Poemas neste tema
Amor Romântico
Matilde Campilho
Rua do Alecrim
Uma menina desenha uma estrela de cinco pontas
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.
Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdade a bofetadas.
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.
Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdade a bofetadas.
1 427
Matilde Campilho
Estação do Trem
Depois de acordarmos
sempre ainda meio vivos
um pouco ensonados
é mais ou menos fácil
entrar na vida
depois dessas coisas
Prometemos várias vezes
que não trocaríamos o amor
por jogatinas de pingue-pongue
e quando finalmente percebemos
que o ás do pingue-pongue
é exatamente
a medida certa do amor
ajubilamos na gargalhada
que só pode ser
que afinal, sempre foi
nós dois acreditamos nisso
a herança de Deus para nós
Sim, olha
eu lembro
de quando tu só sabias contar
até 400.
sempre ainda meio vivos
um pouco ensonados
é mais ou menos fácil
entrar na vida
depois dessas coisas
Prometemos várias vezes
que não trocaríamos o amor
por jogatinas de pingue-pongue
e quando finalmente percebemos
que o ás do pingue-pongue
é exatamente
a medida certa do amor
ajubilamos na gargalhada
que só pode ser
que afinal, sempre foi
nós dois acreditamos nisso
a herança de Deus para nós
Sim, olha
eu lembro
de quando tu só sabias contar
até 400.
1 395
Valter Hugo Mãe
nenhum amor escapa impune
deixa-me perguntar se te
pareço tão assustado assim. Não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propensão para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que também eu sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo
queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração, se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz. faria qualquer coisa, ainda que
quisesse morrer a seguir, faria qualquer coisa que,
por um instante, te pusesse
a pensar em mim
pareço tão assustado assim. Não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propensão para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que também eu sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo
queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração, se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz. faria qualquer coisa, ainda que
quisesse morrer a seguir, faria qualquer coisa que,
por um instante, te pusesse
a pensar em mim
612
Valter Hugo Mãe
a capitalização do amor
não escondemos que aprendemos a
capitalizar o amor, entregando
amplamente os nossos melhores
momentos às raparigas mais carentes.
o amor, sabemos bem, é o caminho directo
para a inutilidade, e nós procuramos as
raparigas que mais rapidamente se
inutilizem perante as coisas clássicas
da vida. não nos queremos atarefar com
a vulgaridade, e gostaríamos até de
impregnar cada gesto com características
alienígenas, mas o tempo escapa-se e o
dinheiro também e, se só pensamos no amor,
não temos como fazer de outro modo
senão vendê-lo entusiasticamente, como
fontes de trovões bonitos jorrando nas
praças mais movimentadas das cidades. e
as raparigas correm para nós urgentes
e cheias de vida, férteis de tudo quanto o
amor se abate sobre elas, uma alegria rica
de se ver, e nós a balançar os braços para
chamar a atenção de mais e mais e
já nem sabemos como parar, como forças
incontroladas, à semelhança de mecanismos
ferozes da natureza, e só sairemos daqui
quando desfalecermos de amor até
pelas raparigas mais feias
capitalizar o amor, entregando
amplamente os nossos melhores
momentos às raparigas mais carentes.
o amor, sabemos bem, é o caminho directo
para a inutilidade, e nós procuramos as
raparigas que mais rapidamente se
inutilizem perante as coisas clássicas
da vida. não nos queremos atarefar com
a vulgaridade, e gostaríamos até de
impregnar cada gesto com características
alienígenas, mas o tempo escapa-se e o
dinheiro também e, se só pensamos no amor,
não temos como fazer de outro modo
senão vendê-lo entusiasticamente, como
fontes de trovões bonitos jorrando nas
praças mais movimentadas das cidades. e
as raparigas correm para nós urgentes
e cheias de vida, férteis de tudo quanto o
amor se abate sobre elas, uma alegria rica
de se ver, e nós a balançar os braços para
chamar a atenção de mais e mais e
já nem sabemos como parar, como forças
incontroladas, à semelhança de mecanismos
ferozes da natureza, e só sairemos daqui
quando desfalecermos de amor até
pelas raparigas mais feias
700
Francisco Luís Amaro
Retrato
Um silêncio, um olhar, uma palavra:
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve...
Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo, esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.
Existias em mim. O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve...
Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo, esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.
Existias em mim. O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!
864
Matilde Campilho
Chapéu de Palha
Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
784
Matilde Campilho
Rio de Janeiro — Lisboa
um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
1 070
Pero da Ponte
Tam Muito Vos Am'eu, Senhor
Tam muito vos am'eu, senhor,
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
Que se vos eu nom viss'entom
quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.
708
Pero da Ponte
Senhor do Corpo Delgado
Senhor do corpo delgado,
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
678
Matilde Campilho
I´Ll Have What She´S Having
nunca vou ser bom para ti
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
993
Pero da Ponte
Dom Garcia Martiins, Saber
- Dom Garcia Martĩins, saber
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.
- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.
- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.
- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.
- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?
- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.
- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.
- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.
- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.
- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?
- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
721
Pero da Ponte
Ai Madr', o Que Me Namorou
- Ai madr', o que me namorou
foi-se noutro dia daqui
e, por Deus, que faremos i?
Ca namorada me leixou.
- Filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
- Ca me nom sei [i] conselhar,
mia madre, se Deus mi perdom.
- Dized', ai filha, por que nom?
Quero-me vo-lo eu mostrar:
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
Que o recebades mui bem,
filha, quand'ante vós veer,
e todo quanto vos disser
outorgade-lho e, por en,
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
foi-se noutro dia daqui
e, por Deus, que faremos i?
Ca namorada me leixou.
- Filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
- Ca me nom sei [i] conselhar,
mia madre, se Deus mi perdom.
- Dized', ai filha, por que nom?
Quero-me vo-lo eu mostrar:
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
Que o recebades mui bem,
filha, quand'ante vós veer,
e todo quanto vos disser
outorgade-lho e, por en,
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
885
Fernão Garcia Esgaravunha
A Que Vos Fui, Senhor, Dizer Por Mi
A que vos fui, senhor, dizer por mi
que vos queria mao preço dar,
do que eu quer'agora a Deus rogar,
ponh'eu dela e de mi outrossi:
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
A que a gram torto me vosco miscrou
e que gram torto vos disse, senhor,
por en serei sempr'[a] Deus rogador,
de mim e dela, que m'esto buscou,
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
Mais torne-se na verdade, por Deus,
(ca vos nom disse verdad', e[u] o sei!)
log'eu dela e de mim rogarei
a Deus, que vejam estes olhos meus,
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
que vos queria mao preço dar,
do que eu quer'agora a Deus rogar,
ponh'eu dela e de mi outrossi:
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
A que a gram torto me vosco miscrou
e que gram torto vos disse, senhor,
por en serei sempr'[a] Deus rogador,
de mim e dela, que m'esto buscou,
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
Mais torne-se na verdade, por Deus,
(ca vos nom disse verdad', e[u] o sei!)
log'eu dela e de mim rogarei
a Deus, que vejam estes olhos meus,
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
578
Fernão Garcia Esgaravunha
Senhor Fremosa, Quant'eu Cofondi
Senhor fremosa, quant'eu cofondi
o vosso sem e vós e voss'amor,
com sanha foi que houve, mia senhor,
e com gram coita, que me faz assi,
senhor, perder de tal guisa meu sem
que cofondi vós – em que tanto bem
há quanto nunca doutra don'oí.
Mais valha-me contra vós, por Deus, i
vossa mesura e quam gram pavor
eu hei de vós, que sode'la melhor
dona de quantas eno mundo vi;
e se mi aquesto contra vós nom val,
senhor fremosa, nom sei hoj'eu al
com que vos eu ouse rogar por mi.
Maila mesura que tanto valer,
senhor, sol sempr'a quen'a Deus quer dar,
me valha contra vós, e o pesar
que hei, senhor, de quanto fui dizer;
ca, mia senhor, quem mui gram coita tem
no coraçom faz-lhe dizer tal rem
a que nom sabe pois conselh'haver.
