Poemas neste tema
Guerra e Paz
Herberto Helder
64
limoeiros, riachos, faúlhas, montes levantados ao de cima da cabeça,
alguém amado com uma estrela esmagada contra o rosto como para
indiciá-lo,
frio aroma respirado muito,
inesperados membros que a luz trabalha,
ou é a luz que é inesperada com os membros dentro dela: dança,
o medo,
quer dizer: o paraíso, o inferno,
no uso expansivo das palavras, por exemplo: poemas
como foi possível escrevê-los antes ou depois de Auschwitz?
no corpo até se fazer osso,
até que fosse apenas uma ferida,
Auschwitz é sempre contra os mesmos,
e sempre se escreveu na língua do inimigo,
e escreve-se nessa língua porque é preciso que o inimigo não compreenda
nunca,
ou é preciso resgatar a língua do seu crime imprevisível
mas quem ronda lá fora as minhas ásperas moradas,
e rosna resvés ao rosto, quem, e em
que língua se estrangula,
que fomes o devoram,
que nomes loucos o destroem?
e é nesse instante mesmo que o poema retoma a sua fala bárbara,
e aí, nas líricas ignições, encontra o assassino,
Auschwitz é o dia imparcial, às vezes
leve com água raspando ao lado ou os lábios sobre as pálpebras,
ou quando vem nos jornais:
política, artes & letras, coacções, corrupções, e a violência do dinheiro
estúpido
como é que um dia, nos montes, os dedos numa
estrela fundida na cara, à sombra das frutas, se puderam escrever, ou
não puderam,
fanopeia, melopeia, logopeia,
as coisas cruas?
Auschwitz é sempre, immer, e escreve-se ou por fora ou por dentro,
ou por baixo ou por cima, ou cara a cara, que é o melhor de tudo
e é cada vez mais perigoso, ou é o mesmo, ou é menos perigoso?
dados os termos dos tempos: à quoi bon aujourd’hui la poésie?
ou então: la poésie comme l’amour
gantes ou depois: de quem, de quê, de como ou quando?
immer, always, Auschwitz, sempre, toujours, em todas as línguas rie
alguém amado com uma estrela esmagada contra o rosto como para
indiciá-lo,
frio aroma respirado muito,
inesperados membros que a luz trabalha,
ou é a luz que é inesperada com os membros dentro dela: dança,
o medo,
quer dizer: o paraíso, o inferno,
no uso expansivo das palavras, por exemplo: poemas
como foi possível escrevê-los antes ou depois de Auschwitz?
no corpo até se fazer osso,
até que fosse apenas uma ferida,
Auschwitz é sempre contra os mesmos,
e sempre se escreveu na língua do inimigo,
e escreve-se nessa língua porque é preciso que o inimigo não compreenda
nunca,
ou é preciso resgatar a língua do seu crime imprevisível
mas quem ronda lá fora as minhas ásperas moradas,
e rosna resvés ao rosto, quem, e em
que língua se estrangula,
que fomes o devoram,
que nomes loucos o destroem?
e é nesse instante mesmo que o poema retoma a sua fala bárbara,
e aí, nas líricas ignições, encontra o assassino,
Auschwitz é o dia imparcial, às vezes
leve com água raspando ao lado ou os lábios sobre as pálpebras,
ou quando vem nos jornais:
política, artes & letras, coacções, corrupções, e a violência do dinheiro
estúpido
como é que um dia, nos montes, os dedos numa
estrela fundida na cara, à sombra das frutas, se puderam escrever, ou
não puderam,
fanopeia, melopeia, logopeia,
as coisas cruas?
Auschwitz é sempre, immer, e escreve-se ou por fora ou por dentro,
ou por baixo ou por cima, ou cara a cara, que é o melhor de tudo
e é cada vez mais perigoso, ou é o mesmo, ou é menos perigoso?
dados os termos dos tempos: à quoi bon aujourd’hui la poésie?
ou então: la poésie comme l’amour
gantes ou depois: de quem, de quê, de como ou quando?
immer, always, Auschwitz, sempre, toujours, em todas as línguas rie
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Herberto Helder
Profano, Prático, Público, Político, Presto
profano, prático, público, político, presto, profundo, precário,
improvável poema,
contudo
nem eu estava à espera dos bárbaros que viriam devastar a terra,
porque éramos inocentes,
nós que só queríamos silêncio,
e a voz diria que se fosse preciso traziam Deus,
e é sim possível que trouxessem qualquer espectáculo com cristos nus e saltimbancos de feira,
e paus vermelhos,
paus amarelos,
paus virgens com linho ou algodão pintado,
paus compridos com petúnias como borboletas:
e eu achava inadmissível,
e tinha a meio da minha própria linguagem a dor sozinha em que súbito se repara,
e de que o poema se faz carregado e quente,
e não explicava nada,
e lá vinham os bárbaros como no episódio de Alexandria,
mais uma vez depois de Cavafis,
incendiada pelos soldados de César e do califa Ornar,
por franceses e ingleses e todos os outros bárbaros,
por todos os incapazes da medida intrínseca,
a densa meditação que conduz ao poema puro,
e nunca, nunca mais a paixão,
e então o centro mesmo do mundo é o centro de Alexandria,
livros, música, mão calígrafa movendo-se ainda,
olhos fechados víamos atrás das pálpebras a nossa vida ardente e muda e lenta,
e a carne desde o imo desfazia-se num soluço,
magoada, humana,
alexandrina,
e o mundo era pequeno,
mais pequeno com certeza que um poema de um verso único,
universo:
oh nunca mais quero viver no mundo!
