Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Luís António Cajazeira Ramos
Anátema
Vogo na idéia vaga e vã do eu,
como se houvesse em mim um ser e um cerne,
uma alma inominada, em corpo inerme,
amálgama de fiat lux et breu.
Mimo a mim mesmo com um mimoso engano:
que o mundo existe como um fato meu;
que a vida é a imagem de ilusório véu,
tecido por mim (fio) o mundo (pano).
Fio-me que penso e existo e assim sou algo;
desfio meus véus, em busca de meu âmago,
mas desconfio que apenas seja imago...
Meu sumo é um oco totem hamletiano.
Do imane e ameno cenho, emana a senha:
a senda é ser não sendo (ou seja eu sonho).
como se houvesse em mim um ser e um cerne,
uma alma inominada, em corpo inerme,
amálgama de fiat lux et breu.
Mimo a mim mesmo com um mimoso engano:
que o mundo existe como um fato meu;
que a vida é a imagem de ilusório véu,
tecido por mim (fio) o mundo (pano).
Fio-me que penso e existo e assim sou algo;
desfio meus véus, em busca de meu âmago,
mas desconfio que apenas seja imago...
Meu sumo é um oco totem hamletiano.
Do imane e ameno cenho, emana a senha:
a senda é ser não sendo (ou seja eu sonho).
952
João Rui de Sousa
Roteiro
Meu jeito visionário — meu astrolábio.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.
Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.
Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.
Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.
Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.
Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.
Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.
1 226
Laura Amélia Damous
Quiromancia
A mão do poema
é a que me cabe
inteira
A outra,
eu a carrego,
pesada e alheia.
é a que me cabe
inteira
A outra,
eu a carrego,
pesada e alheia.
1 169
Luís António Cajazeira Ramos
Fiat Breu
Há pouco, fui brilhante.
Agora, brilho escapante,
ou escapadamente lusco
e fusco, ou busco um instante
qualquer, tropegamente.
Tão-somente, já não brilho
intensamente, como há poucos
instantes atrás.
Escapou-me o brilho reluzente
do primeiro instantâneo flash
de verídicas meta-observações,
que me conduziam a conclusões
deveras geniais, tal como eu
fosse capaz, um tanto mais
perceptivo para os tempos atuais.
Mas sou por demais insistente
e escrevo, sofregamente,
tentando segurar aquele flash,
capaz de dar-me luz de iluminação,
capaz de trazer-me compreensão
de densos organismos universais
e de mim mesmo, principalmente.
Mas é tudo um delírio,
ao final do que se escreve,
já sem brilho, tão breve...
mas já sem grilo, já leve,
até capaz de fazer-me sorrir.
Agora, brilho escapante,
ou escapadamente lusco
e fusco, ou busco um instante
qualquer, tropegamente.
Tão-somente, já não brilho
intensamente, como há poucos
instantes atrás.
Escapou-me o brilho reluzente
do primeiro instantâneo flash
de verídicas meta-observações,
que me conduziam a conclusões
deveras geniais, tal como eu
fosse capaz, um tanto mais
perceptivo para os tempos atuais.
Mas sou por demais insistente
e escrevo, sofregamente,
tentando segurar aquele flash,
capaz de dar-me luz de iluminação,
capaz de trazer-me compreensão
de densos organismos universais
e de mim mesmo, principalmente.
Mas é tudo um delírio,
ao final do que se escreve,
já sem brilho, tão breve...
mas já sem grilo, já leve,
até capaz de fazer-me sorrir.
814
João Marcio Furtado Costa
Gênero
Gênero
(11/96)
Não importa se acham que é bom
e muito menos se pensam que é mau
o que interessa é só o tom
usado pra elevar o moral
Quem procura e acha, pensa
que o achado o salvará
mas não vê que a recompensa
está mesmo é no alvará
Não concebo o descaso e espero
que venha, dos Deuses, a cólera
e desabe por sobre a cabeça
dos homens que permitem o cólera
Ao se pesar o passado
não é necessário fazer drama
vê-se logo que não tem tanto peso
se comparado ao grama
Vestidos de determinadas damas
me fazem perder os sentidos
o corpo consome-se em chamas
mesmo se dorme, a libido
Sabe o que penso do gênero?
