Poemas neste tema
Criatividade e Inspiração
Angela Santos
Gestação
De
silêncio
também se faz o canto
gestação da palavra nunca dita
que à obscuridade a luz traz
e o esquecimento transfigura
em que lugar
o prenhe ventre gera
o milagre da palavra?
silêncio
também se faz o canto
gestação da palavra nunca dita
que à obscuridade a luz traz
e o esquecimento transfigura
em que lugar
o prenhe ventre gera
o milagre da palavra?
1 100
Angela Santos
Do Poeta
A
palavra do Poeta é um canto
arrancado à raiz do ser,
cifra encontrada
na opaca fundura do tempo
contínuo e sem medida…
Chão secreto é o ser do Poeta
onde o sentido germina
tempestade de clarões
que atravessa e torna prenhe
a palavra solta .. sibilina
Uma dor de punhais cresce
quando o silencio é rasgado
mas a alma do Poeta,
renascida a cada golpe fundo,
transfigurada revela
a própria dimensão
do mundo!
palavra do Poeta é um canto
arrancado à raiz do ser,
cifra encontrada
na opaca fundura do tempo
contínuo e sem medida…
Chão secreto é o ser do Poeta
onde o sentido germina
tempestade de clarões
que atravessa e torna prenhe
a palavra solta .. sibilina
Uma dor de punhais cresce
quando o silencio é rasgado
mas a alma do Poeta,
renascida a cada golpe fundo,
transfigurada revela
a própria dimensão
do mundo!
1 071
Angela Santos
Formas
Às
vezes eu penso
um quadro que inventasse
na orgia dos sentidos
na bebedeira de cores
e na forma instante
que o revelasse
Às vezes eu sinto
O inaudível choro de um instrumento
no sentido abraço que toca e arranca
a humana voz presa
a um violoncelo
Às vezes eu vejo
a forma incrustada numa pedra tosca
e desprender-se dela a estátua talhada
a forma acabada ..a mão e o cinzel.
vezes eu penso
um quadro que inventasse
na orgia dos sentidos
na bebedeira de cores
e na forma instante
que o revelasse
Às vezes eu sinto
O inaudível choro de um instrumento
no sentido abraço que toca e arranca
a humana voz presa
a um violoncelo
Às vezes eu vejo
a forma incrustada numa pedra tosca
e desprender-se dela a estátua talhada
a forma acabada ..a mão e o cinzel.
1 072
Jorge Viegas
Pretérito Social
Mentes
civilizadas de ideais diluídos
Na muralha do vil metal dourado
Criaram o banquete perfumado
Para alimentar os sentidos fluidos.
Apareceu sonhadora
Na tela pintada de azul
Onde o vento do sul
Abriu a linha reveladora.
Pinceladas de contrastes verticais
Brilham na melodia da madrugada
E no esplendor da grinalda aprumada
Reluzem lembranças superficiais.
Embriagantes desejos estilizados
De seios transparentes
Descem como sentidos mecanizados
Por entre sombras aparentes.
Simples força inventada
Alimenta o sonho da tendência
Que vê na transparência
A nudez da criação futurista.
civilizadas de ideais diluídos
Na muralha do vil metal dourado
Criaram o banquete perfumado
Para alimentar os sentidos fluidos.
Apareceu sonhadora
Na tela pintada de azul
Onde o vento do sul
Abriu a linha reveladora.
Pinceladas de contrastes verticais
Brilham na melodia da madrugada
E no esplendor da grinalda aprumada
Reluzem lembranças superficiais.
Embriagantes desejos estilizados
De seios transparentes
Descem como sentidos mecanizados
Por entre sombras aparentes.
Simples força inventada
Alimenta o sonho da tendência
Que vê na transparência
A nudez da criação futurista.
1 008
Almandrade
I
A
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
944
Jorge Viegas
Sonho Azul
Voando
fechado no tempo,
Encontro momentos à muito perdidos.
