Poemas neste tema
Guerra e Paz
Ademir Assunção
NOVOS GAMES NO MERCADO
A cidade suspira holocaustos na hora do rush.
Há fogueiras por toda parte, carcaças de caminhões,
memórias infectadas por vírus transnacionais.
Torcidas rivais se digladiam nos estádios,
com transmissão ao vivo pelas emissoras de TV a cabo
– sob patrocínio da Tyrell Corporation.
“Um espetáculo e tanto. Diversão para toda a família
em noites infames” – murmura
o Presidente de Comunicação Corporativa,
entre planilhas de audiência e pastilhas de heroína.
Formigas carnívoras devoram Poodles da Paz.
Maritacas radiativas anunciam a chegada do verão.
Florações de ipês são projetadas nas fachadas dos edifícios.
O Nigromante digita no teclado do laptop:
*”I saw the best minds of my generation destroyed by madness.”
Câmeras multidirecionais flagram headhunters
burlando as regras do jogo
e promovendo carnificina também nas arquibancadas.
Crânios esfacelados valem mais pontos
Há fogueiras por toda parte, carcaças de caminhões,
memórias infectadas por vírus transnacionais.
Torcidas rivais se digladiam nos estádios,
com transmissão ao vivo pelas emissoras de TV a cabo
– sob patrocínio da Tyrell Corporation.
“Um espetáculo e tanto. Diversão para toda a família
em noites infames” – murmura
o Presidente de Comunicação Corporativa,
entre planilhas de audiência e pastilhas de heroína.
Formigas carnívoras devoram Poodles da Paz.
Maritacas radiativas anunciam a chegada do verão.
Florações de ipês são projetadas nas fachadas dos edifícios.
O Nigromante digita no teclado do laptop:
*”I saw the best minds of my generation destroyed by madness.”
Câmeras multidirecionais flagram headhunters
burlando as regras do jogo
e promovendo carnificina também nas arquibancadas.
Crânios esfacelados valem mais pontos
970
Ademir Assunção
JACK KEROUAC NA PRAIA BRAVA
sonhei com jack kerouac
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das árvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gângster. eu disse: “ei, man,
onde é que vamos parar?” jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uísque.
continuou encarando a lua, pálido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiãs
em praça pública e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo méxico. “oh, não, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.”
descemos até a mercearia da praia brava
atrás de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. “oh, yeah”, disse jack. “os grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praia”. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: “não deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lá do fundo
de vocês mesmos. contem comigo
pro que der e vier”. minha filha
sussurrou no meu ouvido: “quem é esse
cara?” “jack kerouac”, eu respondi. “uau”,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: “eddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leão de chácara”.
eu olhei para jack e em silêncio
fizemos um trato: “deixe-os viver. ainda é cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundo”.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gângster mal-humorado.
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das árvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gângster. eu disse: “ei, man,
onde é que vamos parar?” jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uísque.
continuou encarando a lua, pálido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiãs
em praça pública e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo méxico. “oh, não, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.”
descemos até a mercearia da praia brava
atrás de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. “oh, yeah”, disse jack. “os grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praia”. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: “não deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lá do fundo
de vocês mesmos. contem comigo
pro que der e vier”. minha filha
sussurrou no meu ouvido: “quem é esse
cara?” “jack kerouac”, eu respondi. “uau”,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: “eddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leão de chácara”.
eu olhei para jack e em silêncio
fizemos um trato: “deixe-os viver. ainda é cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundo”.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gângster mal-humorado.
1 011
João Filho
Quase Gregas - Sexta
Altos extremos convivem nesta hora sem trégua:
este chamemos Sol-Fúria.
Seu antípoda é chamado de Ave-Doçura.
Vão juntos, cindidos.
Aquele – carnífice,
nos campos empilha inimigos,
caminhos sanguíneos deixando,
desossa o que não for seu brasão,
e mantém o lastro do irmão.
Com alma e arnês,
braço e couraça a serviço d’El-rey,
do Altíssimo Outro, sem-par.
Mas tratemos agora da Ave-Doçura:
suporta os aríetes do mundo
e não apenas a face contrária oferece.
Seu marco:
Amor.
Seu coração – seu combate.
Esses dois margeiam – centímetro –
dor, bílis e morte. Amam assim,
juntos, cindidos.
Os séculos baldam em destroçá-los,
e já tentaram de tudo.
Atravessam cambaios, porém de pé,
precipícios, planícies,
a própria medula.
este chamemos Sol-Fúria.
Seu antípoda é chamado de Ave-Doçura.
Vão juntos, cindidos.
Aquele – carnífice,
nos campos empilha inimigos,
caminhos sanguíneos deixando,
desossa o que não for seu brasão,
e mantém o lastro do irmão.
Com alma e arnês,
braço e couraça a serviço d’El-rey,
do Altíssimo Outro, sem-par.
Mas tratemos agora da Ave-Doçura:
suporta os aríetes do mundo
e não apenas a face contrária oferece.
Seu marco:
Amor.
Seu coração – seu combate.
Esses dois margeiam – centímetro –
dor, bílis e morte. Amam assim,
juntos, cindidos.
Os séculos baldam em destroçá-los,
e já tentaram de tudo.
Atravessam cambaios, porém de pé,
precipícios, planícies,
a própria medula.
675
João Filho
Quase Gregas - Segunda
quele anônimo
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
510
Charles Bukowski
O Bombardeio de Berlim
os americanos e ingleses atacavam, ele me contou,
nada podia detê-los,
tinham luzes vermelhas e azuis em seus aviões
e estavam à vontade,
e era engraçado, você sabe,
uma bomba acabava com um quarteirão inteiro
e deixava o quarteirão ao lado em pé,
intocado.
uma vez, depois de um ataque aéreo, ouvimos um piano tocando
debaixo dos destroços
e lá estava uma velha senhora debaixo daquilo tocando piano,
o prédio havia desabado ao redor dela,
e a havia soterrado ali e ela continuava a tocar o
piano.
depois de um tempo, quando os aviões chegavam e chegavam de novo
não nos dávamos mais ao trabalho de ir ao abrigo subterrâneo,
só ficávamos onde quer que estivéssemos
no primeiro e segundo andares e olhávamos para cima
e observávamos
as luzes vermelhas e azuis e pensávamos,
malditos!
bem, ele disse, servindo-se de sua cerveja com um suspiro,
nós perdemos a guerra, e é só isso
mesmo.
nada podia detê-los,
tinham luzes vermelhas e azuis em seus aviões
e estavam à vontade,
e era engraçado, você sabe,
uma bomba acabava com um quarteirão inteiro
e deixava o quarteirão ao lado em pé,
intocado.
uma vez, depois de um ataque aéreo, ouvimos um piano tocando
debaixo dos destroços
e lá estava uma velha senhora debaixo daquilo tocando piano,
o prédio havia desabado ao redor dela,
e a havia soterrado ali e ela continuava a tocar o
piano.
depois de um tempo, quando os aviões chegavam e chegavam de novo
não nos dávamos mais ao trabalho de ir ao abrigo subterrâneo,
só ficávamos onde quer que estivéssemos
no primeiro e segundo andares e olhávamos para cima
e observávamos
as luzes vermelhas e azuis e pensávamos,
malditos!
bem, ele disse, servindo-se de sua cerveja com um suspiro,
nós perdemos a guerra, e é só isso
mesmo.
1 052
Charles Bukowski
Mais Um Poema Sobre Um Bêbado e Depois Eu Deixo Vocês Irem Embora
"cara", ele disse sentado nos degraus.
"seu carro precisa com certeza de uma limpeza e uma cera.
posso fazer por 5 pratas.
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo
que preciso."
eu lhe dei 5 e subi.
quando desci 4 horas mais tarde
ele estava sentado nos degraus, bêbado.
ele me ofereceu uma lata de cerveja.
disse que ia fazer o carro
no dia seguinte.
no dia seguinte ele estava bêbado de novo e
eu lhe emprestei um dólar para uma garrafa de
vinho. o nome dele era Mike.
um veterano da Segunda Guerra Mundial.
sua mulher trabalhava como enfermeira.
no outro dia quando desci ele estava sentado
nos degraus. ele disse,
"sabe, eu estava sentado aqui olhando seu carro
pensando como fazer melhor.
quero fazer bem feito mesmo".
no dia seguinte Mike disse que parecia que estava com jeito de chuva
e com certeza não faria qualquer sentido
lavar e polir um carro quando ia chover.
no dia seguinte estava outra vez com jeito de chuva.
e no outro dia.
depois nunca mais o vi.
vi sua mulher e ela disse,
"levaram Mike para o hospital,
ele está todo inchado, dizem que é de
beber".
"escute", eu lhe disse, "ele falou que ia polir meu
carro. eu lhe dei 5 dólares para polir meu
carro."
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com a mulher dele
quando o telefone tocou.
ela me passou o telefone.
era Mike. "ouça", ele disse, "venha para cá e
me busque. eu não aguento mais este
lugar."
quando cheguei lá
não quiseram me entregar as roupas dele
e assim Mike caminhou até o elevador em seu roupão de
hospital.
seguimos em frente e havia um garoto no
elevador comendo um picolé.
"ninguém tem permissão para sair daqui de roupão",
ele disse.
"você dirige esta coisa, garoto", eu disse,
"nós cuidamos do roupão."
parei na loja de bebidas para 2 engradados de meia dúzia
e então dirigi para casa. bebi com Mike e sua mulher até
as 11 da noite.
então subi.
"onde está Mike?", perguntei para a mulher dele 3 dias
depois.
"Mike morreu", ela disse, "ele se foi."
"sinto muito", eu disse, "sinto muito, mesmo."
choveu por uma semana depois disso e
imaginei que o único jeito de conseguir aqueles 5 de volta
seria ir para a cama com a mulher dele
mas você sabe
ela se mudou uns dois dias
depois
e um cara velho de cabelos brancos
se mudou para lá.
ele era cego de um olho e
tocava trompete.
de jeito nenhum eu faria aquilo
com ele.
assim, tive eu que lavar e polir meu próprio carro.
"seu carro precisa com certeza de uma limpeza e uma cera.
posso fazer por 5 pratas.
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo
que preciso."
eu lhe dei 5 e subi.
quando desci 4 horas mais tarde
ele estava sentado nos degraus, bêbado.
ele me ofereceu uma lata de cerveja.
disse que ia fazer o carro
no dia seguinte.
no dia seguinte ele estava bêbado de novo e
eu lhe emprestei um dólar para uma garrafa de
vinho. o nome dele era Mike.
um veterano da Segunda Guerra Mundial.
sua mulher trabalhava como enfermeira.
no outro dia quando desci ele estava sentado
nos degraus. ele disse,
"sabe, eu estava sentado aqui olhando seu carro
pensando como fazer melhor.
quero fazer bem feito mesmo".
no dia seguinte Mike disse que parecia que estava com jeito de chuva
e com certeza não faria qualquer sentido
lavar e polir um carro quando ia chover.
no dia seguinte estava outra vez com jeito de chuva.
e no outro dia.
depois nunca mais o vi.
vi sua mulher e ela disse,
"levaram Mike para o hospital,
ele está todo inchado, dizem que é de
beber".
"escute", eu lhe disse, "ele falou que ia polir meu
carro. eu lhe dei 5 dólares para polir meu
carro."
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com a mulher dele
quando o telefone tocou.
ela me passou o telefone.
era Mike. "ouça", ele disse, "venha para cá e
me busque. eu não aguento mais este
lugar."
quando cheguei lá
não quiseram me entregar as roupas dele
e assim Mike caminhou até o elevador em seu roupão de
hospital.
seguimos em frente e havia um garoto no
elevador comendo um picolé.
"ninguém tem permissão para sair daqui de roupão",
ele disse.
"você dirige esta coisa, garoto", eu disse,
"nós cuidamos do roupão."
parei na loja de bebidas para 2 engradados de meia dúzia
e então dirigi para casa. bebi com Mike e sua mulher até
as 11 da noite.
então subi.
"onde está Mike?", perguntei para a mulher dele 3 dias
depois.
"Mike morreu", ela disse, "ele se foi."
"sinto muito", eu disse, "sinto muito, mesmo."
choveu por uma semana depois disso e
imaginei que o único jeito de conseguir aqueles 5 de volta
seria ir para a cama com a mulher dele
mas você sabe
ela se mudou uns dois dias
depois
e um cara velho de cabelos brancos
se mudou para lá.
ele era cego de um olho e
tocava trompete.
de jeito nenhum eu faria aquilo
com ele.
assim, tive eu que lavar e polir meu próprio carro.
