Poemas neste tema
Desejo
Valéry Larbaud
Noite de Verão
As horas, uma a uma, tempo adentro,
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
969
Laura Amélia Damous
Oferenda
Venho te oferecer meu coração
como o cansaço se oferece aos amantes
o suor aos corpos exaustos
depois de definitivo abraço
Venho te oferecer meu coração
como a lua se oferece à noite
e o vento à tempestade
Venho te oferecer meu coração
como o peixe se oferece à captura
no engano do anzol
como o cansaço se oferece aos amantes
o suor aos corpos exaustos
depois de definitivo abraço
Venho te oferecer meu coração
como a lua se oferece à noite
e o vento à tempestade
Venho te oferecer meu coração
como o peixe se oferece à captura
no engano do anzol
1 316
José Eustáquio da Silva
Entenda-me
vasculha-me e adentre meu passado,
me chame de culpado
por meus erros infantis.
bata-me, cuspa em minha cara, me odeie
me chama de canalha por tudo
que outrora fiz.
invada minha vida como espiã
abra minhas gavetas, leia minhas cartas
e me ame.
me ame com a fúria
que o ciúme concerne
e me deseje, me deseje
como quem quer outro homem...
me fale palavrões, me transe obscena.
me fale quão importante sou para ti
me ame querendo ser selvagemente
possuída
por teu poeta que finge de fingir...
me veja, me beija, me tenha por inteiro.
sou teu, sem censuras ou pudores.
sou teu par, teu tigre e teu chegar
sou teu silêncio
quando nada quiseres escutar
enfim, sou um poeta, teu poeta
que sequer pensa em limites...
portanto (minha louca),
mesmo onde nada existir
por certo eu estarei presente
pronto para te fazer mulher.
me chame de culpado
por meus erros infantis.
bata-me, cuspa em minha cara, me odeie
me chama de canalha por tudo
que outrora fiz.
invada minha vida como espiã
abra minhas gavetas, leia minhas cartas
e me ame.
me ame com a fúria
que o ciúme concerne
e me deseje, me deseje
como quem quer outro homem...
me fale palavrões, me transe obscena.
me fale quão importante sou para ti
me ame querendo ser selvagemente
possuída
por teu poeta que finge de fingir...
me veja, me beija, me tenha por inteiro.
sou teu, sem censuras ou pudores.
sou teu par, teu tigre e teu chegar
sou teu silêncio
quando nada quiseres escutar
enfim, sou um poeta, teu poeta
que sequer pensa em limites...
portanto (minha louca),
mesmo onde nada existir
por certo eu estarei presente
pronto para te fazer mulher.
1 008
Jomard Muniz de Britto
Ó Cidade Poeira!
Ó cidade poeira, origem e meta
da palavra POEMAÇÃO.
Prosa de todas as províncias do mundo.
De Paris e Argélia para Casa Forte sem Luzilá.
De New York para Aflitos renarcisados.
Da China para o Palácio do Campo das Princesas.
Mais ainda o pó da POETICIDADE.
O pó nosso de todo dia pelas ASAS DA AMÉRICA
fervendo na poeira da frevocracia.
O pó também da freguesia do ó, aqui pra vocês...
Pó não é mais nem menos do que a palavra dita
maldita inaudita: pó. Possível. Impossível.
Fatal e feliz dicção monossilábica.
Poesia no corpo a corpo
do pó nosso de cada noite.
Desejos e assombrações a dor tecendo
entre damas da madrugada
o tigre de bengala Tomás Seixas
do Marco Zero adiante atormentando-se.
da palavra POEMAÇÃO.
Prosa de todas as províncias do mundo.
De Paris e Argélia para Casa Forte sem Luzilá.
De New York para Aflitos renarcisados.
Da China para o Palácio do Campo das Princesas.
Mais ainda o pó da POETICIDADE.
O pó nosso de todo dia pelas ASAS DA AMÉRICA
fervendo na poeira da frevocracia.
O pó também da freguesia do ó, aqui pra vocês...
Pó não é mais nem menos do que a palavra dita
maldita inaudita: pó. Possível. Impossível.
Fatal e feliz dicção monossilábica.
Poesia no corpo a corpo
do pó nosso de cada noite.
Desejos e assombrações a dor tecendo
entre damas da madrugada
o tigre de bengala Tomás Seixas
do Marco Zero adiante atormentando-se.
899
João Marcio Furtado Costa
Bebida dos Deuses
Bebida dos Deuses
(12/94)
Como um bom vinho, elaborado, tu és muito especial,
Dia após dia, és natal,
E a cada noite és carnaval,
Pois basta um toque, e tu te inflamas.
Mas não és pra ser sorvida de uma só vez e se acabar,
Melhor em doses homeopáticas,
Onde podemos desprezar as táticas,
E sermos nós mesmos pra sonhar.
Não foi num cálice, que eu pensei furtivamente,
Em te derramar mais transparente,
Para melhor te brindar e degustar.
E tornar então, sem ser brando e indiferente,
Mais ávido o meu inconsciente,
Pra cada vez mais, querer te amar.
(12/94)
Como um bom vinho, elaborado, tu és muito especial,
Dia após dia, és natal,
E a cada noite és carnaval,
Pois basta um toque, e tu te inflamas.
