Poemas neste tema
Guerra e Paz
Gonzaga Leão
A praça
Não te chamo a passeio pela praça
porque a praça morreu e está cercada
de muros. Há estranhos operários
trabalhando: em luga de pá e enxada
usam feios fuzis e sabres sujos.
E as árvores da praça assassinada
já não podem dar flor nem dar mais fruto
nem mesmo a sombra amiga e desejada.
Por isso não te chamo para a praça
com este céu de manhã quase noturno
e operários estranhos e fardados.
Peço-te apenas que me dês a mão
e juntos amassemos nosso pão
que se é feito de amor não sai amargo.
porque a praça morreu e está cercada
de muros. Há estranhos operários
trabalhando: em luga de pá e enxada
usam feios fuzis e sabres sujos.
E as árvores da praça assassinada
já não podem dar flor nem dar mais fruto
nem mesmo a sombra amiga e desejada.
Por isso não te chamo para a praça
com este céu de manhã quase noturno
e operários estranhos e fardados.
Peço-te apenas que me dês a mão
e juntos amassemos nosso pão
que se é feito de amor não sai amargo.
1 079
1
Alberto de Serpa
Espetáculo
Passa a tropa na rua e abrem-se as janelas de repente,
Debruçam-se bustos sobre a rua sem importância.
O sol põe resplendores no ouro falso das bandeiras
E rebrilha nas baionetas erguidas para o céu.
Alarga-se no ar um hino de guerra e de heroísmo,
E a marcha certa dos soldados hirtos e compenetrados
de que são outros homens
Faz, a seu compasso resoluto, bater
O coração dos habitantes da rua sossegada ...
Os meninos vêem finalmente marchar os seus soldados de chumbo ...
As moças sonham desfalecer nos braços dos heróis
E agitam os seus lenços ao vento da manhã...
Só dentro de uma janela que há de abrir-se na noite,
Uma mulher triste olha para longe sem ver
E leva o lenço aos olhos encharcados ...
Debruçam-se bustos sobre a rua sem importância.
O sol põe resplendores no ouro falso das bandeiras
E rebrilha nas baionetas erguidas para o céu.
Alarga-se no ar um hino de guerra e de heroísmo,
E a marcha certa dos soldados hirtos e compenetrados
de que são outros homens
Faz, a seu compasso resoluto, bater
O coração dos habitantes da rua sossegada ...
Os meninos vêem finalmente marchar os seus soldados de chumbo ...
As moças sonham desfalecer nos braços dos heróis
E agitam os seus lenços ao vento da manhã...
Só dentro de uma janela que há de abrir-se na noite,
Uma mulher triste olha para longe sem ver
E leva o lenço aos olhos encharcados ...
1 473
1
Fernando Pessoa
Um cansaço feliz, uma tristeza informe
Um cansaço feliz, uma tristeza informe
O meu espírito intranquilamente dorme.
Combati, fui o gládio e o braço e a intenção
E dói-me a alma na alma e no gládio e na mão...
Meu gládio está caído aos meus pés... um torpor
Impregna de cansaço a minha própria dor...
O meu espírito intranquilamente dorme.
Combati, fui o gládio e o braço e a intenção
E dói-me a alma na alma e no gládio e na mão...
Meu gládio está caído aos meus pés... um torpor
Impregna de cansaço a minha própria dor...
4 152
1
Amália Bautista
A mulher do soldado
Recebi-o a chorar de alegria.
Regressava tão sujo e tão faminto
que dava nojo a qualquer um.
Sujo na farda, de sangue próprio
e alheio; faminto nos olhos
de um corpo de mulher à espera.
Beijei-lhe a lama e o sangue da boca
e lambi-lhe as feridas como um cão.
Amava-o, não podia fazer-me nojo.
Nem sequer me importou que rasgasse
com brusco deleite as meias de seda
que me esturraram as economias.
Não conseguia perguntar-lhe
se teve medo e pensou em fugir.
De novo o tinha. Regressado.
O resto não importava.
Regressava tão sujo e tão faminto
que dava nojo a qualquer um.
Sujo na farda, de sangue próprio
e alheio; faminto nos olhos
de um corpo de mulher à espera.
Beijei-lhe a lama e o sangue da boca
e lambi-lhe as feridas como um cão.
Amava-o, não podia fazer-me nojo.
Nem sequer me importou que rasgasse
com brusco deleite as meias de seda
que me esturraram as economias.
Não conseguia perguntar-lhe
se teve medo e pensou em fugir.
De novo o tinha. Regressado.
O resto não importava.
625
Daniel Francoy
O MEU LUGAR NO ESTADO DAS COISAS
Conheço o meu lugar no estado das coisas
e não ouso dizer o sentimento do mundo.
O jardim renovado, os hibiscos em flor
não são o planeta inteiro e tampouco
o meu coração. Antes, são uma mentira
que frutificou melhor do que um poema.
Um simples arranjo de cores, como bananas
num quadro de natureza morta, como cédulas
antigas de dinheiro, tornadas singelas
porque agora nada valem e ninguém
– nem mesmo eu – viverá por elas.
Apenas um modo de se enternecer,
de talvez pedir perdão, uma maneira
sutil de não se confundir com os assassinos,
uma impotente variação do verbo resistir,
um pacífico modo de calar a boca,
de não gritar, de não se render
ao coração pleno de napalm, de estar
entre vizinhos no país ocupado.
e não ouso dizer o sentimento do mundo.
