Flores e Jardins
Antonieta Raucci
Haicai
Ressoam dentro do peito
Te espero
Perfume e voz
Flores e folhas voam
Tronco despido
Augusto de Campos
Cabeças-de-frade
que as próprias orquídeas evitam,
os cabeças-de-frade,
deselegantes e monstruosos
melocactos de forma elipsoidal,
acanalada, de gomos espinescentes,
convergindo-lhes no vértice superior
formado por uma flor única,
intensamente rubra.
Aparecem, de modo inexplicável,
sobre a pedra nua,
dando, realmente, no tamanho,
na conformação, no
modo por que se espalham,
a imagem singular de
cabeças decepadas e sanguinolentas,
jogadas por ali, a esmo,
numa desordem trágica.
Li Po
BEBENDO AO LUAR
Só me senti.
Lua tão solitária,
Eu bebo a ti!
Esta ao lado é minha sombra,
Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
Dança com ela e comigo.
Como nuvens dançaremos
A sombra e eu.
Eterno é o gozo, se atendes
O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
(Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
Na Láctea Via.
Douglas Mondo
Mulher das águas
quando recebes em teu corpo a espuma
como bruma e beijas sábia ventura.
Tão doce tua voz como mel,
quando acalentas o rouxinol cansado
e embriagas de amor o querubim no céu.
No campo desabrocha o suave lírio,
quando tuas mãos tocam o vento
e no etéreo molduras um mosaico delírio.
Teus afagos são gemidos como músicas lascivas,
quando entorpecem as almas dos poetas loucos
e calam a noite de inveja das estrelas em orgia.
Cai a última pétala em tua túnica suave graça,
quando brilham os olhos da esmeralda e da pérola
e silencia quem passa e nunca vira mulher tão bela.
És mulher tão linda e sábia,
quando a manhã faz da sabedoria um sorriso dela
e da poesia um desejo lânguido nesse dia.
Daniel Faria
Sabes, leitor
e aproveito o facto de teres chegado agora
para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar
que te digo alguma coisa não necessária,mas podia ter-te dito acredita,
que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.Ou melhor,
que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre
apesar de nós.
esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
a flor que se abrir é já um pouco de ti.E a flor que te estendo,
mesmo que a recuses
nunca a poderei conhecer,nem jamais,por muito que a ame,
a colherei
a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
de Dos Líquidos (2000)
Gonzaga Leão
Soneto à Rosa Acontecida
ante o luar - lírio no céu se abrindo
leitoso e virgem, as sombras deglutindo;
lírio que a noite clara e imaginosa
criou para realce dela, a rosa:
chaga de luz e sangue ( a estou sentindo
ferir as minhas mãos, a alma ferindo...)
que vem a madrugada silenciosa-
mente solver, e vem ditando rotas
de paisagens pretéritas e ignotas
por que meus olhos tristes e magoados
todos os dias sofrem e adoecem.
Rosa por que jardins mortos florescem,
cambiantes de luz, ressuscitados.
Amélia Rodrigues
A Minha Rosa
Encontrei uma rosa ...
Ela vinha, sem muito jeito
Machucando-se em seus próprios espinhos
E exalando um cheiro de luar!
Procurei dentre as suas pétalas
O testemunho da sua sinceridade.
E respirei o perfume cálido
A extravazar a alma da sua beleza.
Cativou-me o seu sorriso melancólico,
A sua tristeza inerte e absorta...
E aproximei-me mais e mais da sua consciência...
Quando nos tornamos uma
Fiquei sabendo quem era a minha rosa.
A minha rosa, essa rosa triste
Que coloriu os meus pensamentos...
A minha rosa que, em definitivo,
Arrastou minha vida para o seu destino...
A minha rosa, essa rosa triste
Era o Adeus! ...
A minha última cartada.
Bocage
Se é doce
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:
Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis Amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio:
Se é doce mares, céus ver anilados
Pela Quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:
Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida.
Fernando Pessoa
Dai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas
Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...
Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança
Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.
O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.
A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?
Fernando Pessoa
Bocas roxas de vinho
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa:
Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos, mudos,
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.
Antes isto que a vida
Como os homens a vivem,
Cheia da negra poeira
Que erguem das estradas.
Só os deuses socorrem
Com seu exemplo aqueles
Que nada mais pretendem
Que ir no rio das coisas.
28/08/1915
Fernando Pessoa
29 - Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem paro mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os meus pés –
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...
Fernando Pessoa
02 - O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia, tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
08/03/1914
Fernando Pessoa
Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.
06/07/1914
Amália Bautista
Um pátio ao sul
limoeiros de odor enjoativo,
a luz do dia morrendo indiferente,
tal como num dia qualquer,
repetindo aquele rito
que conserva o mistério das coisas sabidas
e temidas ao mesmo tempo:
e se esta tarde fosse a última?
