Poemas neste tema
Saudade e Ausência
Fernanda Benevides
Mensagem
Não sei se o vento te levou o recado;
o sol te envolveu com o calor do meu abraço
ou a lua falou do amor,
daquele amor que ainda que ainda guardo...
Reclamo-te nos horizontes em que, em vão, te busco.
Caminhos falam de desencontro.
O mar chora o argonauta que se afastou do cais...
Muitas pontes. Rios.
Nenhuma travessia...
Triste paisagem.
Apelos transcendentais não são ouvidos...
Telepatia não responde.
Como mandar-te uma mensagem? Em verso?
E o reverso?
Penso em out door ... Classificados dos jornais...
Como falar-te? Difícil encontrar-te...
... e fico assim, sem saber-te,
a sonhar-te...
o sol te envolveu com o calor do meu abraço
ou a lua falou do amor,
daquele amor que ainda que ainda guardo...
Reclamo-te nos horizontes em que, em vão, te busco.
Caminhos falam de desencontro.
O mar chora o argonauta que se afastou do cais...
Muitas pontes. Rios.
Nenhuma travessia...
Triste paisagem.
Apelos transcendentais não são ouvidos...
Telepatia não responde.
Como mandar-te uma mensagem? Em verso?
E o reverso?
Penso em out door ... Classificados dos jornais...
Como falar-te? Difícil encontrar-te...
... e fico assim, sem saber-te,
a sonhar-te...
870
1
Domingos Carvalho da Silva
Na Despedida de Ignez
Estão mudos os poemas,
não tenho mais tua voz para cantá-los.
O som corre vazio nas palavras
sem que teus ouvidos possam dar-lhes vida.
A luz se extingue,
pois tuas pálpebras estão cerradas para o sol
e em teus olhos
cresceu a longa treva sem a espera
do alvorecer.
Os rios não mais são necessários,
pois já não corre tua memória em suas águas.
Já não são necessários os caminhos,
que não mais poderão seguir-te os passos.
O livro que lias não chegou
a abrir a última folha,
as teclas do piano esperam esquecidas
o afago vibrante de tuas mãos,
que libertavam das pautas a harmonia.
Perdeu nossa casa a presença grácil
da castelã medieva,
o perfil de virtude
da senhoril esposa
romana.
Na face e nos lábios de pétalas dobradas
vi-te partir mais bela
que as rosas da manhã:
as últimas que te ornaram
foram cumprir contigo o teu silêncio.
não tenho mais tua voz para cantá-los.
O som corre vazio nas palavras
sem que teus ouvidos possam dar-lhes vida.
A luz se extingue,
pois tuas pálpebras estão cerradas para o sol
e em teus olhos
cresceu a longa treva sem a espera
do alvorecer.
Os rios não mais são necessários,
pois já não corre tua memória em suas águas.
Já não são necessários os caminhos,
que não mais poderão seguir-te os passos.
O livro que lias não chegou
a abrir a última folha,
as teclas do piano esperam esquecidas
o afago vibrante de tuas mãos,
que libertavam das pautas a harmonia.
Perdeu nossa casa a presença grácil
da castelã medieva,
o perfil de virtude
da senhoril esposa
romana.
Na face e nos lábios de pétalas dobradas
vi-te partir mais bela
que as rosas da manhã:
as últimas que te ornaram
foram cumprir contigo o teu silêncio.
1 238
1
Dora Ferreira da Silva
Alguém
Alguém desfecha a flecha do vôo:
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou passaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou passaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.
1 463
1
Eurícledes Formiga
Canto de Amor ao Mar
Sempre tua canção, clamor e apelo,
Sabendo a sal e longes na memória,
ao ver-te cavalgado pelos ventos
nas escarpas da noite, em atropelo,
aos chicotes de fogo dos relâmpagos,
ou nas planícies de ouro das manhãs.
Recomponho o perdido itinerário,
respirando teu hálito — salsugem,
nesse meu navegar irrevelado
de minha origem marinheira... escuto
vir da gávea oscilante da lembrança
a voz evocativa de outras terras
aonde me levaram teus caminhos!
Não reclamo apagasses os meus passos
nas areias soando como teclas
em tuas longas e alvas mãos de espumas;
nem choro ser degredo o ter ficado
no alto dos alcantis a contemplar-te,
já que salgas meus olhos embebidos
na poesia verde-azul de tuas águas.
Quantas vezes me deixo submergir
em teu bojo de lendas e perigos
e vou sonhar remotas abordagens
no tombadilho das escunas mortas!
Sinto-te gotejar pelo meu corpo,
nas pálpebras, na pele, transpirando
teu sangue-sal, banhando-me de ti
nas enseadas das reminiscências.
Vem de longe esse vínculo profundo
de arco-íris e de algas que nos liga,
tanta é esta sensação de desaguar-me
em teu mundo abissal e confundir-me
com teus peixes, sargaços e corais,
ora a flutuar sobre ti como os santelmos,
ora a esgrimir os espadins da chuva
no convés de uma nau, como um pirata,
sob o alarido e o aplauso dos trovões!