Mas não és pra ser sorvida de uma só vez e se acabar,
Melhor em doses homeopáticas,
Onde podemos desprezar as táticas,
E sermos nós mesmos pra sonhar.
Não foi num cálice, que eu pensei furtivamente,
Em te derramar mais transparente,
Para melhor te brindar e degustar.
E tornar então, sem ser brando e indiferente,
Mais ávido o meu inconsciente,
Pra cada vez mais, querer te amar.
734
João Marcio Furtado Costa
Soneto da Mulher Azul
Soneto da Mulher Azul
(10/93)
Me inspiro em ti, valor vital, inestimável,
E miro as sombras do teu lado inexplorado.
Mesmo da poesia, sendo inexperiente,
Transformo em versos teu mistério inescrutável.
Te sinto fonte, de prazer, inesgotável,
Mas meu desejo, de tão grande é inexistente,
Pois te alcançar, plenamente, é inexeqüível,
Se tu és, às vezes, tranca inexpugnável.
Não veja em mim um homem inescrupuloso,
Por procurar não explicar teu inexplicável,
E te vestir com essas metáforas inexatas.
Pois o teor das palavras talvez seja inexpressivo,
Diante da magia, que de forma inesperada,
Te esculpiu em minha mente, mulher inesquecível.
(10/93)
Me inspiro em ti, valor vital, inestimável,
E miro as sombras do teu lado inexplorado.
Mesmo da poesia, sendo inexperiente,
Transformo em versos teu mistério inescrutável.
Te sinto fonte, de prazer, inesgotável,
Mas meu desejo, de tão grande é inexistente,
Pois te alcançar, plenamente, é inexeqüível,
Se tu és, às vezes, tranca inexpugnável.
Não veja em mim um homem inescrupuloso,
Por procurar não explicar teu inexplicável,
E te vestir com essas metáforas inexatas.
Pois o teor das palavras talvez seja inexpressivo,
Diante da magia, que de forma inesperada,
Te esculpiu em minha mente, mulher inesquecível.
881
José Eustáquio da Silva
Pessoa
me toque assim calma
me beije fundo a alma
e grite um verso pessoa
quando o prazer chegar
abra-me teu peito
feito janela do meu windows
eclético e cibernético
vou te amando em canções
sorriso armstrong
este mundo é maravilhoso
bom dia vietnã
há flores nos canhões
e eu te amo aqui
contrariando multidões
me toque assim tão calma
me beije fundo a alma
e grite um verso pessoa
quando o prazer chegar
"o poeta é um fingidor
finge tão completamente"
que chega a fingir que é amor
o amor que deveras sente"
me beije fundo a alma
e grite um verso pessoa
quando o prazer chegar
abra-me teu peito
feito janela do meu windows
eclético e cibernético
vou te amando em canções
sorriso armstrong
este mundo é maravilhoso
bom dia vietnã
há flores nos canhões
e eu te amo aqui
contrariando multidões
me toque assim tão calma
me beije fundo a alma
e grite um verso pessoa
quando o prazer chegar
"o poeta é um fingidor
finge tão completamente"
que chega a fingir que é amor
o amor que deveras sente"
993
José Eduardo Mendes Camargo
Fada
Foste a fada que me fez
representar a plenitude de meu ser.
no charme de teu sorriso,
Me iluminaste o corpo.
Na transparência de teus olhos,
me despiste a alma.
Na suavidade de tua voz,
me hipnotizaste o espírito.
Na leveza de teus gestos,
me fascinaste os olhos.
Na beleza e sensualidade da mulher-fêmea,
me seduziste.
representar a plenitude de meu ser.
no charme de teu sorriso,
Me iluminaste o corpo.
Na transparência de teus olhos,
me despiste a alma.
Na suavidade de tua voz,
me hipnotizaste o espírito.
Na leveza de teus gestos,
me fascinaste os olhos.
Na beleza e sensualidade da mulher-fêmea,
me seduziste.
906
José Eduardo Mendes Camargo
Lectura
Leí en tu ojos las palabras
que tus labios no osabam pronunciar.
Vi en tu cuerpo el amor
que tu brazos temían aceptar.
Sentí el temblor de mim piel
el temblor de tu alma.
Probé en tus manos el deseo
que nuestros cuerpos no consiguen disimular.
Leia Lectura em Português
que tus labios no osabam pronunciar.
Vi en tu cuerpo el amor
que tu brazos temían aceptar.
Sentí el temblor de mim piel
el temblor de tu alma.
Probé en tus manos el deseo
que nuestros cuerpos no consiguen disimular.
Leia Lectura em Português
715
José Eduardo Mendes Camargo
Encantamento
Fechei os olhos para me proteger
de tua presença sedutora,
Mas qual o quê, foi aí que me danei.
Surgiste evanescente, flutuando no horizonte, qual
estrela ascendente trazendo novas luzes ao firmamento.
O teu corpo tinha mais forma e graça
que a nuvem esculpida pelo vento.
Os teus olhos, mais ternura que as noites de lua cheia.
Então, vencido por este encantamento,
abri os olhos e me entreguei.
de tua presença sedutora,
Mas qual o quê, foi aí que me danei.
