Poemas neste tema
Desejo
Marcelo Almeida de Oliveira
Num café
Bum...bum...
gole no café
olhos nas letras,
bum...bum...
inspira,expira;
inspira,expira;
coçada na cabeça,
gole no café;
bum...bum...
inspira,expira;
inspira...
inspira...
(perfume passa)
expira;
vira a cabeça,
suspira...
(linda!)
bum,bum,bum;
suspira...
(belas ancas)
vira mais a cabeça,
recebe sorriso;
bum,bum,bum;
pescoço dói,
desvira a cabeça;
suspira...
fecha os olhos
(sonha)
abre os olhos.
(pausa)
levanta corajoso,
bum,bum,bum,
anda decidido,
bum,bum,bum,
...vê beijo vermelho.
( namorado ou marido)
desvia...
bum,bum,
inspira,expira,
compra café,
inspira,expira,
senta,
bum...bum...
gole no café,
olhos nas letras;
inspira,expira;
(talvez magra demais).
gole no café
olhos nas letras,
bum...bum...
inspira,expira;
inspira,expira;
coçada na cabeça,
gole no café;
bum...bum...
inspira,expira;
inspira...
inspira...
(perfume passa)
expira;
vira a cabeça,
suspira...
(linda!)
bum,bum,bum;
suspira...
(belas ancas)
vira mais a cabeça,
recebe sorriso;
bum,bum,bum;
pescoço dói,
desvira a cabeça;
suspira...
fecha os olhos
(sonha)
abre os olhos.
(pausa)
levanta corajoso,
bum,bum,bum,
anda decidido,
bum,bum,bum,
...vê beijo vermelho.
( namorado ou marido)
desvia...
bum,bum,
inspira,expira,
compra café,
inspira,expira,
senta,
bum...bum...
gole no café,
olhos nas letras;
inspira,expira;
(talvez magra demais).
923
Lucília Cândida Sobrinho
Tempo de Ilusões
As nuvens passam
Como passam as desilusões.
Na vida há marcas do tempo
E o tempo acelera seu passo,
Levando consigo as doces ilusões —
Quimeras navegam
No mar revolto
Do meu ardente desejo.
Vejo quimeras e nuvens
Envolvendo a lembrança
Da volúpia do teu beijo.
Como passam as desilusões.
Na vida há marcas do tempo
E o tempo acelera seu passo,
Levando consigo as doces ilusões —
Quimeras navegam
No mar revolto
Do meu ardente desejo.
Vejo quimeras e nuvens
Envolvendo a lembrança
Da volúpia do teu beijo.
906
Mário Hélio
19-IX(Impulso)
o algo hediondo que as mulheres abominavam
era a pureza
oculta e incolor.
tudo cede um certo impulso ao nada,
todas as palavrasestãosoltas
por isso seguindo um autoimpulso peço-te
que não anoiteças mais
-- a última vez não me senti feliz
em ver-te estrelada e enluarada
te negavas o fio da razão.
o chão que pisas talvez um dia sejardim.
tu não choras choves, teus olhos são sóis enfurnados,
tua bocaverna úmida, teu sexo cratera mágica.
sigo a um certo impulso de amar-te,
não te amo por amor sigo a um impulso,
se te amodeio a medo e por mais que fantasies
este ódioamor contínuo continuo dizendo
que trovejas trevas retrocedendo torrentes
constantes espaços que se movem
és uma miniatura do exterior que absorvo,
átomos seguindo determinadas pulsações,
sóis e não olhos, cratera arguta não sexo
e o resto em ti são espasmos convulsos
meros impulsos
era a pureza
oculta e incolor.
tudo cede um certo impulso ao nada,
todas as palavrasestãosoltas
por isso seguindo um autoimpulso peço-te
que não anoiteças mais
-- a última vez não me senti feliz
em ver-te estrelada e enluarada
te negavas o fio da razão.
