Poemas neste tema
Morte e Luto
Nelly Sachs
Os Desaparecidos
a terra não os engoliu, foi o ar?
como a areia eles são numerosos, mas não em areia
se tornaram, sim em nada, em bandos
estão esquecidos. aos montes e de mãos dadas,
como os minutos, mais do que nós,
mas sem lembrança. não inventariados,
impossíveis de ler no pó, sim desaparecidos
estão os seus nomes, colheres e solas.
não nos dão pena. ninguém se pode
lembrar deles: nasceram,
fugiram, morreram? ninguém os achou
menos. sem falha
é o mundo, mas unido
por aquilo que ele não abriga,
pelos desaparecidos. estão por toda a parte.
sem os ausentes nada existiria.
sem os fugitivos nada era firme.
sem os imensuráveis nada mensurável.
sem os esquecidos nada seguro.
os desaparecidos são justos.
assim nos desvanecemos também.
como a areia eles são numerosos, mas não em areia
se tornaram, sim em nada, em bandos
estão esquecidos. aos montes e de mãos dadas,
como os minutos, mais do que nós,
mas sem lembrança. não inventariados,
impossíveis de ler no pó, sim desaparecidos
estão os seus nomes, colheres e solas.
não nos dão pena. ninguém se pode
lembrar deles: nasceram,
fugiram, morreram? ninguém os achou
menos. sem falha
é o mundo, mas unido
por aquilo que ele não abriga,
pelos desaparecidos. estão por toda a parte.
sem os ausentes nada existiria.
sem os fugitivos nada era firme.
sem os imensuráveis nada mensurável.
sem os esquecidos nada seguro.
os desaparecidos são justos.
assim nos desvanecemos também.
469
Nelly Sachs
OH, AS CHAMINÉS
Oh, as chaminés
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
798
Nelly Sachs
CINGIDA JÁ PELO BRAÇO DO CONSOLO CELESTE
Eis a mãe enlouquecida,
Com os farrapos de sua razão estraçalhada,
Com o rastilho de sua razão incinerada,
Deitando no caixão sua criança morta,
Deitando no caixão sua luz perdida,
Curvando as mãos em cântaros,
Enchendo-os de ar com o corpo de sua criança,
Enchendo-os de ar com seus olhos, seus cabelos,
E seu coração esvoaçante –
Depois, beija o que nasceu do ar
E morre!
Com os farrapos de sua razão estraçalhada,
Com o rastilho de sua razão incinerada,
Deitando no caixão sua criança morta,
Deitando no caixão sua luz perdida,
Curvando as mãos em cântaros,
Enchendo-os de ar com o corpo de sua criança,
Enchendo-os de ar com seus olhos, seus cabelos,
E seu coração esvoaçante –
Depois, beija o que nasceu do ar
E morre!
712
Nelly Sachs
NESTA AMETISTA
Nesta ametista
estão sedimentadas as eras da noite
e uma prístina inteligência de luz
inflamou a amargura
ainda líquida
e chorou
Tua morte resplandece ainda
dura violeta
estão sedimentadas as eras da noite
e uma prístina inteligência de luz
inflamou a amargura
ainda líquida
e chorou
Tua morte resplandece ainda
dura violeta
746
Nelly Sachs
NESTA AMETISTA
Nesta ametista
estão sedimentadas as eras da noite
e uma prístina inteligência de luz
inflamou a amargura
ainda líquida
e chorou
Tua morte resplandece ainda
dura violeta
estão sedimentadas as eras da noite
e uma prístina inteligência de luz
inflamou a amargura
ainda líquida
e chorou
Tua morte resplandece ainda
dura violeta
791
Nelly Sachs
QUATRO DIAS QUATRO NOITES
Quatro dias quatro noites
teu esconderijo foi um caixão
sobreviver inspirou – e expirou –
para retardar a morte –
Entre quatro tábuas
jazia a dor do mundo –
Lá fora o minuto crescia pleno de flores
nuvens brincavam no céu –
teu esconderijo foi um caixão
sobreviver inspirou – e expirou –
para retardar a morte –
Entre quatro tábuas
jazia a dor do mundo –
Lá fora o minuto crescia pleno de flores
nuvens brincavam no céu –
600
Nelly Sachs
MAS QUEM
Mas quem bateu a areia de vossos sapatos,
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
725
Erik Axel Karlfeldt
ADEUS
Por que te ergues tão de súbito à minha frente,
ó bela imagem empalidecida?
