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Poemas neste tema

Mar, Rios e Oceanos

Raimbaut de Vaqueiras

Raimbaut de Vaqueiras

Altas ondas que vêm por sobre o mar,

Altas ondas que vêm por sobre o mar,
que o vento faz mover, ir e voltar,
de meu amigo, o que podes contar?
Atravessou? Não o vejo retornar!
.............E ai Deus, este amor!
.........Ora traz-me alegria, ora causa-me dor!
Ai, tu que cá de lá chegas, ar doce,
lá d’onde dorme meu amigo à noite,
traz o cheiro doce do seu sopro hoje!
Abre-me a boca: paixão tal nunca houve.
.............E ai Deus, este amor!
.........Ora traz-me alegria, ora causa-me dor!
Dor de amar alguém de um país estranho,
vê tornar-se choro o riso e seus ganhos.
Do amor nunca esperei golpe tamanho,
pois que seus desejos sempre acompanho.
.............E ai Deus, este amor!
.........Ora traz-me alegria, ora causa-me dor!
Uma das características deste poema, que tentei ao máximo reproduzir na tradução, é a incrível profusão de monossílabos. Desse modo, tanta coisa é dita em tão poucas sílabas que a versão numa língua como o português se enche de problemas. Seu refrão, como se vê, é bastante simples: rima "amor" (amor) com "dor" (dolor). Representa fielmente, portanto, o caráter popular e ligeiro do gênero, traços tão distantes da costumeira riqueza e estranheza rímica das canções provençais e, particularmente, do próprio Raimbaut de Vaqueiras. Aquilo que a distingue (bem como ocorre com as canções galego-portuguesas) é a capacidade surpreendente de síntese realizada por meio da condensação de as suas intenções semânticas e sonoras: mesmo as interjeições, os oy! e ai!, transformam-se, monossílabos puramente vocálicos que são, em símbolos carregados de sentido e sentimento.
Acredito, portanto, que desestabilizar os esquemas genéricos é uma das formas mais eficazes de encontrar-se sozinho, embora preparado, diante de uma composição trovadoresca. Mas que os limites não sejam ignorados: entre "Altas undas que venez suz la mar" e "Ondas do mar de Vigo" ou "Ai ondas que eu vin veer", obras famosas do galego Martim Codax, há uma inevitável ligação. São todas marinhas nas quais o sujeito poético indaga às ondas por notícias do amigo que vai longe. Quanto às distâncias, o leitor atento logo as perceberá: Codax compõe por meio de reiterações e paralelismos impecáveis e constantes enquanto que todos os versos Raimbaut de Vaqueiras são, de certa forma, inéditos no contexto da composição (afora, obviamente, o refrão).
Outra peculiaridade da cantiga de Raimbaut de Vaqueiras é o fato de, na última estrofe, o sujeito poético referir-se ao amado como "vassal" — algo que a cartilha do trovadorismo galego-português não prevê porque estipula que essa personagem feminina nunca é de origem nobre, o que impossibilita as referências a um relacionamento que inspire esse jogo, típico das cantigas de amor, onde há um "vassalo" e uma "senhor". Apenas mais uma fuga de um esquema. Num contato real com os trovadores, portanto, toda atividade será de discernimento e de crítica. Nada mais contrário à estéril e passiva apreciação histórica que se faz de ouvidos inutilizados por circunstância e de olhos fechados por preguiça.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Contou que caminhava pela praia, nu, correndo

Contou que caminhava pela praia, nu, correndo.

A areia, o sol, o mar
e a profundidade extenuante do céu embriagavam-no.
Tinha extrema consciência da sua nudez,
e isso também o embriagava.

Ia com um projecto, ou uma missão, estava carregado disso,
mas tratava-se de uma coisa inominável.
Na praia havia gente, gente - parece
- com aquela disponibilidade sem expectativa de gente na praia.

Estavam em fato de banho, ociosos e alheios,
e quando ele passou pelo meio dessa gente,
a nudez que tinha ainda o embriagou mais.
Depois encontrou três degraus de pedra, e subiu-os.
Continuou a correr, mas - segundo contou - o céu,
a água e a areia, agora perdidos, haviam deixado nele um espaço vazio
onde a ideia de missão se pôs a crescer,
de modo que ele se encontrava como que louco da pressa
e densidade da missão.
Corria por um labirinto de pedra negra, e nos corredores estreitos
havia casas baixas, também de pedra, sem telhado
e sem portas e janelas.

