguém me pergunta.
Sozinho na solidão eu fico
sonhando acordado,
vivendo os meus sonhos
que eu quero viver.
E na solidão e no silêncio,
tenho o meu orgasmo
íntimo e particular
do meu espírito em vôo.
Solidão, meu vício.
Solidão minha vida.
eu te amo e te quero
sempre ao meu lado.
Te amo e te desejo,
assim no teu silêncio
e na tua tranqüilidade.
Minha querida Solidão
tu me consolas tanto
e me convidas sempre
para ficar sozinho
nesta gostosa tristeza.
Momento sem dor,
sem dano ou agressão.
Momento do só eu
e de meus pensamentos.
Momento meu só
e de ninguém mais.
Momento que me seduz
e que me encanta.
Onde eu encontro
as palavras do poema,
em que canto à vida
e choro o mundo.
Onde eu grito
as coisas que quero,
da minha maneira,
sem qualquer explicação.
Silêncio do nada dizer,
já que não quero responder
o que ninguém me pergunta.
Sozinho na solidão eu fico
sonhando acordado,
vivendo os meus sonhos
que eu quero viver.
E na solidão e no silêncio,
tenho o meu orgasmo
íntimo e particular
do meu espírito em vôo.
Solidão, meu vício.
Solidão minha vida.
eu te amo e te quero
sempre ao meu lado.
1 380
Antônio Brasileiro
Mágoa
1.
Fiz-me embrulho para presente
para ofertar-me aos amigos.
(Sempre fui o mesmo homem:
papel de seda, uma fita.)
2.
Amei tanto, tanto mesmo:
só me chamaram poeta.
Sorri tanto, e só sabiam
que eu tinha dentes bonitos.
3.
Guardei-me um dia no mar
chorei ondas pela praia.
Em mim nasceu uma flor
porque sempre fui jardim.
Fiz-me embrulho para presente
para ofertar-me aos amigos.
(Sempre fui o mesmo homem:
papel de seda, uma fita.)
2.
Amei tanto, tanto mesmo:
só me chamaram poeta.
Sorri tanto, e só sabiam
que eu tinha dentes bonitos.
3.
Guardei-me um dia no mar
chorei ondas pela praia.
Em mim nasceu uma flor
porque sempre fui jardim.
1 110
Amílcar Dória
Então adormeceu em fundo sono
3.
Então adormeceu em fundo sono.
Mas quando despertou não era outro.
Continuava o mesmo, um ser tristonho
a se indagar do seu tristonho encanto.
Ergueu-se dos recantos da caverna
à luz das tochas vivas da agonia.
E pronto retomou a sua angústia
de se indagar da própria procedência.
Por que sou eu quem sou? - ele dizia.
Por que me deram mãos e um coração
que se perturba a cada vez que o dia
noite se torna, e a noite, madrugada,
enquanto os gatos no telhado miam?
Não sei se o gato tem a ver comigo.
Então adormeceu em fundo sono.
Mas quando despertou não era outro.
Continuava o mesmo, um ser tristonho
a se indagar do seu tristonho encanto.
Ergueu-se dos recantos da caverna
à luz das tochas vivas da agonia.
E pronto retomou a sua angústia
de se indagar da própria procedência.
Por que sou eu quem sou? - ele dizia.
Por que me deram mãos e um coração
que se perturba a cada vez que o dia
noite se torna, e a noite, madrugada,
enquanto os gatos no telhado miam?
Não sei se o gato tem a ver comigo.
967
Antônio Brasileiro
Os Instrumentos e Ofícios
Este poema talvez não seja feito
para seu ouvido
acostumado às delícias
do pôr-do-sol, dos botões de rosa,
das palavras flácidas.
Este poema anda descalço
veste farrapos
xinga nomes horríveis.
Talvez seu ouvido se recuse
a captar coisas
tão ríspidas, não importa.
Ele ecoará com seus trapos
sua rispidez sua
imundícia.
