Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Edmir Domingues
Soneto feito com água do mar
Hoje que o barco é nosso, e no recôncavo
desmancha-se a ternura em mãos de vento,
pressinto as vibrações contidas entre
lavarinto o cordão nas verdes ondas.
Pois somos como as coisas de silêncio
deixadas no outro dia, em céus de longe,
pelas angras sem fim de velhos sonhos,
quanto mais velhos tanto mais idênticos.
Que a vida volta, e as noites antiquíssimas
nunca serão passados e absolutos
mas tornarão nas íntimas carícias.
Levagantes e polvos não são tudo.
Há mistério nos mares e nos vícios
e mundos abissais nos cantos surdos.
desmancha-se a ternura em mãos de vento,
pressinto as vibrações contidas entre
lavarinto o cordão nas verdes ondas.
Pois somos como as coisas de silêncio
deixadas no outro dia, em céus de longe,
pelas angras sem fim de velhos sonhos,
quanto mais velhos tanto mais idênticos.
Que a vida volta, e as noites antiquíssimas
nunca serão passados e absolutos
mas tornarão nas íntimas carícias.
Levagantes e polvos não são tudo.
Há mistério nos mares e nos vícios
e mundos abissais nos cantos surdos.
771
Edmir Domingues
O planetóide
Herdei um planetóide
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
302
Edmir Domingues
Flautas e mar
Que noite pode ser, conquanto dia
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
542
Edmir Domingues
Uma viagem de volta do país de Caruaru
Rolando pela auto-estrada
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.
Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.
Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.
Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.
Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.
Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.
Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.
Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.
Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.
Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.
Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.
Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.
Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.
Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.
Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
747
Edmir Domingues
O espelho retrovisor
Vejo o presente de há pouco
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
856
Edmir Domingues
Fabulosos
De fabulosos céus, e fabulosas
noites de fabulosos incidentes,
de mãos crispadas não, de asas doentes
repousando em jardins de antigas rosas.
Das outras mãos tornadas vaporosas,
quanto mais longe tanto mais presentes
às carícias dos braços abstinentes,
de nossas mãos também, por mais nervosas.
Mariposas sonâmbulas espargem
das asas cinza em risos de outra margem
negada a quem ficado em porto sujo.
Quem de gestos noturnos se consome
despido de passado e antigo nome
entre risos de concha e caramujo.
noites de fabulosos incidentes,
de mãos crispadas não, de asas doentes
repousando em jardins de antigas rosas.
Das outras mãos tornadas vaporosas,
quanto mais longe tanto mais presentes
às carícias dos braços abstinentes,
de nossas mãos também, por mais nervosas.
Mariposas sonâmbulas espargem
das asas cinza em risos de outra margem
negada a quem ficado em porto sujo.
Quem de gestos noturnos se consome
despido de passado e antigo nome
entre risos de concha e caramujo.
781
Edmir Domingues
Sextina da face oculta
Penetrar no infinito pela porta
que o desvão da memória acaso oculta,
(Que esta mão indecisa porte a vela,
a luz para o caminho). Passo a passo.
Penetrar o invisível sempre sabe
o gosto das lições para o presente.
É preciso se tenha então presente
essa atenção constante que se porta
sempre que se conhece, que se sabe.
Urgente é decifrar a face oculta
mesmo sabendo que esse incerto passo
requer todo o cuidado de quem vela.
Haja o sopro do vento que enche a vela
do barco do desejo, aqui presente,
que se apresta a aventura desse passo.
Na procura incessante dessa porta
que é sempre disfarçada, sempre oculta,
não constante do mapa, ao que se sabe.
É pequeno o saber que o sábio sabe.
Mais precária que a chama de uma vela
a ciência vaidosa sempre oculta
o escasso conhecer mais que presente.
Ninguém herdou a chave dessa porta
que impede ao ser humano o grande passo.
Resta pois prosseguir marcando passo
com que fim, que destino, não se sabe.
A nós os prisioneiros dessa porta,
que não podem viver sem sempre vê-la,
a quem foi sonegado esse presente
que seria o entender a face oculta.
O demônio (o Destino) nos oculta
o que é que significa o nosso passo.
Se é que existe o futuro do presente
para o que se destina ninguém sabe.
A luz mortiça e vaga de uma vela
não dá para enxergar além da porta.
(Quem vive neste passo apenas sabe
desse Dragão presente ao pé da Porta
que dia e noite vela a face oculta.
que o desvão da memória acaso oculta,
(Que esta mão indecisa porte a vela,
a luz para o caminho). Passo a passo.
Penetrar o invisível sempre sabe
o gosto das lições para o presente.
É preciso se tenha então presente
essa atenção constante que se porta
sempre que se conhece, que se sabe.
Urgente é decifrar a face oculta
mesmo sabendo que esse incerto passo
requer todo o cuidado de quem vela.
Haja o sopro do vento que enche a vela
do barco do desejo, aqui presente,
que se apresta a aventura desse passo.
Na procura incessante dessa porta
que é sempre disfarçada, sempre oculta,
não constante do mapa, ao que se sabe.
É pequeno o saber que o sábio sabe.
Mais precária que a chama de uma vela
a ciência vaidosa sempre oculta
o escasso conhecer mais que presente.
