Poemas neste tema
Infância
Ruy Belo
Vício de matar
Para onde há-de ir billy the kid?
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
869
Ruy Belo
Imaginatio locorum
Era uma vez talvez algum país de sinos
de sons entreouvidos no passado
constantemente renovado de quem morre cada dia
e forra de manhãs o interior dos olhos
pastor de escolhos vários entre os limos e os nimbos
Talvez ainda agora haja crianças
ou venha no inverno saudar-nos o verão
Talvez primeiros passos olhos limpos
escolas jogos coisas novamente novas haja ainda
Sob as pontes do Tibre a mesma água correrá talvez
Talvez na minha tarde tudo caiba ainda
chuva no olhar ou ave núbil sobre a rubra Babilónia
e suba no entulho a derrocada casa cedo percorrida
ou nasçam nas regueiras pela primavera outra vez as rãs
- ah! poder eu molhar os meus actuais pés pela primeira vez
Caíram as maçãs onde nupcial algum rosto ondulava
havia muita gente a proteger-me
e não tinha talvez chovido ainda
Talvez possa chorar à periferia a beira-mar da minha vida
talvez seja cantar o último recurso
Talvez eu espere o mês possível entre abril e maio
o calmo manto sobre a agitação dos homens
a ilha - ó cisne, ó ilha branca de bondade -
a hora-pérola o rosto inabordável mas familiar
frequentes braços sobre penas e cansaços
a voz não conhecida e afinal a prometida
contida numa pedra branca e sempre nova apesar de sem cessar a mesma
Talvez além dos montes haja a única cidade
a do inverno dos pinhais do vento
dos novelos de vida além das evidentes oliveiras
do fim definitivo de semana
de cada um dos dias esmagados contra a mais aguda esquina
das lágrimas das névoas ou do mar
(afinal pouco mais neste país eu quis cantar:
talvez nem mesmo o mar nem uns olhos ocasionais
- todos aqueles por onde tu não vais
nem jamais podes ir)
Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz
Como saber de mim? Eu - que diabo! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes
É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais que nunca provisória
Não temos o direito à alegria nem talvez
ao próximo rumor do mar ditante
Nas margens do Halis talvez habite ainda
a esperança de que os deuses encham tudo
o cheiro do jornal a tragédia da música na rua
o coração fechado à primeira manhã
as tardes de novembro a dor de folha em folha
Talvez o persistente trigo esconda um pouco da verdade
Talvez seja de Deus o nosso tempo
E a alegria é uma casa demolida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 77 a 79 | Editorial Presença Lda., 1984
de sons entreouvidos no passado
constantemente renovado de quem morre cada dia
e forra de manhãs o interior dos olhos
pastor de escolhos vários entre os limos e os nimbos
Talvez ainda agora haja crianças
ou venha no inverno saudar-nos o verão
Talvez primeiros passos olhos limpos
escolas jogos coisas novamente novas haja ainda
Sob as pontes do Tibre a mesma água correrá talvez
Talvez na minha tarde tudo caiba ainda
chuva no olhar ou ave núbil sobre a rubra Babilónia
e suba no entulho a derrocada casa cedo percorrida
ou nasçam nas regueiras pela primavera outra vez as rãs
- ah! poder eu molhar os meus actuais pés pela primeira vez
Caíram as maçãs onde nupcial algum rosto ondulava
havia muita gente a proteger-me
e não tinha talvez chovido ainda
Talvez possa chorar à periferia a beira-mar da minha vida
talvez seja cantar o último recurso
Talvez eu espere o mês possível entre abril e maio
o calmo manto sobre a agitação dos homens
a ilha - ó cisne, ó ilha branca de bondade -
a hora-pérola o rosto inabordável mas familiar
frequentes braços sobre penas e cansaços
a voz não conhecida e afinal a prometida
contida numa pedra branca e sempre nova apesar de sem cessar a mesma
Talvez além dos montes haja a única cidade
a do inverno dos pinhais do vento
dos novelos de vida além das evidentes oliveiras
do fim definitivo de semana
de cada um dos dias esmagados contra a mais aguda esquina
das lágrimas das névoas ou do mar
(afinal pouco mais neste país eu quis cantar:
talvez nem mesmo o mar nem uns olhos ocasionais
- todos aqueles por onde tu não vais
nem jamais podes ir)
Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz
Como saber de mim? Eu - que diabo! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes
É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais que nunca provisória
Não temos o direito à alegria nem talvez
ao próximo rumor do mar ditante
Nas margens do Halis talvez habite ainda
a esperança de que os deuses encham tudo
o cheiro do jornal a tragédia da música na rua
o coração fechado à primeira manhã
as tardes de novembro a dor de folha em folha
Talvez o persistente trigo esconda um pouco da verdade
Talvez seja de Deus o nosso tempo
E a alegria é uma casa demolida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 77 a 79 | Editorial Presença Lda., 1984
1 254
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 120 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 120 | Editorial Presença Lda., 1984
986
Ruy Belo
