Poemas neste tema
Amor Platónico
Natália Correia
O Livro dos Amantes II
Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
2 037
1
Bocage
Desejo Amante
Elmano, de teus mimos anelante,
Elmano em te admirar, meu bem, não erra;
Incomparáveis dons tua alma encerra,
Ornam mil perfeições o teu semblante:
Granjeias sem vontade a cada instante
Claros triunfos na amorosa guerra:
Tesouro que do Céu vieste à Terra,
Não precisas dos olhos de um amante.
Oh!, se eu pudesse, Amor, oh!, se eu pudesse
Cumprir meu gosto! Se em altar sublime
Os incensos de Jove a Lília desse!
Folgara o coração quanto se oprime;
E a Razão, que os excessos aborrece,
Notando a causa, revelara o crime.
Elmano em te admirar, meu bem, não erra;
Incomparáveis dons tua alma encerra,
Ornam mil perfeições o teu semblante:
Granjeias sem vontade a cada instante
Claros triunfos na amorosa guerra:
Tesouro que do Céu vieste à Terra,
Não precisas dos olhos de um amante.
Oh!, se eu pudesse, Amor, oh!, se eu pudesse
Cumprir meu gosto! Se em altar sublime
Os incensos de Jove a Lília desse!
Folgara o coração quanto se oprime;
E a Razão, que os excessos aborrece,
Notando a causa, revelara o crime.
2 709
1
Fernando Pessoa
Ah, verdadeiramente a deusa! —
Ah, verdadeiramente a deusa! –
A que ninguém viu sem amar
E que já o coração endeusa
Só com somente a adivinhar.
Por fim magnânima aparece
Naquela perfeição que é
Uma estátua que a vida aquece
E faz da mesma vida fé.
Ah, verdadeiramente aquela
Com que no túmulo do mundo
O morto sonha, como a estrela
Que há-de surgir no céu profundo.
03/09/1934
A que ninguém viu sem amar
E que já o coração endeusa
Só com somente a adivinhar.
Por fim magnânima aparece
Naquela perfeição que é
Uma estátua que a vida aquece
E faz da mesma vida fé.
Ah, verdadeiramente aquela
Com que no túmulo do mundo
O morto sonha, como a estrela
Que há-de surgir no céu profundo.
03/09/1934
4 911
1
Fernando Pessoa
4 - SPELL
SPELL
From the moonlit brink of dreams
I stretch foiled hands to thee,
O borne down other streams
Than eye can think to see!
O crowned with spirit beams!
O veiled spirituality!
My dreams and thoughts abate
Their pennons at thy feet.
O angel born too late
For fallen man to meet!
In what new sensual state
Could our twined lives feel sweet?
What new emotion must
I dream to think thee mine?
What purity of lust?
O tendrilled as a vine
Around my caressed trust!
O dream-pressed spirit-wine!
From the moonlit brink of dreams
I stretch foiled hands to thee,
O borne down other streams
Than eye can think to see!
O crowned with spirit beams!
O veiled spirituality!
My dreams and thoughts abate
Their pennons at thy feet.
O angel born too late
For fallen man to meet!
In what new sensual state
Could our twined lives feel sweet?
What new emotion must
I dream to think thee mine?
What purity of lust?
O tendrilled as a vine
Around my caressed trust!
O dream-pressed spirit-wine!
4 620
1
Fernando Pessoa
A tua carne calma
A tua carne calma
Presente não tem ser,
Os meus desejos são cansaços.
Quem querem ter nos braços
É a ideia de te ter.
1930
Presente não tem ser,
Os meus desejos são cansaços.
Quem querem ter nos braços
É a ideia de te ter.
1930
4 213
1
Fernando Pessoa
Dorme sobre o meu seio.
Dorme sobre o meu seio,
Sonhando de sonhar...
No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.
Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O espaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.
Dorme sobre o meu seio,
Sem mágoa nem amor...
No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
Sonhando de sonhar...
No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.
Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O espaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.
Dorme sobre o meu seio,
Sem mágoa nem amor...
No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
4 694
1
Amália Bautista
Dream a little dream of me
Convida-me para o teu sonho,
deixa-me partilhar esse filme
onde o tempo é disforme e o desejo se cumpre.
