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Poemas neste tema

Morte e Luto

Rodrigues de Abreu

Rodrigues de Abreu

Mar Desconhecido

A Batista Pereira

Se eu tivesse tido saúde, rapazes,
não estaria aqui fazendo versos.
Já teria percorrido todo o mundo.
A estas horas, talvez os meus pés estivessem quebrando
o último bloco de gelo
da última ilha conhecida de um dos pólos.
Descobriria um mundo desconhecido,
para onde fossem os japoneses
que teimam em vir para o Brasil...
Porque em minha alma se concentrou
toda a ânsia aventureira
que semeou nos cinco oceanos deste mundo
buques de Espanha e naus de Portugal!
Rapazes, eu sou um marinheiro!

Por isso em dia vindouro, nevoento,
porque há de ser sempre de névoa esse dia supremo,
eu partirei numa galera frágil
pelo Mar Desconhecido.
Como em redor dos meus antepassados
que partiram de Sagres e de Palos,
o choro estalará em derredor de mim.

Será agudo e longo como um uivo,
o choro de minha tia e minha irmã.
Meu irmão chorará, castigando, entre as mãos, o pobre
rosto apavorado.
E até meu pai, esse homem triste e estranho,
que eu jamais compreendi, estará soluçando,
numa angústia quase igual à que lhe veio,
quando mamãe se foi numa tarde comprida...

Mas nos meus olhos brilhará uma chama inquieta.
Não pensem que será a febre.
Será o Sant Elmo que brilhou nos mastros altos
das naves tontas que se foram à Aventura.

Saltarei na galera apodrecida,
que me espera no meu porto de Sagres,
no mais áspero cais da vida.
Saltarei um pouco feliz, um pouco contente,
porque não ouvirei o choro de minha mãe.
O choro das mães é lento e cansado.
E é o único choro capaz de chumbar à terra firme
o mais ousado mareante.

Com um golpe rijo cortarei as amarras.
Entrarei, um sorriso nos lábios pálidos,
pelo imenso Mar Desconhecido.
Mas, rapazes, não gritarei JAMAIS!
não gritarei NUNCA! não gritarei ATÉ A OUTRA VIDA!
Porque eu posso muito bem voltar do Mar Desconhecido,
para contar a vocês as maravilhas de um país estranho.
Quero que vocês, à moda antiga, me bradem BOA VIAGEM!,
e tenham a certeza de que serei mais feliz.
Eu gritarei ATÉ BREVE!, e me sumirei na névoa espessa,
fazendo um gesto carinhoso de despedida.

1 163
Renata Trocoli

Renata Trocoli

Sem Título

Sem Título

A saudade de teus meigos olhos a olhar-me com tanto amor
doe em meu peito com aguda tristeza, meu grande amor.

Tuas macias, delicadas e pequeninas mãos tocavam meu rosto
com tanto carinho e amor que não podia deixar-te
um minuto sem meus abraços e doces palavras de amor.

Quando sentávamos debaixo das estrelas nas noites mornas
da bela primavera da Pérsia, me abraçavas com tanto medo
e chorava baixinho escondendo teu lindo rostinho delicado em meu
peito, e me fazia jura-te amor eterno.
Este amor que jurei e sinto sempre por ti minha linda princesa.

Sinto saudades de tuas palavras e teu carinho ao ver-me zangado e
preocupado, e como me acalmava com teu belo olhar sobre o meu,
sorrindo com doçura e colocando minha cabeça em teus delicados
ombros para fazer com que a calma tomasse conta de meu coração.

Por tantos dias fiquei a admirar tua beleza
enquanto dormias um sono tranqüilo e
quantas vezes tocava teus lindos cabelos negros, macios e perfumados
sem ter vontade de fechar os olhos para não perder tão bela visão.

Quantas vezes ainda dormi cansado em teus pequeninos braços
sentindo cada vez mais um amor puro e leal por ti.

