Poemas neste tema
Morte e Luto
Rodrigo Carvalho
Pensamentos
Pensei em tirar-me a vida.
Tirar-me a vida podre,
inútil,
inválida.
Não reconhecida.
Apenas desejo não mais existir.
Não ter mais a lembrança dos momentos.
não sentir mais o peso de minhas lágrimas,
ferindo o meu rosto.
Não ser mais o culpado por tudo que aconteça.
Não quero mais a calma das manhãs de sol,
não quero mais o frescor das longas tardes,
nem mesmo a solidão angustiante e companheira
de todas as noites.
Não quero mais a minha simbólica presença.
Abstrata.
Quero contemplar a morte,
e o alívio — de todos —
da minha ausência permanente.
Tirar-me a vida podre,
inútil,
inválida.
Não reconhecida.
Apenas desejo não mais existir.
Não ter mais a lembrança dos momentos.
não sentir mais o peso de minhas lágrimas,
ferindo o meu rosto.
Não ser mais o culpado por tudo que aconteça.
Não quero mais a calma das manhãs de sol,
não quero mais o frescor das longas tardes,
nem mesmo a solidão angustiante e companheira
de todas as noites.
Não quero mais a minha simbólica presença.
Abstrata.
Quero contemplar a morte,
e o alívio — de todos —
da minha ausência permanente.
824
Rodrigo Carvalho
Lamento Derradeiro
à meu Pai
Salvador. Tarde de 5 de janeiro.
Brinco, excercendo o ofício da minha infância.
Curta.
Meu pai, nessa hora, junto a mim morria. . .
sem um gemido, como que se fosse feito e prometido.
E eu nem lhe ouvi o lamento derradeiro.
Quando acordei, sonhei que ele dormia,
mas o pranto fraterno desmentia. . .
E saí para ver a Santa natureza.
Em tudo, o mesmo tom cinzento.
Capitalismo selvagem das capitais.
Era só o cinza daquela selva de pedras.
Nem uma nuvem no céu.
Branca.
Mas, pareceu-me entre as estrelas flóreas,
como ti, num carro repleto de glórias,
ver tua alma subindo aos céus.
Por ti, penar é a certeza do amor.
Por ti, suplicar aos pés do Onipotente,
em preces comoventes. . .
e depois, remir meus desejos.
Volta!
Salvador. Tarde de 5 de janeiro.
Brinco, excercendo o ofício da minha infância.
Curta.
Meu pai, nessa hora, junto a mim morria. . .
sem um gemido, como que se fosse feito e prometido.
E eu nem lhe ouvi o lamento derradeiro.
Quando acordei, sonhei que ele dormia,
mas o pranto fraterno desmentia. . .
E saí para ver a Santa natureza.
Em tudo, o mesmo tom cinzento.
Capitalismo selvagem das capitais.
Era só o cinza daquela selva de pedras.
Nem uma nuvem no céu.
Branca.
Mas, pareceu-me entre as estrelas flóreas,
como ti, num carro repleto de glórias,
ver tua alma subindo aos céus.
Por ti, penar é a certeza do amor.
Por ti, suplicar aos pés do Onipotente,
em preces comoventes. . .
e depois, remir meus desejos.
Volta!
862
Rodrigo Carvalho
Remissão
à Mário Sérgio Carvalho
Hoje,
admiro teu sorriso,
anônimo, discreto.
Admiro teu olhar,
e todo o sentimento que ele resume.
Um sentimento abissal,
paterno,
sem ódio, rancor ou ciúme.
Alimento-me de tua razão,
à procura de saciar minha ignorância.
Olho teu semblante,
espelho meu,
e quase sem querer, lembro-me da morte,
esta companhia repugnante,
que levou de nós a semente paterna...
Mas a vida, justa,
deu-me tudo isso que tu és.
Sinto-me seguro, pois tu existes,
e em horas más,
sei que a tua aparição nunca faltará.
Agradeço-te pelo silêncio, pela paz.
E por me fazer crer que existo,
sem rancores do passado ou promessas futuras.
Hoje, tu és meu íntimo contraste,
e beijo-te a face,
grato,
pelo sonho de vida que salvaste...
Hoje,
admiro teu sorriso,
anônimo, discreto.
Admiro teu olhar,
e todo o sentimento que ele resume.
