Poemas neste tema
Angústia
Estrigas
Nossa Grande Civilização
As folhas das bananeiras movem-se
ao ritmo da ventania
um louco passa jogando pedra
na compulsão da sua fantasia.
O mundo é um imenso manicômio
loucos violentos que agridem, matam, torturam
loucos poderosos que dominam os outros
na ilusão dos seus interesses
na manutenção dos seus poderes
loucos inteligentes
que mandam os outros ao espaço
que tiram e salvam vidas
que divertem e instruem
loucos que matam e dão vida
loucos que destroem e constroem
a si e ao meio
O mundo é uma grande múltipla e diversificada loucura
há pessoas loucamente apaixonadas por ele
há pessoas loucamente revoltadas contra ele
há os que se apegam a ele
há os loucamente mansos e pacíficos
que buscam uma solução
porque suas loucuras
já não suportam mais tanta loucura
e são estes
a única luz no fim do túnel
sujeita ao ritmo da ventania
como as folhas da bananeira
ao ritmo da ventania
um louco passa jogando pedra
na compulsão da sua fantasia.
O mundo é um imenso manicômio
loucos violentos que agridem, matam, torturam
loucos poderosos que dominam os outros
na ilusão dos seus interesses
na manutenção dos seus poderes
loucos inteligentes
que mandam os outros ao espaço
que tiram e salvam vidas
que divertem e instruem
loucos que matam e dão vida
loucos que destroem e constroem
a si e ao meio
O mundo é uma grande múltipla e diversificada loucura
há pessoas loucamente apaixonadas por ele
há pessoas loucamente revoltadas contra ele
há os que se apegam a ele
há os loucamente mansos e pacíficos
que buscam uma solução
porque suas loucuras
já não suportam mais tanta loucura
e são estes
a única luz no fim do túnel
sujeita ao ritmo da ventania
como as folhas da bananeira
796
Fábio Afonso de Almeida
Minutos
Espaços Vivenciados amesquinham
Em torno de sólidos egocentrismos
E excrecências pontiagudas de realidade
Desnudam-se ante o revoluteio incessante
Da possibilidade dos atos e fatos,
Mesmo que as circunstâncias pareçam sempre
Uma concreta e coerente parede.
Oh! Minha alma rude e insensata
Sangra-se ante a dureza branca e Iógica
Do limite incontestável deste muro!
Embora sinta a liquidez mágica
E probabilística destes interiores,
Pensa como pode e bate inutilmente
No fatalismo justo das perspectivas,
Enrolando, passo a passo, os minutos
De um tempo próprio e sem tempo.
Em torno de sólidos egocentrismos
E excrecências pontiagudas de realidade
Desnudam-se ante o revoluteio incessante
Da possibilidade dos atos e fatos,
Mesmo que as circunstâncias pareçam sempre
Uma concreta e coerente parede.
Oh! Minha alma rude e insensata
Sangra-se ante a dureza branca e Iógica
Do limite incontestável deste muro!
Embora sinta a liquidez mágica
E probabilística destes interiores,
Pensa como pode e bate inutilmente
No fatalismo justo das perspectivas,
Enrolando, passo a passo, os minutos
De um tempo próprio e sem tempo.
924
Fabrício Augusto Souza Gomes
Parte Da Minha Vida(ou Olhos da Noite)
PARTE DA MINHA VIDA
Passa com o tempo
que me reduz
a um só verso . . .
a uma só rima.
A grande aventura da vida
reside no fato
de deixá-la fluir
naturalmente.
São poetas atraídos
pela singela arte
de escrever
coisas da vida,
do passado,
do presente,
do futuro . . .
coisas do coração.
Apesar de tudo,
não tem explicação.
É complicado traduzir
meus leitores . . .
Agora,
tento escrever
parte da minha vida
Mas não é fácil!
A inspiração quer "rabiscar"
minha percepção!
Erro!
Fracasso!
Se não tento,
não experimento o sucesso!
Desconheço a decepção!
Enfim,
minha angústia
é o elo
que me motiva a escrever . . .
Escrever
esperando que alguém
num mundo distante
ainda se emocione
ao me ler
Para ti, leitor,
Torno-me seu cúmplice.