Vejo-me assim, em honra de outros nautas,
heróis dos oceanos sem bandeiras,
marujos por amor às aventuras,
antepassados imemoriais.
Escuto-lhes a voz nas elegias
aos sóis que em teus abismos se afogaram
e às estrelas cadentes despencadas
do colo azul da noite como pérolas!
Para falar de amor à minha amada,
ponho tua harmonia nos meus versos;
eles recordam pequeninos búzios,
com tua alma cantando em seus recessos!
Não me é dado saber em quantos portos
ancorei minha nave... em suas quilhas
fulgem as tatuagens de saudades
com as transparências do teu ser ignoto!
Sei apenas que a música da vida
nasce contigo e cresce e envolve o mundo
e o coração-aquário do poeta!
Sabendo a sal e longes na memória,
ao ver-te cavalgado pelos ventos
nas escarpas da noite, em atropelo,
aos chicotes de fogo dos relâmpagos,
ou nas planícies de ouro das manhãs.
Recomponho o perdido itinerário,
respirando teu hálito — salsugem,
nesse meu navegar irrevelado
de minha origem marinheira... escuto
vir da gávea oscilante da lembrança
a voz evocativa de outras terras
aonde me levaram teus caminhos!
Não reclamo apagasses os meus passos
nas areias soando como teclas
em tuas longas e alvas mãos de espumas;
nem choro ser degredo o ter ficado
no alto dos alcantis a contemplar-te,
já que salgas meus olhos embebidos
na poesia verde-azul de tuas águas.
Quantas vezes me deixo submergir
em teu bojo de lendas e perigos
e vou sonhar remotas abordagens
no tombadilho das escunas mortas!
Sinto-te gotejar pelo meu corpo,
nas pálpebras, na pele, transpirando
teu sangue-sal, banhando-me de ti
nas enseadas das reminiscências.
Vem de longe esse vínculo profundo
de arco-íris e de algas que nos liga,
tanta é esta sensação de desaguar-me
em teu mundo abissal e confundir-me
com teus peixes, sargaços e corais,
ora a flutuar sobre ti como os santelmos,
ora a esgrimir os espadins da chuva
no convés de uma nau, como um pirata,
sob o alarido e o aplauso dos trovões!
Vejo-me assim, em honra de outros nautas,
heróis dos oceanos sem bandeiras,
marujos por amor às aventuras,
antepassados imemoriais.
Escuto-lhes a voz nas elegias
aos sóis que em teus abismos se afogaram
e às estrelas cadentes despencadas
do colo azul da noite como pérolas!
Para falar de amor à minha amada,
ponho tua harmonia nos meus versos;
eles recordam pequeninos búzios,
com tua alma cantando em seus recessos!
Não me é dado saber em quantos portos
ancorei minha nave... em suas quilhas
fulgem as tatuagens de saudades
com as transparências do teu ser ignoto!
Sei apenas que a música da vida
nasce contigo e cresce e envolve o mundo
e o coração-aquário do poeta!
1 267
1
Cynara Novaes
Ausência
Partida
ida
parte que fica
parte que vai
Afinal quem sofre?
Quem parte
ou quem fica
com a parte
de quem vai?
ida
parte que fica
parte que vai
Afinal quem sofre?
Quem parte
ou quem fica
com a parte
de quem vai?
924
1
Da Costa Santos
Pelo Alto Mar
Longe, pelo alto mar, onde a ave não se aninha,
rasgando os escarcéus da noite de áureos brilhos,
singra silenciosa a doida nau que é minha,
pesada de saudade e bambos amantilhos.
Um marinheiro canta e no convés caminha,
na loucura do mar olhando os tombadilhos,
para não sossobrar, sob a onda marinha,
essa nau que deixou para traz longos trilhos.
Velas brancas de luz no oceano, altaneiras,
enfunadas de vento, ao clarão das estrelas,
tendo no mastaréu o pano das bandeiras...
Toda a glória de amar, em sonhos rosicleres,
revive no pavor dos homens das procelas
e se afoga em canções no beijo das mulheres.
rasgando os escarcéus da noite de áureos brilhos,
singra silenciosa a doida nau que é minha,
pesada de saudade e bambos amantilhos.
Um marinheiro canta e no convés caminha,
na loucura do mar olhando os tombadilhos,
para não sossobrar, sob a onda marinha,
essa nau que deixou para traz longos trilhos.
Velas brancas de luz no oceano, altaneiras,
enfunadas de vento, ao clarão das estrelas,
tendo no mastaréu o pano das bandeiras...
Toda a glória de amar, em sonhos rosicleres,
revive no pavor dos homens das procelas
e se afoga em canções no beijo das mulheres.
953
1
Domingos Caldas Barbosa
Sem Acabar de Morrer
É a minha triste vida
Sempre penar, e sofrer;
Vou morrendo a todo o instante
Sem acabar de morrer.
Sabes, meu bem, o que eu sofro
Quando não te posso ver
É morrer de saudades
Sem acabar de morrer.
