Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Miriam Paglia Costa
Iniciação à Leitura
meu
primeiro livro
O LIVRO DO BEBÊ
registra em letra de pai
às folhas tantas:
" com pouco menos de seis meses
arrancou a capa da história da raça humana"
a obra, que é de henry thomas
e comigo veio a lume em português
(assim se dizia em 1947)
começa: " foram necessários
quarenta milhões de anos
para que o macaco se transformasse
no homem-macaco"
se soma em soma
cada período aperfeiçoa a arte de matar
da pedrada ao aeroplano
hoje o livro está sem fim
(pouco sobrou do sucessivo manuseio)
nele é guerra mundial em pleno curso
ainda não explodiu a bomba atômica
impossível saber como termina
mas a primeira página também diz:
" o homem é uma criatura estúpida
e seu progresso tem sido muito lento"
graças a deus
o homem
(uma menina)
ainda não podia tudo
só a metáfora de estropiar a raça humana
primeiro livro
O LIVRO DO BEBÊ
registra em letra de pai
às folhas tantas:
" com pouco menos de seis meses
arrancou a capa da história da raça humana"
a obra, que é de henry thomas
e comigo veio a lume em português
(assim se dizia em 1947)
começa: " foram necessários
quarenta milhões de anos
para que o macaco se transformasse
no homem-macaco"
se soma em soma
cada período aperfeiçoa a arte de matar
da pedrada ao aeroplano
hoje o livro está sem fim
(pouco sobrou do sucessivo manuseio)
nele é guerra mundial em pleno curso
ainda não explodiu a bomba atômica
impossível saber como termina
mas a primeira página também diz:
" o homem é uma criatura estúpida
e seu progresso tem sido muito lento"
graças a deus
o homem
(uma menina)
ainda não podia tudo
só a metáfora de estropiar a raça humana
819
Nauro Machado
Com os dez dedos da mão
Falhei
de tudo o pouco que ainda pude:
se o ser real não pôde ser virtude,
e o irreal ser só pôde , em represália
dizer ao ser real, sem que o abale a
vida em mim a ser só da ilusão:
de ti já sou, por fim, teu falso irmão,
eis o peso da angústia, o enxofre do ouro,
onde enterrei meu possível tesouro.
Feito de quê? De sombra mais que luz,
na assombração debaixo de uma cruz.
descobri-me à verdade, enfim capaz
de oferecer-se a mim - dela incapaz -
mas, sobretudo, pão, rosa ou dejeto,
Uma verdade feita de alfabeto.
de tudo o pouco que ainda pude:
se o ser real não pôde ser virtude,
e o irreal ser só pôde , em represália
dizer ao ser real, sem que o abale a
vida em mim a ser só da ilusão:
de ti já sou, por fim, teu falso irmão,
eis o peso da angústia, o enxofre do ouro,
onde enterrei meu possível tesouro.
Feito de quê? De sombra mais que luz,
na assombração debaixo de uma cruz.
descobri-me à verdade, enfim capaz
de oferecer-se a mim - dela incapaz -
mas, sobretudo, pão, rosa ou dejeto,
Uma verdade feita de alfabeto.
1 506
Almandrade
II
O tema ronda
a lógica
invade
a língua
disparidades
não faz
insiste
inquebrável
ao menos
não diz
a razão
é um pensamento
sem saída.
a lógica
invade
a língua
disparidades
não faz
insiste
inquebrável
ao menos
não diz
a razão
é um pensamento
sem saída.
1 039
Regina Souza Vieira
Mensagem Impossível
Há palavras
que não se pronunciam
não se sibilam, sequer se murmuram
Com elas só pensamos, só dizemos
De nós para nós os nossos segredos
invioláveis a quaisquer ouvidos
que também em estando possuídos
de outros similares grandes enredos
não nos seriam de compreensão.
Há palavras imensas e caladas
No silêncio de nosso fundo interior
São palavras quase de grande horror
Nem seriam ouvidas, se ditas
Só interessam a nós mesmos.
Difícil é falar do homem, do ser
Que consigo mesmo, sozinho pensa
Num vocabulário que lhe é pessoal
Tendo de lhe ser todo especial
E só em seu coração ameniza
Tantas palavras estranhas e frias
que falando idioma estrangeiro.
Em tom solene de tão forasteiro
Desconhecem todas as nossas dores.