Surgiste evanescente, flutuando no horizonte, qual
estrela ascendente trazendo novas luzes ao firmamento.
O teu corpo tinha mais forma e graça
que a nuvem esculpida pelo vento.
Os teus olhos, mais ternura que as noites de lua cheia.
Então, vencido por este encantamento,
abri os olhos e me entreguei.
906
João Gulart de Souza Gomos
blas fêmea
Há uma vastidão de desejos
entre os teus seios...
...que ira maior poderia haver
que o varrer dos meus dentes
no teu ventre?
E me deixar
sumir em teus abismos
Nem os braços abertos de um cristo
tanto fariam.
Iludiriam mesmo a alma
do mais crente dos homens
(não são para mim, demasiado humano)
mortal demais,
insano
indigno dos teus lençóis
Goulart Gomes, Salvador, BA
entre os teus seios...
...que ira maior poderia haver
que o varrer dos meus dentes
no teu ventre?
E me deixar
sumir em teus abismos
Nem os braços abertos de um cristo
tanto fariam.
Iludiriam mesmo a alma
do mais crente dos homens
(não são para mim, demasiado humano)
mortal demais,
insano
indigno dos teus lençóis
Goulart Gomes, Salvador, BA
902
José Eduardo Mendes Camargo
Cigana
Chegaste tímida, descalça e com lascívia no andar
E cantaste e tocaste a minha alma
E dançaste e provocaste o meu desejo
E simulaste, insinuaste e dissimulaste
E súbito olhaste no fundo de meus olhos e me desnudaste.
E as nossas células em rebelião bailaram de prazer
E suspiraste e mergulhaste e te abandonaste
na alegria de se saber mulher e desejada.
E de repente, sumiste e não mais voltaste.
E até hoje permaneceste na beleza e sensualidade
de todas as mulheres.
E cantaste e tocaste a minha alma
E dançaste e provocaste o meu desejo
E simulaste, insinuaste e dissimulaste
E súbito olhaste no fundo de meus olhos e me desnudaste.
E as nossas células em rebelião bailaram de prazer
E suspiraste e mergulhaste e te abandonaste
na alegria de se saber mulher e desejada.
E de repente, sumiste e não mais voltaste.
E até hoje permaneceste na beleza e sensualidade
de todas as mulheres.
934
José Eduardo Mendes Camargo
Nuestra Atracción
No sé si es cósmica
o es química.
No sé si es admiración
o comprensión.
No sé si es afinidad
o continuidad.
No se si és ternura
o locura.
Hasta siento que es deseo
sazonado de pasión.
Leia Nuestra Atracción em Português
o es química.
No sé si es admiración
o comprensión.
No sé si es afinidad
o continuidad.
No se si és ternura
o locura.
Hasta siento que es deseo
sazonado de pasión.
Leia Nuestra Atracción em Português
890
José Eduardo Mendes Camargo
Recordações
Desejo me enlear em teus braços,
Envolver o teu corpo,
Penetrar a tua alma...
E num momento de fusão e intenso prazer,
Exorcizar todos os medos e julgamentos,
Libertar-me de quaisquer preconceitos
E na alegria sublime do amor
Encontrar a paz e a eternidade,
No encontro de mim mesmo
E com o passar do tempo,
Recolher este momento mágico de ternura,
Em nosso álbum das melhores recordações.
Envolver o teu corpo,
Penetrar a tua alma...
E num momento de fusão e intenso prazer,
Exorcizar todos os medos e julgamentos,
Libertar-me de quaisquer preconceitos
E na alegria sublime do amor
Encontrar a paz e a eternidade,
No encontro de mim mesmo
E com o passar do tempo,
Recolher este momento mágico de ternura,
Em nosso álbum das melhores recordações.
726
José Eduardo Mendes Camargo
Leitura
Eu li em teus olhos as palavras
Que teus lábios não ousaram pronunciar
Eu vi em teu corpo o amor
que teus braços temeram aceitar
Eu senti no arrepio de minha pele
O arrepio de tua alma
Eu provei em tuas mãos o desejo
Que nossos corpos não conseguem dissimular.
Que teus lábios não ousaram pronunciar
Eu vi em teu corpo o amor
que teus braços temeram aceitar
Eu senti no arrepio de minha pele
O arrepio de tua alma
Eu provei em tuas mãos o desejo
Que nossos corpos não conseguem dissimular.
850
João Antônio
Choros — Para Pintagol e Cuíca
A mulher que eu não tenho sequer anda,
apenas desliza sutil feito ave.
Gaivota, à vôo preciso e espaçoso da gaivota,
e quem, quem são as outras perante
a que eu não tenho —
atrizes, babás , damas, mucamas,
faxineiras, serão verdureiras
mãos encardidos, quadradas,
hão de ser novatas na vida, desajeitadas,
tentando o trottoir da avenida
aventurando, meio envergonhadas,
mas empurradas pela fome,
aprendizes vacilantes de manicure
ou banhistas marrons de sol,
falsas madames vão à feira,
regateiam uma dúzia e meia de bananas
e mulheres de vida andeja serão
chamadas de tudo quanto é nome,
ciganinhas suburbanas e de araque,
ciganaqem descida com a gana e a necessidade
escorrida de algum enfiado escondido, da Baixada Fluminense,
a engambelar nos praças, no centro da cidade,
lendo a sorte questionável nas mãos dos passantes
— um olho na palma, outro na polícia —
rodam lépidas, o vestido longo e ordinário de chita,
escafedem-se espaventadas pelos becos,
erradas, erradias já que analfabetas,
por penúria ou orfandade corridas da área rural,
perdidaças ignorantes de tudo
e, entanto, mais carregam dentro de si
uma enorme aflição, tumultuada necessidade de amor,
ou serão aqueles que, em solidão e no escuro comem chocolate,
bombons de chocolate.