Queres com um aceno trazer-me o consolo
na profundeza do outono
em que me enterrei e me perdi?
Uma vida humana separa
o ser e o ter sido.
Vim a saber que estavas mal
e corri à tua cabeceira,
mas recuei diante de tua palidez.
Estavas deitada, vestida para a viagem
e me saudaste alegremente: “Vês, inda estou viva;
chega-te para mim, não tenhas medo”.
Calmamente nos contemplamos e então me puxaste
a cabeça de encontro a teu regaço
e me deste o único beijo que trocamos,
rápido e ardente de febre.
Eu olhava a cruel primavera
que sorria à tua janela.
Alegre, como num dia habitual,
me deste o teu adeus,
e me disseste que sabias
que em breve morrerias.
E à medida que chegava a primavera
tua vida se fundia como a neve.
ó bela imagem empalidecida?
Queres com um aceno trazer-me o consolo
na profundeza do outono
em que me enterrei e me perdi?
Uma vida humana separa
o ser e o ter sido.
Vim a saber que estavas mal
e corri à tua cabeceira,
mas recuei diante de tua palidez.
Estavas deitada, vestida para a viagem
e me saudaste alegremente: “Vês, inda estou viva;
chega-te para mim, não tenhas medo”.
Calmamente nos contemplamos e então me puxaste
a cabeça de encontro a teu regaço
e me deste o único beijo que trocamos,
rápido e ardente de febre.
Eu olhava a cruel primavera
que sorria à tua janela.
Alegre, como num dia habitual,
me deste o teu adeus,
e me disseste que sabias
que em breve morrerias.
E à medida que chegava a primavera
tua vida se fundia como a neve.
826
Nelly Sachs
CORO DOS SALVOS
Nós, salvos,
Em cuja ossada vazia a morte já entalhou suas flautas,
Em cujos tendões a morte já roçou seu arco –
Nossos corpos ainda se lamentam
Com sua música mutilada.
Nós, salvos,
Os laços urdidos para nossas gargantas pendem ainda
Diante de nós, no ar azul –
As clepsidras ainda se enchem com nosso sangue gotejante.
Nós, salvos,
Os vermes do medo ainda nos corroem.
Nossa estrela está soterrada no pó.
Nós, salvos,
Vos pedimos:
Mostrai-nos lentamente o vosso sol.
Conduzi-nos, de estrela em estrela, passo a passo.
Deixai que reaprendamos a vida suavemente.
Senão o canto de um pássaro,
O encher do balde no poço
Poderiam romper nossa dor mal-lacrada
E nos levar em espumas.
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão mordente –
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó –
Que ante vossos olhos nos desfizéssemos em pó.
O que nos mantém de pé, então?
Nós, que nos tornamos sem alento,
Nós, cuja alma fugiu para Ele, saindo da meia-noite,
Antes, bem antes que nosso corpo tivesse sido salvo
Na arca do instante.
Nós, salvos,
Apertamos a vossa mão,
Reconhecemos o vosso olho –
Mas apenas a despedida nos une,
A despedida no pó
Nos une a vós.
Em cuja ossada vazia a morte já entalhou suas flautas,
Em cujos tendões a morte já roçou seu arco –
Nossos corpos ainda se lamentam
Com sua música mutilada.
Nós, salvos,
Os laços urdidos para nossas gargantas pendem ainda
Diante de nós, no ar azul –
As clepsidras ainda se enchem com nosso sangue gotejante.
Nós, salvos,
Os vermes do medo ainda nos corroem.
Nossa estrela está soterrada no pó.
Nós, salvos,
Vos pedimos:
Mostrai-nos lentamente o vosso sol.
Conduzi-nos, de estrela em estrela, passo a passo.
Deixai que reaprendamos a vida suavemente.
Senão o canto de um pássaro,
O encher do balde no poço
Poderiam romper nossa dor mal-lacrada
E nos levar em espumas.
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão mordente –
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó –
Que ante vossos olhos nos desfizéssemos em pó.
O que nos mantém de pé, então?
