Poemas neste tema
Amor Platónico
Marly de Oliveira
Parecia um pássaro
Parecia um pássaro, um frêmito
de folha, uma líbélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento / de amor? /
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.
de folha, uma líbélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento / de amor? /
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.
1 269
1
Lisa Lago
Beijo
Uma batida rouca
na porta da noite escura
de bares fechados
e mesas vazias
As mesas falam, sabia?
As cadeiras dançam
e os copos se beijam
quando brindam
O seu olhar fala
mudo, discreto e sensível
dentro de minha boca fechada
por medo de sorrir
na porta da noite escura
de bares fechados
e mesas vazias
As mesas falam, sabia?
As cadeiras dançam
e os copos se beijam
quando brindam
O seu olhar fala
mudo, discreto e sensível
dentro de minha boca fechada
por medo de sorrir
912
1
João de Deus de Nogueira Ramos
Sempre
Nem te vejo por entre a gelosia;
Nunca no teu olhar o meu repousa;
Nunca te posso ver, e todavia,
Eu não vejo outra cousa!
Nunca no teu olhar o meu repousa;
Nunca te posso ver, e todavia,
Eu não vejo outra cousa!
1 921
1
Amândio César
Flor
Eu te sei pura, casta e meiga!
Eu te sei toda feita de pureza,
Branca como o leite fresco
Que se põe na mesa.
Eu te sei toda feita de castidade,
Num vago receio, perfume de alecrim,
Que se percebe quando não há claridade.
Eu te sei, terna e meiga,
Como as flores silvestres, naturais,
Que nascem nas margens duma veiga.
Eu te sei — isso tudo — para mim! ...
Eu te sei toda feita de pureza,
Branca como o leite fresco
Que se põe na mesa.
Eu te sei toda feita de castidade,
Num vago receio, perfume de alecrim,
Que se percebe quando não há claridade.
Eu te sei, terna e meiga,
Como as flores silvestres, naturais,
Que nascem nas margens duma veiga.
Eu te sei — isso tudo — para mim! ...
1 163
1
Heinrich Heine
SIE SASSEN
Tomando chá, sentadíssimos,
Conversam muito de amor.
Os homens delicadíssimos,
As damas só temo ardor.
Cumpre que seja platônico,
Um Conselheiro declara.
Da esposa o sorriso irónico
É como um ai que soltara.
O Cónego fala rude:
E que a excessos não se dê
Pra não estragar a saúde.
Murmura a virgem: - Porquê?
Conversam muito de amor.
Os homens delicadíssimos,
As damas só temo ardor.
Cumpre que seja platônico,
Um Conselheiro declara.
Da esposa o sorriso irónico
É como um ai que soltara.
O Cónego fala rude:
E que a excessos não se dê
Pra não estragar a saúde.
Murmura a virgem: - Porquê?
2 104
1
Julieta Lima
Ninguém vai saber
Ninguém vai saber
Do meu segredo.
Tenho um amante
Belo como Deus
E todo nu
Aqui deitado ao meu lado!
Seus beijos são azuis
E a sua voz vermelha como o lume!
Tenho um amante só meu
E ninguém vai saber,
Ninguém mo vai roubar,
Porque ele é meu, só meu:
É feito de poemas e de fumo...
Do meu segredo.
Tenho um amante
Belo como Deus
E todo nu
Aqui deitado ao meu lado!
Seus beijos são azuis
E a sua voz vermelha como o lume!
Tenho um amante só meu
E ninguém vai saber,
Ninguém mo vai roubar,
Porque ele é meu, só meu:
É feito de poemas e de fumo...
881
1
Natália Correia
O Livro dos Amantes II
Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
2 053
1
Fernando Pessoa
4 - SPELL
SPELL
From the moonlit brink of dreams
I stretch foiled hands to thee,
O borne down other streams
Than eye can think to see!
O crowned with spirit beams!
O veiled spirituality!
