Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Valeria Braga
Poema
Poema
Imprimo no poema as minhas letras tatuadas,
letras vadias,
andarilhas,
ciganas sem baralhos.
Imprimo a letra da poesia por dentro do ventre
e dentro das gavetas, à chave.
Do poema, apenas imploro um olhar cheio de desejo,
que já sou lua
ou nem sei quem sou.
Pássaro colorido o poema que voa
por sobre os céus da minha cabeça,
por sobre o céu da minha boca.
E lá vou eu, mastigando as letras,
mastigando a palavra que nunca te disse,
passando a língua molhada em cada verso
de amor ou tristeza,
engolindo cada sílaba
como se sorve bebida, homem,
flor ou criança.
Bandida, a poesia
que dorme e acorda morta de sono
e não me deixa dormir
e não me deixa viver
e não me deixa.
Vem o poema e aperta o gatilho
e me fere no peito e me mata,
e me deixa mais tonta,
mais louca que sou.
E te aceito assim, te quero assim,
poema de todas as formas
como bicho, vida, sol e chão.
Imprimo no poema as minhas letras tatuadas,
letras vadias,
andarilhas,
ciganas sem baralhos.
Imprimo a letra da poesia por dentro do ventre
e dentro das gavetas, à chave.
Do poema, apenas imploro um olhar cheio de desejo,
que já sou lua
ou nem sei quem sou.
Pássaro colorido o poema que voa
por sobre os céus da minha cabeça,
por sobre o céu da minha boca.
E lá vou eu, mastigando as letras,
mastigando a palavra que nunca te disse,
passando a língua molhada em cada verso
de amor ou tristeza,
engolindo cada sílaba
como se sorve bebida, homem,
flor ou criança.
Bandida, a poesia
que dorme e acorda morta de sono
e não me deixa dormir
e não me deixa viver
e não me deixa.
Vem o poema e aperta o gatilho
e me fere no peito e me mata,
e me deixa mais tonta,
mais louca que sou.
E te aceito assim, te quero assim,
poema de todas as formas
como bicho, vida, sol e chão.
1 019
Vernaide Wanderley
Forragens e Desertos, nos
Versos da Escrivaninha
Minha escrivaninha é túmulo
e reboliço de lembranças;
armário entulhado de tormentas
e águas que retraçam rumos
e barram a invasão do tempo.
Sua desordem é castelo
e sertão dos meus desvelos;
redemoinho e povo desterrado,
exílio que modela dunas
e barra a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é mistério
nos fiapos do novelo que me tecem;
amor de gavetas, velhas bastilhas
e medo ou lucidez de resistências,
que barram a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é túmulo
e reboliço de lembranças;
armário entulhado de tormentas
e águas que retraçam rumos
e barram a invasão do tempo.
Sua desordem é castelo
e sertão dos meus desvelos;
redemoinho e povo desterrado,
exílio que modela dunas
e barra a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é mistério
nos fiapos do novelo que me tecem;
amor de gavetas, velhas bastilhas
e medo ou lucidez de resistências,
que barram a invasão do tempo.
747
Carlos Augusto Viana
Jorge Tuffic
I
O tempo, bem o sabes, escorre das mãos,
e todas as horas são abissais.
Em qualquer cidade, as ruas,
assim como o grande rio,
desembocam sobre o imponderável.
Por isso, teus pés aprenderam, muito cedo,
a desembrulhar os caminhos.
Tua passagem,
o espanto da abstrata carne.
Tua palavra,
o desespero das traças. Teu olho
sobre a mulher que flutuava à janela.
Tuas mãos
doadas aos jarros de flores murchas.
Teu peito,
um cais soçobrado na madrugada.
Muitas terras percorreste,
e hoje, cada uma delas,
dentro de ti, é inefável lavoura.
II
O teu país, hoje, veste-se de líquidos tecidos
e deixa em estilhaços os vidros do sol.
Da praia de Iracema, contemplas o mar,
a brancura extenuada de suas espumas,
onde gaivotas bicam a pele de sombras esbraseadas.
Além desse mar, por certo, estende-se o rio,
— a tua primeira cartilha de espantos.
Por certo, é sobre ele que lanças o teu olhar
quando te enches de longos fragmentos de silêncio.
Navegas na concha negra de suas lendas
e, náufrago, agarras-te à fúria silenciosa de suas margens.
III
Entre ti e o grande rio,
um secreto dicionário.
Com suas palavras-árvore,
com suas palavras-pássaro,
com suas palavras-pórtico,
com suas palavras-lótus.
Entre ti e o grande rio,
as léguas de um estuário.
Onde florescem os álamos,
onde adormecem os pântanos,
onde se tecem os cânticos,
onde fenecem as pátinas.
Entre ti e o grande rio,
Há um secreto calendário.
As horas de tuas lágrimas,
as horas enchendo cântaros,
as horas colhendo lâminas
as horas de teus átrios.
Entre ti e o grande rio,
há um tecido visionário.
Com que se cosem as túnicas
para os mais secretos ritos:
raízes das noites únicas,
húmus que alimentam mitos.
IV
Ainda hoje, conservas contigo
os trôpegos relâmpagos,
uma floresta de vozes,
o cristal da mais límpida estrela.
Ainda hoje, conservas contigo
o claro augúrio de Vésper
soletrando o silêncio dos mortos
que vencem o lodo da memória.
Ainda hoje, conservas contigo
a solidão e o diamante de seus gumes,
o barro e a insônia de sua herança,
o verbo e o labirinto de suas fábulas.