Me abraçavas com doce saudade e com lágrimas nos olhos
depois de dias de batalha sem ver-me.
E cuidava de mim com tanto carinho e me amava com tanta saudade
que meus dias pareciam um doce sonho que não poderia nunca ter fim.

O mais triste meu amor foi perder-te.
Foi perceber que teu amor não mais me envolveria o corpo,
que não mais teria tua presença a cuidar de mim
nas noites de cansaço após uma batalha.

Com uma linda e dolorosa promessa nos despedimos.
Tu me abraçaste chorosa e amedrontada,
e prometemos um amor eterno
por todos os lugares onde passássemos, aonde estivéssemos.

Hoje a saudade de teus doces olhinhos
a olhar-me com amor cegam meus dias.
Mas pelo menos ainda posso sentir teus perfume
e teus abraços a me envolver...

1 001
Raimundo Correia

Raimundo Correia

Ondas

Ilha de atrozes degredos!
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos. Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.

Em circuito, o Horror impera;
No centro, abrindo a cratera
Flagrante, arroja um volcão
Ígnea blasfêmia às alturas...
E, nas ínvias espessuras,
Brame o tigre, urra o leão.

Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.

Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.

No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.

Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...

Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.

Contempla, de olhos magoados,
Tudo... Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.

Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.

Quanto esplendor! São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital! E voa,
e voa àquelas regiões!...

1 933
Silvino Pirauá de Lima

Silvino Pirauá de Lima

História de Crispim e Raimundo

O caso que vou contar
No sertão aconteceu;
É a história de um conflito
Que entre dois homens se deu;
Um foi preso e processado,
O outro na luta morreu.

O primeiro se chamava
Crispim da Cunha Dourado,
Tinha muitos bons costumes
Era homem ponderado;
Como bom pai de família
Era então considerado.

O segundo se chamava
Raimundo Dias Valente,
Era homem viciado,
Cachaceiro e imprudente;
Não respeitava ninguém,
Tinha fama de insolente.

Vindo Crispim do roçado
Encontrou casualmente
O Raimundo que andava
A procura de aguardente;
Já um pouco pre-amar
Intimando de valente.

Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa,
Mandou Crispim segurar
No copo e beber primeiro
Com a condição de virar.

Crispim lhe disse: - Raimundo,
Tal ataque não me faça;
Para eu virar este copo
Devo encarar a desgraça:
O homem alcoolizado
A qualquer perigo abraça.

Raimundo disse: - Crispim,
Pegou no copo virou!
Bebe por bem ou por mal
Visto que nele pegou,
Se não já lhe mostrarei
No punhal o quanto sou!

Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não bebo aguardente;
Para virar este copo
Caio logo de repente;
Mas para satisfazê-lo
Bebo um golpinho somente.

Raimundo foi a Crispim
Pegou-o pela cintura;
Disse: ou você vira o copo
Ou eu dou-lhe a sepultura;
Ferida de meu punhal
Não tem remédio nem cura.

Vendo Crispim que morria
No punhal do tal Raimundo,
Com a foice que trazia
Lhe deu um golpe profundo
Que ele em poucos minutos
Já estava no outro mundo.

Vinha chegando um inspetor
Achou Raimundo no chão,
Prendeu logo ao Crispim
Sem lhe prestar atenção,
Dizendo: eu não admito
Crimes no meu quarteirão.

Seguiu o tal inspetor
Em busca do delegado,
Chegando na casa deste
Com Crispim preso e amarrado,
De chapéu na mão falou-lhe
Todo entusiasmado:

Ilustríssimo senhor,
Honradíssimo delegado,
Aqui está um criminoso
Que por mim foi capturado;
Matou um pai de família
Homem bem considerado.

Logo na cadeia pública
Foi Crispim encarcerado;
Depuseram as testemunhas,
Teve de ser processado,
Sem ser em nada atendido,
Foi logo pronunciado.