Aquele misterioso amigo,
que não tem rosto,
nem voz,
tampouco corpo!
Sou um pensamento abstrato
que você cria
pura imaginação!
Não tem jeito!
Não consigo falar
o que penso.
As palavras morrem
e meus lábios,
enquanto minha mente viaja
querendo dizer algo
às pessoas que ainda
se interessem em ler . . .
Mas tudo é questão de tempo!
O tempo que seduz o poeta . . .
. . . é o mesmo que dá o ponto ( final?)
a seus sonhos e inspirações.
Sou vítima de uma relação
extremamante intimista
com você,
que me lê agora.
Quero estar com você
o tempo todo.
Com você,
posso dizer tudo que sou,
tudo que penso,
tudo que acredito!
Posso falar das estrelas!
Do belo e triste brilho delas.
Posso falar do som do mar (que se ouve nas conchas!)
Posso falar de poesia . . .
Posso falar do meu coração
Certa vez,
escrevia sobre o dia
em plena escuridão da noite.
Tornei-me cada vez mais confuso . . .
pois a noite estava adormecida
no fundo de um rio
e não conseguia enxergá-lo!
O rio que guardava a noite
era rebelde, agressivo, inesperado.
Mas sincero.
Ele nasceu em mim
e morreu nos meus olhos.
Era a lágrima
que inundava
de tristeza e alegria
PARTE DA MINHA VIDA.
Passa com o tempo
que me reduz
a um só verso . . .
a uma só rima.
A grande aventura da vida
reside no fato
de deixá-la fluir
naturalmente.
São poetas atraídos
pela singela arte
de escrever
coisas da vida,
do passado,
do presente,
do futuro . . .
coisas do coração.
Apesar de tudo,
não tem explicação.
É complicado traduzir
meus leitores . . .
Agora,
tento escrever
parte da minha vida
Mas não é fácil!
A inspiração quer "rabiscar"
minha percepção!
Erro!
Fracasso!
Se não tento,
não experimento o sucesso!
Desconheço a decepção!
Enfim,
minha angústia
é o elo
que me motiva a escrever . . .
Escrever
esperando que alguém
num mundo distante
ainda se emocione
ao me ler
Para ti, leitor,
Torno-me seu cúmplice.
Aquele misterioso amigo,
que não tem rosto,
nem voz,
tampouco corpo!
Sou um pensamento abstrato
que você cria
pura imaginação!
Não tem jeito!
Não consigo falar
o que penso.
As palavras morrem
e meus lábios,
enquanto minha mente viaja
querendo dizer algo
às pessoas que ainda
se interessem em ler . . .
Mas tudo é questão de tempo!
O tempo que seduz o poeta . . .
. . . é o mesmo que dá o ponto ( final?)
a seus sonhos e inspirações.
Sou vítima de uma relação
extremamante intimista
com você,
que me lê agora.
Quero estar com você
o tempo todo.
Com você,
posso dizer tudo que sou,
tudo que penso,
tudo que acredito!
Posso falar das estrelas!
Do belo e triste brilho delas.
Posso falar do som do mar (que se ouve nas conchas!)
Posso falar de poesia . . .
Posso falar do meu coração
Certa vez,
escrevia sobre o dia
em plena escuridão da noite.
Tornei-me cada vez mais confuso . . .
pois a noite estava adormecida
no fundo de um rio
e não conseguia enxergá-lo!
O rio que guardava a noite
era rebelde, agressivo, inesperado.
Mas sincero.
Ele nasceu em mim
e morreu nos meus olhos.
Era a lágrima
que inundava
de tristeza e alegria
PARTE DA MINHA VIDA.
957
Fábio Afonso de Almeida
Noite
Que noite, minha cara!
Nas horas mais cruas
Infinitos desejos se escondem
Nas dobras quentes de meu leito
E queimam como brasas.
Desejo-conflito, próximo e contido
Poreja a pele de suor frio
E a garganta dói, num espasmo
Quer ceder e não cede.
Segura com força esta noite
Aperta nas mãos esta dor.
Mas não vai, não vai...
Ouço tua respiração
Rítmica, serena e falsa.
Um vazio enorme derrama
No quarto, nas paredes
Mas, não vai, não vai...