Um sentimento abissal,
paterno,
sem ódio, rancor ou ciúme.
Alimento-me de tua razão,
à procura de saciar minha ignorância.
Olho teu semblante,
espelho meu,
e quase sem querer, lembro-me da morte,
esta companhia repugnante,
que levou de nós a semente paterna...
Mas a vida, justa,
deu-me tudo isso que tu és.
Sinto-me seguro, pois tu existes,
e em horas más,
sei que a tua aparição nunca faltará.
Agradeço-te pelo silêncio, pela paz.
E por me fazer crer que existo,
sem rancores do passado ou promessas futuras.
Hoje, tu és meu íntimo contraste,
e beijo-te a face,
grato,
pelo sonho de vida que salvaste...
944
Silva Avarenga
A Roseira
Rondó LII
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Quando Glaura me dizia
Que era sua esta roseira,
De esperança lisonjeira
Me senda consolar.
Mas a sorte, que invejosa
Este alívio não consente,
Não há mal que não invente
Rigorosa em maltratar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Da risonha primavera
Esperei os dias belos:
Glaura... oh dor! os teus cabelos
Quem Pudera coroar.
Já não vives oh que mágoa!
E a roseira que foi tua,
Eu a vejo estéril, nua,
Junto d’água desmaiar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Parca iníqua, atroz, funesta,
Era teu o infausto agouro;
Já levaste o meu tesouro,
Mais não resta que roubar.
Nem às flores permitiste...
Oh! que bárbara impiedade!
Fica só cruel saudade,
Fica o triste suspirar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
De teus ramos a beleza
Era o mimo destes prados;
Move agora, ó ímpios fados!
De tristeza a lamentar.
Horrorosos são meus males;
Tudo encontro em névoa escura;
Vem comigo a desventura
Estes vales assombrar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Quando Glaura me dizia
Que era sua esta roseira,
De esperança lisonjeira
Me senda consolar.
Mas a sorte, que invejosa
Este alívio não consente,
Não há mal que não invente
Rigorosa em maltratar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Da risonha primavera
Esperei os dias belos:
Glaura... oh dor! os teus cabelos
Quem Pudera coroar.
Já não vives oh que mágoa!
E a roseira que foi tua,
Eu a vejo estéril, nua,
Junto d’água desmaiar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Parca iníqua, atroz, funesta,
Era teu o infausto agouro;
Já levaste o meu tesouro,
Mais não resta que roubar.
Nem às flores permitiste...
Oh! que bárbara impiedade!
Fica só cruel saudade,
Fica o triste suspirar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
De teus ramos a beleza
Era o mimo destes prados;
Move agora, ó ímpios fados!
De tristeza a lamentar.
Horrorosos são meus males;
Tudo encontro em névoa escura;
Vem comigo a desventura
Estes vales assombrar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
1 135
Ruy Pereira e Alvim
Acto de Contrição
Não tenho direito à prece,
nem mereço o teu perdão;
Nada fiz para morrer
de farda e arma na mão...
Perdi horas em conversa
passei dias a pensar
em arremedos de guerra,
perdi a vontade imersa
no desejo de lutar...
Troquei os sonhos por tiros
que não dei nem deixei dar!...
Gastei pedações de vida,
e fiz com eles as flores
de renúncia e omissão...
Perdi a terra e o mar,
fiquei sem voz pra cantar
a minha libertação!...
nem mereço o teu perdão;
Nada fiz para morrer
de farda e arma na mão...
Perdi horas em conversa
passei dias a pensar
em arremedos de guerra,
perdi a vontade imersa
no desejo de lutar...
Troquei os sonhos por tiros
que não dei nem deixei dar!...
Gastei pedações de vida,
e fiz com eles as flores
de renúncia e omissão...
Perdi a terra e o mar,
fiquei sem voz pra cantar
a minha libertação!...
1 034
Ruy Câmara
Humanidade Enferma
Neste sono em que imerge a massa,
a morte vulgar, a boa notícia,
catástrofes se perfumam de malícia,
nas manchetes com cheiro de desgraça.
O homem acorda fedendo a si mesmo,
não sente mais a falta do ofício.
Ofício distópico, imperfeito
um poema chora o desperdício.