Nos vales do paraíso
Infiltro a magia da liberdade
Nas veias da imaginação
E navego pela leveza do esplendor.
Acendo a tocha da reflexão
Embalo os sentimentos nos fluidos do silêncio
E abro a janela da criação
Vem comigo desvendar os mistérios da primavera
Delicadamente sentada no brilho das águas cristalinas,
Vaguear por entre os sons da inocência
E saborear a profundidade da beleza do carinho.
Vem decifrar as doces linhas dos enigmas
Que se escondem na beleza dos murmúrios do vento
E nas cores quentes do por do sol.
Vem percorrer as ondas do magnetismo absorvente
Do brilho dos olhares apaixonados pela sensual motivação
Da união de dois sentimentos.
Vem absorver essas gotas criadoras de sonhos interruptos
Que derrubam montanhas inexploráveis
Criando riachos por onde deslizas delicadamente deitada.
Vem provar o amor.
fechado no tempo,
Encontro momentos à muito perdidos.
Nos vales do paraíso
Infiltro a magia da liberdade
Nas veias da imaginação
E navego pela leveza do esplendor.
Acendo a tocha da reflexão
Embalo os sentimentos nos fluidos do silêncio
E abro a janela da criação
Vem comigo desvendar os mistérios da primavera
Delicadamente sentada no brilho das águas cristalinas,
Vaguear por entre os sons da inocência
E saborear a profundidade da beleza do carinho.
Vem decifrar as doces linhas dos enigmas
Que se escondem na beleza dos murmúrios do vento
E nas cores quentes do por do sol.
Vem percorrer as ondas do magnetismo absorvente
Do brilho dos olhares apaixonados pela sensual motivação
Da união de dois sentimentos.
Vem absorver essas gotas criadoras de sonhos interruptos
Que derrubam montanhas inexploráveis
Criando riachos por onde deslizas delicadamente deitada.
Vem provar o amor.
1 709
André Aquino
Poemas Tristes
Às
vezes poemas querem dizer tanta coisa
Outras não dizem nada
Querem transformar letras mortas
Em vida animada
Decompor frases tortas
Em palavra certa ou errada
Poesias são restos de sentimento
Cacos de liberdade ou coisa parecida
Fragmentos de dor e pensamento
Centelhas de emoção que querem ganhar vida.
Poetas são eternos sofredores
Podem ser mentirosos ou fingidores
Uns falam de alegrias outros de amores
Alguns tentam transformar o que está invisível
Em algo que tenha cores
E podem trazer a tona às lágrimas represadas
Do que se julga um insensível
Poemas podem falar de tudo
Ensinar a um cego o que é vazio
Põe palavras na boca de um mudo
Sopra frases aos ouvidos de um surdo
Mas eu gosto de escrever poemas tristes
Cada verso é uma batida do meu coração
As palavras são como reflexos do meu olhar
São lugares onde me perco para poder achar
A dor de viver aflora nas frases desse poema emoção
Se alguém algum dia quiser saber por onde andei
Ou quem eu fui
Que leia os meus versos
Porque foi neles onde fui mais feliz onde mais amei
Nos meus versos sou mais do que poderia ser
Quero aqui para sempre poder viver.
Ser poeta é transformar a própria vida em poesia
Os dias são os versos
As horas são as frases
As palavras são o agora
Ser poeta é viver amando o que não pode ser amado
É sentir saudade de algo que ainda não aconteceu
É chorar até a ultima lágrima
É sorrir até o ultimo sorriso
Todos nós somos poetas
Porque todos nós amamos
Uma partícula de mim está dentro de você
Eu e você no mesmo coração...
vezes poemas querem dizer tanta coisa
Outras não dizem nada
Querem transformar letras mortas
Em vida animada
Decompor frases tortas
Em palavra certa ou errada
Poesias são restos de sentimento
Cacos de liberdade ou coisa parecida
Fragmentos de dor e pensamento
Centelhas de emoção que querem ganhar vida.
