Poemas neste tema
Saudade e Ausência
Luís Marcelino
Sol Português
Tardes frias
Noites quentes
Ondas do mar turbulentas
Tantos dias
Sempre ausentes
Histórias de vida cinzentas
Luzes caladas
Estrelas sem vida
Num acordar tempestade
Bocas beijadas
Noite perdida
Neste mar sem idade
Os ventos do norte
Voaram p’ra sul
E eu aqui já nascido
Pintei a minha sorte
No ouro sobre azul
Deste mundo fingido.
Noites quentes
Ondas do mar turbulentas
Tantos dias
Sempre ausentes
Histórias de vida cinzentas
Luzes caladas
Estrelas sem vida
Num acordar tempestade
Bocas beijadas
Noite perdida
Neste mar sem idade
Os ventos do norte
Voaram p’ra sul
E eu aqui já nascido
Pintei a minha sorte
No ouro sobre azul
Deste mundo fingido.
928
1
Gláucia Lemos
Poema do Apelo
Eu sei que à insônia desta noite
bem poderias vir.
A tua febre aqueceria o mundo.
Da minha febre renasceria a vida.
... e me olhas com este olhar atento
que não sei se não me quer ou não me entende.
Eu sei que esvaziarias este apelo
e que eu te guardaria como um feto
e plenificarias meu vazio.
...mas me olhas com este olhar estranho
que eu não sei se me entende e não me quer...
Eu sei que é como quem beija, que me calo.
E poderíamos arder no mesmo gozo
para morrer depois no mesmo sono.
...mas me olhas com este olhar profano
que eu não sei se não me entende, ou se me espera.
Eu sei. Mas sei que não vale saber.
Se continuas com este olhar estranho
que eu não entendo. Mesmo assim te espero.
(07.06.96)
bem poderias vir.
A tua febre aqueceria o mundo.
Da minha febre renasceria a vida.
... e me olhas com este olhar atento
que não sei se não me quer ou não me entende.
Eu sei que esvaziarias este apelo
e que eu te guardaria como um feto
e plenificarias meu vazio.
...mas me olhas com este olhar estranho
que eu não sei se me entende e não me quer...
Eu sei que é como quem beija, que me calo.
E poderíamos arder no mesmo gozo
para morrer depois no mesmo sono.
...mas me olhas com este olhar profano
que eu não sei se não me entende, ou se me espera.
Eu sei. Mas sei que não vale saber.
Se continuas com este olhar estranho
que eu não entendo. Mesmo assim te espero.
(07.06.96)
1 225
1
Helena Parente Cunha
Anel de Vidro
sob os arcos das arcadas
ocultei o meu anel
o anel que não te dei
sob o arco do arco-íris
armei a rede encantada
para o meu sono de vidro
por sobre as cordas em arco
recordei remotos tons
refleti perdidos fios
acordo sem meu anel
ecoei na última cor
me arqueio quebrado vidro
ocultei o meu anel
o anel que não te dei
sob o arco do arco-íris
armei a rede encantada
para o meu sono de vidro
por sobre as cordas em arco
recordei remotos tons
refleti perdidos fios
acordo sem meu anel
ecoei na última cor
me arqueio quebrado vidro
1 293
1
Gláucia Lemos
Poemas da Distância
Como se fosses chegar
na hora seguinte.
Estendo os meus olhos
para lá da poeira
mas meus olhos imergem
nas águas do mar...
Se eu sei que,
cortando a enchente
que cresceu e venceu o alto do muro
e alagou o caminho,
não virás ainda,
se eu sei que
os trilhos que os pneus
traçaram paralelos nesta estrada de areia,
nem sabem de ti,
entendo quanto é louco
este olhar que te espera
esperando um milagre.
Se me lembro
de que vieste na noite de ontem
à hora da estrela,
e quando eu colhia o diamante de Vésper
te tinha comigo,
sei,
como é louco este olhar que te espera
esperando o milagre!
na hora seguinte.
Estendo os meus olhos
para lá da poeira
mas meus olhos imergem
nas águas do mar...
Se eu sei que,
cortando a enchente
que cresceu e venceu o alto do muro
e alagou o caminho,
não virás ainda,
se eu sei que
os trilhos que os pneus
traçaram paralelos nesta estrada de areia,
nem sabem de ti,
entendo quanto é louco
este olhar que te espera
esperando um milagre.
Se me lembro
de que vieste na noite de ontem
à hora da estrela,
e quando eu colhia o diamante de Vésper
te tinha comigo,
sei,
como é louco este olhar que te espera
esperando o milagre!