No suplício da miséria, nos conflitos,
saem frases sem brilho, sem poesias,
fotos opacas, com perfume de vísceras,
vísceras fartas de exageros e vícios.
Vícios de poder, vícios de dominação,
uma lágrima cai no precipício.
Eu detesto a humanidade enferma,
autista, egoísta, perversa, fictícia,
cruel consigo mesma
Ninguém para ouvir uma boa notícia.
a morte vulgar, a boa notícia,
catástrofes se perfumam de malícia,
nas manchetes com cheiro de desgraça.
O homem acorda fedendo a si mesmo,
não sente mais a falta do ofício.
Ofício distópico, imperfeito
um poema chora o desperdício.
No suplício da miséria, nos conflitos,
saem frases sem brilho, sem poesias,
fotos opacas, com perfume de vísceras,
vísceras fartas de exageros e vícios.
Vícios de poder, vícios de dominação,
uma lágrima cai no precipício.
Eu detesto a humanidade enferma,
autista, egoísta, perversa, fictícia,
cruel consigo mesma
Ninguém para ouvir uma boa notícia.
959
Roberto Saito
Inverno
Depois da geada
nas faces do espantalho
lágrimas geladas.
Cálidos casacos
todos rodeando um morto —
pálido, gelado.
nas faces do espantalho
lágrimas geladas.
Cálidos casacos
todos rodeando um morto —
pálido, gelado.
991
Saulo Mendonça
Poema Diante de Augusto dos Anjos
Explodem visceras de ferro e força
no corpo magro, parado e surdo
à sombra de sua dramática solidão.
Abro infinitamente o compacto bronze
com meus olhos nus e serenados
olhando o mistério triste e amargo
no vertical denso que o guarda.
Na fisionomia inflexível
sua onipresença se estende
o mecanismo da fala muda
canta no imóvel magicamente.
E no cérebro duro de férreas substâncias
sua individualidade retorna.
O hermetismo de estanho e bronze
se plasma na poesia eterna que balbucia.
Absorvo o peito tremido de Augusto
fitando sua dor exclamativa.
Rasgam-se vôos doloridos
de sua fala quieta e explosiva.
A imagem sórdida da morte se sucumbe
e eu o vejo falar, ainda vivo
no seu íntimo silêncio de bronze.
no corpo magro, parado e surdo
à sombra de sua dramática solidão.
Abro infinitamente o compacto bronze
com meus olhos nus e serenados
olhando o mistério triste e amargo
no vertical denso que o guarda.
Na fisionomia inflexível
sua onipresença se estende
o mecanismo da fala muda
canta no imóvel magicamente.
E no cérebro duro de férreas substâncias
sua individualidade retorna.
O hermetismo de estanho e bronze
se plasma na poesia eterna que balbucia.
Absorvo o peito tremido de Augusto
fitando sua dor exclamativa.
Rasgam-se vôos doloridos
de sua fala quieta e explosiva.
A imagem sórdida da morte se sucumbe
e eu o vejo falar, ainda vivo
no seu íntimo silêncio de bronze.
1 087
Rodrigo Carvalho
Intervenção da Morte
Consulta médica.
O ar anestesia meus pensamentos,
deixando-os livres.
Que teria eu sofrido para estar em tal lugar?
E o doutor,
de barbas brancas, — que até passava um pouco de calma, sabe?! —
anunciou o esperado:
— Tu realmente és saudável, é verdade.
Salvo tuas vísceras,
teimosas,
impondo-se em deslocar-se.
Causastes uma hérnia, vísceras danadas!
Hospital.
Exames, espera, tricotomia, espera, roupas brancas — ridículas! —
botinhas de pano, touca, cadeira-de-rodas. . .
Sala de cirurgia!
Deito-me na maca e amarram-me por inteiro.
Eletroldos, injeções, soro, bisturi, coração, anestesia. . .
. . .
Terminou?
. . .
E vem a recuperação que,
apesar de rápida,
é bastante dolorosa.
Após a cirurgia, paro e reflito.
Tenho a nítida impressão de que a morte,
é aquilo ali:
não sente-se nada;
não ouve-se nada;
não se é nada,
após os ‘bip’s’. . .
Salvador, 10 de julho de 1994
O ar anestesia meus pensamentos,
deixando-os livres.
Que teria eu sofrido para estar em tal lugar?