O jardim renovado, os hibiscos em flor
não são o planeta inteiro e tampouco
o meu coração. Antes, são uma mentira
que frutificou melhor do que um poema.
Um simples arranjo de cores, como bananas
num quadro de natureza morta, como cédulas
antigas de dinheiro, tornadas singelas
porque agora nada valem e ninguém
– nem mesmo eu – viverá por elas.
Apenas um modo de se enternecer,
de talvez pedir perdão, uma maneira
sutil de não se confundir com os assassinos,
uma impotente variação do verbo resistir,
um pacífico modo de calar a boca,
de não gritar, de não se render
ao coração pleno de napalm, de estar
entre vizinhos no país ocupado.
678
Daniel Francoy
CLARIDADE
Se ao menos não houvesse dúvidas:
é aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo úmida,
tem como raízes vísceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana D’Arc é queimada e ascende
ainda mais translúcida do que a brisa
desfeita pela fuligem – é aquela hora
de árvores inertes e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplássemos: arde
a cidade e somos nós os saqueadores,
nós os negros, nós os gregos, nós as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
por uma suspeita que jamais se confirma.
O que será esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de vento uivando durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
a pedra escura queimando o peito –
mas não: é meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.
é aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo úmida,
tem como raízes vísceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana D’Arc é queimada e ascende
ainda mais translúcida do que a brisa
desfeita pela fuligem – é aquela hora
de árvores inertes e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplássemos: arde
a cidade e somos nós os saqueadores,
nós os negros, nós os gregos, nós as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
por uma suspeita que jamais se confirma.
O que será esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de vento uivando durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
a pedra escura queimando o peito –
mas não: é meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.
1 214
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Cavalo Alazão
Era um cavalo alazão, e à sua volta a batalha acendia-se como um tição de
coragem.
As crinas eram cor da flor da romãzeira e as orelhas tinham a forma das
folhas de mirto.
No peito, ao meio da cor vermelha, abria-se uma estrela branca, como as
bolhas claras que nascem numa taça de vinho rubro.
coragem.
As crinas eram cor da flor da romãzeira e as orelhas tinham a forma das
folhas de mirto.
No peito, ao meio da cor vermelha, abria-se uma estrela branca, como as
bolhas claras que nascem numa taça de vinho rubro.
1 156
Herberto Helder
Oração Magica Finlandesa Para Estancar o Sangue Das Feridas
Pára, sangue, de correr,
de ressaltar aos borbotões,
de me inundar como torrente,
de me brotar sobre o flanco.
Como contra uma parede,
imóvel como uma sebe,
lírio marinho direito
como espadana na espuma,
como pedra no talude
e o recife na corrente.
Sangue, sangue, se o desejo
te faz correr com tal força,
circula dentro da carne,
abraça-te aos ossos vivos.
Belo, belo que é correr
na obscura pele compacta,
sussurrando nas artérias,
murmurando contra os ossos.
Pára, sangue, de correr
sobre a fria terra morta.
Não corras, leite, no chão,
sangue inocente no vale,
beleza humana entre a erva,
oiro de heróis na colina.
Desce fundo ao coração,
bate surdo nos pulmões,
desce, desce fundamente
aos órgãos vivos do corpo.
Não és rio que se escoe,
nem calmo lago parado,
nem fonte que brote assim,
nem barca velha com rombos.
de ressaltar aos borbotões,
de me inundar como torrente,
de me brotar sobre o flanco.
Como contra uma parede,
imóvel como uma sebe,
lírio marinho direito
como espadana na espuma,
como pedra no talude
e o recife na corrente.
Sangue, sangue, se o desejo
te faz correr com tal força,
circula dentro da carne,
abraça-te aos ossos vivos.
Belo, belo que é correr
na obscura pele compacta,
sussurrando nas artérias,
murmurando contra os ossos.
Pára, sangue, de correr
sobre a fria terra morta.
Não corras, leite, no chão,
sangue inocente no vale,
beleza humana entre a erva,
oiro de heróis na colina.
Desce fundo ao coração,
bate surdo nos pulmões,
desce, desce fundamente
aos órgãos vivos do corpo.
Não és rio que se escoe,
nem calmo lago parado,
nem fonte que brote assim,
nem barca velha com rombos.
1 041
Herberto Helder
Quatro Poemas Árabes - Divisa
Conhecem-me os cavalos e a noite e os desertos
traiçoeiros e a guerra e as feridas e o papel e a pena.
traiçoeiros e a guerra e as feridas e o papel e a pena.
1 251
Herberto Helder
Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle - Celebração da Cidade do México
I
Estende-se a cidade em círculos de esmeralda:
extraordinária México, oh plumagem ardente.
Por toda a parte passam em barcos os guerreiros,
através da nação, como bruma florida.
Ó ser que dás a vida, aqui é o teu lugar.
Aqui é que se ergue o teu grande louvor,
através da nação, como bruma de pétalas.
Brancos salgueiros e gladíolos brancos — cidade do México.
Desdobra as tuas asas, ó garça-real azul.
Desdobra as tuas asas e a tua cauda redonda,
porque vives na cidade como uma verdade profunda,
como neve florida.
Reina a cidade entre nenúfares de esmeralda,
sob a esmeralda do resplendor solar:
e os príncipes regressam como neve florida.