Sonha um pouco comigo e eu prometo
ser a mulher perfeita
para ti, enquanto viveres de olhos fechados.
Hei-de beijar-te com lábios de cereja,
misturar sabiamente paixão e ternura
e quando vier a aurora partirei sem fazer barulho.
deixa-me partilhar esse filme
onde o tempo é disforme e o desejo se cumpre.
Sonha um pouco comigo e eu prometo
ser a mulher perfeita
para ti, enquanto viveres de olhos fechados.
Hei-de beijar-te com lábios de cereja,
misturar sabiamente paixão e ternura
e quando vier a aurora partirei sem fazer barulho.
83
Amália Bautista
Nu de mulher
Para ti nunca passei de um bloco
de mármore. Esculpiste nele o meu corpo,
um corpo de mulher branco e formoso,
em que não viste nada a não ser pedra
e o orgulho, isso sim, do teu trabalho.
Nunca imaginaste que eu te amava
e que tremia quando, docemente,
me modelavas os seios e os ombros,
ou alisavas as coxas e o ventre.
Hoje, estou num jardim, onde suporto
os rigores do frio pelo Inverno,
e no Verão aqueço de tal modo
que nem sequer os pardalitos vêm
pousar nas minhas mãos pois estas queimam.
Mas, de tudo isto, o que mais me dói
é baixar a cabeça e ver a placa:
”Nu de mulher”, como há tantas outras.
Nem te lembraste de me dar um nome.
de mármore. Esculpiste nele o meu corpo,
um corpo de mulher branco e formoso,
em que não viste nada a não ser pedra
e o orgulho, isso sim, do teu trabalho.
Nunca imaginaste que eu te amava
e que tremia quando, docemente,
me modelavas os seios e os ombros,
ou alisavas as coxas e o ventre.
Hoje, estou num jardim, onde suporto
os rigores do frio pelo Inverno,
e no Verão aqueço de tal modo
que nem sequer os pardalitos vêm
pousar nas minhas mãos pois estas queimam.
Mas, de tudo isto, o que mais me dói
é baixar a cabeça e ver a placa:
”Nu de mulher”, como há tantas outras.
Nem te lembraste de me dar um nome.
577
Amália Bautista
Os meus melhores desejos
Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não te apanhe o vício de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos de quem nunca te disse que te amava.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não te apanhe o vício de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos de quem nunca te disse que te amava.
911
Maria da Saudade Cortesão Mendes
Primavera
A Musa que passava
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.
Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.
Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.
Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.
Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.
771
António de Carvalhal Esmeraldo
Pois me contento
Pois me contento só de idolatrar-te,
Oh, Belisa, permite o querer-te,
Ou que não chegue ao menos a ofender-te,
Pois que em nada hei podido contentar-te.
De que podes por ora recear-te?
E que posso eu fazer com pretender-te?
Temes que venha acaso a merecer-te;
Porque insisto penoso em venerar-te?
Mas o muito que peno não me engana,
Nada espero; bem que por ti padeço,
Pois certamente em nada eras humana.
Não tem para alcançar-te as penas peço,
Que como eras em tudo soberana,
Desvario é cuidar que te mereço.
Oh, Belisa, permite o querer-te,
Ou que não chegue ao menos a ofender-te,
Pois que em nada hei podido contentar-te.
De que podes por ora recear-te?
E que posso eu fazer com pretender-te?
Temes que venha acaso a merecer-te;
Porque insisto penoso em venerar-te?
Mas o muito que peno não me engana,
Nada espero; bem que por ti padeço,
Pois certamente em nada eras humana.
Não tem para alcançar-te as penas peço,
Que como eras em tudo soberana,
Desvario é cuidar que te mereço.
647
Pero da Ponte
Dom Garcia Martiins, Saber
- Dom Garcia Martĩins, saber
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.
- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.
- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.
- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.
- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?
- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.
- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.
- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.
- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.
- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?
- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
711
Nuno Fernandes Torneol
Am'eu Tam Muito Mia Senhor
Am'eu tam muito mia senhor
que sol nom me sei conselhar!
E ela nom se quer nembrar
de mim... e moiro-me d'amor!