E o doutor,
de barbas brancas, — que até passava um pouco de calma, sabe?! —
anunciou o esperado:
— Tu realmente és saudável, é verdade.
Salvo tuas vísceras,
teimosas,
impondo-se em deslocar-se.
Causastes uma hérnia, vísceras danadas!
Hospital.
Exames, espera, tricotomia, espera, roupas brancas — ridículas! —
botinhas de pano, touca, cadeira-de-rodas. . .
Sala de cirurgia!
Deito-me na maca e amarram-me por inteiro.
Eletroldos, injeções, soro, bisturi, coração, anestesia. . .
. . .
Terminou?
. . .
E vem a recuperação que,
apesar de rápida,
é bastante dolorosa.
Após a cirurgia, paro e reflito.
Tenho a nítida impressão de que a morte,
é aquilo ali:
não sente-se nada;
não ouve-se nada;
não se é nada,
após os ‘bip’s’. . .
Salvador, 10 de julho de 1994
680
Renato Russo
Música Ambiente
Se um dia fores embora
Te amarei bem mais do que esta hora
Me lembrarei de tudo que eu não disse
E de quando havia tudo que existe
Quando choramos abraçados
E caminhamos lado a lado
Por favor amor me acredite
Não há palavras para explicar o que eu sinto
Mesmo que tenhamos planejado
Um caminho diferente
Tenho mais do que eu preciso
Estar contigo é o bastante.
Certas coisas de todo dia
Nos trazem a alegria
De caminharmos juntos lado a lado por amor.
E quando eu for embora
Não, não chore por mim.
Te amarei bem mais do que esta hora
Me lembrarei de tudo que eu não disse
E de quando havia tudo que existe
Quando choramos abraçados
E caminhamos lado a lado
Por favor amor me acredite
Não há palavras para explicar o que eu sinto
Mesmo que tenhamos planejado
Um caminho diferente
Tenho mais do que eu preciso
Estar contigo é o bastante.
Certas coisas de todo dia
Nos trazem a alegria
De caminharmos juntos lado a lado por amor.
E quando eu for embora
Não, não chore por mim.
1 317
Renato Russo
Vento no litoral
De tarde quero descansar, chegar até a praia
Ver se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras
Sei que faço isso para esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai:
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim ?
Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo o tempo todo
Quando vejo o mar
Existe algo que diz:
- A vida continua e se entregar é uma bobagem
Já que você não está aqui
O que posso fazer é cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano era ficarmos bem ?
- Ei, olha só o que achei: cavalos-marinhos
Sei que faço isso para esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
Ver se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras
Sei que faço isso para esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai:
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim ?
Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo o tempo todo
Quando vejo o mar
Existe algo que diz:
- A vida continua e se entregar é uma bobagem
Já que você não está aqui
O que posso fazer é cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano era ficarmos bem ?
- Ei, olha só o que achei: cavalos-marinhos
Sei que faço isso para esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
2 053
Renato Russo
Love in the afternoon
É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais
Quando eu lhe dizia
- Me apaixono todo dia
E é sempre a pessoa errada,
Você sorriu e disse:
- Eu gosto de você também
Só que você foi embora cedo demais
Eu continuo aqui, com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Um dia de chuva, um dia de sol
E o que sinto não sei dizer
- Vai com os anjos ! Vai em paz
Era assim todo dia tarde
A descoberta da amizade da amizade até a próxima vez
É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais
E cedo demais
Eu aprendi a ter tudo o que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu, que tive um começo feliz
Do resto não sei dizer
Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre, mas eu sei
Que você está bem agora
É só que este ano
O verão acabou
Cedo demais
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais
Quando eu lhe dizia
- Me apaixono todo dia
E é sempre a pessoa errada,
Você sorriu e disse:
- Eu gosto de você também
Só que você foi embora cedo demais
Eu continuo aqui, com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Um dia de chuva, um dia de sol
E o que sinto não sei dizer
- Vai com os anjos ! Vai em paz
Era assim todo dia tarde
A descoberta da amizade da amizade até a próxima vez
É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais
E cedo demais
Eu aprendi a ter tudo o que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu, que tive um começo feliz
Do resto não sei dizer
Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre, mas eu sei
Que você está bem agora
É só que este ano
O verão acabou
Cedo demais
1 614
Renato Russo
Pais e Filhos
Estátuas e cofres
E paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender
Dorme agora:
É só o vento lá fora
Quero colo
Vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês ?