A pronúncia sustentando
O libelo oferecido,
Ficou fechado o processo
Sem Crispim ser atendido,
Só no Tribunal do Júri,
Podia ser decidido.

Havendo sessão do Júri,
Para Crispim ser julgado,
Pela forma do direito
Foi o Conselho formado;
O Juiz então perguntou-lhe
Se já tinha advogado.

Respondeu Crispim que tinha,
Visto lhe ser perguntado;
O Juiz disse p’ra ele:
- Diga lá o seu estado.
E se sabe por qual motivo
Vai agora ser julgado.

Tudo Crispim respondeu,
Com toda serenidade;
Falando com energia
Sem se arredar da Verdade;
Assim mostrando que tinha
Alguma dignidade.

Perguntou-lhe o Juiz se houve
Um motivo imperioso
Para ele matar Raimundo
Ficando assim criminoso,
Por ter cometido um crime
Tão medonho e horroroso?

- Que o matei, falo a verdade,
Não posso contradizer:
Fui agredido por ele
Sem poder me defender;
Em minha defesa própria,
Matei para não morrer!...

Nas declarações do réu,
O Juiz não achou excesso;
Ficou o Júri sabendo
Que ele era réu confesso;
O escrivão deu começo
A leitura do processo.

Depois da leitura finda
O tal processo seguiu
Para as mãos do Promotor;
Que sobre a mesa o abriu;
Tendo pedido a palavra,
A acusação proferiu:

- Senhores, tenho nas mãos
Um processo volumoso;
Vede o que diz o libelo
Contra este criminoso;
É um assassino confesso
Autor de um crime horroroso.

Senhores, o réu presente
Dominado de paixão,
Matou um pai de família,
Sem lhe assistir a razão:
No processo está provado
A sua mal intenção.

O réu matou a Raimundo
Por sua livre vontade,
Deixando a família dele
Na maior necessidade;
A mulher na viuvez
E os filhinhos na orfandade.

O réu assim procedendo
Mostrou ser muito malvado;
Do processo se colige
Que foi de caso pensado,
Que ele quis cometer
Um crime tão reprovado.

O Réu cometeu um crime
Em tudo repugnante,
Qualificado na Lei
Como delito agravante;
Em seu favor não existe
Nem um só atenuante.

A viúva com os filhos
Envoltos em negro véu
Estão sem ter um consolo
Com os olhos fitos no céu,
Pedindo justiça a Deus
E a condenação do Réu

Chorando todos lamentam
O ser amado perdido,
Os filhinhos por seu pai
A mulher por seu marido;
Estão pedindo justiça
Para o crime cometido.

Senhores, o Réu presente
É um monstro da natureza;
Matou o seu semelhante
Somente por malvadeza;
Quem mata sem ter razão,
Nem devia ter defesa.

Senhores, um crime tal,
Só o pratica um incréu,
Que não respeita a justiça
E nem deseja ir ao Céu;
Em nome da Lei eu peço
A condenação do Réu.

Como pede no libelo
No artigo destinado;
Cento e noventa e dois
Gráu máximo confirmado
Faça o conselho justiça
A este Réu acusado.

Terminada a acusação
Por parte do Promotor,
O processo foi entregue
Ao nobre defensor
Para fazer a defesa
Do Réu, com todo valor.

Então o advogado
Se levantou da cadeira,
Principiou a defesa
Por uma boa maneira;
Descrevendo claramente
A história verdadeira.

Meus senhores, eu lamento
Não ser bom advogado,
Para defender o Réu
E ter um bom resultado;
Fazendo ver as razões
Que tem o meu Querelado.

Com toda a minha franqueza,
Atenção a todos peço,
Para mostrar a verdade,
É em que mais interesso
Contra a ilegalidade
Que vejo neste processo.

O primeiro ponto é,
Sobre a causa do delito;
Não foi de caso pensado
Que se deu o tal conflito;
Foi um fato casual
No qual eu muito medito.