My dreams and thoughts abate
Their pennons at thy feet.
O angel born too late
For fallen man to meet!
In what new sensual state
Could our twined lives feel sweet?
What new emotion must
I dream to think thee mine?
What purity of lust?
O tendrilled as a vine
Around my caressed trust!
O dream-pressed spirit-wine!
From the moonlit brink of dreams
I stretch foiled hands to thee,
O borne down other streams
Than eye can think to see!
O crowned with spirit beams!
O veiled spirituality!
My dreams and thoughts abate
Their pennons at thy feet.
O angel born too late
For fallen man to meet!
In what new sensual state
Could our twined lives feel sweet?
What new emotion must
I dream to think thee mine?
What purity of lust?
O tendrilled as a vine
Around my caressed trust!
O dream-pressed spirit-wine!
4 628
1
Bocage
Desejo Amante
Elmano, de teus mimos anelante,
Elmano em te admirar, meu bem, não erra;
Incomparáveis dons tua alma encerra,
Ornam mil perfeições o teu semblante:
Granjeias sem vontade a cada instante
Claros triunfos na amorosa guerra:
Tesouro que do Céu vieste à Terra,
Não precisas dos olhos de um amante.
Oh!, se eu pudesse, Amor, oh!, se eu pudesse
Cumprir meu gosto! Se em altar sublime
Os incensos de Jove a Lília desse!
Folgara o coração quanto se oprime;
E a Razão, que os excessos aborrece,
Notando a causa, revelara o crime.
Elmano em te admirar, meu bem, não erra;
Incomparáveis dons tua alma encerra,
Ornam mil perfeições o teu semblante:
Granjeias sem vontade a cada instante
Claros triunfos na amorosa guerra:
Tesouro que do Céu vieste à Terra,
Não precisas dos olhos de um amante.
Oh!, se eu pudesse, Amor, oh!, se eu pudesse
Cumprir meu gosto! Se em altar sublime
Os incensos de Jove a Lília desse!
Folgara o coração quanto se oprime;
E a Razão, que os excessos aborrece,
Notando a causa, revelara o crime.
2 729
1
Fernando Pessoa
Ah, verdadeiramente a deusa! —
Ah, verdadeiramente a deusa! –
A que ninguém viu sem amar
E que já o coração endeusa
Só com somente a adivinhar.
Por fim magnânima aparece
Naquela perfeição que é
Uma estátua que a vida aquece
E faz da mesma vida fé.
Ah, verdadeiramente aquela
Com que no túmulo do mundo
O morto sonha, como a estrela
Que há-de surgir no céu profundo.
03/09/1934
A que ninguém viu sem amar
E que já o coração endeusa
Só com somente a adivinhar.
Por fim magnânima aparece
Naquela perfeição que é
Uma estátua que a vida aquece
E faz da mesma vida fé.
Ah, verdadeiramente aquela
Com que no túmulo do mundo
O morto sonha, como a estrela
Que há-de surgir no céu profundo.
03/09/1934
4 919
1
Fernando Pessoa
A tua carne calma
A tua carne calma
Presente não tem ser,
Os meus desejos são cansaços.
Quem querem ter nos braços
É a ideia de te ter.
1930
Presente não tem ser,
Os meus desejos são cansaços.
Quem querem ter nos braços
É a ideia de te ter.
1930
4 222
1
Fernando Pessoa
Dorme sobre o meu seio.
Dorme sobre o meu seio,
Sonhando de sonhar...
No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.
Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O espaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.
Dorme sobre o meu seio,
Sem mágoa nem amor...
No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
Sonhando de sonhar...
No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.
Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O espaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.
Dorme sobre o meu seio,
Sem mágoa nem amor...
No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
4 709
1
Amália Bautista
Nu de mulher
Para ti nunca passei de um bloco
de mármore. Esculpiste nele o meu corpo,
um corpo de mulher branco e formoso,
em que não viste nada a não ser pedra
e o orgulho, isso sim, do teu trabalho.