A que eu não tenho terá sido do vizinho.
Professor de inglês,
aranha escrevedor de jogo do bicho,
deputado salafrário,
ou no aparente ridículo da vida,
inusitada mas tosca, azeda e possível inversão, banal e não,
mulher de outra mulher?
Sem que eu pedisse
ó, não minha,
alma, retomada, semente, fêmea, vida,
far-me-ia cafuné, dar-me-ia um copo dágua,
socaria no pilão a magnífica paçoca com carne seca,
dividiria comigo a fatia de goiabada,
a agrura de um despejo, uma prisão,
a correria pela vida, a vida, ou correntia,
ou o recacau de uma pancadaria na barriga da rua,
chuva e sol, após,
acordar-me-ia com beijos,
relassem na minha barba de três dias,
nas rugas da minha cara.
Também na linha do horizonte,
onde céu e mar se tocam, de lá
ela vem vindo e pode chega
baixando a conspiração dos demônios.
Em nada lembraria as outras
com quem me droguei em paixão,
coxas de Diana,
em chispas e trama de paixão,
fogo de palha a durar sete anos cada um,
carismático número sete,
em cada conhaque a duração de sete janeiros,
foram quatro vezes sete
perfazendo vinte e oito anos
ah, montanha russa,
em que cheirei, cheiramos, fumei, fumamos,
cafunguei, cafungamos, joguei com exagero, arrepiado bebi,
sobe-e-desce, prende a respiração,
antes e depois da mulher que eu não tive,
ó benditas, as anteriores,
melhor me ensinaram,
o meu corpo a tal ponto e detalhes,
não se lembra
e nem se esquece de todos os pontos,
o fremir de cada ondulação dos corpos
dessas benditas mulheres da rua e de casa
para quem o amor tem cheiro,
sobe pelas paredes, prolonga-se,
engalfinha, espicha,
escarrapacha, encolhe,
grito arfado, indômito,
suga o ar e quebra camas,
é boêmio fora de hora
tampouco escolhe lugar,
jamais cronometrado
junto, grudado a essas benditas mulheres
olhos mortiços ou sonhadores,
como os olhos de uma criança.
A mulher que eu não tenho
não joga bilhar francês, sequer carteia bridge,
é outro o seu pano verde,
joga sinuca, ganha partidas,
remata pelo golpe dos vinte-e-sete,
e pelo dos vinte-e-sete,
conserva a extrema elegância
fecha à marinheira, os seus cigarros de papel
e fumo desfiado nas coxas nuas, grossas, morenas coxas,
sustentadas pelas canelas finas de sabiá.
Guarda, estelante.
Reproduz, a capricho, um perfume onipresente.
Luminar, guardará para o sempre o enigma —
onde, segredado, em que noite única,
ficou escondido deveras o frescor superfino
ondeava, emanado das perna dançarinas,
passos de descalça odalisca dos antigos cabarés.
A que eu não tive, novinha,
não tem idade,
tem treze anos e não é virgem
e me ensina na cama
e tem mais de trinta e cinco
tem, em principal, todas as carnes
e as idéias no lugar.
Palmeira, o esguia ao vento,
é o meu calor na madrugada
o meu novo Morro da Geada
a reinvenção do primeiro estilingue
levanta a voz e grave de crioula sacudida,
o susto, o arrepio da primeira boca em que suguei
a mulher que eu não tive
e se esconde nas estrofes de aço e ferro batido,
um só Nelson Cavaquinho.
Acresce espontânea, delicada, dolente,
malandra, macia, sestrosa,
dengosa, nítida, límpida,
como um sorriso brasileiro
e como um choro de Garoto,
Aníbal Augusto Sardinha.
Trata-se, mais do que a musa morena,
ainda mais que perfeita
a mulher que eu não tenho
só tem linhas sinuosas e não faz elipses mentais
arruma o trilho e é a um só tempo locomotiva
e, tão perfeita, não tem passado.
Ser inteiriço em palmeira
tem o pescoço longo,
apertada vagina pequena,
corta e não é dentada, fecha
engole, acalora, corta
e fecha como alicate.
Nunca usou óculos
o que eu não tenho
tem os olhos negros sombreados
onde baila a alma,
e trinta e dois dentes límpidos na boca
jamais usou dentifrício,
escovados com a areia dos rios pelo dedo indicador.
Caída, caída na vida e mulher chamada pública
a que eu não tenho
é quem requebra só pra mim
e quando acorda, me entreolha e diz,
se ainda durmo, vida, ficaste mais linda.