Com'hoj'eu faço e muit'estou mal,
ca, se mi assi vossa mesura fal,
nom há i al, senhor, senom morrer!
o vosso sem e vós e voss'amor,
com sanha foi que houve, mia senhor,
e com gram coita, que me faz assi,
senhor, perder de tal guisa meu sem
que cofondi vós – em que tanto bem
há quanto nunca doutra don'oí.
Mais valha-me contra vós, por Deus, i
vossa mesura e quam gram pavor
eu hei de vós, que sode'la melhor
dona de quantas eno mundo vi;
e se mi aquesto contra vós nom val,
senhor fremosa, nom sei hoj'eu al
com que vos eu ouse rogar por mi.
Maila mesura que tanto valer,
senhor, sol sempr'a quen'a Deus quer dar,
me valha contra vós, e o pesar
que hei, senhor, de quanto fui dizer;
ca, mia senhor, quem mui gram coita tem
no coraçom faz-lhe dizer tal rem
a que nom sabe pois conselh'haver.
Com'hoj'eu faço e muit'estou mal,
ca, se mi assi vossa mesura fal,
nom há i al, senhor, senom morrer!
638
Nuno Fernandes Torneol
Aqui Vej'eu, Filha, o Voss'amigo
Aqui vej'eu, filha, o voss'amigo,
o por que vós baralhades migo,
delgada.
Aqui vejo, filha, o que amades,
o por que vós migo baralhades,
delgada.
[O] por que vós baralhades migo;
quero-lh'eu bem, pois é voss'amigo,
delgada.
O por que vós migo baralhades;
quero-lh'eu bem, poilo vós amades,
delgada
o por que vós baralhades migo,
delgada.
Aqui vejo, filha, o que amades,
o por que vós migo baralhades,
delgada.
[O] por que vós baralhades migo;
quero-lh'eu bem, pois é voss'amigo,
delgada.
O por que vós migo baralhades;
quero-lh'eu bem, poilo vós amades,
delgada
753
Pero da Ponte
Por Deus, Amig', E Que Será de Mi
Por Deus, amig', e que será de mi,
pois me vós ides com el-rei morar?
A como me vós soedes tardar,
outro conselh', amigo, nom sei i
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Ides-vos vós ora e tam grand'afã
leixades mi com o meu coraçom
que mi nom jaz i al, se morte nom,
ca bom conselho nom sei i de pram,
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Pois me vos ides, vedes que será,
meu amigo, des que vos eu nom vir:
os meus olhos nom poderám dormir,
nem bem deste mundo nom mi valrá
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Aquesta ida tam sem meu prazer,
por Deus, amigo, será quando for,
mais, pois vos ides, amig'e senhor,
nom vos poss'eu outra guerra fazer
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
pois me vós ides com el-rei morar?
A como me vós soedes tardar,
outro conselh', amigo, nom sei i
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Ides-vos vós ora e tam grand'afã
leixades mi com o meu coraçom
que mi nom jaz i al, se morte nom,
ca bom conselho nom sei i de pram,
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Pois me vos ides, vedes que será,
meu amigo, des que vos eu nom vir:
os meus olhos nom poderám dormir,
nem bem deste mundo nom mi valrá
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Aquesta ida tam sem meu prazer,
por Deus, amigo, será quando for,
mais, pois vos ides, amig'e senhor,
nom vos poss'eu outra guerra fazer
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
714
Fernão Garcia Esgaravunha
Quem Vos Foi Dizer, Mia Senhor
Quem vos foi dizer, mia senhor,
que eu desejava mais al
ca vós, mentiu-[vos]. Se nom, mal
me venha de vós e de Deus!
E se nom, nunca estes meus
olhos vejam nẽum prazer
de quant'al desejam veer!
E veja eu de vós, senhor,
e de quant'al amo, pesar,
se nunca no vosso logar
tive rem no meu coraçom;
atanto Deus nom me perdom
nem me dê nunca de vós bem,
que desej'eu mais doutra rem!
E per bõa fé, mia senhor,
amei-vos muito mais ca mi,
e se o nom fezesse assi,
de dur verri'aqui mentir
a vós, nem m'iria partir
d'u eu amasse outra molher
mais ca vós; mais pois que Deus quer
que eu a vós queira melhor,
valha m'El contra vós, senhor,
ca muito me per é mester!
que eu desejava mais al
ca vós, mentiu-[vos]. Se nom, mal
me venha de vós e de Deus!