o chão que pisas talvez um dia sejardim.
tu não choras choves, teus olhos são sóis enfurnados,
tua bocaverna úmida, teu sexo cratera mágica.
sigo a um certo impulso de amar-te,
não te amo por amor sigo a um impulso,
se te amodeio a medo e por mais que fantasies
este ódioamor contínuo continuo dizendo
que trovejas trevas retrocedendo torrentes
constantes espaços que se movem
és uma miniatura do exterior que absorvo,
átomos seguindo determinadas pulsações,
sóis e não olhos, cratera arguta não sexo
e o resto em ti são espasmos convulsos
meros impulsos
722
Mário Hélio
2 - II (Avis rara)
ser vontade de pássaro,
as asas adejar pelo infinito crocitante
e acenar aos mecenas de saturno
que eu também vôo!
mas é a fala que cala,
resvala no último ogro que há.
força mágica que assassina as estrelas,
riso de fogo que incendeia a alma,
no entanto feroz vejo-te calma,
e me olhas, eu te olho, e nos olhamos
num olhar patético e néscio até.
eu poderia dizer da tua voz doce e mansa
sáltria divina cavatina de delírio
sei porém que inadvertida
pela imagem da força da distância
irá impelida pelo amargor que envolve toda vida,
e tua boca que ora ri e me deleita
se abrirá como em rictus selvagem
sinto e pressinto
que ferirá minhalma
que busca a tua qual orfeu a amada
o teu olhar em negra claridade
ofuscando os sóis.
as asas adejar pelo infinito crocitante
e acenar aos mecenas de saturno
que eu também vôo!
mas é a fala que cala,
resvala no último ogro que há.
força mágica que assassina as estrelas,
riso de fogo que incendeia a alma,
no entanto feroz vejo-te calma,
e me olhas, eu te olho, e nos olhamos
num olhar patético e néscio até.
eu poderia dizer da tua voz doce e mansa
sáltria divina cavatina de delírio
sei porém que inadvertida
pela imagem da força da distância
irá impelida pelo amargor que envolve toda vida,
e tua boca que ora ri e me deleita
se abrirá como em rictus selvagem
sinto e pressinto
que ferirá minhalma
que busca a tua qual orfeu a amada
o teu olhar em negra claridade
ofuscando os sóis.
810
Mário Hélio
10- X- (Orfeurídice)
o corpo ardente.
tuas curvas tuas mãos
se perderam na vertigem
dos que quiseram dizer sim
ao amor que já não pulsa
à canção que já não vibra.
teu hálito perdeu-se
entre flores, calores e perfumes.
nós nos perdemos no caminho onde não há volta
porque não se pode olhar atrás.
atrás ficaram todos os carinhos.
atrás ficou a sede desmedida,
atrás ficaram todos os caminhos.
tuas curvas tuas mãos
se perderam na vertigem
dos que quiseram dizer sim
ao amor que já não pulsa
à canção que já não vibra.
teu hálito perdeu-se
entre flores, calores e perfumes.
nós nos perdemos no caminho onde não há volta
porque não se pode olhar atrás.
atrás ficaram todos os carinhos.
atrás ficou a sede desmedida,
atrás ficaram todos os caminhos.
973
Luciano Matheus Tamiozzo
Deixo-me Perder
Deixo-me perder
No azul de teus olhos,
Na tua pele rosada,
Nos teus cabelos aloirados.
Deixo-me perder
Nos teus lábios rubros,
Nas tuas mãos macias,
No calor de teu abraço.
Deixo-me perder
Em pensamentos
E palavras.
Deixo-me perder
Num olhar
Até ti.
No azul de teus olhos,
Na tua pele rosada,
Nos teus cabelos aloirados.
Deixo-me perder
Nos teus lábios rubros,
Nas tuas mãos macias,
No calor de teu abraço.
Deixo-me perder
Em pensamentos
E palavras.
Deixo-me perder
Num olhar
Até ti.