Prometeu-me Amor doçuras,
Contentou-se em prometer;
E me faz viver morrendo
Sem acabar de morrer.
Lisonjeiras esperanças
Vêm minha morte empecer;
Vão-me sustentando a vida
Sem acabar de morrer.
Em mim tome um triste exemplo
Quem amando quer viver;
Saiba que é viver morrendo
Sem acabar de morrer.
Quando ponho a mão no peito
Sinto um lânguido bater;
É o coração que expira
Sem acabar de morrer.
Sempre penar, e sofrer;
Vou morrendo a todo o instante
Sem acabar de morrer.
Sabes, meu bem, o que eu sofro
Quando não te posso ver
É morrer de saudades
Sem acabar de morrer.
Prometeu-me Amor doçuras,
Contentou-se em prometer;
E me faz viver morrendo
Sem acabar de morrer.
Lisonjeiras esperanças
Vêm minha morte empecer;
Vão-me sustentando a vida
Sem acabar de morrer.
Em mim tome um triste exemplo
Quem amando quer viver;
Saiba que é viver morrendo
Sem acabar de morrer.
Quando ponho a mão no peito
Sinto um lânguido bater;
É o coração que expira
Sem acabar de morrer.
2 155
1
Carlos Nóbrega
A Invenção da Alma
Pronto: morri.
E agora?
Agora preciso do teu amor
mais do que nunca
E agora?
Agora preciso do teu amor
mais do que nunca
867
1
Angela Carneiro
Pai
morreu meu pai
mas o poema da sua morte não sai
está aqui atravancado
engarrafando minhas letras
Devia canalizar sua perda
dar forma ao seu espírito
transformar seu sono
em algo lírico
Mas desde que morreu meu pai
e faz mais de ano
Meu Deus!como ainda o amo!
a beleza da mortal dor não sai
seu corpo em sono me volta
o choro solta
só sei dizer ai.
Será isso que escrevo o poema prometido?
Será finalmente agora
a hora do que foi sentido?
Preciso deste poema
preciso lembrar sua partida
mas,quando lembro seu rosto adormecido
só sai o poema
da sua vida.
Meu pai era grande, enorme
é tão bom ter um pai grande
um abraço cobertor
mão que encolhe a nossa
olhar para o alto quando se pede desculpas
ouvir sua voz grossa.
(como pode tanto homem caber em caixa tão pequena?
Suas cinzas na madeira clara não deviam estar lá
e sim fazer plantar uma flor nobre e rara)
A madrugada, o susto, a dor.
Cadê meu abraço cobertor?
Os pêsames ingleses são mais gentis
os telefonemas interurbanos mais sutis.
Morte anunciada num pedido de pizza...
senti a pista do adeus
mas nada fiz.
A policial foi meiga,
o legista competente
o agente funerário
naquele internacional calvário
era quase gente
saído de um texto de Dickens, alto como meu pai, branco de chuva
negro nas capas
sua voz pausada
como tapas.
Meu pai morreu feliz
Tinha as filhas em Londres por sorteio
a mulher amada ao seu lado
tinha,na véspera, se embriagado
vinho francês, boa safra
nada restou na garrafa
seu diário continha planos
de lá voltar para o ano.
Mas foi outra a viagem
no avião, apenas sua bagagem
Meu pai só queria viajar
o coração não prestava, enchia os pulmões de sangue
e ele queria comer churrasco e não fazer fiasco no amor
terminou seu programa dormindo em sua cama
com um sorriso tranquilo e um filete de vinho e sangue.
Que raiva que me dá!
Não posso te perdoar por me deixar órfã
de sua voz
meus filhos sem o vovô
que dava beijos e broncas
Você tinha tanto para fazer com eles!
Cadê a Disneylândia que prometeu?
Cadê sua mão enorme de carinho e palmada?
Cadê você, papai?
Eu ainda sou tão pequena
estou perdida na faculdade
lá só tem o seu busto em bronze
aquele que eu destestava pois em vida me lembrava
que você ía morrer.
Posso até dizer que foi melhor assim.
não sou egoísta, sou artista e crente
fui cursilhista e acredito em vida após a morte
e por sorte,você foi bom.
Meu discurso é piedoso e inteligente
posso até dizer-me carente mas olho pro céu
como te olhava tão alto
suspiro, foi esperto fugindo aqui perto
Não viu que seu voto para presidente
foi cuspido por um indecente
não viu que sua irmã decidiu a todos atormentar
só falava em se suicidar.
Mas também você perdeu!
Você ia adorar a linha vermelha
ia dizer "formidável!" franzindo a sobrancelha
e perdeu o Coquetel, um programa de TV
como muitos seios a mostra
bem como você gosta
E a seleção de volei? Esta foi sua maior falha
você não ver a nossa medalha.
Será que você vestiria preto naquele domingo?
Ah, meu pai,eu ia me orgulhar se te visse de luto
teríamos caminhado de mãos dadas na orla
por este país defunto
Ah,paizinho, se eu pudesse
te trazia nas minhas preces só pra ver as coisas boas
com olhos turistas eu te mostraria que o Brasil pode ter jeito
que a garotada está mudada
são índios de rosto em pintura
se chamam de caras-pintadas
são outras criaturas.