E se nom, nunca estes meus
olhos vejam nẽum prazer
de quant'al desejam veer!
E veja eu de vós, senhor,
e de quant'al amo, pesar,
se nunca no vosso logar
tive rem no meu coraçom;
atanto Deus nom me perdom
nem me dê nunca de vós bem,
que desej'eu mais doutra rem!
E per bõa fé, mia senhor,
amei-vos muito mais ca mi,
e se o nom fezesse assi,
de dur verri'aqui mentir
a vós, nem m'iria partir
d'u eu amasse outra molher
mais ca vós; mais pois que Deus quer
que eu a vós queira melhor,
valha m'El contra vós, senhor,
ca muito me per é mester!
695
Nuno Fernandes Torneol
Quando Mi Agora For E Mi Alongar
Quando mi agora for e mi alongar
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
900
Pero da Ponte
Mia Madre, Pois Se Foi Daqui
Mia madre, pois se foi daqui
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
519
Fernão Garcia Esgaravunha
Meu Senhor Deus, Venho-Vos Eu Rogar
Meu Senhor Deus, venho-vos eu rogar
com a maior coita que nunca vi
haver a home: havede de mi
doo, Senhor, e nunca tal pesar
me façades, meu Senhor Deus, veer
per que eu haja o corp'a perder!
Ca estou eu hoj'a mui gram pavor
de o veer, e meu sem est atal
de vos rogar por est'e nom por al:
que nunca tal pesar de mia senhor
me façades, meu Senhor Deus, veer
per que eu haja o corp'a perder!
E bem sei eu, de pram, ca se fezer
mia senhor o que tem no coraçom,
ca perderei eu o corpo; mais nom
tam gram pesar nunca, se vos prouguer,
me façades, meu Senhor Deus, veer
per que eu haja o corp'a perder!
com a maior coita que nunca vi
haver a home: havede de mi
doo, Senhor, e nunca tal pesar
me façades, meu Senhor Deus, veer
per que eu haja o corp'a perder!
Ca estou eu hoj'a mui gram pavor
de o veer, e meu sem est atal
de vos rogar por est'e nom por al:
que nunca tal pesar de mia senhor
me façades, meu Senhor Deus, veer
per que eu haja o corp'a perder!
E bem sei eu, de pram, ca se fezer
mia senhor o que tem no coraçom,
ca perderei eu o corpo; mais nom
tam gram pesar nunca, se vos prouguer,
me façades, meu Senhor Deus, veer
per que eu haja o corp'a perder!
426
Nuno Fernandes Torneol
Ai Madr', o Meu Amigo Que Nom Vi
Ai madr', o meu amigo que nom vi
há gram sazom, dizem-mi que é 'qui,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
E sempr'eu punhei de lhi mal fazer,
mais, pois ora vẽo por me veer,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
Por quanta coita el por mi levou
nom lhi poss'al fazer, mais, pois chegou,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
há gram sazom, dizem-mi que é 'qui,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
E sempr'eu punhei de lhi mal fazer,
mais, pois ora vẽo por me veer,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
Por quanta coita el por mi levou
nom lhi poss'al fazer, mais, pois chegou,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
622
Nuno Fernandes Torneol
Que Prol Vos Há 'Vós, Mia Senhor
Que prol vos há 'vós, mia senhor,
de me tam muito mal fazer,
pois eu nom sei al bem querer
no mundo, nem hei d'al sabor?
Dizede-me, que prol vos há?
E que prol vos há de fazer
tam muito mal a quem voss'é?
Nom vos há prol, per bõa fé!
E mia senhor, se eu morrer,
dizede-me, que prol vos há?
[E] que prol vos há d'eu estar
sempre por vós em grand'afã?
(e éste mui grande, de pram).
E pois mi o voss'amor matar,
dizede-me, que prol vos há?
E vós, lume dos olhos meus,
oir-vos-edes maldizer
por mim, se eu por vós morrer.