1 012
Leny Mara Souza
Sedução e Desejo
Noite...
Chuva...
Frio...
Você!
Junção de sentimentos relevantes.
Suas mãos
Acariciando-me como plumas,
Envolvendo-me com suas carícias,
Me sentir mulher
mulher...
Com todos os requisitos precisos.
Você!
Luz de uma natureza sóbria.
Vi na chuva
Nos ligeiros pingos
A certeza que no âmago do meu ser
Está inserido
A sensibilidade,
A emoção de ser atraída
Com seu sorriso puro e sedutor.
Seus lábios demonstrando
O desejo de beijar-me ardentemente
Beijou-me!
Me senti como um pardal
Transmitindo alegria
Perdida no meu ser.
Chuva...
Frio...
Você!
Junção de sentimentos relevantes.
Suas mãos
Acariciando-me como plumas,
Envolvendo-me com suas carícias,
Me sentir mulher
mulher...
Com todos os requisitos precisos.
Você!
Luz de uma natureza sóbria.
Vi na chuva
Nos ligeiros pingos
A certeza que no âmago do meu ser
Está inserido
A sensibilidade,
A emoção de ser atraída
Com seu sorriso puro e sedutor.
Seus lábios demonstrando
O desejo de beijar-me ardentemente
Beijou-me!
Me senti como um pardal
Transmitindo alegria
Perdida no meu ser.
825
Leny Mara Souza
A Procura de Você
Busco você.
Você!
Gente que é gente...
Amigo fiel,
companheiro,
amante...
Você!
Que esteja ao meu lado
Nas minhas angústias.
Você!
Que preenche o meu espaço vazio
Tornando-o ardente.
Você!
Que nas noites frias
Seja meu cobertor sereno.
Você!
Que no verão seja um vento
A acariciar minha pele.
Você!
Que respeita a minha individualidade
Você!
Que em todos os momentos
Esteja ao meu lado.
Você!
Que me ensine a
Ser sua amante
Apareça, por favor !
Ainda é tempo.
Você!
Gente que é gente...
Amigo fiel,
companheiro,
amante...
Você!
Que esteja ao meu lado
Nas minhas angústias.
Você!
Que preenche o meu espaço vazio
Tornando-o ardente.
Você!
Que nas noites frias
Seja meu cobertor sereno.
Você!
Que no verão seja um vento
A acariciar minha pele.
Você!
Que respeita a minha individualidade
Você!
Que em todos os momentos
Esteja ao meu lado.
Você!
Que me ensine a
Ser sua amante
Apareça, por favor !
Ainda é tempo.
870
Luiz Pinto d Albuquerque Bello
Mulher
Sussurros na sala
Perfume no ar
Mulher chegando
Farfalhar de roupas,
Brincos na mesinha
Mulher deitando
Beijo no rosto
Mãos viajando
Mulher amando
Chuveiro aberto
Escova de dentes
Mulher acordando
Perfume no ar
Sussurros na sala
Mulher saindo
Perfume no ar
Mulher chegando
Farfalhar de roupas,
Brincos na mesinha
Mulher deitando
Beijo no rosto
Mãos viajando
Mulher amando
Chuveiro aberto
Escova de dentes
Mulher acordando
Perfume no ar
Sussurros na sala
Mulher saindo
1 017
Luiz Nogueira Barros
O cavalo branco
Eu queria agora o meu cavalo branco
que tenho procurado pelos brados.
Seria bom qu ’ ele tivesse asas e cascos afiados.
Eu o montaria:
e de crinas erectas aos ventos da eternidade
ele deixaria, na partida, marcas sobre a terra !...
que tenho procurado pelos brados.
Seria bom qu ’ ele tivesse asas e cascos afiados.
Eu o montaria:
e de crinas erectas aos ventos da eternidade
ele deixaria, na partida, marcas sobre a terra !...