1 582
Charles Bukowski
Realização
ela se disciplinou em
raiva
ódio e estratégias
do engodo.
sempre achei que isso iria
passar finalmente
e que ela estava obcecada por
equívocos e maus
conselhos.
sempre achei que iria
passar.
escutei as acusações contra mim
sabendo que algumas delas eram verdadeiras
mas certamente não
tão importantes
a ponto de se tornarem o alvo de
violência, inveja,
vingança.
achei que certamente
passaria.
eu não organizei nenhuma
defesa
achando que a simples
razão
iria salvar a nós
dois
mas sua determinação
se reforçou -
e até mesmo então
eu resumi aquilo como uma teimosa
e excessiva
energia
mas a cada vez que eu cedia
mais espaço era
ocupado.
senhor, eu pensei, é apenas simples
violência
e assim eu conduzi meu cavalo
para fora do estábulo
afiei minhas facas e
comecei um
contra-ataque.
ela finalmente havia achado
um adversário tão bom quanto
poderia ser achado.
sua determinação provocou sua própria
destruição.
ela havia encontrado seu
páreo
eu montei em meu corcel
espada em riste
em riste até para o sol.
ela sempre quis guerra
eu cumpriria seu desejo
e agora dane-se o amor
assim como o amor foi amaldiçoado quando
veio pela primeira vez.
agora minha hesitação
iria embora
para sempre
e o sangue
iria correr
o dela e o meu
assim como ela desejava.
raiva
ódio e estratégias
do engodo.
sempre achei que isso iria
passar finalmente
e que ela estava obcecada por
equívocos e maus
conselhos.
sempre achei que iria
passar.
escutei as acusações contra mim
sabendo que algumas delas eram verdadeiras
mas certamente não
tão importantes
a ponto de se tornarem o alvo de
violência, inveja,
vingança.
achei que certamente
passaria.
eu não organizei nenhuma
defesa
achando que a simples
razão
iria salvar a nós
dois
mas sua determinação
se reforçou -
e até mesmo então
eu resumi aquilo como uma teimosa
e excessiva
energia
mas a cada vez que eu cedia
mais espaço era
ocupado.
senhor, eu pensei, é apenas simples
violência
e assim eu conduzi meu cavalo
para fora do estábulo
afiei minhas facas e
comecei um
contra-ataque.
ela finalmente havia achado
um adversário tão bom quanto
poderia ser achado.
sua determinação provocou sua própria
destruição.
ela havia encontrado seu
páreo
eu montei em meu corcel
espada em riste
em riste até para o sol.
ela sempre quis guerra
eu cumpriria seu desejo
e agora dane-se o amor
assim como o amor foi amaldiçoado quando
veio pela primeira vez.
agora minha hesitação
iria embora
para sempre
e o sangue
iria correr
o dela e o meu
assim como ela desejava.
1 084
Charles Bukowski
Os Elefantes do Vietnã
primeiro eles costumavam, ele me contou,
atirar e jogar bombas nos elefantes,
dava para ouvir seus gritos sobre todos os outros sons;
mas você voava alto para bombardear o povo,
você nunca o enxergava,
só um pequeno clarão de lá de cima
mas com os elefantes
você podia olhar aquilo acontecendo
e ouvir como gritavam;
eu dizia a meus companheiros, ouçam, caras,
parem com isso,
mas eles se limitavam a rir
enquanto os elefantes se dispersavam
erguendo a tromba (se não tivesse sido estourada)
abrindo a boca
bem grande e
tropeçando nas pernas grossas e desajeitadas
enquanto o sangue escorria dos grandes buracos na barriga.
então voaríamos de volta,
missão cumprida.
acertávamos qualquer coisa:
comboios, depósitos, pontes, gente, elefantes e
todo o resto.
ele me contou mais tarde, eu
me senti mal pelos
elefantes.
atirar e jogar bombas nos elefantes,
dava para ouvir seus gritos sobre todos os outros sons;
mas você voava alto para bombardear o povo,
você nunca o enxergava,
só um pequeno clarão de lá de cima
mas com os elefantes
você podia olhar aquilo acontecendo
e ouvir como gritavam;
eu dizia a meus companheiros, ouçam, caras,
parem com isso,
mas eles se limitavam a rir
enquanto os elefantes se dispersavam
erguendo a tromba (se não tivesse sido estourada)
abrindo a boca
bem grande e
tropeçando nas pernas grossas e desajeitadas
enquanto o sangue escorria dos grandes buracos na barriga.
então voaríamos de volta,
missão cumprida.
acertávamos qualquer coisa:
comboios, depósitos, pontes, gente, elefantes e
todo o resto.
ele me contou mais tarde, eu
me senti mal pelos
elefantes.
1 154
Charles Bukowski
O Principal
aí vem a cabeça de peixe cantante
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma buceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma buceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
1 083
Charles Bukowski
O Soldado, Sua Mulher e o Vagabundo
eu vivia como um vagabundo em São Francisco mas certa vez consegui
ir a um concerto sinfônico junto com pessoas
bem-vestidas
e a música era boa mas algo relacionado à
audiência não era
e algo relacionado à orquestra
e ao maestro não
era,
embora o prédio fosse ótimo e a
acústica perfeita
eu preferia escutar música sozinho
no meu rádio
e depois disso eu voltei para o meu quarto e
liguei o rádio mas
veio então uma pancada na parede:
“DESLIGA ESSE MALDITO NEGÓCIO!”
havia um soldado no quarto ao lado
vivendo com sua mulher
e logo ele seria mandado para o front para me proteger
de Hitler e então
eu desliguei o rádio e ouvi sua
mulher dizer, “você não devia ter feito isso”.
e o soldado disse, “POR QUE ESSE OTÁRIO NÃO VAI SE FODER?!”
o que me pareceu ser uma ótima coisa para
fazer com sua mulher.
claro,
isso nunca aconteceu.
de qualquer modo, jamais voltei a pôr meus pés num concerto
e naquela noite escutei o rádio bem
baixinho, meu ouvido colado ao
alto-falante.
a guerra tem seu preço e a paz nunca dura e
milhões de homens na flor da idade iriam morrer por aí
e enquanto eu escutava música clássica
ouvi os dois fazendo amor, desesperados e
lastimosos, através de Shostakovich, Brahms,
Mozart, através do crescendo e do clímax
e através da parede
dividida de nossas escuridões.
ir a um concerto sinfônico junto com pessoas
bem-vestidas
e a música era boa mas algo relacionado à
audiência não era
e algo relacionado à orquestra
e ao maestro não
era,
embora o prédio fosse ótimo e a
acústica perfeita
eu preferia escutar música sozinho
no meu rádio
e depois disso eu voltei para o meu quarto e
liguei o rádio mas
veio então uma pancada na parede:
“DESLIGA ESSE MALDITO NEGÓCIO!”
havia um soldado no quarto ao lado
vivendo com sua mulher
e logo ele seria mandado para o front para me proteger
de Hitler e então
eu desliguei o rádio e ouvi sua
mulher dizer, “você não devia ter feito isso”.
e o soldado disse, “POR QUE ESSE OTÁRIO NÃO VAI SE FODER?!”
o que me pareceu ser uma ótima coisa para
fazer com sua mulher.
claro,
isso nunca aconteceu.
de qualquer modo, jamais voltei a pôr meus pés num concerto
e naquela noite escutei o rádio bem
baixinho, meu ouvido colado ao
alto-falante.
a guerra tem seu preço e a paz nunca dura e
milhões de homens na flor da idade iriam morrer por aí
e enquanto eu escutava música clássica
ouvi os dois fazendo amor, desesperados e
lastimosos, através de Shostakovich, Brahms,
Mozart, através do crescendo e do clímax
e através da parede
dividida de nossas escuridões.
1 110
Charles Bukowski
Marina:
majestosa, mágica
infinita
minha garotinha é o
sol
sobre o tapete –
porta afora
apanhando uma
flor, rá!,
um velho,
cansado de guerra
emerge de sua
cadeira
e ela me olha
mas vê apenas
amor,
rá!, e eu me torno
rápido com o mundo
e amo de imediato
assim como eu havia sido criado
para fazer.
O bebê engatinhava, descobrindo o mundo. Marina dormia na cama com a gente à noite. Lá estava Marina, Fay, o gato e eu. O gato também dormia na cama. Veja só, pensei, tenho três bocas dependendo de mim. Que estranho. Eu ficava ali sentado, vendo os três dormirem.
Então, por duas noites seguidas, ao chegar em casa ao amanhecer, ainda madrugada, Fay estava por ali, sentada, lendo os classificados.
– Todos esses quartos são o olho da cara – ela disse.
– Claro – eu disse.
Na noite seguinte, enquanto ela lia o jornal, eu lhe perguntei:
– Você está se mudando?
– Sim.
– Tudo bem. Eu ajudo você a encontrar um lugar amanhã. Damos uma volta por aí.
Concordei em lhe pagar uma soma cada mês. Ela disse:
– Tudo bem.
Fay ficou com a garota. Eu com o gato.
Encontramos um lugar que ficava a oito ou dez quadras. Ajudei-a na mudança, disse adeus à menina e dirigi de volta pra casa.
Eu aparecia para ver Marina duas ou três ou quatro vezes por semana. Sabia que enquanto pudesse ver a garota eu estaria bem.
Fay continuava se vestindo de preto em protesto contra a guerra. Participava de manifestações locais pela paz, encontros de amor livre, ia a leituras de poesia, oficinas, reuniões do partido comunista, e ficava sentada num café hippie. Levava a menina consigo. Se ela não saía, ficava em casa, sentada numa cadeira, fumando cigarro atrás de cigarro e lendo. Usava buttons de protesto em sua blusa preta. Mas normalmente ela estava na rua com a menina quando eu ia lá visitá-la.
Um dia, afinal, consegui pegá-las em casa. Fay comia sementes de girassol com iogurte. Ela assava o próprio pão, mas não era lá muito comestível.
– Conheci Andy, um cara que é motorista de caminhão – ela me disse. – Ele pinta nas horas vagas. Aí está um dos quadros. – Fay apontou para a parede.
Eu brincava com a garota. Olhei para a pintura. Não disse nada.
– Ele tem um pau enorme – disse Fay. – Ele esteve aqui noite dessas e me perguntou, “Como você quer que eu coma você com o meu pauzão?” e eu lhe disse que “preferia ser comida com amor!”.
– Ele fala como um desses caras que conhecem a vida – eu disse a ela.
Brinquei com a menina por mais um tempo, então parti. Eu tinha uma prova de método se aproximando.
Logo depois disso, recebi uma carta de Fay. Ela e a criança estavam vivendo numa comunidade hippie no Novo México. Era um lugar legal, ela disse. Marina poderia respirar ar puro por lá. Mandou junto um pequeno desenho que a menina havia feito para mim.
– Cartas na rua
infinita
minha garotinha é o
sol
sobre o tapete –
porta afora
apanhando uma
flor, rá!,
um velho,
cansado de guerra
emerge de sua
cadeira
e ela me olha
mas vê apenas
amor,
rá!, e eu me torno
rápido com o mundo
e amo de imediato
assim como eu havia sido criado
para fazer.
O bebê engatinhava, descobrindo o mundo. Marina dormia na cama com a gente à noite. Lá estava Marina, Fay, o gato e eu. O gato também dormia na cama. Veja só, pensei, tenho três bocas dependendo de mim. Que estranho. Eu ficava ali sentado, vendo os três dormirem.
Então, por duas noites seguidas, ao chegar em casa ao amanhecer, ainda madrugada, Fay estava por ali, sentada, lendo os classificados.
– Todos esses quartos são o olho da cara – ela disse.
– Claro – eu disse.
Na noite seguinte, enquanto ela lia o jornal, eu lhe perguntei:
– Você está se mudando?
– Sim.
– Tudo bem. Eu ajudo você a encontrar um lugar amanhã. Damos uma volta por aí.
Concordei em lhe pagar uma soma cada mês. Ela disse:
– Tudo bem.
Fay ficou com a garota. Eu com o gato.
Encontramos um lugar que ficava a oito ou dez quadras. Ajudei-a na mudança, disse adeus à menina e dirigi de volta pra casa.
Eu aparecia para ver Marina duas ou três ou quatro vezes por semana. Sabia que enquanto pudesse ver a garota eu estaria bem.