Intervalo de vida
Inútil sol inútil chuva inútil céu
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses
Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros para elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas
E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais tarde nas costas de quem passámos
Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo
a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças
Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha de passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias
Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças
A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1984
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses
Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros para elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas
E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais tarde nas costas de quem passámos
Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo
a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças
Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha de passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias
Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças
A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1984
1 407
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (VII)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
Passa o proprietário e já não reconhece
talvez o operário inútil sob a messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 121 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
Passa o proprietário e já não reconhece
talvez o operário inútil sob a messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 121 | Editorial Presença Lda., 1984
1 129
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (III)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
riscada entre parede e tronco - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada
e que esta pobre vida para sempre seja
- Vê lá! - tão bem coberta que nem Deus a veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 119 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
riscada entre parede e tronco - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada
e que esta pobre vida para sempre seja
- Vê lá! - tão bem coberta que nem Deus a veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 119 | Editorial Presença Lda., 1984
951
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (II)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
O pátio gira, a mão que pega no pião
disputará um dia o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Levanta o braço a prumo, arrisca nessa roda
riscada nesse chão a tua infância toda
tudo é redondo e volta ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada
e que a vida que esqueço - a ser possível - seja
coberta de torrão, que Deus mesmo a não veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 118 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
O pátio gira, a mão que pega no pião
disputará um dia o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Levanta o braço a prumo, arrisca nessa roda
riscada nesse chão a tua infância toda
tudo é redondo e volta ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada
e que a vida que esqueço - a ser possível - seja
coberta de torrão, que Deus mesmo a não veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 118 | Editorial Presença Lda., 1984
1 135
Ruy Belo
Vila do Conde
O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 143 e 144 | Editorial Presença Lda., 1984
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 143 e 144 | Editorial Presença Lda., 1984
6 627
Ruy Belo
Quasi Flos
A morte é a verdade e a verdade é a morte
Tão contente de vento, ó folha que nomeio
como quem à passagem te colhesse,
palavra de que tu, ó árvore, dispões para vir até mim
do alto da tua inatingível condição
De muito longe vinda, inviável lembrança
indecisa nas mãos ou consentida
por alguma impossível infância
E a alegria é uma casa recém-construída
Face melhor de todos nós, ó folha
dos álamos nocturnos e antigos visitados pelo vento,
no calmo outono, o dos primeiros frios, sais
do ângulo dos olhos, acolhes-te ao poema
como no alto mês de maio a flor imóvel do jacarandá
Não há outro lugar para habitar
além dessa, talvez nem essa, época do ano
e uma casa é a coisa mais séria da vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 73 | Editorial Presença Lda., 1984
Tão contente de vento, ó folha que nomeio
como quem à passagem te colhesse,
palavra de que tu, ó árvore, dispões para vir até mim
do alto da tua inatingível condição
De muito longe vinda, inviável lembrança
indecisa nas mãos ou consentida
por alguma impossível infância
E a alegria é uma casa recém-construída
Face melhor de todos nós, ó folha
dos álamos nocturnos e antigos visitados pelo vento,
no calmo outono, o dos primeiros frios, sais
do ângulo dos olhos, acolhes-te ao poema
