Adolfo Casais Monteiro

Adolfo Casais Monteiro

1908–1972 · viveu 64 anos PT PT

Adolfo Casais Monteiro foi um poeta, ensaísta e crítico literário português. Destacou-se pela sua poesia, marcada por uma profunda reflexão sobre a condição humana, o tempo e a memória, frequentemente expressa num lirismo contido e de grande rigor formal. A sua obra ensaística abordou temas cruciais da literatura portuguesa e da cultura em geral, com uma perspicácia analítica notável. Atuou também como professor universitário e figura ativa no panorama cultural, deixando um legado intelectual significativo.

n. 1908-07-04, Porto · m. 1972-07-24, São Paulo

28 046 Visualizações

Permanência

Não peçam aos poetas um caminho. O poeta
não sabe nada de geografia celestial.
Anda aos encontrões da realidade
sem acertar o tempo com o espaço.
Os relógios e as fronteiras não tem
tradução na sua língua. Falta-lhe
o amor da convenção em que nas outras
as palavras fingem de certezas.

O poeta lê apenas os sinais
da terra. Seus passos cobrem
apenas distâncias de amor e
de presença. Sabe
apenas inúteis palavras de consolo
e mágoa pelo inútil. Conhece
apenas do tempo o já perdido; do amor
a câmara escura sem revelações; do espaço
o silêncio de um vôo pairando
em toda a parte.

Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe
- morto redivivo.
Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.

Tudo é nada para quem
descreu de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo.

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

**Nome completo:** Adolfo Rodrigues Casais Monteiro **Data e local de nascimento:** 19 de outubro de 1908, Porto, Portugal **Data e local de morte:** 14 de fevereiro de 1972, Lisboa, Portugal **Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem:** Nasceu numa família de intelectuais e académicos. O seu pai, Joaquim de Carvalho, foi um destacado filósofo e professor universitário, o que proporcionou a Adolfo Casais Monteiro um ambiente familiar propício ao desenvolvimento intelectual e cultural. **Nacionalidade e língua(s) de escrita:** Português **Contexto histórico em que viveu:** Viveu grande parte da sua vida adulta durante o Estado Novo em Portugal, um regime autoritário que moldou o panorama político, social e cultural do país. Testemunhou as transformações sociais e as convulsões internacionais do século XX.

Infância e formação

**Origem familiar e ambiente social:** Cresceu num ambiente familiar culto e estimulante, com forte ênfase na educação e no debate intelectual, proporcionado pelo seu pai, Joaquim de Carvalho. Esta base familiar foi fundamental para a sua formação. **Educação formal e autodidatismo:** Frequentou a Universidade de Coimbra, onde estudou Direito, mas o seu interesse literário e filosófico, incutido pelo ambiente familiar, foi determinante. Desenvolveu um forte autodidatismo na área das humanidades. **Influências iniciais (leituras, cultura, religião, política):** A sua formação intelectual foi marcada pelas leituras de autores clássicos e contemporâneos, bem como pela influência do pensamento filosófico e da literatura europeia. O ambiente académico do seu pai expôs-o a discussões sobre cultura, filosofia e política. **Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu:** Embora não se tenha filiado rigidamente a um movimento, a sua obra reflete influências do modernismo europeu, do existencialismo e de uma profunda interrogação sobre a condição humana. **Eventos marcantes na juventude:** A sua juventude foi marcada por um intenso interesse pela literatura e pela filosofia, que o afastaram progressivamente dos estudos jurídicos formais em prol de uma dedicação mais profunda às artes e ao saber.