improvável poema,
contudo
nem eu estava à espera dos bárbaros que viriam devastar a terra,
porque éramos inocentes,
nós que só queríamos silêncio,
e a voz diria que se fosse preciso traziam Deus,
e é sim possível que trouxessem qualquer espectáculo com cristos nus e saltimbancos de feira,
e paus vermelhos,
paus amarelos,
paus virgens com linho ou algodão pintado,
paus compridos com petúnias como borboletas:
e eu achava inadmissível,
e tinha a meio da minha própria linguagem a dor sozinha em que súbito se repara,
e de que o poema se faz carregado e quente,
e não explicava nada,
e lá vinham os bárbaros como no episódio de Alexandria,
mais uma vez depois de Cavafis,
incendiada pelos soldados de César e do califa Ornar,
por franceses e ingleses e todos os outros bárbaros,
por todos os incapazes da medida intrínseca,
a densa meditação que conduz ao poema puro,
e nunca, nunca mais a paixão,
e então o centro mesmo do mundo é o centro de Alexandria,
livros, música, mão calígrafa movendo-se ainda,
olhos fechados víamos atrás das pálpebras a nossa vida ardente e muda e lenta,
e a carne desde o imo desfazia-se num soluço,
magoada, humana,
alexandrina,
e o mundo era pequeno,
mais pequeno com certeza que um poema de um verso único,
universo:
oh nunca mais quero viver no mundo!
1 088
Herberto Helder
Não, Obrigado, Estou Bem, Nada de Novo,
não, obrigado, estou bem, nada de novo,
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
1 025
Bernardo Pinto de Almeida
Hotel Spleen 2
Não. Não a ferida — dor de nós mesmos
condição corrente nos tempos que vão
a disfarçar numa sombra de estoicismo
o que se vê de longe à vista desarmada,
ainda que isso apenas forma ténue
passagem de um vapor no horizonte.
A mulher que da sala para a cozinha
leva nas mãos o peso que sustenta a casa
sua força hipotecada
a uma ordem qualquer do universo,
o gesto solícito do porteiro diante da gorjeta
criança que chora no berço.
Tudo isso — por consideração que se lhe deva —
por injusto que seja, conduta imperativa
jogo da finança fortuna nos casinos
acidentes vários combustão do mundo
não chega para assinalar o que parece impor
a tristeza que de dentro do mundo cobre o mundo.
Fina, subtil dor que nos renega nos rasga
nos deixa a braços com nada
presença do que foge do que ficou por dizer
sem mistério nem medo
mas ainda assim ao lado do que interessa
abaixo, acima do que interessa.
A forma que a tristeza toma tantas vezes
quando num olhar magoado que se ergue
um só fio de voz do outro lado
frágil segurança que numa teia se teceu.
Canção do cabaré voz gemida do travesti
voz nostálgica na rádio riso desbotado.
Pathos do medo ou da obscuridade
sorriso trémulo junto a um túmulo deserto
luzir dos olhos sob a lágrima, boca que estremece
diante do mundo trágico )cómico( até fúnebre
— não a alma as suas expressões
a compaixão do mundo.
A lucidez da real- politik o fausto das largas avenidas
seus transeuntes inebriados de luz, pobres, sem- abrigo
a dor compassiva dos gestos suburbanos
que se vestem à noite no silêncio dos quartos
deusas num cinema doméstico: ainda
a consciência deste fio de vida
gotejando como se por uma brecha.
O que avariou para sempre
passo em falso no trapézio
momento sem grandeza em que se fecha:
como chamar-lhe sem convocar num lapso
as formas heróicas do dizer?
Senão no braço magro de sida
que estende ao fio do candeeiro um gesto último
brutal a solidão que no berço anuncia o seu destino
mundo de dor e suspeita não mais escapável
náufrago que ao longe de uma vez se afunda
horizontes que contemplam deslumbrantes poentes.
Inevitável tragédia cobre-nos, dia após dia
cada vez que uma mão se solta de outra
riso não coincide com o riso que o suscita
olhar com o olhar que o procura
a casa já não está onde ainda ontem parecia
sólida serena inexpugnável.
É então cósmico esse grave silêncio
que desce como um manto sobre as coisas
poeira de estrelas devastadas do arrefecimento
que aos pouco sobre todos vai caindo
obedecendo a princípios anteriores a tudo?
Caos reina em toda a parte.
Guerra em toda a parte:
fio de nada em volta da cabeça: negrume
indiferença para que todos trabalham sem descanso.
Está cansada a manhã se ao levantar-se
não surpreende o mundo como a rosa que foi
o mar que já não encontra areia mas um muro
a voz quando o telefone se desliga
ou se faz nela sentir o peso a dor contida
daqueles que envelhecem em silêncio?
