Poemas neste tema
Amor Romântico
Cleonice Rainho
No Jardim
De um em um
vou colhendo
os balõezinhos dos beijos.
Parecem cápsulas
estufadinhas
e ploc... plec ... ploc...
vão estalando,
como se fizessem
uma revolução
dentro da minha mão.
Tão pequeninas,
as sementes
são como pontinhos
e se espalham
tantas, tantas,
mais de um milhão.
— Sossega, Seu Balãozinho!
— Fiquem quietinhas!—
digo às sementinhas,
pois, no quintal
de meu vizinho
elas vão formar
um novo beijal.
vou colhendo
os balõezinhos dos beijos.
Parecem cápsulas
estufadinhas
e ploc... plec ... ploc...
vão estalando,
como se fizessem
uma revolução
dentro da minha mão.
Tão pequeninas,
as sementes
são como pontinhos
e se espalham
tantas, tantas,
mais de um milhão.
— Sossega, Seu Balãozinho!
— Fiquem quietinhas!—
digo às sementinhas,
pois, no quintal
de meu vizinho
elas vão formar
um novo beijal.
863
Chico Buarque
Choro bandido
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
1 614
Carlinhos Brown
Frases Ventias
Teu beijo
Cata-vento
Que assobia
Frases ventias
Pra ti sem mim
Pelo portão que escorre a calmaria
Nos utensílios
Que a vi servir
Saladas em lavouras de agonia
Com ar de amor
Que mal dormia
Yá,yá
Como porção de arroz
Na água escura
Na desventura de ver o dia
Toda canção de amor
agora é tua
Põe o tecido
Que tu tecia
Arranca esse ardor
Que a moda surta
Carrega meu amor
Com pés de frutas
Cata-vento
Que assobia
Frases ventias
Pra ti sem mim
Pelo portão que escorre a calmaria
Nos utensílios
Que a vi servir
Saladas em lavouras de agonia
Com ar de amor
Que mal dormia
Yá,yá
Como porção de arroz
Na água escura
Na desventura de ver o dia
Toda canção de amor
agora é tua
Põe o tecido
Que tu tecia
Arranca esse ardor
Que a moda surta
Carrega meu amor
Com pés de frutas
1 867
Carlinhos Brown
Mares de ti
Só pra curtir
Com ti contente ficar
Cavo caldo de cana
No Canal de Panamá
Se tropeçar meus pés cansados
Nos mares de ti
Cuidar de mim cuidar de ti
As fases e frases
Desfazem nos jeans
Porque que é só você quem sabe
Aonde surfir
O mais bonito do magnífico
Se teu sorriso esculpir
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Não sei pisar no breque
Tomo charrete
Pro lares rubis
Pensando nisso
Pensando em ti
Senti felicidade sem fim
Se for passar preciso sarar
É quase inútil
Ficar de ir
Ficar de vir
Ficar feliz isso sim
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Me abraça bem
Já me sinto bem
Vim chorar
Como guitarra grunge
Como escaramouche
Amor talhador
Com ti contente ficar
Cavo caldo de cana
No Canal de Panamá
Se tropeçar meus pés cansados
Nos mares de ti
Cuidar de mim cuidar de ti
As fases e frases
Desfazem nos jeans
Porque que é só você quem sabe
Aonde surfir
O mais bonito do magnífico
Se teu sorriso esculpir
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Não sei pisar no breque
Tomo charrete
Pro lares rubis
Pensando nisso
Pensando em ti
Senti felicidade sem fim
Se for passar preciso sarar
É quase inútil
Ficar de ir
Ficar de vir
Ficar feliz isso sim
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Me abraça bem
Já me sinto bem
Vim chorar
Como guitarra grunge
Como escaramouche
Amor talhador
1 462
Carla Bianca
Ilustre Visitante
Converso com o amor. Ele fala como se fôssemos íntimos. Aperta minha mão e beija-me as faces. Coro o rosto, banhada pela timidez. Não sei se possuo fidalguia para anfitrionar tão distinta personalidade.
Os gestos de amor são elegantes e clássicos, dando a impressão de tratar-se de alguém que nunca se emociona. Um engano que vai se dissipando ao longo de nossa conversa. Quando falo de minhas tristezas, aquele ser distante, muda de figura e começa a verter lágrimas. Ao ver esta cena fico triste e alegre, por perceber-me através de olhos tão ilustres.
Os assuntos que discorre são por demais difíceis à compreensão, mas permaneço atenta, fitando belos segredos.
A prosa continua e ele vai se soltando cada vez mais. Um pouco depois percebo que ele passa a ter ciúmes dos que comigo tentam falar. A felicidade em invade e epnso pertencer a mesma raça do amor.
Os gestos de amor são elegantes e clássicos, dando a impressão de tratar-se de alguém que nunca se emociona. Um engano que vai se dissipando ao longo de nossa conversa. Quando falo de minhas tristezas, aquele ser distante, muda de figura e começa a verter lágrimas. Ao ver esta cena fico triste e alegre, por perceber-me através de olhos tão ilustres.
Os assuntos que discorre são por demais difíceis à compreensão, mas permaneço atenta, fitando belos segredos.
A prosa continua e ele vai se soltando cada vez mais. Um pouco depois percebo que ele passa a ter ciúmes dos que comigo tentam falar. A felicidade em invade e epnso pertencer a mesma raça do amor.
842
Carla Bianca
Ventos Vulcânicos
Contemplo imagem do espelho, reflexo tão belo como há muito não vislumbrava. Vulto luminoso emoldurado por negros cabelos e morenas faces. Dentes mais brancos, boca rosada e delatora, dançando teu nome sem escorrer um único som.