é fundamental, pois a mensagem
pode ter sentido efêmero
se não incorporar a personagem
(11/96)
Não importa se acham que é bom
e muito menos se pensam que é mau
o que interessa é só o tom
usado pra elevar o moral
Quem procura e acha, pensa
que o achado o salvará
mas não vê que a recompensa
está mesmo é no alvará
Não concebo o descaso e espero
que venha, dos Deuses, a cólera
e desabe por sobre a cabeça
dos homens que permitem o cólera
Ao se pesar o passado
não é necessário fazer drama
vê-se logo que não tem tanto peso
se comparado ao grama
Vestidos de determinadas damas
me fazem perder os sentidos
o corpo consome-se em chamas
mesmo se dorme, a libido
Sabe o que penso do gênero?
é fundamental, pois a mensagem
pode ter sentido efêmero
se não incorporar a personagem
701
José Eustáquio da Silva
Quem Somos Nós?
desenvolva
não envolva
lute e deguste
o prazer de se chegar
a um merecido
nenhum lugar
arrase a razão
prenda a prisão
da precisa imprecisão
dos infames imprestáveis
ame o ódio
dos que te odeiam
leia os lábios mudos
daqueles que te olham
ame tudo que não existe
e acredite no amor
a existência é uma experiência
cujos ratos somos nós...
meu deus eu não agüento mais
ficar assim tão quieto
me diga então enquanto vivo:
será que vamos dar certo?
não envolva
lute e deguste
o prazer de se chegar
a um merecido
nenhum lugar
arrase a razão
prenda a prisão
da precisa imprecisão
dos infames imprestáveis
ame o ódio
dos que te odeiam
leia os lábios mudos
daqueles que te olham
ame tudo que não existe
e acredite no amor
a existência é uma experiência
cujos ratos somos nós...
meu deus eu não agüento mais
ficar assim tão quieto
me diga então enquanto vivo:
será que vamos dar certo?
927
João Manuel Simões
Diálogo Comigo
Falo comigo, falo.
Mas só me escuto quando,
em silêncio pensando,
me calo.
O que diz minha boca?
Mentira vã, sonora?
Tudo o que digo agora,
sufoca.
Ânsia íntima, larga,
de seguir só e mudo.
Tudo o que conto, tudo
amarga.
Minha voz de ontem brota
de um legendário hoje.
Subitamente foge,
ignota.
Quem serei? Desconheço.
Se chegar a sabê-lo,
a ninguém o revelo:
esqueço.
Mas só me escuto quando,
em silêncio pensando,
me calo.
O que diz minha boca?
Mentira vã, sonora?
Tudo o que digo agora,
sufoca.
Ânsia íntima, larga,
de seguir só e mudo.
Tudo o que conto, tudo
amarga.
Minha voz de ontem brota
de um legendário hoje.
Subitamente foge,
ignota.
Quem serei? Desconheço.
Se chegar a sabê-lo,
a ninguém o revelo:
esqueço.
984
João Marcio Furtado Costa
Reflexão
Reflexão
(03/96)
Não procuro consolo,
A inocência se foi,
Se não fomos um todo,
Nada fomos depois.
Mas eu busco o resgate,
Digo não à razão,
Se cresci no vazio,
Ainda tenho o meu chão.
Nesse resto de estrada,
Se é a paixão quem conduz,
Atravesso o túnel,
Ao encontro da luz.
Quero crer na verdade,
Ressuscito o meu fogo,
Se é fato, a vontade,
Venceremos o jogo.
Recomêço e respeito,
O início, principia do fim.
Se abrires teu peito,
Então serás meu jardim.
Se eu paro e espero,
Vou querer respirar,
Mas se sei o que quero,
Por que não te encontrar?
Rasgo o orgulho, proponho,
Viverás só pra mim!
Instância, és de sonho,
Quando dizes que sim.
Pois mais vale a acolhida,
Que forneces ao par,
E anuncias a vida,
Se puderes me amar.
(03/96)
Não procuro consolo,
A inocência se foi,
Se não fomos um todo,
Nada fomos depois.
Mas eu busco o resgate,
Digo não à razão,
Se cresci no vazio,
Ainda tenho o meu chão.
Nesse resto de estrada,
Se é a paixão quem conduz,
Atravesso o túnel,
Ao encontro da luz.
Quero crer na verdade,
Ressuscito o meu fogo,
Se é fato, a vontade,
Venceremos o jogo.
Recomêço e respeito,
O início, principia do fim.
Se abrires teu peito,
Então serás meu jardim.
Se eu paro e espero,
Vou querer respirar,
Mas se sei o que quero,
Por que não te encontrar?