Fay continuava se vestindo de preto em protesto contra a guerra. Participava de manifestações locais pela paz, encontros de amor livre, ia a leituras de poesia, oficinas, reuniões do partido comunista, e ficava sentada num café hippie. Levava a menina consigo. Se ela não saía, ficava em casa, sentada numa cadeira, fumando cigarro atrás de cigarro e lendo. Usava buttons de protesto em sua blusa preta. Mas normalmente ela estava na rua com a menina quando eu ia lá visitá-la.
Um dia, afinal, consegui pegá-las em casa. Fay comia sementes de girassol com iogurte. Ela assava o próprio pão, mas não era lá muito comestível.
– Conheci Andy, um cara que é motorista de caminhão – ela me disse. – Ele pinta nas horas vagas. Aí está um dos quadros. – Fay apontou para a parede.
Eu brincava com a garota. Olhei para a pintura. Não disse nada.
– Ele tem um pau enorme – disse Fay. – Ele esteve aqui noite dessas e me perguntou, “Como você quer que eu coma você com o meu pauzão?” e eu lhe disse que “preferia ser comida com amor!”.
– Ele fala como um desses caras que conhecem a vida – eu disse a ela.
Brinquei com a menina por mais um tempo, então parti. Eu tinha uma prova de método se aproximando.
Logo depois disso, recebi uma carta de Fay. Ela e a criança estavam vivendo numa comunidade hippie no Novo México. Era um lugar legal, ela disse. Marina poderia respirar ar puro por lá. Mandou junto um pequeno desenho que a menina havia feito para mim.
– Cartas na rua
1 600
Charles Bukowski
Notas Sobre o Aspecto Linhoso:
uma florzinha do John F. Kennedy bate à minha porta é atingida no
pescoço;
os gladíolos se reúnem às dúzias ao redor da extremidade da
Índia
pingando no Ceilão;
dúzias de ostras[12] leem Germaine Greer.
enquanto isso, minha excitação vai da conversa fiada dos filisteus
ao olho do peixinho
o peixinho sendo devorado pelos sonhos cumulativos de
Simon Bolívar. Ó,
a liberdade da limitação angular da distância seria
delicioso.
a guerra é perfeita,
o que é sólido pinga e se dispersa,
Schopenhauer riu por 72 anos,
e um homúnculo em Nova York me disse
certa tarde numa
casa de penhores:
“Cristo conseguiu atrair mais atenção que eu
mas eu fui mais longe com menos...”
bem, a distância entre 5 pontos é a mesma assim como a
distância entre 3 pontos é a mesma distância
entre um ponto:
tudo é tão cordial como um bombom:
tudo isso em que estamos
envolvidos:
os eunucos são mais precisos que o sono
o selo postal é louco, Indiana é ridículo
o camaleão é a última flor ambulante.
pescoço;
os gladíolos se reúnem às dúzias ao redor da extremidade da
Índia
pingando no Ceilão;
dúzias de ostras[12] leem Germaine Greer.
enquanto isso, minha excitação vai da conversa fiada dos filisteus
ao olho do peixinho
o peixinho sendo devorado pelos sonhos cumulativos de
Simon Bolívar. Ó,
a liberdade da limitação angular da distância seria
delicioso.
a guerra é perfeita,
o que é sólido pinga e se dispersa,
Schopenhauer riu por 72 anos,
e um homúnculo em Nova York me disse
certa tarde numa
casa de penhores:
“Cristo conseguiu atrair mais atenção que eu
mas eu fui mais longe com menos...”
bem, a distância entre 5 pontos é a mesma assim como a
distância entre 3 pontos é a mesma distância
entre um ponto:
tudo é tão cordial como um bombom:
tudo isso em que estamos
envolvidos:
os eunucos são mais precisos que o sono
o selo postal é louco, Indiana é ridículo
o camaleão é a última flor ambulante.
592
Charles Bukowski
22.000 Dólares Em 3 Meses
a noite chegou como um ser que se arrasta
corrimão acima, sibilando sua língua
de fogo, e me lembro dos
missionários com a lama até os joelhos
batendo em retirada através do belo rio azul
e as balas da metralhadora erguendo pequenas
fontes e Jones bêbado junto à margem
dizendo fodam-se esses selvagens
onde arrumaram armas de fogo?
e eu retorno pra ver Maria
e ela diz, você acha que eles vão atacar,
acha que eles vão atravessar o rio?
medo de morrer? lhe pergunto, e ela diz
quem não tem?
e eu fui até o armário de remédios
e me servi uma taça cheia, e disse
ganhamos 22.000 dólares em 3 meses construindo estradas
pro Jones e é preciso morrer um pouco
para fazer tudo mais depressa... Você acha que os comunistas
começaram com isso? ela perguntou, você acha que são os comunistas?
e eu disse, dá pra parar de ser uma vaca neurótica.
essas republiquetas crescem porque estão
enchendo os bolsos com dinheiro dos dois lados... e ela
me olhou com aquela linda estupidez das colegiais
e se afastou, escurecia mas eu a deixei partir,
precisamos saber quando é hora de deixar uma mulher ir a fim de mantê-la,
e se você não quer ficar com ela deixa-a ir de qualquer maneira,
assim que é sempre um processo de deixar partir, de um modo ou de outro,
então me sentei e terminei o drinque e preparei outro
e pensei, quem poderia imaginar que um curso de engenharia na Old Miss
poderia trazê-lo para onde as lâmpadas balançam devagar
no verde de certa noite distante?
e Jones apareceu com o braço ao redor de sua cintura azul
e ela também andara bebendo, e eu me aproximei e disse,
marido e mulher? e isso a deixou puta porque se uma mulher não pode
pegá-lo pelo cangote e fazê-lo de gato e sapato, está acabada,
e eu me servi mais uma dose caprichada, e
disse, vocês 2 podem não perceber
mas não vamos sair vivos daqui.
bebemos o resto da noite.
você poderia ouvir, se ficasse bem parado,
a água descendo através das árvores de deus,
e as estradas que havíamos construído
dava pra ouvir os animais a cruzá-las
e os selvagens, tolos bárbaros com alguma cruz bárbara para enterrar.
e finalmente o último olhar no espelho
enquanto os amantes embriagados se abraçam
e se afastam e erguem um pedaço de palha
do teto da cabana
então acendem o isqueiro, e eu
vejo as chamas se alastrarem, como ratos esfaimados
sobre as frágeis estruturas marrons, vagarosamente mas de modo
real, e logo irreal, algo que parecia uma ópera,
e então caminhei em direção ao som da metralha,
o mesmo rio, e a lua voltada para mim
e no caminho eu vi uma cobra, das pequenas,
mais parecendo uma cascavel, mas não poderia ser uma cascavel,
e se assustou ao me ver, e eu a agarrei atrás do pescoço
antes que pudesse se enrolar e então a segurei
seu pequeno corpo se enroscando ao redor do meu pulso
como um dedo amoroso e todas as árvores abriram seus olhos
e eu levei minha boca à sua
e o amor era iluminação e lembrança,
comunistas mortos, fascistas mortos, democratas mortos, deuses mortos e
ao retornar ao que restara da cabana de Jones
lá estava seu braço morto e carbonizado ao redor de sua cintura azul e morta.
corrimão acima, sibilando sua língua
de fogo, e me lembro dos
missionários com a lama até os joelhos
batendo em retirada através do belo rio azul
e as balas da metralhadora erguendo pequenas
fontes e Jones bêbado junto à margem
dizendo fodam-se esses selvagens
onde arrumaram armas de fogo?
e eu retorno pra ver Maria
e ela diz, você acha que eles vão atacar,
acha que eles vão atravessar o rio?
medo de morrer? lhe pergunto, e ela diz
quem não tem?
e eu fui até o armário de remédios
e me servi uma taça cheia, e disse
ganhamos 22.000 dólares em 3 meses construindo estradas
pro Jones e é preciso morrer um pouco
para fazer tudo mais depressa... Você acha que os comunistas
começaram com isso? ela perguntou, você acha que são os comunistas?
e eu disse, dá pra parar de ser uma vaca neurótica.
essas republiquetas crescem porque estão
enchendo os bolsos com dinheiro dos dois lados... e ela
me olhou com aquela linda estupidez das colegiais
e se afastou, escurecia mas eu a deixei partir,
precisamos saber quando é hora de deixar uma mulher ir a fim de mantê-la,
e se você não quer ficar com ela deixa-a ir de qualquer maneira,
assim que é sempre um processo de deixar partir, de um modo ou de outro,
então me sentei e terminei o drinque e preparei outro
e pensei, quem poderia imaginar que um curso de engenharia na Old Miss
poderia trazê-lo para onde as lâmpadas balançam devagar
no verde de certa noite distante?
e Jones apareceu com o braço ao redor de sua cintura azul
e ela também andara bebendo, e eu me aproximei e disse,
marido e mulher? e isso a deixou puta porque se uma mulher não pode
pegá-lo pelo cangote e fazê-lo de gato e sapato, está acabada,
e eu me servi mais uma dose caprichada, e
disse, vocês 2 podem não perceber
mas não vamos sair vivos daqui.
bebemos o resto da noite.
você poderia ouvir, se ficasse bem parado,
a água descendo através das árvores de deus,
e as estradas que havíamos construído
dava pra ouvir os animais a cruzá-las
e os selvagens, tolos bárbaros com alguma cruz bárbara para enterrar.
e finalmente o último olhar no espelho
enquanto os amantes embriagados se abraçam
e se afastam e erguem um pedaço de palha
do teto da cabana
então acendem o isqueiro, e eu
vejo as chamas se alastrarem, como ratos esfaimados
sobre as frágeis estruturas marrons, vagarosamente mas de modo
real, e logo irreal, algo que parecia uma ópera,
e então caminhei em direção ao som da metralha,
o mesmo rio, e a lua voltada para mim
e no caminho eu vi uma cobra, das pequenas,
mais parecendo uma cascavel, mas não poderia ser uma cascavel,
e se assustou ao me ver, e eu a agarrei atrás do pescoço
antes que pudesse se enrolar e então a segurei
seu pequeno corpo se enroscando ao redor do meu pulso
como um dedo amoroso e todas as árvores abriram seus olhos
e eu levei minha boca à sua
e o amor era iluminação e lembrança,
comunistas mortos, fascistas mortos, democratas mortos, deuses mortos e
ao retornar ao que restara da cabana de Jones
lá estava seu braço morto e carbonizado ao redor de sua cintura azul e morta.
1 003
Charles Bukowski
O Incêndio do Sonho
A velha Biblioteca Pública de L.A. pegou
fogo
aquela biblioteca do centro
e com ela se foi
uma grande parte da minha
juventude.
eu estava sentado num daqueles bancos de
pedra com meu amigo
Carequinha quando ele
perguntou,
“você vai se alistar na
brigada
Abraham Lincoln?”
“claro”, eu lhe
disse.
mas percebendo que eu não era nem
um intelectual nem um político
idealista
recuei na questão
mais
tarde.
eu era um leitor
então
indo de seção em
seção: literatura, filosofia,
religião, até medicina
e geologia.
desde cedo
decidi ser um escritor
pensei que esse seria o caminho mais fácil
para
escapar
e os grandes figurões do romance não me pareciam
páreo muito
duro.
eu tinha maiores dificuldades com
Hegel e Kant.
o que me incomodava
em
todos eles
é que levavam um tempo enorme
para finalmente dizer
alguma coisa viva e/
ou
interessante.
pensava então ter algo a dizer
mais do que todos
eles.
eu estava para descobrir duas
coisas:
a) a maioria dos editores pensava que tudo que fosse
chato tinha algo a ver com assuntos
profundos.
b) que levaria décadas de
vida e escrita
antes que eu fosse capaz de
colocar no papel
uma frase que estivesse
ao menos próxima
daquilo que eu realmente queria
dizer.
nesse meio-tempo
enquanto outros jovens corriam atrás de
mulheres
eu corria atrás dos velhos
livros.
eu era um bibliófilo, quem sabe um
sujeito
desencantado
e isto
e o mundo
me moldaram.
eu vivia numa cabana de madeira
atrás de uma pensão
a três dólares por
semana
sentindo-me como um
Chatterton
enfiado dentro de algo do
Thomas
Wolfe.
meus maiores problemas eram
selos, envelopes, papéis
e
vinho,
com o mundo no auge
da Segunda Guerra Mundial.
eu ainda não tinha sido
desconcertado pelas
mulheres, eu era virgem
e escrevia de 3 a
5 contos por semana
e todos retornavam
rejeitados
por The New Yorker, Harper’s,
The Atlantic Monthly.
eu tinha lido em algum lugar que
Ford Madox Ford costumava usar
como papel higiênico os pareceres
dos trabalhos rejeitados
mas eu não tinha
um banheiro de modo que os enfiava
numa gaveta
e quando não havia mais espaço
e eu mal conseguia
abri-la
eu retirava todos os pareceres
e os jogava fora
junto com os
contos.
enquanto isso
a velha Biblioteca Pública de L.A. seguia sendo
minha casa
e a casa de muitos outros
vagabundos.
discretamente usávamos os
banheiros
e os únicos entre nós que deveriam
ser
evitados eram aqueles que
pegavam no sono nas mesas da
biblioteca –
ninguém ronca como um
vagabundo
exceto alguém com quem você é
casado.
bem, eu não era propriamente um
vagabundo. eu tinha um cartão da biblioteca
e eu ia e voltava com os livros
uma
enorme
quantidade deles
sempre levando o limite
máximo
permitido:
Aldous Huxley, D. H. Lawrence,
e. e. cummings, Conrad Aiken, Fiodor
Dos, Dos Passos, Turguêniev, Górky,
H. D., Freddie Nietzsche,
Schopenhauer,
Steinbeck,
Hemingway,
e assim por
diante...
sempre esperava que a bibliotecária
dissesse: “você tem um gosto e tanto, meu
jovem...”
mas a puta velha e acabada
não sabia nem quem ela
era
que dirá de
mim.
mas aquelas estantes eram
tremendamente encantadoras: permitiam-me
descobrir
os primeiros poetas chineses
como Tu Fu e Li
Po
que podiam dizer mais em uma
linha do que a maioria em
trinta ou
cem.