Imagem confiante que resplandece, bafejada por ventos vulcânicos, advindos da grande erupção da tua presença.
Imagem confiante que resplandece, bafejada por ventos vulcânicos, advindos da grande erupção da tua presença.
964
Carla Bianca
Lembrança
Guardo a saudade no fundo da goela. Lá coloco sentimentos como se fossem drágeas a serem engolidas. Procuro um copo d’água para desentalar a saudade.
Molhada a goela, sinto a saudade transformar-se em lembrança. O peito descansa de esperar por alguém que não tem paradeiro.
As lembranças são preciosidades que não fazem sofrer. Lindas molduras, de momentos vividos.
Agora viajo no tempo repassando as venturas que tive com o amor. Os rostos parecem sorrir, transcendendo as dúvidas que antes marcavam suas testas e expressões. Eles são lembranças, deixaram de ser saudades.
Observo mais atentamente e avisto o teu rosto na galeria das emoções. Ele tem agora um sorriso plácido, tranqüilo, de pessoa em paz, com a vida, este pedaço de energia que não possui tempo certo e viaja na memória dos contemporâneos de sua passagem.
Tua lembrança pertence à nobre seção do afeto e apraz contemplar figura que tanto ensinou e agora diz que devo procurar outro mestre.
Molhada a goela, sinto a saudade transformar-se em lembrança. O peito descansa de esperar por alguém que não tem paradeiro.
As lembranças são preciosidades que não fazem sofrer. Lindas molduras, de momentos vividos.
Agora viajo no tempo repassando as venturas que tive com o amor. Os rostos parecem sorrir, transcendendo as dúvidas que antes marcavam suas testas e expressões. Eles são lembranças, deixaram de ser saudades.
Observo mais atentamente e avisto o teu rosto na galeria das emoções. Ele tem agora um sorriso plácido, tranqüilo, de pessoa em paz, com a vida, este pedaço de energia que não possui tempo certo e viaja na memória dos contemporâneos de sua passagem.
Tua lembrança pertence à nobre seção do afeto e apraz contemplar figura que tanto ensinou e agora diz que devo procurar outro mestre.
950
Olympia Mahu
Espera
A porta se abrirá...
E, na sala vazia, tua presença, teu perfume...
Tua saudade surgirá, envolvente, no ar...
Dominando tudo.
Pensar... triste pensar... nem pensar
Tua lembrança forte, teu beijo,
Teu abraço envolvente em meu corpo
Num calafrio de amor.
Aqui estou, toda tua, toda nua,
Em sussurros de amor.
Me abandono no cansaço
Em doce sonolência de estar contigo
Em agonia de amor...
Doce abandono,
Eterno idílio
Em breve sonho,
Meu exílio...
Olimpya Mahu, nov/91
E, na sala vazia, tua presença, teu perfume...
Tua saudade surgirá, envolvente, no ar...
Dominando tudo.
Pensar... triste pensar... nem pensar
Tua lembrança forte, teu beijo,
Teu abraço envolvente em meu corpo
Num calafrio de amor.
Aqui estou, toda tua, toda nua,
Em sussurros de amor.
Me abandono no cansaço
Em doce sonolência de estar contigo
Em agonia de amor...
Doce abandono,
Eterno idílio
Em breve sonho,
Meu exílio...
Olimpya Mahu, nov/91
917
Dílson Catarino
Ester
Gosto de sentir sua pele
em minha pele sua boca
em minha boca seus cabelos
em meu rosto seu corpo
em meu corpo sua mente
em meu mundo seu mundo
em minha mente seu passado
em meu futuro seu futuro
em meu presente.
Gosto de ser seu presente
você é meu destino desatino
me deixa menino pequenino
quando cafuné me faz
quando suas unhas riscam
minhas costas como resposta
arrepio-me por puro prazer
Quero fazer seu prazer
quero suas pernas lamber
quero em você me perder
em você me prender
e me render
Não adianta
de sua vida não saio
dentro de você desmaio
sou um raio
tênue aconchegante
sou a lua radiante
em seu céu sem fim
eu sou o fim.
em minha pele sua boca
em minha boca seus cabelos
em meu rosto seu corpo
em meu corpo sua mente
em meu mundo seu mundo
em minha mente seu passado
em meu futuro seu futuro
em meu presente.
Gosto de ser seu presente
você é meu destino desatino
me deixa menino pequenino
quando cafuné me faz
quando suas unhas riscam
minhas costas como resposta
arrepio-me por puro prazer
Quero fazer seu prazer
quero suas pernas lamber
quero em você me perder
em você me prender
e me render
Não adianta
de sua vida não saio
dentro de você desmaio
sou um raio
tênue aconchegante
sou a lua radiante
em seu céu sem fim
eu sou o fim.
1 203
Cláudio Aguiar
Improviso a Iracema-Alencar
A Audifax Rios
Iracemar - viver bem deslumbrado,
rindo na praia que Deus nos criou
além da inocência e do bom pecado,
com fogo, sal e sol devorador,
e todos votos do carnal amor.
Mercadoria fazes tuas mágoas,
América! Alencar te recriou,
além-mar, mar-além daquelas águas,
luzes banhadas pelo sol dos dias,
egressas de contados movimentos,
nascentes das canções de nossa gente,
cantadas em desoras maresias:
areal-pó, levado pelos ventos,
romance-aurora, madrigal silente.