Envelheceu o mundo:
reduziu-se ao pouco mais que nada
mesmo se por debaixo do maior barulho.
Ainda que de si a si nada atormente mais
o velho que morre abandonado sobre a cama
o que se asfixiou se pendurou na cela
em vez da estrada firme preferiu
momento sem nome sequer tempo lá dentro
a amplitude do salto sobre qualquer vazio?
Tudo então é silêncio?
condição corrente nos tempos que vão
a disfarçar numa sombra de estoicismo
o que se vê de longe à vista desarmada,
ainda que isso apenas forma ténue
passagem de um vapor no horizonte.
A mulher que da sala para a cozinha
leva nas mãos o peso que sustenta a casa
sua força hipotecada
a uma ordem qualquer do universo,
o gesto solícito do porteiro diante da gorjeta
criança que chora no berço.
Tudo isso — por consideração que se lhe deva —
por injusto que seja, conduta imperativa
jogo da finança fortuna nos casinos
acidentes vários combustão do mundo
não chega para assinalar o que parece impor
a tristeza que de dentro do mundo cobre o mundo.
Fina, subtil dor que nos renega nos rasga
nos deixa a braços com nada
presença do que foge do que ficou por dizer
sem mistério nem medo
mas ainda assim ao lado do que interessa
abaixo, acima do que interessa.
A forma que a tristeza toma tantas vezes
quando num olhar magoado que se ergue
um só fio de voz do outro lado
frágil segurança que numa teia se teceu.
Canção do cabaré voz gemida do travesti
voz nostálgica na rádio riso desbotado.
Pathos do medo ou da obscuridade
sorriso trémulo junto a um túmulo deserto
luzir dos olhos sob a lágrima, boca que estremece
diante do mundo trágico )cómico( até fúnebre
— não a alma as suas expressões
a compaixão do mundo.
A lucidez da real- politik o fausto das largas avenidas
seus transeuntes inebriados de luz, pobres, sem- abrigo
a dor compassiva dos gestos suburbanos
que se vestem à noite no silêncio dos quartos
deusas num cinema doméstico: ainda
a consciência deste fio de vida
gotejando como se por uma brecha.
O que avariou para sempre
passo em falso no trapézio
momento sem grandeza em que se fecha:
como chamar-lhe sem convocar num lapso
as formas heróicas do dizer?
Senão no braço magro de sida
que estende ao fio do candeeiro um gesto último
brutal a solidão que no berço anuncia o seu destino
mundo de dor e suspeita não mais escapável
náufrago que ao longe de uma vez se afunda
horizontes que contemplam deslumbrantes poentes.
Inevitável tragédia cobre-nos, dia após dia
cada vez que uma mão se solta de outra
riso não coincide com o riso que o suscita
olhar com o olhar que o procura
a casa já não está onde ainda ontem parecia
sólida serena inexpugnável.
É então cósmico esse grave silêncio
que desce como um manto sobre as coisas
poeira de estrelas devastadas do arrefecimento
que aos pouco sobre todos vai caindo
obedecendo a princípios anteriores a tudo?
Caos reina em toda a parte.
Guerra em toda a parte:
fio de nada em volta da cabeça: negrume
indiferença para que todos trabalham sem descanso.
Está cansada a manhã se ao levantar-se
não surpreende o mundo como a rosa que foi
o mar que já não encontra areia mas um muro
a voz quando o telefone se desliga
ou se faz nela sentir o peso a dor contida
daqueles que envelhecem em silêncio?
Envelheceu o mundo:
reduziu-se ao pouco mais que nada
mesmo se por debaixo do maior barulho.
Ainda que de si a si nada atormente mais
o velho que morre abandonado sobre a cama
o que se asfixiou se pendurou na cela
em vez da estrada firme preferiu
momento sem nome sequer tempo lá dentro
a amplitude do salto sobre qualquer vazio?
Tudo então é silêncio?
675
Matilde Campilho
Pedra Explodida Na Mão do Monge
Penso em astronautas
não penso em árvores chinesas
penso na contagem dos cabelos
não penso em punhais
disfarçados de arma desportiva
Penso em camisas vermelhas
em minha camisa vermelha
com um pequeno buraco
na zona lombar
Penso no êxodo
dos vendedores de picolé
nas migrações pendulares
penso em garrafas vazias
penso em tanques de guerra
penso em jabuticaba & acarajé
Penso no rosto e nos braços
da cantora de Santo Amaro
penso em pipas e em meninos
soltando pipas.
não penso em árvores chinesas
penso na contagem dos cabelos
não penso em punhais
disfarçados de arma desportiva
Penso em camisas vermelhas
em minha camisa vermelha
com um pequeno buraco
na zona lombar
Penso no êxodo
dos vendedores de picolé
nas migrações pendulares
penso em garrafas vazias
penso em tanques de guerra
penso em jabuticaba & acarajé
Penso no rosto e nos braços
da cantora de Santo Amaro
penso em pipas e em meninos
soltando pipas.