Estou com medo
Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três
Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar, na verdade não há
Me diz porque é que o céu é azul
Me explica a grande f£ria do mundo
São meus filhos que tomam conta de mim
Eu moro com a minha mãe mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
Eu moro com meus pais
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar, na verdade não há
Sou uma gota dágua
Sou um grão de areia
Você diz que seus pais não te entendem
Mas você não entende seus pais
Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo:
São crianças como você
O que você vai ser quando você crescer ?
E paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender
Dorme agora:
É só o vento lá fora
Quero colo
Vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês ?
Estou com medo
Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três
Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar, na verdade não há
Me diz porque é que o céu é azul
Me explica a grande f£ria do mundo
São meus filhos que tomam conta de mim
Eu moro com a minha mãe mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
Eu moro com meus pais
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar, na verdade não há
Sou uma gota dágua
Sou um grão de areia
Você diz que seus pais não te entendem
Mas você não entende seus pais
Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo:
São crianças como você
O que você vai ser quando você crescer ?
2 107
Roberto Pontes
Ode à Cama
Então pode-se ouvir certo ruído
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.
Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.
Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.
1 168
Rogério F. P.
Aqui onde só o vento é testemunha,
Aqui onde só o vento é testemunha,
onde minhalma bruxuleia,
meu pensamento divaga
em construções absurdas.
Quando em meio a clausura,
mesmo que, cercado de formosura
poderia eu dessa tristeza me libertar?
Sei que não observo com
alegria o desabrochar da primavera
em seu sincronismo que eleva a alma
a um patamar inacreditável.
Imperdoável seria se almenos
em um dia, eu não me precipitasse,
e com critério observasse
o que é para mim tão longe,
mas que é na verdade uma silenciosa prece.
Cálido báratro quero que em seus braços
me tome e que minhalma se evole calmamente
junto com o perfume das flores,
para que assim eu possa entender a vida,
e recomeçar na morte!
onde minhalma bruxuleia,
meu pensamento divaga
em construções absurdas.
Quando em meio a clausura,
mesmo que, cercado de formosura
poderia eu dessa tristeza me libertar?
Sei que não observo com
alegria o desabrochar da primavera
em seu sincronismo que eleva a alma
a um patamar inacreditável.
Imperdoável seria se almenos
em um dia, eu não me precipitasse,
e com critério observasse
o que é para mim tão longe,
mas que é na verdade uma silenciosa prece.
Cálido báratro quero que em seus braços
me tome e que minhalma se evole calmamente
junto com o perfume das flores,
para que assim eu possa entender a vida,
e recomeçar na morte!
975
Rogério F. P.
Oh, mulher triste!
Oh, mulher triste!
Sua tez fúnebre relembra
a palidez das mais altas montanhas
em seu cume. E ao mais álgido
mármore causas inveja.
Sopesa as tristezas infindas provenientes da alma.
E a angústia resultante aplacas com a calma, que
pela vastidão, se percebe embotados nesses olhos de anil.
Oh, mulher de olhos fulgurantes!
Se a morte tivesse consciência
de sua implícita beleza
jamais a levaria nesta noite calma de amantes.
Sua tez fúnebre relembra
a palidez das mais altas montanhas
em seu cume. E ao mais álgido
mármore causas inveja.
Sopesa as tristezas infindas provenientes da alma.
E a angústia resultante aplacas com a calma, que
pela vastidão, se percebe embotados nesses olhos de anil.
Oh, mulher de olhos fulgurantes!
Se a morte tivesse consciência
de sua implícita beleza
jamais a levaria nesta noite calma de amantes.
788
Rogério F. P.
Quando eu me deparar com a
Quando eu me deparar com a
fúnebre realidade, e me cobrires de terra
com dizeres melancólicos, sufocarei,
taciturno os seus mais lindos sonhos
com os sons agônicos saídos de minhalma.
Porque tu arremataste o meu ser em
leilão profano, não usaste recursos humanos
para obter tua felicidade.