1 045
1
José Duro
Alvíssima
(Oração)
Como a Noite, Senhor,é linda
Com seus cabelos de luar…
Não chores mais, Lua bemvinda
Que me fazes também chorar…
Sorrisos do luar d’uma Caveira oca,
Sorrisos do luar enfeitiçando os brejos
Sorrisos do luar a angelizar a boca,
Sorrisos do luar onde escondi meus beijos…
Orações do luar dos lábios de nós ambos,
Orações do luar que os astros não rezaram,
Orações do luar a consagrar os tambos,
Orações do luar, das almas que noivaram.
Cabelos do luar, aveludados, frios,
Cabelos do luar em tranças latescentes;
Cabelos do luar — alvíssimas serpentes,
Cabelos do luar banhando-se nos rios…
Aromas do luar em revoadas francas,
Aromas do luar, a perfumar o céu…
Aromas do luar, sonâmbulos ao léu,
Aromas do luar, por noites todas brancas…
Brancuras do luar dispersas pelos montes…
Brancuras do luar — finos lençois de gelo…
Brancuras do luar, olhai o sete estrelo,
Brancuras do luar, a namorar as fontes…
Veludos do luar tecidos pela lua,
Veludos do luar, de lírios e de rosas…
Veludos do luar, ó vestes preciosas
Veludos do luar vestindo a noite nua…
Trémulos de luar — litanias peregrinas,
Trémulos de luar — ó harmonias cérulas,
Trémulos de luar, nas bocas aspérulas
Trémulos de luar, e lábios das boninas…
Tristezas do luar caindo-nos no peito,
Tristezas do luar, como um dobrar profundo…
Tristezas do luar anestisiando o Mundo,
Tristezas do luar, em lágrimas desfeito…
Lágrimas do luar da Lua aventureira,
Lágrimas do luar, da débil flor dos linhos…
Lágrimas do luar da mágua derradeira,
Lágrimas do luar, de moços e velhimhos…
Saudades do luar, na rama dos ciprestes,
Saudades do luar, há mochos a cantar…
Saudades do luar, são almas a chorar…
Saudades do luar, as podridões agrestes…
Velhinhos corações a verter sangue e máguas,
Velhinhos corações de mocidade negras,
Velhinhos corações — doridas toutinegras,
Velhinhos corações aos tombos pelas frágoas.
Vamos todos pedir à Lua sacrossanta
Na aspiração do Amor, na comunhão do Bem
Que o seu bendito olhar, o seu olhar de Santa,
Nos abençõe agora e para sempre amén!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Como a Noite, Senhor,é linda
Com seus cabelos de luar…
Não chores mais, Lua bemvinda
Que me fazes também chorar…
Sorrisos do luar d’uma Caveira oca,
Sorrisos do luar enfeitiçando os brejos
Sorrisos do luar a angelizar a boca,
Sorrisos do luar onde escondi meus beijos…
Orações do luar dos lábios de nós ambos,
Orações do luar que os astros não rezaram,
Orações do luar a consagrar os tambos,
Orações do luar, das almas que noivaram.
Cabelos do luar, aveludados, frios,
Cabelos do luar em tranças latescentes;
Cabelos do luar — alvíssimas serpentes,
Cabelos do luar banhando-se nos rios…
Aromas do luar em revoadas francas,
Aromas do luar, a perfumar o céu…
Aromas do luar, sonâmbulos ao léu,
Aromas do luar, por noites todas brancas…
Brancuras do luar dispersas pelos montes…
Brancuras do luar — finos lençois de gelo…
Brancuras do luar, olhai o sete estrelo,
Brancuras do luar, a namorar as fontes…
Veludos do luar tecidos pela lua,
Veludos do luar, de lírios e de rosas…
Veludos do luar, ó vestes preciosas
Veludos do luar vestindo a noite nua…
Trémulos de luar — litanias peregrinas,
Trémulos de luar — ó harmonias cérulas,
Trémulos de luar, nas bocas aspérulas
Trémulos de luar, e lábios das boninas…
Tristezas do luar caindo-nos no peito,
Tristezas do luar, como um dobrar profundo…
Tristezas do luar anestisiando o Mundo,
Tristezas do luar, em lágrimas desfeito…
Lágrimas do luar da Lua aventureira,
Lágrimas do luar, da débil flor dos linhos…
Lágrimas do luar da mágua derradeira,
Lágrimas do luar, de moços e velhimhos…
Saudades do luar, na rama dos ciprestes,
Saudades do luar, há mochos a cantar…
Saudades do luar, são almas a chorar…
Saudades do luar, as podridões agrestes…
Velhinhos corações a verter sangue e máguas,
Velhinhos corações de mocidade negras,
Velhinhos corações — doridas toutinegras,
Velhinhos corações aos tombos pelas frágoas.