Nós, que nos tornamos sem alento,
Nós, cuja alma fugiu para Ele, saindo da meia-noite,
Antes, bem antes que nosso corpo tivesse sido salvo
Na arca do instante.
Nós, salvos,
Apertamos a vossa mão,
Reconhecemos o vosso olho –
Mas apenas a despedida nos une,
A despedida no pó
Nos une a vós.
619
Nelly Sachs
QUATRO DIAS QUATRO NOITES
Quatro dias quatro noites
teu esconderijo foi um caixão
sobreviver inspirou – e expirou –
para retardar a morte –
Entre quatro tábuas
jazia a dor do mundo –
Lá fora o minuto crescia pleno de flores
nuvens brincavam no céu –
teu esconderijo foi um caixão
sobreviver inspirou – e expirou –
para retardar a morte –
Entre quatro tábuas
jazia a dor do mundo –
Lá fora o minuto crescia pleno de flores
nuvens brincavam no céu –
582
Carl Spitteler
The Hiker
Downy flakes whisper softly from the sky.
A hiker climbs over firn and ice.
The snow woman follows him with treacherous steps:
"Hold still, my dear, and take me with you!
The evening is near and the summit is far away.
I'd be happy to play you a little song just to keep you entertained."
She puts the green shawm on her lip,
She rejoiced at flowers and Lenz and Mai.
He listened, cheeks wet with tears,
Then he ticked the box and drew for bass.
And darker clouds the twilight snow.
She crept to his side on a cunning toe:
"Stop! let me shine for you, you are wandering astray!
I'll tell you a friendly fairy tale."
A traffic light she drew from her robe:
The homeland shines before his eyes,
The hill, the garden, being a parent
In the blissful golden glow of youth.
He swayed. Already he shortens the measure of his steps,
Then he ticked the box and drew for bass.
And it storms and it rummages with storm power,
White night yawns from the howling rock.
His will failed, his knee sank.
There she sat on a stone bench.
"It's comfortable here; come, sit down!
I really know how to caress.
And slumber lures you and a dream laughs at you:
There is room on my warm bosom."
She looked so lovely, she nodded so sweetly,
as if the sky wanted to open up to him.
He staggers towards her in a staggering run
and fell at her feet - never got up again.
A hiker climbs over firn and ice.
The snow woman follows him with treacherous steps:
"Hold still, my dear, and take me with you!
The evening is near and the summit is far away.
I'd be happy to play you a little song just to keep you entertained."
She puts the green shawm on her lip,
She rejoiced at flowers and Lenz and Mai.
He listened, cheeks wet with tears,
Then he ticked the box and drew for bass.
And darker clouds the twilight snow.
She crept to his side on a cunning toe:
"Stop! let me shine for you, you are wandering astray!
I'll tell you a friendly fairy tale."
A traffic light she drew from her robe:
The homeland shines before his eyes,
The hill, the garden, being a parent
In the blissful golden glow of youth.
He swayed. Already he shortens the measure of his steps,
Then he ticked the box and drew for bass.
And it storms and it rummages with storm power,
White night yawns from the howling rock.
His will failed, his knee sank.
There she sat on a stone bench.
"It's comfortable here; come, sit down!
I really know how to caress.
And slumber lures you and a dream laughs at you:
There is room on my warm bosom."
She looked so lovely, she nodded so sweetly,
as if the sky wanted to open up to him.
He staggers towards her in a staggering run
and fell at her feet - never got up again.
1 086
Nelly Sachs
OH, NOITE DAS CRIANÇAS QUE CHORAM!
Oh, noite das crianças que choram!
Noite das crianças marcadas para a morte!
O sono já não consegue entrar.
Vigias medonhas
Ocuparam o lugar das mães,
Premeram a morte errada nos músculos de suas mãos,
semeiam-na pelas paredes e pelas vigas –
Por toda parte chocam os ovos nos ninhos do terror.
Medo amamenta os pequeninos em lugar do leite da mãe.
Ainda ontem a mãe chamava
O sono, como uma lua branca,
A boneca, com o carmim das faces lavado de beijos,
Vinha num dos braços,
O bicho de pelúcia, tornado
Já vivo por força do amor,
Vinha no outro, –
Sopra agora o vento do morrer,
Arrebata as camisas por sobre os cabelos
que ninguém mais penteará.