Mas, dentre todos os abismos,
— aquele que se esgarça
entre o rio e o mar,
é o que mais te alucina.
V
Estendeste — e ainda estendes — tuas mãos
para as flores crestadas, a cinza em vôo dos pássaros,
o cromo das esperas, o gesso da insônia,
a lâmina inexorável dos espelhos. Estendidas,
tuas mãos nos oferecem a Varanda de Pássaros,
o Chão sem Mácula, a Faturação do ócio,
a terra e o sangue cravados na Lâmina Agreste.
Cúmplices dos minerais e dos jardins,
das ruas ladrilhadas de silêncio,
dos gritos que tombam dos espelhos,
do sono geométrico dos peixes,
— tuas mãos estendidas para o que,
na carne, é flor e tortura.
Estendidas, tuas mãos não te pertencem,
mas ao que te olha desde que nasceste,
ao que te suga e ao que, realejo,
desfolha-se em música. Tuas mãos
— se estendidas — libertam-nos da ferrugem
e, água clara, banham a fadiga dos frutos.
VI
A poesia
(como descobriste?)
é um ser sem origem.
A poesia,
se há desertos,
abriga-se
em sua própria sombra.
A poesia,
ave solitária,
recusa
o ofertório das palmeiras.
A poesia,
lobo enrodilhado,
oferece a noite
a cada uma de suas presas.
A poesia tem rugas
como a pele de um rio.
Adormecem flautas
sob rochas antiquíssimas.
VII
Os pássaros, mais que as árvores,
deram-te lições de raízes. Os silêncios,
mais que as palavras, apontaram-te
a fragilidade. Teus olhos,
mais que os pés, sangraram
aos espinhos da pátria. A cítara,
mais que a lâmina, os dedos dilacerados.
A pétala, mais que a rosa,
o aroma irremediável. A pedra,
mais que a água, o musgo do efêmero.
A noite, mais que o dia,
a chama dos minutos.
o pó, mais que a carne,
à casa regressa.
O tempo, bem o sabes, escorre das mãos,
e todas as horas são abissais.
Em qualquer cidade, as ruas,
assim como o grande rio,
desembocam sobre o imponderável.
Por isso, teus pés aprenderam, muito cedo,
a desembrulhar os caminhos.
Tua passagem,
o espanto da abstrata carne.
Tua palavra,
o desespero das traças. Teu olho
sobre a mulher que flutuava à janela.
Tuas mãos
doadas aos jarros de flores murchas.
Teu peito,
um cais soçobrado na madrugada.
Muitas terras percorreste,
e hoje, cada uma delas,
dentro de ti, é inefável lavoura.
II
O teu país, hoje, veste-se de líquidos tecidos
e deixa em estilhaços os vidros do sol.
Da praia de Iracema, contemplas o mar,
a brancura extenuada de suas espumas,
onde gaivotas bicam a pele de sombras esbraseadas.
Além desse mar, por certo, estende-se o rio,
— a tua primeira cartilha de espantos.
Por certo, é sobre ele que lanças o teu olhar
quando te enches de longos fragmentos de silêncio.
Navegas na concha negra de suas lendas
e, náufrago, agarras-te à fúria silenciosa de suas margens.
III
Entre ti e o grande rio,
um secreto dicionário.
Com suas palavras-árvore,
com suas palavras-pássaro,
com suas palavras-pórtico,
com suas palavras-lótus.
Entre ti e o grande rio,
as léguas de um estuário.
Onde florescem os álamos,
onde adormecem os pântanos,
onde se tecem os cânticos,
onde fenecem as pátinas.
Entre ti e o grande rio,
Há um secreto calendário.
As horas de tuas lágrimas,
as horas enchendo cântaros,
as horas colhendo lâminas
as horas de teus átrios.
Entre ti e o grande rio,
há um tecido visionário.
Com que se cosem as túnicas
para os mais secretos ritos:
raízes das noites únicas,
húmus que alimentam mitos.
IV
Ainda hoje, conservas contigo
os trôpegos relâmpagos,
uma floresta de vozes,
o cristal da mais límpida estrela.
Ainda hoje, conservas contigo
o claro augúrio de Vésper
soletrando o silêncio dos mortos
que vencem o lodo da memória.
Ainda hoje, conservas contigo
a solidão e o diamante de seus gumes,
o barro e a insônia de sua herança,
o verbo e o labirinto de suas fábulas.
Mas, dentre todos os abismos,
— aquele que se esgarça
entre o rio e o mar,
é o que mais te alucina.
V
Estendeste — e ainda estendes — tuas mãos
para as flores crestadas, a cinza em vôo dos pássaros,
o cromo das esperas, o gesso da insônia,
a lâmina inexorável dos espelhos. Estendidas,
tuas mãos nos oferecem a Varanda de Pássaros,
o Chão sem Mácula, a Faturação do ócio,
a terra e o sangue cravados na Lâmina Agreste.
Cúmplices dos minerais e dos jardins,
das ruas ladrilhadas de silêncio,
dos gritos que tombam dos espelhos,
do sono geométrico dos peixes,
— tuas mãos estendidas para o que,
na carne, é flor e tortura.
Estendidas, tuas mãos não te pertencem,
mas ao que te olha desde que nasceste,
ao que te suga e ao que, realejo,
desfolha-se em música. Tuas mãos
— se estendidas — libertam-nos da ferrugem
e, água clara, banham a fadiga dos frutos.
VI
A poesia
(como descobriste?)
é um ser sem origem.
A poesia,
se há desertos,
abriga-se
em sua própria sombra.
A poesia,
ave solitária,
recusa
o ofertório das palmeiras.