Ecoará bem alto
sobre as calçadas, os edifícios
sobre o mar —
e continuará ecoando em
cada onda nas praias
em cada pedra nas praças
em cada lâmina de faca.
para seu ouvido
acostumado às delícias
do pôr-do-sol, dos botões de rosa,
das palavras flácidas.
Este poema anda descalço
veste farrapos
xinga nomes horríveis.
Talvez seu ouvido se recuse
a captar coisas
tão ríspidas, não importa.
Ele ecoará com seus trapos
sua rispidez sua
imundícia.
Ecoará bem alto
sobre as calçadas, os edifícios
sobre o mar —
e continuará ecoando em
cada onda nas praias
em cada pedra nas praças
em cada lâmina de faca.
960
Amílcar Dória
Onde o homem vai buscar a sua origem?
2.
Onde o homem vai buscar a sua origem?
Nas entranhas do solo, nas sementes
das plantas ou no cio dos animais
ou mesmo em pétreos corpos silenciosos?
No caso o homem a que se trata
nasceu de sua própria incoerência:
quando sentiu em si a consciência
de que era gente quase perde o tino.
Pois se indagou em sua mente aflita:
eu sou sozinho ou todo o universo
é parte do meu ser, ou é o inverso?
Donde saí, de que remoto esconso
de lápides fatais me originei?
Então adormeceu em fundo sono.
Onde o homem vai buscar a sua origem?
Nas entranhas do solo, nas sementes
das plantas ou no cio dos animais
ou mesmo em pétreos corpos silenciosos?
No caso o homem a que se trata
nasceu de sua própria incoerência:
quando sentiu em si a consciência
de que era gente quase perde o tino.
Pois se indagou em sua mente aflita:
eu sou sozinho ou todo o universo
é parte do meu ser, ou é o inverso?
Donde saí, de que remoto esconso
de lápides fatais me originei?
Então adormeceu em fundo sono.
869
Adriana Lustosa
Tenho que esperar
Tenho que esperar
o outono
o sopro divino
que o intransitivo verbo
se complete.
Esperar, esperar
o sorriso cotidiano
um sentido
Me espera!
Finge que me ama
e solta o trilho
do trem que vem vazio
Você dispara o revólver
e acerta o futuro
ficamos
eu, na corda bamba
você, no muro.
E se falhar o amor
que outra fantasia invento?
E se o lobo ávido
der comigo sedenta e ambigua
e não me reconhecer?
Se falhar o construção
aproveito-me da linguagem:
minto.
Soa falso esse sino
Blém blém no meu peito
No meu peito esse sino
Blém, blém. Blém, blém.
O peito campanério de um amor suspeito
Aflita fico.
Soa falso esse sino
Blém bém no meu peito.
De amores morreu Dolores;
das cores, das dores,
da vida levou flores.
Não vinga a vida:
Morre Dolores.
No peito um amor quase sem cor;
quase dor,
flor despetalando sem perdão.
De luto espero aflito pelo seu caixão.
Na noite enluarada sinto frio.
mato Dolores dentro de mim
e conheço Augusta.
o outono
o sopro divino
que o intransitivo verbo
se complete.
Esperar, esperar
o sorriso cotidiano
um sentido
Me espera!
Finge que me ama
e solta o trilho
do trem que vem vazio
Você dispara o revólver
e acerta o futuro
ficamos
eu, na corda bamba
você, no muro.
E se falhar o amor
que outra fantasia invento?
E se o lobo ávido
der comigo sedenta e ambigua
e não me reconhecer?
Se falhar o construção
aproveito-me da linguagem:
minto.
Soa falso esse sino
Blém blém no meu peito
No meu peito esse sino
Blém, blém. Blém, blém.
O peito campanério de um amor suspeito
Aflita fico.
Soa falso esse sino
Blém bém no meu peito.
De amores morreu Dolores;
das cores, das dores,
da vida levou flores.
Não vinga a vida:
Morre Dolores.
No peito um amor quase sem cor;
quase dor,
flor despetalando sem perdão.
De luto espero aflito pelo seu caixão.