Noite das crianças marcadas para a morte!
O sono já não consegue entrar.
Vigias medonhas
Ocuparam o lugar das mães,
Premeram a morte errada nos músculos de suas mãos,
semeiam-na pelas paredes e pelas vigas –
Por toda parte chocam os ovos nos ninhos do terror.
Medo amamenta os pequeninos em lugar do leite da mãe.
Ainda ontem a mãe chamava
O sono, como uma lua branca,
A boneca, com o carmim das faces lavado de beijos,
Vinha num dos braços,
O bicho de pelúcia, tornado
Já vivo por força do amor,
Vinha no outro, –
Sopra agora o vento do morrer,
Arrebata as camisas por sobre os cabelos
que ninguém mais penteará.
777
Giorgos Seferis
SÃO ASSIM OS TÚMULOS
São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio,
com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura.
E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas,
a cabeça baixa, a fonte dos lamentos –
acompanha as horas pétreas dos que jazem.
Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se embora
para que cada qual possa viver
a sua própria morte.
São assim os túmulos.
E das sombras da noite, com um sorriso mau,
eis que a velha aparece.
Juntando os dedos, ela apaga a chama
e recolhe as flores para seu amante.
com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura.
E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas,
a cabeça baixa, a fonte dos lamentos –
acompanha as horas pétreas dos que jazem.
Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se embora
para que cada qual possa viver
a sua própria morte.
São assim os túmulos.
E das sombras da noite, com um sorriso mau,
eis que a velha aparece.
Juntando os dedos, ela apaga a chama
e recolhe as flores para seu amante.
705
Giorgos Seferis
XXI
Nós que partimos para essa peregrinação
olhamos as estátuas quebradas
esquecemo-nos e falamos que a vida não se assim tão
fácil
que a morte tem caminhos inexplorados
e uma justiça própria,
que quando em pé nós morremos
dentro da pedra irmanados
unidos com a dureza e a fraqueza,
os velhos mortos fugiram do círculo e ressuscitaram
e sorriem em meio a uma estranha calma.
olhamos as estátuas quebradas
esquecemo-nos e falamos que a vida não se assim tão
fácil
que a morte tem caminhos inexplorados
e uma justiça própria,
que quando em pé nós morremos
dentro da pedra irmanados
unidos com a dureza e a fraqueza,
os velhos mortos fugiram do círculo e ressuscitaram
e sorriem em meio a uma estranha calma.
687
Olga Tokarczuk
A íris selvagem
No final do meu sofrimento
havia uma saída.
Me ouça bem: aquilo que você chama de morte
eu me recordo.
Mais acima, ruídos, ramos de um pinheiro se movendo.
Então, nada. O sol fraco
cintilando sobre a superfície seca.
É terrível sobreviver
como consciência,
enterrada na terra escura.
Então tudo acabou: aquilo que você teme,
se tornando
uma alma e incapaz
de falar, encerrando abruptamente, a terra dura
se inclinando um pouco. E o que pensei serem
pássaros lançando-se em arbustos baixos.
Você que não se lembra
da passagem de outro mundo
eu te digo poderia repetir: aquilo que
retorna do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:
do centro de minha vida veio
uma vasta fonte, azul profundo
sombras na água do mar azul.
havia uma saída.
Me ouça bem: aquilo que você chama de morte
eu me recordo.
Mais acima, ruídos, ramos de um pinheiro se movendo.
Então, nada. O sol fraco
cintilando sobre a superfície seca.
É terrível sobreviver
como consciência,
enterrada na terra escura.
Então tudo acabou: aquilo que você teme,
se tornando
uma alma e incapaz
de falar, encerrando abruptamente, a terra dura
se inclinando um pouco. E o que pensei serem
pássaros lançando-se em arbustos baixos.
Você que não se lembra
da passagem de outro mundo
eu te digo poderia repetir: aquilo que
retorna do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:
do centro de minha vida veio
uma vasta fonte, azul profundo
sombras na água do mar azul.
791
Tomas Tranströmer
3 ESTROFES
1
O cavaleiro e a sua mulher
petrificada, mas feliz
na tampa de um caixão voador
para lá do tempo.
2
Jesus segurava uma moeda ao alto
com o perfil de Tibério,
um perfil sem amor,
o poder em circulação.