Iracemar - viver bem deslumbrado,
rindo na praia que Deus nos criou
além da inocência e do bom pecado,
com fogo, sal e sol devorador,
e todos votos do carnal amor.
Mercadoria fazes tuas mágoas,
América! Alencar te recriou,
além-mar, mar-além daquelas águas,
luzes banhadas pelo sol dos dias,
egressas de contados movimentos,
nascentes das canções de nossa gente,
cantadas em desoras maresias:
areal-pó, levado pelos ventos,
romance-aurora, madrigal silente.
725
Carlinhos Brown
Argila
Vinha rindo e circulando
Sobre tudo o cobertor do teu olhar
Varreu meus zolhos
E do teu olho joio
Uma gota de orvalho
Que era vidro se quedou
Vivendo um despedace
E o coração coador
Sorriu
Vexado de amargor e se pintou
Com a lama da lagoa pra à toa correr
Se for feito de argila
Seis enfeites te darei
Flores não andam em dúzia
Só foi uma que roubei
Sorriu
Vexado de amargor e se pintou
Com a lama da lagoa coa
Voa
Ê zuzuê ê zum zum zum ê zuzuê e zum
ê zuzuê ê zum zum zum ê zuzuê e zum
Solidão anda de muda
Sei pra sempre te amarei
Procurei por essas curvas
Quem no Tororó deixei
Sobre tudo o cobertor do teu olhar
Varreu meus zolhos
E do teu olho joio
Uma gota de orvalho
Que era vidro se quedou
Vivendo um despedace
E o coração coador
Sorriu
Vexado de amargor e se pintou
Com a lama da lagoa pra à toa correr
Se for feito de argila
Seis enfeites te darei
Flores não andam em dúzia
Só foi uma que roubei
Sorriu
Vexado de amargor e se pintou
Com a lama da lagoa coa
Voa
Ê zuzuê ê zum zum zum ê zuzuê e zum
ê zuzuê ê zum zum zum ê zuzuê e zum
Solidão anda de muda
Sei pra sempre te amarei
Procurei por essas curvas
Quem no Tororó deixei
1 414
Caetano de Brito e Figueiredo
Soneto
Se adormecida, ó Clícia, te parece
que amor neste letargo se minora,
é engano, que tanto mais adora
quanto entregue ao pesar mais se adormece:
à Luz do Sol o seu Amor floresce,
restaura alentos, quando sai a Aurora;
o meu da Lua a vista sente e chora
e quando se retira, desfalece.
O Sono, não descanso, mas tormento
com impulso cruel, com rigor forte
faz que este amor se julgue esquecimento.
Tu no Sol tens o objeto, o alívio, a Sorte:
eu sem sentido entregue ao sentimento,
sou vítima de amor, morro sem Morte.
que amor neste letargo se minora,
é engano, que tanto mais adora
quanto entregue ao pesar mais se adormece:
à Luz do Sol o seu Amor floresce,
restaura alentos, quando sai a Aurora;
o meu da Lua a vista sente e chora
e quando se retira, desfalece.
O Sono, não descanso, mas tormento
com impulso cruel, com rigor forte
faz que este amor se julgue esquecimento.
Tu no Sol tens o objeto, o alívio, a Sorte:
eu sem sentido entregue ao sentimento,
sou vítima de amor, morro sem Morte.
748
Chico Buarque
Futuros Amantes
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
3 286
Cid Saboia de Carvalho
Cantiga
Eu sou o olhar que contempla
o amor que rebenta em ti;
sou o pássaro cativo
que canta enternecido
na paisagem tão terna
que há em ti e por mim.
Depois de nossos caminhos
sou o descanso maduro,
a sombra, o fruto morno,
o vento nos teus cabelos.
Sou o canto que desperta,
a voz que canta e chora;
sou percussão dos sentidos
e cordas do meu amor;
nunca vou morrer depois,
embora sigamos juntos
pela vida para a morte.
Falo a língua esquecida,
verbo que o mundo esqueceu,
mas canto minha cantiga
do amor que nunca morreu...
o amor que rebenta em ti;
sou o pássaro cativo
que canta enternecido
na paisagem tão terna
que há em ti e por mim.
Depois de nossos caminhos
sou o descanso maduro,
a sombra, o fruto morno,
o vento nos teus cabelos.
Sou o canto que desperta,
a voz que canta e chora;
sou percussão dos sentidos
e cordas do meu amor;
nunca vou morrer depois,
embora sigamos juntos
pela vida para a morte.
Falo a língua esquecida,
verbo que o mundo esqueceu,
mas canto minha cantiga
do amor que nunca morreu...
934
Cid Saboia de Carvalho
Êxtase
Esperei por ti neste último poema:
tu chegas em fuga, ai, sem ruído e voz
(não temos voz) e através da água dos nossos olhos
olhamos um os olhos do outro (quanto vemos, amor!)
e, oh Cristo, basta! Agora desço por teu rosto,
pois sigo na lágrima tua e quando encostas
o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso
do meu cavalo louco nos caminhos do fim.
Por aqui ninguém vai, amor: eu vou sem voz
e é meu olhar que ecoa, não minha voz.
(E eu quero voz?) Ela ficou em ti, no teu silêncio
e na tua lágrima vou morrer na angústia dos trovões
calados e com todas as neuroses da alma dos relâmpagos.
Teu pranto é mudo quando morro e nele viajo
com minha morte. Desci por teu rosto e terminei
bem entre teus seios: se na tua lágrima segui
é porque meu último desejo foi estar aqui.