Há então no mundo um dicionário
De palavras, aos outros estranhas
Que em seus diferentes momentos
São ou de alegrias ou de tormentos
Mas são vocábulos particulares
Seres vivos em diferentes lares
Palavras chamadas a nos decifrar.
Mas nosso enigma é profundo
Difícil são idiomas se entenderem
Capazes de a nós nos decifrarem
Todos nós somos intraduzíveis.
que não se pronunciam
não se sibilam, sequer se murmuram
Com elas só pensamos, só dizemos
De nós para nós os nossos segredos
invioláveis a quaisquer ouvidos
que também em estando possuídos
de outros similares grandes enredos
não nos seriam de compreensão.
Há palavras imensas e caladas
No silêncio de nosso fundo interior
São palavras quase de grande horror
Nem seriam ouvidas, se ditas
Só interessam a nós mesmos.
Difícil é falar do homem, do ser
Que consigo mesmo, sozinho pensa
Num vocabulário que lhe é pessoal
Tendo de lhe ser todo especial
E só em seu coração ameniza
Tantas palavras estranhas e frias
que falando idioma estrangeiro.
Em tom solene de tão forasteiro
Desconhecem todas as nossas dores.
Há então no mundo um dicionário
De palavras, aos outros estranhas
Que em seus diferentes momentos
São ou de alegrias ou de tormentos
Mas são vocábulos particulares
Seres vivos em diferentes lares
Palavras chamadas a nos decifrar.
Mas nosso enigma é profundo
Difícil são idiomas se entenderem
Capazes de a nós nos decifrarem
Todos nós somos intraduzíveis.
717
Almandrade
V
O universo é incerto
sob meus pés
infinito como a língua
rebelde
uma cidade
na inmensidão da fala
sábios em silêncio
escutando a melodia
de um inseto
e o sopro do mar.
sob meus pés
infinito como a língua
rebelde
uma cidade
na inmensidão da fala
sábios em silêncio
escutando a melodia
de um inseto
e o sopro do mar.
949
Ana Cristina Cesar
Psicografia
Também eu
saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo(não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.
saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo(não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.
3 619
Carlos Nejar
Os Meus Sentidos
Um dia
vi Deus numa palavra
e luminosa despontava, argila.
E Deus vagueava tudo, aquietava
as numinosas letras, quase em fila.
E depois se banhava nesta ilha
de bosques e bilênios. Clareava
as formigas noctâmbulas da fala.
E nele os meus sentidos se nutriam.
Os meus sentidos eram coelhos ébrios
na verdura de Deus entretecidos.
A palavra empurrava o que era cego,
a palavra luzia nos sentidos.
E Deus nas vistas do menino, roda
e roda nos olhos da palavra.
vi Deus numa palavra
e luminosa despontava, argila.
E Deus vagueava tudo, aquietava
as numinosas letras, quase em fila.
E depois se banhava nesta ilha
de bosques e bilênios. Clareava
as formigas noctâmbulas da fala.
E nele os meus sentidos se nutriam.
Os meus sentidos eram coelhos ébrios
na verdura de Deus entretecidos.
A palavra empurrava o que era cego,
a palavra luzia nos sentidos.
E Deus nas vistas do menino, roda
e roda nos olhos da palavra.
1 513
Almandrade
I
A
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
936
Cora Coralina
O Passado
O
salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
"Clube Literário Goiano".
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.
Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.
Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.
D. Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.
O Passado...
Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?
Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
Que vale para eles o sobrado?
Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?...
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?
E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do passado.
salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
"Clube Literário Goiano".
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.
Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.
Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.
D. Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.
O Passado...
Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?
Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
Que vale para eles o sobrado?
Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?...
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?
E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do passado.
3 111
Ana Cristina Cesar
Deus na Antecâmera
Mereço(merecemos,
meretrizes)
Perdão(perdoai-nos, patres conscripti)
Socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)
Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sangüinária
(sangue e amor se aconchegando
horas atrás de hora)
Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero parir ao repartir
Filho
Pai
E
Fogo
DE-LI-BE-RA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós(com a gente) se dando
HOMEM: ACORDA!
meretrizes)
Perdão(perdoai-nos, patres conscripti)
Socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)
Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sangüinária
(sangue e amor se aconchegando
horas atrás de hora)
Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero parir ao repartir
Filho
Pai
E
Fogo
DE-LI-BE-RA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós(com a gente) se dando
HOMEM: ACORDA!