Sherwood Anderson deve
tê-los
lido
também.
eu também levava os Cantos
pra lá e pra cá
e Ezra me ajudou
a fortalecer meus braços se não
meu cérebro.
aquele lugar fantástico
a Biblioteca Pública de L.A.
era um lar para uma pessoa que tinha tido
um
lar dos
infernos
CÓRREGOS AMPLOS DEMAIS PARA SALTAR
LONGE DA MULTIDÃO ESTULTA
CONTRAPONTO
O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO
James Thurber
John Fante
Rabelais
Maupassant
alguns não funcionavam para
mim: Shakespeare, G. B. Shaw,
Tolstói, Robert Frost, F. Scott
Fitzgerald
Upton Sinclair funcionava melhor para
mim
que Sinclair Lewis
e eu considerava Gógol e
Dreiser completos
idiotas
mas tais juízos eram produto
mais da maneira
como um homem era forçado a viver do que de
sua razão.
a velha Biblioteca Pública
muito provavelmente evitou que eu me
tornasse um
suicida
um ladrão
de bancos
um
espancador
de mulheres
um carniceiro ou um
policial motorizado
e ainda que algumas dessas possibilidades
não sejam más
é
graças
à minha sorte
e a meu destino
que aquela biblioteca estava
lá quando eu era
jovem e procurava me
agarrar a
alguma coisa
quando parecia não haver quase
nada ao meu
redor.
e quando eu abri o
jornal
e soube do incêndio
que havia
destruído a
biblioteca e boa parte de
seu interior
eu disse à minha
esposa: “eu costumava passar
meu tempo
lá...”
O OFICIAL PRUSSIANO
O JOVEM AUDAZ NO TRAPÉZIO VOADOR
TER E NÃO TER
VOCÊ NÃO PODE VOLTAR PARA CASA.
Realizei várias incursões educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro. Não gostei nada do que vi por lá. Aqueles homens e aquelas mulheres não tinham qualquer tipo especial de ousadia ou brilho. Queriam apenas o que todo o resto do mundo queria. Havia também alguns desequilibrados mentais clássicos que podiam andar com tranquilidade naquelas redondezas. Eu tinha notado que em ambos os extremos da sociedade, tanto entre os ricos quanto entre os pobres, frequentemente se permitia que os loucos se misturassem livremente entre as pessoas. Eu sabia que não era inteiramente são. Também sabia, uma percepção que eu tinha desde a infância, que havia algo de estranho em mim. Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrão de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitão. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram lugares nojentos. A vida das pessoas sãs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia não haver alternativa possível. A educação também parecia uma armadilha. A pouca educação que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram médicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivíduos lhes fossem retiradas. Voltei para meu barracão e enchi a cara...
Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicídio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existência, ambos eram propriedades minhas. Eu podia me levantar agora e sorrir com escárnio para meu reflexo no espelho da cômoda: se você tem que ir, que leve ao menos uns oito junto, uns dez, uns vinte...
Era uma noite de dezembro, um sábado. Estava no meu quarto e tinha bebido muito mais que o de costume, acendendo um cigarro no outro, pensando nas garotas e na cidade e nos empregos e nos anos que ainda viriam. Olhando para o devir, eu gostava muito pouco do que via. Eu não era um misantropo ou um misógino, mas gostava de estar sozinho. Era bom estar solitário num lugarzinho, sentado, fumando e bebendo. Sempre tinha sido uma boa companhia para mim mesmo.
Então escutei o som do rádio que vazava do quarto ao lado. O cara tinha posto o volume muito alto. Era uma canção de amor de embrulhar o estômago.
– Ei, camarada! – gritei. – Abaixa essa coisa!
Não houve resposta.
Fui até a parede e bati com força
– EU DISSE PARA ABAIXAR ESSA MÚSICA DE MERDA!
O volume continuou o mesmo.
Saí e fui até a porta vizinha. Eu estava só de cueca. Ergui minha perna e meti o pé na porta. Ela se escancarou. Havia duas pessoas na cama, um velho gordo e uma velha gorda. Eles estavam trepando. Havia uma pequena vela acesa. O velho estava por cima. Parou, voltou sua cabeça e me olhou. A velha também me deu uma olhada por sobre o ombro dele. O lugar era muito bem arrumado, com cortinas e um pequeno tapete.
– Oh, me desculpem...
Fechei a porta e voltei para o meu quarto. Senti-me péssimo. Os pobres tinham o direito de foder como quisessem para vencer seus pesadelos. Sexo e bebida, e talvez amor, era tudo o que eles tinham.
Sentei-me novamente e servi um copo de vinho. Deixei a minha porta aberta. A luz do luar entrou trazendo consigo os sons da cidade: vitrolas, automóveis, palavrões, latidos, rádios... Estávamos todos juntos nisso. Todos juntos num grande vaso cheio de merda. Não havia escapatória. Todos desceríamos juntos com a descarga.
Um gatinho que passava do lado de fora parou na frente da minha porta e olhou para dentro. Os olhos brilhavam sob a luz da lua: olhos de um vermelho vivo como fogo. Que olhos maravilhosos.
– Venha, gatinho...
Estiquei minha mão como se houvesse comida dentro dela.
– Gatinho, gatinho...
O gato seguiu adiante.
Ouvi o rádio na peça ao lado ser desligado.
Terminei meu vinho e fui até ali fora. Continuava só de cueca. Puxei e ajeitei minhas partes. Fiquei parado na frente da outra porta. Eu havia destruído o trinco. Podia ver a luz da vela lá dentro. Eles mantinham a porta fechada pela ação de algum móvel, provavelmente uma cadeira.
Bati discretamente.
Não houve resposta.
Bati outra vez.
Ouvi alguma coisa. Então a porta se abriu.
O velho gordo ficou ali plantado. Seu rosto era todo sulcado, transmitindo uma ideia de profunda amargura. Era todo sobrancelhas e bigode e dois olhos tristonhos.
– Ouça – eu disse –, sinto profundamente o que fiz. Você e sua garota não querem dar uma chegada no meu quarto para tomarmos alguma coisa?
– Não.
– Ou quem sabe eu possa trazer algo para vocês beberem?
– Não – ele disse –, apenas nos deixe em paz.
Ele fechou a porta.
Acordei com uma das minhas piores ressacas. Normalmente dormia até o meio-dia. Naquele dia não consegui. Pus uma roupa, fui até o banheiro na casa principal e fiz minha higiene. Voltei, saí pela ruela e tomei a escadaria, desci o barranco e segui pela rua de baixo.
Domingo, o pior, o mais desgraçado entre todos os dias da semana.
Caminhei pela rua Principal, passei pelos bares. As acompanhantes se sentavam perto da entrada, as saias bem erguidas, balançando as pernas, usando saltos altos.
– Ei, doçura, venha aqui!
Main Street, East 5th Street, Bunker Hill. Os cus da América.
Não havia lugar para ir. Entrei num fliperama. Andei entre as máquinas, olhando para os jogos, mas sem desejo algum de jogar. Então vi um marinheiro numa máquina de pinball. Suas duas mãos apertavam as laterais da máquina, enquanto ele tentava guiar a bolinha como se estivesse usando o próprio corpo para fazê-lo. Caminhei até ele e o agarrei pela parte de trás do colarinho e pelo cinto.
– Becker, eu exijo uma maldita duma revanche!
Soltei-o e ele se virou.
– Não, está fora de questão – ele disse.
– Uma melhor de três.
– Caralho – ele disse –, deixa eu te pagar uma bebida.
Saímos do fliperama e descemos a Main Street. Uma acompanhante gritou de um dos bares:
– Ei, marinheiro, venha cá!
Becker parou.
– Vou entrar – ele disse.
– Não faça isso – eu disse –, elas são baratas humanas.
– Acabei de receber.
– As garotas bebem chá, e eles põem água na sua bebida. Cada dose é o dobro do preço, e depois a garota desaparece.
– Estou entrando.
Becker entrou. Um dos melhores escritores inéditos da América, vestido para matar e morrer. Segui-o. Ele foi até uma das garotas e falou com ela. Ela puxou a saia mais para cima, girou em seus saltos altos e sorriu. Foram para um reservado no fundo. O atendente foi até lá pegar o pedido deles. A outra garota junto ao bar me olhou.
– Ei, doçura, quer brincar um pouquinho?
– Claro, desde que a gente brinque do meu jeito.
– Tem medo ou é veado?
– Os dois – eu disse, sentando no canto mais afastado do bar.
Havia um cara entre nós, a cabeça apoiada no balcão. Sua carteira já era. Quando ele acordasse e começasse a reclamar, das duas uma: ou seria jogado no meio da rua pelo atendente, ou seria entregue nas mãos da polícia.
Depois de servir Becker e a acompanhante, o atendente voltou para trás do balcão e caminhou em minha direção.
– Sim?
– Nada.
– É? Então o que cê tá fazendo aqui?
– Esperando por um amigo – gesticulei com a cabeça na direção do reservado.
– O negócio aqui é sentou pediu.
– Beleza. Uma água.
O atendente se afastou, voltou, deixou o copo d’água.
– Vinte e cinco centavos.
Paguei-o.
A garota junto ao bar disse ao atendente:
– Ele é veado ou medroso.
O atendente não disse nada. Então Becker lhe fez um sinal e ele foi lá pegar o pedido.
A garota olhou para mim.
– Como você não tá de uniforme?
– Não gosto de me vestir como todo mundo.
– Não existem outras razões?
– As outras razões só dizem respeito a mim.
– Então vá se foder – ela disse.
O atendente voltou.
– Você precisa de outro copo.
– Tá – eu disse, mandando outro quarto de dólar na sua direção.
Do lado de fora, Becker e eu seguimos pela Main Street.
– Como foi? – perguntei.
– Cobraram pelo uso da mesa, além dos dois drinques. Chegou a 32 pratas.
– Cristo. Eu podia ficar bêbado por duas semanas com essa grana.
– Ela agarrou meu pau debaixo da mesa, ficou tocando uma.
– O que ela disse?
– Nada. Apenas tocou uma punheta pra mim.
– Prefiro eu mesmo me bater uma punheta e ficar com os 32 contos.
– Mas ela era tão linda.
– Maldição, homem. Estou andando ao lado de um perfeito idiota.
– Algum dia vou escrever sobre essas coisas. Estarei nas prateleiras das bibliotecas: BECKER. Os “Bs” são muito fracos, precisam de ajuda.
– Você fala demais sobre escrever – eu disse.
Encontramos um outro bar perto do terminal de ônibus. Não era uma espelunca movimentada. Havia apenas o dono do bar e cinco ou seis viajantes, todos homens. Becker e eu nos sentamos.
– É por minha conta – disse Becker.
– Uma Eastside na garrafa.
Becker pediu duas. Olhou para mim.
– Vamos lá, seja homem, aliste-se. Seja um marinheiro.
– Não fico nem um pouco empolgado com essa coisa de ser machão.
– Nem parece o mesmo sujeito que está sempre trocando uns sopapos com alguém.