Ninguém herdou a chave dessa porta
que impede ao ser humano o grande passo.
Resta pois prosseguir marcando passo
com que fim, que destino, não se sabe.
A nós os prisioneiros dessa porta,
que não podem viver sem sempre vê-la,
a quem foi sonegado esse presente
que seria o entender a face oculta.
O demônio (o Destino) nos oculta
o que é que significa o nosso passo.
Se é que existe o futuro do presente
para o que se destina ninguém sabe.
A luz mortiça e vaga de uma vela
não dá para enxergar além da porta.
(Quem vive neste passo apenas sabe
desse Dragão presente ao pé da Porta
que dia e noite vela a face oculta.
537
Edmir Domingues
Memória de amor
Um grande amor resiste aos sofrimentos
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
720
Edmir Domingues
Um contratempo num rever amigos
E eis que fomos no passo da aventura
para rever amigos na distância
e era um campo de mar, e era fragrância
de maresia a rota da procura.
Fomos os três na sombra, e dentro em breve
éramos cinco a um passo da alimária
pendida, a conversarmos sobre a vária
fortuna que tão longe nos deteve.
Ao pouso onde restava o olhar cansado
a noite imensa vinha, e o mar nos vinha
como ao beiral na chuva essa andorinha
cantada pelos versos do passado.
Quanto apesar de tudo noite rara
porquanto o tê-los visto compensara.
para rever amigos na distância
e era um campo de mar, e era fragrância
de maresia a rota da procura.
Fomos os três na sombra, e dentro em breve
éramos cinco a um passo da alimária
pendida, a conversarmos sobre a vária
fortuna que tão longe nos deteve.
Ao pouso onde restava o olhar cansado
a noite imensa vinha, e o mar nos vinha
como ao beiral na chuva essa andorinha
cantada pelos versos do passado.
Quanto apesar de tudo noite rara
porquanto o tê-los visto compensara.
699
Edmir Domingues
Fome de amor
Acordarei com fome nesta noite.
Fome do teu amor distante e vago
que repousa na borda de algum lago
que em seu silêncio todo acaso açoite
o teu repouso injusto, enquanto pago
um preço de recusa, enquanto foi-te
dado amor de vigília, de pernoite,
de uma insônia insuspeita. Entanto afago
a lembrança restante nesta quadra
ao passo que no lado escuro ladra
cão, demônio, orixá de bruxaria.
Dama do lago, antiga mas presente,
no tempo de esperar constantemente,
que há séculos se esquiva e renuncia.
Fome do teu amor distante e vago
que repousa na borda de algum lago
que em seu silêncio todo acaso açoite
o teu repouso injusto, enquanto pago
um preço de recusa, enquanto foi-te
dado amor de vigília, de pernoite,
de uma insônia insuspeita. Entanto afago
a lembrança restante nesta quadra
ao passo que no lado escuro ladra
cão, demônio, orixá de bruxaria.
Dama do lago, antiga mas presente,
no tempo de esperar constantemente,
que há séculos se esquiva e renuncia.
757
Edmir Domingues
Canção dos exilados de infância
Exilados de uma terra
que Infância por nome tem
vivemos comendo espera
não sei de que nem de quem.
Murcham-se mastros e velas
morrem convites de além
e de Infância, ai, de Infância
nada a nós jamais nos vem.
Infância dorme na sombra
de um campo molhado e bom
na geografia das cores
nos cantos de leve som,
e é tão distante plantada
que a ela só se vai com
barcos de quilhas de fumo
velas de papel crepom.
País que todos procuram
sem nunca ninguém cansar
cansaço é desesperança
e é sempre bom se esperar,
vestem-se os homens de busca
e seguem rotas de mar
mas há que o mar nunca os leva
jamais a nenhum lugar.
Colecionando horizontes
nas terras mortas de Não
terras de Infância procuram
que nunca mais acharão,
a sombra azul da distância
se derrama pelo chão,
e de Infância, ai, de Infância
nem canto nem sugestão.
Inspira os passos andados
por campo caminho e mar
inusitada evidência
que a ninguém se pode dar,
os que vivem de procura
não têm nada que encontrar
porque os homens sempre sentem
saudades de outro lugar.
Ai, que sempre nos maltratam
as lembranças que nos vêm
dos paraísos perdidos
das terras de mais além.
Se esses países residem
distantes de nós, porém,
somente o clima de Infância
nos poderá fazer bem.
Os povos que Infância buscam
nunca à Infância chegarão,
muda-se o rumo das coisas
nestes campos onde estão,
mas nada morre no entanto
do clima da turbação
porquanto o povo vencido
tem sempre a melhor canção.
Se nada morre no entanto
do clima da turbação,
se aquele povo vencido
tem sempre a melhor canção,
só nos resta esse horizonte
das terras mortas de Não
pois de Infância, ai, de Infância
nem canto nem sugestão.
564
Martha Medeiros
Perguntas
Quantas vezes você andava na rua e sentiu um perfume e lembrou de alguém que gosta muito?
Quantas vezes você olhou para uma paisagem em uma foto, e não se imaginou lá com alguém...
Quantas vezes você estava do lado de alguém, e sua cabeça não estava ali?