Você era tão grande
que o coração cansou de bombear.
Olha pai,não quero mais te cansar
sei que ando reclamando de falta de grana
de excesso de preocupação
mas, não liga não,pode deixar
pois se você me ensinou alguma coisa
essa coisa foi lutar.
Feliz dias dos pais, meu querido, Meuzinho, meu
velho, meu papai Darcy!
Beijos carinhosos de sua sempre filhinha caçula e
pequena. Sinto falta docê,pai!
mas o poema da sua morte não sai
está aqui atravancado
engarrafando minhas letras
Devia canalizar sua perda
dar forma ao seu espírito
transformar seu sono
em algo lírico
Mas desde que morreu meu pai
e faz mais de ano
Meu Deus!como ainda o amo!
a beleza da mortal dor não sai
seu corpo em sono me volta
o choro solta
só sei dizer ai.
Será isso que escrevo o poema prometido?
Será finalmente agora
a hora do que foi sentido?
Preciso deste poema
preciso lembrar sua partida
mas,quando lembro seu rosto adormecido
só sai o poema
da sua vida.
Meu pai era grande, enorme
é tão bom ter um pai grande
um abraço cobertor
mão que encolhe a nossa
olhar para o alto quando se pede desculpas
ouvir sua voz grossa.
(como pode tanto homem caber em caixa tão pequena?
Suas cinzas na madeira clara não deviam estar lá
e sim fazer plantar uma flor nobre e rara)
A madrugada, o susto, a dor.
Cadê meu abraço cobertor?
Os pêsames ingleses são mais gentis
os telefonemas interurbanos mais sutis.
Morte anunciada num pedido de pizza...
senti a pista do adeus
mas nada fiz.
A policial foi meiga,
o legista competente
o agente funerário
naquele internacional calvário
era quase gente
saído de um texto de Dickens, alto como meu pai, branco de chuva
negro nas capas
sua voz pausada
como tapas.
Meu pai morreu feliz
Tinha as filhas em Londres por sorteio
a mulher amada ao seu lado
tinha,na véspera, se embriagado
vinho francês, boa safra
nada restou na garrafa
seu diário continha planos
de lá voltar para o ano.
Mas foi outra a viagem
no avião, apenas sua bagagem
Meu pai só queria viajar
o coração não prestava, enchia os pulmões de sangue
e ele queria comer churrasco e não fazer fiasco no amor
terminou seu programa dormindo em sua cama
com um sorriso tranquilo e um filete de vinho e sangue.
Que raiva que me dá!
Não posso te perdoar por me deixar órfã
de sua voz
meus filhos sem o vovô
que dava beijos e broncas
Você tinha tanto para fazer com eles!
Cadê a Disneylândia que prometeu?
Cadê sua mão enorme de carinho e palmada?
Cadê você, papai?
Eu ainda sou tão pequena
estou perdida na faculdade
lá só tem o seu busto em bronze
aquele que eu destestava pois em vida me lembrava
que você ía morrer.
Posso até dizer que foi melhor assim.
não sou egoísta, sou artista e crente
fui cursilhista e acredito em vida após a morte
e por sorte,você foi bom.
Meu discurso é piedoso e inteligente
posso até dizer-me carente mas olho pro céu
como te olhava tão alto
suspiro, foi esperto fugindo aqui perto
Não viu que seu voto para presidente
foi cuspido por um indecente
não viu que sua irmã decidiu a todos atormentar
só falava em se suicidar.
Mas também você perdeu!
Você ia adorar a linha vermelha
ia dizer "formidável!" franzindo a sobrancelha
e perdeu o Coquetel, um programa de TV
como muitos seios a mostra
bem como você gosta
E a seleção de volei? Esta foi sua maior falha
você não ver a nossa medalha.
Será que você vestiria preto naquele domingo?
Ah, meu pai,eu ia me orgulhar se te visse de luto
teríamos caminhado de mãos dadas na orla
por este país defunto
Ah,paizinho, se eu pudesse
te trazia nas minhas preces só pra ver as coisas boas
com olhos turistas eu te mostraria que o Brasil pode ter jeito
que a garotada está mudada
são índios de rosto em pintura
se chamam de caras-pintadas
são outras criaturas.
Você era tão grande
que o coração cansou de bombear.
Olha pai,não quero mais te cansar
sei que ando reclamando de falta de grana
de excesso de preocupação
mas, não liga não,pode deixar
pois se você me ensinou alguma coisa
essa coisa foi lutar.
Feliz dias dos pais, meu querido, Meuzinho, meu
velho, meu papai Darcy!
Beijos carinhosos de sua sempre filhinha caçula e
pequena. Sinto falta docê,pai!
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1
Castro Alves
Manuela - (Cantiga do Rancho)
Companheiros! já na serra
Erra.
A tropa inteira a pastar...
Tropeiros! ... junto à candeia
Eia!
Soltemos nosso trovar ...