1 140
Pero da Ponte
O Mui Bom Rei Que Conquis a Fronteira
O mui bom rei que conquis a fronteira
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.
A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.
Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!
Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!
E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia
de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.
A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.
Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!
Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!
E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia
de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
561
Pero da Ponte
Foi-S'o Meu Amigo Daqui
Foi-s'o meu amigo daqui
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
586
João Soares Coelho
Joam Fernández, o Mund'é Torvado
Joam Fernández, o mund'é torvado
e, de pram, cuidamos que quer fiir:
veemo'lo Emperador levantado
contra Roma, e Tártaros viir,
e ar veemos aqui dom pedir
Joam Fernández, o mouro cruzado.
E sempre esto foi profetizado
par dous e cinco sinaes da fim:
seer o mundo assi como é miscrado,
e ar torná'-s'o mouro pelegrim
- Joam Fernández, creed'est'a mi[m]
que sõo home [mui] bem leterado.
E se nom foss'o Antecristo nado,
nom averria esto que avém:
nem fiar[a] o senhor no malado
nen'o malado [e]no senhor rem,
nem ar iria a Ierusalém
Joam Fernández, [o] nom bautiçado.
e, de pram, cuidamos que quer fiir:
veemo'lo Emperador levantado
contra Roma, e Tártaros viir,
e ar veemos aqui dom pedir
Joam Fernández, o mouro cruzado.
E sempre esto foi profetizado
par dous e cinco sinaes da fim:
seer o mundo assi como é miscrado,
e ar torná'-s'o mouro pelegrim
- Joam Fernández, creed'est'a mi[m]
que sõo home [mui] bem leterado.
E se nom foss'o Antecristo nado,
nom averria esto que avém:
nem fiar[a] o senhor no malado
nen'o malado [e]no senhor rem,
nem ar iria a Ierusalém
Joam Fernández, [o] nom bautiçado.
300
João Baveca
Bernal Fendudo, Quero-Vos Dizer
Bernal Fendudo, quero-vos dizer
o que façades, pois vos querem dar
armas e "dona salvage" chamar:
se vos com mouros lid'acaecer,
sofrede-os, ca todos vos ferrám,
e, dando colbes em vós, cansarám,
e havedes pois vós a vencer.
E ali log', u s'há lide a volver,
verrám-vos deles deante colpar;
des i os outros, por vos nom errar,
ar querram-vos por alhur cometer;
mais sofrede[-os], feiram per u quer,
ca, se vos Deus em armas bem fezer,
ferindo em vós, ham eles de caer.
Pero, com’há mui gram gente a seer,
muitas vezes vos ham a derrobar;
mais sempre vos havedes a cobrar
e eles ham mais a enfraquecer,
pero nom quedarám de vos ferir
de todas partes; mais, ao [fiir],
todos morrerám em vosso poder.
o que façades, pois vos querem dar
armas e "dona salvage" chamar:
se vos com mouros lid'acaecer,
sofrede-os, ca todos vos ferrám,
e, dando colbes em vós, cansarám,
e havedes pois vós a vencer.
E ali log', u s'há lide a volver,
verrám-vos deles deante colpar;
des i os outros, por vos nom errar,
ar querram-vos por alhur cometer;
mais sofrede[-os], feiram per u quer,
ca, se vos Deus em armas bem fezer,
ferindo em vós, ham eles de caer.
Pero, com’há mui gram gente a seer,
muitas vezes vos ham a derrobar;
mais sempre vos havedes a cobrar
e eles ham mais a enfraquecer,
pero nom quedarám de vos ferir
de todas partes; mais, ao [fiir],
todos morrerám em vosso poder.
611
Afonso X
Domingas Eanes Houve Sa Baralha
Domingas Eanes houve sa baralha
com uum genet', e foi mal ferida;
empero foi ela i tam ardida
que houve depois a vencer, sem falha,
e, de pram, venceu bõo cavaleiro;
mais empero era-x'el tam braceiro
que houv'end'ela de ficar colpada.
O colbe [a] colheu per ũa malha
da loriga, que era desmentida;
e pesa-m'ende, porque essa ida,
de prez que houve mais, se Deus me valha,
venceu ela; mais [pel]o cavaleiro,
per sas armas e per com'er'arteiro,
já sempr'end'ela seerá sinalada.
E aquel mouro trouxe, con'o veite,
dous companhões em toda esta guerra;
e de mais há preço que nunca erra
de dar gram colpe com seu tragazeite;
e foi-a achar come costa juso,
e deu-lhi por en tal colpe de suso
que já a chaga nunca vai cerrada.
E dizem meges que usam tal preite
que atal chaga jamais nunca cerra,
se com quanta lã há em esta terra
a escaentassem, nem cõn'o azeite;
porque a chaga nom vai contra juso,
mais vai em redor, come perafuso,
e por en muit'há que é fistolada.
com uum genet', e foi mal ferida;
empero foi ela i tam ardida
que houve depois a vencer, sem falha,
e, de pram, venceu bõo cavaleiro;
mais empero era-x'el tam braceiro
que houv'end'ela de ficar colpada.