Nunca imaginaste que eu te amava
e que tremia quando, docemente,
me modelavas os seios e os ombros,
ou alisavas as coxas e o ventre.
Hoje, estou num jardim, onde suporto
os rigores do frio pelo Inverno,
e no Verão aqueço de tal modo
que nem sequer os pardalitos vêm
pousar nas minhas mãos pois estas queimam.
Mas, de tudo isto, o que mais me dói
é baixar a cabeça e ver a placa:
”Nu de mulher”, como há tantas outras.
Nem te lembraste de me dar um nome.
de mármore. Esculpiste nele o meu corpo,
um corpo de mulher branco e formoso,
em que não viste nada a não ser pedra
e o orgulho, isso sim, do teu trabalho.
Nunca imaginaste que eu te amava
e que tremia quando, docemente,
me modelavas os seios e os ombros,
ou alisavas as coxas e o ventre.
Hoje, estou num jardim, onde suporto
os rigores do frio pelo Inverno,
e no Verão aqueço de tal modo
que nem sequer os pardalitos vêm
pousar nas minhas mãos pois estas queimam.
Mas, de tudo isto, o que mais me dói
é baixar a cabeça e ver a placa:
”Nu de mulher”, como há tantas outras.
Nem te lembraste de me dar um nome.
591
Amália Bautista
Dream a little dream of me
Convida-me para o teu sonho,
deixa-me partilhar esse filme
onde o tempo é disforme e o desejo se cumpre.
Sonha um pouco comigo e eu prometo
ser a mulher perfeita
para ti, enquanto viveres de olhos fechados.
Hei-de beijar-te com lábios de cereja,
misturar sabiamente paixão e ternura
e quando vier a aurora partirei sem fazer barulho.
deixa-me partilhar esse filme
onde o tempo é disforme e o desejo se cumpre.
Sonha um pouco comigo e eu prometo
ser a mulher perfeita
para ti, enquanto viveres de olhos fechados.
Hei-de beijar-te com lábios de cereja,
misturar sabiamente paixão e ternura
e quando vier a aurora partirei sem fazer barulho.
98
Maria da Saudade Cortesão Mendes
Primavera
A Musa que passava
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.
Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.
Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.
Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.
Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.
780
António de Carvalhal Esmeraldo
Pois me contento
Pois me contento só de idolatrar-te,
Oh, Belisa, permite o querer-te,
Ou que não chegue ao menos a ofender-te,
Pois que em nada hei podido contentar-te.
De que podes por ora recear-te?
E que posso eu fazer com pretender-te?
Temes que venha acaso a merecer-te;
Porque insisto penoso em venerar-te?
Mas o muito que peno não me engana,
Nada espero; bem que por ti padeço,
Pois certamente em nada eras humana.
Não tem para alcançar-te as penas peço,
Que como eras em tudo soberana,
Desvario é cuidar que te mereço.
Oh, Belisa, permite o querer-te,
Ou que não chegue ao menos a ofender-te,
Pois que em nada hei podido contentar-te.
De que podes por ora recear-te?
E que posso eu fazer com pretender-te?
Temes que venha acaso a merecer-te;
Porque insisto penoso em venerar-te?
Mas o muito que peno não me engana,
Nada espero; bem que por ti padeço,
Pois certamente em nada eras humana.
Não tem para alcançar-te as penas peço,
Que como eras em tudo soberana,
Desvario é cuidar que te mereço.