Contra meu constituinte
A justiça se tornou
Muito severa de mais;
Pela culpa que formou,
O que era mais necessário
Esquecido então ficou.

Vindo Crispim do roçado,
Sucedeu casualmente
Encontrar-se com Raimundo
Que vinha ligeiramente,
Nessa mesma ocasião
A procurar aguardente.

Como eram conhecidos,
Seguiram juntos então,
Crispim um mau pensamento
Não tinha no coração;
Raimundo, provavelmente,
Já vinha com má tenção.

Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa
E logo sem demorar
Deu a Crispim p’ra beber
Com a condição de virar.

Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não costumo beber;
Para virar este copo
Saiba que não pode ser;
Apenas bebo um pouquinho
Para lhe satisfazer.

Raimundo lhe respondeu
De um modo desleal;
- Camarada o nosso encontro
Hoje tem que acabar mal:
Ou você bebe ou morre
Na ponta de meu punhal.

E tendo o punhal em punho
Pegou Crispim<
1 422
Silvino Pirauá de Lima

Silvino Pirauá de Lima

Necrológio de Francisco Romano

Na era 91
No centro paraibano,
Dentro do termo de Patos,
Em março do dito ano,
No primeiro desse mês
Morreu Francisco Romano.

Ele, antes de morrer,
Tinha em casa destinado
De ir buscar uma imagem
Com quem tinha se pegado,
Mas antes dessa viagem.
Primeiro foi ao roçado.

Pegou o chapéu, saiu
Com uma faca na mão
E uma foice no ombro,
Foi tapar um boqueirão,
Embora fosse domingo,
Mas havia precisão.

Justamente foi o tempo
De a hora lhe ser chegada...
Romano dentro da roça,
Morreu de morte apressada:
Apagou-se aquele esprito,
Seu corpo virou em nada.

Foi num dia de domingo
Esse caso acontecido...
Nesse dia, às quatro horas,
Foi Jesus Cristo servido:
Duma morte violenta
Romano foi falecido.

De bruço caiu em terra
Com a tal faca na mão,
A outra mão sobre o peito,
Em riba do coração,
A foice do outro lado,
Bem junto dele, no chão.

Nesse entre, um filho dele,
Tendo de ir ao roçado,
Pra dar água a uns animais,
Por seu mano ter mandado,
Chegou, foi vendo o cadave
No chão, morto, istoporado.

O menino, quando viu,
Ficou cheio de agonia
De ver seu querido pai
Se acabar naquele dia...
Foi levar a notiça à mãe,
Coitada, que não sabia!

Choroso voltou pra trás
Do caso que aconteceu,
Foi chegando e foi dizendo:
- "Ruim notiça trago eu!
Minha mãe, meus irmãozinho,
Meu querido pai morreu!"

Em casa o choro foi tanto
Que fez um grande alarido,
A mulher correu pra roça,
À procura do marido,
Não morreu de sentimento
Porque Deus não foi servido.

Atrás da pobre mulher
O povo todo seguiu...
Quando ela viu o cadave
Por cima dele caiu,
A prece que fez ao céu
Parece que Deus ouviu.

Voltaram tristes pra casa,
O choro ninguém continha,
Romano veio numa rede,
A mulher em braços vinha,
Mandaram comprar mortalha
Na rua, de noitezinha.

Eu senti a morte dele,
Que ninguém não esperava!
Quando me veio a notiça
Que Romano morto estava,
Logo me veio à lembrança
O tempo em que nós cantava.

Conheço, desde esse dia,
Cantador entusiasmado...
Todo mundo quer cantar,
Cada qual dá seu recado
Porque quem se respeitava
Ja está em cinzas tornado!

1 342
Pedro Luís Pereira de Sousa

Pedro Luís Pereira de Sousa

Terribilis Dea

Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto... a palidez na fronte...
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplendente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!