Vamos todos pedir à Lua sacrossanta
Na aspiração do Amor, na comunhão do Bem
Que o seu bendito olhar, o seu olhar de Santa,
Nos abençõe agora e para sempre amén!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 675
1
José Chagas
O Apito do Passado
O Mearim derrama na distância
uma água que em sonhos nos invade,
como fio invisível que se lance a
separar em duas a cidade.
E essa água vem banhar sem que se canse a
vida inteira que no rio nade,
porquanto água de amor que lava infância
lava também velhice e mocidade.
Mearim — rio velho e rio novo,
alegria e aflição de um mesmo povo —
um mar se afoga nos mistérios teus.
Mas preservas em ti, para Pedreiras,
vibrando no ar, o apito das primeiras
lanchas que nos deixaram seu adeus.
uma água que em sonhos nos invade,
como fio invisível que se lance a
separar em duas a cidade.
E essa água vem banhar sem que se canse a
vida inteira que no rio nade,
porquanto água de amor que lava infância
lava também velhice e mocidade.
Mearim — rio velho e rio novo,
alegria e aflição de um mesmo povo —
um mar se afoga nos mistérios teus.
Mas preservas em ti, para Pedreiras,
vibrando no ar, o apito das primeiras
lanchas que nos deixaram seu adeus.
1 471
1
Luís Delfino
Altar sem Deus
Inda não voltas? — Como a vida salta
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
1 624
1
Lígia Diniz
Por Isso
Por não me dares nada
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
895
1
Myriam Fraga
Penélope
Hoje desfiz o último ponto,
A trama do bordado.
No palácio deserto ladra
O cão.
Um sibilo de flechas
Devolve-me o passado.
Com os olhos da memória
Vejo o arco
Que se encurva,
A força que o distende.
Reconheço no silêncio
A paz que me faltava,
(No mármore da entrada
Agonizam os pretendentes).
O ciclo está completo
A espera acabada.
Quando Ulisses chegar
A sopa estará fria.
A trama do bordado.
No palácio deserto ladra
O cão.
Um sibilo de flechas
Devolve-me o passado.
Com os olhos da memória
Vejo o arco
Que se encurva,
A força que o distende.
Reconheço no silêncio
A paz que me faltava,
(No mármore da entrada
Agonizam os pretendentes).
O ciclo está completo
A espera acabada.
Quando Ulisses chegar
A sopa estará fria.
2 102
1
Helena Parente Cunha
Tempo
fronteira no tempo
me rompo entre dois prantos
antes de outrora
era meu pai
além de após
o mesmo ai
entre
antes
e depois
sem agora de meu pai
me rompo entre dois prantos
antes de outrora
era meu pai
além de após
o mesmo ai
entre
antes
e depois
sem agora de meu pai
1 357
1
Fernanda Benevides
Mensagem
Não sei se o vento te levou o recado;
o sol te envolveu com o calor do meu abraço
ou a lua falou do amor,
daquele amor que ainda que ainda guardo...
Reclamo-te nos horizontes em que, em vão, te busco.
Caminhos falam de desencontro.
O mar chora o argonauta que se afastou do cais...
Muitas pontes. Rios.
Nenhuma travessia...
Triste paisagem.
Apelos transcendentais não são ouvidos...
Telepatia não responde.
Como mandar-te uma mensagem? Em verso?
E o reverso?
Penso em out door ... Classificados dos jornais...
Como falar-te? Difícil encontrar-te...
... e fico assim, sem saber-te,
a sonhar-te...
o sol te envolveu com o calor do meu abraço
ou a lua falou do amor,
daquele amor que ainda que ainda guardo...
Reclamo-te nos horizontes em que, em vão, te busco.
Caminhos falam de desencontro.
O mar chora o argonauta que se afastou do cais...
Muitas pontes. Rios.
Nenhuma travessia...
Triste paisagem.
Apelos transcendentais não são ouvidos...
Telepatia não responde.
Como mandar-te uma mensagem? Em verso?
E o reverso?
Penso em out door ... Classificados dos jornais...