O bamboleio sarado dos ancas
o empinado dos seios
rijas coxas avançam
marcam de tal desenho o andar,
mulher que eu não tive,
assista exímia, quase nua, guerreira ritmada,
de tal sorriso, sambeiro,
ao pisar adona-se a avenida toda
e parece ser todo dela.
Sendo crioula, cabrocha ou irmã rara em nefertite,
mulata melhormente,
quase um sorriso e quase meio sorriso,
a harmonia da indagação sábia,
humilde leveza tão solene,
cabe uma enciclopédia em sua cara,
não livresca, só humano,
em olhos grandes, antigos e sofridos das pretas,
à voz grave das negras dos morros
quando fala é feito o pintassilgo
mestiçado com a canária-do-reino
ganhou o conto magnífico, incansável,
politonado e contínuo, quase metálico,
híbrido bailarino pintagol.
Estrela-guia não minha
singular e não rara
supina dona do impossível
a quem não dói perder dinheiro
doma, fina, a ousado equação delirante,
quanto menos tem mais gasta
e alvejante, luminosa se presta,
quando a questão é ruça
usa como nenhuma
a excelência da conjugação do verbo coisar.
Aperta-se o cerco, o jogo é jogado,
a que eu não tenho
mantém a vagina molhada
e bom o coração,
aprendeu com o sete-estrelo dos pontos
a descrer na lei do mínimo esforço,
sabe, não somos brinquedo e brincamos,
e diz de cor e salteado
a manha das ruas,
os sambas-de-preto
em que mulher de malandro é rapaz
num dia apanha, no outro quer mais.
Beldroegas, à pascácios, inquietos, farisaicos,
mondrongos aturdidos —
ela não desconhece que a maioria
é mosca de padaria.
Encostado à esquina eu não fique
já que é nunca morto o Morro da Geada,
mas esper
apenas desliza sutil feito ave.
Gaivota, à vôo preciso e espaçoso da gaivota,
e quem, quem são as outras perante
a que eu não tenho —
atrizes, babás , damas, mucamas,
faxineiras, serão verdureiras
mãos encardidos, quadradas,
hão de ser novatas na vida, desajeitadas,
tentando o trottoir da avenida
aventurando, meio envergonhadas,
mas empurradas pela fome,
aprendizes vacilantes de manicure
ou banhistas marrons de sol,
falsas madames vão à feira,
regateiam uma dúzia e meia de bananas
e mulheres de vida andeja serão
chamadas de tudo quanto é nome,
ciganinhas suburbanas e de araque,
ciganaqem descida com a gana e a necessidade
escorrida de algum enfiado escondido, da Baixada Fluminense,
a engambelar nos praças, no centro da cidade,
lendo a sorte questionável nas mãos dos passantes
— um olho na palma, outro na polícia —
rodam lépidas, o vestido longo e ordinário de chita,
escafedem-se espaventadas pelos becos,
erradas, erradias já que analfabetas,
por penúria ou orfandade corridas da área rural,
perdidaças ignorantes de tudo
e, entanto, mais carregam dentro de si
uma enorme aflição, tumultuada necessidade de amor,
ou serão aqueles que, em solidão e no escuro comem chocolate,
bombons de chocolate.
A que eu não tenho terá sido do vizinho.
Professor de inglês,
aranha escrevedor de jogo do bicho,
deputado salafrário,
ou no aparente ridículo da vida,
inusitada mas tosca, azeda e possível inversão, banal e não,
mulher de outra mulher?
Sem que eu pedisse
ó, não minha,
alma, retomada, semente, fêmea, vida,
far-me-ia cafuné, dar-me-ia um copo dágua,
socaria no pilão a magnífica paçoca com carne seca,
dividiria comigo a fatia de goiabada,
a agrura de um despejo, uma prisão,
a correria pela vida, a vida, ou correntia,
ou o recacau de uma pancadaria na barriga da rua,
chuva e sol, após,
acordar-me-ia com beijos,
relassem na minha barba de três dias,
nas rugas da minha cara.
Também na linha do horizonte,
onde céu e mar se tocam, de lá
ela vem vindo e pode chega
baixando a conspiração dos demônios.
Em nada lembraria as outras
com quem me droguei em paixão,
coxas de Diana,
em chispas e trama de paixão,
fogo de palha a durar sete anos cada um,
carismático número sete,
em cada conhaque a duração de sete janeiros,
foram quatro vezes sete
perfazendo vinte e oito anos
ah, montanha russa,
em que cheirei, cheiramos, fumei, fumamos,
cafunguei, cafungamos, joguei com exagero, arrepiado bebi,
sobe-e-desce, prende a respiração,
antes e depois da mulher que eu não tive,
ó benditas, as anteriores,
melhor me ensinaram,
o meu corpo a tal ponto e detalhes,
não se lembra
e nem se esquece de todos os pontos,
o fremir de cada ondulação dos corpos
dessas benditas mulheres da rua e de casa
para quem o amor tem cheiro,
sobe pelas paredes, prolonga-se,
engalfinha, espicha,
escarrapacha, encolhe,
grito arfado, indômito,
suga o ar e quebra camas,
é boêmio fora de hora
tampouco escolhe lugar,
jamais cronometrado
junto, grudado a essas benditas mulheres
olhos mortiços ou sonhadores,
como os olhos de uma criança.