Té que as barras do Oriente
Rente
Saiam dos montes de lá...
Cada qual sua cantiga
Diga
Aos ecos do Sincorá.
No rancho as noites se escoam.
Voam,
Quando geme o trovador...
Ouvi, pois! que esta guitarra...
Narra
O meu romance de amor.
...........................................
Manuela era formosa
Rosa,
Rosa aberta no sertão...
Com seu torço adamascado
Dado
Ao sopro da viração.
Provocante, mas esquiva,
Viva
Como um doudo beija-flor...
Manuela - a moreninha
Tinha
Em cada peito um amor ...
Inda agora quando o vento
Lento
Traz-me saudades de então
Parece que a vejo ainda
Linda
Do fado no turbilhão
Vejo-lhe o pé resvalando
Brando
No fandango a delirar.
Inda ao som das castanholas
Rolas
Diante do meu olhar ...
Manuela... mesmo agora
Chora
Minhalma Pensando em ti...
E na viola relembro
Lembro
Tiranas que então gemi.
"Manuela, Manuela
Bela
Como tu ninguém luziu...
Minha travessa morena,
Pena
Pena tem de quem te viu!...
Manuela... Eu não perjuro!
Juro
Pela luz dos olhos teus...
Morrer por ti Manuela
Bela,
Se esqueces os sonhos meus.
Por teus sombrios olhares
- Mares
Onde eu me afogo de amor...
Pelas tranças que desatas
- Matas
Cheias de aroma e frescor ...
Pelos peitos que entre rendas
Vendas
Com medo que os vão roubar...
Pela perna que no frio
Rio
Pude outro dia enxergar ...
Por tudo que tem a terra,
Serra,
Mato, rio, campo e céu...
Eu te juro, Manuela,
Bela
Que serei cativo teu ...
Tu bem sabes que Maria,
Fria
É pra outros, não pra mim...
Que morrem Lúcia, Joana
E Ana
Aos sons do meu bandolim ...
Mas tu és um passarinho
- Ninho
Fizeste no peito meu ...
Eu sou a boca - és o canto
Tanto
Que sem ti não canto eu.
Vamos pois A noite cresce
Desce
A lua a beijar a flor
À sombra dos arvoredos
Ledos
Os ventos choram de amor
Vamos pois ó moreninha
Minha
Minha esposa ali serás
Ao vale a relva tapiza
Pisa
Serão teus Paços-reais!
Por padre uma árvore vasta
Basta!
Por igreja - o azul do céu...
Serão as brancas estrelas
- Velas
Acesas pra o himeneu".
Assim nos tempos perdidos
Idos
Eu cantava mas em vão
Manuela, que me ouvia,
Ria,
Casta flor da solidão!
Companheiros! se inda agora
Chora
Minha viola a gemer,
É porque um dia... Escutai-me
Dai-me
Sim! dai-me antes que beber!. . .
É que um dia mas bebamos
Vamos
No copo afogue-se a dor!
Manuela, Manuela,
Bela,
Fez-se amante do senhor!
Erra.
A tropa inteira a pastar...
Tropeiros! ... junto à candeia
Eia!
Soltemos nosso trovar ...
Té que as barras do Oriente
Rente
Saiam dos montes de lá...
Cada qual sua cantiga
Diga
Aos ecos do Sincorá.
No rancho as noites se escoam.
Voam,
Quando geme o trovador...
Ouvi, pois! que esta guitarra...
Narra
O meu romance de amor.
...........................................
Manuela era formosa
Rosa,
Rosa aberta no sertão...
Com seu torço adamascado
Dado
Ao sopro da viração.
Provocante, mas esquiva,
Viva
Como um doudo beija-flor...
Manuela - a moreninha
Tinha
Em cada peito um amor ...
Inda agora quando o vento
Lento
Traz-me saudades de então
Parece que a vejo ainda
Linda
Do fado no turbilhão
Vejo-lhe o pé resvalando
Brando
No fandango a delirar.
Inda ao som das castanholas
Rolas
Diante do meu olhar ...
Manuela... mesmo agora
Chora
Minhalma Pensando em ti...
E na viola relembro
Lembro
Tiranas que então gemi.
"Manuela, Manuela
Bela
Como tu ninguém luziu...
Minha travessa morena,
Pena
Pena tem de quem te viu!...
Manuela... Eu não perjuro!
Juro
Pela luz dos olhos teus...
Morrer por ti Manuela
Bela,
Se esqueces os sonhos meus.
Por teus sombrios olhares
- Mares
Onde eu me afogo de amor...
Pelas tranças que desatas
- Matas
Cheias de aroma e frescor ...
Pelos peitos que entre rendas
Vendas
Com medo que os vão roubar...
Pela perna que no frio
Rio
Pude outro dia enxergar ...
Por tudo que tem a terra,
Serra,
Mato, rio, campo e céu...
Eu te juro, Manuela,
Bela
Que serei cativo teu ...
Tu bem sabes que Maria,
Fria
É pra outros, não pra mim...