Como falar-te? Difícil encontrar-te...
... e fico assim, sem saber-te,
a sonhar-te...
882
1
H. Masuda Goga
Primavera
Um bem-te-vi na árvore,
canta e canta sem descanso:
outro canto ao longe.
Por sobre o gramado,
as borboletas em bando,
um caixão chegando...
Inúmeras flores
nos túmulos de finados
— na alma só saudade...
canta e canta sem descanso:
outro canto ao longe.
Por sobre o gramado,
as borboletas em bando,
um caixão chegando...
Inúmeras flores
nos túmulos de finados
— na alma só saudade...
1 048
1
Helena Ortiz
Poesia Viva
precisou que te fosses
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
1 147
1
Humberto de Campos
Pero Coelho
(Descobridor do Ceará)
Na umidade do cárcere de Olinda
— Enjaulado jaguar que a vida acaba
Lembrando a selva rumorosa e linda —
Sonha o conquistador da Ibiapaba.
O sonho é o resto da jornada: é a vinda;
E a morte; é a sede; é o desespero; a taba
Toda investindo. A terra em fogo. Um baba;
Outro cai; outro fica; outro se finda...
Dois filhos morrem nos seus braços: vede!
E nem, sequer, irmão de Agar, tem perto,
Nos olhos água que lhes mate a sede!
E, ao fim de tudo, acusações e gritas...
Ah! por que não tombara no Deserto
Abraçado com os seus israelitas!?...
Na umidade do cárcere de Olinda
— Enjaulado jaguar que a vida acaba
Lembrando a selva rumorosa e linda —
Sonha o conquistador da Ibiapaba.
O sonho é o resto da jornada: é a vinda;
E a morte; é a sede; é o desespero; a taba
Toda investindo. A terra em fogo. Um baba;
Outro cai; outro fica; outro se finda...
Dois filhos morrem nos seus braços: vede!
E nem, sequer, irmão de Agar, tem perto,
Nos olhos água que lhes mate a sede!
E, ao fim de tudo, acusações e gritas...
Ah! por que não tombara no Deserto
Abraçado com os seus israelitas!?...
1 352
1
Da Costa Santos
Pelo Alto Mar
Longe, pelo alto mar, onde a ave não se aninha,
rasgando os escarcéus da noite de áureos brilhos,
singra silenciosa a doida nau que é minha,
pesada de saudade e bambos amantilhos.
Um marinheiro canta e no convés caminha,
na loucura do mar olhando os tombadilhos,
para não sossobrar, sob a onda marinha,
essa nau que deixou para traz longos trilhos.
Velas brancas de luz no oceano, altaneiras,
enfunadas de vento, ao clarão das estrelas,
tendo no mastaréu o pano das bandeiras...
Toda a glória de amar, em sonhos rosicleres,
revive no pavor dos homens das procelas
e se afoga em canções no beijo das mulheres.
rasgando os escarcéus da noite de áureos brilhos,
singra silenciosa a doida nau que é minha,
pesada de saudade e bambos amantilhos.
Um marinheiro canta e no convés caminha,
na loucura do mar olhando os tombadilhos,
para não sossobrar, sob a onda marinha,
essa nau que deixou para traz longos trilhos.
Velas brancas de luz no oceano, altaneiras,
enfunadas de vento, ao clarão das estrelas,
tendo no mastaréu o pano das bandeiras...
Toda a glória de amar, em sonhos rosicleres,
revive no pavor dos homens das procelas
e se afoga em canções no beijo das mulheres.
964
1
Cynara Novaes
Ausência
Partida
ida
parte que fica
parte que vai
Afinal quem sofre?
Quem parte
ou quem fica
com a parte
de quem vai?
ida
parte que fica
parte que vai
Afinal quem sofre?
Quem parte
ou quem fica
com a parte
de quem vai?
940
1
Domingos Caldas Barbosa
Sem Acabar de Morrer
É a minha triste vida
Sempre penar, e sofrer;
Vou morrendo a todo o instante
Sem acabar de morrer.
Sabes, meu bem, o que eu sofro
Quando não te posso ver
É morrer de saudades
Sem acabar de morrer.
Prometeu-me Amor doçuras,
Contentou-se em prometer;
E me faz viver morrendo
Sem acabar de morrer.
Lisonjeiras esperanças
Vêm minha morte empecer;
Vão-me sustentando a vida
Sem acabar de morrer.
Em mim tome um triste exemplo
Quem amando quer viver;
Saiba que é viver morrendo
Sem acabar de morrer.