Rasgo o orgulho, proponho,
Viverás só pra mim!
Instância, és de sonho,
Quando dizes que sim.
Pois mais vale a acolhida,
Que forneces ao par,
E anuncias a vida,
Se puderes me amar.
854
José Maria Nascimento
A Vergonha
Estou me procurando a cada sombra
deste contraditório desencanto.
Estas mornas lágrimas cintilam
um afeto ruidosamente indeciso.
Já não sei se hoje estou despido
ou se neste Vale encontrarei o Manto
com que haverei nas tardes de cobrir
a nudez da minha vergonha no Paraíso.
deste contraditório desencanto.
Estas mornas lágrimas cintilam
um afeto ruidosamente indeciso.
Já não sei se hoje estou despido
ou se neste Vale encontrarei o Manto
com que haverei nas tardes de cobrir
a nudez da minha vergonha no Paraíso.
849
José de Paula Ramos Jr.
Murilo Mendes ad Oraculum
Serei pastor de meus dias?
O que a alma e as cordas do cor?
Suaves sirenas sopram serenas
a manhã abismal ou delicada?
A voz do piano no caos,
firmamento,
movimento,
equilíbrio do azul rendilhado,
sussurra que segredo ao vento,
sol, lua, marés...?
............................................
Todo mortal lamento
não passa de escuma:
miragem de um susto, apenas.
O que a alma e as cordas do cor?
Suaves sirenas sopram serenas
a manhã abismal ou delicada?
A voz do piano no caos,
firmamento,
movimento,
equilíbrio do azul rendilhado,
sussurra que segredo ao vento,
sol, lua, marés...?
............................................
Todo mortal lamento
não passa de escuma:
miragem de um susto, apenas.
850
José Eustáquio da Silva
Coadjuvante
não sou dono, tomo conta
não sou pai, sou referência
não sou filho sou produto
não sou estou
não tenho alugo
não choro me calo
não sorrio riem de mim...
não sofro, me agüento
não rezo, espero
não faço, obedeço
não crio, recrio
não durmo, adormeço
não quero, basta-me sonhar
não vejo, me mostram
não penso, dispenso
não falo, ouço
não vou, já estou de volta
não grito, silencio
não dou opiniões, observo
não tenho amigos, brinco com letras
não tenho motivos, faço poesias
não tenho razão, tenho coração
não tenho dinheiro, tenho inspiração
não construo, imagino
não canto, caetaneio
não escrevo, sinto
não minto, invento
não sou nada, sou eu
não tento, desisto
não vivo
existo...
não sou pai, sou referência
não sou filho sou produto
não sou estou
não tenho alugo
não choro me calo
não sorrio riem de mim...
não sofro, me agüento
não rezo, espero
não faço, obedeço
não crio, recrio
não durmo, adormeço
não quero, basta-me sonhar
não vejo, me mostram
não penso, dispenso
não falo, ouço
não vou, já estou de volta
não grito, silencio
não dou opiniões, observo
não tenho amigos, brinco com letras
não tenho motivos, faço poesias
não tenho razão, tenho coração
não tenho dinheiro, tenho inspiração
não construo, imagino
não canto, caetaneio
não escrevo, sinto
não minto, invento
não sou nada, sou eu
não tento, desisto
não vivo
existo...
1 084
João Marcio Furtado Costa
Auto-Estima
Auto-Estima
(11/96)
Se não me perdôo,
por não ser perfeito,
não vou alçar vôo,
pode não ser direito
Se me cega, a miopia,
e a auto-crítica imputa,
de que vale, no peito,
bater "mea culpa"
Se pra todos entôo,
meu maior defeito,
pode ser de enjôo,
o derradeiro efeito
Se pra acertar o alvo,
é, me imposta, uma multa,
esperar ficar calvo,
é um preço que insulta
Se eu preciso paciência,
pra viver diferenças,
e o que sobra é carência,
paz encontro em minhas crenças
Mas no jogo da vida,
pra buscar o reverso,
e tê-la bem resolvida,
mais que apoio, é o verso
Que resgata da alma,
o que anima e ensina,
e regenera, na calma,
o vigor da auto-estima.