Que morrem Lúcia, Joana
E Ana
Aos sons do meu bandolim ...
Mas tu és um passarinho
- Ninho
Fizeste no peito meu ...
Eu sou a boca - és o canto
Tanto
Que sem ti não canto eu.
Vamos pois A noite cresce
Desce
A lua a beijar a flor
À sombra dos arvoredos
Ledos
Os ventos choram de amor
Vamos pois ó moreninha
Minha
Minha esposa ali serás
Ao vale a relva tapiza
Pisa
Serão teus Paços-reais!
Por padre uma árvore vasta
Basta!
Por igreja - o azul do céu...
Serão as brancas estrelas
- Velas
Acesas pra o himeneu".
Assim nos tempos perdidos
Idos
Eu cantava mas em vão
Manuela, que me ouvia,
Ria,
Casta flor da solidão!
Companheiros! se inda agora
Chora
Minha viola a gemer,
É porque um dia... Escutai-me
Dai-me
Sim! dai-me antes que beber!. . .
É que um dia mas bebamos
Vamos
No copo afogue-se a dor!
Manuela, Manuela,
Bela,
Fez-se amante do senhor!
4 113
1
Castro Alves
Lúcia
poema
Na formosa estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos — crianças —
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.
Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia ...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna,
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?l...
Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosses filha e não cativa...
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Coas roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,
Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"
Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...
Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.
Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então coa natureza.
"Adeus! pra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto! ...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."
Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos,
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."
Depois além, um grupo, informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo. . .
Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
Era o lencinho tremulo de Lúcia...
epílogo
Muitos anos correram depois disto ...
Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária,
Diante de mim ua mulher seguia,
— Co o cântaro à cabeça — pés descalços,
Coos ombros nus, mas pálidos e magros ...
Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada ...
E eu que a escutava procurava, embalde,
Uma lembrança juvenil e alegre
Do tempo em que aprendera aqueles versos...
De repente, lembrei-me. . . "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou ... fitou-me pasma,
Soltou um grito. . . e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou ... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio ...
Cobriu coa mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna ...
Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata ... a pobre Lúcia!
Na formosa estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos — crianças —
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.
Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia ...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna,
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?l...
Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosses filha e não cativa...
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Coas roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,
Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"
Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...
Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.
Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então coa natureza.
"Adeus! pra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto! ...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."
Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos,
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."
Depois além, um grupo, informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo. . .
Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
Era o lencinho tremulo de Lúcia...
epílogo
Muitos anos correram depois disto ...
Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária,
Diante de mim ua mulher seguia,
— Co o cântaro à cabeça — pés descalços,
Coos ombros nus, mas pálidos e magros ...
Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada ...
E eu que a escutava procurava, embalde,
Uma lembrança juvenil e alegre
Do tempo em que aprendera aqueles versos...
De repente, lembrei-me. . . "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou ... fitou-me pasma,
Soltou um grito. . . e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou ... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio ...
Cobriu coa mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna ...
Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata ... a pobre Lúcia!
2 897
1
Antonieta Raucci
Haicai
Pássaros cantam
Ressoam dentro do peito
Te espero
Perfume e voz
Flores e folhas voam
Tronco despido
Ressoam dentro do peito
Te espero
Perfume e voz
Flores e folhas voam
Tronco despido
1 084
1
Anízio Vianna
terra estrangeira
e acontece
de você ser linda
e eu estar com frio
numa terra estrangeira
e acontece
de você viver a mil
e falar sozinha
num lugar que não é seu
e acontece
de você apagar essa lua
e rezar confusa com um terço
da fé que deus lhe deu
e acontece
de você criar coragem
no instante em que parto
para ter com os meus
de você ser linda
e eu estar com frio
numa terra estrangeira
e acontece
de você viver a mil
e falar sozinha
num lugar que não é seu
e acontece
de você apagar essa lua
e rezar confusa com um terço
da fé que deus lhe deu
e acontece
de você criar coragem
no instante em que parto
para ter com os meus
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1
José Maria do Amaral
Soneto
Passaste como a estrela matutina,
Que se some na luz pura da aurora;
Da vida só viveste aquela hora
Em que a existência em flor luz sem neblina.
Ver-te e perder-te! De tão triste sina
Não passa a mágoa em mim, antes piora;
Sem ver-te já, minha alma ainda te adora
Em triste culto que a saudade ensina.
Não vivo aqui; a vida em ti só ponho,
Na fé, de Cristo filha, a dor abrigo,
Futuro em ti no céu vejo risonho!
Neste mundo, meu mundo é teu jazigo;
Dizem que a vida é triste e falaz sonho,
Se é sonho a vida, sonharei contigo.
Que se some na luz pura da aurora;
Da vida só viveste aquela hora
Em que a existência em flor luz sem neblina.
Ver-te e perder-te! De tão triste sina
Não passa a mágoa em mim, antes piora;
Sem ver-te já, minha alma ainda te adora
Em triste culto que a saudade ensina.
Não vivo aqui; a vida em ti só ponho,
Na fé, de Cristo filha, a dor abrigo,
Futuro em ti no céu vejo risonho!