Quando ponho a mão no peito
Sinto um lânguido bater;
É o coração que expira
Sem acabar de morrer.
Sempre penar, e sofrer;
Vou morrendo a todo o instante
Sem acabar de morrer.
Sabes, meu bem, o que eu sofro
Quando não te posso ver
É morrer de saudades
Sem acabar de morrer.
Prometeu-me Amor doçuras,
Contentou-se em prometer;
E me faz viver morrendo
Sem acabar de morrer.
Lisonjeiras esperanças
Vêm minha morte empecer;
Vão-me sustentando a vida
Sem acabar de morrer.
Em mim tome um triste exemplo
Quem amando quer viver;
Saiba que é viver morrendo
Sem acabar de morrer.
Quando ponho a mão no peito
Sinto um lânguido bater;
É o coração que expira
Sem acabar de morrer.
2 173
1
Eurícledes Formiga
Canto de Amor ao Mar
Sempre tua canção, clamor e apelo,
Sabendo a sal e longes na memória,
ao ver-te cavalgado pelos ventos
nas escarpas da noite, em atropelo,
aos chicotes de fogo dos relâmpagos,
ou nas planícies de ouro das manhãs.
Recomponho o perdido itinerário,
respirando teu hálito — salsugem,
nesse meu navegar irrevelado
de minha origem marinheira... escuto
vir da gávea oscilante da lembrança
a voz evocativa de outras terras
aonde me levaram teus caminhos!
Não reclamo apagasses os meus passos
nas areias soando como teclas
em tuas longas e alvas mãos de espumas;
nem choro ser degredo o ter ficado
no alto dos alcantis a contemplar-te,
já que salgas meus olhos embebidos
na poesia verde-azul de tuas águas.
Quantas vezes me deixo submergir
em teu bojo de lendas e perigos
e vou sonhar remotas abordagens
no tombadilho das escunas mortas!
Sinto-te gotejar pelo meu corpo,
nas pálpebras, na pele, transpirando
teu sangue-sal, banhando-me de ti
nas enseadas das reminiscências.
Vem de longe esse vínculo profundo
de arco-íris e de algas que nos liga,
tanta é esta sensação de desaguar-me
em teu mundo abissal e confundir-me
com teus peixes, sargaços e corais,
ora a flutuar sobre ti como os santelmos,
ora a esgrimir os espadins da chuva
no convés de uma nau, como um pirata,
sob o alarido e o aplauso dos trovões!
Vejo-me assim, em honra de outros nautas,
heróis dos oceanos sem bandeiras,
marujos por amor às aventuras,
antepassados imemoriais.
Escuto-lhes a voz nas elegias
aos sóis que em teus abismos se afogaram
e às estrelas cadentes despencadas
do colo azul da noite como pérolas!
Para falar de amor à minha amada,
ponho tua harmonia nos meus versos;
eles recordam pequeninos búzios,
com tua alma cantando em seus recessos!
Não me é dado saber em quantos portos
ancorei minha nave... em suas quilhas
fulgem as tatuagens de saudades
com as transparências do teu ser ignoto!
Sei apenas que a música da vida
nasce contigo e cresce e envolve o mundo
e o coração-aquário do poeta!
Sabendo a sal e longes na memória,
ao ver-te cavalgado pelos ventos
nas escarpas da noite, em atropelo,
aos chicotes de fogo dos relâmpagos,
ou nas planícies de ouro das manhãs.
Recomponho o perdido itinerário,
respirando teu hálito — salsugem,
nesse meu navegar irrevelado
de minha origem marinheira... escuto
vir da gávea oscilante da lembrança
a voz evocativa de outras terras
aonde me levaram teus caminhos!
Não reclamo apagasses os meus passos
nas areias soando como teclas
em tuas longas e alvas mãos de espumas;
nem choro ser degredo o ter ficado
no alto dos alcantis a contemplar-te,
já que salgas meus olhos embebidos
na poesia verde-azul de tuas águas.
Quantas vezes me deixo submergir
em teu bojo de lendas e perigos
e vou sonhar remotas abordagens
no tombadilho das escunas mortas!
Sinto-te gotejar pelo meu corpo,
nas pálpebras, na pele, transpirando
teu sangue-sal, banhando-me de ti
nas enseadas das reminiscências.