3
Uma espada fluente
extingue a memória.
No chão trompetas e pendentes
enferrujados.
O cavaleiro e a sua mulher
petrificada, mas feliz
na tampa de um caixão voador
para lá do tempo.
2
Jesus segurava uma moeda ao alto
com o perfil de Tibério,
um perfil sem amor,
o poder em circulação.
3
Uma espada fluente
extingue a memória.
No chão trompetas e pendentes
enferrujados.
625
Tomas Tranströmer
O som
O melro soprou o seu canto nos ossos dos mortos.
De pé, debaixo de uma árvore, sentíamos o tempo descer e descer.
O pátio da escola e o pátio da igreja encontraram-se e espraiaram-se
um no outro como duas tempestades no mar.
O som dos sinos da igreja elevou-se , levado pela alavanca suave
do planador.
Deixaram para trás um silêncio poderoso na terra
e os passos calmos de uma árvore, os passos calmos de uma árvore.
De pé, debaixo de uma árvore, sentíamos o tempo descer e descer.
O pátio da escola e o pátio da igreja encontraram-se e espraiaram-se
um no outro como duas tempestades no mar.
O som dos sinos da igreja elevou-se , levado pela alavanca suave
do planador.
Deixaram para trás um silêncio poderoso na terra
e os passos calmos de uma árvore, os passos calmos de uma árvore.
659
Tomas Tranströmer
Gôndola Triste 2
1
Dois velhos, sogro e genro, Liszt e Wagner,
estão hospedados perto do Grande Canal
juntos com a mulher inquieta casada com o Rei Midas
o homem que transforma tudo o que toca em Wagner.
O frio verde glacial do mar faz o seu caminho pelos soalhos do
palácio.
Wagner está um farrapo, o seu famoso perfil de roberto está mais enrugado
que nunca
o rosto uma bandeira branca.
A gôndola vai carregada com três vidas, dois bilhetes de ida e volta e um
de ida.
2
Uma das janelas do palácio abre-se de súbito, lá dentro as pessoas
assombram-se com a repentina corrente de ar.
Cá fora surge nas águas a gôndola do lixo conduzida
por dois bandidos de um só remo.
Liszt compôs uns acordes tão pesados que têm
de ser enviados
ao instituto mineralógico de Pádua para análise.
Meteoritos!
demasiado pesados para se firmarem, só podem ir ao fundo, ao fundo,
a pique para o futuro,
para os anos dos camisas castanhas.
A gôndola vai carregada com as pedras submissas do futuro.
3
Frestas, abrindo-se em 1990
25 de Março. Ansiedade pela Lituânia.
Sonhei que visitava um hospital grande.
Sem pessoal médico. Todos doentes.
No mesmo sonho uma menina recém-nascida
que dizia frases completas.
4
Ao lado do genro, que é um senhor de idade, Liszt
é um Grand Seigneur roído pela traça.
É um disfarce.
O abismo que experimenta e rejeita diferentes máscaras escolheu
esta para ele.
O abismo que deseja entrar, visitar os humanos sem
mostrar o rosto.
5
O abade Liszt está habituado a carregar a mala
pela neve suja e ao sol
mas chegada a hora da morte ninguém há-de ir ter com ele à
estação.
Uma brisa quente saturada de conhaque leva-o a sair
a meio de um dever.
Os deveres nunca o largam.
Duas mil cartas por ano!
O aluno que tem de escrever a palavra mal soletrada cem
vezes antes de ir para casa.
A gôndola vai carregada de vida, é simples e negra.
6
De novo 1990.
Sonhei que andei 200 quilómetros para nada.
Tudo aumentou de volume. Pardais grandes
como galinhas cantavam ensurdecedores.
Sonhei que desenhava teclas de piano
na mesa da cozinha. Em silêncio tocava nelas.
Os vizinhos entraram para ouvir.
7
O teclado que se manteve em silêncio ao longo de todo o Parsifal
(mas que o escutou) tem finalmente direito a dizer algo.
Suspiros … sospiri …
Liszt ao tocar mantém esta noite o pedal marítimo em baixo
para que o poder verde do mar suba pelo soalho acima
e se misture com as pedras do edifício.
Boa noite, lindo abismo!