Que noite solitária essa
O mundo é sem volta
A vontade não importa
Não posso ir, eu já sei
Não existe mais nada além:
São cacos que machucam
E ferem no abraço angustiante
Dos braços apertados no próprio peito!
Nas horas mais cruas
Infinitos desejos se escondem
Nas dobras quentes de meu leito
E queimam como brasas.
Desejo-conflito, próximo e contido
Poreja a pele de suor frio
E a garganta dói, num espasmo
Quer ceder e não cede.
Segura com força esta noite
Aperta nas mãos esta dor.
Mas não vai, não vai...
Ouço tua respiração
Rítmica, serena e falsa.
Um vazio enorme derrama
No quarto, nas paredes
Mas, não vai, não vai...
Que noite solitária essa
O mundo é sem volta
A vontade não importa
Não posso ir, eu já sei
Não existe mais nada além:
São cacos que machucam
E ferem no abraço angustiante
Dos braços apertados no próprio peito!
737
Eliane Minervina de Castro
O poeta Sotero
R. B. SOTERO é um poeta que segue uma linha regional, com traços de um existencialismo abstrato refletido em seus versos. Poderia comparar algumas de suas estrofes mais com o pensamento de Nietzche do que com o de Paul Sartre, pois existe um pessimismo aparente em seus poemas, um sentimento de angústia e desilusão que são envolvidos por metáforas, hipérboles e outras figuras.
Outra característica fundamental é que seus poemas são carregados de um arcaísmo lírico, herança talvez de algum poeta português que lhe tenha influenciado em algum momento de sua vida. Parece-me que se prende a estes detalhes de aspecto lusitano como vimos em Machado de Assis, o que o torna contraditório no que se refere ao seu caráter regionalista; mescla estas nuances produzindo um texto próprio, particular, de grande representação de seus sentimentos e emoções.
Considero-o um poeta emergente com uma grande tendência aos herméticos; alguns traços de erotismo mesclam-se com uma profunda carga místico-religiosa e depressiva.
Outra característica fundamental é que seus poemas são carregados de um arcaísmo lírico, herança talvez de algum poeta português que lhe tenha influenciado em algum momento de sua vida. Parece-me que se prende a estes detalhes de aspecto lusitano como vimos em Machado de Assis, o que o torna contraditório no que se refere ao seu caráter regionalista; mescla estas nuances produzindo um texto próprio, particular, de grande representação de seus sentimentos e emoções.
Considero-o um poeta emergente com uma grande tendência aos herméticos; alguns traços de erotismo mesclam-se com uma profunda carga místico-religiosa e depressiva.
922
Elisabeth Veiga
A Tinta Seca
Escrevo e a tinta seca,
seca, exacerbada rasga o papel.
Continuo escrevendo embora,
nem eu mesma leia.
Premindo, a caneta
rasga o que já está rasgado.
Continuo escrevendo sem uma palavra,
escrevendo, escrevendo à sombra
da minha mão sobre o papel.
O branco, afinal, me rasga.
seca, exacerbada rasga o papel.
Continuo escrevendo embora,
nem eu mesma leia.
Premindo, a caneta
rasga o que já está rasgado.
Continuo escrevendo sem uma palavra,
escrevendo, escrevendo à sombra
da minha mão sobre o papel.
O branco, afinal, me rasga.
958
Fábio Afonso de Almeida
Édrio
Uma sombra entra no bar
Cabelos escorridos, terno barato
Olhos empapuçados e perdidos
Måos que escondem vil tremor
Dentes trincados de medo
E o gesto disfarçado, casual.
O gole. E o corpo arrepia-se numa gastura
Treme da cabeça aos pés. Os olhos inchados voltam para fora
Os olhos piscam ante o sol forte da rua
Em frente ås torres brancas
Da catedral...
Cidade maldita!
Duas torres e um rosto macilento, eu vejo
O jardim sujo em frente, os ônibus, a multidåo
Ah! A química branca e frenética!
Maldita! Maldita!
Escadas de mármore dançando ao sol
Tempo bêbado, ângulos estranhos
Cadedrais tortas da vida.
O solítário sorri dois dentes apenas
Monumental ironia. Escarnece do mundo
E a escadaria se contorce, subindo...