Bandos de andorinhas cruzam o céu escuro,
bordejam a alta torre,
chegam-me a despistar com o voo errático
de que desconheço o frágil destino.
Os sinos começam a tocar
e as andorinhas fazem que se assustam com o som,
mas é só brincadeira,
e tragédia, e cabriola, e desenho de círculos perfeitos
contra o cinzento avermelhado de agonia
do altíssimo e largo céu.
O céu escureceu de todo. Lá no alto,
entre os ramos do limoeiro, deslumbra-me, rindo,
uma estrela.
Amália Bautista
Os aloendros
nos separadores das auto-estradas,
em jardins privados e luxuosos
e rodeando prédios de tijolo
em subúrbios tão tristes como o homem.
Surpreende-me que sejam tão bonitos,
que se adaptem tão bem a qualquer meio,
que precisem de tão poucos cuidados.
Surpreende-me que sejam venenosos.
Friedrich Hölderlin
Metade da vida
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a Lagoa.
Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!
Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? E aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.
Hälfte des lebens
Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.
Weh mir, wo nehm ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.
– Friedrich Hölderlin. “Hälfte des Lebens”/”Metade da vida”, [tradução Manuel Bandeira]. in: BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.
Josely Vianna Baptista
Oficina Revelação
e chorar com riso é sinal de dor suma e excessiva.”
(Padre Antonio Vieira)
Aqui não se veem olhos
que abriguem lágrimas.
Só artifícios.
O fogo aceso nos latões de lixo.
Aqui não se veem olhos
que abriguem lágrimas.
No charco frio,
um ramalhete macera suas pétalas.
Aqui não se veem olhos
que abriguem lágrimas.
Cornijas riem
do arrulho rouco dos pombos
nos umbrais.
Aqui não se veem olhos
que abriguem lágrimas.
Só trilhos sujos.
E a pompa fúnebre dos caminhões
de entulho.
Ao rés do chão,
como um insulto,
uma moeda brilha no bueiro
sob o casulo adormecido
de um vulto.
Aqui não se veem ilhas
que abriguem náufragos
(mas sob as gazes frias
da geada
saxífragas florescem
entre as pedras
– como dádivas.)
José Mário Rodrigues
OFERENDA
com os mortos
nem secarão sob o sol
dos cemitérios vazios.
Essas flores vão além dos jarros
em que elas se amontoam
e exalam o perfume
que flutua na constelação
de tua convivência
de tua morada.
Essas flores são tua eternidade
momentânea;
a lembrança mais discreta.
São o teu alívio
das feridas dos desfiladeiros do mundo.
Mansamente recolhe-as
para um jardim imaginário
em que, todos os dias,
recomeças as andanças dos mistérios.
Leonardo Aldrovandi
A bigorna
tórax de ressonância
(brilha)
cega entre os pêssegos
fustiga a sequencia das cepas
desfecha capelas
na aldeia de alguns lares
e os pronomes perdidos da viagem
azedam no seio da ama-de-leite gigante
nada a não ser meios o mundo oferece
alpendre
tobogã
raiz forte
Nós frouxos
e o imenso campo mudo
qual o segredo da papoula escarnada?
a resposta é não ter altura
para ser dominante ao olhar
Todo outro peso
meus braços confia
esperando a pedra que a banha esfria
nos olhos daquele anjo
Herberto Helder
4R
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
Herberto Helder
4I
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro desentranha
outra mão: — A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. — O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.
Abre a fonte no mármore, sob a forçados dedos
o vento da luz sacode a árvore.
As veias da pedra,
o cinzel faz isto, são as veias dos cavalos
— e por trás das cabeças estelares respiram rosas.
Crianças, que sinistro enlevo, como percorrem
o círculo puro da guerra, entre escudos
e lanças. E algures,
ao meio da primavera lavrada,
dança a rapariga,
desdobra-se — um sopro move-lhe a cara
imovelmente branca. Mas a noite devagar,
de fora, natural, a noite de longe,
devora joelhos e ferraduras, a espuma que a mão
arranca de dentro
— a pálpebra grande do mundo que se vê defronte
da sua obra. Devora, a noite furiosamente externa
entrando,
não só a água suave e a máquina da guerra
e a soberba ondulação do fogo
nas formas,
mas a doce e dolorosa mão que ergueu a fábula.
Herberto Helder
3J
demorado. Mergulham devagar o peso até ao coração
unido. Pétalas e pálpebras, soletrou-as
conjugalmente
o ouro. Acolhe-os a côncava casa
do sono. Rodaram como bilhas ou amonites ou ancas
pálidas — ao sopro e número
do fogo. Passou a onda abaladora.
E fecham agora os olhos sobre a deslumbrante
chaga das núpcias.
Alto e baixo, pai e filha, ouro e imagem,
transmutaram-se numa só massa exaltada.
—Acame redonda que se fecha
na sua casa madura.
Herberto Helder
5C
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.