– Faço isso por puro entretenimento.
– Aliste-se. Isso vai lhe dar algo sobre o que escrever.
– Becker, sempre há algo sobre o que escrever.
– E o que você vai fazer, então?
Apontei para minha garrafa e a ergui.
– Como vai conseguir sobreviver? – Becker perguntou.
– Tenho a impressão de ter ouvido essa pergunta ao longo de toda minha vida.
– Bem, não sei quanto a você, mas vou tentar de tudo! Guerra, mulheres, viagens, casamento, os trabalhos. O primeiro carro que eu comprar quero desmontar completamente! Para depois remontá-lo! Quero entender as coisas, o que faz elas funcionarem! Gostaria de ser um correspondente na capital do país, Washington. Quero sempre estar onde as grandes coisas estão acontecendo.
– Washington é um lixo, Becker.
– E mulheres? Casamento? Crianças?
– Lixo.
– É? Mas o que você quer, afinal?
– Me esconder.
– Seu pobre fodido. Você precisa de outra cerveja.
– Tudo bem.
A cerveja chegou.
Ficamos sentados em silêncio. Pude perceber que Becker estava imerso em seus próprios pensamentos, pensando em ser marinheiro, em ser escritor, em trepar. Era provável que desse um bom escritor. Estava explodindo de entusiasmo. Provavelmente ele amava uma porção de coisas: um falcão em pleno voo, o maldito oceano, a lua cheia, Balzac, pontes, peças de teatro, o Prêmio Pulitzer, o piano, a maldita Bíblia.
Havia um pequeno rádio no bar. Uma canção popular estava tocando. Então, no meio da música houve uma interrupção. O locutor disse:
– Um boletim acaba de chegar. Os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Repito: os japoneses acabam de bombardear Pearl Harbor. Todos os militares devem retornar imediatamente para suas bases!
Olhamos um para o outro, ainda aturdidos e sem o total entendimento do que acabávamos de ouvir.
– Bem – disse Becker em voz baixa –, é isso.
– Termine sua cerveja – eu falei.
Becker tomou tudo num só gole.
– Jesus, imagine se um filho da puta qualquer aponta uma metralhadora pra mim e resolve apertar o gatilho?
– Isso pode muito bem acontecer.
– Hank...
– Fala.
– Você me acompanha no ônibus até a base?
– Não posso fazer isso.
O dono do bar, um homem duns 45 anos, com uma barriga que parecia uma melancia e olhos miúdos, aproximou-se de nós. Olhou para Becker:
– Bem, marinheiro, parece que você tem que voltar para sua base, não?
Aquilo me deixou puto da cara.
– Ei, gordão, deixe-o terminar sua bebida, certo?
– Claro, claro... Quer uma por conta da casa, marinheiro? Que tal uma dose de um bom uísque?
– Não – disse Becker –, está tudo bem.
– Aceite – falei a Becker –, tome a dose. Ele pensa que você vai morrer para salvar o bar dele.
– Tudo bem – disse Becker –, vou aceitar seu uísque.
O dono do bar olhou para Becker.
– Você tem um amigo desprezível...
– Apenas sirva a bebida – eu disse.
Os outros poucos clientes tagarelavam freneticamente sobre Pearl Harbor. Antes, não tinham trocado uma palavra. Agora estavam mobilizados. A Tribo estava em perigo.
Becker pegou sua bebida. Era uma dose dupla de uísque. Tomou num talagaço.
– Nunca contei para você – ele disse –, mas sou órfão.
– Caralho – eu disse.
– Você vai comigo pelo menos até o terminal de ônibus?
– Claro.
Levantamos e fomos em direção à saída.
O dono do bar estava esfregando as mãos no avental. Trazia o avental todo amarrotado e não parava de esfregar as mãos nele, tomado de excitação.
– Boa sorte, marinheiro! – ele gritou.
Becker saiu. Fiquei ainda lá dentro e olhei para o dono do bar.
– Primeira Guerra Mundial, não?
– É, é... – ele disse, cheio de alegria.
Juntei-me a Becker. Nós meio que corremos até o terminal. Militares uniformizados já começavam a chegar. A euforia se espalhava no ar. Um marinheiro passou correndo.
– VOU MATAR UM JAPA COM MINHAS PRÓPRIAS MÃOS! – gritou.
Becker ficou na fila para comprar o bilhete. Um dos soldados tinha a namorada consigo. A garota falava, chorava, agarrada a ele, beijando-o sem parar. O pobre Becker só tinha a mim. Fiquei de lado, esperando. Foi uma espera longa. O mesmo marinheiro que antes passara gritando se aproximou de mim.
– Ei, companheiro, você não vai nos ajudar? Por que você está aí parado? Por que não se alista?
Seu hálito recendia a uísque. Ele tinha sardas e um nariz enorme.
– Você vai perder seu ônibus – eu falei.
Ele se afastou em direção ao terminal de saída.
– Fodam-se esses malditos japas fodidos! – ele disse.
Becker finalmente conseguiu comprar uma passagem. Caminhei com ele até o ônibus. Ele ficou numa outra fila.
– Algum conselho? – perguntou.
– Não.
A fila entrava devagar no ônibus. A garota estava chorando e falando rápido e baixinho com seu soldado.
Becker chegou à porta. Dei-lhe um soco no ombro.
– Você é o melhor que eu já conheci.
– Obrigado, Hank...
– Adeus...
– Misto-quente
fogo
aquela biblioteca do centro
e com ela se foi
uma grande parte da minha
juventude.
eu estava sentado num daqueles bancos de
pedra com meu amigo
Carequinha quando ele
perguntou,
“você vai se alistar na
brigada
Abraham Lincoln?”
“claro”, eu lhe
disse.
mas percebendo que eu não era nem
um intelectual nem um político
idealista
recuei na questão
mais
tarde.
eu era um leitor
então
indo de seção em
seção: literatura, filosofia,
religião, até medicina
e geologia.
desde cedo
decidi ser um escritor
pensei que esse seria o caminho mais fácil
para
escapar
e os grandes figurões do romance não me pareciam
páreo muito
duro.
eu tinha maiores dificuldades com
Hegel e Kant.
o que me incomodava
em
todos eles
é que levavam um tempo enorme
para finalmente dizer
alguma coisa viva e/
ou
interessante.
pensava então ter algo a dizer
mais do que todos
eles.
eu estava para descobrir duas
coisas:
a) a maioria dos editores pensava que tudo que fosse
chato tinha algo a ver com assuntos
profundos.
b) que levaria décadas de
vida e escrita
antes que eu fosse capaz de
colocar no papel
uma frase que estivesse
ao menos próxima
daquilo que eu realmente queria
dizer.
nesse meio-tempo
enquanto outros jovens corriam atrás de
mulheres
eu corria atrás dos velhos
livros.
eu era um bibliófilo, quem sabe um
sujeito
desencantado
e isto
e o mundo
me moldaram.
eu vivia numa cabana de madeira
atrás de uma pensão
a três dólares por
semana
sentindo-me como um
Chatterton
enfiado dentro de algo do
Thomas
Wolfe.
meus maiores problemas eram
selos, envelopes, papéis
e
vinho,
com o mundo no auge
da Segunda Guerra Mundial.
eu ainda não tinha sido
desconcertado pelas
mulheres, eu era virgem
e escrevia de 3 a
5 contos por semana
e todos retornavam
rejeitados
por The New Yorker, Harper’s,
The Atlantic Monthly.
eu tinha lido em algum lugar que
Ford Madox Ford costumava usar
como papel higiênico os pareceres
dos trabalhos rejeitados
mas eu não tinha
um banheiro de modo que os enfiava
numa gaveta
e quando não havia mais espaço
e eu mal conseguia
abri-la
eu retirava todos os pareceres
e os jogava fora
junto com os
contos.
enquanto isso
a velha Biblioteca Pública de L.A. seguia sendo
minha casa
e a casa de muitos outros
vagabundos.
discretamente usávamos os
banheiros
e os únicos entre nós que deveriam
ser
evitados eram aqueles que
pegavam no sono nas mesas da
biblioteca –
ninguém ronca como um
vagabundo
exceto alguém com quem você é
casado.
bem, eu não era propriamente um
vagabundo. eu tinha um cartão da biblioteca
e eu ia e voltava com os livros
uma
enorme
quantidade deles
sempre levando o limite
máximo
permitido:
Aldous Huxley, D. H. Lawrence,
e. e. cummings, Conrad Aiken, Fiodor
Dos, Dos Passos, Turguêniev, Górky,
H. D., Freddie Nietzsche,
Schopenhauer,
Steinbeck,
Hemingway,
e assim por
diante...
sempre esperava que a bibliotecária
dissesse: “você tem um gosto e tanto, meu
jovem...”
mas a puta velha e acabada
não sabia nem quem ela
era
que dirá de
mim.
mas aquelas estantes eram
tremendamente encantadoras: permitiam-me
descobrir
os primeiros poetas chineses
como Tu Fu e Li
Po
que podiam dizer mais em uma
linha do que a maioria em
trinta ou
cem.
Sherwood Anderson deve
tê-los
lido
também.
eu também levava os Cantos
pra lá e pra cá
e Ezra me ajudou
a fortalecer meus braços se não
meu cérebro.
aquele lugar fantástico
a Biblioteca Pública de L.A.
era um lar para uma pessoa que tinha tido
um
lar dos
infernos
CÓRREGOS AMPLOS DEMAIS PARA SALTAR
LONGE DA MULTIDÃO ESTULTA
CONTRAPONTO
O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO
James Thurber
John Fante
Rabelais
Maupassant
alguns não funcionavam para
mim: Shakespeare, G. B. Shaw,
Tolstói, Robert Frost, F. Scott
Fitzgerald
Upton Sinclair funcionava melhor para
mim
que Sinclair Lewis
e eu considerava Gógol e
Dreiser completos
idiotas
mas tais juízos eram produto
mais da maneira
como um homem era forçado a viver do que de
sua razão.
a velha Biblioteca Pública
muito provavelmente evitou que eu me
tornasse um
suicida
um ladrão
de bancos
um
espancador
de mulheres
um carniceiro ou um
policial motorizado
e ainda que algumas dessas possibilidades
não sejam más
é
graças
à minha sorte
e a meu destino
que aquela biblioteca estava
lá quando eu era
jovem e procurava me
agarrar a
alguma coisa
quando parecia não haver quase
nada ao meu
redor.
e quando eu abri o
jornal
e soube do incêndio
que havia
destruído a
biblioteca e boa parte de
seu interior
eu disse à minha
esposa: “eu costumava passar
meu tempo
lá...”
O OFICIAL PRUSSIANO
O JOVEM AUDAZ NO TRAPÉZIO VOADOR
TER E NÃO TER
VOCÊ NÃO PODE VOLTAR PARA CASA.
Realizei várias incursões educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro. Não gostei nada do que vi por lá. Aqueles homens e aquelas mulheres não tinham qualquer tipo especial de ousadia ou brilho. Queriam apenas o que todo o resto do mundo queria. Havia também alguns desequilibrados mentais clássicos que podiam andar com tranquilidade naquelas redondezas. Eu tinha notado que em ambos os extremos da sociedade, tanto entre os ricos quanto entre os pobres, frequentemente se permitia que os loucos se misturassem livremente entre as pessoas. Eu sabia que não era inteiramente são. Também sabia, uma percepção que eu tinha desde a infância, que havia algo de estranho em mim. Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrão de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitão. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram lugares nojentos. A vida das pessoas sãs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia não haver alternativa possível. A educação também parecia uma armadilha. A pouca educação que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram médicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivíduos lhes fossem retiradas. Voltei para meu barracão e enchi a cara...
Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicídio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existência, ambos eram propriedades minhas. Eu podia me levantar agora e sorrir com escárnio para meu reflexo no espelho da cômoda: se você tem que ir, que leve ao menos uns oito junto, uns dez, uns vinte...
Era uma noite de dezembro, um sábado. Estava no meu quarto e tinha bebido muito mais que o de costume, acendendo um cigarro no outro, pensando nas garotas e na cidade e nos empregos e nos anos que ainda viriam. Olhando para o devir, eu gostava muito pouco do que via. Eu não era um misantropo ou um misógino, mas gostava de estar sozinho. Era bom estar solitário num lugarzinho, sentado, fumando e bebendo. Sempre tinha sido uma boa companhia para mim mesmo.
Então escutei o som do rádio que vazava do quarto ao lado. O cara tinha posto o volume muito alto. Era uma canção de amor de embrulhar o estômago.