Alguma vez você já se arrependeu de algo que falou dois segundos depois de ter falado?
Você deve ter visto que aquele filme, que vocês dois viram juntos no cinema, vai passar na TV...
E você gelou porque o bom daquele momento já passou...
E aquela música que você não gosta de ouvir porque lembra algo ou alguém que você quer esquecer mas não consegue?
Não teve aquele dia em que tudo deu errado, mas que no finzinho aconteceu algo maravilhoso?
E aquele dia em que tudo deu certo, exceto pelo final que estragou tudo?
Você já chorou por que lembrou de alguém que amava e não pôde dizer isso para essa pessoa?
Você já reencontrou um grande amor do passado e viu que ele mudou?
Para essas perguntas existem muitas respostas...
Mas o importante sobre elas não é a resposta em si...
Mas sim o sentimento...
Todos nós amamos, erramos ou julgamos mal...
Todos nós já fizemos uma coisa quando o coração mandava fazer outra...
Então, qual a moral disso tudo?
Nem tudo sai como planejamos portanto, uma coisa é certa...
Não continue pensando em suas fraquezas e erros, faça tudo que puder para ser feliz hoje!
Não deite com mágoas no coração.
Não durma sem ao menos fazer uma pessoa feliz!
E comece com você mesmo!
Quantas vezes você olhou para uma paisagem em uma foto, e não se imaginou lá com alguém...
Quantas vezes você estava do lado de alguém, e sua cabeça não estava ali?
Alguma vez você já se arrependeu de algo que falou dois segundos depois de ter falado?
Você deve ter visto que aquele filme, que vocês dois viram juntos no cinema, vai passar na TV...
E você gelou porque o bom daquele momento já passou...
E aquela música que você não gosta de ouvir porque lembra algo ou alguém que você quer esquecer mas não consegue?
Não teve aquele dia em que tudo deu errado, mas que no finzinho aconteceu algo maravilhoso?
E aquele dia em que tudo deu certo, exceto pelo final que estragou tudo?
Você já chorou por que lembrou de alguém que amava e não pôde dizer isso para essa pessoa?
Você já reencontrou um grande amor do passado e viu que ele mudou?
Para essas perguntas existem muitas respostas...
Mas o importante sobre elas não é a resposta em si...
Mas sim o sentimento...
Todos nós amamos, erramos ou julgamos mal...
Todos nós já fizemos uma coisa quando o coração mandava fazer outra...
Então, qual a moral disso tudo?
Nem tudo sai como planejamos portanto, uma coisa é certa...
Não continue pensando em suas fraquezas e erros, faça tudo que puder para ser feliz hoje!
Não deite com mágoas no coração.
Não durma sem ao menos fazer uma pessoa feliz!
E comece com você mesmo!
1 342
Cesare Pavese
TERRA RUBRA TERRA PRETA
Terra rubra terra preta,
você veio do mar,
do verde ressequido,
onde há palavras
antigas e fadiga sanguínea
e gerânios dentre as pedras,
você não sabe o quanto trazes
de mar, de palavras e de fadiga;
você, rica como uma recordação,
como o campo árido,
você, palavra dura e docíssima,
antiga pelo sangue
reunido nos olhos;
jovem, como um fruto
que é memória e estação,
sua respiração repousa
sob o céu de agosto,
e as olivas do teu olhar
adoçam o mar,
e você vive e revive
sem surpresa, certeira
como a terra, algoz
de estações e de sonhos
que ao luar se revelam
antiguíssimos, como
as mãos da tua mãe,
a tigela do braseiro.
você veio do mar,
do verde ressequido,
onde há palavras
antigas e fadiga sanguínea
e gerânios dentre as pedras,
você não sabe o quanto trazes
de mar, de palavras e de fadiga;
você, rica como uma recordação,
como o campo árido,
você, palavra dura e docíssima,
antiga pelo sangue
reunido nos olhos;
jovem, como um fruto
que é memória e estação,
sua respiração repousa
sob o céu de agosto,
e as olivas do teu olhar
adoçam o mar,
e você vive e revive
sem surpresa, certeira
como a terra, algoz
de estações e de sonhos
que ao luar se revelam
antiguíssimos, como
as mãos da tua mãe,
a tigela do braseiro.
822
Ruy Belo
A charneca e a praia
Num dia vagamente de Natal fechado pelo frio
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio
Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?
Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada
tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão
Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa
Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto
Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio
Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?
Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada
tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão
Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa
Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto
Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 286
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice (5)
Como se o sol não trouxesse com ele a hostilidade
do dia! E o seu esplendor não comprometesse a recordação
que me enche, e o desejo com que a mão procura a mão
que lhe falta! As estações prosseguem o seu ciclo; a um inverno
sucede a primavera; e as árvores respiram o primeiro vento
com uma ânsia diferente, anunciando a próxima floração. Eu,
preso às palavras, perco-me no seu labirinto. Ouço-te,
porém: e é sempre no caminho que fica sem saída,
de onde há muito caiu a cal, deixando
as feridas de gesso de onde os meus olhos bebem
o que sobra da tua imagem, que a tua voz me traz a música todos os dias
que não voltarão a nascer.