Ó ser que dás a vida, aqui é a tua casa.
Aqui é que ressoa o teu grande louvor.
Sobre os brancos salgueiros e os ciprestes brancos,
passas voando, ó garça-real azul.
Através da nação desdobras as asas soberbas,
a tua cauda redonda.
Que viva para sempre nesta cidade profusa o
deus em quem se apoiam
o alto céu, a terra funda — ele, o rei
da vossa mortal tristeza.
E erguem-se os gritos antes da batalha.
O guerreiro faz crescer a aurora
através da cidade florida.
E todos regressam sob os leques de plumas,
sob as caudas abertas de assombrosas pedrarias.
— Nas mãos do deus,
um suspiro de tristeza dobra o guerreiro
como um arco.
Estende-se a cidade em círculos de esmeralda:
extraordinária México, oh plumagem ardente.
Por toda a parte passam em barcos os guerreiros,
através da nação, como bruma florida.
Ó ser que dás a vida, aqui é o teu lugar.
Aqui é que se ergue o teu grande louvor,
através da nação, como bruma de pétalas.
Brancos salgueiros e gladíolos brancos — cidade do México.
Desdobra as tuas asas, ó garça-real azul.
Desdobra as tuas asas e a tua cauda redonda,
porque vives na cidade como uma verdade profunda,
como neve florida.
Reina a cidade entre nenúfares de esmeralda,
sob a esmeralda do resplendor solar:
e os príncipes regressam como neve florida.
Ó ser que dás a vida, aqui é a tua casa.
Aqui é que ressoa o teu grande louvor.
Sobre os brancos salgueiros e os ciprestes brancos,
passas voando, ó garça-real azul.
Através da nação desdobras as asas soberbas,
a tua cauda redonda.
Que viva para sempre nesta cidade profusa o
deus em quem se apoiam
o alto céu, a terra funda — ele, o rei
da vossa mortal tristeza.
E erguem-se os gritos antes da batalha.
O guerreiro faz crescer a aurora
através da cidade florida.
E todos regressam sob os leques de plumas,
sob as caudas abertas de assombrosas pedrarias.
— Nas mãos do deus,
um suspiro de tristeza dobra o guerreiro
como um arco.
1 142
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Cavalo Branco
Alvo como luz quando o sol se levanta — orgulhoso avançava, ajaezado com
a sela de ouro.
Vendo-o caminhar atrás de mim para a guerra, disse alguém:
«Quem pôs bridas à aurora com as Pléiades e selou o relâmpago com o
crescente lunar?»
a sela de ouro.
Vendo-o caminhar atrás de mim para a guerra, disse alguém:
«Quem pôs bridas à aurora com as Pléiades e selou o relâmpago com o
crescente lunar?»
988
Herberto Helder
64
limoeiros, riachos, faúlhas, montes levantados ao de cima da cabeça,
alguém amado com uma estrela esmagada contra o rosto como para
indiciá-lo,
frio aroma respirado muito,
inesperados membros que a luz trabalha,
ou é a luz que é inesperada com os membros dentro dela: dança,
o medo,
quer dizer: o paraíso, o inferno,
no uso expansivo das palavras, por exemplo: poemas
como foi possível escrevê-los antes ou depois de Auschwitz?
no corpo até se fazer osso,
até que fosse apenas uma ferida,
Auschwitz é sempre contra os mesmos,
e sempre se escreveu na língua do inimigo,
e escreve-se nessa língua porque é preciso que o inimigo não compreenda
nunca,
ou é preciso resgatar a língua do seu crime imprevisível
mas quem ronda lá fora as minhas ásperas moradas,
e rosna resvés ao rosto, quem, e em
que língua se estrangula,
que fomes o devoram,
que nomes loucos o destroem?
e é nesse instante mesmo que o poema retoma a sua fala bárbara,
e aí, nas líricas ignições, encontra o assassino,
Auschwitz é o dia imparcial, às vezes
leve com água raspando ao lado ou os lábios sobre as pálpebras,
ou quando vem nos jornais:
política, artes & letras, coacções, corrupções, e a violência do dinheiro
estúpido
como é que um dia, nos montes, os dedos numa
estrela fundida na cara, à sombra das frutas, se puderam escrever, ou
não puderam,
fanopeia, melopeia, logopeia,
as coisas cruas?
Auschwitz é sempre, immer, e escreve-se ou por fora ou por dentro,
ou por baixo ou por cima, ou cara a cara, que é o melhor de tudo
e é cada vez mais perigoso, ou é o mesmo, ou é menos perigoso?
dados os termos dos tempos: à quoi bon aujourd’hui la poésie?
ou então: la poésie comme l’amour
gantes ou depois: de quem, de quê, de como ou quando?
immer, always, Auschwitz, sempre, toujours, em todas as línguas rie
alguém amado com uma estrela esmagada contra o rosto como para
indiciá-lo,
frio aroma respirado muito,
inesperados membros que a luz trabalha,
ou é a luz que é inesperada com os membros dentro dela: dança,
o medo,
quer dizer: o paraíso, o inferno,
no uso expansivo das palavras, por exemplo: poemas
como foi possível escrevê-los antes ou depois de Auschwitz?