Quem era? De onde vinha aquela grande imagem,
Que turbara do céu a límpida miragem,
E de luto cobrira a senda do porvir?
De que abismo saiu?... do túmulo? do inferno?
Pode o anjo do mal desafiar o Eterno?
Da fria sepultura o espectro ressurgir?

Deixai que se levante a grande divindade!...
Seu templo é a terra e o mar; seu culto — a mortandade:
Enche-lhe o peito largo o sopro das paixões...
É a mulher fantasma! uma visão de Dante...
Dos campos de batalha a hórrida bacante,
Que mergulha no sangue e ri das maldições!

A deusa do sepulcral A pálida rainha!
A morte é a sua vida. Impávida caminha,
Ora grande, ora vil, nas trevas ou na luz;
A corte que a rodeia é lúgubre corte;
Tem gala e traja luto: é o séquito da morte,
A miséria que chora, a glória que seduz.

Desde que o mal nasceu, nasceu aquele espectro;
De raios coroou-se! Ao peso de seu ceptro,
A terra tem arfado em transes infernais!...
Do mundo as gerações têm visto em toda idade,
Sinistra, aparecer aquela divindade,
Celebrando no sangue as grandes saturnais.

No seu olhar de fogo há raios de loucura...
Tem cantos de prazer! Tem risos de amargura
Muda sempre de céu, de rumo, de farol!
Aqui — pede ao direito a voz forte e serena;
Ali — ruge feroz, feroz como uma hiena...
Assassina na treva ou mata à luz do sol!...

Levanta o gládio nu em nome da verdade,
Acorda em fúria acesa à voz da liberdade...
E no punho viril derrete-lhe o grilhão!
Como é bela! ... Depois... sem fé, sem heroísmo,
Despedaça a justiça e atira com cinismo
A virgem liberdade aos braços da opressão!

É uma deusa fatal! Quer sangue e atira flores!
Abraça, prende, esmaga os seus adoradores,
Embriaga-os de glória e os cerca de esplendor;
E esses loucos, depois de feitos de gigantes,
A túnica lhe beijam, ardentes, delirantes,
E morrem a seus pés, na febre desse amor.

quando Átila — o monstro, o tigre-cavaleiro,
Espumando, a correr, calcava o mundo inteiro,
A deusa o acompanhava, e ria-se... a cruel!
Tinha a face vermelha, ardia de coragem,
Dava beijos de amor na fronte do selvagem,
Enterrando o aguilhão no flanco do corcel!

Era ela que em Roma erguia-se funesta,
O ídolo do povo em sempiterna festa!
O amor de Cipião, de César, de Pompeu!
Vergava com seu braço o braço do destino,
Prendeu nações e reis ao monte Palatino,
E em doida bacanal depois desfaleceu.

Foi de Carlos o grande a excelsa companheira
Deu-lhe o trono de bronze, a espada aventureira,
E o globo imperial... e glórias... e troféus;
Quando, no escuro val, Rolando, moribundo,
Embocava a trombeta a despertar o mundo,
Erguia o colo a deusa além dos Pireneus!...

Seguiu Napoleão da França até o Egito,
Nos mares, no deserto, e em busca do infinito,
Das terras do Evangelho às terras do Corã...
Dos delírios da Europa aos sonhos do Oriente.
Teve medo, afinal, daquela febre ardente...
Lá no meio do mar prendeu esse Titã.

Ela estava a sorrir, serena e triunfante,
Aos pés de Farragut, o intrépido almirante,
Lá no tope do mastro, enquanto o monitor
Em doidas convulsões, das túmidas entranhas
Vomitava metralha a derribar montanhas,
E do mundo arrancava um grito de terror.

Ela estava também — espectro pavoroso —
Do Amazonas a bordo, ao lado de Barroso,
De pólvora cercada, em pé, sobre o convés...
Quando, à voz do valente, o monstro foi bufando,
Calados os canhões, navios esmagando,
A deusa varonil de amor caiu-lhe aos pés!