Minhas mãos não acenam (morrem na posse)
ocupadas pela última colheita.
tu chegas em fuga, ai, sem ruído e voz
(não temos voz) e através da água dos nossos olhos
olhamos um os olhos do outro (quanto vemos, amor!)
e, oh Cristo, basta! Agora desço por teu rosto,
pois sigo na lágrima tua e quando encostas
o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso
do meu cavalo louco nos caminhos do fim.
Por aqui ninguém vai, amor: eu vou sem voz
e é meu olhar que ecoa, não minha voz.
(E eu quero voz?) Ela ficou em ti, no teu silêncio
e na tua lágrima vou morrer na angústia dos trovões
calados e com todas as neuroses da alma dos relâmpagos.
Teu pranto é mudo quando morro e nele viajo
com minha morte. Desci por teu rosto e terminei
bem entre teus seios: se na tua lágrima segui
é porque meu último desejo foi estar aqui.
Minhas mãos não acenam (morrem na posse)
ocupadas pela última colheita.
912
Dílson Catarino
Confissões
Quero sentir no teu rosto
um sinal de minha ausência.
Quero lamber tuas lágrimas
Aplacar teu sofrimento.
Quero fixar-me em teu corpo
pra transcender-me em delírio
pra sentir as mesmas dores
Tratar das mesmas feridas.
Isso é pra ter na memória
teu cheiro embriagador
É pra ter mais que certeza
que o sonho não acabou
É pra ver ainda forte
tudo o que nos juntou
-o-
um sinal de minha ausência.
Quero lamber tuas lágrimas
Aplacar teu sofrimento.
Quero fixar-me em teu corpo
pra transcender-me em delírio
pra sentir as mesmas dores
Tratar das mesmas feridas.
Isso é pra ter na memória
teu cheiro embriagador
É pra ter mais que certeza
que o sonho não acabou
É pra ver ainda forte
tudo o que nos juntou
-o-
870
Dílson Catarino
Poemas Menores
Meus óculos quebrados
Me olham com saudades
Do passado que também se quebrou
-o-
Sujo é o beco de sua boca
quando fala.
Sujo é o beco - boca é suja
Pois as árvores poda
Até que a morte vem
Aos pássaros também
-o-
Sempre é o nunca
à podridão dos homens
que matam de penúria
ou de violência
que ferem a alma
de um povo já enfermo
E querem carnaval.
-o-
Cultivar plantas em xaxim
é como cultivar a paz
Os homens cultivam o fim
-o-
O verde desta planta
no meio de minha sala
O cinza desta fumaça
em todo meu caminho
-o-
Vivaldi vagueia
vadiamente
em meus ouvidos
-o-
Se não fosse a chuva
batendo em minha janela
Pensaria serem lágrimas felizes
de minha boca em seu corpo.
-o-
O meu copo de aço
escorregou-me da mão
Os estilhaços de vidro
cortaram-me o pé
Escorreu uma gota de sangue
manchando o tapete.
-o-
Saia do escuro e acenda uma vela
Fique na sua
tomando chuva na calçada
beijando a boca da namorada
sentindo a nuca se arrepiar.
-o-
Há olhos lindos e tentadores
meigos, tímidos, de muitas cores
sensuais, chocantes, libidinosos
lagos serenos, maravilhosos
cristais brilhantes, cheios de fé
mas nada como os olhos de Teté.
-o-
E lá estão os elefantes,
ciscando em volta do lago,
enquanto as pedras rolam
misturando-se com as cuspidas do tuberculoso.
Cânticos frêmitos entoados por pianos destruídos
entusiasmam os leprosos para uma valsa.
Vamos beber uma cerveja?
Então, bebamos oito.
-o-
Me olham com saudades
Do passado que também se quebrou
-o-
Sujo é o beco de sua boca
quando fala.
Sujo é o beco - boca é suja
Pois as árvores poda
Até que a morte vem
Aos pássaros também
-o-
Sempre é o nunca
à podridão dos homens
que matam de penúria
ou de violência
que ferem a alma
de um povo já enfermo
E querem carnaval.
-o-
Cultivar plantas em xaxim
é como cultivar a paz
Os homens cultivam o fim
-o-
O verde desta planta
no meio de minha sala
O cinza desta fumaça
em todo meu caminho
-o-
Vivaldi vagueia
vadiamente
em meus ouvidos
-o-
Se não fosse a chuva
batendo em minha janela
Pensaria serem lágrimas felizes
de minha boca em seu corpo.
-o-
O meu copo de aço
escorregou-me da mão
Os estilhaços de vidro
cortaram-me o pé
Escorreu uma gota de sangue
manchando o tapete.
-o-
Saia do escuro e acenda uma vela
Fique na sua
tomando chuva na calçada
beijando a boca da namorada
sentindo a nuca se arrepiar.
-o-
Há olhos lindos e tentadores
meigos, tímidos, de muitas cores
sensuais, chocantes, libidinosos
lagos serenos, maravilhosos
cristais brilhantes, cheios de fé
mas nada como os olhos de Teté.
-o-
E lá estão os elefantes,
ciscando em volta do lago,
enquanto as pedras rolam
misturando-se com as cuspidas do tuberculoso.
Cânticos frêmitos entoados por pianos destruídos
entusiasmam os leprosos para uma valsa.
Vamos beber uma cerveja?
Então, bebamos oito.
-o-
940
Carlos Nóbrega
Os Odiantes
Vejo que faz barulho
de ferrolho contra ferrolho
o mesmo ranger do mergulho
de um olho em outro olho
de ferrolho contra ferrolho
o mesmo ranger do mergulho
de um olho em outro olho
1 070
Casimiro de Abreu
A Valsa
Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Coas faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...
Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
Pra outro
Não eu!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...
Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!
Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...
Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!
Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!
Na dança
Que cansa,
Voavas
Coas faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...
Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
Pra outro
Não eu!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...
Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!
Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...
Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!
Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!
2 189
Geraldo Carneiro
nevermore
fizemos piqueniques em Pasárgada
tramamos romances rocambolescos
nas praias mais improváveis.
cifras grifos dragões dalém mar
cuspiam fogo em nossa eros-dicção
você era mais luz: eu era mais treva
fomos quase felizes para sempre
antes que você escolhesse o dia
a hora o grand-finale do espetáculo
(ou não escolhesse: a morte é sempre
um pas-de-deux com o deus do acaso)
tramamos romances rocambolescos
nas praias mais improváveis.
cifras grifos dragões dalém mar
cuspiam fogo em nossa eros-dicção
você era mais luz: eu era mais treva
fomos quase felizes para sempre
antes que você escolhesse o dia
a hora o grand-finale do espetáculo
(ou não escolhesse: a morte é sempre
um pas-de-deux com o deus do acaso)
1 179
Castro Alves
Queres Flores? Queres Cantos?
QUERES FLORES? Queres cantos?
Como hei de dar-tos se prantos
Só tenho no peito meu?
Queres luzes e harmonias?...
Debalde... só agonias
Meu alaúde gemeu...
Donzela! Fora loucura
Pedir ao tufão doçura,
Ao morto alegre canção,
Buscar a flor dos quiosques
Entre os ciprestes, os bosques
Que ensombram funéreo chão.
Porém escuta um conselho...
Pede a Veneza um espelho...
Mira o teu rosto... e verás
Um desses quadros tão belos
Que — homens não sabem fazê-los,
Que — dous assim Deus não faz.
Na tua boca formosa
Verás uma linda rosa
Meio fechada a sorrir,
E, como gotas nitentes,
As pérolas de teus dentes
No seio da flor luzir.
O perfume do Oriente
— Quando rezas inocente —
Se embala nos lábios teus.
E no teu seio, se treme,
Tens a Poesia, se geme,
Tens a harmonia dos Céus.
Queres ver o Paraíso?
Descerra os lábios... Um riso
Vem-nos o Éden mostrar...
Canta!... E aos hinos sagrados
Verás no Céu debruçados
Os astros pra te escutar.
Tens a noite nas madeixas
Onde a brisa em temas queixas
Geme... morre de languor.
São mais que os astros — brilhantes
Os teus olhos fascinantes,
— Lindas estrofes de amor...
E ainda pedes-me um canto?!...
Quebra a lira o Bardo santo
Ao ver um sorriso teu...
Rasga a tela Rafael...
Fídias estala o cinzel...
Deus treme de amor no Céu.
Como hei de dar-tos se prantos
Só tenho no peito meu?
Queres luzes e harmonias?...
Debalde... só agonias
Meu alaúde gemeu...
Donzela! Fora loucura
Pedir ao tufão doçura,
Ao morto alegre canção,
Buscar a flor dos quiosques
Entre os ciprestes, os bosques
Que ensombram funéreo chão.
Porém escuta um conselho...
Pede a Veneza um espelho...
Mira o teu rosto... e verás
Um desses quadros tão belos
Que — homens não sabem fazê-los,
Que — dous assim Deus não faz.
Na tua boca formosa
Verás uma linda rosa
Meio fechada a sorrir,
E, como gotas nitentes,
As pérolas de teus dentes
No seio da flor luzir.
O perfume do Oriente
— Quando rezas inocente —
Se embala nos lábios teus.
E no teu seio, se treme,
Tens a Poesia, se geme,
Tens a harmonia dos Céus.
Queres ver o Paraíso?
Descerra os lábios... Um riso
Vem-nos o Éden mostrar...
Canta!... E aos hinos sagrados
Verás no Céu debruçados
Os astros pra te escutar.
Tens a noite nas madeixas
Onde a brisa em temas queixas
Geme... morre de languor.
São mais que os astros — brilhantes
Os teus olhos fascinantes,
— Lindas estrofes de amor...
E ainda pedes-me um canto?!...
Quebra a lira o Bardo santo
Ao ver um sorriso teu...
Rasga a tela Rafael...
Fídias estala o cinzel...
Deus treme de amor no Céu.
2 099
Castro Alves
UMA PÁGINA DE ESCOLA REALISTA
drama cômico em quatro palavras
A tragédia me faz rir, a comédia me faz chorar,
E o drama? Nem rir, nem chorar...
(Pensamento de CARNIOLI)
CENÁRIO
A alcova é fria e pequena
Abrindo sobre um jardim.
A tarde frouxa e serena
Já desmaia para o fim.
No centro um leito fechado
Deixa o longo cortinado
Sobre o tapete rolar...
Há, nas jarras deslumbrantes,
Camélias frias, brilhantes,
Lembrando a neve polar.
Livros esparsos por terra,
Uma harpa caída além;
E essa tristeza, que encerra
O asilo, onde sofre alguém.
Fitas, máscaras e flores
Não sei que vagos odores
Falam de amor e prazer.
Além da frouxa penumbra
Um vulto incerto ressumbra
— O vulto de uma mulher.
Vous, qui volez là-bas, légères hirondelles
Dites-moi, dites-moi, porquoi vais-je mourir!
MUSSET
MÁRIO (no leito)
É tarde! É tarde! Abri-me estas cortinas
Deixai que a luz me acaricie a fronte!...