como no alto mês de maio a flor imóvel do jacarandá
Não há outro lugar para habitar
além dessa, talvez nem essa, época do ano
e uma casa é a coisa mais séria da vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 73 | Editorial Presença Lda., 1984
1 551
Ruy Belo
O templo
É onde se não vai directamente e no entanto o espaço vence
Muitos dos gestos para já não dizem nada
e sobretudo há o silêncio e há mãos para tudo
o que sobeja. Eu ia à minha vida
e entro e não sei da minha vida
Eu tinha gente à espera, assuntos sítios onde ir
e um amigo cresce cresce. E saio para a rua
e depressa - ai de mim - há fim em quanto faço
Já fui uma criança e quase sempre esqueço
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 109 | Editorial Presença Lda., 1984
Muitos dos gestos para já não dizem nada
e sobretudo há o silêncio e há mãos para tudo
o que sobeja. Eu ia à minha vida
e entro e não sei da minha vida
Eu tinha gente à espera, assuntos sítios onde ir
e um amigo cresce cresce. E saio para a rua
e depressa - ai de mim - há fim em quanto faço
Já fui uma criança e quase sempre esqueço
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 109 | Editorial Presença Lda., 1984
1 505
Ruy Belo
Ode do homem de pé
"O que vês, escreve-o"
Apoc., I,11
Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo
pelos passos lentos como o rolar dos anos
pelos dias vulgares cheios de maçãs
pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco
pelas crianças mal vestidas para a vida
nos bicos dos pés te saúdo
pela paixão que transferiu campaspe
do amor de alexandre então dono do mundo
pra o coração de apeles pintor pobre
que tinha como dom o simples dom de olhar
por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos
pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo
Oh como o sofrimento purifica minha rua
Ele passa-nos as mãos por todo o corpo
desce por nós como um olhar de mãe
e a mais agasalhada vida vê-se nua
Voz justificação de toda esta arquitectura que somos
chove a meu lado atrás de mim na minha frente
Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva
peço o teu concurso para cantar a rua à chuva
Rua onde as casas olham quase com desgosto
aquela que a seu lado é demolida
onde eu pecador me confesso e agradeço
este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira
passadas já segunda terça e quarta
e poder erguer as duas mãos acima da terra
rua onde passaram os meus pais
onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos
onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã
e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi
rua onde tudo ganhei tudo logo perdi
onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores
e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações
que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças
onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de todos os dias
e muitas outras coisas que depois esqueci
rua que me levaste a tanto sonho vão
que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer
bem pouco basta minha rua para fazer feliz o homem:
acender por exemplo repentinamente a luz
na sala onde pairava um certo mal-estar
o que dissipa como que para sempre a sua triste condição
Ou então na morte do escritor amigo recitar
o elogio fúnebre de há muito preparado
que se haverá de matar ainda mais o morto
a ele vivo terá por força de o imortalizar
Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida
A inquietação que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz
quando de pernas excessivamente livres
cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos
quando se me exigia o sacrifício dos olhares
e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida
Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua
ao fim de ti nem há já esse pequeno almoço
aonde pelo menos qualquer coisa começava
Não disponho de alento para muitos anos
Sinto-me velho: nasci em 33 estamos em 60
vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar
incapaz de lutar mandar obedecer
como que fiquei sempre à espera da maioridade
É tempo de assistir aos funerais dos amigos
começo a estar bom para jazer
«bom é acabar» - dizia o vice-rei
Já sou de deus deixei de ter idade rua
ele passou a ser a minha própria idade
não me levou em conta o céu antecipado
e se algum dia porventura alguma criatura me moveu
o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua
Se título algum tive já me vai caindo
só deus é minha veste e minha história
Que ele me abra ó rua a porta da palavra
Agora que por fim alguém em sua voz me chama
pelos rostos presentes pelo grande ausente
que me livrou num tempo de injustiça por tudo
ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 55 a 57 | Editorial Presença Lda., 1984
Apoc., I,11
Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo
pelos passos lentos como o rolar dos anos
pelos dias vulgares cheios de maçãs
pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco
pelas crianças mal vestidas para a vida
nos bicos dos pés te saúdo