– Ei, camarada! – gritei. – Abaixa essa coisa!
Não houve resposta.
Fui até a parede e bati com força
– EU DISSE PARA ABAIXAR ESSA MÚSICA DE MERDA!
O volume continuou o mesmo.
Saí e fui até a porta vizinha. Eu estava só de cueca. Ergui minha perna e meti o pé na porta. Ela se escancarou. Havia duas pessoas na cama, um velho gordo e uma velha gorda. Eles estavam trepando. Havia uma pequena vela acesa. O velho estava por cima. Parou, voltou sua cabeça e me olhou. A velha também me deu uma olhada por sobre o ombro dele. O lugar era muito bem arrumado, com cortinas e um pequeno tapete.
– Oh, me desculpem...
Fechei a porta e voltei para o meu quarto. Senti-me péssimo. Os pobres tinham o direito de foder como quisessem para vencer seus pesadelos. Sexo e bebida, e talvez amor, era tudo o que eles tinham.
Sentei-me novamente e servi um copo de vinho. Deixei a minha porta aberta. A luz do luar entrou trazendo consigo os sons da cidade: vitrolas, automóveis, palavrões, latidos, rádios... Estávamos todos juntos nisso. Todos juntos num grande vaso cheio de merda. Não havia escapatória. Todos desceríamos juntos com a descarga.
Um gatinho que passava do lado de fora parou na frente da minha porta e olhou para dentro. Os olhos brilhavam sob a luz da lua: olhos de um vermelho vivo como fogo. Que olhos maravilhosos.
– Venha, gatinho...
Estiquei minha mão como se houvesse comida dentro dela.
– Gatinho, gatinho...
O gato seguiu adiante.
Ouvi o rádio na peça ao lado ser desligado.
Terminei meu vinho e fui até ali fora. Continuava só de cueca. Puxei e ajeitei minhas partes. Fiquei parado na frente da outra porta. Eu havia destruído o trinco. Podia ver a luz da vela lá dentro. Eles mantinham a porta fechada pela ação de algum móvel, provavelmente uma cadeira.
Bati discretamente.
Não houve resposta.
Bati outra vez.
Ouvi alguma coisa. Então a porta se abriu.
O velho gordo ficou ali plantado. Seu rosto era todo sulcado, transmitindo uma ideia de profunda amargura. Era todo sobrancelhas e bigode e dois olhos tristonhos.
– Ouça – eu disse –, sinto profundamente o que fiz. Você e sua garota não querem dar uma chegada no meu quarto para tomarmos alguma coisa?
– Não.
– Ou quem sabe eu possa trazer algo para vocês beberem?
– Não – ele disse –, apenas nos deixe em paz.
Ele fechou a porta.
Acordei com uma das minhas piores ressacas. Normalmente dormia até o meio-dia. Naquele dia não consegui. Pus uma roupa, fui até o banheiro na casa principal e fiz minha higiene. Voltei, saí pela ruela e tomei a escadaria, desci o barranco e segui pela rua de baixo.
Domingo, o pior, o mais desgraçado entre todos os dias da semana.
Caminhei pela rua Principal, passei pelos bares. As acompanhantes se sentavam perto da entrada, as saias bem erguidas, balançando as pernas, usando saltos altos.
– Ei, doçura, venha aqui!
Main Street, East 5th Street, Bunker Hill. Os cus da América.
Não havia lugar para ir. Entrei num fliperama. Andei entre as máquinas, olhando para os jogos, mas sem desejo algum de jogar. Então vi um marinheiro numa máquina de pinball. Suas duas mãos apertavam as laterais da máquina, enquanto ele tentava guiar a bolinha como se estivesse usando o próprio corpo para fazê-lo. Caminhei até ele e o agarrei pela parte de trás do colarinho e pelo cinto.
– Becker, eu exijo uma maldita duma revanche!
Soltei-o e ele se virou.
– Não, está fora de questão – ele disse.
– Uma melhor de três.
– Caralho – ele disse –, deixa eu te pagar uma bebida.
Saímos do fliperama e descemos a Main Street. Uma acompanhante gritou de um dos bares:
– Ei, marinheiro, venha cá!
Becker parou.
– Vou entrar – ele disse.
– Não faça isso – eu disse –, elas são baratas humanas.
– Acabei de receber.
– As garotas bebem chá, e eles põem água na sua bebida. Cada dose é o dobro do preço, e depois a garota desaparece.
– Estou entrando.
Becker entrou. Um dos melhores escritores inéditos da América, vestido para matar e morrer. Segui-o. Ele foi até uma das garotas e falou com ela. Ela puxou a saia mais para cima, girou em seus saltos altos e sorriu. Foram para um reservado no fundo. O atendente foi até lá pegar o pedido deles. A outra garota junto ao bar me olhou.
– Ei, doçura, quer brincar um pouquinho?
– Claro, desde que a gente brinque do meu jeito.
– Tem medo ou é veado?
– Os dois – eu disse, sentando no canto mais afastado do bar.
Havia um cara entre nós, a cabeça apoiada no balcão. Sua carteira já era. Quando ele acordasse e começasse a reclamar, das duas uma: ou seria jogado no meio da rua pelo atendente, ou seria entregue nas mãos da polícia.
Depois de servir Becker e a acompanhante, o atendente voltou para trás do balcão e caminhou em minha direção.
– Sim?
– Nada.
– É? Então o que cê tá fazendo aqui?
– Esperando por um amigo – gesticulei com a cabeça na direção do reservado.
– O negócio aqui é sentou pediu.
– Beleza. Uma água.
O atendente se afastou, voltou, deixou o copo d’água.
– Vinte e cinco centavos.
Paguei-o.
A garota junto ao bar disse ao atendente:
– Ele é veado ou medroso.
O atendente não disse nada. Então Becker lhe fez um sinal e ele foi lá pegar o pedido.
A garota olhou para mim.
– Como você não tá de uniforme?
– Não gosto de me vestir como todo mundo.
– Não existem outras razões?
– As outras razões só dizem respeito a mim.
– Então vá se foder – ela disse.
O atendente voltou.
– Você precisa de outro copo.
– Tá – eu disse, mandando outro quarto de dólar na sua direção.
Do lado de fora, Becker e eu seguimos pela Main Street.
– Como foi? – perguntei.
– Cobraram pelo uso da mesa, além dos dois drinques. Chegou a 32 pratas.
– Cristo. Eu podia ficar bêbado por duas semanas com essa grana.
– Ela agarrou meu pau debaixo da mesa, ficou tocando uma.
– O que ela disse?
– Nada. Apenas tocou uma punheta pra mim.
– Prefiro eu mesmo me bater uma punheta e ficar com os 32 contos.
– Mas ela era tão linda.
– Maldição, homem. Estou andando ao lado de um perfeito idiota.
– Algum dia vou escrever sobre essas coisas. Estarei nas prateleiras das bibliotecas: BECKER. Os “Bs” são muito fracos, precisam de ajuda.
– Você fala demais sobre escrever – eu disse.
Encontramos um outro bar perto do terminal de ônibus. Não era uma espelunca movimentada. Havia apenas o dono do bar e cinco ou seis viajantes, todos homens. Becker e eu nos sentamos.
– É por minha conta – disse Becker.
– Uma Eastside na garrafa.
Becker pediu duas. Olhou para mim.
– Vamos lá, seja homem, aliste-se. Seja um marinheiro.
– Não fico nem um pouco empolgado com essa coisa de ser machão.
– Nem parece o mesmo sujeito que está sempre trocando uns sopapos com alguém.
– Faço isso por puro entretenimento.
– Aliste-se. Isso vai lhe dar algo sobre o que escrever.
– Becker, sempre há algo sobre o que escrever.
– E o que você vai fazer, então?
Apontei para minha garrafa e a ergui.
– Como vai conseguir sobreviver? – Becker perguntou.
– Tenho a impressão de ter ouvido essa pergunta ao longo de toda minha vida.
– Bem, não sei quanto a você, mas vou tentar de tudo! Guerra, mulheres, viagens, casamento, os trabalhos. O primeiro carro que eu comprar quero desmontar completamente! Para depois remontá-lo! Quero entender as coisas, o que faz elas funcionarem! Gostaria de ser um correspondente na capital do país, Washington. Quero sempre estar onde as grandes coisas estão acontecendo.
– Washington é um lixo, Becker.
– E mulheres? Casamento? Crianças?
– Lixo.
– É? Mas o que você quer, afinal?
– Me esconder.
– Seu pobre fodido. Você precisa de outra cerveja.
– Tudo bem.
A cerveja chegou.
Ficamos sentados em silêncio. Pude perceber que Becker estava imerso em seus próprios pensamentos, pensando em ser marinheiro, em ser escritor, em trepar. Era provável que desse um bom escritor. Estava explodindo de entusiasmo. Provavelmente ele amava uma porção de coisas: um falcão em pleno voo, o maldito oceano, a lua cheia, Balzac, pontes, peças de teatro, o Prêmio Pulitzer, o piano, a maldita Bíblia.
Havia um pequeno rádio no bar. Uma canção popular estava tocando. Então, no meio da música houve uma interrupção. O locutor disse:
– Um boletim acaba de chegar. Os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Repito: os japoneses acabam de bombardear Pearl Harbor. Todos os militares devem retornar imediatamente para suas bases!
Olhamos um para o outro, ainda aturdidos e sem o total entendimento do que acabávamos de ouvir.
– Bem – disse Becker em voz baixa –, é isso.
– Termine sua cerveja – eu falei.
Becker tomou tudo num só gole.
– Jesus, imagine se um filho da puta qualquer aponta uma metralhadora pra mim e resolve apertar o gatilho?
– Isso pode muito bem acontecer.
– Hank...
– Fala.
– Você me acompanha no ônibus até a base?
– Não posso fazer isso.
O dono do bar, um homem duns 45 anos, com uma barriga que parecia uma melancia e olhos miúdos, aproximou-se de nós. Olhou para Becker:
– Bem, marinheiro, parece que você tem que voltar para sua base, não?
Aquilo me deixou puto da cara.
– Ei, gordão, deixe-o terminar sua bebida, certo?
– Claro, claro... Quer uma por conta da casa, marinheiro? Que tal uma dose de um bom uísque?
– Não – disse Becker –, está tudo bem.
– Aceite – falei a Becker –, tome a dose. Ele pensa que você vai morrer para salvar o bar dele.
– Tudo bem – disse Becker –, vou aceitar seu uísque.
O dono do bar olhou para Becker.
– Você tem um amigo desprezível...
– Apenas sirva a bebida – eu disse.
Os outros poucos clientes tagarelavam freneticamente sobre Pearl Harbor. Antes, não tinham trocado uma palavra. Agora estavam mobilizados. A Tribo estava em perigo.
Becker pegou sua bebida. Era uma dose dupla de uísque. Tomou num talagaço.
– Nunca contei para você – ele disse –, mas sou órfão.
– Caralho – eu disse.
– Você vai comigo pelo menos até o terminal de ônibus?
– Claro.
Levantamos e fomos em direção à saída.
O dono do bar estava esfregando as mãos no avental. Trazia o avental todo amarrotado e não parava de esfregar as mãos nele, tomado de excitação.
– Boa sorte, marinheiro! – ele gritou.
Becker saiu. Fiquei ainda lá dentro e olhei para o dono do bar.
– Primeira Guerra Mundial, não?
– É, é... – ele disse, cheio de alegria.
Juntei-me a Becker. Nós meio que corremos até o terminal. Militares uniformizados já começavam a chegar. A euforia se espalhava no ar. Um marinheiro passou correndo.
– VOU MATAR UM JAPA COM MINHAS PRÓPRIAS MÃOS! – gritou.
Becker ficou na fila para comprar o bilhete. Um dos soldados tinha a namorada consigo. A garota falava, chorava, agarrada a ele, beijando-o sem parar. O pobre Becker só tinha a mim. Fiquei de lado, esperando. Foi uma espera longa. O mesmo marinheiro que antes passara gritando se aproximou de mim.
– Ei, companheiro, você não vai nos ajudar? Por que você está aí parado? Por que não se alista?
Seu hálito recendia a uísque. Ele tinha sardas e um nariz enorme.
– Você vai perder seu ônibus – eu falei.
Ele se afastou em direção ao terminal de saída.
– Fodam-se esses malditos japas fodidos! – ele disse.
Becker finalmente conseguiu comprar uma passagem. Caminhei com ele até o ônibus. Ele ficou numa outra fila.
– Algum conselho? – perguntou.
– Não.