1 667
Regina Souza Vieira
Autocrítica
Aqui,
a sós.
Entre mim e o sonho
De cantar-te,
A voz
De que disponho
Sem engenho e arte...
Fraca e mal nascida,
Nasce,
E nunca digo de nós,
Da vida.
Do Sol
Que prossigo,
Com palavras-não-gastas...
Nasce,
E fica-se (tece)
A tristeza mole da derrota
Pelo mal que digo,
(Canto!)
A certeza da vitória
Nesta rota...
Espanto sem história
Neste esforço
De cantar-te?
Se és tão simples água
Ou sol nas veias,
Simples olhar límpido
De criança perpétua
Sem a primeira mágoa?!
Simples leveza de amar-te,
Simples esperança simples,
Maré-cheia e horizonte,
Escorço de linhas
Com o SOL lá, PÃO e FONTE!...
ah! minhas palavras minhas!
a sós.
Entre mim e o sonho
De cantar-te,
A voz
De que disponho
Sem engenho e arte...
Fraca e mal nascida,
Nasce,
E nunca digo de nós,
Da vida.
Do Sol
Que prossigo,
Com palavras-não-gastas...
Nasce,
E fica-se (tece)
A tristeza mole da derrota
Pelo mal que digo,
(Canto!)
A certeza da vitória
Nesta rota...
Espanto sem história
Neste esforço
De cantar-te?
Se és tão simples água
Ou sol nas veias,
Simples olhar límpido
De criança perpétua
Sem a primeira mágoa?!
Simples leveza de amar-te,
Simples esperança simples,
Maré-cheia e horizonte,
Escorço de linhas
Com o SOL lá, PÃO e FONTE!...
ah! minhas palavras minhas!
959
Silvaney Paes
Sega
Sega
Pela manhã
Menor que ti
Me viu o Sol
Não teus olhos
E se rasgou a poesia da Noite
Passada
Mais não finda
Viva ainda
Apenas não lida
Passou
Rugiu
Mais não se viu
Fugiu
E de ti
Poesia
Apenas cega
Esdrúxula
Sem métrica
Silêncio e vela
De nova era
Do nascer já cega
E pôr saber já negas
Esse amar barrela
E te fazes apenas.
Pela manhã
Menor que ti
Me viu o Sol
Não teus olhos
E se rasgou a poesia da Noite
Passada
Mais não finda
Viva ainda
Apenas não lida
Passou
Rugiu
Mais não se viu
Fugiu
E de ti
Poesia
Apenas cega
Esdrúxula
Sem métrica
Silêncio e vela
De nova era
Do nascer já cega
E pôr saber já negas
Esse amar barrela
E te fazes apenas.
1 022
Rosa Leonor Pedro
Quero Palavras Antigas
Quero palavras antigas, muito antigas
as mais antigas de todo o sempre:
A primeira de todas, a mais sagrada;
a palavra mágica que deu vida ao universo
e inteligência aos "hanimais" que somos.
Aquela que fez as águas aparecer primeiro
e depois as separou da terra.
Quero aquela palavra
que era o verbo e se fez carne,
que disse que o dia era bom e a noite também,
aquela mesma palavra
que fez com que da grande mãe nascesses
e fosses para sempre a imagem sagrada da mulher
sobre este planeta.
as mais antigas de todo o sempre:
A primeira de todas, a mais sagrada;
a palavra mágica que deu vida ao universo
e inteligência aos "hanimais" que somos.
Aquela que fez as águas aparecer primeiro
e depois as separou da terra.
Quero aquela palavra
que era o verbo e se fez carne,
que disse que o dia era bom e a noite também,
aquela mesma palavra
que fez com que da grande mãe nascesses
e fosses para sempre a imagem sagrada da mulher
sobre este planeta.
1 262
Sylvio Persivo
Poema da Passagem
Se das coisas findas e das que se findaram
Ficar alguma lição será a do passar.
Só o passar é infinito como o verbo
E, no entanto, a rosa e a poesia se conservam
E se conservam o tempo, o espaço, o ar, a luz.
A música, talvez, há de acabar
Ou toque e não se faça ouvir
(Sobreviverá algo estranho como o sentir
Ou o mistério da vida acabará ?).