Querida discípula de Baco, guardarei
para ti um lugar em meu tétrico báratro,
onde juntos entoaremos as
canções mais lindas, tendo como instrumento suas vísceras.
fúnebre realidade, e me cobrires de terra
com dizeres melancólicos, sufocarei,
taciturno os seus mais lindos sonhos
com os sons agônicos saídos de minhalma.
Porque tu arremataste o meu ser em
leilão profano, não usaste recursos humanos
para obter tua felicidade.
Querida discípula de Baco, guardarei
para ti um lugar em meu tétrico báratro,
onde juntos entoaremos as
canções mais lindas, tendo como instrumento suas vísceras.
899
Roberto Pontes
As Durações
O ocaso passeia pela morte
no ruço alazão que ama e trata
e anuncia nas serras e cidades
o belo ataúde que precede.
O arauto esmaece seu mistério
e estende a fronha negra
sobre o sol.
Tudo fica envolto numa sombra,
uma espécie de eclipse total,
e então os frutos verdes amaduram,
processo da matéria progredindo.
Todos os seres dão seu passo além
e eu marco o sol jacente
e a nova lua
lá onde inscrevo sempre as durações.
no ruço alazão que ama e trata
e anuncia nas serras e cidades
o belo ataúde que precede.
O arauto esmaece seu mistério
e estende a fronha negra
sobre o sol.
Tudo fica envolto numa sombra,
uma espécie de eclipse total,
e então os frutos verdes amaduram,
processo da matéria progredindo.
Todos os seres dão seu passo além
e eu marco o sol jacente
e a nova lua
lá onde inscrevo sempre as durações.
978
Rogério F. P.
Não sei o que incomoda
Não sei o que incomoda
aquela bela jovem que chora.
Estará agora perdida a
bailarina louca de outrora?
Comercializaste teu amor,
bacante insaciável,
agora pende sobre a sua cabeça
a triste sombra da morte.
E, enquanto seu corpo repousa,
eis que a criatura que em
seu sangue esta envolta
se alimenta dessa tua carne escrota!
aquela bela jovem que chora.
Estará agora perdida a
bailarina louca de outrora?
Comercializaste teu amor,
bacante insaciável,
agora pende sobre a sua cabeça
a triste sombra da morte.
E, enquanto seu corpo repousa,
eis que a criatura que em
seu sangue esta envolta
se alimenta dessa tua carne escrota!
883
Rogério F. P.
É alegre o baile dos restos
É alegre o baile dos restos
que me pendem do corpo
ao sabor dos ventos,
que sopram à leste.
Brincam entre meus
orifícios abertos pelas
mágoas que cultivei,
as inocentes criancinhas!
Quando alcançar finalmente os umbrais da morte
deixarei a cada amigo
então, um pedaço deste
melancólico pagão,
para que, em noites
melancólicas de inverno, se
lembrem que, aquele
que fora um deles,
agora repousa sossegado no inferno!
que me pendem do corpo
ao sabor dos ventos,
que sopram à leste.
Brincam entre meus
orifícios abertos pelas
mágoas que cultivei,
as inocentes criancinhas!
Quando alcançar finalmente os umbrais da morte
deixarei a cada amigo
então, um pedaço deste
melancólico pagão,
para que, em noites
melancólicas de inverno, se
lembrem que, aquele
que fora um deles,
agora repousa sossegado no inferno!
851
Roberto Pontes
O Dia
No dia
um grande estrondo romperá o céu
e não será o trovão trazendo a chuva
No dia
um calor do inferno nos envolverá
e com certeza não será de abraço
No dia
um guarda-chuva nos dará a sombra
dos cogumelos do "País das Maravilhas"
No dia
o fogo nos fará másacaras sobreviventes
e não para princar no carnaval
No dia
o pânico e a morte serão nossos convivas
e o ágape servido será dor e veneno
No dia
e após o dia
a vida irá sumindo lentamente
e cheios de medalhas
os cus dos generais apodrecendo
(In: Alguma Poesia Jornal n. 2 ano II julho/setembro 1985, Rio de Janeiro)
um grande estrondo romperá o céu
e não será o trovão trazendo a chuva
No dia
um calor do inferno nos envolverá
e com certeza não será de abraço
No dia
um guarda-chuva nos dará a sombra
dos cogumelos do "País das Maravilhas"
No dia
o fogo nos fará másacaras sobreviventes
e não para princar no carnaval
No dia
o pânico e a morte serão nossos convivas
e o ágape servido será dor e veneno
No dia
e após o dia
a vida irá sumindo lentamente
e cheios de medalhas
os cus dos generais apodrecendo
(In: Alguma Poesia Jornal n. 2 ano II julho/setembro 1985, Rio de Janeiro)
903
Roberto Pontes
Cantiga
Os mais desesperados são os mais belos cantos.