O colbe [a] colheu per ũa malha
da loriga, que era desmentida;
e pesa-m'ende, porque essa ida,
de prez que houve mais, se Deus me valha,
venceu ela; mais [pel]o cavaleiro,
per sas armas e per com'er'arteiro,
já sempr'end'ela seerá sinalada.
E aquel mouro trouxe, con'o veite,
dous companhões em toda esta guerra;
e de mais há preço que nunca erra
de dar gram colpe com seu tragazeite;
e foi-a achar come costa juso,
e deu-lhi por en tal colpe de suso
que já a chaga nunca vai cerrada.
E dizem meges que usam tal preite
que atal chaga jamais nunca cerra,
se com quanta lã há em esta terra
a escaentassem, nem cõn'o azeite;
porque a chaga nom vai contra juso,
mais vai em redor, come perafuso,
e por en muit'há que é fistolada.
566
Afonso X
O Que Foi Passar a Serra
O que foi passar a serra
e nom quis servir a terra,
é ora, entrant'a guerra,
que faroneja?
Pois el agora tam muit'erra,
maldito seja!
O que levou os dinheiros
e nom troux'os cavaleiros,
é por nom ir nos primeiros
que faroneja?
Pois que vem cõn'os prostumeiros,
maldito seja!
O que filhou gram soldada
e nunca fez cavalgada,
é por nom ir a Graada
que faroneja?
Se é ric'hom'ou há mesnada,
maldito seja!
O que meteu na taleiga
pouc'haver e muita meiga,
é por nom entrar na Veiga
que faroneja?
Pois chus mol é [el] que manteiga,
maldito seja!
e nom quis servir a terra,
é ora, entrant'a guerra,
que faroneja?
Pois el agora tam muit'erra,
maldito seja!
O que levou os dinheiros
e nom troux'os cavaleiros,
é por nom ir nos primeiros
que faroneja?
Pois que vem cõn'os prostumeiros,
maldito seja!
O que filhou gram soldada
e nunca fez cavalgada,
é por nom ir a Graada
que faroneja?
Se é ric'hom'ou há mesnada,
maldito seja!
O que meteu na taleiga
pouc'haver e muita meiga,
é por nom entrar na Veiga
que faroneja?
Pois chus mol é [el] que manteiga,
maldito seja!
937
Afonso X
O Que da Guerra Levou Cavaleiros
O que da guerra levou cavaleiros
e a sa terra foi guardar dinheiros,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com maldade
e a sa terra foi comprar herdade,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com nemiga
pero nom veo quand'é preitesia,
nom vem al maio.
O que tragia o pano de linho
pero nom veo polo Sam Martinho,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom [sem] cinco
e [e]no dedo sem pedra o vinco,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem oito
e a sa gente nom dava pam coito,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem sete
e cinta ancha e mui gram topete,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem tenda,
per quant'agora sei de sa fazenda,
nom vem al maio.
O que com medo se foi dos martinhos
e a sa terra foi bever los vinhos,
nom vem al maio.
O que com medo fugiu da fronteira,
pero tragia pendom sem caldeira,
nom vem al maio.
O que roub[ava] os mouros malditos
e a sa terra foi roubar cabritos,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com espanto
e a sa terra ar foi armar manto,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com gram medo
contra sa terra, espargendo vedo,
nom vem al maio.
O que tragia pendom de cadarço,
macar nom veo en[o] mês de Março,
nom vem al maio.
O que da guerra [se] foi recreúdo,
macar em Burgos fez pintar escudo,
nom vem al maio.
e a sa terra foi guardar dinheiros,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com maldade
e a sa terra foi comprar herdade,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com nemiga
pero nom veo quand'é preitesia,
nom vem al maio.
O que tragia o pano de linho
pero nom veo polo Sam Martinho,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom [sem] cinco
e [e]no dedo sem pedra o vinco,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem oito
e a sa gente nom dava pam coito,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem sete
e cinta ancha e mui gram topete,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem tenda,
per quant'agora sei de sa fazenda,
nom vem al maio.
O que com medo se foi dos martinhos
e a sa terra foi bever los vinhos,
nom vem al maio.
O que com medo fugiu da fronteira,
pero tragia pendom sem caldeira,
nom vem al maio.
O que roub[ava] os mouros malditos
e a sa terra foi roubar cabritos,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com espanto
e a sa terra ar foi armar manto,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com gram medo
contra sa terra, espargendo vedo,
nom vem al maio.
O que tragia pendom de cadarço,
macar nom veo en[o] mês de Março,
nom vem al maio.
O que da guerra [se] foi recreúdo,
macar em Burgos fez pintar escudo,
nom vem al maio.
1 004
Afonso X
Dom Foão, Quand'ogan'aqui Chegou
Dom Foão, quand'ogan'aqui chegou
primeirament'e viu volta e guerra,
tam gram sabor houve d'ir a sa terra
que log'entom por adail filhou
seu coraçom; e el fez-lh'i leixar,
polo mais toste da guerr'alongar,
prez e esforço - e passou a serra.
Em esto fez come de bõo sem:
em filhar adail que conhocia,
que estes passos maos bem sabia,
e el guardou-o log'entom mui bem
deles e fez-l[h]'i de destro leixar
lealdad'e de seestro lidar
[...........................ia].