Na noite enluarada sinto frio.
mato Dolores dentro de mim
e conheço Augusta.
1 031
Antero Coelho Neto
Palavras a um Amigo Triste
Meu querido amigo triste,
eu nunca encontrei as palavras.
Digo, as palavras certas e verdadeiras,
porque as outras são ditas fáceis
e logo, sempre esquecidas.
Eu falo daquelas palavras amigas,
justamente significativas para o pranto
da dor maior quando sofrida.
Essas eu acho que não existem,
pois jamais puderam dizer-me.
eu nunca encontrei as palavras.
Digo, as palavras certas e verdadeiras,
porque as outras são ditas fáceis
e logo, sempre esquecidas.
Eu falo daquelas palavras amigas,
justamente significativas para o pranto
da dor maior quando sofrida.
Essas eu acho que não existem,
pois jamais puderam dizer-me.
1 401
Antônio Brasileiro
Tempo
1.
Canto porque em mim
brotam quarenta mundos.
Quero cantar.
2.
Cantar os hímens rotos?
os amigos mortos?
Cantar o suor do rosto? a
dor nos rins?
o imposto de renda? a conta
da luz?
Não, não cantarei
as dores que não sofri.
Cheguei, irmãos, para
cantar os cantos
que sei.
3.
Sei do tédio, sei da mágoa, sei
de algum remorso esparso;
sei da difícil amada,
sei de meus olhos, meus braços.
Mas por demais me cant(s)ei:
agora busco outros cantos.
4.
Não cantarei os Andes de Neruda,
não cantarei Espanha de Picasso,
África de Cesaire, Pernambuco
de João Cabral de Melo Neto.
Nem China, vasto amor de Mao,
nem Itabira.
(Em boas mãos prossigam)
Cantar os tempos presentes
— estes áridos tempos —
eu cantarei.
5.
Vietnã, teu nome
jazerá escrito a ferro e pétalas.
Nós venceremos, Vietnã.
Congo, não foi em vão
o grito de Patrice.
Nós venceremos, Congo.
San Domingos Havana Bogotá
Buenos Aires Brasília:
nós venceremos!
Venceremos porque na pele
sentimos — demais — vergastas.
Duras vergastas na carne,
na sombra que se projeta.
Duras vergastas na cara.
6.
E após meu canto, escutarei apenas
— como se escuta passar o vento —
o amor brotando das palmas
de nossas mãos.
Escutemos!!
Canto porque em mim
brotam quarenta mundos.
Quero cantar.
2.
Cantar os hímens rotos?
os amigos mortos?
Cantar o suor do rosto? a
dor nos rins?
o imposto de renda? a conta
da luz?
Não, não cantarei
as dores que não sofri.
Cheguei, irmãos, para
cantar os cantos
que sei.
3.
Sei do tédio, sei da mágoa, sei
de algum remorso esparso;
sei da difícil amada,
sei de meus olhos, meus braços.
Mas por demais me cant(s)ei:
agora busco outros cantos.
4.
Não cantarei os Andes de Neruda,
não cantarei Espanha de Picasso,
África de Cesaire, Pernambuco
de João Cabral de Melo Neto.
Nem China, vasto amor de Mao,
nem Itabira.
(Em boas mãos prossigam)
Cantar os tempos presentes
— estes áridos tempos —
eu cantarei.
5.
Vietnã, teu nome
jazerá escrito a ferro e pétalas.
Nós venceremos, Vietnã.
Congo, não foi em vão
o grito de Patrice.
Nós venceremos, Congo.
San Domingos Havana Bogotá
Buenos Aires Brasília:
nós venceremos!
Venceremos porque na pele
sentimos — demais — vergastas.
Duras vergastas na carne,
na sombra que se projeta.
Duras vergastas na cara.
6.
E após meu canto, escutarei apenas
— como se escuta passar o vento —
o amor brotando das palmas
de nossas mãos.
Escutemos!!
1 062
Afonso Duarte
Ex-voto da Paisagem
de Coimbra ao Pôr-do-Sol
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
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