A mulher que eu não tenho
não joga bilhar francês, sequer carteia bridge,
é outro o seu pano verde,
joga sinuca, ganha partidas,
remata pelo golpe dos vinte-e-sete,
e pelo dos vinte-e-sete,
conserva a extrema elegância
fecha à marinheira, os seus cigarros de papel
e fumo desfiado nas coxas nuas, grossas, morenas coxas,
sustentadas pelas canelas finas de sabiá.
Guarda, estelante.
Reproduz, a capricho, um perfume onipresente.
Luminar, guardará para o sempre o enigma —
onde, segredado, em que noite única,
ficou escondido deveras o frescor superfino
ondeava, emanado das perna dançarinas,
passos de descalça odalisca dos antigos cabarés.
A que eu não tive, novinha,
não tem idade,
tem treze anos e não é virgem
e me ensina na cama
e tem mais de trinta e cinco
tem, em principal, todas as carnes
e as idéias no lugar.
Palmeira, o esguia ao vento,
é o meu calor na madrugada
o meu novo Morro da Geada
a reinvenção do primeiro estilingue
levanta a voz e grave de crioula sacudida,
o susto, o arrepio da primeira boca em que suguei
a mulher que eu não tive
e se esconde nas estrofes de aço e ferro batido,
um só Nelson Cavaquinho.
Acresce espontânea, delicada, dolente,
malandra, macia, sestrosa,
dengosa, nítida, límpida,
como um sorriso brasileiro
e como um choro de Garoto,
Aníbal Augusto Sardinha.
Trata-se, mais do que a musa morena,
ainda mais que perfeita
a mulher que eu não tenho
só tem linhas sinuosas e não faz elipses mentais
arruma o trilho e é a um só tempo locomotiva
e, tão perfeita, não tem passado.
Ser inteiriço em palmeira
tem o pescoço longo,
apertada vagina pequena,
corta e não é dentada, fecha
engole, acalora, corta
e fecha como alicate.
Nunca usou óculos
o que eu não tenho
tem os olhos negros sombreados
onde baila a alma,
e trinta e dois dentes límpidos na boca
jamais usou dentifrício,
escovados com a areia dos rios pelo dedo indicador.
Caída, caída na vida e mulher chamada pública
a que eu não tenho
é quem requebra só pra mim
e quando acorda, me entreolha e diz,
se ainda durmo, vida, ficaste mais linda.
O bamboleio sarado dos ancas
o empinado dos seios
rijas coxas avançam
marcam de tal desenho o andar,
mulher que eu não tive,
assista exímia, quase nua, guerreira ritmada,
de tal sorriso, sambeiro,
ao pisar adona-se a avenida toda
e parece ser todo dela.
Sendo crioula, cabrocha ou irmã rara em nefertite,
mulata melhormente,
quase um sorriso e quase meio sorriso,
a harmonia da indagação sábia,
humilde leveza tão solene,
cabe uma enciclopédia em sua cara,
não livresca, só humano,
em olhos grandes, antigos e sofridos das pretas,
à voz grave das negras dos morros
quando fala é feito o pintassilgo
mestiçado com a canária-do-reino
ganhou o conto magnífico, incansável,
politonado e contínuo, quase metálico,
híbrido bailarino pintagol.
Estrela-guia não minha
singular e não rara
supina dona do impossível
a quem não dói perder dinheiro
doma, fina, a ousado equação delirante,
quanto menos tem mais gasta
e alvejante, luminosa se presta,
quando a questão é ruça
usa como nenhuma
a excelência da conjugação do verbo coisar.
Aperta-se o cerco, o jogo é jogado,
a que eu não tenho
mantém a vagina molhada
e bom o coração,
aprendeu com o sete-estrelo dos pontos
a descrer na lei do mínimo esforço,
sabe, não somos brinquedo e brincamos,
e diz de cor e salteado
a manha das ruas,
os sambas-de-preto
em que mulher de malandro é rapaz
num dia apanha, no outro quer mais.
Beldroegas, à pascácios, inquietos, farisaicos,
mondrongos aturdidos —
ela não desconhece que a maioria
é mosca de padaria.
Encostado à esquina eu não fique
já que é nunca morto o Morro da Geada,
mas esper
694
Iron Alves
Narciso
Vejo céus debaixo dos lençóis
outra esfera e uma esfera após a outra
depois do amor a voz é rouca
navegando ao largo dos faróis
Depois de saciada a fome
o tempo nos empresta novos olhos
torna belo nossos traços falhos
e finalmente a ansiedade dorme
Portanto tudo tem razão
lá fora neva de tanto sol
para que desabrigar-se então
A cor latina da ilusão sensual
frutifica em langor brutal
como as plantas protegidas no hall
outra esfera e uma esfera após a outra
depois do amor a voz é rouca
navegando ao largo dos faróis
Depois de saciada a fome
o tempo nos empresta novos olhos
torna belo nossos traços falhos
e finalmente a ansiedade dorme
Portanto tudo tem razão
lá fora neva de tanto sol
para que desabrigar-se então
A cor latina da ilusão sensual
frutifica em langor brutal
como as plantas protegidas no hall
794
Ives Gandra da Silva Martins
Elegia da Ponte Descoberta
Sobre a ponte do meu ao teu retrato
O silêncio cantava silencioso.