E senhor, por amor de Deus,
dizede-me, que prol vos há?
de me tam muito mal fazer,
pois eu nom sei al bem querer
no mundo, nem hei d'al sabor?
Dizede-me, que prol vos há?
E que prol vos há de fazer
tam muito mal a quem voss'é?
Nom vos há prol, per bõa fé!
E mia senhor, se eu morrer,
dizede-me, que prol vos há?
[E] que prol vos há d'eu estar
sempre por vós em grand'afã?
(e éste mui grande, de pram).
E pois mi o voss'amor matar,
dizede-me, que prol vos há?
E vós, lume dos olhos meus,
oir-vos-edes maldizer
por mim, se eu por vós morrer.
E senhor, por amor de Deus,
dizede-me, que prol vos há?
697
Fernão Garcia Esgaravunha
Que Grave Cousa, Senhor, D'endurar
Que grave cousa, senhor, d'endurar
pera quem há sabor de vos veer:
per nulha rem de nom haver poder,
senom mui pouco, de vosco morar!
E esso pouco que vosc'estever,
entender bem, senhor, se vos disser
algũa rem, ca vos dirá pesar.
A mim avém a que quis Deus guisar
d'haver gram coita já mentr'eu viver,
pois a vós pesa de vos eu dizer
qual bem vos quero; mais a Deus rogar
quer'eu assi, ca assi m'é mester:
que El me dê mia mort', e se nom der,
tal coraçom a vós d'en nom pesar.
E mia senhor, por Deus que vos falar
fez mui melhor e melhor parecer
de quantas outras donas quis fazer,
por tod'aqueste bem que vos foi dar,
vos rog'hoj'eu por El que, pois El quer
que vos eu ame mais doutra molher,
que vos nom caia, senhor, em pesar!
pera quem há sabor de vos veer:
per nulha rem de nom haver poder,
senom mui pouco, de vosco morar!
E esso pouco que vosc'estever,
entender bem, senhor, se vos disser
algũa rem, ca vos dirá pesar.
A mim avém a que quis Deus guisar
d'haver gram coita já mentr'eu viver,
pois a vós pesa de vos eu dizer
qual bem vos quero; mais a Deus rogar
quer'eu assi, ca assi m'é mester:
que El me dê mia mort', e se nom der,
tal coraçom a vós d'en nom pesar.
E mia senhor, por Deus que vos falar
fez mui melhor e melhor parecer
de quantas outras donas quis fazer,
por tod'aqueste bem que vos foi dar,
vos rog'hoj'eu por El que, pois El quer
que vos eu ame mais doutra molher,
que vos nom caia, senhor, em pesar!
684
Fernão Garcia Esgaravunha
Quand'eu Mia Senhor Conhoci
Quand'eu mia senhor conhoci
e vi o seu bom parecer
e o gram bem que lhi Deus dar
quis, por meu mal, log'entendi
que por ela ensandecer
me veeriam e levar
grandes coitas e padecer.
Pero que eu soub'entender,
quando os seus olhos catei,
que por ela, e nom por al,
me veeriam morte prender,
por que me log'i nom quitei
d'u a nom visse? É que o mal,
que hoj'eu sofro, receei
muit'e temi; mais eu cuidei,
com mui mal sem que houv'entom,
que podess'eu sofrer mui bem
as grandes coitas que levei
por ela eno coraçom;
e provei-o, e pois, quand'en
me quis partir, nom foi sazom
de m'en partir; ca em outra rem
nom pud'eu cuidar des entom!
e vi o seu bom parecer
e o gram bem que lhi Deus dar
quis, por meu mal, log'entendi
que por ela ensandecer
me veeriam e levar
grandes coitas e padecer.
Pero que eu soub'entender,
quando os seus olhos catei,
que por ela, e nom por al,
me veeriam morte prender,
por que me log'i nom quitei
d'u a nom visse? É que o mal,
que hoj'eu sofro, receei
muit'e temi; mais eu cuidei,
com mui mal sem que houv'entom,
que podess'eu sofrer mui bem
as grandes coitas que levei
por ela eno coraçom;
e provei-o, e pois, quand'en
me quis partir, nom foi sazom
de m'en partir; ca em outra rem
nom pud'eu cuidar des entom!
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