no corpo até se fazer osso,
até que fosse apenas uma ferida,
Auschwitz é sempre contra os mesmos,
e sempre se escreveu na língua do inimigo,
e escreve-se nessa língua porque é preciso que o inimigo não compreenda
nunca,
ou é preciso resgatar a língua do seu crime imprevisível
mas quem ronda lá fora as minhas ásperas moradas,
e rosna resvés ao rosto, quem, e em
que língua se estrangula,
que fomes o devoram,
que nomes loucos o destroem?
e é nesse instante mesmo que o poema retoma a sua fala bárbara,
e aí, nas líricas ignições, encontra o assassino,
Auschwitz é o dia imparcial, às vezes
leve com água raspando ao lado ou os lábios sobre as pálpebras,
ou quando vem nos jornais:
política, artes & letras, coacções, corrupções, e a violência do dinheiro
estúpido
como é que um dia, nos montes, os dedos numa
estrela fundida na cara, à sombra das frutas, se puderam escrever, ou
não puderam,
fanopeia, melopeia, logopeia,
as coisas cruas?
Auschwitz é sempre, immer, e escreve-se ou por fora ou por dentro,
ou por baixo ou por cima, ou cara a cara, que é o melhor de tudo
e é cada vez mais perigoso, ou é o mesmo, ou é menos perigoso?
dados os termos dos tempos: à quoi bon aujourd’hui la poésie?
ou então: la poésie comme l’amour
gantes ou depois: de quem, de quê, de como ou quando?
immer, always, Auschwitz, sempre, toujours, em todas as línguas rie
601
Herberto Helder
12
mal com as — soberbas! — pequenas putas que me ensinaram tudo
por amor d’el-rei, mal com el-rei por amor das putas?
bom é acabar —
mal com as academias por amor da língua portuguesa,
mal com tudo por amor do inferno,
mal com o fulgor dos dias perdidos,
uma a uma com as pessoas gerais que não conheço,
mal com tudo por amor de um pequeno e ínvio poema,
e mal ainda com o orvalho que aprisiona a borboleta
raríssima como um poema sumério,
bom é acabar mal com este petit monde à volta,
por amor do mundo que também me cerca incertamente,
o modo como te aproximas deste poema e se vê
que o teu nome é constelação,
tu tão fixa,
mal com tudo o mais por amor de ti, quente de tão impura,
tão móvel onde se aproxima o mundo que tanto tarda —
nos dicionários que abro ao acaso das línguas:
stella, queima-me tu as palmas das mãos,
depressa manto real depressa lençol de cima para baixo,
embrulha-me desembrulha porque ressuscito agora mesmo,
que afinal me envolves porque sim,
desata-me, nó de luz,
e ata-me depressa enquanto eles não sabem,
abraça-me,
abarca-me,
abrasa-me,
mal com a terra por amor dos caminhos marítimos,
a estas horas do sal espalhado fundo na noite,
quando se olhava da pedra preta a pique
e se dizia:
mergulha lá de cima a mão esquerda dá-que-dá
completamente bêbeda;
depois mão de basalto dormindo por baixo de algumas linhas
de espuma,
sim sim afinal escrevera um poema durante um reinado
de muitas guerras,
uma pouca de areia afogada quase imperceptível,
quando vinha o estio os banhistas batiam com os pés no fundo,
ou alguém mergulhava para apanhar moedas
redondas, triangulares, quadradas, esféricas,
de ouro, de prata, de bronze,
moedas cunhadas ao mesmo tempo que se passava o sal
grosso de mão em mão,
não nunca jamais ninguém deu por nada
— a essa pouca mão, a esse pouco de escrita
insensata, sensível, canhota,
se calhar, que sei eu?, devo a vida,
e se a vida, a minha, me vale de alguma coisa,
não para fortuna do mundo,
mas para mim mesmo que respiro enquanto escrevo,
embora possa haver quem o não creia ou não queira,
então, para acabar, agradeço como acabo:
estupor velho e relho,
um bom sacana
por amor d’el-rei, mal com el-rei por amor das putas?