1 001
Lúcio José Gusman
O pirilampo
Um pirilampo indiscreto,
esperto,
sem pedir licença,
se pôs a contemplar-te
deitada no teu leito:
"- Como és linda!", disse ele.
O pirilampo indiscreto,
esperto,
teve o fado
que me é negado.
E pôde banhar-te
com sua delicada luz,
vislumbrando na fosforescência
do aveludado de teu corpo
a lascívia de tuas formas,
a beleza única de teus contornos.
Tu, qual Vênus pronta a se entregar
aos ansiados braços
de um Morfeu sedento...
Oh! O que eu não daria
para ser o pirilampo!
E ver-te, e admirar-te,
e desejar-te - e te querer! -,
e sentir teu hálito
num abraço-espasmo
longo, duradouro,
fundindo corpos,
entrelaçando almas,
para, enfim,
na exaustão do amor,
depositar na maciez sensual
de tua boca rósea
o ósculo santo da paixão
definitiva.
E depois,
beijar teus olhos semicerrados,
suavemente, ternamente,
e velar teu sono,
e segredar-te sussurrando
tudo aquilo que a uma deusa
se deve dizer ajoelhado.
Mas eu não sou o pirilampo...
esperto,
sem pedir licença,
se pôs a contemplar-te
deitada no teu leito:
"- Como és linda!", disse ele.
O pirilampo indiscreto,
esperto,
teve o fado
que me é negado.
E pôde banhar-te
com sua delicada luz,
vislumbrando na fosforescência
do aveludado de teu corpo
a lascívia de tuas formas,
a beleza única de teus contornos.
Tu, qual Vênus pronta a se entregar
aos ansiados braços
de um Morfeu sedento...
Oh! O que eu não daria
para ser o pirilampo!
E ver-te, e admirar-te,
e desejar-te - e te querer! -,
e sentir teu hálito
num abraço-espasmo
longo, duradouro,
fundindo corpos,
entrelaçando almas,
para, enfim,
na exaustão do amor,
depositar na maciez sensual
de tua boca rósea
o ósculo santo da paixão
definitiva.
E depois,
beijar teus olhos semicerrados,
suavemente, ternamente,
e velar teu sono,
e segredar-te sussurrando
tudo aquilo que a uma deusa
se deve dizer ajoelhado.
Mas eu não sou o pirilampo...
953
Lúcio José Gusman
Sabor
E depois do amor,
muito tempo depois do amor,
não sinto apenas a saudade,
nem lembro apenas o teu perfume,
nem sigo ouvindo apenas a tua voz,
e os teus ais, e os meus te-amo.
Continuo sentindo o teu sabor,
depois do amor,
muito tempo depois do amor...
muito tempo depois do amor,
não sinto apenas a saudade,
nem lembro apenas o teu perfume,
nem sigo ouvindo apenas a tua voz,
e os teus ais, e os meus te-amo.
Continuo sentindo o teu sabor,
depois do amor,
muito tempo depois do amor...
884
Lúcia Helena de Andrade
Retrato de um Homem
Eu quero um homem
Que no olhar expresse seus desejos,
Imersos em uma profusão doce de ternura,
Que passe a mão pelos meus cabelos,
Acalentando minhas amarguras,
Que me beije suavemente,
Que busque a minha lingua
Confundindo-a com a sua,
Que segure a mão
Sentindo paixão,
Que goste de abraçar
E ofereça um ombro para aconchegar,
Que seja sensível
E não tenha medo de mostrar-se frágil,
Que seja um homem,
Mas não deixe de ser menino,
Que viage pelo meu corpo e
Norteie minha viagem pelo seu,
Que saiba sorrir,
Que fique à vontade para chorar ao meu lado.
Eu quero um homem,
Que antes seja meu amigo,
De coração aberto, LEVE E FLORIDO...