Ó sol, ó noivo das regiões divinas,
Suspende um pouco a luz neste horizonte!
SILVIA (abrindo a janela)
Da noite o frio vento te regela
o mórbido suor...
MÁRIO
Oh! que me importa?
A tarde doura-me o suor da fronte...
— Último louro desta vida morta!
Crepusclo! mocidade! natureza!
Inundai de fulgor meu dia extremo...
Quero banhar-me em vagas de harmonia,
Como no lago se mergulha o remo!
E que amores que sonham as esferas!
A brisa é de volúpia um calafrio.
A estrela sai das folhas do infinito,
Sai dos musgos o verme luzidio ...
Tudo que vive, que palpita e sente
Chama o par amoroso para a sombra.
O pombo arrula — preparando o ninho,
A abelha zumbe — preparando a alfombra.
As trevas rolam como as tranças negras,
Que a Andaluza desmancha em mago enleio:
E entre rendas sutis surge medrosa
A lua plena, qual moreno seio.
Abre-se o ninho... o cálice... o regaço...
Anfitrite, corando, aguarda o noivo...
(Longa pausa)
E tu também esperas teu esposo,
Ó morte! ó moça, que engrinalda o goivo!
SÍLVIA (a meia voz, acompanhando-se na guitarra)
Dizem as moças galantes
Que as rolas são tão constantes ...
Pois será?
Que morrendo-lhe os amantes,
Morrem de fome, arquejantes,
Quem dirá?
Dizem sábios arrogantes
Que nestas terras distantes,
Não por cá,
Sobre piras fumegantes
Morrem viúvas constantes,
Pois será?
Não creio nos navegantes
Nem nas histórias galantes,
Que há por lá.
Fome e fogueiras brilhantes
Cá não há...
Mas inda morrem amantes
De saudades lacerantes
Quem dirá?
(Aos últimos arpejos cai-lhe uma lágrima.)
MÁRIO (vendo-a chorar)
Sílvia! Deixa rolar sobre a guitarra,
Da lágrima a harmonia peregrina!
Sílvia! cantando — és a mulher formosa!
Silvia! chorando — és a mulher divina!
Oh! lágrimas e pérolas! - aljofares
Que rebentais no interno cataclismo,
Do oceano — este dédalo insondável!
Do coração — este profundo abismo!
Sílvia! dá-me a beber a gota dágua,
Nessa pálpebra roxa como o lírio...
Como lambe a gazela o brando orvalho
Nas largas folhas do deserto assírio.
E quando estalma desdobrando as asas
Entrar do céu na região serena,
Como uma estrela eu levarei nos dedos
Teu pranto sideral, ó Madalena! ...
Sílvia (tem-se ajoelhado aos pés do leito)
Meus prantos sirvam apenas
Pra umedecer teus cabelos,
Como da corça nos velos
Fresco orvalho a resvalar!
Pra molhar a flor, que aspires,
Rolem prantos de meus olhos,
Pra atravessar os escolhos
Meus prantos manda rolar!...
Meus prantos sirvam apenas
Pra a terra, em que tu pisares,
Pra a sede, em que te abrasares,
Terás meu sangue, Senhor!
Meus prantos são óleo humilde
Que eu derramo a tuas plantas...
(Mário estende-lhe os braços)
Mas se acaso me levantas
Meus prantos dizem-te amor!...
Mário (tendo-a contra o seio)
Sentir que a vida vai fugindo aos poucos
Como a luz, que desmaia no ocidente...
E boiar sobre as ondas do sepulcro,
Como Ofélia nas águas da corrente...
Sentir o sangue espanadar do peito
— Licor de morte — sobre a boca fria,
E meu lábio enxugar nos teus cabelos,
Como Rolla nas tranças de Maria.
De teus braços fazer o diadema
De minha vida, que desmaia insana,
Esquecer o passado em teu regaço,
Como Byron aos pés da Italiana;
Em teu lábio molhado e perfumoso
O licor entornar de minha vida...
Escutar-te nas vascas da agonia,
Como Fausto as canções de Margarida!
Eis como eu quero — na embriaguez da morte...
Do banquete no chão pender a fronte...
Inda a taça empunhando de teus beijos
Sob as rosas gentis de Anacreonte!...
(A noite tem descido pouco a pouco, o luar penetrando pela alcova alumia o grupo dos amantes)
SÍLVIA
Que palidez, meu poeta,
Se estende na face tua!...
MÁRIO
São os raios descorados,
Os alvos raios da lua!
SÍLVIA
Mas um suor de agonia
Teu peito ardente tressua ...
MÁRIO
São os orvalhos, que descem
Ao frio clarão da lua.
SÍLVIA
Que mancha é esta sangrenta,
Que no teu lábio flutua?
MÁRIO
São as sombras de uma nuvem
Que tolda a face da lua!
SÍLVIA
Como teus dedos esfriam
Sobre minha espádua nua! ...
MÁRIO (distraído)
Não vês um anjo, que desce,
No frouxo clarão da lua?
SÍLVIA
Mário? Não vês quem te chama?...
Tua amante... Sílvia... a tua...
MÁRIO (desmaiando)
É a morte que me leva
Num frio raio da lua! ...
(O poeta cai semimorto sobre o leito. No espasmo sua
mão contraída prende uma trança da moça.)
SÍLVIA
Teus brancos dedos fecharam
De meu cabelo a madeixa,
Tua amante não se queixa...
Bem vês... cativa ficou.
Mas não se prende o desejo
Que nalma acaso se aninha!...