Percurso literário

**Início da escrita (quando e como começou):** Começou a escrever poesia e ensaios desde cedo, incentivado pelo ambiente familiar e pela sua própria vocação literária. A publicação dos seus primeiros trabalhos ocorreu nas décadas de 1930 e 1940. **Evolução ao longo do tempo (fases, mudanças de estilo):** A sua obra poética evoluiu de uma expressão mais formal para uma maior liberdade, mantendo sempre um rigor de pensamento e uma profundidade temática. As suas fases podem ser caracterizadas por uma crescente introspeção e pela exploração de temas existenciais. **Evolução cronológica da obra:** Iniciou-se com poemas de cariz mais lírico e reflexivo, expandindo-se para uma obra ensaística de grande fôlego, onde analisou a literatura portuguesa e a cultura em geral. **Colaborações em revistas, jornais e antologias:** Colaborou ativamente em diversas publicações literárias e culturais de relevo em Portugal, contribuindo com poesia, ensaios e críticas. **Atividade como crítico, tradutor ou editor:** Foi um notável crítico literário, ensaísta e professor universitário, dedicando-se à análise da literatura portuguesa e à divulgação do pensamento contemporâneo. Não se destacou como tradutor ou editor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias **Obras principais com datas e contexto de produção:** * 'Poesia' (1943): marco inicial da sua obra poética publicada. * 'Poemas' (1955): consolidação do seu percurso lírico. * 'O Ensino da Poesia' (1961): um dos seus ensaios mais influentes sobre a arte poética. * 'A Crítica Literária em Portugal' (1967): análise abrangente da crítica literária portuguesa. **Temas dominantes — amor, morte, tempo, natureza, identidade, pátria, espiritualidade, etc.:** Os seus temas centrais incluem a reflexão sobre a condição humana, a efemeridade do tempo, a memória, a identidade, a busca por sentido e a espiritualidade, muitas vezes abordados com um tom elegíaco e existencial. **Forma e estrutura — uso do soneto, verso livre, forma fixa, experimentação métrica:** A sua poesia revela um domínio das formas tradicionais, como o soneto, mas também uma abertura ao verso livre, sempre com uma preocupação de rigor e musicalidade. A estrutura dos seus poemas reflete a clareza e a profundidade do seu pensamento. **Recursos poéticos (metáfora, ritmo, musicalidade):** Utilizou recursos como a metáfora, a imagem poética e um ritmo cadenciado para expressar as suas ideias e sensações, criando uma poesia de grande densidade e expressividade. **Tom e voz poética — lírico, satírico, elegíaco, épico, irónico, confessional:** O seu tom poético é predominantemente lírico, reflexivo e elegíaco, com uma voz confessional que se abre a interrogações universais sobre a existência. **Voz poética (pessoal, universal, fragmentada, etc.):** A voz poética em Casais Monteiro tende a ser pessoal, mas transcende o eu para alcançar uma dimensão universal, partilhando inquietações comuns à experiência humana. **Linguagem e estilo — vocabulário, densidade imagética, recursos retóricos preferidos:** A sua linguagem é cuidada e precisa, por vezes erudita, mas acessível. O estilo é marcado pela clareza do pensamento, pela densidade imagética e pela utilização subtil de recursos retóricos que acentuam a expressividade. **Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura:** Contribuiu para a modernização da poesia portuguesa com a sua abordagem reflexiva e existencial, e para a crítica literária com análises profundas e contextualizadas. **Relação com a tradição e com a modernidade:** Soube conciliar o respeito pela tradição literária portuguesa com uma abertura às correntes modernas, integrando-as de forma original na sua obra. **Movimentos literários associados (ex: simbolismo, modernismo):** Embora não se inscreva estritamente num movimento, a sua obra dialoga com o modernismo pela sua preocupação com a forma e com o conteúdo existencial. **Obras menos conhecidas ou inéditas:** A sua obra ensaística, embora menos conhecida pelo grande público que a sua poesia, é de igual importância e profundidade, cobrindo uma vasta gama de tópicos da literatura e cultura portuguesas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico **Relação com acontecimentos históricos (guerras, revoluções, regimes):** Viveu sob o regime do Estado Novo, cujas limitações culturais e de liberdade de expressão representaram um pano de fundo para a sua produção intelectual. A sua obra reflete, de forma implícita, o clima de repressão e o anseio por liberdade. **Relação com outros escritores ou círculos literários:** Manteve contacto com outros intelectuais e escritores da sua geração, participando em debates e promovendo a troca de ideias no meio literário português. **Geração ou movimento a que pertence (ex.: Romantismo, Modernismo, Surrealismo):** Pode ser associado a uma geração de intelectuais que, embora não rigidamente enquadrados num movimento específico, partilhavam uma profunda preocupação com a modernidade e a condição humana no contexto português do século XX. **Posição política ou filosófica:** A sua obra, embora não abertamente política, manifesta uma postura humanista e progressista, com uma visão crítica sobre a sociedade e a cultura. **Influência da sociedade e cultura na obra:** A sociedade e a cultura portuguesa do seu tempo, marcadas pelo isolamento e pela repressão, influenciaram a sua obra, que muitas vezes se debruça sobre a condição individual e a busca por transcendência. **Diálogos e tensões com contemporâneos:** Engajou-se em debates intelectuais e críticos, dialogando com as diversas correntes de pensamento e literárias da época. **Receção crítica em vida vs. reconhecimento póstumo:** Em vida, foi reconhecido por um círculo restrito de críticos e leitores atentos. O seu reconhecimento alargou-se após a morte, com uma reavaliação da sua obra poética e ensaística.