A poesia,
lobo enrodilhado,
oferece a noite
a cada uma de suas presas.
A poesia tem rugas
como a pele de um rio.
Adormecem flautas
sob rochas antiquíssimas.
VII
Os pássaros, mais que as árvores,
deram-te lições de raízes. Os silêncios,
mais que as palavras, apontaram-te
a fragilidade. Teus olhos,
mais que os pés, sangraram
aos espinhos da pátria. A cítara,
mais que a lâmina, os dedos dilacerados.
A pétala, mais que a rosa,
o aroma irremediável. A pedra,
mais que a água, o musgo do efêmero.
A noite, mais que o dia,
a chama dos minutos.
o pó, mais que a carne,
à casa regressa.
1 166
Valeria Braga
Sobre a Página em Branco
Sobre a Página em Branco
Persisto em alguns minutos.
Persisto também nas palavras e sílabas
inconjuntas - o risco de conjugar.
Ainda mora dentro das minhas vísceras
um ruminar laborioso de tecer caminhos
e meu estômago se corrói: desejo alcalino
de gritar.
Mansa, a quietude da noite no dorso de um corcel
emerge e crava os dentes em minha face.
Quem sou eu pra contestar os teus delírios?
Na mesa, o ser pronta, o ser aceite
de todas as delícias e dilaceramentos.
Parir um sonho a cada dia - há que ser mãe.
Mãe inconteste, mãe entregue, seio exposto.
Leite, suor e lágrimas pra cria.
A renúncia extrema de ser livre a cada letra
ou a cada despertar da coragem.
Não morre a luta - guerreira, amazona
infatigável.
Contemplo e celebro. Rendo-me.
Há que ser mãe e mulher,
criança e dona do abandono.
Persisto em alguns minutos.
Persisto também nas palavras e sílabas
inconjuntas - o risco de conjugar.
Ainda mora dentro das minhas vísceras
um ruminar laborioso de tecer caminhos
e meu estômago se corrói: desejo alcalino
de gritar.
Mansa, a quietude da noite no dorso de um corcel
emerge e crava os dentes em minha face.
Quem sou eu pra contestar os teus delírios?
Na mesa, o ser pronta, o ser aceite
de todas as delícias e dilaceramentos.
Parir um sonho a cada dia - há que ser mãe.
Mãe inconteste, mãe entregue, seio exposto.
Leite, suor e lágrimas pra cria.
A renúncia extrema de ser livre a cada letra
ou a cada despertar da coragem.
Não morre a luta - guerreira, amazona
infatigável.
Contemplo e celebro. Rendo-me.
Há que ser mãe e mulher,
criança e dona do abandono.
775
Vitor L. Mendes
Poemas ao Vento
A poesia cavalga no sopro do vento.
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
1 094
Carlos Augusto Viana
A Báscula do Desejo
1O mar inventa canteiros nos cílios das areias,
multiplica-se no marulhar do ar nos grãos de milho
move-se em murmúrios nas conchas múltiplas do alpendre.
Estilhaços da chuva na memória:
um mapa embrulhado nas pálpebras,
um cavalo singrando o arco-íris,
um girassol se contorcendo num jarro.
2Teus peitos em chamas cobrem de espumas as ilhas,
as franjas do vento inauguram temporais.
Teu corpo se derrama, enorme, sobre as dunas
que a mão dos vendavais tece no litoral de novembro.
O amor são as patas do cavalo
sobre os espelhos das campinas,
o sol incendiando a penugem do canavial,
o mapa dos olhos no escuro,
uma cidade que se despe como um calendário.
O amor é um roçado de enigmas,
claros como o silêncio dos retratos,
iniludíveis como o olhar dos bois,
ávidos
como as mãos que cavam a terra
ou os pés que namoram caminhos.
Amar é escrever teu nome
no ventre de uma inacessível praia
onde adormecem um deus e as cordas de uma guitarra.
Amar é escrever teu nome
como se escreve um poema sem palavras,
assim como a noite se inscreve na solidão de um homem.
3O amor
se
pétala
sempre
exala
por isso
amar
não conserva arames
em suas léguas
4De teus olhos em água
saltam inscrições em fogo,
assim como existe um outro mar
que se desdobra além das ondas,
um calendário nas sombras
que se diluem nas paredes.
De teus olhos em água,
as inscrições em fogo
tingem de nova cor a paisagem
e dão às horas o enigma dos minerais.
Das inscrições em fogo,
o amor e sua linguagem de água,
o amor e suas sombras nas areias da memória.
o amor
e a escritura de seu abandono,
as tenebrosas buscas, as urtigas da dúvida,
o trigo interrompido, o gesto não pendoado,
o grão das horas a arder sob o sol das esperas.
O amor
e suas mãos que palmilham palavras,
o inatingível, o inumerável,
o que não se conhece, o que não se aprende jamais.
multiplica-se no marulhar do ar nos grãos de milho
move-se em murmúrios nas conchas múltiplas do alpendre.
Estilhaços da chuva na memória:
um mapa embrulhado nas pálpebras,
um cavalo singrando o arco-íris,
um girassol se contorcendo num jarro.
2Teus peitos em chamas cobrem de espumas as ilhas,
as franjas do vento inauguram temporais.
Teu corpo se derrama, enorme, sobre as dunas
que a mão dos vendavais tece no litoral de novembro.
O amor são as patas do cavalo
sobre os espelhos das campinas,
o sol incendiando a penugem do canavial,
o mapa dos olhos no escuro,
uma cidade que se despe como um calendário.