Talvez não fosse por aí que eu devesse ter
ido; mas que outra saída tem um labirinto senão a que parece
abrir-se num descampado florido, para depois se fechar
em becos, no reino sem futuro das sombras? Diz-me:
adivinhavas o que iria suceder? Ou não ouviste
o que te disse, quando falámos, em frente
desses cafés que arrefeciam, de tudo e nada: o nada
das coisas da vida, as que nos prendem ao instante que passa,
a súbita solidão de um fim de tarde, ou o ruído das crianças,
vindo da rua, que atravessa o espírito até se perder numa obscura
memória de infância; e tudo o resto - esse castelo antigo para que me empurra
um impulso do coração, agora que a taça se esvazia à minha frente
e nenhuma curva de caminho me desvia para o teu rosto.
Então, apago uma a uma as lâmpadas do ocaso? Como
o sacristão louco que avançou pela cripta, derrubando as estátuas
do culto? Não é isso o amor - essa outra religião a que devotamos o mais secreto do ser; a hesitação de uma bailarina
sem saber o lugar que lhe pertence num cenário de conversas; ou
o céu a que aspiramos, nesta terra que nos rouba cada pedaço
de tempo, para o devorar num banquete de astros finais. Podia
explicar-te o que é fictício, o que se perde do outro lado
do que pensamos que seja - a própria vida. Mas ela é
outra coisa: o que se constrói por dentro de nós,
nos intervalos da sensação, e se ergue de todas as horas
solitárias; e o que nos indica, na flor, o que não perece,
para além do seu centro de efémera beleza.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 54 a 56 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
do dia! E o seu esplendor não comprometesse a recordação
que me enche, e o desejo com que a mão procura a mão
que lhe falta! As estações prosseguem o seu ciclo; a um inverno
sucede a primavera; e as árvores respiram o primeiro vento
com uma ânsia diferente, anunciando a próxima floração. Eu,
preso às palavras, perco-me no seu labirinto. Ouço-te,
porém: e é sempre no caminho que fica sem saída,
de onde há muito caiu a cal, deixando
as feridas de gesso de onde os meus olhos bebem
o que sobra da tua imagem, que a tua voz me traz a música todos os dias
que não voltarão a nascer.
Talvez não fosse por aí que eu devesse ter
ido; mas que outra saída tem um labirinto senão a que parece
abrir-se num descampado florido, para depois se fechar
em becos, no reino sem futuro das sombras? Diz-me:
adivinhavas o que iria suceder? Ou não ouviste
o que te disse, quando falámos, em frente
desses cafés que arrefeciam, de tudo e nada: o nada
das coisas da vida, as que nos prendem ao instante que passa,
a súbita solidão de um fim de tarde, ou o ruído das crianças,
vindo da rua, que atravessa o espírito até se perder numa obscura
memória de infância; e tudo o resto - esse castelo antigo para que me empurra
um impulso do coração, agora que a taça se esvazia à minha frente
e nenhuma curva de caminho me desvia para o teu rosto.
Então, apago uma a uma as lâmpadas do ocaso? Como
o sacristão louco que avançou pela cripta, derrubando as estátuas
do culto? Não é isso o amor - essa outra religião a que devotamos o mais secreto do ser; a hesitação de uma bailarina
sem saber o lugar que lhe pertence num cenário de conversas; ou
o céu a que aspiramos, nesta terra que nos rouba cada pedaço
de tempo, para o devorar num banquete de astros finais. Podia
explicar-te o que é fictício, o que se perde do outro lado
do que pensamos que seja - a própria vida. Mas ela é
outra coisa: o que se constrói por dentro de nós,
nos intervalos da sensação, e se ergue de todas as horas
solitárias; e o que nos indica, na flor, o que não perece,
para além do seu centro de efémera beleza.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 54 a 56 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 655
Edmir Domingues
O Último poema
Tenho estado tão cansado
quero dormir para sempre.
Caminhos muitos andei
os pés feridos nas pedras.
Mas havia as cores vivas
das flores nas pradarias,
havia o canto dos pássaros
entre as folhas do arvoredo
havia o doce perfume
das rosas, pelos caminhos.
Mas agora estou cansado.
Os pés sem forças antigas,
os olhos já muito gastos
não vêem as cores de outrora,
os ouvidos insensíveis
da velhice contundente
não ouvem cantos de pássaros,
os sentidos corroídos
já não sentem, como dantes,
o perfume das roseiras.
Tanta vez estive à morte
e tanta vez desmorri.
Mas quero dormir agora.
O mundo não mudou nada,
o mundo eterno e contínuo,
mas eu mudei, não encontro
o menino do Passado.
Moriturus te salutat.
Se eu amo o sono das noites
por que, então, não amaria
o Grande Sono da Morte?
1987.
quero dormir para sempre.
Caminhos muitos andei
os pés feridos nas pedras.
Mas havia as cores vivas
das flores nas pradarias,
havia o canto dos pássaros
entre as folhas do arvoredo
havia o doce perfume
das rosas, pelos caminhos.
Mas agora estou cansado.