bom é acabar —
mal com as academias por amor da língua portuguesa,
mal com tudo por amor do inferno,
mal com o fulgor dos dias perdidos,
uma a uma com as pessoas gerais que não conheço,
mal com tudo por amor de um pequeno e ínvio poema,
e mal ainda com o orvalho que aprisiona a borboleta
raríssima como um poema sumério,
bom é acabar mal com este petit monde à volta,
por amor do mundo que também me cerca incertamente,
o modo como te aproximas deste poema e se vê
que o teu nome é constelação,
tu tão fixa,
mal com tudo o mais por amor de ti, quente de tão impura,
tão móvel onde se aproxima o mundo que tanto tarda —
nos dicionários que abro ao acaso das línguas:
stella, queima-me tu as palmas das mãos,
depressa manto real depressa lençol de cima para baixo,
embrulha-me desembrulha porque ressuscito agora mesmo,
que afinal me envolves porque sim,
desata-me, nó de luz,
e ata-me depressa enquanto eles não sabem,
abraça-me,
abarca-me,
abrasa-me,
mal com a terra por amor dos caminhos marítimos,
a estas horas do sal espalhado fundo na noite,
quando se olhava da pedra preta a pique
e se dizia:
mergulha lá de cima a mão esquerda dá-que-dá
completamente bêbeda;
depois mão de basalto dormindo por baixo de algumas linhas
de espuma,
sim sim afinal escrevera um poema durante um reinado
de muitas guerras,
uma pouca de areia afogada quase imperceptível,
quando vinha o estio os banhistas batiam com os pés no fundo,
ou alguém mergulhava para apanhar moedas
redondas, triangulares, quadradas, esféricas,
de ouro, de prata, de bronze,
moedas cunhadas ao mesmo tempo que se passava o sal
grosso de mão em mão,
não nunca jamais ninguém deu por nada
— a essa pouca mão, a esse pouco de escrita
insensata, sensível, canhota,
se calhar, que sei eu?, devo a vida,
e se a vida, a minha, me vale de alguma coisa,
não para fortuna do mundo,
mas para mim mesmo que respiro enquanto escrevo,
embora possa haver quem o não creia ou não queira,
então, para acabar, agradeço como acabo:
estupor velho e relho,
um bom sacana
673
Herberto Helder
Profano, Prático, Público, Político, Presto
profano, prático, público, político, presto, profundo, precário,
improvável poema,
contudo
nem eu estava à espera dos bárbaros que viriam devastar a terra,
porque éramos inocentes,
nós que só queríamos silêncio,
e a voz diria que se fosse preciso traziam Deus,
e é sim possível que trouxessem qualquer espectáculo com cristos nus e saltimbancos de feira,
e paus vermelhos,
paus amarelos,
paus virgens com linho ou algodão pintado,
paus compridos com petúnias como borboletas:
e eu achava inadmissível,
e tinha a meio da minha própria linguagem a dor sozinha em que súbito se repara,
e de que o poema se faz carregado e quente,
e não explicava nada,
e lá vinham os bárbaros como no episódio de Alexandria,
mais uma vez depois de Cavafis,
incendiada pelos soldados de César e do califa Ornar,
por franceses e ingleses e todos os outros bárbaros,
por todos os incapazes da medida intrínseca,
a densa meditação que conduz ao poema puro,
e nunca, nunca mais a paixão,
e então o centro mesmo do mundo é o centro de Alexandria,
livros, música, mão calígrafa movendo-se ainda,
olhos fechados víamos atrás das pálpebras a nossa vida ardente e muda e lenta,
e a carne desde o imo desfazia-se num soluço,
magoada, humana,
alexandrina,
e o mundo era pequeno,
mais pequeno com certeza que um poema de um verso único,
universo:
oh nunca mais quero viver no mundo!
improvável poema,
contudo
nem eu estava à espera dos bárbaros que viriam devastar a terra,
porque éramos inocentes,
nós que só queríamos silêncio,
e a voz diria que se fosse preciso traziam Deus,
e é sim possível que trouxessem qualquer espectáculo com cristos nus e saltimbancos de feira,
e paus vermelhos,
paus amarelos,
paus virgens com linho ou algodão pintado,
paus compridos com petúnias como borboletas:
e eu achava inadmissível,
e tinha a meio da minha própria linguagem a dor sozinha em que súbito se repara,
e de que o poema se faz carregado e quente,
e não explicava nada,
e lá vinham os bárbaros como no episódio de Alexandria,
mais uma vez depois de Cavafis,
incendiada pelos soldados de César e do califa Ornar,
por franceses e ingleses e todos os outros bárbaros,
por todos os incapazes da medida intrínseca,
a densa meditação que conduz ao poema puro,
e nunca, nunca mais a paixão,
e então o centro mesmo do mundo é o centro de Alexandria,
livros, música, mão calígrafa movendo-se ainda,
olhos fechados víamos atrás das pálpebras a nossa vida ardente e muda e lenta,
e a carne desde o imo desfazia-se num soluço,
magoada, humana,
alexandrina,
e o mundo era pequeno,
mais pequeno com certeza que um poema de um verso único,
universo:
oh nunca mais quero viver no mundo!
1 078
Herberto Helder
Não, Obrigado, Estou Bem, Nada de Novo,
não, obrigado, estou bem, nada de novo,
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
1 016
Bernardo Pinto de Almeida
Hotel Spleen 2
Não. Não a ferida — dor de nós mesmos
condição corrente nos tempos que vão
a disfarçar numa sombra de estoicismo
o que se vê de longe à vista desarmada,
ainda que isso apenas forma ténue
passagem de um vapor no horizonte.
A mulher que da sala para a cozinha
leva nas mãos o peso que sustenta a casa
sua força hipotecada
a uma ordem qualquer do universo,
o gesto solícito do porteiro diante da gorjeta
criança que chora no berço.
Tudo isso — por consideração que se lhe deva —
por injusto que seja, conduta imperativa
jogo da finança fortuna nos casinos
acidentes vários combustão do mundo
não chega para assinalar o que parece impor
a tristeza que de dentro do mundo cobre o mundo.
Fina, subtil dor que nos renega nos rasga
nos deixa a braços com nada
presença do que foge do que ficou por dizer
sem mistério nem medo
mas ainda assim ao lado do que interessa
abaixo, acima do que interessa.
A forma que a tristeza toma tantas vezes
quando num olhar magoado que se ergue
um só fio de voz do outro lado
frágil segurança que numa teia se teceu.
Canção do cabaré voz gemida do travesti
voz nostálgica na rádio riso desbotado.
Pathos do medo ou da obscuridade
sorriso trémulo junto a um túmulo deserto
luzir dos olhos sob a lágrima, boca que estremece
diante do mundo trágico )cómico( até fúnebre
— não a alma as suas expressões
a compaixão do mundo.