O amor é um roçado de enigmas,
claros como o silêncio dos retratos,
iniludíveis como o olhar dos bois,
ávidos
como as mãos que cavam a terra
ou os pés que namoram caminhos.
Amar é escrever teu nome
no ventre de uma inacessível praia
onde adormecem um deus e as cordas de uma guitarra.
Amar é escrever teu nome
como se escreve um poema sem palavras,
assim como a noite se inscreve na solidão de um homem.
3O amor
se
pétala
sempre
exala
por isso
amar
não conserva arames
em suas léguas
4De teus olhos em água
saltam inscrições em fogo,
assim como existe um outro mar
que se desdobra além das ondas,
um calendário nas sombras
que se diluem nas paredes.
De teus olhos em água,
as inscrições em fogo
tingem de nova cor a paisagem
e dão às horas o enigma dos minerais.
Das inscrições em fogo,
o amor e sua linguagem de água,
o amor e suas sombras nas areias da memória.
o amor
e a escritura de seu abandono,
as tenebrosas buscas, as urtigas da dúvida,
o trigo interrompido, o gesto não pendoado,
o grão das horas a arder sob o sol das esperas.
O amor
e suas mãos que palmilham palavras,
o inatingível, o inumerável,
o que não se conhece, o que não se aprende jamais.
1 640
Vitor Casimiro
Problema de Pontuação
Será Ponto-e-vígula
Diferente
De ponto ou
Vírgula,
Somente?
Que nada!
São esses dois pontos,
Reticentes
Que muito dizem
Entre parênteses!
Diferente
De ponto ou
Vírgula,
Somente?
Que nada!
São esses dois pontos,
Reticentes
Que muito dizem
Entre parênteses!
702
Vitor Casimiro
Quem Mais Poderia Ser?
Lembro-me bem
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.
1 015
Viviane Gehlen
Amor
Amor
No vazio da solidão,
a busca de uma palavra,
qualquer palavra....
No meio de tantas palavras
uma soa mais forte....
No meio de tantas vozes
uma ressoa no coração....
palavras que descrevem sentimentos
emoções
sonhos
Palavras, tantas
se cruzando
se encontrando
se confundindo
Depois uma voz
dizendo palavras
doces
suaves
amargas
tristes
sentimentais
emocionais
Sonhos compartilhados
dores divididas
solidão preenchida
Depois um corpo
olhos
boca
mãos
O toque
o beijo
a sensação
o sabor
o cheiro
a realização
Planos para o futuro
o futuro ao alcance da mão
Felicidade....
No vazio da solidão,
a busca de uma palavra,
qualquer palavra....
No meio de tantas palavras
uma soa mais forte....
No meio de tantas vozes
uma ressoa no coração....
palavras que descrevem sentimentos
emoções
sonhos
Palavras, tantas
se cruzando
se encontrando
se confundindo
Depois uma voz
dizendo palavras
doces
suaves
amargas
tristes
sentimentais
emocionais
Sonhos compartilhados
dores divididas
solidão preenchida
Depois um corpo
olhos
boca
mãos
O toque
o beijo
a sensação
o sabor
o cheiro
a realização
Planos para o futuro
o futuro ao alcance da mão
Felicidade....
797
Carlos Vogt
Obsesssäo
Outra vez o poema sonâmbulo
o sonho do poeta outra vez
agora perto
os pés
näo a forma
a mesma
ardente lisa fugidia pronta:
um ângulo reto
uma estrela de sombras
um poema ao revés.
(1991)
o sonho do poeta outra vez
agora perto
os pés
näo a forma
a mesma
ardente lisa fugidia pronta:
um ângulo reto
uma estrela de sombras
um poema ao revés.
(1991)
1 148
Salette Tavares
Espelho Cego
Eu leio o meu destino nos jornais.
Eu vejo os Signos do Domingo nos chifres do Carneiro
e creio
no regaço em que me leva algum planeta
a jogar no firmamento.
Osíres, ou sol da noite, ou estrela da terra
a vida é essa
que se esculpe na alma do poeta,
em ronde bosse,
em corpo inteiro...
e as mãos cegas
são só para saber mais devagar.
Minha cintura dorida
adeus supremo sem beijo
enche-me o peito de fome
geme silêncio o desejo.
Espreme-me frutas os braços
bebem-se vinho de março
grandes belos cabelos
com o vento no regaço
Alvorecer de um segredo
boca que a fruta pede
mar de ouro generoso
onde o meu barco se perde.
Eu vejo os Signos do Domingo nos chifres do Carneiro
e creio
no regaço em que me leva algum planeta
a jogar no firmamento.
Osíres, ou sol da noite, ou estrela da terra
a vida é essa
que se esculpe na alma do poeta,
em ronde bosse,
em corpo inteiro...
e as mãos cegas
são só para saber mais devagar.
Minha cintura dorida
adeus supremo sem beijo
enche-me o peito de fome
geme silêncio o desejo.
Espreme-me frutas os braços
bebem-se vinho de março
grandes belos cabelos
com o vento no regaço
Alvorecer de um segredo
boca que a fruta pede
mar de ouro generoso
onde o meu barco se perde.
