Poemas neste tema
Propósito e Sentido da Vida
António Ramos Rosa
86. Desobstruindo o Espaço Só Esta Mancha
86
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.
Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?
Dando lugar ao espaço à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.
Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?
Dando lugar ao espaço à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
872
António Ramos Rosa
68. Descontínuas, Desfechadas Linhas
68
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
1 093
António Ramos Rosa
11. o Desenlace a Marca o Timbre
11
O desenlace a marca o timbre
razão de escrever viver morrer
na ideia exemplar do jamais aqui.
Mas será aqui o cacho apaixonante
da uva desses olhos de um frio branco
o rosto da irmã amante de altas pernas.
Será no pó sem a estrutura e na estrutura
do território agreste o rosto brusco
gritando o rosto aqui ou o rastro dele.
O desenlace a marca o timbre
razão de escrever viver morrer
na ideia exemplar do jamais aqui.
Mas será aqui o cacho apaixonante
da uva desses olhos de um frio branco
o rosto da irmã amante de altas pernas.
Será no pó sem a estrutura e na estrutura
do território agreste o rosto brusco
gritando o rosto aqui ou o rastro dele.
538
António Ramos Rosa
21. Não Ao Espelho Em Que Ela Se Retira
21
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
1 091
António Ramos Rosa
Se Avançar Num Caminho…
Se avançar num caminho na cegueira, com os próprios sinais do opaco no extremo, um quase e um nunca mais, entre o rumor e o silêncio, e a palavra, a incerta testemunha que oscila na aridez da busca, na deserta sede da interrogação.
1 069
António Ramos Rosa
Caminho Sem Saída…
Caminho sem saída porque é a incessante saída e a perda, o inesperado intervalo que se abre a outro intervalo que se abre, a sucessiva vida simultânea de uma parede de água, página respirada pela boca na árvore ou na mão da terra.
1 232
António Ramos Rosa
Acende-Se o Desejo E É Tão Precária a Voz!
Acende-se o desejo e é tão precária a voz!
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
532
António Ramos Rosa
Se Fosse o Espaço Ou o Corpo
Se fosse o espaço ou o corpo
se fosse a porta sobre a terra escura
E o livro assim começa: quantas pedras
se lêem nele e são a sombra só
de umas palavras
Se fosse a terra se fosse a espera
de uma folha
flutuando sobre a água (nesse livro)
se fosse a imagem (a dança e a mulher)
se fosse o caminho pobre e a folhagem
(No livro tudo se perde entre a ausência
e o ardor Que sombra o atravessa
que terra indemonstrável?)
Se fosse o pulso se fosse a casa aberta
(no livro só as feridas
do corpo sem o corpo e sem as margens)
se fosse o combate da presença viva
se fosse o lugar
verdadeiro
(No livro só as partes dilaceradas negras
a interminável repetição
sobre o deserto)
se fosse a porta sobre a terra escura
E o livro assim começa: quantas pedras
se lêem nele e são a sombra só
de umas palavras
Se fosse a terra se fosse a espera
de uma folha
flutuando sobre a água (nesse livro)
se fosse a imagem (a dança e a mulher)
se fosse o caminho pobre e a folhagem
(No livro tudo se perde entre a ausência
e o ardor Que sombra o atravessa
que terra indemonstrável?)
Se fosse o pulso se fosse a casa aberta
(no livro só as feridas
do corpo sem o corpo e sem as margens)
se fosse o combate da presença viva
se fosse o lugar
verdadeiro
(No livro só as partes dilaceradas negras
a interminável repetição
sobre o deserto)
540
António Ramos Rosa
3. Para o Incêndio da Festa
Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue
O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar
Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue
Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa
Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia
Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa
Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa
E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa
Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza
Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?
Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste
Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa
Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue
O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar
Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue
Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa
Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia
Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa
Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa
E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa
Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza
Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?
Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste
Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa
Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
1 243
António Ramos Rosa
A Mão Ainda Resiste
à Maria Inês
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro
Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo
Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio ou talvez um ininteligível
grito?
O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal Tropeço
em membros de palavras um jogo
quase de acaso e pura perda
Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase um negro violento
um ruído branco áspero surdo
As árvores são de sombra Não cantam pássaros
nas sombras
As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta
A mão escreve sangue e o sangue é branco
ou negro e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio
Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes
Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre
Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos
mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse
A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma
Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro
Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo
Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio ou talvez um ininteligível
grito?
O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal Tropeço
em membros de palavras um jogo
quase de acaso e pura perda
Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase um negro violento
um ruído branco áspero surdo
As árvores são de sombra Não cantam pássaros
nas sombras
As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta
A mão escreve sangue e o sangue é branco
ou negro e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio
Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes
Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre
Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos
mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse
A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma
Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
996
António Ramos Rosa
Se Entrego Ao Campo a Erva.
Se entrego ao campo a erva
de um sol de cinza,
se apago com meu hálito todo o brilho,
se sou esta apagada lâmpada, esta fúria parada,
se escrevo estas palavras é porque sei que não sei.