Os pés sem forças antigas,
os olhos já muito gastos
não vêem as cores de outrora,
os ouvidos insensíveis
da velhice contundente
não ouvem cantos de pássaros,
os sentidos corroídos
já não sentem, como dantes,
o perfume das roseiras.
Tanta vez estive à morte
e tanta vez desmorri.
Mas quero dormir agora.
O mundo não mudou nada,
o mundo eterno e contínuo,
mas eu mudei, não encontro
o menino do Passado.
Moriturus te salutat.
Se eu amo o sono das noites
por que, então, não amaria
o Grande Sono da Morte?
1987.
792
Martha Medeiros
Hoje Me Desfiz Dos Meus Bens
hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
1 792
Ruy Belo
Haceldama
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia
Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa
E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso
Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons
Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz
E há um grande coração em construção
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia
Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa
E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso
Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons
Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz
E há um grande coração em construção
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 302
Ruy Belo
Prince Caspian
Quantas vezes subimos para ele se porventura é ele como a raiz da terra sequiosa?
Quantas vezes descemos nós do sóbrio tronco ou provámos a água
que de uns primeiros olhos para nós se erguia
sobre o rugir oceânico das árvores despertas
e as lágrimas na face das palavras primitivas?
As insistentes chuvas repetiram-nos os passos
do círculo dos braços escapou-se-nos a vida
nas dálias de um jardim deixámos resumida a infância
com ínfimos objectos convivemos
perdemos gestos lentos nos cabelos misturados
trocaram-nos os pais e mesmo os mais longínquos membros da família
caíram-nos ao lado as folhas e as vestes e os braços e as casas uma a uma
e os touros de Basã a cássia o aloés a mirra
e ao fim tudo Deus, ó comedores de Deus, sobre os nossos cuidados
Por um tempo por uns tempos por mais tempo
ainda as mesmas chuvas molharão o velo
e as estudadas mãos repousarão num vaso etrusco
longe do verão muito longe do quarto
e as palavras de algum modo servirão
A árvore que tomba para o sul ou para o norte
fica deitada no lugar onde caiu
imóvel como à tarde o sol de agosto
e ao fim os doze mil assinalados a traqueia os que não
dobraram o joelho para o acto descomposto do amor.
Dispões de um corpo e mesmo de um passado
conheces sombras e quadrados ávidos da noite
são tuas as crianças do quintal vizinho
experimentas anos de saudade pelos mortos
o mais pequeno sol na rua a própria ausência é também tua
podes ler o jornal (no autocarro) do senhor ao lado
ajudar a subir uma gentil senhora da obra das mães
subscreves listas prestas homenagens
procuras respeitar as mais municipais posturas
és o bónus pater famílias contemplado pelos códigos
administras até um património de brilhantes qualidades
respiras estás de pé ocupas algum espaço embora a título precário
podes talvez contar com uma privativa morte natural
Mas são tantas as riquezas que tu tens
quem ao reino dos céus conseguirá levar-te?
Inútil ir pedir conselho ao rio
Cai na cidade a ríspida sirene há fogo alguém morreu
mas sempre em todos mais que todos o morto sou eu
Há em mim um castelo a derruir
Alguma operação de coração a promover
dizer talvez à noite adeus ao vento
que há tantas gerações preenche as árvores
A passagem dos dias faz suceder em mim
Diversos tons na estátua do jardim
E o amor pelas coisas que se perdem numa tarde
E começo a cantar
como quem do poema se esqueceu
e sente viva em si a natureza que só em si viveu
A poesia é uma loucura de palavras
espectáculo de folhas o poema
Sinto vizinho a mim o mar
e respirar é como finalmente entrar aonde não o sei
Sou tudo nad sou nada mereço
além do ombro público da morte
e choro as mais antigas lágrimas do mundo,
ó memória, inimiga mortal do meu descanso.
Ó Deus imóvel só por nossa boca fala
através de palavras que como a água correm
canta coração justificado
canta mais um bocado
Dizer “eu telefono eu vou em direcção a casa” ou
“sete anos de ausência são uma criança
crescida e de trança a correr pelas ruas”
seriam outras formas de cantar
Eu quero ser, ó efémera beleza de Cremona,
ó ente do passado submetido a estes mesmos dias, teu amigo
Assim eu saiba cultivar os gestos que te tragam
de então à nossa forma de hoje aceitar ou recusar a vida,
nós os menos repelentes animais
as coisas menos tácteis ou portáteis
Mas quem é esse que me traz no andar algum amigo?
Um verdadeiro amigo repovoa uma cidade
um templo o coração o último jardim
Tal como o camponês que ao norte vai por entre o milho
e é filho das estevas e do vento
segundo a melhor mitologia,
tu, ó mais jovem de toda a nossa estirpe,
inocente das nossas mais secretas manhas,
passas na rua só tua e do sol
de um lado e doutro é o comércio das palavras
mas vais como mais uma entre as demais crianças
como elas abres sob os passos inimaginável um caminho
Só no teu rosto linha alguma falta
és da raça das árvores imóveis
sabes como dizer-lhes: ver cair o dia
(em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela)
será possivelmente a única atitude ponderável
E quando à tarde
teu indisciplinado coração enfim regressa
da certeza de seres outra pessoa que não eu
e momentaneamente a vida se perfaz
após o dia que já teve o seu cuidado
tens um pátio de sombra
a primavera levemente reclinada
as vozes e as luzes e as ondas
e os ralos e as rãs e um paul
um cheiro a malva ou malmequer à tua espera
Que calma nessa alma ouvir cair a hora
que como outrora nela tem lugar
Arrastas para casa o sol atrás de ti
e entre as tuas coisas está Deus,
ó cidadão de longe e de ninguém
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 109 a 112 | Círculo de Leitores, Dez 2000
Quantas vezes descemos nós do sóbrio tronco ou provámos a água
que de uns primeiros olhos para nós se erguia
sobre o rugir oceânico das árvores despertas
e as lágrimas na face das palavras primitivas?