1 854
Marcelo Tápia
a visão do poeta na tv
(angústia)
ao vê-lo na tela,
joão cabral de melo:
sem visão central
sem uma esperança
sem o olho do alvo
sem ponto de fuga
sem foco de apoio
seu "compreende?" soa
dito a cada frase
como a tentativa
de reter o ausente
que visto convence
como se o falado
só só se atingisse
quando dirigido
à meta do olhar
além do pensar
como se o pensado
só de fato o fosse
se olhado no centro
cravado no branco
como osso do verso
a cegueira faz
fazê-lo estranhar
as palavras ditas
escritas no ar:
a face invisível
do monstro vencido
em seus tempos vívidos
ao vê-lo na tela,
joão cabral de melo:
sem visão central
sem uma esperança
sem o olho do alvo
sem ponto de fuga
sem foco de apoio
seu "compreende?" soa
dito a cada frase
como a tentativa
de reter o ausente
que visto convence
como se o falado
só só se atingisse
quando dirigido
à meta do olhar
além do pensar
como se o pensado
só de fato o fosse
se olhado no centro
cravado no branco
como osso do verso
a cegueira faz
fazê-lo estranhar
as palavras ditas
escritas no ar:
a face invisível
do monstro vencido
em seus tempos vívidos
874
Maria Thereza Noronha
Ontem
Ontem, partiu-se a lua em duas foices
e decepou o chifre do unicórnio.
Tingiu-se o céu de um rubro tom de esbórnia
e a vasta terra em vasto céu mirou-se.
Ontem, partiu-se a lua em duas foices.
Meias-luas gentis pudesse a córnea
entrever, entre arcanjos, no céu morno.
Mas não. Soltou-se a lua no ar, aos coices.
Bem sei que voltará a ser esfera.
Refundidas as faces, lua cheia,
reverterá o gume de ouro e fera.
Posto que é sempre a mesma lua, a meia
ou toda. E assim constante, assim pudera
ser poema, antes que punhal na veia.
e decepou o chifre do unicórnio.
Tingiu-se o céu de um rubro tom de esbórnia
e a vasta terra em vasto céu mirou-se.
Ontem, partiu-se a lua em duas foices.
Meias-luas gentis pudesse a córnea
entrever, entre arcanjos, no céu morno.
Mas não. Soltou-se a lua no ar, aos coices.
Bem sei que voltará a ser esfera.
Refundidas as faces, lua cheia,
reverterá o gume de ouro e fera.
Posto que é sempre a mesma lua, a meia
ou toda. E assim constante, assim pudera
ser poema, antes que punhal na veia.
1 032
Marcelo Tápia
essência falsa
as lojas de essências da rua tabatingüera
e da rua silveira martins
na sé em são paulo (e afins)
são um modelo mítico da nossa era:
o totem da verdade caído por terra
dá lugar ao frenesi da imitação
um por um de cada aroma que era
é agora quase tal qual, a não ser por um senão
a marca vira tipo
e o que era espécime se torna espécie
cada nome vira público
e o que era único se torna série
o milagre da multiplicação
se instala para qualquer um
e o que era distante da mão
cai na mão como um fato comum
a fórmula do tal perfume
se obtém sem entrave
mas sua essência permanece posse
falsa de algum dono falso da chave
tudo se chama como se quer
e é tudo como se fosse;
além do perfume, o whisky, o cognac, o liqueur
se fazem sem o tempo de amadurecer
a coloração se faz com caramelão
o sabor com o aroma, o açúcar, o álcool
– a química da depuração da simulação
criando a realidade dúbia, virtual do igual
nestes tempos de reproduções
mesmo as palavras, mesmo as ações
o que se diz, o que se faz
ora é ora não é ou é o que se faz o que se diz
cada coisa que se denomina
pode ser o simulacro do que se designa
ou o que se resigna com o simulado:
o verbo sublimado e recondensado em significado
e da rua silveira martins
na sé em são paulo (e afins)
são um modelo mítico da nossa era:
o totem da verdade caído por terra
dá lugar ao frenesi da imitação
um por um de cada aroma que era
é agora quase tal qual, a não ser por um senão
a marca vira tipo
e o que era espécime se torna espécie
cada nome vira público
e o que era único se torna série
o milagre da multiplicação
se instala para qualquer um
e o que era distante da mão
cai na mão como um fato comum
a fórmula do tal perfume
se obtém sem entrave
mas sua essência permanece posse
falsa de algum dono falso da chave
tudo se chama como se quer
e é tudo como se fosse;
além do perfume, o whisky, o cognac, o liqueur
se fazem sem o tempo de amadurecer
a coloração se faz com caramelão
o sabor com o aroma, o açúcar, o álcool
– a química da depuração da simulação
criando a realidade dúbia, virtual do igual
nestes tempos de reproduções
mesmo as palavras, mesmo as ações
o que se diz, o que se faz
ora é ora não é ou é o que se faz o que se diz
cada coisa que se denomina
pode ser o simulacro do que se designa
ou o que se resigna com o simulado:
o verbo sublimado e recondensado em significado
1 016
Teixeira de Melo
Ao Sol
Não te amo, ó Sol, senão como rascunho
Da luz de Deus! senão como lembrança
Da mão que te acendeu, lâmpada de ouro,
Por sobre o abismo em que eu treina da morte,
A teus pés pela vida às tontas erro.
Verme que esconde um átomo da essência
Que te anima e renova! Átomo mesmo
Do pó da eternidade em frágil vaso
Amassado de sangue e pranto e orgulho!
Águia sem asas — fito-te um momento
E tua luz me embebeda e faz vertigens!
Amo o silêncio, a sombra, o isolamento,
Embora os do sepulcro! E tu, abutre
De asas de fogo, eterno pirilampo
Em basta selva, acima esvoaçando
De milhões de cadáveres corruptos
Que o tempo, rio rápido e revolto,
Roda té o mar sem raias do infinito,
Insultas minha dor, meu pranto estancas!