(11/96)
Se não me perdôo,
por não ser perfeito,
não vou alçar vôo,
pode não ser direito
Se me cega, a miopia,
e a auto-crítica imputa,
de que vale, no peito,
bater "mea culpa"
Se pra todos entôo,
meu maior defeito,
pode ser de enjôo,
o derradeiro efeito
Se pra acertar o alvo,
é, me imposta, uma multa,
esperar ficar calvo,
é um preço que insulta
Se eu preciso paciência,
pra viver diferenças,
e o que sobra é carência,
paz encontro em minhas crenças
Mas no jogo da vida,
pra buscar o reverso,
e tê-la bem resolvida,
mais que apoio, é o verso
Que resgata da alma,
o que anima e ensina,
e regenera, na calma,
o vigor da auto-estima.
881
João Gulart de Souza Gomos
algaravia
o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
Goulart Gomes, Salvador, BA
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
Goulart Gomes, Salvador, BA
873
João Dummar
Descoberta
A cada dia
eu te descubro
e no início
havia a contradição
e eu só via
negror nos teus olhos
e cabelos
Mas agora eu vejo claridade
na tua pele macia
nas tuas carícias
que brotam no calor da tarde
e na medida em que partilhamos
das maravilhas do ser
quando nos aprofundamos
na divinal essência
eu vejo, és multifacial
espelhando raios do infinito
que abrigamos em nós.
eu te descubro
e no início
havia a contradição
e eu só via
negror nos teus olhos
e cabelos
Mas agora eu vejo claridade
na tua pele macia
nas tuas carícias
que brotam no calor da tarde
e na medida em que partilhamos
das maravilhas do ser
quando nos aprofundamos
na divinal essência
eu vejo, és multifacial
espelhando raios do infinito
que abrigamos em nós.
907
José Eduardo Mendes Camargo
Da Vida
Na vida sou um guerreiro.
Entro na luta de alma e corpo inteiro.
Da vida, sou um filósofo.
Fascinam-me os mistérios da alma
e os caprichos do destino.
No amor, fui atleta, um fauno,
e hoje sou um poeta.
Entro na luta de alma e corpo inteiro.
Da vida, sou um filósofo.
Fascinam-me os mistérios da alma
e os caprichos do destino.
No amor, fui atleta, um fauno,
e hoje sou um poeta.
995
Lucila Issa
Prisma de Momentos
floresta escura
imensidão fechada
onde tudo começa
e tudo acaba
luz acende
e logo apaga
me vejo
não reconheço
fantasia nasce e morre
coração bate
e logo se acalma
imensidão fechada
onde tudo começa
e tudo acaba
luz acende
e logo apaga
me vejo
não reconheço
fantasia nasce e morre
coração bate
e logo se acalma
764
Ivan Sarney da Costa
Sou Apenas um Homem
Sou apenas um homem
Perscrutando a Cidade.
Por favor, não temam meus passos.
Nem sei se são passos que me conduzem.
Às vezes, são sobressaltos, angústias e medos.
É necessário que acreditem no que digo.
Não direi muito porque não conheço muito.
Na verdade, eu sei tão pouco.
Tudo o que aprendi foi me extrair das coisas
E me integrar às coisas.
Nesse processo, sou poeira, limo, sujo,
Folhas, frutos, pétalas, pau e pedra.
Sou fontes do passado
E daquilo que há de vir,
Me confundo com o anônimo das faces.
Me escureço com o asfalto do chão.
Às vezes, brilho e resplandeço
Como as paredes de azulejos e as luzes da noite.
Perscrutando a Cidade.
Por favor, não temam meus passos.
Nem sei se são passos que me conduzem.
Às vezes, são sobressaltos, angústias e medos.
É necessário que acreditem no que digo.
Não direi muito porque não conheço muito.
Na verdade, eu sei tão pouco.
Tudo o que aprendi foi me extrair das coisas
E me integrar às coisas.
Nesse processo, sou poeira, limo, sujo,
Folhas, frutos, pétalas, pau e pedra.
Sou fontes do passado
E daquilo que há de vir,
Me confundo com o anônimo das faces.
Me escureço com o asfalto do chão.
Às vezes, brilho e resplandeço
Como as paredes de azulejos e as luzes da noite.
964
Joaquim Cardozo
O Espelho
O Espelho
Pisando na areia fina
Passaste de lado a lado,
Agora te vejo rindo
No espaço recuperado.
Marchaste, enfim, resoluta
sobre cascalho e restolhos,
Chegaste à fonte do vidro,
Nas águas banhaste os olhos.
Depois ficaste indecisa,
Quase inumana e confusa,
Moldando gestos dolentes
Na cera da luz difusa.