Ponte nascida, de repente,
Descortinando espantos e desejos.
Eram duas montanhas existentes,
Sem saberem das fontes.
E as fontes eram lá.
As fontes gêmeas sombras, entretanto,
Não compreendiam
Os reflexos celestes das irmãs.
Mas as fontes já se amavam.
Ó desconhecimento gerador,
Quanta vaga descoberta na suspeita
Da tua própria origem!
A criação instântica vivida
Mostra, sempre, mais vivência rediviva,
Que uma existência inteira de miragens.
As fontes brotaram para o amor
E as fontes amam fontes desiguais.
Eis porque
As fontes eram lá,
Sem saberem das fontes.
E as fontes já se amavam.
O silêncio cantava silencioso.
Ponte nascida, de repente,
Descortinando espantos e desejos.
Eram duas montanhas existentes,
Sem saberem das fontes.
E as fontes eram lá.
As fontes gêmeas sombras, entretanto,
Não compreendiam
Os reflexos celestes das irmãs.
Mas as fontes já se amavam.
Ó desconhecimento gerador,
Quanta vaga descoberta na suspeita
Da tua própria origem!
A criação instântica vivida
Mostra, sempre, mais vivência rediviva,
Que uma existência inteira de miragens.
As fontes brotaram para o amor
E as fontes amam fontes desiguais.
Eis porque
As fontes eram lá,
Sem saberem das fontes.
E as fontes já se amavam.
776
Henrique Castriciano
Febre
Por toda a parte rosas brancas vejo...
Rosas na fímbria loira dos Altares,
Coroadas de amor e de desejo...
Rosas no céu e rosas nos pomares.
Uma roseira o mês de Maio. Aos pares
Surgem, da brisa ao tremulante arpejo,
Estrelas que recordam, sobre os mares,
Rosas envoltas num cerúleo beijo.
E quando Rosa, em cujo nome chora
Esta febre cruel que me devora,
De si me fala, em gargalhadas francas,
Muda-se em rosa a flor de meus martírios,
O som de sua voz, a luz dos círios...
O próprio Azul desfaz-se em rosas brancas.
Rosas na fímbria loira dos Altares,
Coroadas de amor e de desejo...
Rosas no céu e rosas nos pomares.
Uma roseira o mês de Maio. Aos pares
Surgem, da brisa ao tremulante arpejo,
Estrelas que recordam, sobre os mares,
Rosas envoltas num cerúleo beijo.
E quando Rosa, em cujo nome chora
Esta febre cruel que me devora,
De si me fala, em gargalhadas francas,
Muda-se em rosa a flor de meus martírios,
O som de sua voz, a luz dos círios...
O próprio Azul desfaz-se em rosas brancas.
1 858
Inaura Carneiro Leão
Predestinação
Uma onda imprevisível
de luz e sons
atravessou o país dos anjos azuis
e penetrou impetuosamente
no mundo submerso
de meus sonhos
Veio de longe
dos abismos perfumados
onde florescem as rainhas da noite
que enebriam
os viandantes descuidados
Veio dos gestos espontâneos
e talvez despretensiosos
que tocaram a pele de minh’alma
e avassaladoramente
me deixaram estática
silente
e transbordante
de ternura e de desejo.
de luz e sons
atravessou o país dos anjos azuis
e penetrou impetuosamente
no mundo submerso
de meus sonhos
Veio de longe
dos abismos perfumados
onde florescem as rainhas da noite
que enebriam
os viandantes descuidados
Veio dos gestos espontâneos
e talvez despretensiosos
que tocaram a pele de minh’alma
e avassaladoramente
me deixaram estática
silente
e transbordante
de ternura e de desejo.
896
Inês Romano
Encanto
Tu me fascinas e encantas
como o fazem as sereias
com navegantes intrépidos
de incauta inocência
incrédulos dos perigos.
Me atraem teus mistérios
e teu canto me seduz
para mergulhar em teus domínios
me esquecer do que sou, do que fui,
para somente — ser — em ti.
como o fazem as sereias
com navegantes intrépidos
de incauta inocência
incrédulos dos perigos.
Me atraem teus mistérios
e teu canto me seduz
para mergulhar em teus domínios
me esquecer do que sou, do que fui,
para somente — ser — em ti.
764
Iderval Miranda
Do Amor e da Loucura
I
diz-se o amor,
o divino
em sua proximidade.
a loucura,
ele mesmo
em sua simplicidade.
juntos,
ainda ele em sua totalidade.
II
o simples traço fará desvendar
o desespero contido no coração
de quem se quer prazer e dor.
e este corpo de mulher
dilacerado pela recusa incontida
do não?
basta, que venha o longe
e eterna seja a carne,
catedral de prazer e dor.
III
buscar o amor
em claro dia
é vã tentativa.
ao longe,
um brilho na escuridão
da tormentosa noite.
adiante,
além do obscuro
do obscuro.
IV
pois o obscuro
revela-se num rosto de mulher.
e quem
loucamente ama o longe
verá o um
eternizado em amor e gozo.
pois o um
revela-se no rosto do um.