O adail e[ra] mui sabedor,
que o guiou per aquela carreira:
porque [o] fez desguiar da fronteira
e em tal guerra leixar seu senhor;
e direi-vos al que lh'i fez leixar:
bem que pudera fazer por ficar,
feze-o poer além Talaveira.
Muito foi ledo, se Deus me perdom,
quando se viu daqueles passos fora
que vos já dix', e diss'em essa hora:
- Par Deus, adail, muit'hei gram razom
de sempr'em vós mia fazenda leixar,
ca nom me mova d[aqu]este logar
se jamais nunca cuidei passar Lora!
E ao Demo vou acomendar
prez deste mundo, e armas, e lidar,
ca nom é jog'o de que homem chora.
primeirament'e viu volta e guerra,
tam gram sabor houve d'ir a sa terra
que log'entom por adail filhou
seu coraçom; e el fez-lh'i leixar,
polo mais toste da guerr'alongar,
prez e esforço - e passou a serra.
Em esto fez come de bõo sem:
em filhar adail que conhocia,
que estes passos maos bem sabia,
e el guardou-o log'entom mui bem
deles e fez-l[h]'i de destro leixar
lealdad'e de seestro lidar
[...........................ia].
O adail e[ra] mui sabedor,
que o guiou per aquela carreira:
porque [o] fez desguiar da fronteira
e em tal guerra leixar seu senhor;
e direi-vos al que lh'i fez leixar:
bem que pudera fazer por ficar,
feze-o poer além Talaveira.
Muito foi ledo, se Deus me perdom,
quando se viu daqueles passos fora
que vos já dix', e diss'em essa hora:
- Par Deus, adail, muit'hei gram razom
de sempr'em vós mia fazenda leixar,
ca nom me mova d[aqu]este logar
se jamais nunca cuidei passar Lora!
E ao Demo vou acomendar
prez deste mundo, e armas, e lidar,
ca nom é jog'o de que homem chora.
354
Afonso X
O Genete
O genete
pois remete
seu alfaraz corredor
estremece
e esmorece
o coteife com pavor.
Vi coteifes orpelados
estar mui mal espantados
e genetes trosquiados
corriam-nos arredor;
tinham-nos mal aficados
[ca] perdian'a color.
Vi coteifes de gram brio
eno meio do estio
estar tremendo sem frio
ant'os mouros d'Azamor;
e ia-se deles rio
que Auguadalquivir maior.
Vi eu de coteifes azes,
com infanções iguazes,
mui peores ca rapazes;
e houveram tal pavor,
que os seus panos d'arrazes
tornarom doutra color.
Vi coteifes com arminhos,
conhecedores de vinhos,
e rapazes dos martinhos
que nom tragiam senhor
sairom aos mesquinhos,
e fezerom o peor.
Vi coteifes e cochões
com mui [mais] longos granhões
que as barvas dos cabrões:
[e] ao som do atambor
os deitavam dos arções
ant'os pees de seu senhor.
pois remete
seu alfaraz corredor
estremece
e esmorece
o coteife com pavor.
Vi coteifes orpelados
estar mui mal espantados
e genetes trosquiados
corriam-nos arredor;
tinham-nos mal aficados
[ca] perdian'a color.
Vi coteifes de gram brio
eno meio do estio
estar tremendo sem frio
ant'os mouros d'Azamor;
e ia-se deles rio
que Auguadalquivir maior.
Vi eu de coteifes azes,
com infanções iguazes,
mui peores ca rapazes;
e houveram tal pavor,
que os seus panos d'arrazes
tornarom doutra color.
Vi coteifes com arminhos,
conhecedores de vinhos,
e rapazes dos martinhos
que nom tragiam senhor
sairom aos mesquinhos,
e fezerom o peor.
Vi coteifes e cochões
com mui [mais] longos granhões
que as barvas dos cabrões:
[e] ao som do atambor
os deitavam dos arções
ant'os pees de seu senhor.
676
Afonso X
Ua Pregunta Quer'a 'L-Rei Fazer
- Ũa pregunta quer'a 'l-rei fazer,
que se sol bem e aposto vistir:
porque foi el pena veira trager
velha 'm bom pan'? E queremos riir
eu e Gonçalo Martins, que é
home muit'aposto, per bõa fé,
e ar querê-lo-emos en cousir.
- Garcia Pérez, vós bem cousecer
podedes: nunca, de pram, foi falir
em querer eu pena veira trager
velha em corte, nen'a sol cobrir;
pero, de tanto, bem a salvarei:
nunca me dela em corte paguei,
mais estas guerras nos fazem bulir.
- Senhor, mui bem me vos fostes salvar
de pena veira que trager vos vi;
e pois de vós a queredes deitar,
se me creverdes, faredes assi:
mandade log'est'e nom haja i al:
deita[de-a] log'em um muradal,
ca peior pena nunca desta vi.