Alguém entende? A catedral tonta
Da cidade maldita. Os insetos da rua
Correm em fuga incerta.
A dor de Deus bebe o mundo.
Cabelos escorridos, terno barato
Olhos empapuçados e perdidos
Måos que escondem vil tremor
Dentes trincados de medo
E o gesto disfarçado, casual.
O gole. E o corpo arrepia-se numa gastura
Treme da cabeça aos pés. Os olhos inchados voltam para fora
Os olhos piscam ante o sol forte da rua
Em frente ås torres brancas
Da catedral...
Cidade maldita!
Duas torres e um rosto macilento, eu vejo
O jardim sujo em frente, os ônibus, a multidåo
Ah! A química branca e frenética!
Maldita! Maldita!
Escadas de mármore dançando ao sol
Tempo bêbado, ângulos estranhos
Cadedrais tortas da vida.
O solítário sorri dois dentes apenas
Monumental ironia. Escarnece do mundo
E a escadaria se contorce, subindo...
Alguém entende? A catedral tonta
Da cidade maldita. Os insetos da rua
Correm em fuga incerta.
A dor de Deus bebe o mundo.
934
Manoel Elias Filho
Restos
Do amor intensoNa calada da noiteDo fogo do sexoSobraram restosVestígios, marcas.Do encontroSobrou a fuga.Da sociedadeRestou a insegurançaDo ser humanoRestou pedaçosTrapos de um serDivisão, confusão.Que da verdadeRestou a mentira.Que da razãoRestou a loucura.E da realidadeRestou a fantasiaPedaços de mimRestos de vocêSobras de todosRestos do mundo.
936
Emílio Moura
Mar Alto
Que hei de fazer, se não me encontro,
se há tanto tempo estou perdido?
É o mar, meu pai: é o mar! E o mar está crescendo.
O mar é fundo, o mar é frio.
Meu pai, que silêncio,
que grave silêncio!
Por que não sorris?
Meu pai, estou perdido:
há tantos caminhos
no fundo do mar.
Como hei de votar?
se há tanto tempo estou perdido?
É o mar, meu pai: é o mar! E o mar está crescendo.
O mar é fundo, o mar é frio.
Meu pai, que silêncio,
que grave silêncio!
Por que não sorris?
Meu pai, estou perdido:
há tantos caminhos
no fundo do mar.
Como hei de votar?
1 222
Daniel Orlandi Mattos Edmundson
O Poeta
No deserto de minha mente
Vivo;
Posto a andar para sempre
Estou me tornando um demente.
Preso a minha própria solidão
Nao consigo mais enxergar,
A barreira de meu crânio não poso vencer,
Nem parar para respirar
Vagando pelo mundo afora
Não encontro a paz
nesse mundo ela não se encontra
Na eternidade ela jaz
Deixo para traz uma vida.
Perplexo com minha própria situação
Nao consigo encontrar,
Para mim, Solução....
Vivo;
Posto a andar para sempre
Estou me tornando um demente.
Preso a minha própria solidão
Nao consigo mais enxergar,
A barreira de meu crânio não poso vencer,
Nem parar para respirar
Vagando pelo mundo afora
Não encontro a paz
nesse mundo ela não se encontra
Na eternidade ela jaz
Deixo para traz uma vida.
Perplexo com minha própria situação
Nao consigo encontrar,
Para mim, Solução....
1 168
Daniel Orlandi Mattos Edmundson
Para os Amigos
Se eu pudese dizer o que sinto,
E, eu juro que não minto,
Não teria mais amigos
E não estaria mais vivo
Longe daqui,
Me poria a olhar, a observar
E quando a saudade intensa chegar,
Me poria a chorar.
Por isso prefiro não ver,
Ver que não tenho amigos.
Graças a Deus; que me deu o dom,
O dom de não ver.
E, eu juro que não minto,
Não teria mais amigos
E não estaria mais vivo
Longe daqui,
Me poria a olhar, a observar
E quando a saudade intensa chegar,
Me poria a chorar.
Por isso prefiro não ver,
Ver que não tenho amigos.
Graças a Deus; que me deu o dom,
O dom de não ver.