As perguntas e as respostas não mais terão sentido
Nem se saberá o que é ter morrido
Porque o próprio saber não existirá
Quando o que sempre foi
Vier a ser o que será
E ninguém, nem quem me lê perceberá
Longínquos que ficamos no caminho.
Ficar alguma lição será a do passar.
Só o passar é infinito como o verbo
E, no entanto, a rosa e a poesia se conservam
E se conservam o tempo, o espaço, o ar, a luz.
A música, talvez, há de acabar
Ou toque e não se faça ouvir
(Sobreviverá algo estranho como o sentir
Ou o mistério da vida acabará ?).
As perguntas e as respostas não mais terão sentido
Nem se saberá o que é ter morrido
Porque o próprio saber não existirá
Quando o que sempre foi
Vier a ser o que será
E ninguém, nem quem me lê perceberá
Longínquos que ficamos no caminho.
882
André Aquino
Poemas Tristes
Às
vezes poemas querem dizer tanta coisa
Outras não dizem nada
Querem transformar letras mortas
Em vida animada
Decompor frases tortas
Em palavra certa ou errada
Poesias são restos de sentimento
Cacos de liberdade ou coisa parecida
Fragmentos de dor e pensamento
Centelhas de emoção que querem ganhar vida.
Poetas são eternos sofredores
Podem ser mentirosos ou fingidores
Uns falam de alegrias outros de amores
Alguns tentam transformar o que está invisível
Em algo que tenha cores
E podem trazer a tona às lágrimas represadas
Do que se julga um insensível
Poemas podem falar de tudo
Ensinar a um cego o que é vazio
Põe palavras na boca de um mudo
Sopra frases aos ouvidos de um surdo
Mas eu gosto de escrever poemas tristes
Cada verso é uma batida do meu coração
As palavras são como reflexos do meu olhar
São lugares onde me perco para poder achar
A dor de viver aflora nas frases desse poema emoção
Se alguém algum dia quiser saber por onde andei
Ou quem eu fui
Que leia os meus versos
Porque foi neles onde fui mais feliz onde mais amei
Nos meus versos sou mais do que poderia ser
Quero aqui para sempre poder viver.
Ser poeta é transformar a própria vida em poesia
Os dias são os versos
As horas são as frases
As palavras são o agora
Ser poeta é viver amando o que não pode ser amado
É sentir saudade de algo que ainda não aconteceu
É chorar até a ultima lágrima
É sorrir até o ultimo sorriso
Todos nós somos poetas
Porque todos nós amamos
Uma partícula de mim está dentro de você
Eu e você no mesmo coração...
vezes poemas querem dizer tanta coisa
Outras não dizem nada
Querem transformar letras mortas
Em vida animada
Decompor frases tortas
Em palavra certa ou errada
Poesias são restos de sentimento
Cacos de liberdade ou coisa parecida
Fragmentos de dor e pensamento
Centelhas de emoção que querem ganhar vida.
Poetas são eternos sofredores
Podem ser mentirosos ou fingidores
Uns falam de alegrias outros de amores
Alguns tentam transformar o que está invisível
Em algo que tenha cores
E podem trazer a tona às lágrimas represadas
Do que se julga um insensível
Poemas podem falar de tudo
Ensinar a um cego o que é vazio
Põe palavras na boca de um mudo
Sopra frases aos ouvidos de um surdo
Mas eu gosto de escrever poemas tristes
Cada verso é uma batida do meu coração
As palavras são como reflexos do meu olhar
São lugares onde me perco para poder achar
A dor de viver aflora nas frases desse poema emoção
Se alguém algum dia quiser saber por onde andei
Ou quem eu fui
Que leia os meus versos
Porque foi neles onde fui mais feliz onde mais amei
Nos meus versos sou mais do que poderia ser
Quero aqui para sempre poder viver.
Ser poeta é transformar a própria vida em poesia
Os dias são os versos
As horas são as frases
As palavras são o agora
Ser poeta é viver amando o que não pode ser amado
É sentir saudade de algo que ainda não aconteceu
É chorar até a ultima lágrima
É sorrir até o ultimo sorriso
Todos nós somos poetas
Porque todos nós amamos
Uma partícula de mim está dentro de você
Eu e você no mesmo coração...
832
Silvaney Paes
Desculpas
De uma
Flor do Lácio
Que de Bilac foi bela
De TI e de VÓS inculta era
Em meu poema feito de pressa.