E assi morrerei por quem
nem quer meu mal, nem quer meu bem!
E quando lh 'eu quero dizer
o muito mal que mi amor faz,
sol nom lhe pesa, nem lhe praz,
nem quer em mim mentes meter.
E assi morrerei por quem
nem quer meu mal, nem quer meu bem!
Que ventura que me Deus deu:
que me fez amar tal molher
que meu serviço nom me quer!
E moir'e nom me tem por seu!
E assi morrerei por quem
nem quer meu mal, nem quer meu bem!
E veede que coita tal:
que eu já sempr'hei a servir
molher que mi o nom quer gracir,
nem mi o tem por bem, nem por mal!
E assi morrerei por quem
nem quer meu mal, nem quer meu bem!
que sol nom me sei conselhar!
E ela nom se quer nembrar
de mim... e moiro-me d'amor!
E assi morrerei por quem
nem quer meu mal, nem quer meu bem!
E quando lh 'eu quero dizer
o muito mal que mi amor faz,
sol nom lhe pesa, nem lhe praz,
nem quer em mim mentes meter.
E assi morrerei por quem
nem quer meu mal, nem quer meu bem!
Que ventura que me Deus deu:
que me fez amar tal molher
que meu serviço nom me quer!
E moir'e nom me tem por seu!
E assi morrerei por quem
nem quer meu mal, nem quer meu bem!
E veede que coita tal:
que eu já sempr'hei a servir
molher que mi o nom quer gracir,
nem mi o tem por bem, nem por mal!
E assi morrerei por quem
nem quer meu mal, nem quer meu bem!
710
Nuno Fernandes Torneol
Quer'eu a Deus Rogar de Coraçom
Quer'eu a Deus rogar de coraçom,
com'home que é coitado d'amor,
que El me leixe veer mia senhor
mui ced'; e se m'El nom quiser oir,
logo lh'eu querrei outra rem pedir:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El há de fazer algum bem,
oir-mi-á 'questo que Lh'eu rogarei
e mostrar-mi-á quanto bem no mund'hei.
E se mi o El nom quiser amostrar,
logo Lh'eu outra rem querrei rogar:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El amostrar a mia senhor,
que am'eu mais ca o meu coraçom,
vedes o que Lhe rogarei entom:
que me dê seu bem, que m'é mui mester;
e rogá'-Lh'-ei que, se o nom fezer,
que me nom leixe no mundo viver!
E rogá'-Lh'-ei, se me bem há fazer,
que El me leixe viver em logar
u a veja e lhe possa falar,
por quanta coita me por ela deu;
senom, vedes que Lhe rogarei eu:
que me nom leixe no mundo viver!
com'home que é coitado d'amor,
que El me leixe veer mia senhor
mui ced'; e se m'El nom quiser oir,
logo lh'eu querrei outra rem pedir:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El há de fazer algum bem,
oir-mi-á 'questo que Lh'eu rogarei
e mostrar-mi-á quanto bem no mund'hei.
E se mi o El nom quiser amostrar,
logo Lh'eu outra rem querrei rogar:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El amostrar a mia senhor,
que am'eu mais ca o meu coraçom,
vedes o que Lhe rogarei entom:
que me dê seu bem, que m'é mui mester;
e rogá'-Lh'-ei que, se o nom fezer,
que me nom leixe no mundo viver!
E rogá'-Lh'-ei, se me bem há fazer,
que El me leixe viver em logar
u a veja e lhe possa falar,
por quanta coita me por ela deu;
senom, vedes que Lhe rogarei eu:
que me nom leixe no mundo viver!
651
Pero da Ponte
Senhor do Corpo Delgado
Senhor do corpo delgado,
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
662
Nuno Fernandes Torneol
Preguntam-Me Por Que Ando Sandeu
Preguntam-me por que ando sandeu,
e nom lhe'lo quer'eu já mais negar;
e pois me deles nom poss'amparar,
nem me leixam encobrir com meu mal,
direi-lhes eu a verdad'e nom al:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
Nem mais fremosa, lhes direi, de pram,
(ca lhes nom quero negar nulha rem
de mia fazenda – ca lhes quero bem),
nem pola que hoj'eu sei mais de prez.