Poetas são eternos sofredores
Podem ser mentirosos ou fingidores
Uns falam de alegrias outros de amores
Alguns tentam transformar o que está invisível
Em algo que tenha cores
E podem trazer a tona às lágrimas represadas
Do que se julga um insensível
Poemas podem falar de tudo
Ensinar a um cego o que é vazio
Põe palavras na boca de um mudo
Sopra frases aos ouvidos de um surdo
Mas eu gosto de escrever poemas tristes
Cada verso é uma batida do meu coração
As palavras são como reflexos do meu olhar
São lugares onde me perco para poder achar
A dor de viver aflora nas frases desse poema emoção
Se alguém algum dia quiser saber por onde andei
Ou quem eu fui
Que leia os meus versos
Porque foi neles onde fui mais feliz onde mais amei
Nos meus versos sou mais do que poderia ser
Quero aqui para sempre poder viver.
Ser poeta é transformar a própria vida em poesia
Os dias são os versos
As horas são as frases
As palavras são o agora
Ser poeta é viver amando o que não pode ser amado
É sentir saudade de algo que ainda não aconteceu
É chorar até a ultima lágrima
É sorrir até o ultimo sorriso
Todos nós somos poetas
Porque todos nós amamos
Uma partícula de mim está dentro de você
Eu e você no mesmo coração...
848
Reinaldo Ferreira
Volver às rimas suaves
Volver às rimas suaves,
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores...
Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas dElvira,
Zelos de bardo, fatais...
Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores...
Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas dElvira,
Zelos de bardo, fatais...
Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.
1 852
Lívia Araújo
Sobre Fundo Azul
Nas noites
em claro
A vela acesa
No desabafo
O desafio.
Mau altar, papel azul
O brilho tênue
O vinho doce
E a promessa.
Estou aqui
Desconhecida
Que se desnuda
E pede ajuda.
Salto aos teus olhos
No meu desenho
Um ser estranho
Cantando, Blue.
em claro
A vela acesa
No desabafo
O desafio.
Mau altar, papel azul
O brilho tênue
O vinho doce
E a promessa.
Estou aqui
Desconhecida
Que se desnuda
E pede ajuda.
Salto aos teus olhos
No meu desenho
Um ser estranho
Cantando, Blue.
667
Reinaldo Ferreira
No amplo e ermo degredo
No amplo e ermo degredo
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.
Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.
É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.
Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.
É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.
1 943
Reinaldo Ferreira
Marta
Marta,
Protagonista da tragédia ideada
E que eu não fiz,
De esperara que eu a criasse,
No meu intuito adormeceu feliz.
Dormiam lá também o sono antigo
Ilda, Miguel,
A lírica Raquel,
E todos quantos
Acham não ser comigo.
Aromas só
E pó antes do pó.
Agora chamo-a em vão,
Como quem vê levar,
E não entende,
Um filho no caixão.
E absurdo, alta noite,
Invoco a que se esconde:
Marta! Marta! Onde estás?
Não sei se me ouve ou não.
Mas não responde.
Protagonista da tragédia ideada
E que eu não fiz,
De esperara que eu a criasse,
No meu intuito adormeceu feliz.
Dormiam lá também o sono antigo
Ilda, Miguel,
A lírica Raquel,
E todos quantos
Acham não ser comigo.
Aromas só
E pó antes do pó.
Agora chamo-a em vão,
Como quem vê levar,
E não entende,
Um filho no caixão.
E absurdo, alta noite,
Invoco a que se esconde:
Marta! Marta! Onde estás?
Não sei se me ouve ou não.
Mas não responde.
1 811
Rogério Bessa
Redescoberta de Orfeu ou O Mundo Nunca Encontrado
Do Canto I:
Prólogo Menos
lhe envio meu canto órfico
com o encanto de meu povo,
fala a lira em lira mor,
diz de orfeu o seu encanto.
sede e fome fomentaram
sua música, seu ritmo,
a queimar-lhe o sol a pele,
nasceu-lhe a redescoberta.
grande estalo resultou
num mundo nunca encontrado
e embora o canto doesse,
entremente não choveu.