Eram cubos negros abertos em cima
e com buracos rectangulares a diversos níveis.
Correndo pelos labirintos, cheio da sua pressa
e com a espessa ansiedade daquela mensagem tão obscura,
viu de súbito que tinha dois longos pénis brancos,
delgados e longos como duas serpentes,
e que se contorciam e enroscavam um no outro.

Não sentiu medo, sequer espanto,
pois imaginava que isso também fazia parte da missão.
Mas quando avistou uma mulher
que vinha em sentido contrário ao dele,
procurou tapar com as mãos aqueles pénis-serpentes
nascidos da mesma sombria raiz, quando corria pelos labirintos.

As serpentes, no entanto,
escapavam-se por entre os dedos, desciam-lhe pelas pernas,
subiam pelo ventre até ao peito,
avançavam em todas as direcções, com as suas pequenas cabeças cruéis,
sagazes e esfaimadas.

Cheio de terror, parou em frente de uma daquelas casas.

Quando entrou - contou ele -
havia já perdido a sua força e leveza de mensageiro,
e apenas sentia medo.
A casa estava vazia como todas as outras e, como elas,
sem tecto e sem portas e janelas.
Naquele cubo negro e devassado,
onde adivinhava excrementos e restos podres de comida,
através de uma luz sinistra,
pensou que viera de longe,
percorrendo com a sua nudez os caminhos do dia
e estes labirintos tenebrosos,
apenas para se encontrar vazio, cercado pela podridão.

As duas serpentes brancas continuavam a fremir
entre as suas pernas abertas.

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Ruy Belo

Ruy Belo

Os balcões sucessivos sobre o rio

Os balcões sucessivos sobre o rio
as tesouras de poda nas roseiras
a sonolência lânguida e perversa
esse todo coerente e sobre ele apenas
a abóbada da minha perfeição
é esse o meu convite à desistência
a pena menos pública do mundo nos
lagos das finas flores dos sabugueiros
onde a mulher soltava os cabelos
pra que neles se prendesse o cheiro a erva
Ela tinha um aspecto inesperado
vinha com o vestido cor magenta nos
braços que lhe cresceram sobre a terra
movia-se ao andar como uma barca
Importa-me é o curso do dia e da noite
Vou andar um bocado nos caminhos
é pela hora em que não há ninguém
nudez desprevenida dos meus dias
mas só de noite desço até ao mar após
as sete horas da tarde hora crepuscular
os cheiros confortáveis e antigos
imagens dum lirismo fraudulento
um conforto algum tanto apreensivo
coisas que desde a infância a construíam
Mudo de opinião continuamente
espero o teu regresso pela tarde
e cuidadosamente velo a minha cólera
A vida é para mim pesar de pálpebras
leitura de discursos no outono
na casa abandonada e submetida à chuva
Regresso afinal aos próprios hábitos
sorrisos de mulheres sobre a areia
sou fiel à tristeza e pouco mais
e meto então um lenço num dos bolsos
que cheira ao perfume dos pinheiros
Ave de alarme sou deixem-me só
sou um contemporâneo assisto a tudo
os sinos vesperais nos dias de verão
o cão que passa numa encruzilhada
um cântaro que racha inexplicavelmente
confundido no hálito do mar
a minha saudação aos infantes do medo
crianças que iniciam o andar
Espero por alguém espero pelo sol
pla doçura estival da laranjeira
ando pelos caminhos muito tempo
e passo pelas portas devassadas pelos ventos
em cujos gonzos sopram agonias
E espero de novo a floração da primavera
Não quero nada quero estar presente sobre
as dunas do começo dos pinhais
nesse mundo de medos e animais
onde abri os meus olhos para a luz de agora
E perco todo eu em contriçães
ó terra branca e carnal e triste
as minhas madrugadas do sargaço
abertas nos bocejos da neblina
quando o tempo é suave e chega em dunas
à sensibilidade das narinas
nas horas generosas da maré
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Neves e Sousa

Neves e Sousa

Limites dos Sete Cantos da Cidade de S Filipe de Benguela

Recreei-te em saudade e cor
Quando me afastei de ti
E os limites que te fiz
São dentro do meu sentir.

Por cima a cor neutra e desdobrada
Dum céu de cinzas de passado.

O Sombreiro como um marco
marco um lado.