Que no olhar expresse seus desejos,
Imersos em uma profusão doce de ternura,
Que passe a mão pelos meus cabelos,
Acalentando minhas amarguras,
Que me beije suavemente,
Que busque a minha lingua
Confundindo-a com a sua,
Que segure a mão
Sentindo paixão,
Que goste de abraçar
E ofereça um ombro para aconchegar,
Que seja sensível
E não tenha medo de mostrar-se frágil,
Que seja um homem,
Mas não deixe de ser menino,
Que viage pelo meu corpo e
Norteie minha viagem pelo seu,
Que saiba sorrir,
Que fique à vontade para chorar ao meu lado.
Eu quero um homem,
Que antes seja meu amigo,
De coração aberto, LEVE E FLORIDO...
778
Washington Queiroz
Andante
Ai que vontade de amar, de amar, de amar
como uma bola de sabão
que morre colorida
num dia totalmente azul!
como uma bola de sabão
que morre colorida
num dia totalmente azul!
789
Gláucia Lemos
Poema de uma Madrugada Lilás
Depois de ti todas as faces
estão transformadas.
Agora mesmo
um vendaval cavalga a madrugada lá fora.
Vergasta galhos e arrebata folhas
para cá do mar. Lá fora .
Mas entra no meu quarto
e está em mim.
Já não estou neste ermo,
parti para não sei, onde estiveres,
em algum lugar, num livro, num CD,
numa varanda talvez, ou numa sala.
Sei lá, onde estiveres...
Quatro séculos há em mim assassinados
e se rebelam,
e eu tenho que seguir
a me revelar na face de cristal
das tuas reminiscências
onde
ainda ontem grafaste o meu abraço.
E, não sei, não sei,
se do labirinto em que me enredei
ou me enredaste em saliva e carinho,
é possível sair.
Está escrito que eu tenho que seguir.
Mas não entendo
porque não te esperei pra vir contigo.
No entanto eu te amei.
Te reconheço.
Em segredo te amei.
Em silêncio te amei
Te amei em insônias,
e em confissão me amaste.
Talvez ainda...
Chove na madrugada do meu bairro.
Ainda sinto vibrando nos meus braços
a eletricidade do teu gozo
em um tempo que não marco
inscrito em algum tempo.
Nunca mais, nunca mais
terei nos olhos a angústia
ansiosa dos contidos
nem a placidez dos moribundos.
Nunca mais a morte dos que se perderam
sem direção.
Agora esta loucura
de pássaro distante
que conhece o seu rumo e sabe
o seu destino
e em vôo cego, desconhece o espaço.
Agora nos meus olhos
esta loucura
ansiedade de te ter e te guardar
do meu jeito.
Depois de ti nunca mais serei eu.
Serei só madrugada em insônia
e temporal
serei dor e dúvida e busca
e o repouso e a paz do teu encontro
e despedida e ansiedade nova e repetida,
e depois, e depois...
até quando?
Por que amar com lágrimas e esperas?
Por que amar nas noites deste quarto
em silêncio de trevas?
Se sei que a tua luz
bruxuleia no âmago do meu corpo
e se funde com a minha luz,
mas é quase um punhal
me ensinando a morrer.
Por que meu tormento e meu cárcere frio
se estás por aí
e eu te dou o meu colo e o meu beijo
e te abrigo
na febre do meu peito
e nas águas do meu ninho,
como em pia batismal de um só desejo.
Ah...
Não sabes de tempestades...
E se sabes
não entendes da minha tempestade
toda feita de perdão e de pedidos.
Quem tomará teu corpo a acarinhar teu dorso
como quem mata
o meu pedaço amado?
Se eu te protejo qual leoa brava
tomada de ciúmes...
Depois de ti nunca mais outra face de vida
haverá.
Só esta loucura que me faz servida
entre valvas de conchas
a ti
a teu querer
à tua espera.
(madrugada de 18.05.96)
estão transformadas.
Agora mesmo
um vendaval cavalga a madrugada lá fora.