pela paixão que transferiu campaspe
do amor de alexandre então dono do mundo
pra o coração de apeles pintor pobre
que tinha como dom o simples dom de olhar
por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos
pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo
Oh como o sofrimento purifica minha rua
Ele passa-nos as mãos por todo o corpo
desce por nós como um olhar de mãe
e a mais agasalhada vida vê-se nua
Voz justificação de toda esta arquitectura que somos
chove a meu lado atrás de mim na minha frente
Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva
peço o teu concurso para cantar a rua à chuva
Rua onde as casas olham quase com desgosto
aquela que a seu lado é demolida
onde eu pecador me confesso e agradeço
este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira
passadas já segunda terça e quarta
e poder erguer as duas mãos acima da terra
rua onde passaram os meus pais
onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos
onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã
e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi
rua onde tudo ganhei tudo logo perdi
onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores
e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações
que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças
onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de todos os dias
e muitas outras coisas que depois esqueci
rua que me levaste a tanto sonho vão
que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer
bem pouco basta minha rua para fazer feliz o homem:
acender por exemplo repentinamente a luz
na sala onde pairava um certo mal-estar
o que dissipa como que para sempre a sua triste condição
Ou então na morte do escritor amigo recitar
o elogio fúnebre de há muito preparado
que se haverá de matar ainda mais o morto
a ele vivo terá por força de o imortalizar
Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida
A inquietação que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz
quando de pernas excessivamente livres
cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos
quando se me exigia o sacrifício dos olhares
e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida
Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua
ao fim de ti nem há já esse pequeno almoço
aonde pelo menos qualquer coisa começava
Não disponho de alento para muitos anos
Sinto-me velho: nasci em 33 estamos em 60
vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar
incapaz de lutar mandar obedecer
como que fiquei sempre à espera da maioridade
É tempo de assistir aos funerais dos amigos
começo a estar bom para jazer
«bom é acabar» - dizia o vice-rei
Já sou de deus deixei de ter idade rua
ele passou a ser a minha própria idade
não me levou em conta o céu antecipado
e se algum dia porventura alguma criatura me moveu
o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua
Se título algum tive já me vai caindo
só deus é minha veste e minha história
Que ele me abra ó rua a porta da palavra
Agora que por fim alguém em sua voz me chama
pelos rostos presentes pelo grande ausente
que me livrou num tempo de injustiça por tudo
ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 55 a 57 | Editorial Presença Lda., 1984
1 663
Ruy Belo
O jogador do pião
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos - tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível de maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
E Abril traz o Senhor e até esse esquece
o operário inútil imolado à messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 117 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos - tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível de maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
E Abril traz o Senhor e até esse esquece
o operário inútil imolado à messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 117 | Editorial Presença Lda., 1984
1 484
Ruy Belo
Variações sobre O jogador do pião (I)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo arrisca nessa roda
riscada entre parede e tronco a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? nada
Mão do breve pião levanta ao céu a enxada
e que esta vida extensa para sempre seja
- será? - tão bem coberta que nem Deus a veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 117 e 118| Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo arrisca nessa roda
riscada entre parede e tronco a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? nada
Mão do breve pião levanta ao céu a enxada
e que esta vida extensa para sempre seja
- será? - tão bem coberta que nem Deus a veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 117 e 118| Editorial Presença Lda., 1984
1 237
Ruy Belo
Quirógrafo
É tão depressa dia e nada nos redime
Alguém não despertou ficou na noite
Vieram de manhã uns homens que varreram
a restante alegria destas ruas
A criança na roda entoará:
estão hoje fundos os pássaros
estão hoje fundos os pássaros
quem no-los tirará de lá?