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal **Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra:** A sua relação com o pai, Joaquim de Carvalho, foi crucial na sua formação intelectual. As suas vivências pessoais e reflexões sobre o amor e a existência humana impregnaram a sua poesia. **Amizades e rivalidades literárias:** Manteve relações de amizade e diálogo com outros intelectuais da época, embora não sejam conhecidas rivalidades literárias de grande projeção. **Experiências e crises pessoais, doenças ou conflitos:** A sua vida foi marcada por uma profunda introspeção e por uma sensibilidade aguçada perante as questões existenciais, que se refletiram na sua obra. **Profissões paralelas (se não viveu só da poesia):** Foi professor universitário na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde lecionou literatura portuguesa e teoria da literatura, além de ter exercido funções na área da crítica literária. **Crenças religiosas, espirituais ou filosóficas:** A sua obra denota uma profunda busca espiritual e filosófica, explorando questões de sentido, transcendência e a condição humana. **Posições políticas e envolvimento cívico:** Embora não tenha sido um ativista político proeminente, a sua postura humanista e a crítica implícita ao regime refletem uma consciência cívica.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção **Lugar na literatura nacional e internacional:** É considerado um dos poetas e ensaístas mais importantes da literatura portuguesa do século XX. A sua obra tem sido objeto de estudo e reinterpretação. **Prémios, distinções e reconhecimento institucional:** Recebeu algumas distinções, mas o seu maior reconhecimento reside na valorização contínua da sua obra crítica e poética. **Receção crítica na época e ao longo do tempo:** Em vida, foi apreciado pela crítica especializada. Póstumamente, a sua obra tem sido objeto de um estudo mais aprofundado, consolidando o seu lugar no cânone literário português. **Popularidade vs reconhecimento académico:** Goza de um reconhecimento académico sólido, sendo a sua obra objeto de estudo em universidades. A sua popularidade junto do grande público é mais discreta, mas a sua importância é inquestionável.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado **Autores que o influenciaram:** Influenciado por autores da tradição literária portuguesa, bem como por filósofos e poetas europeus contemporâneos, como Rainer Maria Rilke. **Poetas e movimentos que influenciou:** A sua poesia reflexiva e a sua abordagem ensaística influenciaram gerações posteriores de poetas e críticos literários em Portugal, que encontraram na sua obra um modelo de rigor e profundidade. **Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas:** Contribuiu para a sofisticação do pensamento crítico e para a renovação da poesia portuguesa, deixando um legado de exigência intelectual e sensibilidade lírica. **Entrada no cânone literário:** Firmemente integrado no cânone da literatura portuguesa do século XX. **Traduções e difusão internacional:** A sua obra tem sido objeto de traduções para outras línguas, embora a sua difusão internacional seja menos extensa que a de alguns contemporâneos. **Adaptações (música, teatro, cinema):** Não há registos de adaptações significativas da sua obra para música, teatro ou cinema. **Estudos académicos dedicados à obra:** A sua obra tem sido objeto de inúmeros estudos académicos, teses de mestrado e doutoramento, confirmando o seu interesse continuado.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica **Leituras possíveis da obra:** A sua obra pode ser lida como uma meditação sobre o tempo, a memória, a finitude humana e a busca por um sentido último. A sua poesia é frequentemente interpretada como um diálogo existencial. **Temas filosóficos e existenciais:** A condição humana, a temporalidade, a morte, a solidão e a possibilidade de transcendência são temas centrais que percorrem toda a sua obra, com ecos de existencialismo e fenomenologia. **Controvérsias ou debates críticos:** Não são conhecidas controvérsias críticas de grande relevo associadas à sua obra, que é geralmente vista com admiração pelo seu rigor e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos **Aspetos menos conhecidos da personalidade:** Conhecido pela sua discrição e pelo seu rigor intelectual, Casais Monteiro era um homem de grande profundidade e sensibilidade, que conjugava o seu papel académico com a criação literária. **Contradições entre vida e obra:** Não se destacam contradições flagrantes entre a sua vida e obra; pelo contrário, a sua produção intelectual parece ter sido uma extensão natural do seu temperamento reflexivo. **Episódios marcantes ou anedóticos que iluminam o perfil do autor:** O seu percurso académico, a sua relação próxima com o pai e a sua dedicação ao estudo da literatura portuguesa são aspetos que definem o seu perfil. **Objetos, lugares ou rituais associados à criação poética:** Embora não haja registos específicos de rituais, o seu ambiente académico e a sua profunda leitura da tradição literária foram certamente elementos essenciais no seu processo criativo. **Hábitos de escrita:** Dada a sua formação e profissão, é provável que os seus hábitos de escrita fossem marcados pela disciplina e pelo rigor intelectual. **Episódios curiosos:** Não são amplamente divulgados episódios curiosos ou anedóticos sobre a sua vida. **Manuscritos, diários ou correspondência:** A existência de manuscritos, diários ou correspondência relevantes para a compreensão da sua obra pode existir em arquivos literários, mas não são de acesso público generalizado.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória **Circunstâncias da morte:** Morreu em Lisboa em 1972, vítima de doença. **Publicações póstumas:** Embora a sua obra principal tenha sido publicada em vida, é possível que existam recolhas ou edições de textos inéditos ou dispersos publicadas postumamente.