As insistentes chuvas repetiram-nos os passos
do círculo dos braços escapou-se-nos a vida
nas dálias de um jardim deixámos resumida a infância
com ínfimos objectos convivemos
perdemos gestos lentos nos cabelos misturados
trocaram-nos os pais e mesmo os mais longínquos membros da família
caíram-nos ao lado as folhas e as vestes e os braços e as casas uma a uma
e os touros de Basã a cássia o aloés a mirra
e ao fim tudo Deus, ó comedores de Deus, sobre os nossos cuidados
Por um tempo por uns tempos por mais tempo
ainda as mesmas chuvas molharão o velo
e as estudadas mãos repousarão num vaso etrusco
longe do verão muito longe do quarto
e as palavras de algum modo servirão
A árvore que tomba para o sul ou para o norte
fica deitada no lugar onde caiu
imóvel como à tarde o sol de agosto
e ao fim os doze mil assinalados a traqueia os que não
dobraram o joelho para o acto descomposto do amor.
Dispões de um corpo e mesmo de um passado
conheces sombras e quadrados ávidos da noite
são tuas as crianças do quintal vizinho
experimentas anos de saudade pelos mortos
o mais pequeno sol na rua a própria ausência é também tua
podes ler o jornal (no autocarro) do senhor ao lado
ajudar a subir uma gentil senhora da obra das mães
subscreves listas prestas homenagens
procuras respeitar as mais municipais posturas
és o bónus pater famílias contemplado pelos códigos
administras até um património de brilhantes qualidades
respiras estás de pé ocupas algum espaço embora a título precário
podes talvez contar com uma privativa morte natural
Mas são tantas as riquezas que tu tens
quem ao reino dos céus conseguirá levar-te?
Inútil ir pedir conselho ao rio
Cai na cidade a ríspida sirene há fogo alguém morreu
mas sempre em todos mais que todos o morto sou eu
Há em mim um castelo a derruir
Alguma operação de coração a promover
dizer talvez à noite adeus ao vento
que há tantas gerações preenche as árvores
A passagem dos dias faz suceder em mim
Diversos tons na estátua do jardim
E o amor pelas coisas que se perdem numa tarde
E começo a cantar
como quem do poema se esqueceu
e sente viva em si a natureza que só em si viveu
A poesia é uma loucura de palavras
espectáculo de folhas o poema
Sinto vizinho a mim o mar
e respirar é como finalmente entrar aonde não o sei
Sou tudo nad sou nada mereço
além do ombro público da morte
e choro as mais antigas lágrimas do mundo,
ó memória, inimiga mortal do meu descanso.
Ó Deus imóvel só por nossa boca fala
através de palavras que como a água correm
canta coração justificado
canta mais um bocado
Dizer “eu telefono eu vou em direcção a casa” ou
“sete anos de ausência são uma criança
crescida e de trança a correr pelas ruas”
seriam outras formas de cantar
Eu quero ser, ó efémera beleza de Cremona,
ó ente do passado submetido a estes mesmos dias, teu amigo
Assim eu saiba cultivar os gestos que te tragam
de então à nossa forma de hoje aceitar ou recusar a vida,
nós os menos repelentes animais
as coisas menos tácteis ou portáteis
Mas quem é esse que me traz no andar algum amigo?
Um verdadeiro amigo repovoa uma cidade
um templo o coração o último jardim
Tal como o camponês que ao norte vai por entre o milho
e é filho das estevas e do vento
segundo a melhor mitologia,
tu, ó mais jovem de toda a nossa estirpe,
inocente das nossas mais secretas manhas,
passas na rua só tua e do sol
de um lado e doutro é o comércio das palavras
mas vais como mais uma entre as demais crianças
como elas abres sob os passos inimaginável um caminho
Só no teu rosto linha alguma falta
és da raça das árvores imóveis
sabes como dizer-lhes: ver cair o dia
(em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela)
será possivelmente a única atitude ponderável
E quando à tarde
teu indisciplinado coração enfim regressa
da certeza de seres outra pessoa que não eu
e momentaneamente a vida se perfaz
após o dia que já teve o seu cuidado
tens um pátio de sombra
a primavera levemente reclinada
as vozes e as luzes e as ondas
e os ralos e as rãs e um paul
um cheiro a malva ou malmequer à tua espera
Que calma nessa alma ouvir cair a hora
que como outrora nela tem lugar
Arrastas para casa o sol atrás de ti
e entre as tuas coisas está Deus,
ó cidadão de longe e de ninguém
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 109 a 112 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 349
Nuno Júdice
Pecado
Nas aldeias antigas, as mulheres do campo
esperavam o princípio da tarde para correrem
no meio das searas, em busca de uma clareira
onde se pudessem despir, para que o sol,
descendo à terra, as pudesse possuir. O fogo
que nascia dos seus lábios pegava-se à erva,
e durante um instante toda a seara ardia,
sem fogo nem fumo, apenas com o desejo
que se soltava da sua boca, e ia apagar o sol,
nas tardes em que a noite caía mais cedo.