V
pois que tudo seja
vanidade e absinto,
o nada será sempre o nada
e o longe findará aqui, dentro de nós.
e esta busca insensata,
quando terá fim?
VI
terás a argila como princesa
e no vergel dos desesperados
serás o fruto maior.
é certo que tudo é um
e mesmo assim,
ante ele, serás o outro.
e o amor mostrará sua face
em forma de mulher e sonho,
e terás o fogo, a paixão e o prazer
não a felicidade,
pois tu és tu,
outro um ante o um.
VII
(desperto pela guitarra do morto)
o prazer
é um.
(ao lado da mulher amada)
o prazer
é um.
(ante a última deidade)
o prazer
é um.
- o prazer é um -
(ainda assim)
o prazer
é um.
VIII
e eis o corpo
do longe e longe
ainda.
e quem mais,
pois o tudo lembrar
é apenas renegar-se.
e esta sombra
do longe e longe
ainda?
IX
e eis que meus sonhos
nomeiam teu corpo
a diluir-se em bruma, névoa
e nada
X
clara paisagem do nada
tu dirás
longe longe longe
mulher
deserto e desespero.
diz-se o amor,
o divino
em sua proximidade.
a loucura,
ele mesmo
em sua simplicidade.
juntos,
ainda ele em sua totalidade.
II
o simples traço fará desvendar
o desespero contido no coração
de quem se quer prazer e dor.
e este corpo de mulher
dilacerado pela recusa incontida
do não?
basta, que venha o longe
e eterna seja a carne,
catedral de prazer e dor.
III
buscar o amor
em claro dia
é vã tentativa.
ao longe,
um brilho na escuridão
da tormentosa noite.
adiante,
além do obscuro
do obscuro.
IV
pois o obscuro
revela-se num rosto de mulher.
e quem
loucamente ama o longe
verá o um
eternizado em amor e gozo.
pois o um
revela-se no rosto do um.
V
pois que tudo seja
vanidade e absinto,
o nada será sempre o nada
e o longe findará aqui, dentro de nós.
e esta busca insensata,
quando terá fim?
VI
terás a argila como princesa
e no vergel dos desesperados
serás o fruto maior.
é certo que tudo é um
e mesmo assim,
ante ele, serás o outro.
e o amor mostrará sua face
em forma de mulher e sonho,
e terás o fogo, a paixão e o prazer
não a felicidade,
pois tu és tu,
outro um ante o um.
VII
(desperto pela guitarra do morto)
o prazer
é um.
(ao lado da mulher amada)
o prazer
é um.
(ante a última deidade)
o prazer
é um.
- o prazer é um -
(ainda assim)
o prazer
é um.
VIII
e eis o corpo
do longe e longe
ainda.
e quem mais,
pois o tudo lembrar
é apenas renegar-se.
e esta sombra
do longe e longe
ainda?
IX
e eis que meus sonhos
nomeiam teu corpo
a diluir-se em bruma, névoa
e nada
X
clara paisagem do nada
tu dirás
longe longe longe
mulher
deserto e desespero.
728
Isabel Machado
Suprema
Suprema força que me atrai
para o que temo
e o meu temor me excita mais
e mais... e mais...
Suprema calma que te encarna
e não me acalma
e a tua mansa, mansa fala
já calou...
Supremo canto dos teus lábios
talvez escárnio
de mim mesma...
talvez a vida
louca vida
me roubou...
Suprema luz que me fascina...
supremo enlevo
que me toca
e dia-a-dia
dia-a-dia
me assassina...
para o que temo
e o meu temor me excita mais
e mais... e mais...
Suprema calma que te encarna
e não me acalma
e a tua mansa, mansa fala
já calou...
Supremo canto dos teus lábios
talvez escárnio
de mim mesma...
talvez a vida
louca vida
me roubou...
Suprema luz que me fascina...
supremo enlevo
que me toca
e dia-a-dia
dia-a-dia
me assassina...
967
Inácio Raposo
Tântalos
Não pode ter de certo os olhos sempre enxutos
Quem sofre qual, no Erebo, o Tântalo maldito:
Sedento — vê debalde um córrego infinito;
Faminto — vê debalde os floridos produtos!...
Ante um castigo tal, que apiedava os brutos,
Leve talvez pareça um bárbaro delito!...
Foge sempre a torrente ao mísero precito
E, se tenta comer, escapam-se-lhe os frutos!
Há Tântalos também na vida transitória:
Querem estes a lympha e os pomos do talento,
E morrem no hospital para viver na história.
Desditosos que são... no malogrado intento!...
Longe de haverem ganho os loiros da vitória,
Encontram no sepulcro o eterno esquecimento!
Quem sofre qual, no Erebo, o Tântalo maldito:
Sedento — vê debalde um córrego infinito;
Faminto — vê debalde os floridos produtos!...
Ante um castigo tal, que apiedava os brutos,
Leve talvez pareça um bárbaro delito!...
Foge sempre a torrente ao mísero precito
E, se tenta comer, escapam-se-lhe os frutos!
Há Tântalos também na vida transitória:
Querem estes a lympha e os pomos do talento,
E morrem no hospital para viver na história.
Desditosos que são... no malogrado intento!...
Longe de haverem ganho os loiros da vitória,
Encontram no sepulcro o eterno esquecimento!
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