Musset
Até Cecília
que se encantava
morreu.
Por que um dia
também não morro eu?
Até Cecília
que de beleza
padeceu
e não desejou mais nada
arrefeceu.
Onde Cecília
seus olhos de estampa
escondeu
após os Cânticos
que prometeu?
Até Cecília
ave encantada
feneceu.
Por que de dor talvez
quem sabe não morro eu?
Musset
Até Cecília
que se encantava
morreu.
Por que um dia
também não morro eu?
Até Cecília
que de beleza
padeceu
e não desejou mais nada
arrefeceu.
Onde Cecília
seus olhos de estampa
escondeu
após os Cânticos
que prometeu?
Até Cecília
ave encantada
feneceu.
Por que de dor talvez
quem sabe não morro eu?
1 183
Ricardo Madeira
D Roga
Por entre a tua escuridão,
Dois olhos brilham mais negro,
Nas veias, espesso e em ebulição,
Teu sangue não mais arde vermelho.
Mais uma vez, a agulha viola a carne,
Com a alegria de quem impala um coração,
O sorriso nos lábios roxos do enforcado,
A gargalhada do cadáver na exumação.
Sonhos, tal cristais que se quebram,
Tua fome saciada pelo vidro partido,
Dormência nos membros gangrenosos,
Larvas em defunto apodrecido.
Como um peixe que mordeu anzol,
Forçado sorri, arrastado para terra,
E ri ao ver metal em brasa, possante,
Que pulsa e na carne se enterra.
Solidão alimenta a melancolia,
A agulha cura a dor em alegria,
Outra promessa nunca cumprida,
Morte não é objectivo da vida.
Dois olhos brilham mais negro,
Nas veias, espesso e em ebulição,
Teu sangue não mais arde vermelho.
Mais uma vez, a agulha viola a carne,
Com a alegria de quem impala um coração,
O sorriso nos lábios roxos do enforcado,
A gargalhada do cadáver na exumação.
Sonhos, tal cristais que se quebram,
Tua fome saciada pelo vidro partido,
Dormência nos membros gangrenosos,
Larvas em defunto apodrecido.
Como um peixe que mordeu anzol,
Forçado sorri, arrastado para terra,
E ri ao ver metal em brasa, possante,
Que pulsa e na carne se enterra.
Solidão alimenta a melancolia,
A agulha cura a dor em alegria,
Outra promessa nunca cumprida,
Morte não é objectivo da vida.
922
Paulo Augusto Rodrigues
Hora
Hora final!
Hora em que o mundo é mais vasto,
O sorriso mais fraco,
O aperto mais junto.
Hora que a saudade nem nasce,
E aborta,
A lembrança nem chega
E a imagem se perde.
Hora que nunca esperamos,
Hora que nunca queremos.
Hora da pequena morte.
Hora que ficamos mais velhos.
Hora que a vida me joga na cara.
Hora em que perco para deus.
Hora, que é só um instante!
Hora que desaba o castelo,
Da ruína das cartas.
Hora de se enroscar no futuro,
Largar os pedaços,
Os lastros.
Triste hora,
Porque me persegues?
Outra vez!
É chegada a hora!
A hora da despedida,
A hora do adeus.
Hora em que o mundo é mais vasto,
O sorriso mais fraco,
O aperto mais junto.
Hora que a saudade nem nasce,
E aborta,
A lembrança nem chega
E a imagem se perde.
Hora que nunca esperamos,
Hora que nunca queremos.
Hora da pequena morte.
Hora que ficamos mais velhos.
Hora que a vida me joga na cara.
Hora em que perco para deus.
Hora, que é só um instante!
Hora que desaba o castelo,
Da ruína das cartas.
Hora de se enroscar no futuro,
Largar os pedaços,
Os lastros.
Triste hora,
Porque me persegues?
Outra vez!
É chegada a hora!
A hora da despedida,
A hora do adeus.
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