E se m'ar preguntarem outra vez,
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E Deu'lo sabe quam grav'a mi é
de lhes dizer o que sempre neguei;
mais pois me coitam, dizer-lhe-la-ei
a meus amigos, e a outros nom,
mui gram verdade, si Deus mi perdom!:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E se a eles virem, creerám
ca lhes dig'eu verdade, u al nom há,
e leixar-m'-am de me preguntar já;
e se o nom ar quiserem fazer,
querê'-lhes-ei a verdade dizer:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
e nom lhe'lo quer'eu já mais negar;
e pois me deles nom poss'amparar,
nem me leixam encobrir com meu mal,
direi-lhes eu a verdad'e nom al:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
Nem mais fremosa, lhes direi, de pram,
(ca lhes nom quero negar nulha rem
de mia fazenda – ca lhes quero bem),
nem pola que hoj'eu sei mais de prez.
E se m'ar preguntarem outra vez,
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E Deu'lo sabe quam grav'a mi é
de lhes dizer o que sempre neguei;
mais pois me coitam, dizer-lhe-la-ei
a meus amigos, e a outros nom,
mui gram verdade, si Deus mi perdom!:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E se a eles virem, creerám
ca lhes dig'eu verdade, u al nom há,
e leixar-m'-am de me preguntar já;
e se o nom ar quiserem fazer,
querê'-lhes-ei a verdade dizer:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
725
Nuno Fernandes Torneol
Pois Naci Nunca Vi Amor
Pois naci nunca vi Amor
e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
Pero nunca lh'eu fige rem
por que m'el haja de matar,
mais quer'eu mia senhor rogar,
pola gram coit'em que me tem:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor!
Nunca me lh'eu ampararei,
se m'ela del nom amparar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gram medo que del hei:
que mi amostr'aquel matador,
ou que mi ampare del melhor.
E pois Amor há sobre mi
de me matar tam gram poder
e eu non'o posso veer,
rogarei mia senhor assi:
que mi amostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
Pero nunca lh'eu fige rem
por que m'el haja de matar,
mais quer'eu mia senhor rogar,
pola gram coit'em que me tem:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor!
Nunca me lh'eu ampararei,
se m'ela del nom amparar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gram medo que del hei:
que mi amostr'aquel matador,
ou que mi ampare del melhor.
E pois Amor há sobre mi
de me matar tam gram poder
e eu non'o posso veer,
rogarei mia senhor assi:
que mi amostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
510
Nuno Fernandes Torneol
Ai Eu! E de Mim Que Será?
Ai eu! e de mim que será?
Que fui tal dona querer bem
a que nom ouso dizer rem
de quanto mal me faz haver!
E feze-a Deus parecer
melhor de quantas no mund'há!
Mais em grave dia naci,
se Deus conselho nom mi der;
ca destas coitas qual xe quer
m'é-mi mui grave d'endurar:
como nom lh'ousar a falar
e ela parecer assi.
Ela, que Deus fez por meu mal!
Ca já lh'eu sempre bem querrei
e nunca end'atenderei
com que folg'o meu coraçom,
que foi trist', há i gram sazom,
polo seu bem, ca nom por al.
Que fui tal dona querer bem
a que nom ouso dizer rem
de quanto mal me faz haver!
E feze-a Deus parecer
melhor de quantas no mund'há!
Mais em grave dia naci,
se Deus conselho nom mi der;
ca destas coitas qual xe quer
m'é-mi mui grave d'endurar:
como nom lh'ousar a falar
e ela parecer assi.
Ela, que Deus fez por meu mal!
Ca já lh'eu sempre bem querrei
e nunca end'atenderei
com que folg'o meu coraçom,
que foi trist', há i gram sazom,
polo seu bem, ca nom por al.