Se quero ser, terei de te ouvir no silêncio,
no teu repouso inteiro, na penumbra do quarto.
Se vivo, é só por ti, por ti,
que fazes com que olhe e caminhe em frente,
para esse lugar, o nosso, o de todos, o de alguém.
de um sol de cinza,
se apago com meu hálito todo o brilho,
se sou esta apagada lâmpada, esta fúria parada,
se escrevo estas palavras é porque sei que não sei.
Se quero ser, terei de te ouvir no silêncio,
no teu repouso inteiro, na penumbra do quarto.
Se vivo, é só por ti, por ti,
que fazes com que olhe e caminhe em frente,
para esse lugar, o nosso, o de todos, o de alguém.
977
António Ramos Rosa
Onde Não Treme a Sombra
Onde não treme a sombra
e a cabeça treme com a brecha
e nenhum horizonte e sem a mão
que cega cor se acende algum
amor ou raiva algum alento algum
alguém?
Onde o espaço se desfaz delidamente
onde o osso não resiste
onde a pedra é sonâmbula
onde não se ouve já senão
um rumor duro espesso e duro
como um silêncio iminente
um silêncio não ainda não
e ainda se vive de um ainda não
e a cabeça treme com a brecha
e nenhum horizonte e sem a mão
que cega cor se acende algum
amor ou raiva algum alento algum
alguém?
Onde o espaço se desfaz delidamente
onde o osso não resiste
onde a pedra é sonâmbula
onde não se ouve já senão
um rumor duro espesso e duro
como um silêncio iminente
um silêncio não ainda não
e ainda se vive de um ainda não
1 042
António Ramos Rosa
Um Sulco a Apagar-Se
Um sulco a apagar-se
lâmina ou ferida ao sol
o vento devagar
e a mão que lê o espaço
E porque não um sim
o sim de todo o espaço
numa cabeça vã
de uma formiga fácil
Nada mais do que sim
onde um porquê se extingue
e num talvez acorde
daqui a pouco — ou não.
lâmina ou ferida ao sol
o vento devagar
e a mão que lê o espaço
E porque não um sim
o sim de todo o espaço
numa cabeça vã
de uma formiga fácil
Nada mais do que sim
onde um porquê se extingue
e num talvez acorde
daqui a pouco — ou não.
968
António Ramos Rosa
Caminhar Habitar
Se não tenho a força
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
1 028
António Ramos Rosa
O Nascimento do Poema
O poema que surge
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa
É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua
Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas
Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira
E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva
Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu
Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada
exacta e verde e viva
Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas
Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu
como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou
só onde ele se ergue
Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é
nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva
essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas
onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria
Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem
Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo
e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova
de ser tão ser em si
a verde folha viva
que tu vês e respiras
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa
É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua
Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas
Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira
E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva
Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu
Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada
exacta e verde e viva
Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas
Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu
como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou
só onde ele se ergue
Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é
nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva
essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas
onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria
Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem
Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo
e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova
de ser tão ser em si
a verde folha viva
que tu vês e respiras
1 150
António Ramos Rosa
Um Caminho de Palavras
Sem dizer o fogo — vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso — duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.
*
Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.
*
Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim
*
E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe
*
Mas a noite existe
e a palavra sabe-o
*
Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.
*
Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim
*
E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe
*
Mas a noite existe
e a palavra sabe-o
1 235
António Ramos Rosa
Fuga Ou Retorno
Fuga ou retorno — tudo pode ser.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
639
António Ramos Rosa
Um Outro Sol, Um Outro Pão
Em vão acumulo. Em vão se acumula.
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.
Árvore! gritaste.
Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.
Árvore! gritaste.
Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?
764
António Ramos Rosa
No Coração da Neve
No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
1 128
António Ramos Rosa
Foi No Horror Que Acordei
Foi no horror que acordei
e o meu rosto de lava
perguntava porquê.
Consumido no ventre,
cheio de sangue esquecido,
perguntava porquê.
Ninguém ouvia o grito
nesta cara de terra.
Um bicho silencioso,
o meu nome e uma pedra.
E eu queria a harmonia.
O sol no centro. E a lágrima
era dura e morria.
E a terra me levava
para dentro da terra.
No silêncio da terra
uma árvore respirava.
Eu quero regressar
à essencial frescura.
Eu quero renascer
na morte completa.
Eis-me um homem
de horror, silêncio, sol.
Eis um homem de cal.
Ninguém me queira ver
na minha câmara clara.
(Aí sou negro e puro.)
Com as portas abertas
eu sou o mar que entra.
Mas sem esquecer o sangue,
eu escuto e sei e espero.
e o meu rosto de lava
perguntava porquê.
Consumido no ventre,
cheio de sangue esquecido,
perguntava porquê.
Ninguém ouvia o grito
nesta cara de terra.
Um bicho silencioso,
o meu nome e uma pedra.
E eu queria a harmonia.
O sol no centro. E a lágrima
era dura e morria.