Neste mundo, meu mundo é teu jazigo;
Dizem que a vida é triste e falaz sonho,
Se é sonho a vida, sonharei contigo.
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1
Bento Prado Júnior
A Lua-Cheia
Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
lembrança do nosso Lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
A lua-cheia de outrora
tinha muito mais poesia!
São Jorge de bota e espora,
-que soberba montaria!-
Lá, lança em riste, feria
o feio e feroz dragão,
que o duro ferro mordia,
nas ânsias da convulsão!
A lua-cheia, hoje em dia,
é simples bola vazia
que rola pela amplidão...
Despojo de terra, fria,
alma vivente não cria,
nem sequer vegetação!
A lua-cheia, hoje em dia,
não tem significação!
Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
Lembraça do nosso lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
lembrança do nosso Lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
A lua-cheia de outrora
tinha muito mais poesia!
São Jorge de bota e espora,
-que soberba montaria!-
Lá, lança em riste, feria
o feio e feroz dragão,
que o duro ferro mordia,
nas ânsias da convulsão!
A lua-cheia, hoje em dia,
é simples bola vazia
que rola pela amplidão...
Despojo de terra, fria,
alma vivente não cria,
nem sequer vegetação!
A lua-cheia, hoje em dia,
não tem significação!
Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
Lembraça do nosso lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
1 384
1
Bernardo Almeida
Soneto do Reencontro
A ausência que há em mim se transfigura
em mãos e em olhos súbitos no poço,
onde venho saciar, mais com ternura,
a sede do cismar outrora moço.
No fundo espelho a virgem prematura
desnuda-se e reveste-se em colosso;
e ao eco milenar que me tortura,
responde cada voz que já não ouço.
Oculta face pousa em minha face.
Não sei de onde ela vem, de que distância:
— se das raízes líquidas da pedra
ou se de mim, se do silêncio medra,
como a canção com que ressuscitasse
os sepultados ídolos da infância.
em mãos e em olhos súbitos no poço,
onde venho saciar, mais com ternura,
a sede do cismar outrora moço.
No fundo espelho a virgem prematura
desnuda-se e reveste-se em colosso;
e ao eco milenar que me tortura,
responde cada voz que já não ouço.
Oculta face pousa em minha face.
Não sei de onde ela vem, de que distância:
— se das raízes líquidas da pedra
ou se de mim, se do silêncio medra,
como a canção com que ressuscitasse
os sepultados ídolos da infância.
566
1
Bocage
O céu, de opacas sombras abafado
O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;
Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;
Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.
Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;
Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;
Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.
Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.
3 534
1
Bastos Portela
Nota Final
(A minha ex-noiva)
Virgínia! o nosso amor acabou-se!... NenhumaEsperança sequer existe em nós agora!Sim, morreu nosso amor! - Desfez-se como a brumaQue se desfaz assim que nasce a luz da aurora.
Extinguiu-se o meu sonho, o meu prazer... Em suma,Os sorrisos que, à boca, eu tinha a toda hora,Calaram-se de vez... Fugiram de uma em umaAs doces ilusões que tínhamos outrora!
Tudo acabou-se enfim! O que hoje apenas restaDa história singular - negra história funesta! -Desse amor infeliz da nossa mocidade,
É simples, e triste, e querida lembrança.- Um cacho virginal da tua loura trança,Que eu beijo a soluçar nas horas de saudade!
Virgínia! o nosso amor acabou-se!... NenhumaEsperança sequer existe em nós agora!Sim, morreu nosso amor! - Desfez-se como a brumaQue se desfaz assim que nasce a luz da aurora.
Extinguiu-se o meu sonho, o meu prazer... Em suma,Os sorrisos que, à boca, eu tinha a toda hora,Calaram-se de vez... Fugiram de uma em umaAs doces ilusões que tínhamos outrora!
Tudo acabou-se enfim! O que hoje apenas restaDa história singular - negra história funesta! -Desse amor infeliz da nossa mocidade,
É simples, e triste, e querida lembrança.- Um cacho virginal da tua loura trança,Que eu beijo a soluçar nas horas de saudade!
969
1
Ada Ciocci
Acalanto
Vai amado.
Busca por onde quiseres,
com quem quiseres,
como quiseres,
o prazer.
Até mesmo,
aquele prazer que um dia alguém apelidou de amor.
E,
se por acaso te cansares
e,
do compromisso que um dia nos uniu te lembrares,
se desejares,
volta.
Serei a que conforta.
Não saberás da dor,
da saudade,
das lágrimas sentidas que tua ausência causou.
Busca por onde quiseres,
com quem quiseres,
como quiseres,
o prazer.
Até mesmo,
aquele prazer que um dia alguém apelidou de amor.
E,
se por acaso te cansares
e,
do compromisso que um dia nos uniu te lembrares,
se desejares,
volta.
Serei a que conforta.
Não saberás da dor,
da saudade,
das lágrimas sentidas que tua ausência causou.
1 319
1
Li Po
AS BRANCAS NUVENS
As brancas nuvens pairam sobre Chiu e Chu,
As brancas nuvens vão contigo sempre.