Tão vasta como o mar a nossa dor
alguém nos poupará de nela naufragar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
Alguém não despertou ficou na noite
Vieram de manhã uns homens que varreram
a restante alegria destas ruas
A criança na roda entoará:
estão hoje fundos os pássaros
estão hoje fundos os pássaros
quem no-los tirará de lá?
Tão vasta como o mar a nossa dor
alguém nos poupará de nela naufragar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
1 183
Ruy Belo
As grandes insubmissões
As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.
Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ó maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ó maurício, não vens à aula?
O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 181 e 182 | Editorial Presença Lda., 1984
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.
Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ó maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ó maurício, não vens à aula?
O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 181 e 182 | Editorial Presença Lda., 1984
931
Ruy Belo
O Portugal futuro
O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984
1 586
Ruy Belo
Figura jacente
Meu rosto nasce desta condição horizontal
de quem tem a cobri-lo todo o seu cansaço
Deus teve para mim morte mais rasa
do que a morte que o sol encontra entre as águas
Desfez-se a curva última da estrada
nada ficou após meus gastos passos
Ninguém morrera ainda tanto como eu
só tive de estender um pouco mais o corpo
Sobre o meu rosto passam uma a uma as gerações
e vem lavar-me a água os velhos pés
E diz-me Deus, tão acessível como o mar nas praias:
-- Tu és cada vez mais aquilo que tu és
Há entre as oliveiras sítio para o sol
e a brisa da infância canta rindo nos ramos
entre o cheiro do giz e as canções da escola
Deus é perto de mim como uma árvore
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 94 | Editorial Presença Lda., 1984
de quem tem a cobri-lo todo o seu cansaço
Deus teve para mim morte mais rasa
do que a morte que o sol encontra entre as águas
Desfez-se a curva última da estrada
nada ficou após meus gastos passos
Ninguém morrera ainda tanto como eu
só tive de estender um pouco mais o corpo
Sobre o meu rosto passam uma a uma as gerações
e vem lavar-me a água os velhos pés
E diz-me Deus, tão acessível como o mar nas praias:
-- Tu és cada vez mais aquilo que tu és
Há entre as oliveiras sítio para o sol
e a brisa da infância canta rindo nos ramos
entre o cheiro do giz e as canções da escola
Deus é perto de mim como uma árvore
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 94 | Editorial Presença Lda., 1984
1 453
Nuno Júdice
Lição
É no verão que se aprende a poesia,
disseste; e em cada um dos verões que a vida
nos traz, em que se aprende e desaprende
o mais certo, entre o amor e a morte,
que cada um tem de saber. No quintal,
onde já não existe a romãzeira da infância,
ouvindo o vento que sobe da terra, trazendo
um antigo furor de ervas e raízes; ou
no largo aberto para o tempo que foi,
e esse que há-de vir. Abro contigo o livro
branco de todos os lugares e de todos
os nomes: o livro da poesia, aprendida
com o desfolhar dos verões, enquanto
as mães se despedem da vida, e uma baça
adolescência se confunde com a névoa
de agosto. Leio devagar, como se
interpretasse, e um fogo embarcado
nos olhos enfunasse a mais obscura
das imaginações: o verso, aprendido
no leito da memória, no verão em
que se aprende a poesia, disseste.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 23 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
disseste; e em cada um dos verões que a vida
nos traz, em que se aprende e desaprende
o mais certo, entre o amor e a morte,
que cada um tem de saber. No quintal,
onde já não existe a romãzeira da infância,
ouvindo o vento que sobe da terra, trazendo
um antigo furor de ervas e raízes; ou
no largo aberto para o tempo que foi,
e esse que há-de vir. Abro contigo o livro
branco de todos os lugares e de todos
os nomes: o livro da poesia, aprendida
com o desfolhar dos verões, enquanto
as mães se despedem da vida, e uma baça
adolescência se confunde com a névoa