654
Pero da Ponte
Senhor do Corpo Delgado
Senhor do corpo delgado,
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
678
Pero da Ponte
A Mia Senhor, Que Eu Mais Doutra Rem
A mia senhor, que eu mais doutra rem
desejei sempr'e amei e servi,
que nom soía dar nada por mi,
preito me trage de me fazer bem:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
Em qual coita me seus desejos dam
tod'a sazom! Mais, des agora já,
por quanto mal me faz, bem me fará,
ca morrerei e perderei afã:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
E quanto mal eu por ela levei,
ora mi o cobrarei, se Deus quiser;
ca, pois eu por ela morte preser,
nom mi dirám que dela bem nom hei:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
Tal sazom foi que me tev'em desdém,
quando me mais forçava seu amor;
e ora, mal que pês a mia senhor,
bem me fará e mal grad'haja en:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
desejei sempr'e amei e servi,
que nom soía dar nada por mi,
preito me trage de me fazer bem:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
Em qual coita me seus desejos dam
tod'a sazom! Mais, des agora já,
por quanto mal me faz, bem me fará,
ca morrerei e perderei afã:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
E quanto mal eu por ela levei,
ora mi o cobrarei, se Deus quiser;
ca, pois eu por ela morte preser,
nom mi dirám que dela bem nom hei:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
Tal sazom foi que me tev'em desdém,
quando me mais forçava seu amor;
e ora, mal que pês a mia senhor,
bem me fará e mal grad'haja en:
ca meu bem é d'eu por ela morrer,
ante ca sempr'em tal coita viver.
567
Pero da Ponte
Dom Garcia Martiins, Saber
- Dom Garcia Martĩins, saber
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.
- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.
- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.
- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.
- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?
- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.
- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.
- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.
- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.
- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?
- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
721
Fernão Garcia Esgaravunha
Quand'eu Mia Senhor Conhoci
Quand'eu mia senhor conhoci
e vi o seu bom parecer
e o gram bem que lhi Deus dar
quis, por meu mal, log'entendi
que por ela ensandecer
me veeriam e levar
grandes coitas e padecer.
Pero que eu soub'entender,
quando os seus olhos catei,
que por ela, e nom por al,
me veeriam morte prender,
por que me log'i nom quitei
d'u a nom visse? É que o mal,
que hoj'eu sofro, receei
muit'e temi; mais eu cuidei,
com mui mal sem que houv'entom,
que podess'eu sofrer mui bem
as grandes coitas que levei
por ela eno coraçom;
e provei-o, e pois, quand'en
me quis partir, nom foi sazom
de m'en partir; ca em outra rem
nom pud'eu cuidar des entom!
e vi o seu bom parecer
e o gram bem que lhi Deus dar
quis, por meu mal, log'entendi
que por ela ensandecer
me veeriam e levar
grandes coitas e padecer.
Pero que eu soub'entender,
quando os seus olhos catei,
que por ela, e nom por al,
me veeriam morte prender,
por que me log'i nom quitei
d'u a nom visse? É que o mal,
que hoj'eu sofro, receei
muit'e temi; mais eu cuidei,
com mui mal sem que houv'entom,
que podess'eu sofrer mui bem
as grandes coitas que levei
por ela eno coraçom;
e provei-o, e pois, quand'en
me quis partir, nom foi sazom
de m'en partir; ca em outra rem
nom pud'eu cuidar des entom!
530
Fernão Garcia Esgaravunha
Senhor Fremosa, Que Sempre Servi
Senhor fremosa, que sempre servi
- se Deus me leixe de vós bem haver!-
pero mi o vós nom queredes creer,
des aquel dia, senhor, que vos vi,
sem vosso grado me vos faz Amor,
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
E, mia senhor - assi Deus me perdom
e me dê cedo, senhor, de vós bem
que eu desejo mais que outra rem -,
des que vos vi, mia senhor; des entom,
sem vosso grado me vos faz Amor
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
E, mia senhor - assi m'ajude Deus
escontra vós, que me faz tant'amar,
que nom sei i conselho que filhar -,
des que vos virom estes olhos meus,
sem vosso grado me vos faz Amor,
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
- se Deus me leixe de vós bem haver!-
pero mi o vós nom queredes creer,
des aquel dia, senhor, que vos vi,
sem vosso grado me vos faz Amor,
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
E, mia senhor - assi Deus me perdom
e me dê cedo, senhor, de vós bem
que eu desejo mais que outra rem -,
des que vos vi, mia senhor; des entom,
sem vosso grado me vos faz Amor
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
E, mia senhor - assi m'ajude Deus
escontra vós, que me faz tant'amar,
que nom sei i conselho que filhar -,
des que vos virom estes olhos meus,
sem vosso grado me vos faz Amor,
e sen'o meu, querer gram bem, senhor.