De uma língua Linda e singela
Em que Camões, somente expressa.
Esplendida, bela, por mim impura.
Em meu poema feito de pressa
De muito ouvir a voz materna
Amou Drummond tão rude e bela
Mais que de mim desconhecida, fera.
Em um poema feito de pressa.
De esplendor e sepultura
Fui com Ti amada, injusta.
Mais não VÓS nega o amor e a ternura
Em meu poema feito de pressa
Flor do Lácio
Que de Bilac foi bela
De TI e de VÓS inculta era
Em meu poema feito de pressa.
De uma língua Linda e singela
Em que Camões, somente expressa.
Esplendida, bela, por mim impura.
Em meu poema feito de pressa
De muito ouvir a voz materna
Amou Drummond tão rude e bela
Mais que de mim desconhecida, fera.
Em um poema feito de pressa.
De esplendor e sepultura
Fui com Ti amada, injusta.
Mais não VÓS nega o amor e a ternura
Em meu poema feito de pressa
703
Silvaney Paes
Contido
Algo ofendeu a vida.
A poesia,
Ou o sentimento
Nela Contida?
..................
A saudade ou a dor
Ofenderam a vida.
Viu ter Deus
Nelas contidas?
...................
Não sabes?
São teus os dois
E tudo
Nela contida.
...................
E das folhas?
Viste vida
Ou viste morte
Nela contidas?
.................
Algo ofendeu a vida
Foi a poesia
E o sentimento
Nela contida.
A poesia,
Ou o sentimento
Nela Contida?
..................
A saudade ou a dor
Ofenderam a vida.
Viu ter Deus
Nelas contidas?
...................
Não sabes?
São teus os dois
E tudo
Nela contida.
...................
E das folhas?
Viste vida
Ou viste morte
Nela contidas?
.................
Algo ofendeu a vida
Foi a poesia
E o sentimento
Nela contida.
753
Aníbal Raposo
O Sangue do Poema
Duas lágrimas correm
Redondas e breves
Sobre este rectângulo branco
Onde se joga o sonho
Duas gotas de água
Solução saturada do sal
Das emoções à solta
Recebe-as o chão-da-palavra
Generoso, outonado, leve
Em breve brotará do solo
Primeiro encurvado e tímido
Depois confiante e vertical
Um singelo feto
Se pertences ao clã hermético
Dos recolectores de sonhos
Tenta arrancá-lo rápido
Provavelmente sentirás as mãos húmidas
Do sangue do poema
Redondas e breves
Sobre este rectângulo branco
Onde se joga o sonho
Duas gotas de água
Solução saturada do sal
Das emoções à solta
Recebe-as o chão-da-palavra
Generoso, outonado, leve
Em breve brotará do solo
Primeiro encurvado e tímido
Depois confiante e vertical
Um singelo feto
Se pertences ao clã hermético
Dos recolectores de sonhos
Tenta arrancá-lo rápido
Provavelmente sentirás as mãos húmidas
Do sangue do poema
1 073
Luiz Felipe Coelho
As Palavras
As palavras
se assustam
quando as acordamos de seu sono
nas páginas fechadas da memória,
como se acendéssemos a luz de um quarto
e acordássemos lemingues engaiolados
a sonhar com tocas, com frios
e com a escuridão ártica.
Só então dizem a verdade
pois ainda não ensaiaram outra coisa
e estão espantadas com os palácios que construíram,
sós, sem a ajuda da realidade
e onde nunca poderão habitar.
se assustam
quando as acordamos de seu sono
nas páginas fechadas da memória,
como se acendéssemos a luz de um quarto
e acordássemos lemingues engaiolados
a sonhar com tocas, com frios
e com a escuridão ártica.
Só então dizem a verdade
pois ainda não ensaiaram outra coisa
e estão espantadas com os palácios que construíram,
sós, sem a ajuda da realidade
e onde nunca poderão habitar.
924
Reinaldo Ferreira
Nasci poeta abstruso
Nasci poeta abstruso.
Amo as palavras que estão
Entre o arcaico e o difuso
No cerne da indecisão.
Prefiro adrede e gomil.
Digo delíquo e fanal.
E só descrevo um funil
Em termos-vaso-de-graal.