Vem de longe esse vínculo profundo
de arco-íris e de algas que nos liga,
tanta é esta sensação de desaguar-me
em teu mundo abissal e confundir-me
com teus peixes, sargaços e corais,
ora a flutuar sobre ti como os santelmos,
ora a esgrimir os espadins da chuva
no convés de uma nau, como um pirata,
sob o alarido e o aplauso dos trovões!
Vejo-me assim, em honra de outros nautas,
heróis dos oceanos sem bandeiras,
marujos por amor às aventuras,
antepassados imemoriais.
Escuto-lhes a voz nas elegias
aos sóis que em teus abismos se afogaram
e às estrelas cadentes despencadas
do colo azul da noite como pérolas!
Para falar de amor à minha amada,
ponho tua harmonia nos meus versos;
eles recordam pequeninos búzios,
com tua alma cantando em seus recessos!
Não me é dado saber em quantos portos
ancorei minha nave... em suas quilhas
fulgem as tatuagens de saudades
com as transparências do teu ser ignoto!
Sei apenas que a música da vida
nasce contigo e cresce e envolve o mundo
e o coração-aquário do poeta!
1 277
1
Dora Ferreira da Silva
Alguém
Alguém desfecha a flecha do vôo:
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou passaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou passaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.
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Domingos Carvalho da Silva
Na Despedida de Ignez
Estão mudos os poemas,
não tenho mais tua voz para cantá-los.
O som corre vazio nas palavras
sem que teus ouvidos possam dar-lhes vida.
A luz se extingue,
pois tuas pálpebras estão cerradas para o sol
e em teus olhos
cresceu a longa treva sem a espera
do alvorecer.
Os rios não mais são necessários,
pois já não corre tua memória em suas águas.
Já não são necessários os caminhos,
que não mais poderão seguir-te os passos.
O livro que lias não chegou
a abrir a última folha,
as teclas do piano esperam esquecidas
o afago vibrante de tuas mãos,
que libertavam das pautas a harmonia.
Perdeu nossa casa a presença grácil
da castelã medieva,
o perfil de virtude
da senhoril esposa
romana.
Na face e nos lábios de pétalas dobradas
vi-te partir mais bela
que as rosas da manhã:
as últimas que te ornaram
foram cumprir contigo o teu silêncio.
não tenho mais tua voz para cantá-los.
O som corre vazio nas palavras
sem que teus ouvidos possam dar-lhes vida.
A luz se extingue,
pois tuas pálpebras estão cerradas para o sol
e em teus olhos
cresceu a longa treva sem a espera
do alvorecer.
Os rios não mais são necessários,
pois já não corre tua memória em suas águas.
Já não são necessários os caminhos,
que não mais poderão seguir-te os passos.
O livro que lias não chegou
a abrir a última folha,
as teclas do piano esperam esquecidas
o afago vibrante de tuas mãos,
que libertavam das pautas a harmonia.
Perdeu nossa casa a presença grácil
da castelã medieva,
o perfil de virtude
da senhoril esposa
romana.
Na face e nos lábios de pétalas dobradas
vi-te partir mais bela
que as rosas da manhã:
as últimas que te ornaram
foram cumprir contigo o teu silêncio.
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Elisa Lucinda
Late Ilusão
Em noite de lua cheia
geme ao meu lado o meu cão
acabado de chegar
late ilusões ao meu ouvido
e meu sentido
diz que ele veio pra ficar
Mas a vida passa e vira
páginas da folhinha
o que era cheia e domingo
foi minguando em segundas e terças
e meu homem, minha besta
voltou novo e repetido
como se fosse ficar até sexta
três dias de ele chegando de madrugada
Três dias de ele nadando na minha água
Conversas de homem e mulher
beijo na boca
tirar a roupa
novos latidos de ilusão no meu duvido
meu homem partiu na derradeira manhã
todo agradecido
dos momentos de amor que uivou comigo
eu fiquei lua sozinha no céu com aquela saudade amarela
e ele na terra cantando latindo partindo
uivando pra ela.
geme ao meu lado o meu cão
acabado de chegar
late ilusões ao meu ouvido
e meu sentido
diz que ele veio pra ficar
Mas a vida passa e vira
páginas da folhinha
o que era cheia e domingo
foi minguando em segundas e terças
e meu homem, minha besta
voltou novo e repetido
como se fosse ficar até sexta
três dias de ele chegando de madrugada
Três dias de ele nadando na minha água
Conversas de homem e mulher
beijo na boca
tirar a roupa
novos latidos de ilusão no meu duvido
meu homem partiu na derradeira manhã
todo agradecido
dos momentos de amor que uivou comigo
eu fiquei lua sozinha no céu com aquela saudade amarela
e ele na terra cantando latindo partindo
uivando pra ela.