Tu vês sem dó arcar a humanidade
Sob o peso de séculos e séculos
Sempre moça e garrida e fátua sempre,
À luz dos raios concertando as braças
Que o vento desatou, tingindo as faces
Macilentas da orgia e das insônias,
E abrindo os alvos seios infecundos
Ao beijo frio do que tem mais ouro!
Tu vês de longe a louca humanidade,
Nova Eva despertando entre as delícias
Da vida sem a morte, ambicionando
Outra vida melhor, mais curta embora!
Penélope senil que se não cansa
De a eterna teia desmanchar contudo
Que o esposo a venha achar tecendo ainda!
Ou doida Ofélia a desfolhar sem fino
Sua coroa de noiva – antes da noite!
E o mundo de Panúrgio e Sancho Pança
Te vê passar também como um sarcasmo
Palpitante de fel, e ri-se ao ver-te!
É sempre nova a velha humanidade!
Só o homem passa — palha ou flor de feno —
Nas garras do tufão que não te alcança!
Como ela viverás... mas momento
A mão que te acendeu pode apagar-te.
Eu te amaria, ó Sol, se por um dia
Conhecesse o segredo que me escondes
Das tontas gerações que patinharam
— Como as de hoje — na lama e adormeceram
Na esteira do passado, entre as neblinas
Das era que, impassível como o tempo,
Desde o primeiro dia alumiaste.
Podes, feixe de luz que te desatas
No colo requeimado do universo,
Dar-me um raio dos teus com que ilumine
Minha cegueira a tatear na sombra
Das exploradas minas de ouro puro,
Hoje cinza e carvão, dessa linguagem
Sublime e rude — do cantor mendigo
Da Grécia, o heróico berço em que tu nasces,
E onde Byron morreu contigo, ó Grécia!
Ó Sol, olho de Deus aberto sempre,
Guia meus passos trêmulos ainda
Por entre as flores dos jardins celestes
Em que Camões ceifou perpétuos louros!
Para cantar as lendas esquecidas
Do ninho meu paterno, à sombra amiga
Das copadas mangueiras embalado
Pelas auras dos trópicos aos cantos
Da ferrenha araponga do deserto;
Para cantar as graças feiticeiras
Do meu berço de musgo inda selvagem
Como os primeiros que dormiram nele,
Dá-me um raio dos teus! um só me bastar
Que me esqueçam depois... terei vivido!
Que tu, página branca para o mundo,
Irás talvez vagar onde eu já durma,
No leito frio em que me espera o olvido.
Hei de acordar das matas seculares
Onde o silêncio é o canto do passado,
O gênio adormecido desses tempos
Que sob os olhos meus às vezes passam.
Dá-me imagens de fogo ainda virgens
Das mãos calmas dos cantores todos.
Triste bardo das raças do deserto,
Hei de perdir-te, ó Sol, que as requeimaste,
A história triste das extintas tribos!
Hei de rasgar a página mais pura
Do livro virginal da natureza!
Hei de arrancar ao colibri — das penas
O pó dourado e azul — para escrevê-la!
Hei de quebrar as asas furta-cores
Das nossas borboletas, para dá-las
Em saudoso holocausto à pátria e ao lmundo!
Da luz de Deus! senão como lembrança
Da mão que te acendeu, lâmpada de ouro,
Por sobre o abismo em que eu treina da morte,
A teus pés pela vida às tontas erro.
Verme que esconde um átomo da essência
Que te anima e renova! Átomo mesmo
Do pó da eternidade em frágil vaso
Amassado de sangue e pranto e orgulho!
Águia sem asas — fito-te um momento
E tua luz me embebeda e faz vertigens!
Amo o silêncio, a sombra, o isolamento,
Embora os do sepulcro! E tu, abutre
De asas de fogo, eterno pirilampo
Em basta selva, acima esvoaçando
De milhões de cadáveres corruptos
Que o tempo, rio rápido e revolto,
Roda té o mar sem raias do infinito,
Insultas minha dor, meu pranto estancas!
Tu vês sem dó arcar a humanidade
Sob o peso de séculos e séculos
Sempre moça e garrida e fátua sempre,
À luz dos raios concertando as braças
Que o vento desatou, tingindo as faces
Macilentas da orgia e das insônias,
E abrindo os alvos seios infecundos
Ao beijo frio do que tem mais ouro!
Tu vês de longe a louca humanidade,
Nova Eva despertando entre as delícias
Da vida sem a morte, ambicionando
Outra vida melhor, mais curta embora!
Penélope senil que se não cansa
De a eterna teia desmanchar contudo
Que o esposo a venha achar tecendo ainda!
Ou doida Ofélia a desfolhar sem fino
Sua coroa de noiva – antes da noite!
E o mundo de Panúrgio e Sancho Pança
Te vê passar também como um sarcasmo
Palpitante de fel, e ri-se ao ver-te!
É sempre nova a velha humanidade!
Só o homem passa — palha ou flor de feno —
Nas garras do tufão que não te alcança!
Como ela viverás... mas momento
A mão que te acendeu pode apagar-te.
Eu te amaria, ó Sol, se por um dia
Conhecesse o segredo que me escondes
Das tontas gerações que patinharam
— Como as de hoje — na lama e adormeceram
Na esteira do passado, entre as neblinas
Das era que, impassível como o tempo,
Desde o primeiro dia alumiaste.
Podes, feixe de luz que te desatas
No colo requeimado do universo,
Dar-me um raio dos teus com que ilumine
Minha cegueira a tatear na sombra
Das exploradas minas de ouro puro,
Hoje cinza e carvão, dessa linguagem
Sublime e rude — do cantor mendigo
Da Grécia, o heróico berço em que tu nasces,
E onde Byron morreu contigo, ó Grécia!