Salve, da guerra deusa, arcanjo da batalha!
Que voas no vapor, que ruges na metralha,
Que cantas do combate aos infernais clarões!
Quando arrancas do bronze os cânticos malditos,
O céu é fogo e aço; o ar — pólvora e gritos. . .
E ferve e corre o sangue em quentes borbotões!

Salve, tu! que nos deste o sonho da vingança,
O gládio da justiça o raio da esperança,
E da glória cruenta o mágico esplendor!
É para te saudar que brame a artilharia,
E que repete ao longe a voz da ventania
Das trombetas da morte o hórrido clangor!

Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto... a palidez na fronte. .
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra ... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!

1 858
Elziário Pinto

Elziário Pinto

O Festim de Baltasar

Mané... Teckel... Pharés...
I
"Queimai perfumes, escravas!
Trazei-nos sândalo e flores!
Vinho! do vinho os vap!res
Levem presságios cruéis!
Por Baal! Senhores e donas,
Não morra o prazer da festa!
Por Baal! Por Baal! soe a orquestra,
Tangei, tangei, menestréis!"

As luzes tremem nas salas,
Treme o ouro e a pedraria;
Das ânforas transborda a orgia
Como as espumas do mar:
— "Por Baal! Senhores e donas,
Repete a nobre assembléia,
Ao grande rei da Caldéia!
Ao grande rei Baltasar!"

Rompe a orquestra — e as concubinas,
Com os seios nus, palpitantes,
Entoam febris descanses,
Lasciva, ideal canção;
E em volta ao seu trono de ouro
Nabonid, rei poderoso,
Sente a alma a nadar no gozo,
Em que se afoga a razão.

E ferve, referve a orgia
Ao som da orquestra estridentes
E a lua toca o ocidente,
Sobre a cidade imortal:
Talvez mande a peregrina,
Do monte Efraim pendida,
Um raio por despedida
Do Cedron sobre o cristal.

II
Manda, sim, sobre ruínas
Que aí só resta um montão
Mirando a gentil cativa,
Dileta filha de Abraão:
— "Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!

"Terra, terra bem-fadada,
Outrora — esposa de Arão,
Hoje ruínas dispersas,
Hoje o luto e a escravidão;
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!

"Teus filhos gemem distante,
Jamais aqui voltarão...
Murchai, gardênias do prado!
Chorai, divino Jordão:
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!

"Onde as endechas saudosas
Dos cantores de Sião?
Aves do céu, vossos carmes
Não solteis mais aqui, não!
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!

"Lírio pendido no vale
Varreu-te acaso o tufão?
Nem uma gota de orvalho!
Isaac! Davi! Salomão!
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!"

E pela encosta do monte
A tristezinha lá vai,
Mandando um último pranto,
Um doce, sentido ai,
De um lado à imersa Sodoma,
Do outro ao monte Sinai.

III
E cresce, recresce a orgia
Nos salões de Baltasar,
Ondas de pura harmonia,
Ânsias de puro gozar,
— Entanto a cidade dorme
Envolta no manto enorme
Da noite — sono fatal!
E aquele peito gigante
Devora sede arquejante
De vícios, — sede infernal!

Nas salas grato ruído,
Luzes, perfumes e amor;
Lá fora estranho rugido,
Surdo — ao longe — e ameaçador;
No horizonte um fumo denso
Se eleva, bem como o incenso
Nas salas e a embriaguez...
Que importa ao rei o horizonte,
Se as flores ornam-lhe a fronte,
Se o âmbar corre-lhe aos pés?!

"Ao rei! ao rei poderoso!
Ao reino que não tem fim!
Como o Eufrates caudaloso
Corra a onda do festim!"
— "Perdão: as taças, senhores,
Não podem, tão sem lavores,
À festa de um rei convir;
Temos os vasos sagrados,
São soberbos, cinzelados,
Do ouro fino de Ofir.