940
Dieter Roos
Talvez
talvez
não exista o amor
talvez
exista somente
o ódio
e aquilo
que chamamos de amor
é somente odiar
não exista o amor
talvez
exista somente
o ódio
e aquilo
que chamamos de amor
é somente odiar
866
Dora Ferreira da Silva
Haicai
As sombras amigas
pouco a pouco se adensaram:
agora verei.
Ó desesperados:
lamentáveis tartarugas
de pernas pro ar
pouco a pouco se adensaram:
agora verei.
Ó desesperados:
lamentáveis tartarugas
de pernas pro ar
1 594
Edimilson de Almeida Pereira
Magnificat
Porque não há ofício
espero desaparecer.
O vão desejado
poreja
(para aquele tempo,
talvez)
não para a secura
que implode a memória.
O céu virá limpo,
depois.
espero desaparecer.
O vão desejado
poreja
(para aquele tempo,
talvez)
não para a secura
que implode a memória.
O céu virá limpo,
depois.
1 071
Edmundo de Bettencourt
Ondulação
O luar ondula
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .
Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.
E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .
Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.
E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!
1 075
Cynara Novaes
O barco passou
O barco passou
e o vento passou
e o sol não veio
não veio
A nuvem passou
a manhã passou
e a alegria não veio
não veio
A menina passou
a moça passou
e a lua não veio
não veio
A menina ficou
o tempo ficou
pois a vida não veio
não veio
e o vento passou
e o sol não veio
não veio
A nuvem passou
a manhã passou
e a alegria não veio
não veio
A menina passou
a moça passou
e a lua não veio
não veio
A menina ficou
o tempo ficou
pois a vida não veio
não veio
1 020
Donizete Galvão
Sim, One
O que sinto , a língua não fala.
Há uma dor que não tem nome.
Musgo de abismo que o sopro
da voz alcança e macera.
Dont let me be misunderstood.
I dont want to be alone.
Há uma dor que não tem nome.
Musgo de abismo que o sopro
da voz alcança e macera.
Dont let me be misunderstood.
I dont want to be alone.
941
Pedro Dantas
A Cachorra
Veio uma angústia de cima,
Pelos ombros me agarrou,
No mais fundo do meu peito
Sua lâmina cravou.
Depois que no chão desfeito
O meu corpo estrebuchou,
Pelos cabelos a fera
Sobre pedras me arrastou.
Meu corpo, se espedaçou.
Mas ainda não satisfeita,
Nova vida me insuflou:
Para mostrar poderio,
Com a sua mão direita
Uma cidade arrasou,
Na esquerda tomou um rio,
Fogo nas águas soprou,
As águas todas do rio
Com seu hálito secou.
I.evou-me aos cimos mais altos,
No ar me imobilizou,
Depois, em súbitos saltos,
A garra adunca fincando
No meu coração, lá do alto
Soltou um grito nefando
E sobre o mar me atirou.
Ali! nas águas do mar alto
Meu corpo logo afundou.
Veio buscar-me de novo:
Angina-péctoris, polvo,
Meu coração sufocou
E tais surras de chicote
Me deu, que a cada lambada
Minhalma mortificada,
Minhalma perto da morte,
Só a morte desejou;
Meu rosto esfregou na lama,
As faces me babujou
E quando, à atroz azafama,
O meu olhar se turvou,
Vencido, entregue, arquejante
— Perdido o sangue das veias —
Na praia, sobre as areias,
Meu corpo exausto rodou.
Ali! pobre corpo do amante
Que até o fim se humilhou!
Então um riso infamante
As fauces lhe escancarou,
Zombou da minha tolice:
— "Eu sou a Cachorra", disse,
"Tu me chamaste: aqui estou."
A essa voz dissiparam-se as sombras
E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória
Senti que da sua boca nasciam rosas
E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.
Pelos ombros me agarrou,
No mais fundo do meu peito
Sua lâmina cravou.
Depois que no chão desfeito
O meu corpo estrebuchou,
Pelos cabelos a fera
Sobre pedras me arrastou.
Meu corpo, se espedaçou.
Mas ainda não satisfeita,
Nova vida me insuflou:
Para mostrar poderio,
Com a sua mão direita
Uma cidade arrasou,
Na esquerda tomou um rio,
Fogo nas águas soprou,
As águas todas do rio
Com seu hálito secou.