A lucidez da real- politik o fausto das largas avenidas
seus transeuntes inebriados de luz, pobres, sem- abrigo
a dor compassiva dos gestos suburbanos
que se vestem à noite no silêncio dos quartos
deusas num cinema doméstico: ainda
a consciência deste fio de vida
gotejando como se por uma brecha.
O que avariou para sempre
passo em falso no trapézio
momento sem grandeza em que se fecha:
como chamar-lhe sem convocar num lapso
as formas heróicas do dizer?
Senão no braço magro de sida
que estende ao fio do candeeiro um gesto último
brutal a solidão que no berço anuncia o seu destino
mundo de dor e suspeita não mais escapável
náufrago que ao longe de uma vez se afunda
horizontes que contemplam deslumbrantes poentes.
Inevitável tragédia cobre-nos, dia após dia
cada vez que uma mão se solta de outra
riso não coincide com o riso que o suscita
olhar com o olhar que o procura
a casa já não está onde ainda ontem parecia
sólida serena inexpugnável.
É então cósmico esse grave silêncio
que desce como um manto sobre as coisas
poeira de estrelas devastadas do arrefecimento
que aos pouco sobre todos vai caindo
obedecendo a princípios anteriores a tudo?
Caos reina em toda a parte.
Guerra em toda a parte:
fio de nada em volta da cabeça: negrume
indiferença para que todos trabalham sem descanso.
Está cansada a manhã se ao levantar-se
não surpreende o mundo como a rosa que foi
o mar que já não encontra areia mas um muro
a voz quando o telefone se desliga
ou se faz nela sentir o peso a dor contida
daqueles que envelhecem em silêncio?
Envelheceu o mundo:
reduziu-se ao pouco mais que nada
mesmo se por debaixo do maior barulho.
Ainda que de si a si nada atormente mais
o velho que morre abandonado sobre a cama
o que se asfixiou se pendurou na cela
em vez da estrada firme preferiu
momento sem nome sequer tempo lá dentro
a amplitude do salto sobre qualquer vazio?
Tudo então é silêncio?
condição corrente nos tempos que vão
a disfarçar numa sombra de estoicismo
o que se vê de longe à vista desarmada,
ainda que isso apenas forma ténue
passagem de um vapor no horizonte.
A mulher que da sala para a cozinha
leva nas mãos o peso que sustenta a casa
sua força hipotecada
a uma ordem qualquer do universo,
o gesto solícito do porteiro diante da gorjeta
criança que chora no berço.
Tudo isso — por consideração que se lhe deva —
por injusto que seja, conduta imperativa
jogo da finança fortuna nos casinos
acidentes vários combustão do mundo
não chega para assinalar o que parece impor
a tristeza que de dentro do mundo cobre o mundo.
Fina, subtil dor que nos renega nos rasga
nos deixa a braços com nada
presença do que foge do que ficou por dizer
sem mistério nem medo
mas ainda assim ao lado do que interessa
abaixo, acima do que interessa.
A forma que a tristeza toma tantas vezes
quando num olhar magoado que se ergue
um só fio de voz do outro lado
frágil segurança que numa teia se teceu.
Canção do cabaré voz gemida do travesti
voz nostálgica na rádio riso desbotado.
Pathos do medo ou da obscuridade
sorriso trémulo junto a um túmulo deserto
luzir dos olhos sob a lágrima, boca que estremece
diante do mundo trágico )cómico( até fúnebre
— não a alma as suas expressões
a compaixão do mundo.
A lucidez da real- politik o fausto das largas avenidas
seus transeuntes inebriados de luz, pobres, sem- abrigo
a dor compassiva dos gestos suburbanos
que se vestem à noite no silêncio dos quartos
deusas num cinema doméstico: ainda
a consciência deste fio de vida
gotejando como se por uma brecha.
O que avariou para sempre
passo em falso no trapézio
momento sem grandeza em que se fecha:
como chamar-lhe sem convocar num lapso
as formas heróicas do dizer?
Senão no braço magro de sida
que estende ao fio do candeeiro um gesto último
brutal a solidão que no berço anuncia o seu destino
mundo de dor e suspeita não mais escapável
náufrago que ao longe de uma vez se afunda
horizontes que contemplam deslumbrantes poentes.
Inevitável tragédia cobre-nos, dia após dia
cada vez que uma mão se solta de outra
riso não coincide com o riso que o suscita
olhar com o olhar que o procura
a casa já não está onde ainda ontem parecia
sólida serena inexpugnável.
É então cósmico esse grave silêncio
que desce como um manto sobre as coisas
poeira de estrelas devastadas do arrefecimento
que aos pouco sobre todos vai caindo
obedecendo a princípios anteriores a tudo?
Caos reina em toda a parte.
Guerra em toda a parte:
fio de nada em volta da cabeça: negrume
indiferença para que todos trabalham sem descanso.
Está cansada a manhã se ao levantar-se
não surpreende o mundo como a rosa que foi
o mar que já não encontra areia mas um muro
a voz quando o telefone se desliga
ou se faz nela sentir o peso a dor contida
daqueles que envelhecem em silêncio?
Envelheceu o mundo:
reduziu-se ao pouco mais que nada
mesmo se por debaixo do maior barulho.