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Carlos Nóbrega
A Invenção da Alma
Pronto: morri.
E agora?
Agora preciso do teu amor
mais do que nunca
E agora?
Agora preciso do teu amor
mais do que nunca
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Angela Carneiro
Pai
morreu meu pai
mas o poema da sua morte não sai
está aqui atravancado
engarrafando minhas letras
Devia canalizar sua perda
dar forma ao seu espírito
transformar seu sono
em algo lírico
Mas desde que morreu meu pai
e faz mais de ano
Meu Deus!como ainda o amo!
a beleza da mortal dor não sai
seu corpo em sono me volta
o choro solta
só sei dizer ai.
Será isso que escrevo o poema prometido?
Será finalmente agora
a hora do que foi sentido?
Preciso deste poema
preciso lembrar sua partida
mas,quando lembro seu rosto adormecido
só sai o poema
da sua vida.
Meu pai era grande, enorme
é tão bom ter um pai grande
um abraço cobertor
mão que encolhe a nossa
olhar para o alto quando se pede desculpas
ouvir sua voz grossa.
(como pode tanto homem caber em caixa tão pequena?
Suas cinzas na madeira clara não deviam estar lá
e sim fazer plantar uma flor nobre e rara)
A madrugada, o susto, a dor.
Cadê meu abraço cobertor?
Os pêsames ingleses são mais gentis
os telefonemas interurbanos mais sutis.
Morte anunciada num pedido de pizza...
senti a pista do adeus
mas nada fiz.
A policial foi meiga,
o legista competente
o agente funerário
naquele internacional calvário
era quase gente
saído de um texto de Dickens, alto como meu pai, branco de chuva
negro nas capas
sua voz pausada
como tapas.
Meu pai morreu feliz
Tinha as filhas em Londres por sorteio
a mulher amada ao seu lado
tinha,na véspera, se embriagado
vinho francês, boa safra
nada restou na garrafa
seu diário continha planos
de lá voltar para o ano.
Mas foi outra a viagem
no avião, apenas sua bagagem
Meu pai só queria viajar
o coração não prestava, enchia os pulmões de sangue
e ele queria comer churrasco e não fazer fiasco no amor
terminou seu programa dormindo em sua cama
com um sorriso tranquilo e um filete de vinho e sangue.
Que raiva que me dá!
Não posso te perdoar por me deixar órfã
de sua voz
meus filhos sem o vovô
que dava beijos e broncas
Você tinha tanto para fazer com eles!
Cadê a Disneylândia que prometeu?
Cadê sua mão enorme de carinho e palmada?
Cadê você, papai?
Eu ainda sou tão pequena
estou perdida na faculdade
lá só tem o seu busto em bronze
aquele que eu destestava pois em vida me lembrava
que você ía morrer.
Posso até dizer que foi melhor assim.
não sou egoísta, sou artista e crente
fui cursilhista e acredito em vida após a morte
e por sorte,você foi bom.
Meu discurso é piedoso e inteligente
posso até dizer-me carente mas olho pro céu
como te olhava tão alto
suspiro, foi esperto fugindo aqui perto
Não viu que seu voto para presidente
foi cuspido por um indecente
não viu que sua irmã decidiu a todos atormentar
só falava em se suicidar.
Mas também você perdeu!
Você ia adorar a linha vermelha
ia dizer "formidável!" franzindo a sobrancelha
e perdeu o Coquetel, um programa de TV
como muitos seios a mostra
bem como você gosta
E a seleção de volei? Esta foi sua maior falha
você não ver a nossa medalha.
Será que você vestiria preto naquele domingo?
Ah, meu pai,eu ia me orgulhar se te visse de luto
teríamos caminhado de mãos dadas na orla
por este país defunto
Ah,paizinho, se eu pudesse
te trazia nas minhas preces só pra ver as coisas boas
com olhos turistas eu te mostraria que o Brasil pode ter jeito
que a garotada está mudada
são índios de rosto em pintura
se chamam de caras-pintadas
são outras criaturas.
Você era tão grande
que o coração cansou de bombear.
Olha pai,não quero mais te cansar
sei que ando reclamando de falta de grana
de excesso de preocupação
mas, não liga não,pode deixar
pois se você me ensinou alguma coisa
essa coisa foi lutar.