Espreitei essas mulheres quando voltavam
das searas, e nos seus olhos traziam um cansaço
de amor. Acompanhei-as às suas casas, e vi-as
deitarem-se contra a parede, olhando os seus
rostos no espelho que as velhas seguravam.
Tinham no rosto um princípio de melancolia;
mas diziam-me que a noite resolveria tudo,
quando a sua cabeça se enchesse de sonhos.
«Que queres daqui?» perguntavam-me. E eu
pedia-lhes que me guardassem a imagem
do espelho, em que a eternidade se dissipa,
como o seu sorriso no rescaldo do prazer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 114 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
esperavam o princípio da tarde para correrem
no meio das searas, em busca de uma clareira
onde se pudessem despir, para que o sol,
descendo à terra, as pudesse possuir. O fogo
que nascia dos seus lábios pegava-se à erva,
e durante um instante toda a seara ardia,
sem fogo nem fumo, apenas com o desejo
que se soltava da sua boca, e ia apagar o sol,
nas tardes em que a noite caía mais cedo.
Espreitei essas mulheres quando voltavam
das searas, e nos seus olhos traziam um cansaço
de amor. Acompanhei-as às suas casas, e vi-as
deitarem-se contra a parede, olhando os seus
rostos no espelho que as velhas seguravam.
Tinham no rosto um princípio de melancolia;
mas diziam-me que a noite resolveria tudo,
quando a sua cabeça se enchesse de sonhos.
«Que queres daqui?» perguntavam-me. E eu
pedia-lhes que me guardassem a imagem
do espelho, em que a eternidade se dissipa,
como o seu sorriso no rescaldo do prazer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 114 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 287
Nuno Júdice
Rosa
Podia esquecer tudo o que me disseste, ouvir
o canto do pássaro que passou nesta sala,
respirar o perfume do jardim que entra pela
janela, olhar para fora de mim, para aquilo
a que chamam o mundo. No entanto, o que
tenho pela frente são as lembranças que
procurei esquecer, a imagem de que não me
libertarei, a voz que ecoa na minha
memória, dizendo o nome tantas vezes
murmurado. E encosto-me a este instante,
contando o tempo que falta para que a
luz desapareça, e a noite me traga
o silêncio de onde nascem os sonhos.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 77 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o canto do pássaro que passou nesta sala,
respirar o perfume do jardim que entra pela
janela, olhar para fora de mim, para aquilo
a que chamam o mundo. No entanto, o que
tenho pela frente são as lembranças que
procurei esquecer, a imagem de que não me
libertarei, a voz que ecoa na minha
memória, dizendo o nome tantas vezes
murmurado. E encosto-me a este instante,
contando o tempo que falta para que a
luz desapareça, e a noite me traga
o silêncio de onde nascem os sonhos.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 77 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
745
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice - 7
Iludia-me. A morte, que é o fim
do amor, corria à solta nos temporais
da alma. Eu podia ter uma consciência
da sua presença nalguns intervalos bruscos,
quando os teus passos me faltavam, e
só uma nova respiração, atrás de mim, me
restituía o ânimo da ascensão. Tu,
liberta dessa morte que te prendia os lábios,
dizias-me: não me deixes! Como se fosse
preciso dizê-lo! E não fosses tu a única
razão dessa viagem a que dei o nome
vida, sabendo que a sua única verdade é esse
amor. Porém, os nossos lábios não se
encontravam na certeza do tempo.
O futuro instalou a sua distância naquilo
que é o presente, com a sua duração inscrita
no destino dos que conheceram uma
coincidência de um e outro, o olhar uníssono
dos amantes, o brusco repouso de uma
ânsia de espaço. Aqui, a distância é o que não
separa; o medo da mudança dissipa-se;
e a recordação é o que está depois do que foi
vivido, como se fosse a memória a construir
o dia de amanhã.
Quis arrancar-te, assim, ao destino ― e
libertar-me, eu próprio, da sua sujeição. Quantos
rostos se fixaram no teu, para que em ti
eu visse cada uma das imagens por onde passei,
restituindo-lhes uma respiração humana. Procurei-te
enquanto imaginei que me procuravas ― e
cada passo que dava, na minha descida, afastava
tudo o que eu perdia enquanto descia. Nesse outro
mundo, em que nos reduzimos a nós, afastando
do que somos tudo o que nos opunha,
não dei por que um cansaço de ser me obrigava
ao regresso. Tê-lo-ei feito cedo demais? Por
que me voltei, então, como se soubesse que
as sombras não pedem que as olhemos,
e deixei que te prendessem com a sua
inquietação de fumo?