Prólogo Menos
lhe envio meu canto órfico
com o encanto de meu povo,
fala a lira em lira mor,
diz de orfeu o seu encanto.
sede e fome fomentaram
sua música, seu ritmo,
a queimar-lhe o sol a pele,
nasceu-lhe a redescoberta.
grande estalo resultou
num mundo nunca encontrado
e embora o canto doesse,
entremente não choveu.
847
Rossini Corrêa
Soneto da Arte Poética
Como escrever um soneto antológico,
se o sentimento não for meritório?
Tem, o poema, seu universo biológico,
sobre a fronteira deste território
verbal, que arquiteta o vôo mágico
do sonho, com plumas vestindo o azul.
Mas, sem coração e sem cérebro, trágico
será o soneto, estre cruzeiro sem sul.
— Se o poema é escrito com palavra,
a boca há de sentir gosto de sangue
e a mão há de pensar a sua lavra...
Do trapézio do verbo quedará exangue,
todo aquele que, à procura do infinito,
no promontório, canto, viva em grito.
se o sentimento não for meritório?
Tem, o poema, seu universo biológico,
sobre a fronteira deste território
verbal, que arquiteta o vôo mágico
do sonho, com plumas vestindo o azul.
Mas, sem coração e sem cérebro, trágico
será o soneto, estre cruzeiro sem sul.
— Se o poema é escrito com palavra,
a boca há de sentir gosto de sangue
e a mão há de pensar a sua lavra...
Do trapézio do verbo quedará exangue,
todo aquele que, à procura do infinito,
no promontório, canto, viva em grito.
1 016
Mário Linhares
Antífona
Musa, chega-te a mim! Despe o manto inconsútil
E, com a nudez pagã de uma Vênus de Milo,
Modela a frase heril no mármore do Estilo,
Na Harmonia orquestral da estrofe egrégia e dútil.
Traze a tua energia ao meu esforço inútil
Dando a cada hemistíquio a sonância de um trilo,
E faze imune passe o Verso que burilo
À baba do invejoso e à crítica do Fútil.
Toma do bloco informe e empunha, em febre, o escopro,
Talha, esculpe, lapida o busto da Poesia
E anima-o triunfalmente ao teu divino sopro.
Se, como Pigmalião, — dados todos os traços —
Não lhe puderes dar Alma, Vida e Energia,
Parte a escultura vã desfeita em mil pedaços!
E, com a nudez pagã de uma Vênus de Milo,
Modela a frase heril no mármore do Estilo,
Na Harmonia orquestral da estrofe egrégia e dútil.
Traze a tua energia ao meu esforço inútil
Dando a cada hemistíquio a sonância de um trilo,
E faze imune passe o Verso que burilo
À baba do invejoso e à crítica do Fútil.
Toma do bloco informe e empunha, em febre, o escopro,
Talha, esculpe, lapida o busto da Poesia
E anima-o triunfalmente ao teu divino sopro.
Se, como Pigmalião, — dados todos os traços —
Não lhe puderes dar Alma, Vida e Energia,
Parte a escultura vã desfeita em mil pedaços!
876
Moranno Portela
Poethomem
É pouco o peito do homem
para o poeta guardar:
ele está como represa
Quando vai arrebentar.
É pouco o peito do homem
para o rio que dentro dele
quer, sôfrego, navegar.
Mas o homem é necessário,
dele o poeta precisa:
um é uno — o outro vário,
um voa — o outro pisa.
para o poeta guardar:
ele está como represa
Quando vai arrebentar.
É pouco o peito do homem
para o rio que dentro dele
quer, sôfrego, navegar.
Mas o homem é necessário,
dele o poeta precisa:
um é uno — o outro vário,
um voa — o outro pisa.