Ainda que de si a si nada atormente mais
o velho que morre abandonado sobre a cama
o que se asfixiou se pendurou na cela
em vez da estrada firme preferiu
momento sem nome sequer tempo lá dentro
a amplitude do salto sobre qualquer vazio?
Tudo então é silêncio?
654
Matilde Campilho
Pedra Explodida Na Mão do Monge
Penso em astronautas
não penso em árvores chinesas
penso na contagem dos cabelos
não penso em punhais
disfarçados de arma desportiva
Penso em camisas vermelhas
em minha camisa vermelha
com um pequeno buraco
na zona lombar
Penso no êxodo
dos vendedores de picolé
nas migrações pendulares
penso em garrafas vazias
penso em tanques de guerra
penso em jabuticaba & acarajé
Penso no rosto e nos braços
da cantora de Santo Amaro
penso em pipas e em meninos
soltando pipas.
não penso em árvores chinesas
penso na contagem dos cabelos
não penso em punhais
disfarçados de arma desportiva
Penso em camisas vermelhas
em minha camisa vermelha
com um pequeno buraco
na zona lombar
Penso no êxodo
dos vendedores de picolé
nas migrações pendulares
penso em garrafas vazias
penso em tanques de guerra
penso em jabuticaba & acarajé
Penso no rosto e nos braços
da cantora de Santo Amaro
penso em pipas e em meninos
soltando pipas.
1 120
Pero da Ponte
Foi-S'o Meu Amigo Daqui
Foi-s'o meu amigo daqui
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
577
Pero da Ponte
O Mui Bom Rei Que Conquis a Fronteira
O mui bom rei que conquis a fronteira
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.
A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.
Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!
Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!
E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia
de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.
A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.
Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!
Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!
E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia
de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
555
João Soares Coelho
Joam Fernández, o Mund'é Torvado
Joam Fernández, o mund'é torvado
e, de pram, cuidamos que quer fiir:
veemo'lo Emperador levantado
contra Roma, e Tártaros viir,
e ar veemos aqui dom pedir
Joam Fernández, o mouro cruzado.
E sempre esto foi profetizado
par dous e cinco sinaes da fim:
seer o mundo assi como é miscrado,
e ar torná'-s'o mouro pelegrim
- Joam Fernández, creed'est'a mi[m]
que sõo home [mui] bem leterado.
E se nom foss'o Antecristo nado,
nom averria esto que avém:
nem fiar[a] o senhor no malado
nen'o malado [e]no senhor rem,
nem ar iria a Ierusalém
Joam Fernández, [o] nom bautiçado.
e, de pram, cuidamos que quer fiir:
veemo'lo Emperador levantado
contra Roma, e Tártaros viir,
e ar veemos aqui dom pedir
Joam Fernández, o mouro cruzado.
E sempre esto foi profetizado
par dous e cinco sinaes da fim:
seer o mundo assi como é miscrado,
e ar torná'-s'o mouro pelegrim
- Joam Fernández, creed'est'a mi[m]
que sõo home [mui] bem leterado.
E se nom foss'o Antecristo nado,
nom averria esto que avém:
nem fiar[a] o senhor no malado
nen'o malado [e]no senhor rem,
nem ar iria a Ierusalém
Joam Fernández, [o] nom bautiçado.
295
João Baveca
Bernal Fendudo, Quero-Vos Dizer
Bernal Fendudo, quero-vos dizer
o que façades, pois vos querem dar
armas e "dona salvage" chamar:
se vos com mouros lid'acaecer,
sofrede-os, ca todos vos ferrám,
e, dando colbes em vós, cansarám,
e havedes pois vós a vencer.
E ali log', u s'há lide a volver,
verrám-vos deles deante colpar;
des i os outros, por vos nom errar,
ar querram-vos por alhur cometer;
mais sofrede[-os], feiram per u quer,
ca, se vos Deus em armas bem fezer,
ferindo em vós, ham eles de caer.
Pero, com’há mui gram gente a seer,
muitas vezes vos ham a derrobar;
mais sempre vos havedes a cobrar
e eles ham mais a enfraquecer,
pero nom quedarám de vos ferir
de todas partes; mais, ao [fiir],
todos morrerám em vosso poder.
o que façades, pois vos querem dar
armas e "dona salvage" chamar:
se vos com mouros lid'acaecer,
sofrede-os, ca todos vos ferrám,
e, dando colbes em vós, cansarám,
e havedes pois vós a vencer.
E ali log', u s'há lide a volver,
verrám-vos deles deante colpar;
des i os outros, por vos nom errar,
ar querram-vos por alhur cometer;
mais sofrede[-os], feiram per u quer,
ca, se vos Deus em armas bem fezer,
ferindo em vós, ham eles de caer.
Pero, com’há mui gram gente a seer,
muitas vezes vos ham a derrobar;
mais sempre vos havedes a cobrar
e eles ham mais a enfraquecer,
pero nom quedarám de vos ferir
de todas partes; mais, ao [fiir],
todos morrerám em vosso poder.
602
Afonso X
O Genete
O genete
pois remete
seu alfaraz corredor
estremece
e esmorece
o coteife com pavor.
Vi coteifes orpelados
estar mui mal espantados
e genetes trosquiados
corriam-nos arredor;
tinham-nos mal aficados
[ca] perdian'a color.