Cuidado! Há sempre um sorriso
De irrefletida maldade:
As coisas se estão reunindo
Por detrás da realidade.
Num brilho de claro céu
- Lampejo de meio-dia,
Unidos, iluminados
Orgulho e melancolia.
Neves do tempo dos anjos;
Véus de noivas e de monjas,
Bem tramados, bem tecidos
De renúncias e lisonjas.
Comparo, combino, arrisco,
Passagens procuro a êsmo
sobre o profundo intervalo
Que vai de mim a mim mesmo.
Lua cheia, emoldurada,
Semblante da claridade
Luzindo as asas de um vôo
Recluso na intimidade.
De diamante ou de prata?
Ou são cristais de adulárias?
-Este é o fiel da balança
Entre as paixões solitárias.
Pisando na areia fina
Passaste de lado a lado,
Agora te vejo rindo
No espaço recuperado.
Marchaste, enfim, resoluta
sobre cascalho e restolhos,
Chegaste à fonte do vidro,
Nas águas banhaste os olhos.
Depois ficaste indecisa,
Quase inumana e confusa,
Moldando gestos dolentes
Na cera da luz difusa.
Cuidado! Há sempre um sorriso
De irrefletida maldade:
As coisas se estão reunindo
Por detrás da realidade.
Num brilho de claro céu
- Lampejo de meio-dia,
Unidos, iluminados
Orgulho e melancolia.
Neves do tempo dos anjos;
Véus de noivas e de monjas,
Bem tramados, bem tecidos
De renúncias e lisonjas.
Comparo, combino, arrisco,
Passagens procuro a êsmo
sobre o profundo intervalo
Que vai de mim a mim mesmo.
Lua cheia, emoldurada,
Semblante da claridade
Luzindo as asas de um vôo
Recluso na intimidade.
De diamante ou de prata?
Ou são cristais de adulárias?
-Este é o fiel da balança
Entre as paixões solitárias.
2 014
Lucila Issa
Beyond the Invisible
Os olhos
sentem e distinguem:
real ou outro sonho
você, você e eu.
Neste lado,
remoto é aprender a voar:
se cair vai crer e ver,
mudar a noite,
além da realidade.
sentem e distinguem:
real ou outro sonho
você, você e eu.
Neste lado,
remoto é aprender a voar:
se cair vai crer e ver,
mudar a noite,
além da realidade.
693
João Álvares Soares
Soneto
Com troféu sempre augusto, e relevante
Se vence a si quem nunca foi vencido;
Que a vencer a Alexandre é bem sabido
Só Alexandre pode ser bastante
De todos vencedor sempre triunfante,
Para alcançar renome mais subido,
Deixa-se a si de si mesmo rendido
Vencendo a quem venceu sempre arrogante.
Modesto, continente, e recatado
Se absteve de Cupido ao tenro pranto
E sem ver deixa ao Cego desarmado:
Assim vence com digno e novo espanto,
A Marte, quando encara o rosto irado,
A Vênus, quando evita o doce encanto.
Se vence a si quem nunca foi vencido;
Que a vencer a Alexandre é bem sabido
Só Alexandre pode ser bastante
De todos vencedor sempre triunfante,
Para alcançar renome mais subido,
Deixa-se a si de si mesmo rendido
Vencendo a quem venceu sempre arrogante.
Modesto, continente, e recatado
Se absteve de Cupido ao tenro pranto
E sem ver deixa ao Cego desarmado:
Assim vence com digno e novo espanto,
A Marte, quando encara o rosto irado,
A Vênus, quando evita o doce encanto.
483
João Bosco da Encarnação
O cavalo é Momento
O cavalo é Momento
O cavalo é Momento,
o cavaleiro é Eu.
Momento jamais se perdeu,
mas Eu tem seus tormentos!
Momento é tão leve
que Eu nunca se atreve
a frear seus galopes.
Não entende a Beleza,
porém, dessa Leveza,
que encanta, sendo golpes.
Momento, na sua destreza,
engana seu montador,
que sofre uma dor,
destruidora tristeza.
Essa dor, que a sente
na forma de um prazer,
e assim, sem se atrever.
A tentar frear Momento,
no próprio ausente
de si, seu leve tormento!"
O cavalo é Momento,
o cavaleiro é Eu.
Momento jamais se perdeu,
mas Eu tem seus tormentos!