Ó Sol, olho de Deus aberto sempre,
Guia meus passos trêmulos ainda
Por entre as flores dos jardins celestes
Em que Camões ceifou perpétuos louros!
Para cantar as lendas esquecidas
Do ninho meu paterno, à sombra amiga
Das copadas mangueiras embalado
Pelas auras dos trópicos aos cantos
Da ferrenha araponga do deserto;
Para cantar as graças feiticeiras
Do meu berço de musgo inda selvagem
Como os primeiros que dormiram nele,
Dá-me um raio dos teus! um só me bastar
Que me esqueçam depois... terei vivido!
Que tu, página branca para o mundo,
Irás talvez vagar onde eu já durma,
No leito frio em que me espera o olvido.
Hei de acordar das matas seculares
Onde o silêncio é o canto do passado,
O gênio adormecido desses tempos
Que sob os olhos meus às vezes passam.
Dá-me imagens de fogo ainda virgens
Das mãos calmas dos cantores todos.
Triste bardo das raças do deserto,
Hei de perdir-te, ó Sol, que as requeimaste,
A história triste das extintas tribos!
Hei de rasgar a página mais pura
Do livro virginal da natureza!
Hei de arrancar ao colibri — das penas
O pó dourado e azul — para escrevê-la!
Hei de quebrar as asas furta-cores
Das nossas borboletas, para dá-las
Em saudoso holocausto à pátria e ao lmundo!
1 034
Gilberto Mendonça Teles
O Discurso
Havia a necessidade absurda de falar
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.
Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.
Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilência das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.
E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não.
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.
Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.
Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilência das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.
E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não.
1 659
Maria Thereza Noronha
Palavras
O poeta nas montanhas arma a tenda. Estende os olhos sobre o abismo, apruma as asas, espera. O peito entoca o inquieto pássaro. O vento breve traz as palavras. Espalhadas na relva, ele as recolhe, ajunta, separa: cada uma com seu sol interior, sua recôndita lenda, os matizes à espreita de propícia luz onde se apurem. O poeta desentoca o pássaro e vai bicando as letras, alinhando-as, brunindo-as, tecendo ali um colar de sílabas, aqui um diadema de signos, uma tiara de imagens - um poema.
O pássaro sobrevoa as montanhas, ultrapassando-as. Tem nas vértebras a vertigem do verso, e vai levando-o para outras paragens: praias, planícies, planaltos, vales.
O pássaro sobrevoa as montanhas, ultrapassando-as. Tem nas vértebras a vertigem do verso, e vai levando-o para outras paragens: praias, planícies, planaltos, vales.
1 000
Gilberto Mendonça Teles
No Foz do Tejo
E todavia a trave na garganta
e a grossa mão medrosa sem poder
interpretar sequer o que repete,
o que soletra, o que rumina há séculos,
nós, gagos de Babel, babamos versos.
Jorge de Lima
e a grossa mão medrosa sem poder
interpretar sequer o que repete,
o que soletra, o que rumina há séculos,
nós, gagos de Babel, babamos versos.
Jorge de Lima
1 689
Marcelo Tápia
céu de mil e uma noites
Se eu
não fosse poeta
seria astrônomo
por certo.
Maiakóvski (trad. Augusto de Campos)
olho o céu e vejo um céu antigo
como aquele que eu tenho comigo
desde que o mundo era o meu umbigo
um céu de tecido azul escuro
com os pontos de luz em furo e uma
meia meia lua de futuro
nesga, um rasgo fino reluzente
numa renda quase transparente
com o vulto do clarão ausente
crescente sobre o pano profundo
que conquista um negrume de fundo
quanto mais e mais cai com o mundo
e se consome o vermelho púrpura
(desvanece a cor à ausência pura)
quanto mais e mais o brilho fura
não fosse poeta
seria astrônomo
por certo.
Maiakóvski (trad. Augusto de Campos)
olho o céu e vejo um céu antigo
como aquele que eu tenho comigo
desde que o mundo era o meu umbigo
um céu de tecido azul escuro
com os pontos de luz em furo e uma
meia meia lua de futuro
nesga, um rasgo fino reluzente
numa renda quase transparente
com o vulto do clarão ausente
crescente sobre o pano profundo
que conquista um negrume de fundo
quanto mais e mais cai com o mundo
e se consome o vermelho púrpura
(desvanece a cor à ausência pura)
quanto mais e mais o brilho fura
897
Marcelo Tápia
pedreira
para Paulo Leminski
o tempo pós
o fez diverso:
pedra
eterna, fixa
dura, pesada
imóvel, muda
cega, surda
mas perene
sólida
como sua vida
poesia pura do tempo
pedra-chama
teimando eternamente
como alma consistente
ascensão e queda
no centro do lago
no mais profundo
no mais escuro
no redemunho
no furo
no fio
o fim
do fio
do furo
do redemunho
do mais escuro
do mais profundo
ao centro do lago
iôiô
acima sem saída
até as margens sem alcance
na descida a ilusão de ascender
aos céus
o tempo pós
o fez diverso:
pedra
eterna, fixa
dura, pesada
imóvel, muda
cega, surda
mas perene
sólida
como sua vida
poesia pura do tempo
pedra-chama
teimando eternamente
como alma consistente
ascensão e queda
no centro do lago
no mais profundo
no mais escuro
no redemunho
no furo
no fio
o fim
do fio
do furo
do redemunho
do mais escuro
do mais profundo
ao centro do lago
iôiô
acima sem saída
até as margens sem alcance
na descida a ilusão de ascender
aos céus
1 069
Marcelo Tápia
ironia do destino
Ayds emagrece com segurança 4,5 kg por mês.