A fila entrava devagar no ônibus. A garota estava chorando e falando rápido e baixinho com seu soldado.
Becker chegou à porta. Dei-lhe um soco no ombro.
– Você é o melhor que eu já conheci.
– Obrigado, Hank...
– Adeus...
– Misto-quente
1 719
Charles Bukowski
Uma Festa Aqui – Metralhadoras, Tanques, Um Exército Lutando Contra Homens Nos Telhados
se o amor pudesse continuar como papel de piche
ou até mesmo na medida do significado
mas não funciona
não pode funcionar
há babacas demais
mulheres que escondem suas pernas demais
exceto em camas especiais
há moscas demais no
teto e tem sido um verão
quente
e os distúrbios em Los Angeles
terminaram faz uma semana
e queimaram prédios e mataram policiais e
homens brancos e
eu sou um homem branco e acho que não fiquei particularmente
alvoroçado porque sou um homem branco e sou pobre
e pago por ser pobre
porque faço tão poucas paradas de mão para os outros quanto
possível
e então sou pobre porque escolhi ser e acho que
não é tão desconfortável desse
jeito
e então ignorei os distúrbios
porque concluí que ambos negros e brancos
queriam várias coisas que não interessavam
a mim
além disso tendo uma mulher aqui que fica muito alvoroçada com
discriminação a Bomba segregação
você sabe você sabe
eu deixo ela ir falando até que por fim a conversa
me cansa
pois não ligo muito para a
resposta padrão
ou as confusas criaturas solitárias que gostam de se unir a uma
CAUSA simplesmente porque uma causa as arranca de sua
babosa
imbecilidade rumo a um fluxo de
ação. já eu gosto de tempo para pensar, pensar, pensar...
mas foi uma festa aqui, sério, metralhadoras, tanques,
o exército lutando contra homens nos telhados...
a mesma coisa que acusamos a Rússia de fazer. bem, é
um jogo escroto, e não sei o que fazer, exceto
se for como um amigo meu disse que eu disse certa noite quando
eu estava bêbado: “Nunca mate alguém, mesmo que pareça
ser a última ou a única coisa a fazer”.
riso. tudo bem. poderia deixar você feliz
que eu até tenha um fluxo de remorso quando mato uma
mosca. uma formiga. uma pulga. mas vou em frente. eu as mato e
vou em frente.
deus, o amor é mais estranho do que numerais mais estranho
do que
relva pegando fogo mais estranho do que o corpo morto de uma criança
afogada no fundo de uma banheira, sabemos tão
pouco, sabemos tanto, não sabemos
o bastante.
de qualquer forma, realizamos nossos movimentos, intestinais,
às vezes
sexuais, às vezes celestiais, às vezes espúrios, ou
às vezes percorremos um museu para ver o que
restou de nós ou disso, a triste paralisia estrangulada de fundo
de manicômio envidraçado e congelado e estéril
suficiente para fazer você querer sair para o sol de novo
e dar uma olhada, mas no parque e nas ruas
os mortos continuam passando como se já estivessem
num museu. talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de
mingau. talvez o amor seja um rádio desligado.
de qualquer jeito, foi uma festa.
uma semana atrás.
hoje fui à pista com rosas nos meus olhos. dólares no
meu
bolso. manchetes no beco. são mais de cento e cinquenta quilômetros de
trem,
só de ida. um grupo de bêbados voltando, duros de novo, o
sonho
abatido de novo, corpos oscilando; tagarelando no vagão do bar e eu
estou ali
também, bebendo, rabiscando a esperança que resta na penumbra,
o
barman era um negro e eu era branco. maus lençóis. demos
um jeito.
nada de festa.
os jornais ricos ficam falando “A Revolução
Negra” e
“A Ruptura da Família Negra”. o trem entrou na cidade
afinal,
e eu me livrei dos 2 homossexuais que estavam me pagando
bebidas, e
fui mijar e fazer uma ligação e enquanto eu passava
pelo
acesso rumo à latrina masculina havia 2 negros numa
banca de engraxate
engraxando sapatos de homens brancos e os homens brancos lhes
permitiam fazê-lo.
caminhei até um bar mexicano
e tomei alguns uísques e quando saí a garçonete me deu um
papelzinho com seu nome, endereço e número de telefone
escritos, e quando cheguei na rua joguei o papel na sarjeta
entrei no meu carro e dirigi rumo à Zona Oeste de Los
Angeles
e tudo parecia igual igual como sempre foi
e na Alvarado com a Sunset eu reduzi pra 65
vi um policial gordo em sua moto
com uma cara hedionda e alerta
e fiquei enojado comigo mesmo e com
todo mundo, todo o pouco que qualquer um de nós
tinha feito, amor, amor, amor,
e as torres balançavam como velhas stripteasers
rezando pela mágica perdida, e eu segui dirigindo
engraxando os sapatos de todos os negros e gringos da
América, incluindo
os meus.
ou até mesmo na medida do significado
mas não funciona
não pode funcionar
há babacas demais
mulheres que escondem suas pernas demais
exceto em camas especiais
há moscas demais no
teto e tem sido um verão
quente
e os distúrbios em Los Angeles
terminaram faz uma semana
e queimaram prédios e mataram policiais e
homens brancos e
eu sou um homem branco e acho que não fiquei particularmente
alvoroçado porque sou um homem branco e sou pobre
e pago por ser pobre
porque faço tão poucas paradas de mão para os outros quanto
possível
e então sou pobre porque escolhi ser e acho que
não é tão desconfortável desse
jeito
e então ignorei os distúrbios
porque concluí que ambos negros e brancos
queriam várias coisas que não interessavam
a mim
além disso tendo uma mulher aqui que fica muito alvoroçada com
discriminação a Bomba segregação
você sabe você sabe
eu deixo ela ir falando até que por fim a conversa
me cansa
pois não ligo muito para a
resposta padrão
ou as confusas criaturas solitárias que gostam de se unir a uma
CAUSA simplesmente porque uma causa as arranca de sua
babosa
imbecilidade rumo a um fluxo de
ação. já eu gosto de tempo para pensar, pensar, pensar...
mas foi uma festa aqui, sério, metralhadoras, tanques,
o exército lutando contra homens nos telhados...
a mesma coisa que acusamos a Rússia de fazer. bem, é
um jogo escroto, e não sei o que fazer, exceto
se for como um amigo meu disse que eu disse certa noite quando
eu estava bêbado: “Nunca mate alguém, mesmo que pareça
ser a última ou a única coisa a fazer”.
riso. tudo bem. poderia deixar você feliz
que eu até tenha um fluxo de remorso quando mato uma
mosca. uma formiga. uma pulga. mas vou em frente. eu as mato e
vou em frente.
deus, o amor é mais estranho do que numerais mais estranho
do que
relva pegando fogo mais estranho do que o corpo morto de uma criança
afogada no fundo de uma banheira, sabemos tão
pouco, sabemos tanto, não sabemos
o bastante.
de qualquer forma, realizamos nossos movimentos, intestinais,
às vezes
sexuais, às vezes celestiais, às vezes espúrios, ou
às vezes percorremos um museu para ver o que
restou de nós ou disso, a triste paralisia estrangulada de fundo
de manicômio envidraçado e congelado e estéril
suficiente para fazer você querer sair para o sol de novo
e dar uma olhada, mas no parque e nas ruas
os mortos continuam passando como se já estivessem
num museu. talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de
mingau. talvez o amor seja um rádio desligado.
de qualquer jeito, foi uma festa.
uma semana atrás.
hoje fui à pista com rosas nos meus olhos. dólares no
meu
bolso. manchetes no beco. são mais de cento e cinquenta quilômetros de
trem,
só de ida. um grupo de bêbados voltando, duros de novo, o
sonho
abatido de novo, corpos oscilando; tagarelando no vagão do bar e eu
estou ali
também, bebendo, rabiscando a esperança que resta na penumbra,
o
barman era um negro e eu era branco. maus lençóis. demos
um jeito.
nada de festa.
os jornais ricos ficam falando “A Revolução
Negra” e
“A Ruptura da Família Negra”. o trem entrou na cidade
afinal,
e eu me livrei dos 2 homossexuais que estavam me pagando
bebidas, e
fui mijar e fazer uma ligação e enquanto eu passava
pelo
acesso rumo à latrina masculina havia 2 negros numa
banca de engraxate
engraxando sapatos de homens brancos e os homens brancos lhes
permitiam fazê-lo.
caminhei até um bar mexicano
e tomei alguns uísques e quando saí a garçonete me deu um
papelzinho com seu nome, endereço e número de telefone
escritos, e quando cheguei na rua joguei o papel na sarjeta
entrei no meu carro e dirigi rumo à Zona Oeste de Los
Angeles
e tudo parecia igual igual como sempre foi
e na Alvarado com a Sunset eu reduzi pra 65
vi um policial gordo em sua moto
com uma cara hedionda e alerta
e fiquei enojado comigo mesmo e com
todo mundo, todo o pouco que qualquer um de nós
tinha feito, amor, amor, amor,
e as torres balançavam como velhas stripteasers
rezando pela mágica perdida, e eu segui dirigindo
engraxando os sapatos de todos os negros e gringos da
América, incluindo
os meus.
697
Charles Bukowski
Um Dia Vou Escrever Uma Cartilha Para Santos Aleijados Mas Enquanto Isso...
enquanto a Bomba repousa lá nas mãos de uma
espécie cada vez menor
tudo que você quer
é me ver sentado ao seu lado
com pipoca e Dr. Pepper
enquanto aqueles embotados dentes de celuloide
vão mastigando
meus restos mortais.
não me preocupo muito com a
Bomba – os manicômios estão cheios
o bastante
e sempre lembro que
depois de um dos melhores rabos
que jamais peguei
eu fui ao banheiro e
me masturbei – dureza matar um homem
desses com uma
Bomba?
de todo modo, finalmente derrubei
R. Jeffers e Céline do meu
campanário
e lá sento sozinho
com você e
Dostoiévski
enquanto o coração real e o
coração artificial
continuam a
vacilar,
esfomeados.
eu te amo mas
não sei o que
fazer.
espécie cada vez menor
tudo que você quer
é me ver sentado ao seu lado
com pipoca e Dr. Pepper
enquanto aqueles embotados dentes de celuloide
vão mastigando
meus restos mortais.
não me preocupo muito com a
Bomba – os manicômios estão cheios
o bastante
e sempre lembro que
depois de um dos melhores rabos
que jamais peguei
eu fui ao banheiro e
me masturbei – dureza matar um homem
desses com uma
Bomba?
de todo modo, finalmente derrubei
R. Jeffers e Céline do meu
campanário
e lá sento sozinho
com você e
Dostoiévski
enquanto o coração real e o
coração artificial
continuam a
vacilar,
esfomeados.
eu te amo mas
não sei o que
fazer.
1 231
Charles Bukowski
Deixem Que Caiam
vamos deixar que as bombas caiam
estou cansado de esperar
guardei os meus brinquedos
dobrei os mapas
cancelei minha assinatura da Time
dei adeus à Disneylândia
tirei as coleiras de pulga dos meus gatos
tirei a tv da tomada
já não sonho com flamingos cor-de-rosa
já não confiro os índices da bolsa
vamos deixar que elas caiam
vamos deixar que elas explodam
estou cansado de esperar
não gosto desse tipo de chantagem
não gosto de governos dando uma de bonzinhos na minha vida:
ou caguem ou desocupem a moita
estou cansado de esperar
estou cansado de balançar
estou cansado do dilema
deixem que as bombas estourem
vocês aí, nações vagabundas choramingonas covardes
vocês aí, gigantes desmiolados
deixem
deixem
deixem!
e fujam para seus planetas e estações espaciais
então poderão ferrar tudo
lá em cima também.
estou cansado de esperar
guardei os meus brinquedos
dobrei os mapas
cancelei minha assinatura da Time
dei adeus à Disneylândia
tirei as coleiras de pulga dos meus gatos
tirei a tv da tomada
já não sonho com flamingos cor-de-rosa
já não confiro os índices da bolsa
vamos deixar que elas caiam
vamos deixar que elas explodam
estou cansado de esperar
não gosto desse tipo de chantagem
não gosto de governos dando uma de bonzinhos na minha vida:
ou caguem ou desocupem a moita
estou cansado de esperar
estou cansado de balançar
estou cansado do dilema
deixem que as bombas estourem
vocês aí, nações vagabundas choramingonas covardes
vocês aí, gigantes desmiolados
deixem
deixem
deixem!
e fujam para seus planetas e estações espaciais
então poderão ferrar tudo
lá em cima também.