de agosto. Leio devagar, como se
interpretasse, e um fogo embarcado
nos olhos enfunasse a mais obscura
das imaginações: o verso, aprendido
no leito da memória, no verão em
que se aprende a poesia, disseste.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 23 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 339
Ruy Belo
Saint-Malo 63
Eu curvo ante a infância a face embaciada
A praça é muito grande para uma criança
Ela estranha as pessoas do jardim,
criança abandonada, limitada vida renascente
e carne e riso
Olhamo-la encher tudo
e vamos cada qual às nossas compras
Já nada em nossos bolsos pesa nem pecados
de novo estamos disponíveis para a Primavera
e muito pequeninamente adormecemos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 99 | Editorial Presença Lda., 1984
A praça é muito grande para uma criança
Ela estranha as pessoas do jardim,
criança abandonada, limitada vida renascente
e carne e riso
Olhamo-la encher tudo
e vamos cada qual às nossas compras
Já nada em nossos bolsos pesa nem pecados
de novo estamos disponíveis para a Primavera
e muito pequeninamente adormecemos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 99 | Editorial Presença Lda., 1984
523
Ruy Belo
Toque de campainha
Entre rosa e a chuva é tudo solidão
Nenhuma mão vence a distância
que separa uma e outra ou no portão
começa e termina na infância
Ia jurar que outrora estive aqui
ou uma que não esta porta ao fim passarei
E tudo coube no olhar com que não vi
aquele rosto ali mas outro que não sei
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 49 | Editorial Presença Lda., 1984
Nenhuma mão vence a distância
que separa uma e outra ou no portão
começa e termina na infância
Ia jurar que outrora estive aqui
ou uma que não esta porta ao fim passarei
E tudo coube no olhar com que não vi
aquele rosto ali mas outro que não sei
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 49 | Editorial Presença Lda., 1984
1 002
Ruy Belo
As impossíveis crianças
Nesta manhã de outono dos primeiros frios
mais a caminho da velhice que da minha casa
eu vejo-vos em roda todas a cantar
Impossíveis crianças deixais-me brincar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 16 | Editorial Presença Lda., 1981
mais a caminho da velhice que da minha casa
eu vejo-vos em roda todas a cantar
Impossíveis crianças deixais-me brincar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 16 | Editorial Presença Lda., 1981
1 397
Ruy Belo
Condição da terra
A minha amada chega no ar dos pinhais
cingida de resina vária como o cedro
e a maresia. Levanta-se lábil
compromete solene o séquito da aurora
Ou vem sobre os rolos do mar
cheia de infância pequena de destino
Também a trazem às vezes aves como a pomba
que os mercadores ouviram
em países distantes. Tem brilhos
nos olhos de veado como se buscara
a grande fonte das águas
Que nome tem a minha amada?
Como chamá-la se nenhum
conceito a contempla ?
Em que palavra envolvê-la?
A minha amada não é da raça de estar
como o homem posta sobre a terra
Que pés lhe darão
este destino de serem mais ágeis do que nós os sonhos?
Ombro como o meu será lugar para ela?
Que anjo em mim a servirá?
Ai eu não sei como recebê-la
Eu sou da condição da terra
que tacteio de pé. Quase árvore
não me vestem convenientemente as estações
nem me comenta a sorte
o canto pontiagudo dos pássaros
Vem domesticamente minha amada
Receber-te-ei aquém dos olhos
com este humilde cabedal de dias
Mas basta que venhas quando eu diga
do alto de mim próprio sim à terra
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 25 | Editorial Presença Lda., 1984
cingida de resina vária como o cedro
e a maresia. Levanta-se lábil
compromete solene o séquito da aurora
Ou vem sobre os rolos do mar
cheia de infância pequena de destino
Também a trazem às vezes aves como a pomba
que os mercadores ouviram
em países distantes. Tem brilhos
nos olhos de veado como se buscara
a grande fonte das águas
Que nome tem a minha amada?
Como chamá-la se nenhum
conceito a contempla ?
Em que palavra envolvê-la?
A minha amada não é da raça de estar
como o homem posta sobre a terra
Que pés lhe darão
este destino de serem mais ágeis do que nós os sonhos?