Nunca viste a andorinha,
Que alegre o fio quebrou?
(Ouve-se um relógio dar horas.)
Já! tão tarde! E embalde tento
Abrir-te os dedos fechados...
Como frios cadeados,
Que o teu amor me lançou.
Porém se aqui me cativas
Minhalma foge-te asinha...
Nunca viste a andorinha,
Que alegre o fio quebrou!
(Debruça-se a escrever numa carteira.)
"Paulo! Vem à meia-noite...
Mário morre! Mário expira!
Vem que minha alma delira
E embalde cativa estou. . . "
MÁRIO (que tem lido por cima de seu ombro)
Sílvia! a morte abre-me os dedos,
És livre, Sílvia... caminha!
(morrendo)
Minhalma é como a andorinha,
Que alegre o fio quebrou.
A tragédia me faz rir, a comédia me faz chorar,
E o drama? Nem rir, nem chorar...
(Pensamento de CARNIOLI)
CENÁRIO
A alcova é fria e pequena
Abrindo sobre um jardim.
A tarde frouxa e serena
Já desmaia para o fim.
No centro um leito fechado
Deixa o longo cortinado
Sobre o tapete rolar...
Há, nas jarras deslumbrantes,
Camélias frias, brilhantes,
Lembrando a neve polar.
Livros esparsos por terra,
Uma harpa caída além;
E essa tristeza, que encerra
O asilo, onde sofre alguém.
Fitas, máscaras e flores
Não sei que vagos odores
Falam de amor e prazer.
Além da frouxa penumbra
Um vulto incerto ressumbra
— O vulto de uma mulher.
Vous, qui volez là-bas, légères hirondelles
Dites-moi, dites-moi, porquoi vais-je mourir!
MUSSET
MÁRIO (no leito)
É tarde! É tarde! Abri-me estas cortinas
Deixai que a luz me acaricie a fronte!...
Ó sol, ó noivo das regiões divinas,
Suspende um pouco a luz neste horizonte!
SILVIA (abrindo a janela)
Da noite o frio vento te regela
o mórbido suor...
MÁRIO
Oh! que me importa?
A tarde doura-me o suor da fronte...
— Último louro desta vida morta!
Crepusclo! mocidade! natureza!
Inundai de fulgor meu dia extremo...
Quero banhar-me em vagas de harmonia,
Como no lago se mergulha o remo!
E que amores que sonham as esferas!
A brisa é de volúpia um calafrio.
A estrela sai das folhas do infinito,
Sai dos musgos o verme luzidio ...
Tudo que vive, que palpita e sente
Chama o par amoroso para a sombra.
O pombo arrula — preparando o ninho,
A abelha zumbe — preparando a alfombra.
As trevas rolam como as tranças negras,
Que a Andaluza desmancha em mago enleio:
E entre rendas sutis surge medrosa
A lua plena, qual moreno seio.
Abre-se o ninho... o cálice... o regaço...
Anfitrite, corando, aguarda o noivo...
(Longa pausa)
E tu também esperas teu esposo,
Ó morte! ó moça, que engrinalda o goivo!
SÍLVIA (a meia voz, acompanhando-se na guitarra)
Dizem as moças galantes
Que as rolas são tão constantes ...
Pois será?
Que morrendo-lhe os amantes,
Morrem de fome, arquejantes,
Quem dirá?
Dizem sábios arrogantes
Que nestas terras distantes,
Não por cá,
Sobre piras fumegantes
Morrem viúvas constantes,
Pois será?
Não creio nos navegantes
Nem nas histórias galantes,
Que há por lá.
Fome e fogueiras brilhantes
Cá não há...
Mas inda morrem amantes
De saudades lacerantes
Quem dirá?
(Aos últimos arpejos cai-lhe uma lágrima.)
MÁRIO (vendo-a chorar)
Sílvia! Deixa rolar sobre a guitarra,
Da lágrima a harmonia peregrina!
Sílvia! cantando — és a mulher formosa!
Silvia! chorando — és a mulher divina!
Oh! lágrimas e pérolas! - aljofares
Que rebentais no interno cataclismo,
Do oceano — este dédalo insondável!
Do coração — este profundo abismo!
Sílvia! dá-me a beber a gota dágua,
Nessa pálpebra roxa como o lírio...
Como lambe a gazela o brando orvalho
Nas largas folhas do deserto assírio.
E quando estalma desdobrando as asas
Entrar do céu na região serena,
Como uma estrela eu levarei nos dedos
Teu pranto sideral, ó Madalena! ...
Sílvia (tem-se ajoelhado aos pés do leito)
Meus prantos sirvam apenas
Pra umedecer teus cabelos,
Como da corça nos velos
Fresco orvalho a resvalar!
Pra molhar a flor, que aspires,
Rolem prantos de meus olhos,
Pra atravessar os escolhos
Meus prantos manda rolar!...
Meus prantos sirvam apenas
Pra a terra, em que tu pisares,
Pra a sede, em que te abrasares,
Terás meu sangue, Senhor!
Meus prantos são óleo humilde
Que eu derramo a tuas plantas...
(Mário estende-lhe os braços)
Mas se acaso me levantas
Meus prantos dizem-te amor!...
Mário (tendo-a contra o seio)
Sentir que a vida vai fugindo aos poucos
Como a luz, que desmaia no ocidente...
E boiar sobre as ondas do sepulcro,
Como Ofélia nas águas da corrente...
Sentir o sangue espanadar do peito
— Licor de morte — sobre a boca fria,
E meu lábio enxugar nos teus cabelos,
Como Rolla nas tranças de Maria.