962
Ieda Estergilda
Anúncio Urgente
Procura-se um poeta
com estrela na testa
e voz de profeta.
Apareça, poeta
enxergarei a estrela
entenderei a parábola.
Precisa-se de um poeta
do tamanho do seu tempo
pode vir de marte, do mato
ou no vento.
Precisa-se de um poeta
dispensa-se currículo
o nome do barco é poesia.
com estrela na testa
e voz de profeta.
Apareça, poeta
enxergarei a estrela
entenderei a parábola.
Precisa-se de um poeta
do tamanho do seu tempo
pode vir de marte, do mato
ou no vento.
Precisa-se de um poeta
dispensa-se currículo
o nome do barco é poesia.
853
Carlos D’Alge
Re-invenção do Corpo
O corpo perdido precisa ser re-inventado
para que de se possa fazer o instrumento
com que cantar no ermo já instaurado.
Quem sabe se uma lira, qual o pastor antigo
que do osso da coxa, do que restou do filho amado,
fez o objeto para celebrar o corpo imolado.
O corpo não é apenas a carícia que afaga,
a amena enseada, o útero procurado, a quieta rua,
o repouso consentido, a desbravada plaga.
O corpo se transforma às vezes em fino aço,
em lâmina que fere sem deixar traço,
em riso que se esconde e se insinua,
O corpo é um ser em constante mutação,
zéfiro, borrasca, tempestade, cantochão.
O corpo perdido entre algas e brumas,
entre sinuosas, ínvias e obscuras fragas,
precisa ser re-criado entre paredes seladas
que abafem segredos, murmúrios e escumas.
Talvez fazer da costela mais saliente
um arco com que brandir o travo violino
ou a possível lira e escondê-la no cimo
da árvore onde repousa o corpo fremente.
Corpo ser móbil, móvel e serpentário,
úmido, fugidio, escampado sacrário.
para que de se possa fazer o instrumento
com que cantar no ermo já instaurado.
Quem sabe se uma lira, qual o pastor antigo
que do osso da coxa, do que restou do filho amado,
fez o objeto para celebrar o corpo imolado.
O corpo não é apenas a carícia que afaga,
a amena enseada, o útero procurado, a quieta rua,
o repouso consentido, a desbravada plaga.
O corpo se transforma às vezes em fino aço,
em lâmina que fere sem deixar traço,
em riso que se esconde e se insinua,
O corpo é um ser em constante mutação,
zéfiro, borrasca, tempestade, cantochão.
O corpo perdido entre algas e brumas,
entre sinuosas, ínvias e obscuras fragas,
precisa ser re-criado entre paredes seladas
que abafem segredos, murmúrios e escumas.
Talvez fazer da costela mais saliente
um arco com que brandir o travo violino
ou a possível lira e escondê-la no cimo
da árvore onde repousa o corpo fremente.
Corpo ser móbil, móvel e serpentário,
úmido, fugidio, escampado sacrário.
386
Batista de Lima
O Doce de Vitalina
Vitalina faz cocada
com mais alma do que coco
Uma semana de criação
onde leite açúcar e coco
não têm importância
como não têm importância
tição fogo e brasa
O mais importante
é que Vitalina
se ponha no caco
e vá na cocada
e que o sétimo dia
seja para descanso
como fez Deus na criação
com mais alma do que coco
Uma semana de criação
onde leite açúcar e coco
não têm importância
como não têm importância
tição fogo e brasa
O mais importante
é que Vitalina
se ponha no caco
e vá na cocada
e que o sétimo dia
seja para descanso
como fez Deus na criação
1 032
Ana Maria Ramiro
Navegando a Poesia
Quem diz que o poeta mente
é alguém em distonia
Cá estou eu sinceramente
Navegando a poesia.
Poesia é viagem
pelo subconsciente,
pelo sonho,
pela alma,
pela lira de um valente.
O poeta é maestro,
rege a pena com destreza
Mas também é timoneiro
no Universo da tristeza.