As curvas nuas e douradas
de montes femininos
Nus até à cintura verde
Verde dos longos canaviais
Anunciam o limite de Benguela.

Na areia a longa e estreita ferida
Do Cavaco
Escorrendo o sangue de água
Que abre em bananais sombrios
Caminhos às fábulas de antanho
Marca outra fronteira da Cidade.

Para outro lado estende-se o sertão
Palmeiras espetadas pelo mato
Como flechas da aljava
do Soba Caparandanda
Sombreiam a curva dos caminhos
Perdidos na imensidão...

Por outro limite tem Benguela
Saudade no meu coração
E pela frente aberto e vasto
Tem este mar ardente de oiro e poentes
Este mar imenso que sorri ao longe.

Este mar imenso que também chora
E conta histórias de espumas e naufrágios,

Mar que também banha os seios jovens
Das moças que embalam sonhos
Nas sombras azuis dos quintalões

Altas paredes de adobe
Cheias de sonhos e histórias

Que viram as longas caravanas da borracha
E passos perdidos pelos caminhos sem glórias

Molhadas de lágrimas,
Salobras lágrimas
De anseios há muito mortos...
Mais amargos do que o mar
O mar salgado que chora
Cantos de não mais voltar...

Lábios de mar, feitos de espuma, beijando o céu...

Sons dos sinos da Senhora do Pópulo
(Que sabem tudo e que viram tudo,
e nunca contam nada...)
Aconchegam os amantes que se beijam
nos velhos bancos verdes do jardim...

Sob as árvores antigas
Que o vento sul esporeia
Como uma zebra azul
Feita de nuvens e céu.

Coração quente e generoso de Benguela
Bairros do Benfica, Cassôco,
Águas da Cacimba da Rua Nove
Repouso claro e lento
De luas nascidas longe
Na noite semeada de astros
Como olhos de Cazumbis,...

Na noite enorme e feiticeira da cidade

Bruxuleante do bruxedo de fogueiras
Feitas de amores velhos, carcomidos,
Adormecidos, nas velhas casas compridas.

E de fogueiras de verdade que acalentam
Ritmos de guardas da noite
tocados em quissanges melodiosos
Subtis como a própria alma da brisa
Que arranca da terra o sangue vivo
Duma pena antiga que se perde...

Noite semeada de batuques
Batuques que me parecem

O palpitar dum coração imenso
Que se esvai nas noites desdobradas
Num rosário de auroras sucessivas.

Minha Benguela nocturna e antiga
Das amplas ruas cheirando a mar
Colmeia de lembranças que me ferem
Perante a dura realidade do progresso...

Volta:
Volta para os sete limites deste sonho
Sob a grande tristeza vegetal das frondes
Cheias de mistérios ancestrais
Do meu passado que não volta mais...
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Vicente de Carvalho

Vicente de Carvalho

Palavras ao Mar

Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo erriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas — a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.

Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras;
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro:
E as leves garças, como folhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o vôo à tona das espumas...

É o tempo em que adormeces
Ao sol que abrasa: a cólera espumante,
Que estoura e brame sacudindo os ares,
Não os sacode mais, nem brame e estoura;
Apenas se ouve, tímido e plangente,
O teu murmúrio; e pelo alvor das praias,
Langue, numa carícia de amoroso,
As largas ondas marulhando estendes...

Ah! vem daí por certo
A voz que escuto em mim, trêmula e triste,
Este marulho que me canta na alma,
E que a alma jorra desmaiado em versos;
De ti, de ti unicamente, aquela
Canção de amor sentida e murmurante
Que eu vim cantando, sem saber se a ouviam,
Pela manhã de sol dos meus vinte anos.

Ó velho condenado
Ao cárcere das rochas que te cingem!
Em vão levantas para o céu distante
Os borrifos das ondas desgrenhadas.
Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,
Palpitante de estrelas quando é noute,
Paira, longínquo e indiferente, acima
Da tua solidão, dos teus clamores...

Condenado e insubmisso
Como tu mesmo, eu sou como tu mesmo
Uma alma sobre a qual o céu resplende
— Longínquo céu — de um esplendor distante.
Debalde, ó mar que em ondas te arrepelas,
Meu tumultuoso coração revolto
Levanta para o céu, como borrifos,
Toda a poeira de ouro dos meus sonhos.

(...)

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Publicado no livro Poemas e Canções (1908).

In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
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