Momento é tão leve
que Eu nunca se atreve
a frear seus galopes.
Não entende a Beleza,
porém, dessa Leveza,
que encanta, sendo golpes.
Momento, na sua destreza,
engana seu montador,
que sofre uma dor,
destruidora tristeza.
Essa dor, que a sente
na forma de um prazer,
e assim, sem se atrever.
A tentar frear Momento,
no próprio ausente
de si, seu leve tormento!"
946
Capinan
Aprendizagem
(I)
Como entre homem e ave sobrevive imagem
busquei em mim, e éramos parecidos
mas, quando edifiquei, achei-me
pois cada espécie está em seu ato.
O homem é um ato homem. o pássaro, um ato pássaro.
(II)
Das coisas mais simples minha textura tornou-se
tanto da iniciação a severidade do que sei
(o homem faz a bala, a bala mata o homem
derruba-se o cavalo, cai o rei).
Na premissa de noites custosas
aprendi meu rosto, os olhos e mais sentidos,
não nascendo a vida em episódios
mas em ciclos, em fases, dolorosos ciclos de noite.
A vida é consciência de seu exercício
e até saber-se mais homem que ave
é preciso sensibilidade como peixes
e o vínculo da prática à própria imagem.
(III)
Agora que me sei não pássaro
mas homem ato, guardando vínculos
sou um gesto particular dos atos
do homem geral em geral ofício.
Sou assim compreendido de outros.
O que eu seria outro ser não fôra,
embora juntos na inteireza do todo,
diversos de carne, fôssemos a classe;
ato classe, homem ato, homem classe.
E pela classe minha palavra seria repugnância,
coragem de permanecer e dizer,
fosse poesia ou pornografia.
Como entre homem e ave sobrevive imagem
busquei em mim, e éramos parecidos
mas, quando edifiquei, achei-me
pois cada espécie está em seu ato.
O homem é um ato homem. o pássaro, um ato pássaro.
(II)
Das coisas mais simples minha textura tornou-se
tanto da iniciação a severidade do que sei
(o homem faz a bala, a bala mata o homem
derruba-se o cavalo, cai o rei).
Na premissa de noites custosas
aprendi meu rosto, os olhos e mais sentidos,
não nascendo a vida em episódios
mas em ciclos, em fases, dolorosos ciclos de noite.
A vida é consciência de seu exercício
e até saber-se mais homem que ave
é preciso sensibilidade como peixes
e o vínculo da prática à própria imagem.
(III)
Agora que me sei não pássaro
mas homem ato, guardando vínculos
sou um gesto particular dos atos
do homem geral em geral ofício.
Sou assim compreendido de outros.
O que eu seria outro ser não fôra,
embora juntos na inteireza do todo,
diversos de carne, fôssemos a classe;
ato classe, homem ato, homem classe.
E pela classe minha palavra seria repugnância,
coragem de permanecer e dizer,
fosse poesia ou pornografia.
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Helena Parente Cunha
Geometria
paralela ao espelho
avanço
nos pontos
e nas linhas
que me traçam
as côncavas mãos
onde
me elipso
no riso horizontal
meu rosto
vertical ao
pranto
avanço
nos pontos
e nas linhas
que me traçam
as côncavas mãos
onde
me elipso
no riso horizontal
meu rosto
vertical ao
pranto
1 320
Hélio Pellegrino
Heraclito, o Obscuro
A pedra se move menos que a planta.
A planta se move menos que o réptil, movendo-se sobre a
pedra.
O réptil se move menos que o leopardo, na espessura da
floresta.
O leopardo se move menos que o homem, faminto de
mundo e espaço.
Todo ser, ao mover-se, exprime o seu desassossego: arco
tendido na direção do vir-a-ser.
A pedra tem mais sossego que a planta.
A planta tem mais repouso que o réptil.
O réptil é mais sonolento que o leopardo.
O homem, este é pura insônia — trabalho futuro, vôo e flecha.
A planta se move menos que o réptil, movendo-se sobre a
pedra.
O réptil se move menos que o leopardo, na espessura da
floresta.
O leopardo se move menos que o homem, faminto de
mundo e espaço.
Todo ser, ao mover-se, exprime o seu desassossego: arco
tendido na direção do vir-a-ser.
A pedra tem mais sossego que a planta.
A planta tem mais repouso que o réptil.
O réptil é mais sonolento que o leopardo.
O homem, este é pura insônia — trabalho futuro, vôo e flecha.
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