Vergasta galhos e arrebata folhas
para cá do mar. Lá fora .
Mas entra no meu quarto
e está em mim.
Já não estou neste ermo,
parti para não sei, onde estiveres,
em algum lugar, num livro, num CD,
numa varanda talvez, ou numa sala.
Sei lá, onde estiveres...
Quatro séculos há em mim assassinados
e se rebelam,
e eu tenho que seguir
a me revelar na face de cristal
das tuas reminiscências
onde
ainda ontem grafaste o meu abraço.
E, não sei, não sei,
se do labirinto em que me enredei
ou me enredaste em saliva e carinho,
é possível sair.
Está escrito que eu tenho que seguir.
Mas não entendo
porque não te esperei pra vir contigo.
No entanto eu te amei.
Te reconheço.
Em segredo te amei.
Em silêncio te amei
Te amei em insônias,
e em confissão me amaste.
Talvez ainda...
Chove na madrugada do meu bairro.
Ainda sinto vibrando nos meus braços
a eletricidade do teu gozo
em um tempo que não marco
inscrito em algum tempo.
Nunca mais, nunca mais
terei nos olhos a angústia
ansiosa dos contidos
nem a placidez dos moribundos.
Nunca mais a morte dos que se perderam
sem direção.
Agora esta loucura
de pássaro distante
que conhece o seu rumo e sabe
o seu destino
e em vôo cego, desconhece o espaço.
Agora nos meus olhos
esta loucura
ansiedade de te ter e te guardar
do meu jeito.
Depois de ti nunca mais serei eu.
Serei só madrugada em insônia
e temporal
serei dor e dúvida e busca
e o repouso e a paz do teu encontro
e despedida e ansiedade nova e repetida,
e depois, e depois...
até quando?
Por que amar com lágrimas e esperas?
Por que amar nas noites deste quarto
em silêncio de trevas?
Se sei que a tua luz
bruxuleia no âmago do meu corpo
e se funde com a minha luz,
mas é quase um punhal
me ensinando a morrer.
Por que meu tormento e meu cárcere frio
se estás por aí
e eu te dou o meu colo e o meu beijo
e te abrigo
na febre do meu peito
e nas águas do meu ninho,
como em pia batismal de um só desejo.
Ah...
Não sabes de tempestades...
E se sabes
não entendes da minha tempestade
toda feita de perdão e de pedidos.
Quem tomará teu corpo a acarinhar teu dorso
como quem mata
o meu pedaço amado?
Se eu te protejo qual leoa brava
tomada de ciúmes...
Depois de ti nunca mais outra face de vida
haverá.
Só esta loucura que me faz servida
entre valvas de conchas
a ti
a teu querer
à tua espera.
(madrugada de 18.05.96)
1 399
Luiz Fernandes da Silva
Afirmação
Quero que neste momento
teu corpo se abra como ave
e deixe o tempo desmemorizar o homem.
Quero ouvir o eco e o grito
no fundo de um poço
Quero que meu corpo fique
inerte sobre a mesa
para receber a luz do Cruzeiro do Sul.
Quero que escrevam
meu nome na ribanceira dos rios
no ancoradouro do cais.
Quero que o vento cante
minha lira e corte minha palavra
em mil fatias de desespero.
Quero viver intensamente
as minhas noites de vigília.
Quero ruminar campos de outrora
para pisar nas mãos do vento.
Quero viver sem tua presença
na ausência de todos os teus retratos.
teu corpo se abra como ave
e deixe o tempo desmemorizar o homem.
Quero ouvir o eco e o grito
no fundo de um poço
Quero que meu corpo fique
inerte sobre a mesa
para receber a luz do Cruzeiro do Sul.
Quero que escrevam
meu nome na ribanceira dos rios
no ancoradouro do cais.
Quero que o vento cante
minha lira e corte minha palavra
em mil fatias de desespero.
Quero viver intensamente
as minhas noites de vigília.