1 265
Charles Bukowski
A Passada
Norman e eu, ambos aos 19, passeando pelas ruas da
noite... nos sentindo grandes, jovens jovens, grandes e
jovens
Norman disse “Deus do céu, aposto que ninguém
caminha com passadas gigantes que nem a gente!”
1939
depois de ter ouvido
Stravinsky
não muito
depois,
a guerra pegou
Norman.
agora estou sentado aqui
46 anos depois
no segundo andar de uma quente
uma da manhã
bêbado
ainda grande
não
tão jovem.
Norman, você jamais
adivinharia
o que
aconteceu
comigo
o que
aconteceu
com todos
nós.
eu lembro o seu
ditado: “construa ou
destrua”.
não aconteceu e não
acontecerá
nem uma coisa nem outra.
noite... nos sentindo grandes, jovens jovens, grandes e
jovens
Norman disse “Deus do céu, aposto que ninguém
caminha com passadas gigantes que nem a gente!”
1939
depois de ter ouvido
Stravinsky
não muito
depois,
a guerra pegou
Norman.
agora estou sentado aqui
46 anos depois
no segundo andar de uma quente
uma da manhã
bêbado
ainda grande
não
tão jovem.
Norman, você jamais
adivinharia
o que
aconteceu
comigo
o que
aconteceu
com todos
nós.
eu lembro o seu
ditado: “construa ou
destrua”.
não aconteceu e não
acontecerá
nem uma coisa nem outra.
1 098
Charles Bukowski
Glenn Miller
muito tempo atrás
na frente do campus
na sorveteria
a juke-box tocando
as garotas em sintonia perfeita
dançando com os jogadores de futebol
e com os rapazes brilhantes da faculdade
Glenn Miller era o grande sucesso
e todo mundo entrava na dança
quase todo mundo
eu ficava sentado com alguns discípulos
éramos supostos foras da lei
os exploradores da Verdade
mas eu gostava da música
e da preguiça da espera
com o mundo se lançando em guerra
com Hitler arengando
as garotas rodopiavam
graciosas
pernas à mostra
aquele último sol brilhante
nós nos aquecíamos nele
excluindo tudo mais
enquanto o universo abria sua boca
numa tentativa de
engolir todos nós.
na frente do campus
na sorveteria
a juke-box tocando
as garotas em sintonia perfeita
dançando com os jogadores de futebol
e com os rapazes brilhantes da faculdade
Glenn Miller era o grande sucesso
e todo mundo entrava na dança
quase todo mundo
eu ficava sentado com alguns discípulos
éramos supostos foras da lei
os exploradores da Verdade
mas eu gostava da música
e da preguiça da espera
com o mundo se lançando em guerra
com Hitler arengando
as garotas rodopiavam
graciosas
pernas à mostra
aquele último sol brilhante
nós nos aquecíamos nele
excluindo tudo mais
enquanto o universo abria sua boca
numa tentativa de
engolir todos nós.
1 229
Charles Bukowski
Batendo Pé No Savoy
agora ouça, Capitão, eu quero os andantes feridos em
seus postos, não podemos poupar um só homem, se esses
chucrutes soubessem que nossas fileiras estão escasseando eles
nos comeriam vivos e estuprariam nossas mulheres e crianças
e, deus nos ajude, nossos bichinhos
também!
sem água? faça com que bebam o próprio sangue!
o que você acha que isso é, um maldito
piquenique?
vou te dar um piquenique enfiado no teu
rabo! tá
entendendo?
agora ouça... nós atraímos eles, flanqueamos,
eles vão engolir a própria merda de
pânico!
usaremos seus ossos pra fazer estacadas!
vocês serão heróis para nossas damas, elas
lamberão suas bolas com gratidão Eternidade adentro!
entendeu?
desistentes não vencem, e além disso, qualquer
homem que eu ver recuando eu vou abrir nele um
buraco tão grande que você vai poder ver
o cu da sua vó colhendo margaridas em
Petaluma!
tá me ouvindo?
ah, merda! me acertaram! chama o doutor! chama todos
os doutores!
veado! quem podia imaginar? deu sorte!
esses chucrutes não acertam um sonho molhado a
3 passos!
Capitão! você está no comando! se você fizer
cagada eu torço suas pernas e meto
as duas no seu traseiro idiota! entendeu?
não quero esses chucrutes enfiando os dedos na Melba
na varanda!
Deus está do nosso lado! Ele me disse uma vez, “Ouça,
esses chucrutes precisam ter fim! eles não lavam
os sovacos e penteiam os cabelos com
geleia de pêssego!”
Capitão! acho que vou indo! chame uma enfermeira
aqui, preciso de um boquete! e depressa! essa
guerra não pode esperar o dia todo!
seus postos, não podemos poupar um só homem, se esses
chucrutes soubessem que nossas fileiras estão escasseando eles
nos comeriam vivos e estuprariam nossas mulheres e crianças
e, deus nos ajude, nossos bichinhos
também!
sem água? faça com que bebam o próprio sangue!
o que você acha que isso é, um maldito
piquenique?
vou te dar um piquenique enfiado no teu
rabo! tá
entendendo?
agora ouça... nós atraímos eles, flanqueamos,
eles vão engolir a própria merda de
pânico!
usaremos seus ossos pra fazer estacadas!
vocês serão heróis para nossas damas, elas
lamberão suas bolas com gratidão Eternidade adentro!
entendeu?
desistentes não vencem, e além disso, qualquer
homem que eu ver recuando eu vou abrir nele um
buraco tão grande que você vai poder ver
o cu da sua vó colhendo margaridas em
Petaluma!
tá me ouvindo?
ah, merda! me acertaram! chama o doutor! chama todos
os doutores!
veado! quem podia imaginar? deu sorte!
esses chucrutes não acertam um sonho molhado a
3 passos!
Capitão! você está no comando! se você fizer
cagada eu torço suas pernas e meto
as duas no seu traseiro idiota! entendeu?
não quero esses chucrutes enfiando os dedos na Melba
na varanda!
Deus está do nosso lado! Ele me disse uma vez, “Ouça,
esses chucrutes precisam ter fim! eles não lavam
os sovacos e penteiam os cabelos com
geleia de pêssego!”
Capitão! acho que vou indo! chame uma enfermeira
aqui, preciso de um boquete! e depressa! essa
guerra não pode esperar o dia todo!
986
Charles Bukowski
Sozinho Num Tempo de Exércitos
eu tinha 22 anos naquela pensão na Filadélfia e eu estava faminto e
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
1 090
Charles Bukowski
Poema Para Dante
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
eu queria que você pudesse
ver. por certo tempo
tivemos o poder de
explodir a terra
e agora estamos descobrindo
o poder de abandoná-
la. mas a maioria terá de
ficar e
morrer. ou pela Bomba
ou então pelo refugo de ossos
empilhados
e outros recipientes vazios,
e merda e vidro e fumaça,
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
e as pessoas ainda contemplam rosas
pedalam bicicletas
batem relógio de ponto
compram casas e pinturas e carros;
as pessoas continuam a
copular
em todos os lugares, e os jovens olham em volta
e gritam
que este deveria ser um lugar melhor,
como sempre fizeram,
e aí ficaram velhos
e entraram no mesmo jogo sujo.
só que agora
todos os jogos sujos dos séculos
se somaram a um placar que parece quase
impossível de reverter.
alguns ainda tentam –
nós os chamamos de santos, poetas, loucos, tolos.
Dante, bebê, ó Dante, bebê,
você devia ver a gente
agora.
é aqui agora.
eu queria que você pudesse
ver. por certo tempo
tivemos o poder de
explodir a terra
e agora estamos descobrindo
o poder de abandoná-
la. mas a maioria terá de
ficar e
morrer. ou pela Bomba
ou então pelo refugo de ossos
empilhados
e outros recipientes vazios,
e merda e vidro e fumaça,
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
e as pessoas ainda contemplam rosas
pedalam bicicletas
batem relógio de ponto
compram casas e pinturas e carros;
as pessoas continuam a
copular
em todos os lugares, e os jovens olham em volta
e gritam
que este deveria ser um lugar melhor,
como sempre fizeram,
e aí ficaram velhos
e entraram no mesmo jogo sujo.
só que agora
todos os jogos sujos dos séculos
se somaram a um placar que parece quase
impossível de reverter.
alguns ainda tentam –
nós os chamamos de santos, poetas, loucos, tolos.
Dante, bebê, ó Dante, bebê,
você devia ver a gente
agora.
1 508
Charles Bukowski
Mesma Coisa de Sempre, Shakespeare Através de Mailer –
para dentro de todos os instantes antes de
morrermos como lenha serrada eu gostaria de
pensar que aquilo que dissemos não
necessariamente nos seguirá para dentro
daquele buraco escuro que não é amor
ou sexo ou nada que conheçamos agora,
e quando os soldados marcharam
Turquia adentro eles tomaram a primeira
vila estuprando as garotas novas
e algumas das velhas também,
e Anderson e eu achamos um café
e sentamos ali bebendo escutando
a força aérea no alto cravando
suas presas e eu disse é a
mesma coisa de sempre Shakespeare através
de Mailer estocando sua esposa com a
mesma coisa mas a coisa errada,
e pensei se nós pudéssemos morrer aqui
agora daqui a um minuto como um instantâneo
de câmera seria bem melhor
todas as mulas e as damas bêbadas
eliminadas os romances ruins marcha
presa na lama é melhor
morrer quando você está pronto
como lâminas de barbear e canções de cerveja
sob uma antiga melodia irlandesa
e aí certo turco deu um tiro
da escadaria e cindiu minha
manga como uma bunda apertada se curvando
e eu atirei de volta como pessoas numa
peça e fiquei pensando
Maria Maria será que
um dia verei Maria de novo, e
a imortalidade não pareceu
nem um pouco importante.
morrermos como lenha serrada eu gostaria de
pensar que aquilo que dissemos não
necessariamente nos seguirá para dentro
daquele buraco escuro que não é amor
ou sexo ou nada que conheçamos agora,
e quando os soldados marcharam
Turquia adentro eles tomaram a primeira
vila estuprando as garotas novas
e algumas das velhas também,
e Anderson e eu achamos um café
e sentamos ali bebendo escutando
a força aérea no alto cravando
suas presas e eu disse é a
mesma coisa de sempre Shakespeare através
de Mailer estocando sua esposa com a
mesma coisa mas a coisa errada,
e pensei se nós pudéssemos morrer aqui
agora daqui a um minuto como um instantâneo
de câmera seria bem melhor
todas as mulas e as damas bêbadas
eliminadas os romances ruins marcha
presa na lama é melhor
morrer quando você está pronto
como lâminas de barbear e canções de cerveja
sob uma antiga melodia irlandesa
e aí certo turco deu um tiro
da escadaria e cindiu minha
manga como uma bunda apertada se curvando
e eu atirei de volta como pessoas numa
peça e fiquei pensando
Maria Maria será que
um dia verei Maria de novo, e
a imortalidade não pareceu
nem um pouco importante.
658
Charles Bukowski
Má Sorte
há boas coisas em volta se você
procurar bem.
eu me lembro de uma vez no campo de concentração alemão
em que agarramos um veado
eles vêm a calhar quando não há mulher disponível
e nós cagamos ele a pau primeiro
e aí passamos ele de mão em mão
e fizemos ele chupar o pau de um cara
enquanto o outro cara arrombava ele
e até mesmo um dos guardas alemães se juntou
e aproveitou um pouco – que noite!
e aquele veado não conseguiu andar por um mês
e certa noite ele foi morto a tiros
tentando escapar pelo arame
e eu me lembro do Harry gemendo
enquanto via o corpo do bicha sendo carregado
com aqueles 2 buracos na cabeça:
“lá se vai o melhor rabo que eu já
peguei!”
procurar bem.
eu me lembro de uma vez no campo de concentração alemão
em que agarramos um veado
eles vêm a calhar quando não há mulher disponível
e nós cagamos ele a pau primeiro
e aí passamos ele de mão em mão
e fizemos ele chupar o pau de um cara
enquanto o outro cara arrombava ele
e até mesmo um dos guardas alemães se juntou
e aproveitou um pouco – que noite!
e aquele veado não conseguiu andar por um mês
e certa noite ele foi morto a tiros
tentando escapar pelo arame
e eu me lembro do Harry gemendo
enquanto via o corpo do bicha sendo carregado
com aqueles 2 buracos na cabeça:
“lá se vai o melhor rabo que eu já
peguei!”
1 370