Feliz dias dos pais, meu querido, Meuzinho, meu
velho, meu papai Darcy!
Beijos carinhosos de sua sempre filhinha caçula e
pequena. Sinto falta docê,pai!
mas o poema da sua morte não sai
está aqui atravancado
engarrafando minhas letras
Devia canalizar sua perda
dar forma ao seu espírito
transformar seu sono
em algo lírico
Mas desde que morreu meu pai
e faz mais de ano
Meu Deus!como ainda o amo!
a beleza da mortal dor não sai
seu corpo em sono me volta
o choro solta
só sei dizer ai.
Será isso que escrevo o poema prometido?
Será finalmente agora
a hora do que foi sentido?
Preciso deste poema
preciso lembrar sua partida
mas,quando lembro seu rosto adormecido
só sai o poema
da sua vida.
Meu pai era grande, enorme
é tão bom ter um pai grande
um abraço cobertor
mão que encolhe a nossa
olhar para o alto quando se pede desculpas
ouvir sua voz grossa.
(como pode tanto homem caber em caixa tão pequena?
Suas cinzas na madeira clara não deviam estar lá
e sim fazer plantar uma flor nobre e rara)
A madrugada, o susto, a dor.
Cadê meu abraço cobertor?
Os pêsames ingleses são mais gentis
os telefonemas interurbanos mais sutis.
Morte anunciada num pedido de pizza...
senti a pista do adeus
mas nada fiz.
A policial foi meiga,
o legista competente
o agente funerário
naquele internacional calvário
era quase gente
saído de um texto de Dickens, alto como meu pai, branco de chuva
negro nas capas
sua voz pausada
como tapas.
Meu pai morreu feliz
Tinha as filhas em Londres por sorteio
a mulher amada ao seu lado
tinha,na véspera, se embriagado
vinho francês, boa safra
nada restou na garrafa
seu diário continha planos
de lá voltar para o ano.
Mas foi outra a viagem
no avião, apenas sua bagagem
Meu pai só queria viajar
o coração não prestava, enchia os pulmões de sangue
e ele queria comer churrasco e não fazer fiasco no amor
terminou seu programa dormindo em sua cama
com um sorriso tranquilo e um filete de vinho e sangue.
Que raiva que me dá!
Não posso te perdoar por me deixar órfã
de sua voz
meus filhos sem o vovô
que dava beijos e broncas
Você tinha tanto para fazer com eles!
Cadê a Disneylândia que prometeu?
Cadê sua mão enorme de carinho e palmada?
Cadê você, papai?
Eu ainda sou tão pequena
estou perdida na faculdade
lá só tem o seu busto em bronze
aquele que eu destestava pois em vida me lembrava
que você ía morrer.
Posso até dizer que foi melhor assim.
não sou egoísta, sou artista e crente
fui cursilhista e acredito em vida após a morte
e por sorte,você foi bom.
Meu discurso é piedoso e inteligente
posso até dizer-me carente mas olho pro céu
como te olhava tão alto
suspiro, foi esperto fugindo aqui perto
Não viu que seu voto para presidente
foi cuspido por um indecente
não viu que sua irmã decidiu a todos atormentar
só falava em se suicidar.
Mas também você perdeu!
Você ia adorar a linha vermelha
ia dizer "formidável!" franzindo a sobrancelha
e perdeu o Coquetel, um programa de TV
como muitos seios a mostra
bem como você gosta
E a seleção de volei? Esta foi sua maior falha
você não ver a nossa medalha.
Será que você vestiria preto naquele domingo?
Ah, meu pai,eu ia me orgulhar se te visse de luto
teríamos caminhado de mãos dadas na orla
por este país defunto
Ah,paizinho, se eu pudesse
te trazia nas minhas preces só pra ver as coisas boas
com olhos turistas eu te mostraria que o Brasil pode ter jeito
que a garotada está mudada
são índios de rosto em pintura
se chamam de caras-pintadas
são outras criaturas.
Você era tão grande
que o coração cansou de bombear.
Olha pai,não quero mais te cansar
sei que ando reclamando de falta de grana
de excesso de preocupação
mas, não liga não,pode deixar
pois se você me ensinou alguma coisa
essa coisa foi lutar.
Feliz dias dos pais, meu querido, Meuzinho, meu
velho, meu papai Darcy!
Beijos carinhosos de sua sempre filhinha caçula e
pequena. Sinto falta docê,pai!
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Bocage
O céu, de opacas sombras abafado
O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;
Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;
Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.
Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;
Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;
Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.
Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.
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