Quero ruminar campos de outrora
para pisar nas mãos do vento.
Quero viver sem tua presença
na ausência de todos os teus retratos.
813
Gláucia Lemos
Poema do Desenlace
...e então nós nos magoamos
com uma dor tão intensa
com um furor tão sem forma
tão sem explicação ...
Como se estivéssemos
estraçalhando a vida
desmoronando tudo
o que nos pôs distantes...
Como se tivéssemos
que destruir universos
pra cumprirmos o que está escrito:
continuarmos cumprindo.
...e foi tanto o desejo
de rasgar os destinos...
Nós que rasgáramos todos os códigos
para nos tornarmos vidro,
assim nós nos rasgamos a nós próprios
sem solução e sem lucidez.
...para cada um permanecer
preso dentro dos olhos do outro
para em cada novo encontro
para sempre perguntarmos
por quê?
por quê?
Afinal... por quê?
21.06.96.
com uma dor tão intensa
com um furor tão sem forma
tão sem explicação ...
Como se estivéssemos
estraçalhando a vida
desmoronando tudo
o que nos pôs distantes...
Como se tivéssemos
que destruir universos
pra cumprirmos o que está escrito:
continuarmos cumprindo.
...e foi tanto o desejo
de rasgar os destinos...
Nós que rasgáramos todos os códigos
para nos tornarmos vidro,
assim nós nos rasgamos a nós próprios
sem solução e sem lucidez.
...para cada um permanecer
preso dentro dos olhos do outro
para em cada novo encontro
para sempre perguntarmos
por quê?
por quê?
Afinal... por quê?
21.06.96.
1 068
Lêdo Ivo
Postal de uma Batalha
Postcard From A Battle
É aqui, nesta cama, que a guerra começa.
Lutam os dois guerreiros
num campo de panos.
Como separar frente e dorso
se todo amo r é um espelho?
O róseo obelisco iguala o negro esgoto
na praça quadrilátera.
Dentro do dia, a noite não distingue
macho ou fêmea. E a boca se faz gruta
na selva clara onde dois bichos
se mordem e se lambem.
It is here, In this bed, that the war begins.
The two warriors struggle
on a field of sheets.
How to separate front from back
If ali love is a mirror?
On the four-sided field
the roseate obelisk is the same as the black drain.
Inside the day, night does not distinguish
male from female. And the mouth becomes a cave
in the clear jungle where two beasts
bite and lick each other.
É aqui, nesta cama, que a guerra começa.
Lutam os dois guerreiros
num campo de panos.
Como separar frente e dorso
se todo amo r é um espelho?
O róseo obelisco iguala o negro esgoto
na praça quadrilátera.
Dentro do dia, a noite não distingue
macho ou fêmea. E a boca se faz gruta
na selva clara onde dois bichos
se mordem e se lambem.
It is here, In this bed, that the war begins.
The two warriors struggle
on a field of sheets.
How to separate front from back
If ali love is a mirror?
On the four-sided field
the roseate obelisk is the same as the black drain.
Inside the day, night does not distinguish
male from female. And the mouth becomes a cave
in the clear jungle where two beasts
bite and lick each other.
941
Laura Amélia Damous
Oferenda
Venho te oferecer meu coração
como o cansaço se oferece aos amantes
o suor aos corpos exaustos
depois de definitivo abraço
Venho te oferecer meu coração
como a lua se oferece à noite
e o vento à tempestade
Venho te oferecer meu coração
como o peixe se oferece à captura
no engano do anzol
como o cansaço se oferece aos amantes
o suor aos corpos exaustos
depois de definitivo abraço
Venho te oferecer meu coração
como a lua se oferece à noite
e o vento à tempestade
Venho te oferecer meu coração
como o peixe se oferece à captura
no engano do anzol
1 329
Valéry Larbaud
Noite de Verão
As horas, uma a uma, tempo adentro,
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
980
Luís Delfino
Que Vos Daria?