"Trazei-mos", já vacilante,
Diz o rei: "Viva o Senhor!"
— E ruge o vento distante,
Como um gemido de dor.
Entram luzidos criados
Trazendo os vasos sagrados
Do templo de Salomão...
— E ruge o vento mais forte,
Lançando vascas de morte
Pelos umbrais do salão.

"Transborde o néctar, amigos!
Eis os vasos de Jeová!
Nesses lavores antigos.
Vê-se a cativa Judá."
— E cresce o estranho rugido,
Surdo, rouco, indefinido...
"São os soluços do Irã!"
E ruge, ruge mais perto...
"São os ventos do deserto
Sobre as areias de Omã!"

Nas caçoulas fumegantes,
Arde o mirto e o aloés,
Ao som das notas vibrantes
Sobe, sobe a embriaguez.
— "Por Baal! Por Baal! Pelos Medos!
Quebrem-se as harpas nos dedos,
Trema o teto do salão!"
Horror! ao tinir das taças,
Núncio de eternas desgraças,
Brame na sala um tufão.

"Depressa, luzes, depressa..."
Diz o rei: "longe o terror!
Mas não, e o vaso arremessa,
Recua trêmulo... horror!
— É que, em meio à noite brusca,
Mão, que de brilhos ofusca,
Toda a sala iluminou;
Cometa, a correr ardente,
Estranha cifra candente,
Pelas paredes traçou!

IV
"Meu colar de pedrarias
Àquele que decifrar
Venham magos e adivinhos,
Depressa, Beltisasar.
Ele, o mais sábio de todos,
Pode o mistério explicar!"

E dorme a cidade lassa
Dos vícios na prostração,
E cresce, cresce o rugido
Qual ressonar de um vulcão:
Ou é tremenda borrasca,
Ou é povo em multidão.

Entre os famosos convivas
Mais um conviva aparece,
As sandálias do proscrito
Traz — quem é que o não conhece
Diante do rei se inclina,
Do rei, que ao vê-lo estremece.

"Benvindo sejas, cativo,
Daniel Beltisasar;
Se sabes ler no impossível,
Tens ali — podes falar:
Terás um manto de púrpura,
Terás meu régio colar."

De novo ante o rei se inclina
A cabeça do ancião,
Depois, elevando a fronte
Altiva, e estendendo a mão,
Busca achar na ignota cifra
A divina inspiração.

Nem do Tibre o velho roble!
Nem os cedros do ocidente
A fronte mais alto elevam
Mais nobre, mais imponente!
O gênio é como as estrelas,
Beija os pés do Onipotente.

"Rei! escuta a voz do Eterno,
Que por meus lábios te fala:
O crime mais execrando,
O teu reinado assinala:
Vê, revê tua sentença
Escrita em letras de opala.

"Não ouves bramir confuso
Como o arfar da tempestade?
São os Persas que se arrojam
Sobre os muros da cidade:
Perdeu-te a lascívia impura,
Rei! perdeu-te a impiedade.

"Profanastes os vasos santos
Nas torpezas de um festim,
Teus dias foram contados
Como os da bela Seboim!
Agora o brinde, senhores,
— Ao reino que não tem fim!"

V
Gesto grave, altivo, acerbo,
Assim fala o escravo hebreu,
Soletrando o ardente verbo,
Que mão de raio escreveu:
E depois — braços pendidos,
Olhos de chama incendidos,
Verberando a maldição,
Deixa a sala, onde se espalha,
Como trevosa mortalha,
O terror na escuridão.

E quando o raio primeiro
Do sol, singrando o horizonte,
Rompe o denso nevoeiro
Sobre o cabeço do monte,
Em vez da cidade altiva,
Vê — desgrenhada cativa,
A dissoluta Babel,
E além dos muros colossos,
Daquele povo os destroços
E um homem só — Daniel!

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