A gôndola vai carregada de vida, é simples e negra.
8
Sonhei que começavam hoje as aulas e que cheguei tarde.
Na sala todos usavam uma máscara branca.
Impossível dizer quem era o professor.
Dois velhos, sogro e genro, Liszt e Wagner,
estão hospedados perto do Grande Canal
juntos com a mulher inquieta casada com o Rei Midas
o homem que transforma tudo o que toca em Wagner.
O frio verde glacial do mar faz o seu caminho pelos soalhos do
palácio.
Wagner está um farrapo, o seu famoso perfil de roberto está mais enrugado
que nunca
o rosto uma bandeira branca.
A gôndola vai carregada com três vidas, dois bilhetes de ida e volta e um
de ida.
2
Uma das janelas do palácio abre-se de súbito, lá dentro as pessoas
assombram-se com a repentina corrente de ar.
Cá fora surge nas águas a gôndola do lixo conduzida
por dois bandidos de um só remo.
Liszt compôs uns acordes tão pesados que têm
de ser enviados
ao instituto mineralógico de Pádua para análise.
Meteoritos!
demasiado pesados para se firmarem, só podem ir ao fundo, ao fundo,
a pique para o futuro,
para os anos dos camisas castanhas.
A gôndola vai carregada com as pedras submissas do futuro.
3
Frestas, abrindo-se em 1990
25 de Março. Ansiedade pela Lituânia.
Sonhei que visitava um hospital grande.
Sem pessoal médico. Todos doentes.
No mesmo sonho uma menina recém-nascida
que dizia frases completas.
4
Ao lado do genro, que é um senhor de idade, Liszt
é um Grand Seigneur roído pela traça.
É um disfarce.
O abismo que experimenta e rejeita diferentes máscaras escolheu
esta para ele.
O abismo que deseja entrar, visitar os humanos sem
mostrar o rosto.
5
O abade Liszt está habituado a carregar a mala
pela neve suja e ao sol
mas chegada a hora da morte ninguém há-de ir ter com ele à
estação.
Uma brisa quente saturada de conhaque leva-o a sair
a meio de um dever.
Os deveres nunca o largam.
Duas mil cartas por ano!
O aluno que tem de escrever a palavra mal soletrada cem
vezes antes de ir para casa.
A gôndola vai carregada de vida, é simples e negra.
6
De novo 1990.
Sonhei que andei 200 quilómetros para nada.
Tudo aumentou de volume. Pardais grandes
como galinhas cantavam ensurdecedores.
Sonhei que desenhava teclas de piano
na mesa da cozinha. Em silêncio tocava nelas.
Os vizinhos entraram para ouvir.
7
O teclado que se manteve em silêncio ao longo de todo o Parsifal
(mas que o escutou) tem finalmente direito a dizer algo.
Suspiros … sospiri …
Liszt ao tocar mantém esta noite o pedal marítimo em baixo
para que o poder verde do mar suba pelo soalho acima
e se misture com as pedras do edifício.
Boa noite, lindo abismo!
A gôndola vai carregada de vida, é simples e negra.
8
Sonhei que começavam hoje as aulas e que cheguei tarde.
Na sala todos usavam uma máscara branca.
Impossível dizer quem era o professor.
659
Tomas Tranströmer
Solidão
I
Aqui, estive a ponto de morrer numa noite de Fevereiro.
O carro patinou no gelo, derrapou de lado e seguiu
na faixa contrária. Os carros aproximando-se –
os seus faróis – cada vez mais perto.
O meu nome, as minhas filhas, o meu emprego
desprenderam-se e ficaram para trás em silêncio
cada vez mais para trás. Eu estava anónimo,
como uma criança num pátio de colégio cercada de inimigos.
Era poderosa a luz do tráfego aproximando-se.
Iluminava-me à medida que girava e girava
o volante num medo transparente agitado como clara de ovo.
Os segundos dilatavam-se – ocupando mais espaço –
engrandeciam como edifícios de hospital.
Podia-se quase ficar à vontade
e um tudo nada descontraído
antes do choque se dar.
Então surgiu terra firme: veio em socorro um grão de areia
ou uma rajada súbita de vento. O carro agarrou-se
derrapou, atravessou a estrada.
Elevou-se um poste e quebrou-se – um som vibrante
juntou-se à escuridão.