Ombro como o meu será lugar para ela?
Que anjo em mim a servirá?
Ai eu não sei como recebê-la
Eu sou da condição da terra
que tacteio de pé. Quase árvore
não me vestem convenientemente as estações
nem me comenta a sorte
o canto pontiagudo dos pássaros
Vem domesticamente minha amada
Receber-te-ei aquém dos olhos
com este humilde cabedal de dias
Mas basta que venhas quando eu diga
do alto de mim próprio sim à terra
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 25 | Editorial Presença Lda., 1984
1 531
Ruy Belo
Na colina do instante
Há um cheiro de absinto quando os capricórnios
da casca apodrecida dos carvalhos velhos
iniciam seu voo pelo mês de junho
Colhemos avelãs ao longo do jardim
onde as tílias ao vento espalham o aroma
A frescura da fruta vence o sol rasante
Somos quem fomos caminhamos tão de leve
temos tamanha dignidade de crianças
que nem a morte aqui de nós se lembraria
nem mesmo a monstruosa flor de outros destinos
nem qualquer outra das repúblicas do ódio
encresparia o calmo mar do fim da tarde
É à celebração sagrada do acaso
à festa da essência mineral do mundo
que o sol procede no segredo deste templo
A tarde é tudo e tudo são caminhos
Somos eleitos cúmplices da hora
Aqui não chega o desatino do verão
esqueço a aversão dos meus antepassados
e levanto-me sobre a derradeira luz
Por instantes sou eu ninguém morreu aqui
ó minha vida esse processo que perdi
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 17 | Editorial Presença Lda., 1981
da casca apodrecida dos carvalhos velhos
iniciam seu voo pelo mês de junho
Colhemos avelãs ao longo do jardim
onde as tílias ao vento espalham o aroma
A frescura da fruta vence o sol rasante
Somos quem fomos caminhamos tão de leve
temos tamanha dignidade de crianças
que nem a morte aqui de nós se lembraria
nem mesmo a monstruosa flor de outros destinos
nem qualquer outra das repúblicas do ódio
encresparia o calmo mar do fim da tarde
É à celebração sagrada do acaso
à festa da essência mineral do mundo
que o sol procede no segredo deste templo
A tarde é tudo e tudo são caminhos
Somos eleitos cúmplices da hora
Aqui não chega o desatino do verão
esqueço a aversão dos meus antepassados
e levanto-me sobre a derradeira luz
Por instantes sou eu ninguém morreu aqui
ó minha vida esse processo que perdi
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 17 | Editorial Presença Lda., 1981
1 280
Jorge Luis Borges
La vuelta
Al cabo de los años del destierro
volví a la casa de mi infancia
y todavía me es ajeno su ámbito.
mis manos han tocado los árboles
como quien acaricia a alguien que duerme
y he repetido antiguos caminos
como si recobrara un verso olvidado
y vi al desparramarse la tarde
la frágil luna nueva
que se arrimó al amparo sombrío
de la palmera de hojas altas,
como a su nido el pájaro.
¡Qué caterva de cielos
abarcará entre sus paredes el patio,
cuánto heroico poniente
militará en la hondura de la calle
y cuánta quebradiza luna nueva
infundirá al jardín su ternura,
antes que vuelva a reconocerme la casa
y de nuevo sea un hábito!
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 38 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
volví a la casa de mi infancia
y todavía me es ajeno su ámbito.
mis manos han tocado los árboles
como quien acaricia a alguien que duerme
y he repetido antiguos caminos
como si recobrara un verso olvidado
y vi al desparramarse la tarde
la frágil luna nueva
que se arrimó al amparo sombrío
de la palmera de hojas altas,
como a su nido el pájaro.
¡Qué caterva de cielos
abarcará entre sus paredes el patio,
cuánto heroico poniente
militará en la hondura de la calle
y cuánta quebradiza luna nueva
infundirá al jardín su ternura,
antes que vuelva a reconocerme la casa
y de nuevo sea un hábito!
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 38 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 520