De teus braços fazer o diadema
De minha vida, que desmaia insana,
Esquecer o passado em teu regaço,
Como Byron aos pés da Italiana;
Em teu lábio molhado e perfumoso
O licor entornar de minha vida...
Escutar-te nas vascas da agonia,
Como Fausto as canções de Margarida!
Eis como eu quero — na embriaguez da morte...
Do banquete no chão pender a fronte...
Inda a taça empunhando de teus beijos
Sob as rosas gentis de Anacreonte!...
(A noite tem descido pouco a pouco, o luar penetrando pela alcova alumia o grupo dos amantes)
SÍLVIA
Que palidez, meu poeta,
Se estende na face tua!...
MÁRIO
São os raios descorados,
Os alvos raios da lua!
SÍLVIA
Mas um suor de agonia
Teu peito ardente tressua ...
MÁRIO
São os orvalhos, que descem
Ao frio clarão da lua.
SÍLVIA
Que mancha é esta sangrenta,
Que no teu lábio flutua?
MÁRIO
São as sombras de uma nuvem
Que tolda a face da lua!
SÍLVIA
Como teus dedos esfriam
Sobre minha espádua nua! ...
MÁRIO (distraído)
Não vês um anjo, que desce,
No frouxo clarão da lua?
SÍLVIA
Mário? Não vês quem te chama?...
Tua amante... Sílvia... a tua...
MÁRIO (desmaiando)
É a morte que me leva
Num frio raio da lua! ...
(O poeta cai semimorto sobre o leito. No espasmo sua
mão contraída prende uma trança da moça.)
SÍLVIA
Teus brancos dedos fecharam
De meu cabelo a madeixa,
Tua amante não se queixa...
Bem vês... cativa ficou.
Mas não se prende o desejo
Que nalma acaso se aninha!...
Nunca viste a andorinha,
Que alegre o fio quebrou?
(Ouve-se um relógio dar horas.)
Já! tão tarde! E embalde tento
Abrir-te os dedos fechados...
Como frios cadeados,
Que o teu amor me lançou.
Porém se aqui me cativas
Minhalma foge-te asinha...
Nunca viste a andorinha,
Que alegre o fio quebrou!
(Debruça-se a escrever numa carteira.)
"Paulo! Vem à meia-noite...
Mário morre! Mário expira!
Vem que minha alma delira
E embalde cativa estou. . . "
MÁRIO (que tem lido por cima de seu ombro)
Sílvia! a morte abre-me os dedos,
És livre, Sílvia... caminha!
(morrendo)
Minhalma é como a andorinha,
Que alegre o fio quebrou.
2 345
Castro Alves
O Gondoleiro do Amor
BARCAROLA
DAMA NEGRA
Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;
Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.
Tua voz é a cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento;
E como em noites de Itália,
Ama um canto o pecador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.
Teu sorriso é uma aurora,
Que o horizonte enrubesceu,
— Rosa aberta com biquinho
Das aves rubras do céu.
Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.
Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;
Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no langor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!? ...
Teu amor na treva é — um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa — nas calmarias,
É abrigo — no tufão;
Por isso eu te amo, querida,
Quer no prazer, quer na dor,...
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.
Recife, janeiro de 1867.
DAMA NEGRA
Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;
Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.
Tua voz é a cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento;
E como em noites de Itália,
Ama um canto o pecador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.
Teu sorriso é uma aurora,
Que o horizonte enrubesceu,
— Rosa aberta com biquinho
Das aves rubras do céu.
Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.
Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;
Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no langor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!? ...
Teu amor na treva é — um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa — nas calmarias,
É abrigo — no tufão;
Por isso eu te amo, querida,
Quer no prazer, quer na dor,...
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.
Recife, janeiro de 1867.
1 959
Castro Alves
Amante
"BASTA, criança! Não soluces tanto...
Enxuga os olhos, meu amor, enxuga!
Que culpa tem a clícia descaída
Se abelha envenenada o mel lhe suga?
"Basta! Esta faca já contou mil gotas
De lágrimas de dor nos teus olhares.
Sorri, Maria! Ela jurou pagar-tas
No sangue dele em gotas aos milhares.
"Por que volves os olhos desvairados?
Por que tremes assim, frágil criança?
Estalma é como o braço, o braço é ferro,
E o ferro sabe o trilho da vingança.
"Se a justiça da terra te abandona,
Se a justiça do céu de ti se esquece,
A justiça do escravo está na força...
E quem tem um punhal nada carece! ...
"Vamos! Acaba a história ... Lança a presa...
Não vês meu coração, que sente fome?
Amanhã chorarás; mas de alegria!
Hoje é preciso me dizer — seu nome!"
Enxuga os olhos, meu amor, enxuga!
Que culpa tem a clícia descaída
Se abelha envenenada o mel lhe suga?
"Basta! Esta faca já contou mil gotas
De lágrimas de dor nos teus olhares.
Sorri, Maria! Ela jurou pagar-tas
No sangue dele em gotas aos milhares.
"Por que volves os olhos desvairados?
Por que tremes assim, frágil criança?
Estalma é como o braço, o braço é ferro,
E o ferro sabe o trilho da vingança.
"Se a justiça da terra te abandona,
Se a justiça do céu de ti se esquece,
A justiça do escravo está na força...
E quem tem um punhal nada carece! ...
"Vamos! Acaba a história ... Lança a presa...
Não vês meu coração, que sente fome?
Amanhã chorarás; mas de alegria!
Hoje é preciso me dizer — seu nome!"
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