- Garcia Pérez, nom sabedes dar
bom conselho, per quanto vos oí,
pois que me vós conselhades deitar
em tal logar esta pena; ca 'ssi,
[se] o fezesse, faria mui mal;
e muito tenh'ora que mui mais val
em dá-la eu a um coteif'aqui.
que se sol bem e aposto vistir:
porque foi el pena veira trager
velha 'm bom pan'? E queremos riir
eu e Gonçalo Martins, que é
home muit'aposto, per bõa fé,
e ar querê-lo-emos en cousir.
- Garcia Pérez, vós bem cousecer
podedes: nunca, de pram, foi falir
em querer eu pena veira trager
velha em corte, nen'a sol cobrir;
pero, de tanto, bem a salvarei:
nunca me dela em corte paguei,
mais estas guerras nos fazem bulir.
- Senhor, mui bem me vos fostes salvar
de pena veira que trager vos vi;
e pois de vós a queredes deitar,
se me creverdes, faredes assi:
mandade log'est'e nom haja i al:
deita[de-a] log'em um muradal,
ca peior pena nunca desta vi.
- Garcia Pérez, nom sabedes dar
bom conselho, per quanto vos oí,
pois que me vós conselhades deitar
em tal logar esta pena; ca 'ssi,
[se] o fezesse, faria mui mal;
e muito tenh'ora que mui mais val
em dá-la eu a um coteif'aqui.
607
Afonso X
Vi Um Coteife de Mui Gram Granhom
Vi um coteife de mui gram granhom
com seu porponto, mais nom d'algodom,
e com sas calças velhas de branqueta.
E dix'eu logo: - Poilas guerras som,
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mao, val[a]di,
com seu perponto - nunca peior vi,
ca nom quer Deus que s'el em outro meta.
E dix'eu: - Pois las guerras [já som i]
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mal guisad'e vil,
com seu perponto todo de pavil
e o cordom d'ouropal por joeta.
E dix'eu: - Pois se vai o aguazil,
ai que coteife pera a carreta!
com seu porponto, mais nom d'algodom,
e com sas calças velhas de branqueta.
E dix'eu logo: - Poilas guerras som,
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mao, val[a]di,
com seu perponto - nunca peior vi,
ca nom quer Deus que s'el em outro meta.
E dix'eu: - Pois las guerras [já som i]
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mal guisad'e vil,
com seu perponto todo de pavil
e o cordom d'ouropal por joeta.
E dix'eu: - Pois se vai o aguazil,
ai que coteife pera a carreta!
644
Virgílio Martinho
A Luz Encarnada
A luz encarnada é o proibido
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
1 076
Mário-Henrique Leiria
A Estratégia
Vejamos
perguntou o capitão
como vai indo
essa instrução?
vai muito bem
um caso lindo
disse o sargento
falando a contento
ao capitão
e veio a guerra
então a instrução
pôs o boné
e entrou
logo em acção
como vai indo
essa função?
perguntou o general
ao capitão
vejamos
expôs o capitão
o importante
sempre tenho dito
e repito
é levar a instrução
avante
e foi assim
que acabada a guerra
o capitão ficou
Napoleão
perguntou o capitão
como vai indo
essa instrução?
vai muito bem
um caso lindo
disse o sargento
falando a contento
ao capitão
e veio a guerra
então a instrução
pôs o boné
e entrou
logo em acção
como vai indo
essa função?
perguntou o general
ao capitão
vejamos
expôs o capitão
o importante
sempre tenho dito
e repito
é levar a instrução
avante
e foi assim
que acabada a guerra
o capitão ficou
Napoleão
650
Mário-Henrique Leiria
A CIDADE ADORMECIDA
Foi decretada a mobilização geral.
Bom, isso não teve importância nenhuma
tanto mais que era simplesmente
por causa de haver guerra.
Era uma guerrazinha pequena
que estava metida numa gaiola
e piava muito,
sempre a pedir alpista e arroz do Sião.
Davam-lhe alpista,
mas arroz nunca lhe davam e,
por isso,
foi decretada a mobilização geral.
A guerra piava cada vez mais.
Trouxeram-lhe um cunhado
muito lavado,
muito engomado
e zás, comeu-o.
Então começou a tocar o tambor
e lá fomos todos,
com a espingarda na algibeira
e a mochila cheia de não-fazer-nada.
Na guerra só o que se fazia era comer.
comiam-se nabos,
comiam-se lições de inglês
e comia-se muito mêdo
que nos era dado todos os dias
pelos majores que lá não iam
porque ali era longe.
No fim
comeu-se o decreto de mobilização geral
com o arroz do Sião
que não foi posto na gaiola da guerra.
Voltamos todos a tocar corneta
e sem a espingarda na algibeira
pois se tinha gasto tôda
com o andar,
porque não lhe tinham dado botas.
Bom, isso não teve importância nenhuma
tanto mais que era simplesmente
por causa de haver guerra.
Era uma guerrazinha pequena
que estava metida numa gaiola
e piava muito,
sempre a pedir alpista e arroz do Sião.
Davam-lhe alpista,
mas arroz nunca lhe davam e,
por isso,
foi decretada a mobilização geral.
A guerra piava cada vez mais.
Trouxeram-lhe um cunhado
muito lavado,
muito engomado
e zás, comeu-o.