Estão contigo em Chiu, e estão contigo em Chu,
As brancas nuvens vão para onde fores.
Cruzam aflantes sobre o rio Hsiang.
Dormindo, as brancas nuvens são teu leito.
Se acordas, brancas nuvens são teu lar.
As brancas nuvens vão contigo sempre.
Estão contigo em Chiu, e estão contigo em Chu,
As brancas nuvens vão para onde fores.
Cruzam aflantes sobre o rio Hsiang.
Dormindo, as brancas nuvens são teu leito.
Se acordas, brancas nuvens são teu lar.
1 109
1
Adolfo Casais Monteiro
Ode ao Tejo e à Memória de Álvaro de Campos
E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando
Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando
Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!
2 513
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Lope de Vega
Vireno, aquel mimanso regalado
Vireno, aquel cordeiro tão mimado
e de coleira azul, aquel formoso
que com balido rouco e amoroso
levava pelos montes a meu gado,
aquel, de seu tosão tão encrespado,
e alegres olhos e mirar gracioso,
por quem eu de ninguém fui invejoso,
sendo de mil pastores invejado,
já mo roubaram, ó Vireno irmão:
para outro já retouça, outro provoca,
dorme de dia as noites que acarinha;
já come o branco sal por outra mão,
já come alheia mão com sua boca
de cuja língua se abrasou a minha.
e de coleira azul, aquel formoso
que com balido rouco e amoroso
levava pelos montes a meu gado,
aquel, de seu tosão tão encrespado,
e alegres olhos e mirar gracioso,
por quem eu de ninguém fui invejoso,
sendo de mil pastores invejado,
já mo roubaram, ó Vireno irmão:
para outro já retouça, outro provoca,
dorme de dia as noites que acarinha;
já come o branco sal por outra mão,
já come alheia mão com sua boca
de cuja língua se abrasou a minha.
1 322
1
Edith Sitwell
TU, JOVEM ARCO-ÍRIS
Tu, jovem Arco-Íris de minhas lágrimas, Alcião gentil
Por sobre as torvas águas do meu seio:
Conduz-me como outrora a minha dor, teu gado, pelas côncavas
Encostas aos distantes pastos do perdido céu.
Mas ai, murcharam já os prados e o horizonte
Do gentil Alcião, sol de jacinto;
Frios são os ramos, as constelações caindo
Dos galhos primaveris, e o teu coração está longe
E frio como Arcturo, a distâncias de todos os anos de luz
Da terra florescente e da treva em meu peito.
Por sobre as torvas águas do meu seio:
Conduz-me como outrora a minha dor, teu gado, pelas côncavas
Encostas aos distantes pastos do perdido céu.
Mas ai, murcharam já os prados e o horizonte
Do gentil Alcião, sol de jacinto;
Frios são os ramos, as constelações caindo
Dos galhos primaveris, e o teu coração está longe
E frio como Arcturo, a distâncias de todos os anos de luz
Da terra florescente e da treva em meu peito.
1 124
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Tatiana V. Mattos
Eternamente sua
Serei eternamente sua pois,
só tu conheces meu cheiro,
meu gosto e meu corpo.
Tu podes me magoar,
me fazer calar e,
ainda assim serei eternamente sua.
Deixarei que beijes outras bocas,
que toques outros corpos,
que sintas o prazer de outros gemidos
e que conheças o íntimo de outros seres.
Deixarei.
Para ter a certeza de que
voltarás e que entenderás que
quando beijaste outra boca
– era a minha que tu querias,
que quando tocaste outro corpo
– era o meu que querias tocar,
que quando sentiste o prazer de outro gemido
– era o meu que querias sentir e, que,
finalmente, quando conheceste
o interior de outro ser
– era o meu interior que tu buscavas
em tuas infinitas procuras.
Deixarei-te livre, para teres a certeza
de que és meu e, assim voltar
com a certeza de que ficarás.
E então, depois de tantas buscas infindas suas,
revelarei-te que estava a sua espera,
assim como sempre estive.
E seremos eternamente nós.
só tu conheces meu cheiro,
meu gosto e meu corpo.
Tu podes me magoar,
me fazer calar e,
ainda assim serei eternamente sua.
Deixarei que beijes outras bocas,
que toques outros corpos,
que sintas o prazer de outros gemidos
e que conheças o íntimo de outros seres.
Deixarei.
Para ter a certeza de que
voltarás e que entenderás que
quando beijaste outra boca
– era a minha que tu querias,
que quando tocaste outro corpo
– era o meu que querias tocar,
que quando sentiste o prazer de outro gemido
– era o meu que querias sentir e, que,
finalmente, quando conheceste
o interior de outro ser
– era o meu interior que tu buscavas
em tuas infinitas procuras.
Deixarei-te livre, para teres a certeza
de que és meu e, assim voltar
com a certeza de que ficarás.
E então, depois de tantas buscas infindas suas,
revelarei-te que estava a sua espera,
assim como sempre estive.
E seremos eternamente nós.
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