645
Fernão Garcia Esgaravunha
Hom'a Que Deus Bem Quer Fazer
Hom'a que Deus bem quer fazer,
nom lhe faz tal senhor amar
a que nom ouse rem dizer,
com gram pavor de lhe pesar;
nen'o ar faz longe morar
d'u ela é, sem seu prazer;
com'agora mim faz viver,
que me nom sei conselh'achar,
com tam gram coita de sofrer,
em qual m'eu ora vej'andar,
com'haver sempr'a desejar
mais doutra rem de a veer.
Mais nom pod'aquesto saber
senom a quem Deus quiser dar
a coita que El fez haver
a mim, des que me foi mostrar
a que El fez melhor falar
do mund'e melhor parecer.
nom lhe faz tal senhor amar
a que nom ouse rem dizer,
com gram pavor de lhe pesar;
nen'o ar faz longe morar
d'u ela é, sem seu prazer;
com'agora mim faz viver,
que me nom sei conselh'achar,
com tam gram coita de sofrer,
em qual m'eu ora vej'andar,
com'haver sempr'a desejar
mais doutra rem de a veer.
Mais nom pod'aquesto saber
senom a quem Deus quiser dar
a coita que El fez haver
a mim, des que me foi mostrar
a que El fez melhor falar
do mund'e melhor parecer.
659
Fernão Garcia Esgaravunha
N?Um Conselho, Senhor, Nom Me Sei
Nẽum conselho, senhor, nom me sei
a esta coita que me faz haver
esse vosso fremoso parecer;
e pois aqui tamanha coita hei
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
E perdud'hei o dormir e o sem
perderei ced', aquant'é meu coidar,
que nom sei i conselho que filhar;
e pois mi aqui tamanha coita vem,
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
E nunca eu tamanha coita vi
haver a home, si Deus me perdom,
aqual hoj'eu hei no meu coraçom
por vós; e pois tal coita hei aqui
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
a esta coita que me faz haver
esse vosso fremoso parecer;
e pois aqui tamanha coita hei
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
E perdud'hei o dormir e o sem
perderei ced', aquant'é meu coidar,
que nom sei i conselho que filhar;
e pois mi aqui tamanha coita vem,
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
E nunca eu tamanha coita vi
haver a home, si Deus me perdom,
aqual hoj'eu hei no meu coraçom
por vós; e pois tal coita hei aqui
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
636
Nuno Fernandes Torneol
Pois Naci Nunca Vi Amor
Pois naci nunca vi Amor
e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
Pero nunca lh'eu fige rem
por que m'el haja de matar,
mais quer'eu mia senhor rogar,
pola gram coit'em que me tem:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor!
Nunca me lh'eu ampararei,
se m'ela del nom amparar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gram medo que del hei:
que mi amostr'aquel matador,
ou que mi ampare del melhor.
E pois Amor há sobre mi
de me matar tam gram poder
e eu non'o posso veer,
rogarei mia senhor assi:
que mi amostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
Pero nunca lh'eu fige rem
por que m'el haja de matar,
mais quer'eu mia senhor rogar,
pola gram coit'em que me tem:
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor!
Nunca me lh'eu ampararei,
se m'ela del nom amparar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gram medo que del hei:
que mi amostr'aquel matador,
ou que mi ampare del melhor.
E pois Amor há sobre mi
de me matar tam gram poder
e eu non'o posso veer,
rogarei mia senhor assi:
que mi amostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.
524