Então começou a tocar o tambor
e lá fomos todos,
com a espingarda na algibeira
e a mochila cheia de não-fazer-nada.
Na guerra só o que se fazia era comer.
comiam-se nabos,
comiam-se lições de inglês
e comia-se muito mêdo
que nos era dado todos os dias
pelos majores que lá não iam
porque ali era longe.
No fim
comeu-se o decreto de mobilização geral
com o arroz do Sião
que não foi posto na gaiola da guerra.
Voltamos todos a tocar corneta
e sem a espingarda na algibeira
pois se tinha gasto tôda
com o andar,
porque não lhe tinham dado botas.
811
Mário-Henrique Leiria
desejo eterno
No mundo o primeiro homem apareceu.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.
787
Mário-Henrique Leiria
Aviso Urgente
Quando as coisas que hão-de vir
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
488
Francesca Angiolillo
Balada
Era outono quando ele nasceu
quando ele nasceu era outono
e seu pai já havia morrido
quando ele nasceu
sua mãe morreu
quando ele nasceu
sua mãe e seu pai estavam mortos
quando ele nasceu estava órfão
era dia de mortos quando ele nasceu
e ele foi chamado Ferdinando
era novembro então
quando ele nasceu
não um novembro qualquer
era novembro de um ano
e dezoito anos depois havia guerra
Ferdinando foi à guerra
Ferdinando foi ferido
Ferdinando foi levado no colo por um colega até a trincheira
o colega voltou
o colega buscou
outro ferido
e com ele no colo pisou numa mina
era dia de São Fernando
e ele nasceu
era dois de dezembro quando seu filho nasceu
era um mês depois do dia de mortos
quando seu filho nasceu
era um dia de outono, era um dia de vivos
lá fora nevava quando seu filho nasceu
Ferdinando brincava
nasci um mês antes de meu filho
nasci no dia de mortos
nasci no dia do santo
era dia de mortos
era um dia de outono
era novembro de um ano
era São Fernando
era um dia de outono
era dois de dezembro
era um dia de outono
era seis de janeiro
quando Antonio morreu
quando Antonio morreu
seu pai já havia morrido
quando Antonio morreu
era dia de reis
era dia de reis
quando ele nasceu era outono
e seu pai já havia morrido
quando ele nasceu
sua mãe morreu
quando ele nasceu
sua mãe e seu pai estavam mortos
quando ele nasceu estava órfão
era dia de mortos quando ele nasceu
e ele foi chamado Ferdinando
era novembro então
quando ele nasceu
não um novembro qualquer
era novembro de um ano
e dezoito anos depois havia guerra
Ferdinando foi à guerra
Ferdinando foi ferido
Ferdinando foi levado no colo por um colega até a trincheira
o colega voltou
o colega buscou
outro ferido
e com ele no colo pisou numa mina
era dia de São Fernando
e ele nasceu
era dois de dezembro quando seu filho nasceu
era um mês depois do dia de mortos
quando seu filho nasceu
era um dia de outono, era um dia de vivos
lá fora nevava quando seu filho nasceu
Ferdinando brincava
nasci um mês antes de meu filho
nasci no dia de mortos
nasci no dia do santo
era dia de mortos
era um dia de outono
era novembro de um ano
era São Fernando
era um dia de outono
era dois de dezembro
era um dia de outono
era seis de janeiro
quando Antonio morreu
quando Antonio morreu
seu pai já havia morrido
quando Antonio morreu
era dia de reis
era dia de reis
710
Sérgio Medeiros
Tudo para atiçar o riso dos…
Coça-se o passarinho num fio diante do mar
Enquanto avançam recrutas correndo e vociferando
Pela praia iluminada
— o passarinho decerto compara o pelotão que se aproxima com as ondas do mar; e o vê afastar-se
— só diante do mar ele bica com determinação os seus piolhos
Enquanto avançam recrutas correndo e vociferando
Pela praia iluminada
— o passarinho decerto compara o pelotão que se aproxima com as ondas do mar; e o vê afastar-se
— só diante do mar ele bica com determinação os seus piolhos
791
Ricardo Aleixo
CANTIGA DE CAMINHO
Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
sei rezar latim pro nobis
sou primo do preto Brás
Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
vou vivendo como vivo
faço o que ninguém mais faz
Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sei somar zero com zero
e ainda divido por dois
Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sempre que posso eu passo
o carro à frente dos bois
Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
sou rosa e pedra no caminho
sou capaz de guerra e paz
Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
dou volta e meia no mundo
e o mundo não acaba mais
meu pai é de Minas Gerais
sei rezar latim pro nobis
sou primo do preto Brás
Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
vou vivendo como vivo
faço o que ninguém mais faz
Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sei somar zero com zero
e ainda divido por dois
Desde menino eu misturo
o antes, o agora e o depois
sempre que posso eu passo
o carro à frente dos bois
Sou filho de pai mineiro
mamãe é de Minas Gerais
sou rosa e pedra no caminho
sou capaz de guerra e paz
Sou filho de mãe mineira
meu pai é de Minas Gerais
dou volta e meia no mundo
e o mundo não acaba mais
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