Até que chegou o silêncio. Sentado e seguro pelo cinto
vi alguém caminhar no turbilhão da neve
para ver o que restava de mim.
II
A caminhar durante horas
pelos campos gelados da Suécia
não consegui ver ninguém.
Noutras partes do mundo
pessoas nascem, vivem e morrem
em perpétua multidão.
Ser constantemente visível – viver
num enxame de olhos –
deixa marcas no rosto.
Sulcos revestidos de pó.
O murmúrio que sobe e desce
enquanto dividem entre si
o céu, as sombras, os grãos de areia.
Tenho de estar a sós
dez minutos pela manhã
dez minutos pela tarde.
- Sem fazer nada.
Todos fazem fila à porta de todos.
Muitos.
Um.
Aqui, estive a ponto de morrer numa noite de Fevereiro.
O carro patinou no gelo, derrapou de lado e seguiu
na faixa contrária. Os carros aproximando-se –
os seus faróis – cada vez mais perto.
O meu nome, as minhas filhas, o meu emprego
desprenderam-se e ficaram para trás em silêncio
cada vez mais para trás. Eu estava anónimo,
como uma criança num pátio de colégio cercada de inimigos.
Era poderosa a luz do tráfego aproximando-se.
Iluminava-me à medida que girava e girava
o volante num medo transparente agitado como clara de ovo.
Os segundos dilatavam-se – ocupando mais espaço –
engrandeciam como edifícios de hospital.
Podia-se quase ficar à vontade
e um tudo nada descontraído
antes do choque se dar.
Então surgiu terra firme: veio em socorro um grão de areia
ou uma rajada súbita de vento. O carro agarrou-se
derrapou, atravessou a estrada.
Elevou-se um poste e quebrou-se – um som vibrante
juntou-se à escuridão.
Até que chegou o silêncio. Sentado e seguro pelo cinto
vi alguém caminhar no turbilhão da neve
para ver o que restava de mim.
II
A caminhar durante horas
pelos campos gelados da Suécia
não consegui ver ninguém.
Noutras partes do mundo
pessoas nascem, vivem e morrem
em perpétua multidão.
Ser constantemente visível – viver
num enxame de olhos –
deixa marcas no rosto.
Sulcos revestidos de pó.
O murmúrio que sobe e desce
enquanto dividem entre si
o céu, as sombras, os grãos de areia.
Tenho de estar a sós
dez minutos pela manhã
dez minutos pela tarde.
- Sem fazer nada.
Todos fazem fila à porta de todos.
Muitos.
Um.
423
Mauro Mota
SÓROR FELICIDADE
Sob o outono sem luz, nesta tarde amarela,
Uma rosa de Deus lentamente fenece
e se estorce de dor e agoniza na cela…
Lusco-fusco. Tristeza. O sol morre. Anoitece…
Tem quinze anos somente! é tão moça! é tão bela!
Com seus lábios sem cor balbucia uma prece.
Atira o último olhar através da janela:
vê a Vida lá fora e a lua que aparece.
Eis meus olhos ciriais velando-lhe a agonia,
Lentamente fenece e, assim, lívida e calma,
é uma santa do céu! Santa Melancolia!
Mas, súbito, na cela, um frêmito de ânsia corre,
E, no Claustro da Dor Imensa de Minh’alma,
Sóror Felicidade abre os braços e morre.
Uma rosa de Deus lentamente fenece
e se estorce de dor e agoniza na cela…
Lusco-fusco. Tristeza. O sol morre. Anoitece…
Tem quinze anos somente! é tão moça! é tão bela!
Com seus lábios sem cor balbucia uma prece.
Atira o último olhar através da janela:
vê a Vida lá fora e a lua que aparece.
Eis meus olhos ciriais velando-lhe a agonia,
Lentamente fenece e, assim, lívida e calma,
é uma santa do céu! Santa Melancolia!
Mas, súbito, na cela, um frêmito de ânsia corre,
E, no Claustro da Dor Imensa de Minh’alma,
Sóror Felicidade abre os braços e morre.
714
Tomas Tranströmer
HISTÓRIAS DE MARINHEIROS
Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
639
Tomas Tranströmer
Ir na corrente
Falar e falar com amigos que vi ouvi por detrás dos seus rostos
a corrente
arrastando os que querem ir e os que não querem.