Navegar a poesia
é conhecer toda a gente
As de hoje, as de outrora
e as que virão pela frente.
Quem diz que o poeta mente?
Pouco deve conhecer
sobre antropologia e sobre a busca do ser:
Por amor, fraternidade,
conhecimento e alegria
Que o poema é a saga do homem
em forma de antologia.
é alguém em distonia
Cá estou eu sinceramente
Navegando a poesia.
Poesia é viagem
pelo subconsciente,
pelo sonho,
pela alma,
pela lira de um valente.
O poeta é maestro,
rege a pena com destreza
Mas também é timoneiro
no Universo da tristeza.
Navegar a poesia
é conhecer toda a gente
As de hoje, as de outrora
e as que virão pela frente.
Quem diz que o poeta mente?
Pouco deve conhecer
sobre antropologia e sobre a busca do ser:
Por amor, fraternidade,
conhecimento e alegria
Que o poema é a saga do homem
em forma de antologia.
989
Ymah Théres
Fugazes
Sobre a alvura e o vazio da página
voejam idéias e anjos.
Há que puxá-los pelas asas rápidas,
que não se rompa o fio da candura.
Cuidado com o cetim da vestimenta
e o arisco vagalume das espáduas.
E há que entretê-los - que não se extraviem
ou se desfaçam a algum ledo engano.
Há que agarrá-los pelas mãos de nuvens,
aprisioná-los nesse escasso armário.
Asas abertas sobre brancas folhas,
voam anjos de túnicas fugazes
trançando em dedos frágeis alguns fios
da vasta cabeleira das palavras.
voejam idéias e anjos.
Há que puxá-los pelas asas rápidas,
que não se rompa o fio da candura.
Cuidado com o cetim da vestimenta
e o arisco vagalume das espáduas.
E há que entretê-los - que não se extraviem
ou se desfaçam a algum ledo engano.
Há que agarrá-los pelas mãos de nuvens,
aprisioná-los nesse escasso armário.
Asas abertas sobre brancas folhas,
voam anjos de túnicas fugazes
trançando em dedos frágeis alguns fios
da vasta cabeleira das palavras.
973
Carlos Vogt
Obsesssäo
Outra vez o poema sonâmbulo
o sonho do poeta outra vez
agora perto
os pés
näo a forma
a mesma
ardente lisa fugidia pronta:
um ângulo reto
uma estrela de sombras
um poema ao revés.
(1991)
o sonho do poeta outra vez
agora perto
os pés
näo a forma
a mesma
ardente lisa fugidia pronta:
um ângulo reto
uma estrela de sombras
um poema ao revés.
(1991)
1 153
Adriana Abdenur
Ser quase
Sou quase poeta --
falta pouquinho.
Ser-lo-ei
devagarinho.
Cato minhas pequenas vaidades
e as guardo numa bolsinha de feltro azul,
dentro de uma caixa de sapatos
la no fundo do armario laqueado.
E aguardo.
Meus poemas -- quando os escrever --
terao o cheiro da memoria bem-guardada,
da nostalgia, da naftalina.
falta pouquinho.
Ser-lo-ei
devagarinho.
Cato minhas pequenas vaidades
e as guardo numa bolsinha de feltro azul,
dentro de uma caixa de sapatos
la no fundo do armario laqueado.
E aguardo.
Meus poemas -- quando os escrever --
terao o cheiro da memoria bem-guardada,
da nostalgia, da naftalina.
1 035
Carlos Vogt
Pragmatismo Estético
A disciplina é quase tudo
menos o dia-a-dia
o poema é quase nada
mais a inspiraçäo
na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
(1991)
menos o dia-a-dia
o poema é quase nada
mais a inspiraçäo
na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
(1991)
972
Gilberto Mendonça Teles
O Discurso
Havia a necessidade absurda de falar
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.
Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.
Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilência das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.
E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não.
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.
Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.
Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilência das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.
E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não.
1 670