E a terra me levava
para dentro da terra.
No silêncio da terra
uma árvore respirava.
Eu quero regressar
à essencial frescura.
Eu quero renascer
na morte completa.
Eis-me um homem
de horror, silêncio, sol.
Eis um homem de cal.
Ninguém me queira ver
na minha câmara clara.
(Aí sou negro e puro.)
Com as portas abertas
eu sou o mar que entra.
Mas sem esquecer o sangue,
eu escuto e sei e espero.
1 189
Louise Glück
Mãe e filho
Somos todos sonhadores; não sabemos quem somos.
Alguma máquina nos criou; a máquina do mundo, a constritiva família.
Então, de volta ao mundo, polidos por suaves chicotes.
Sonhamos; não lembramos.
A máquina da família: pelagem negra,
florestas do corpo materno.
A máquina da mãe: a cidade branca
dentro dela.
E antes disso: terra e água.
Musgo entre as pedras, pedaços de folha e grama.
E antes, células numa imensa escuridão.
E antes disso, o mundo velado.
É por isto que você nasceu: para me calar.
Células de minha mãe e de que pai, é a sua vez
de ser fundamental, de se tornar uma obra-prima.
Eu improvisei; eu nunca me lembro de nada.
Agora é sua vez de se deixar guiar;
é você quem exige saber:
Por que eu sofro? Por que sou ignorante?
Células numa imensa escuridão. Alguma máquina nos criou;
é sua vez de se dirigir a ela, de ficar perguntando
qual é meu propósito? Qual é meu propósito?
Alguma máquina nos criou; a máquina do mundo, a constritiva família.
Então, de volta ao mundo, polidos por suaves chicotes.
Sonhamos; não lembramos.
A máquina da família: pelagem negra,
florestas do corpo materno.
A máquina da mãe: a cidade branca
dentro dela.
E antes disso: terra e água.
Musgo entre as pedras, pedaços de folha e grama.
E antes, células numa imensa escuridão.
E antes disso, o mundo velado.
É por isto que você nasceu: para me calar.
Células de minha mãe e de que pai, é a sua vez
de ser fundamental, de se tornar uma obra-prima.
Eu improvisei; eu nunca me lembro de nada.
Agora é sua vez de se deixar guiar;
é você quem exige saber:
Por que eu sofro? Por que sou ignorante?
Células numa imensa escuridão. Alguma máquina nos criou;
é sua vez de se dirigir a ela, de ficar perguntando
qual é meu propósito? Qual é meu propósito?
927
Edmir Domingues
Sextina da rosa do amor e da morte
De que uma rosa é uma rosa
é uma rosa, até quando
lhe seja dado viver,
disse poeta. É a vida
que ao cabelo prende o pente
até que Destino a mata.
Quem sabe a tocaia, a mata,
a bala ferindo a rosa,
com outras balas no pente?
Da assassina à espreita quando
tudo eram flores na vida
e um puro sabor viver.
Mas vale a pena viver?
Não é a vida o que mata?
A morte é o fruto da vida
que floresce como rosa
e em versos se torna quando
sabe à lã cardada ao pente.
No campo marinho o pente,
concha bivalve, a viver
no meio das algas, quando
pescador o apresa e mata,
para alimento, que é rosa
que sustenta e enfeita a vida.
O artesão que ganha a vida
tece em seu tear, no pente,
a teia. Motivo: rosa.
Que se destina a viver
matando o tédio que mata,
não se sabe aonde, quando.
Rosas serão pedras, quando
em carga tornar-se a vida.
O desespero que mata
retira ao cabelo o pente,
que é desalento o viver
num país que não tem rosa.
No entanto viver é a Vida
na escura rosa do pente
ainda quando ou fere ou mata.
1995.
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é uma rosa, até quando
lhe seja dado viver,
disse poeta. É a vida
que ao cabelo prende o pente
até que Destino a mata.
Quem sabe a tocaia, a mata,
a bala ferindo a rosa,
com outras balas no pente?
Da assassina à espreita quando
tudo eram flores na vida
e um puro sabor viver.
Mas vale a pena viver?
Não é a vida o que mata?
A morte é o fruto da vida
que floresce como rosa
e em versos se torna quando
sabe à lã cardada ao pente.
No campo marinho o pente,
concha bivalve, a viver
no meio das algas, quando
pescador o apresa e mata,
para alimento, que é rosa
que sustenta e enfeita a vida.
O artesão que ganha a vida
tece em seu tear, no pente,
a teia. Motivo: rosa.
Que se destina a viver
matando o tédio que mata,
não se sabe aonde, quando.
Rosas serão pedras, quando
em carga tornar-se a vida.
O desespero que mata
retira ao cabelo o pente,
que é desalento o viver
num país que não tem rosa.
No entanto viver é a Vida
na escura rosa do pente
ainda quando ou fere ou mata.
1995.
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636
Edmir Domingues
Schoteinós
(em grego: obscuro)
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
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