1 319
Fernão Garcia Esgaravunha
N?Um Conselho, Senhor, Nom Me Sei
Nẽum conselho, senhor, nom me sei
a esta coita que me faz haver
esse vosso fremoso parecer;
e pois aqui tamanha coita hei
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
E perdud'hei o dormir e o sem
perderei ced', aquant'é meu coidar,
que nom sei i conselho que filhar;
e pois mi aqui tamanha coita vem,
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
E nunca eu tamanha coita vi
haver a home, si Deus me perdom,
aqual hoj'eu hei no meu coraçom
por vós; e pois tal coita hei aqui
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
a esta coita que me faz haver
esse vosso fremoso parecer;
e pois aqui tamanha coita hei
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
E perdud'hei o dormir e o sem
perderei ced', aquant'é meu coidar,
que nom sei i conselho que filhar;
e pois mi aqui tamanha coita vem,
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
E nunca eu tamanha coita vi
haver a home, si Deus me perdom,
aqual hoj'eu hei no meu coraçom
por vós; e pois tal coita hei aqui
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
629
Nuno Fernandes Torneol
Par Deus, Senhor, Em Gram Coita Serei
Par Deus, senhor, em gram coita serei
agora quando m'eu de vós quitar,
ca me nom hei d'al no mund'a pagar;
e, mia senhor, gram dereito farei,
pois eu de vós os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir.
E bem mi o per devedes a creer
que me será mia mort', e m'é mester,
des quando vos eu veer nom poder;
nem Deus, senhor, nom me leixe viver,
pois eu de vos os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir.
Pero sei-m'eu que me faço mal sem,
de vos amar, ca, des quando vos vi,
em mui gram coita fui, senhor, des i;
mais que farei, ai meu lum'e meu bem,
pois eu de vós os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir?
E pois vos Deus fez parecer melhor
de quantas outras eno mundo som,
por mal de mim e do meu coraçom,
com'haverei já do mundo sabor,
pois eu de vós os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir?
agora quando m'eu de vós quitar,
ca me nom hei d'al no mund'a pagar;
e, mia senhor, gram dereito farei,
pois eu de vós os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir.
E bem mi o per devedes a creer
que me será mia mort', e m'é mester,
des quando vos eu veer nom poder;
nem Deus, senhor, nom me leixe viver,
pois eu de vos os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir.
Pero sei-m'eu que me faço mal sem,
de vos amar, ca, des quando vos vi,
em mui gram coita fui, senhor, des i;
mais que farei, ai meu lum'e meu bem,
pois eu de vós os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir?
E pois vos Deus fez parecer melhor
de quantas outras eno mundo som,
por mal de mim e do meu coraçom,
com'haverei já do mundo sabor,
pois eu de vós os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir?
680
Fernão Garcia Esgaravunha
Hom'a Que Deus Bem Quer Fazer
Hom'a que Deus bem quer fazer,
nom lhe faz tal senhor amar
a que nom ouse rem dizer,
com gram pavor de lhe pesar;
nen'o ar faz longe morar
d'u ela é, sem seu prazer;
com'agora mim faz viver,
que me nom sei conselh'achar,
com tam gram coita de sofrer,
em qual m'eu ora vej'andar,
com'haver sempr'a desejar
mais doutra rem de a veer.
Mais nom pod'aquesto saber
senom a quem Deus quiser dar
a coita que El fez haver
a mim, des que me foi mostrar
a que El fez melhor falar
do mund'e melhor parecer.
nom lhe faz tal senhor amar
a que nom ouse rem dizer,
com gram pavor de lhe pesar;
nen'o ar faz longe morar
d'u ela é, sem seu prazer;
com'agora mim faz viver,
que me nom sei conselh'achar,
com tam gram coita de sofrer,
em qual m'eu ora vej'andar,
com'haver sempr'a desejar
mais doutra rem de a veer.
Mais nom pod'aquesto saber
senom a quem Deus quiser dar
a coita que El fez haver
a mim, des que me foi mostrar
a que El fez melhor falar
do mund'e melhor parecer.