I.evou-me aos cimos mais altos,
No ar me imobilizou,
Depois, em súbitos saltos,
A garra adunca fincando
No meu coração, lá do alto
Soltou um grito nefando
E sobre o mar me atirou.
Ali! nas águas do mar alto
Meu corpo logo afundou.
Veio buscar-me de novo:
Angina-péctoris, polvo,
Meu coração sufocou
E tais surras de chicote
Me deu, que a cada lambada
Minhalma mortificada,
Minhalma perto da morte,
Só a morte desejou;
Meu rosto esfregou na lama,
As faces me babujou
E quando, à atroz azafama,
O meu olhar se turvou,
Vencido, entregue, arquejante
— Perdido o sangue das veias —
Na praia, sobre as areias,
Meu corpo exausto rodou.
Ali! pobre corpo do amante
Que até o fim se humilhou!
Então um riso infamante
As fauces lhe escancarou,
Zombou da minha tolice:
— "Eu sou a Cachorra", disse,
"Tu me chamaste: aqui estou."
A essa voz dissiparam-se as sombras
E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória
Senti que da sua boca nasciam rosas
E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.
964
Deborah Brennand
Claridade
Afortunados são os bosques
onde sem bridas
a luz campeia
entre as folhagens
suas crinas douradas
Tão leve se lustra a água
na medida exata
que os rebanhos bebem
junto às raposas
sem temor selvagem.
Por que só a mim discrimina a claridade?
onde sem bridas
a luz campeia
entre as folhagens
suas crinas douradas
Tão leve se lustra a água
na medida exata
que os rebanhos bebem
junto às raposas
sem temor selvagem.
Por que só a mim discrimina a claridade?
1 392
Cynara Novaes
Quase Canção para Ficar
Quase
sem saber
eu me feri
Quase
sem querer
eu me fechei
Quase
sem porquê
eu me exalei
Quase
sem mim
eu me perdi
em meio a multidão.
sem saber
eu me feri
Quase
sem querer
eu me fechei
Quase
sem porquê
eu me exalei
Quase
sem mim
eu me perdi
em meio a multidão.
903
Donizete Galvão
Ex-Voto
mercê de um celerado que consigo se desavinha e no meio do caminho
de sua vida achou-se em beco desprovido de fé e o corpo afligido por
dores padecendo de conturbação dos miolos pensar desembestado
visões de dilaceramento euforias desconformes desacorçôo venetas
arrepio de frio aguadilha na boca e estômago embrulhado e procurando
o não sabe o que veio dar em paragens del Rei e aqui se apegou no intento
embora baldado de que seu coração encontre a pacificação
de sua vida achou-se em beco desprovido de fé e o corpo afligido por
dores padecendo de conturbação dos miolos pensar desembestado
visões de dilaceramento euforias desconformes desacorçôo venetas
arrepio de frio aguadilha na boca e estômago embrulhado e procurando
o não sabe o que veio dar em paragens del Rei e aqui se apegou no intento
embora baldado de que seu coração encontre a pacificação
1 150
Donizete Galvão
O poeta em pânico
" Quem me ouvirá?
Quem me verá?
Quem me há de tocar?"
(Murilo Mendes, A poesia em pânico)
Escrever poesia no Brasil é viver em claustrofobia. O poeta respira um ar rarefeito. Tudo se fecha a sua volta: ele está em pânico. Habita uma espécie de limbo, zona fantasma, onde nada do que produz encontra eco ou ressonância. Como no poema de Murilo Mendes, pode dizer "vivi entre os homens/ que não me viram, não me ouviram / Nem me consolaram".
Convertido numa espécie de alquimista, cumprindo a profecia de Giulio Argan, investe em uma busca que, todos sabem, resultará em fracasso.
O poeta insiste: quer ganhar visibilidade. Quer chegar até as estantes das livrarias e das bibliotecas. Quer ser lido, comentado pelos seus pares e pela crítica. Extenuado pela tensão quase insuportável de construir uma obra, deve converter-se também em seu próprio agente literário, assessor de imprensa, e distribuidor, sem ter o menor jeito para estas tarefas. A que situações ridículas tem de submeter-se, para ver seu livro editado, aquele que não é multimídia, ídolo pop ou instant celebrity.