Poemas

8

Permanência

Não peçam aos poetas um caminho. O poeta
não sabe nada de geografia celestial.
Anda aos encontrões da realidade
sem acertar o tempo com o espaço.
Os relógios e as fronteiras não tem
tradução na sua língua. Falta-lhe
o amor da convenção em que nas outras
as palavras fingem de certezas.

O poeta lê apenas os sinais
da terra. Seus passos cobrem
apenas distâncias de amor e
de presença. Sabe
apenas inúteis palavras de consolo
e mágoa pelo inútil. Conhece
apenas do tempo o já perdido; do amor
a câmara escura sem revelações; do espaço
o silêncio de um vôo pairando
em toda a parte.

Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe
- morto redivivo.
Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.

Tudo é nada para quem
descreu de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo.

2 567

Vem Vento, Varre

Vem vento, varre
sonhos e mortos.
Vem vento, varre
medos e culpas.
Quer seja dia,
quer faça treva,
varre sem pena,
leva adiante
paz e sossego,
leva contigo
noturnas preces,
presságios fúnebres,
pávidos rostos
só covardia.
Que fique apenas
ereto e duro
o tronco estreme
de raiz funda.
Leva a doçura,
se for preciso:
ao canto fundo
basta o que basta.

Vem vento, varre!

3 023

Ato de Contrição

Pelo que não fiz, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei

— por tudo, vida, perdão!

2 633

Eu Falo das Casas e dos Homens

Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais.. .
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou em profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...

Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
sim, por um momento seremos a dor de tudo isto. . .

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangüe e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...

2 527

Madrugada

Ah! Este poema das madrugadas,
que há tanto tempo enrodilhado
num sem-fim de estados de alma
me obcecava, tirânico,
sem se deixar fixar! ...

Madrugada... e esta solidão crescendo,
esta nostalgia maior, e maior, e maior,
de não se sabe o quê
— nunca se sabe o quê...
que haverá nestas horas sozinhas e geladas,
para assim trazer à tona as indefinidas mágoas,
as saudades e as ânsias sem motivo
— de que não sabemos o motivo?...

Vieram as saudades do tempo de menino
— ou dum paraíso lá não sei onde?
Ah! que fantasmas pesaram sobre os ombros,
que sombras desceram sobre os olhos,
que tristeza maior fez maior o silêncio?
A que vem esse calor distante e absorto,
esse calar, esses modos distraídos?
Meu pobre sonhador! a esta hora
porventura se desvenda a Suprema Inutilidade?
e a definitiva ilusão de tantos gestos?

Interroga, interroga...
vai sonhando,
sem que saibas sequer o caminho que segues
vai, distraído e pensativo,
alheio de hoje,
vivendo já o derradeiro segundo...

Que a madrugada tem o pungir das agonias,
mas alheio, como o fim dum pesadelo...

2 805

Aurora

A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

vôo sem pássaro dentro.

3 030

Aço

Quebre-se de encontro à dureza das arestas
cada desregrada ilusão da minha vida.
Que os bichos vão roendo o vão caruncho
da inútil poeira de astros que imagino.
Que — sei-o bem! — lá no mais fundo,
forte e imarcescível sob os golpes
resiste a minha força verdadeira.
E o poema sempre novo no meu sangue
conhece também sua glória de aço
que vê sem dor as pobres farsas
e os caminhos cruéis em que me perco.
Veio da luz inutilizando os laços
armados no caminho à minha espera,
mão de ferro erguendo-se dos limbos
e mandando-me fitar o sol em face!

2 015

Ode ao Tejo e à Memória de Álvaro de Campos

E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.

Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!

Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando
Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.

Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!

2 501

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.