650
Pero da Ponte
A Mia Senhor, Que Eu Mais Doutra Rem
A mia senhor, que eu mais doutra rem
desejei sempr'e amei e servi,
que nom soía dar nada por mi,
preito me trage de me fazer bem:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
Em qual coita me seus desejos dam
tod'a sazom! Mais, des agora já,
por quanto mal me faz, bem me fará,
ca morrerei e perderei afã:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
E quanto mal eu por ela levei,
ora mi o cobrarei, se Deus quiser;
ca, pois eu por ela morte preser,
nom mi dirám que dela bem nom hei:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
Tal sazom foi que me tev'em desdém,
quando me mais forçava seu amor;
e ora, mal que pês a mia senhor,
bem me fará e mal grad'haja en:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
desejei sempr'e amei e servi,
que nom soía dar nada por mi,
preito me trage de me fazer bem:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
Em qual coita me seus desejos dam
tod'a sazom! Mais, des agora já,
por quanto mal me faz, bem me fará,
ca morrerei e perderei afã:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
E quanto mal eu por ela levei,
ora mi o cobrarei, se Deus quiser;
ca, pois eu por ela morte preser,
nom mi dirám que dela bem nom hei:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
Tal sazom foi que me tev'em desdém,
quando me mais forçava seu amor;
e ora, mal que pês a mia senhor,
bem me fará e mal grad'haja en:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
559
Fernão Garcia Esgaravunha
Senhor Fremosa, Que Sempre Servi
Senhor fremosa, que sempre servi
- se Deus me leixe de vós bem haver!-
pero mi o vós nom queredes creer,
des aquel dia, senhor, que vos vi,
sem vosso grado me vos faz Amor,
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
E, mia senhor - assi Deus me perdom
e me dê cedo, senhor, de vós bem
que eu desejo mais que outra rem -,
des que vos vi, mia senhor; des entom,
sem vosso grado me vos faz Amor
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
E, mia senhor - assi m'ajude Deus
escontra vós, que me faz tant'amar,
que nom sei i conselho que filhar -,
des que vos virom estes olhos meus,
sem vosso grado me vos faz Amor,
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
- se Deus me leixe de vós bem haver!-
pero mi o vós nom queredes creer,
des aquel dia, senhor, que vos vi,
sem vosso grado me vos faz Amor,
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
E, mia senhor - assi Deus me perdom
e me dê cedo, senhor, de vós bem
que eu desejo mais que outra rem -,
des que vos vi, mia senhor; des entom,
sem vosso grado me vos faz Amor
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
E, mia senhor - assi m'ajude Deus
escontra vós, que me faz tant'amar,
que nom sei i conselho que filhar -,
des que vos virom estes olhos meus,
sem vosso grado me vos faz Amor,
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
641
Rui Queimado
Por Mia Senhor Fremosa Quer'eu Bem
Por mia senhor fremosa quer'eu bem
a quantas donas vej'; e gram sabor
hei eu de as servir, por mia senhor
que amo muit'; e farei ũa rem:
porque som donas, querrei-lhes fazer
serviço sempr', e querrei-as veer
sempr'u puder e dizer delas bem,
por mia senhor, a que quero gram bem,
que servirei já, mentr'eu vivo for.
Mais enquant'ora nom vir mia senhor
servirei as outras donas por en,
porque nunca vejo tam gram prazer
com'em vee-las, pois nom hei poder
de veer mia senhor que quero bem.
Ca, de pram, est'é hoj'o mais de bem
que hei, pero que sõo sabedor
que assi morrerei por mia senhor,
veend'as outras, perdendo meu sem
por veer ela, que Deus quis fazer
senhor das outras em bem parecer
e em falar e em tod'outro bem.
E por aquesta cuid'eu a morrer,
a que Deus fez, por meu mal, tanto bem.
a quantas donas vej'; e gram sabor
hei eu de as servir, por mia senhor
que amo muit'; e farei ũa rem:
porque som donas, querrei-lhes fazer
serviço sempr', e querrei-as veer
sempr'u puder e dizer delas bem,
por mia senhor, a que quero gram bem,
que servirei já, mentr'eu vivo for.
Mais enquant'ora nom vir mia senhor
servirei as outras donas por en,
porque nunca vejo tam gram prazer
com'em vee-las, pois nom hei poder
de veer mia senhor que quero bem.
Ca, de pram, est'é hoj'o mais de bem
que hei, pero que sõo sabedor
que assi morrerei por mia senhor,
veend'as outras, perdendo meu sem
por veer ela, que Deus quis fazer
senhor das outras em bem parecer
e em falar e em tod'outro bem.
E por aquesta cuid'eu a morrer,
a que Deus fez, por meu mal, tanto bem.
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