Mas nesta minha importância,
Neste sol que me irradia,
Nem Deus preenche a distância
Que vai de mim à Poesia.
Amo as palavras que estão
Entre o arcaico e o difuso
No cerne da indecisão.
Prefiro adrede e gomil.
Digo delíquo e fanal.
E só descrevo um funil
Em termos-vaso-de-graal.
Mas nesta minha importância,
Neste sol que me irradia,
Nem Deus preenche a distância
Que vai de mim à Poesia.
1 883
Reinaldo Ferreira
Ela, a Poesia de hoje
Ela, a Poesia de hoje,
Como que foge
De si mesma e se dói
De ter sido algum dia
Meramente poesia.
Erra,
Solitária e solene,
Nos caminhos da terra,
E vitupera o céu
E o que ele encerra:
- Ah! morra! Ah! esqueça Orfeu!
Canta a grilheta, a enxada
E a madrugada
Dos dias que hão-de-vir,
E como frutos, cair
Em nossas mãos...
Fala no imperativo,
E tem por vocativo
- Irmão! Irmãos!
Mas longe,
E perto, porque em nós,
Onde uma fonte canta
Uma toada clara,
Um fauno sabe e ri,
Na pedra gasta e escura,
Um fim de riso
De ironia rara...
Como que foge
De si mesma e se dói
De ter sido algum dia
Meramente poesia.
Erra,
Solitária e solene,
Nos caminhos da terra,
E vitupera o céu
E o que ele encerra:
- Ah! morra! Ah! esqueça Orfeu!
Canta a grilheta, a enxada
E a madrugada
Dos dias que hão-de-vir,
E como frutos, cair
Em nossas mãos...
Fala no imperativo,
E tem por vocativo
- Irmão! Irmãos!
Mas longe,
E perto, porque em nós,
Onde uma fonte canta
Uma toada clara,
Um fauno sabe e ri,
Na pedra gasta e escura,
Um fim de riso
De ironia rara...
1 523
Reinaldo Ferreira
Volver às rimas suaves
Volver às rimas suaves,
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores...
Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas dElvira,
Zelos de bardo, fatais...
Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores...
Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas dElvira,
Zelos de bardo, fatais...
Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.
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Reinaldo Ferreira
Marta
Marta,
Protagonista da tragédia ideada
E que eu não fiz,
De esperara que eu a criasse,
No meu intuito adormeceu feliz.
Dormiam lá também o sono antigo
Ilda, Miguel,
A lírica Raquel,
E todos quantos
Acham não ser comigo.
Aromas só
E pó antes do pó.
Agora chamo-a em vão,
Como quem vê levar,
E não entende,
Um filho no caixão.
E absurdo, alta noite,
Invoco a que se esconde:
Marta! Marta! Onde estás?
Não sei se me ouve ou não.
Mas não responde.
Protagonista da tragédia ideada
E que eu não fiz,
De esperara que eu a criasse,
No meu intuito adormeceu feliz.
Dormiam lá também o sono antigo
Ilda, Miguel,
A lírica Raquel,
E todos quantos
Acham não ser comigo.
Aromas só
E pó antes do pó.
Agora chamo-a em vão,
Como quem vê levar,
E não entende,
Um filho no caixão.
E absurdo, alta noite,
Invoco a que se esconde:
Marta! Marta! Onde estás?
Não sei se me ouve ou não.
Mas não responde.
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Reinaldo Ferreira
Póstumo fosse este poema!
Póstumo fosse este poema!
Movesse-te a piedade de eu estar morto
E fosses lê-lo! Havias
(Vejo daqui ensombrecer-te o rosto
A mágoa do momento!),
Havias de, sem mim,
Julgar maior a solidão
E crer no teu tormento.
Havias de buscar-me onde ninguém
Achou jamais alguém
Mais que distância e vaga imagem.
Havias de irmanar-me à folha solta,
Ao murmúrio do vento, ao céu, à nuvem
Movesse-te a piedade de eu estar morto
E fosses lê-lo! Havias
(Vejo daqui ensombrecer-te o rosto
A mágoa do momento!),
Havias de, sem mim,
Julgar maior a solidão
E crer no teu tormento.
Havias de buscar-me onde ninguém
Achou jamais alguém
Mais que distância e vaga imagem.
Havias de irmanar-me à folha solta,
Ao murmúrio do vento, ao céu, à nuvem
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