Vi coteifes de gram brio
eno meio do estio
estar tremendo sem frio
ant'os mouros d'Azamor;
e ia-se deles rio
que Auguadalquivir maior.
Vi eu de coteifes azes,
com infanções iguazes,
mui peores ca rapazes;
e houveram tal pavor,
que os seus panos d'arrazes
tornarom doutra color.
Vi coteifes com arminhos,
conhecedores de vinhos,
e rapazes dos martinhos
que nom tragiam senhor
sairom aos mesquinhos,
e fezerom o peor.
Vi coteifes e cochões
com mui [mais] longos granhões
que as barvas dos cabrões:
[e] ao som do atambor
os deitavam dos arções
ant'os pees de seu senhor.
pois remete
seu alfaraz corredor
estremece
e esmorece
o coteife com pavor.
Vi coteifes orpelados
estar mui mal espantados
e genetes trosquiados
corriam-nos arredor;
tinham-nos mal aficados
[ca] perdian'a color.
Vi coteifes de gram brio
eno meio do estio
estar tremendo sem frio
ant'os mouros d'Azamor;
e ia-se deles rio
que Auguadalquivir maior.
Vi eu de coteifes azes,
com infanções iguazes,
mui peores ca rapazes;
e houveram tal pavor,
que os seus panos d'arrazes
tornarom doutra color.
Vi coteifes com arminhos,
conhecedores de vinhos,
e rapazes dos martinhos
que nom tragiam senhor
sairom aos mesquinhos,
e fezerom o peor.
Vi coteifes e cochões
com mui [mais] longos granhões
que as barvas dos cabrões:
[e] ao som do atambor
os deitavam dos arções
ant'os pees de seu senhor.
661
Afonso X
Dom Foão, Quand'ogan'aqui Chegou
Dom Foão, quand'ogan'aqui chegou
primeirament'e viu volta e guerra,
tam gram sabor houve d'ir a sa terra
que log'entom por adail filhou
seu coraçom; e el fez-lh'i leixar,
polo mais toste da guerr'alongar,
prez e esforço - e passou a serra.
Em esto fez come de bõo sem:
em filhar adail que conhocia,
que estes passos maos bem sabia,
e el guardou-o log'entom mui bem
deles e fez-l[h]'i de destro leixar
lealdad'e de seestro lidar
[...........................ia].
O adail e[ra] mui sabedor,
que o guiou per aquela carreira:
porque [o] fez desguiar da fronteira
e em tal guerra leixar seu senhor;
e direi-vos al que lh'i fez leixar:
bem que pudera fazer por ficar,
feze-o poer além Talaveira.
Muito foi ledo, se Deus me perdom,
quando se viu daqueles passos fora
que vos já dix', e diss'em essa hora:
- Par Deus, adail, muit'hei gram razom
de sempr'em vós mia fazenda leixar,
ca nom me mova d[aqu]este logar
se jamais nunca cuidei passar Lora!
E ao Demo vou acomendar
prez deste mundo, e armas, e lidar,
ca nom é jog'o de que homem chora.
primeirament'e viu volta e guerra,
tam gram sabor houve d'ir a sa terra
que log'entom por adail filhou
seu coraçom; e el fez-lh'i leixar,
polo mais toste da guerr'alongar,
prez e esforço - e passou a serra.
Em esto fez come de bõo sem:
em filhar adail que conhocia,
que estes passos maos bem sabia,
e el guardou-o log'entom mui bem
deles e fez-l[h]'i de destro leixar
lealdad'e de seestro lidar
[...........................ia].
O adail e[ra] mui sabedor,
que o guiou per aquela carreira:
porque [o] fez desguiar da fronteira
e em tal guerra leixar seu senhor;
e direi-vos al que lh'i fez leixar:
bem que pudera fazer por ficar,
feze-o poer além Talaveira.
Muito foi ledo, se Deus me perdom,
quando se viu daqueles passos fora
que vos já dix', e diss'em essa hora:
- Par Deus, adail, muit'hei gram razom
de sempr'em vós mia fazenda leixar,
ca nom me mova d[aqu]este logar
se jamais nunca cuidei passar Lora!
E ao Demo vou acomendar
prez deste mundo, e armas, e lidar,
ca nom é jog'o de que homem chora.
338
Afonso X
Vi Um Coteife de Mui Gram Granhom
Vi um coteife de mui gram granhom
com seu porponto, mais nom d'algodom,
e com sas calças velhas de branqueta.
E dix'eu logo: - Poilas guerras som,
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mao, val[a]di,
com seu perponto - nunca peior vi,
ca nom quer Deus que s'el em outro meta.
E dix'eu: - Pois las guerras [já som i]
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mal guisad'e vil,
com seu perponto todo de pavil
e o cordom d'ouropal por joeta.
E dix'eu: - Pois se vai o aguazil,
ai que coteife pera a carreta!
com seu porponto, mais nom d'algodom,
e com sas calças velhas de branqueta.
E dix'eu logo: - Poilas guerras som,
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mao, val[a]di,
com seu perponto - nunca peior vi,
ca nom quer Deus que s'el em outro meta.
E dix'eu: - Pois las guerras [já som i]
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mal guisad'e vil,
com seu perponto todo de pavil
e o cordom d'ouropal por joeta.
E dix'eu: - Pois se vai o aguazil,
ai que coteife pera a carreta!
639