No entanto, um eco responde-me: estou
aqui. E por trás dele outros ecos se sucedem,
multiplicando os lugares, até ao fim
do caminho. No teu quarto, prendendo o cabelo,
esperas que um incêndio de poço entreabra
a noite, e rompa os muros que o silêncio
ergueu à tua volta. Mas o canto envolve-te: e
despe-te, com a solidão dos seus dedos, até
à nudez do caule.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 58 e 59 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
do amor, corria à solta nos temporais
da alma. Eu podia ter uma consciência
da sua presença nalguns intervalos bruscos,
quando os teus passos me faltavam, e
só uma nova respiração, atrás de mim, me
restituía o ânimo da ascensão. Tu,
liberta dessa morte que te prendia os lábios,
dizias-me: não me deixes! Como se fosse
preciso dizê-lo! E não fosses tu a única
razão dessa viagem a que dei o nome
vida, sabendo que a sua única verdade é esse
amor. Porém, os nossos lábios não se
encontravam na certeza do tempo.
O futuro instalou a sua distância naquilo
que é o presente, com a sua duração inscrita
no destino dos que conheceram uma
coincidência de um e outro, o olhar uníssono
dos amantes, o brusco repouso de uma
ânsia de espaço. Aqui, a distância é o que não
separa; o medo da mudança dissipa-se;
e a recordação é o que está depois do que foi
vivido, como se fosse a memória a construir
o dia de amanhã.
Quis arrancar-te, assim, ao destino ― e
libertar-me, eu próprio, da sua sujeição. Quantos
rostos se fixaram no teu, para que em ti
eu visse cada uma das imagens por onde passei,
restituindo-lhes uma respiração humana. Procurei-te
enquanto imaginei que me procuravas ― e
cada passo que dava, na minha descida, afastava
tudo o que eu perdia enquanto descia. Nesse outro
mundo, em que nos reduzimos a nós, afastando
do que somos tudo o que nos opunha,
não dei por que um cansaço de ser me obrigava
ao regresso. Tê-lo-ei feito cedo demais? Por
que me voltei, então, como se soubesse que
as sombras não pedem que as olhemos,
e deixei que te prendessem com a sua
inquietação de fumo?
No entanto, um eco responde-me: estou
aqui. E por trás dele outros ecos se sucedem,
multiplicando os lugares, até ao fim
do caminho. No teu quarto, prendendo o cabelo,
esperas que um incêndio de poço entreabra
a noite, e rompa os muros que o silêncio
ergueu à tua volta. Mas o canto envolve-te: e
despe-te, com a solidão dos seus dedos, até
à nudez do caule.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 58 e 59 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Nuno Júdice
A banhista dita banhista Valpinçon
A mão direita pousa no lençol, acabado de
usar, e procura o calor de um corpo. Olha para
o travesseiro onde ainda ficou a marca da
cabeça; e não se importa com o que está
para trás, entregando-se à volúpia de
lembrar o instante que acaba de viver. Mas
o pé, num breve desequilíbrio, procura
o chinelo para se calçar; e entre a
melancólica imobilidade que a prende
à cama e o desejo de se levantar, faz
a pausa em que a sua nudez se fixa, para
sempre, como se a cama não tivesse de ser
feita, e o banho não estivesse pronto,
para a lavar da noite.
usar, e procura o calor de um corpo. Olha para
o travesseiro onde ainda ficou a marca da
cabeça; e não se importa com o que está
para trás, entregando-se à volúpia de
lembrar o instante que acaba de viver. Mas
o pé, num breve desequilíbrio, procura
o chinelo para se calçar; e entre a
melancólica imobilidade que a prende
à cama e o desejo de se levantar, faz
a pausa em que a sua nudez se fixa, para
sempre, como se a cama não tivesse de ser
feita, e o banho não estivesse pronto,
para a lavar da noite.
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Nuno Júdice
Interrogação
Para que serve a poesia?, perguntas. Uma das
respostas está na forma como o destino do humano
se projecta na necessidade de absoluto que surge
num rosto, para além das circunstâncias, quando
a palidez imprime o vazio do tempo. A dúvida
transforma-se na única certeza possível,
envolvendo os olhos marcados pela dor;
e o corpo que se abandona ao fim ganha
raízes no chão efémero de uma substância
de palavras, como se lhe pudéssemos oferecer
o sacrifício da alma que nenhum deus
aceitou. No entanto, esta árvore cresce;
e os seus ramos estéreis bebem o ar
da memória que alimenta uma seiva
de silêncio, entregando à noite
as suas flores de sombra.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 116 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
respostas está na forma como o destino do humano
se projecta na necessidade de absoluto que surge
num rosto, para além das circunstâncias, quando
a palidez imprime o vazio do tempo. A dúvida
transforma-se na única certeza possível,
envolvendo os olhos marcados pela dor;
e o corpo que se abandona ao fim ganha
raízes no chão efémero de uma substância
de palavras, como se lhe pudéssemos oferecer
o sacrifício da alma que nenhum deus
aceitou. No entanto, esta árvore cresce;
e os seus ramos estéreis bebem o ar
da memória que alimenta uma seiva
de silêncio, entregando à noite
as suas flores de sombra.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 116 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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