Deve criar uma carapaça anti-rejeição e fazer como Sylvia Plath, que enviou 45 contos à revista Seventeen antes de ter um deles aceito? Os editores, com as raras exceções dos apaixonados pela poesia, fogem dos autores como se estes tivessem sarna. Devolvem originais em cartas padronizadas com a indefectível "nossa programação já está completa". E deve estar mesmo, para os próximos 10 anos. Claro que para o livro do cantor de rock, para os poemas eróticos de uma estrela de TV ou para crônicas requentadas de colunistas dos grandes jornais há sempre uma grande flexibilidade nesta rígida programação editorial.
A pergunta básica é: tem espaço garantido na mídia? Então, é só publicar.
Ou até mesmo pode-se fabricar um escritor. Unanimemente, vai merecer páginas dos cadernos de cultura, resenhas e até entrevista em talk show. Para os demais, brande-se o espectro da falta de mercado. Como fica aquele que trabalha apenas com literatura, não tem padrinhos nem cultiva amigos nas editorias? Escreve um livro e cria um escândalo para que a coisa ganhe o tão falado "gancho jornalístico"?
Quem escreve poesia não está aspirando chegar à lista dos mais vendidos.
Viu, entretanto, serem dissolvidos os raros espaços de que podia dispor.
Estes espaços foram engolidos pela máquina promocional e pelo jornalismo de release. Clips, comics, escândalos, moda e TV ocupam todas as páginas.
O escritor sabe que a discórdia entre poesia e mercado é profunda. Mas quer ser tratado com um mínimo de dignidade.
Em uma época em que todo mundo precisa ser bonito, rico, saudável e feliz e tudo deve ser leve e divertido, que interesse pode despertar o espelho perverso do poeta? Quem quer se ver como uma retorcida figura saída de um quadro de Francis Bacon? Com a linguagem contaminada pela publicidade, pelo entretenimento barato e pela psicologia de auto-ajuda, a tentativa de devolver vigor, intensidade e frescor à língua soa hermética e gera mal-estar.
A poesia, além de inútil, é também indesejada.
O poeta, entretanto, insiste em escrever seus poemas. Não lhe resta outra alternativa. Poderia buscar o suicídio, a santidade, o vício: estas "outras tantas formas da falta de talento" de que falou Cioran. Está preso a uma obsessão nunca sublimada. Quer, através da língua, assegurar a permanência enquanto tudo se desfaz. Pouco importam os mecanismos que o movem: exibicionismo, narcisismo, paranóia, depressão. Usa de artifícios, filtra e depura para transformar o desprezo, a humilhação e a decomposição do corpo e da mente em matéria poética. Pois, como disse Borges,"meus instrumentos de trabalho são a humilhação e a angústia". Entre tantos indiferentes deve haver uns poucos que, como na brilhante defesa da poesia feita por Octavio Paz, terão ouvidos para essa outra voz.
Leia obra poética de Donizete Galvão
Quem me verá?
Quem me há de tocar?"
(Murilo Mendes, A poesia em pânico)
Escrever poesia no Brasil é viver em claustrofobia. O poeta respira um ar rarefeito. Tudo se fecha a sua volta: ele está em pânico. Habita uma espécie de limbo, zona fantasma, onde nada do que produz encontra eco ou ressonância. Como no poema de Murilo Mendes, pode dizer "vivi entre os homens/ que não me viram, não me ouviram / Nem me consolaram".
Convertido numa espécie de alquimista, cumprindo a profecia de Giulio Argan, investe em uma busca que, todos sabem, resultará em fracasso.
O poeta insiste: quer ganhar visibilidade. Quer chegar até as estantes das livrarias e das bibliotecas. Quer ser lido, comentado pelos seus pares e pela crítica. Extenuado pela tensão quase insuportável de construir uma obra, deve converter-se também em seu próprio agente literário, assessor de imprensa, e distribuidor, sem ter o menor jeito para estas tarefas. A que situações ridículas tem de submeter-se, para ver seu livro editado, aquele que não é multimídia, ídolo pop ou instant celebrity.