E vi uma criatura de olhos colados um ao outro
a querer saltar mesmo para o meio da corrente
a atirar-se para fora de si sem um tremor
numa sede voraz por uma resposta simples.
Rápido e mais rápido a água arrasta
como se fosse um rio que estreita adiante e dispara
em rápidos – parei para descansar num sítio como aquele
depois de um passeio pelos bosques secos
numa tarde de Junho: o transístor trouxe-me as últimas
sobre a Sessão Extraordinária: Kosygin, Eban.
Um ou dois pensamentos fizeram o seu caminho em desespero.
Um ou dois homens afogaram-se na aldeia.
E enormes massas de água avançam sob a ponte
suspensa. Aí vem a madeira! Alguns troncos
disparam para diante como torpedos. Outros atravessam-se
de lado, indolentes, e rodopiam desamparados,
e outros de frente virada para as margens do rio
seguem entre pedras e lixo, ficam presos,
e amontoados voltam-se para o céu como mãos entrelaçadas,
orações submersas num rugido ….
Vi ouvi isso de uma ponte suspensa
entre uma nuvem de mosquitos
na companhia de uns quantos miúdos. As suas bicicletas
enterradas em arbustos – só os chifres
de fora.
a corrente
arrastando os que querem ir e os que não querem.
E vi uma criatura de olhos colados um ao outro
a querer saltar mesmo para o meio da corrente
a atirar-se para fora de si sem um tremor
numa sede voraz por uma resposta simples.
Rápido e mais rápido a água arrasta
como se fosse um rio que estreita adiante e dispara
em rápidos – parei para descansar num sítio como aquele
depois de um passeio pelos bosques secos
numa tarde de Junho: o transístor trouxe-me as últimas
sobre a Sessão Extraordinária: Kosygin, Eban.
Um ou dois pensamentos fizeram o seu caminho em desespero.
Um ou dois homens afogaram-se na aldeia.
E enormes massas de água avançam sob a ponte
suspensa. Aí vem a madeira! Alguns troncos
disparam para diante como torpedos. Outros atravessam-se
de lado, indolentes, e rodopiam desamparados,
e outros de frente virada para as margens do rio
seguem entre pedras e lixo, ficam presos,
e amontoados voltam-se para o céu como mãos entrelaçadas,
orações submersas num rugido ….
Vi ouvi isso de uma ponte suspensa
entre uma nuvem de mosquitos
na companhia de uns quantos miúdos. As suas bicicletas
enterradas em arbustos – só os chifres
de fora.
579
Tomas Tranströmer
SOLSTÍCIO DE INVERNO
Um brilho azul
escorre da minha roupa.
Solstício de Inverno
Pandeiretas de gelos tilintantes.
É um mundo silencioso,
é uma fenda
ali os mortos são passados
clandestinamente pelas fronteiras.
escorre da minha roupa.
Solstício de Inverno
Pandeiretas de gelos tilintantes.
É um mundo silencioso,
é uma fenda
ali os mortos são passados
clandestinamente pelas fronteiras.
890
António Borges Coelho
Balouça as folhas
Balouça as folhas rústica a varrer
a terra verdes fazem de toalha
cobrindo os frutos verdes quase roxos
a barriga vermelha há milénios
que serve o homem com seu verde mel
mas Judas enforcou-se nos seus ramos
e quando não deu fruto o próprio Cristo
a declarou maldita o vento oeste
dobrou-a sobre o barro descarnou-a
esbarrondou-lhe o tronco as raízes
fincaram-se na terra ladras de água
curvada à maldição inclina os ramos
desfaz-se em fruto embala preso à corda
o cadáver de todos os malditos
a terra verdes fazem de toalha
cobrindo os frutos verdes quase roxos
a barriga vermelha há milénios
que serve o homem com seu verde mel
mas Judas enforcou-se nos seus ramos
e quando não deu fruto o próprio Cristo
a declarou maldita o vento oeste
dobrou-a sobre o barro descarnou-a
esbarrondou-lhe o tronco as raízes
fincaram-se na terra ladras de água
curvada à maldição inclina os ramos
desfaz-se em fruto embala preso à corda
o cadáver de todos os malditos
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