Já emagreceu milhares de americanos.
(...) logo, logo, Ayds estará em todo o Brasil.
anúncio publicitário em revista Cláudia, c. 1972
no anúncio antigo de produto dietético
o humor tétrico adivinho da palavra:
poder intemporal, primitivo, insone
a se trair só por um ipsilone?
Já emagreceu milhares de americanos.
(...) logo, logo, Ayds estará em todo o Brasil.
anúncio publicitário em revista Cláudia, c. 1972
no anúncio antigo de produto dietético
o humor tétrico adivinho da palavra:
poder intemporal, primitivo, insone
a se trair só por um ipsilone?
925
Sidney Frattini
A Pessoa - Carta
Ah, meu bom Fernando.
Tua linha reta é um prolongamento de vidas.
Vidas como esta, olha,
atitude de tua expressão,
ridículo igual,
vil igual,
titubeante igual,
e verificas que tens, sim, par neste mundo,
modéstia à parte - nós,
que te encontro, agora, surpreso,
não um semideus, mas um Homem,
um(a) Pessoa, pessoal, gente;
gente, arre, enfim.
Pois é.
Não há mais discípulos: só mestres;
e não mais aprendizados: só ensinamentos,
e só droites, não gauches,
que estes são exceções,
últimos companheiros, sobrantes,
vis benditos que fazem nossa (relativa) paz,
porque não nos abandonam à
solidão do ridículo,
da mesquinhez,
da vileza,
das pequenas coisas que se fazem grandes,
da condição de súditos de uma população de príncipes,
da comicidade triste e só,
de quixotes,
de lúcidos, enfim. Lúcidos, Fernando.
Os lúcidos são os sós, bens sabes.
Tua linha reta é um prolongamento de vidas.
Vidas como esta, olha,
atitude de tua expressão,
ridículo igual,
vil igual,
titubeante igual,
e verificas que tens, sim, par neste mundo,
modéstia à parte - nós,
que te encontro, agora, surpreso,
não um semideus, mas um Homem,
um(a) Pessoa, pessoal, gente;
gente, arre, enfim.
Pois é.
Não há mais discípulos: só mestres;
e não mais aprendizados: só ensinamentos,
e só droites, não gauches,
que estes são exceções,
últimos companheiros, sobrantes,
vis benditos que fazem nossa (relativa) paz,
porque não nos abandonam à
solidão do ridículo,
da mesquinhez,
da vileza,
das pequenas coisas que se fazem grandes,
da condição de súditos de uma população de príncipes,
da comicidade triste e só,
de quixotes,
de lúcidos, enfim. Lúcidos, Fernando.
Os lúcidos são os sós, bens sabes.
758
José Carlos Souza Santos
Cavalgada I
Ontem
te encontrei
nas minhas veredas anfíbias
de encantos e descaminhos
e de relance
vi o rosto
de trezentas rosas morenas
brincando de recordar
foi fugaz e relancino
o tempo meu inimigo
escondeu-a numa curva
e por mais que galopasse
a crina azul do meu cavalo
a distância ciumenta me roubava de você
mandei dizer pelo vento
velho companheiro
de brincar nos teus cabelos
te espero na guirlanda do meu verso
vamos cobrar do tempo
o saldo que ele nos deve
vamos no verde do musgo
brincar de cama macia
e o canto dos meus galos
em quatro corpetes cingidos
farão círios e dosséis
na roca do meu tear.
(do livro Estrelas Ausentes)
te encontrei
nas minhas veredas anfíbias
de encantos e descaminhos
e de relance
vi o rosto
de trezentas rosas morenas
brincando de recordar
foi fugaz e relancino
o tempo meu inimigo
escondeu-a numa curva
e por mais que galopasse
a crina azul do meu cavalo
a distância ciumenta me roubava de você
mandei dizer pelo vento
velho companheiro
de brincar nos teus cabelos
te espero na guirlanda do meu verso
vamos cobrar do tempo
o saldo que ele nos deve
vamos no verde do musgo
brincar de cama macia
e o canto dos meus galos
em quatro corpetes cingidos
farão círios e dosséis
na roca do meu tear.
(do livro Estrelas Ausentes)
956
Rodrigo Carvalho
Madrugada
Sinto-me só.
Sinto-me triste.
Vazio.
Mais triste e vazio que uma vida
triste e vazia.
Queria pelo menos um afago,
um toque,
mãos, braços,
mesmo que desconhecidos,
fingindo abraços.
Queria ao menos uma palavra,
mesmo que fosse vã,
balbuciada,
falsa.
Resta-me a madrugada.
Somente a inebriante escuridão da madrugada.
Faço dela minha companhia,
fuga do pobre poeta amargurado,
esconderijo de camufladas inspirações.
Salvador, 07 de novembro de 1996
Sinto-me triste.
Vazio.
Mais triste e vazio que uma vida
triste e vazia.
Queria pelo menos um afago,
um toque,
mãos, braços,
mesmo que desconhecidos,
fingindo abraços.
Queria ao menos uma palavra,
mesmo que fosse vã,
balbuciada,
falsa.
Resta-me a madrugada.
Somente a inebriante escuridão da madrugada.
Faço dela minha companhia,
fuga do pobre poeta amargurado,
esconderijo de camufladas inspirações.
Salvador, 07 de novembro de 1996
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