Deve criar uma carapaça anti-rejeição e fazer como Sylvia Plath, que enviou 45 contos à revista Seventeen antes de ter um deles aceito? Os editores, com as raras exceções dos apaixonados pela poesia, fogem dos autores como se estes tivessem sarna. Devolvem originais em cartas padronizadas com a indefectível "nossa programação já está completa". E deve estar mesmo, para os próximos 10 anos. Claro que para o livro do cantor de rock, para os poemas eróticos de uma estrela de TV ou para crônicas requentadas de colunistas dos grandes jornais há sempre uma grande flexibilidade nesta rígida programação editorial.
A pergunta básica é: tem espaço garantido na mídia? Então, é só publicar.
Ou até mesmo pode-se fabricar um escritor. Unanimemente, vai merecer páginas dos cadernos de cultura, resenhas e até entrevista em talk show. Para os demais, brande-se o espectro da falta de mercado. Como fica aquele que trabalha apenas com literatura, não tem padrinhos nem cultiva amigos nas editorias? Escreve um livro e cria um escândalo para que a coisa ganhe o tão falado "gancho jornalístico"?
Quem escreve poesia não está aspirando chegar à lista dos mais vendidos.
Viu, entretanto, serem dissolvidos os raros espaços de que podia dispor.
Estes espaços foram engolidos pela máquina promocional e pelo jornalismo de release. Clips, comics, escândalos, moda e TV ocupam todas as páginas.
O escritor sabe que a discórdia entre poesia e mercado é profunda. Mas quer ser tratado com um mínimo de dignidade.
Em uma época em que todo mundo precisa ser bonito, rico, saudável e feliz e tudo deve ser leve e divertido, que interesse pode despertar o espelho perverso do poeta? Quem quer se ver como uma retorcida figura saída de um quadro de Francis Bacon? Com a linguagem contaminada pela publicidade, pelo entretenimento barato e pela psicologia de auto-ajuda, a tentativa de devolver vigor, intensidade e frescor à língua soa hermética e gera mal-estar.
A poesia, além de inútil, é também indesejada.
O poeta, entretanto, insiste em escrever seus poemas. Não lhe resta outra alternativa. Poderia buscar o suicídio, a santidade, o vício: estas "outras tantas formas da falta de talento" de que falou Cioran. Está preso a uma obsessão nunca sublimada. Quer, através da língua, assegurar a permanência enquanto tudo se desfaz. Pouco importam os mecanismos que o movem: exibicionismo, narcisismo, paranóia, depressão. Usa de artifícios, filtra e depura para transformar o desprezo, a humilhação e a decomposição do corpo e da mente em matéria poética. Pois, como disse Borges,"meus instrumentos de trabalho são a humilhação e a angústia". Entre tantos indiferentes deve haver uns poucos que, como na brilhante defesa da poesia feita por Octavio Paz, terão ouvidos para essa outra voz.
Leia obra poética de Donizete Galvão
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Daniel Loureiro
Uma Crença
Jazer tão perto da morte
onde talvez a sorte
de nós, a espécie condenada
a entender para sentir angústia
nas misérias dos prazeres mundanos
ópios de vida que nos causam danos
feridas ocultas agora libertas
Rasgar a libertação
Argh!
Esse Deus contraditório
Piedoso e cruel
Aos crentes fornece seus favos de fel
o consolo débil, frágil
de uma crença como tábua última
Sua mediocridade ilhada
Assim me faço pagão
Diversos Deuses me Divertem
Imperfeições gregas tão civilizadas...
Ânsia pela vida como ser a vida sua
Nua de mandanças do dever ideal
onde talvez a sorte
de nós, a espécie condenada
a entender para sentir angústia
nas misérias dos prazeres mundanos
ópios de vida que nos causam danos
feridas ocultas agora libertas
Rasgar a libertação
Argh!
Esse Deus contraditório
Piedoso e cruel
Aos crentes fornece seus favos de fel
o consolo débil, frágil
de uma crença como tábua última
Sua mediocridade ilhada
Assim me faço pagão
Diversos Deuses me Divertem
Imperfeições gregas tão civilizadas...
Ânsia pela vida como ser a vida sua
Nua de mandanças do dever ideal
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