Se tiverdes um dia um capricho, senhora,
Um capricho, um delírio, uma vontade enfim,
Não exijas o carro azul que monta a Aurora
Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim;
Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora
Nem o céu doutros céus, elos de céu sem fim,
Que se isso fosse meu, já vosso, há muito, fôra.
Fôra vosso o que é grande e anda em torno de mim...
Mostrásseis num só gesto ingênuo, um só desejo...
O universo que vejo e os outros que não vejo
Sofreriam por vós vosso último desdém.
Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias douro
Mulher! Pedi-me um beijo e vereis o tesouro
Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.
Um capricho, um delírio, uma vontade enfim,
Não exijas o carro azul que monta a Aurora
Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim;
Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora
Nem o céu doutros céus, elos de céu sem fim,
Que se isso fosse meu, já vosso, há muito, fôra.
Fôra vosso o que é grande e anda em torno de mim...
Mostrásseis num só gesto ingênuo, um só desejo...
O universo que vejo e os outros que não vejo
Sofreriam por vós vosso último desdém.
Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias douro
Mulher! Pedi-me um beijo e vereis o tesouro
Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.
1 350
Lêdo Ivo
De teef
Aangeirokken door de geur van bloed uit haar ingewanden
volgen de honden de bronstige teci als vormden ze de hofstoet
van cen zwarte koningin. En ze besnuffeien haar met een een
obsceen bewegen
dat wij misschien liefde zouderi moeten noemen.
De teef wendt voor dat de belagers haar vervelen
en verlokt ai weigerend, ais veelgevraagde vrouwen.
Een penetrante lucht van leven begeleidt haar
tussen de twee zonnen die het verstrijken van de dag begrenzen.
‘s Avonds, wanneer ze wordt opgesloten in de schuur,
blijven de honden buiten, ontroostbaar en trouw.
En hun huilen in het duister leert ons
dat liefde een nutteloze passie is, een gesloten deur.
A cadela Poema em Português
volgen de honden de bronstige teci als vormden ze de hofstoet
van cen zwarte koningin. En ze besnuffeien haar met een een
obsceen bewegen
dat wij misschien liefde zouderi moeten noemen.
De teef wendt voor dat de belagers haar vervelen
en verlokt ai weigerend, ais veelgevraagde vrouwen.
Een penetrante lucht van leven begeleidt haar
tussen de twee zonnen die het verstrijken van de dag begrenzen.
‘s Avonds, wanneer ze wordt opgesloten in de schuur,
blijven de honden buiten, ontroostbaar en trouw.
En hun huilen in het duister leert ons
dat liefde een nutteloze passie is, een gesloten deur.
A cadela Poema em Português
1 196
Valéry Larbaud
Noturno
Os teus noturnos lábios débeis pedem
Satisfações exangues aos motéis.
Na aurora fogem magros menestréis
Cantando por Sodoma um novo Édem.
O espaço singra, as borboletas medem,
Nos ares cantam teus azuis pincéis,
Estrelas giram como carrosséis
De brinquedos de sol que os Fados cedem.
Os teus verdes-vermelhos lábios bebo
E, atrás, a Lua grávida percebo
A festejar meus ócios estivais.
A Cruz nos fere como agudo açoite
No brilho de funéreos carnavais
Ao vento frio e roxo desta noite.
Satisfações exangues aos motéis.
Na aurora fogem magros menestréis
Cantando por Sodoma um novo Édem.
O espaço singra, as borboletas medem,
Nos ares cantam teus azuis pincéis,
Estrelas giram como carrosséis
De brinquedos de sol que os Fados cedem.
Os teus verdes-vermelhos lábios bebo
E, atrás, a Lua grávida percebo
A festejar meus ócios estivais.
A Cruz nos fere como agudo açoite
No brilho de funéreos carnavais
Ao vento frio e roxo desta noite.
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