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Poemas neste tema

Sonhos e Imaginação

Leonardo Aldrovandi

Leonardo Aldrovandi

no andar de um homem perdido

no andar de um homem perdido pelo enclave de siracusa
um reflexo de luz sem pontas acena sob as névoas de nada
na cantoneira de couro suave, um novo minério da crise
projeta sua sombra virgem no silêncio leve de uma luneta
a gota de leite de vaca na lapela do ouriço bem comportado
inerte ao passo de uma ursa menor, gerente de hotelaria

a torcida freme e reluz diante do grande olaria
responde ao cansaço de tijolo que a redime e a acusa
na pia de gotas e cascas, o hormônio do frango empapuçado
num esfregaço de mel e cúrcuma, a conselho da doce fada
e no livro de faces morenas com outros botões de proveta
badejo-de-areia e garoupa em sobraço de um novo release

alguma sabedoria dos bálsamos renova o nosso expertise
a inteligência dos grunhidos e os abajures de ouvidoria
tapiocas alagoanas, joelhos sob o vento e a prancheta
a laje do salão de dança no balanço do chapéu medusa
entre véu, pombo e lençol,  raspa, concepção imaculada
onde a colheita de Pentecostes repreende o atestado

os mesmos passos vazios que acompanham um caixão lacrado
retomam o salpicar dos pés na chegada à grande marquise
sem mais o vinco da calça branca ou qualquer bandeira alada
alguma matriz reformada que o sopro de Aelius alivia
no leme invisível do mangue que ora se usa e desusa
sargo de beiço aprumado com lábios largos cor violeta

sempre a doce imagem, do cancro ao lírio e à buceta
moletom mais lycra na água fluvial do abotoado
tanga de cinzas no céu blefado da vinha lusa
mais baunilha, menos tanino, à sombra do porta-valise
lampião da noitada vendendo joelhos em disritmia
e a nau feita em cuspe no museu atual da jangada

como esfiapar o pé-de-moleque, forma referendada
invadindo o rastro da festa em algum sacomã mais careta
embalando na forma adequada e sem qualquer covardia
as novas receitas mineiras com vinagre e pão recheado
será a tua confissão das letras apenas um seriado em reprise
nos pântanos menos circulados por vaca escovada e intrusa?

Num monte bem verde, o sonho de mais outra vida reclusa
recoberto de lordoses imaginadas da longa e triste remada
e na base do sinal de cão-bravo, pão, mel, gim, mazarize
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Herberto Helder

Herberto Helder

Mulheres Correndo, Correndo Pela Noite.

Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.

E o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.

De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras — nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.

Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.

Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.

Correndo, lembrando, batendo.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Em Marte Aparece a Tua Cabeça -

Em marte aparece a tua cabeça —
eu queria dizer. No lugar onde
desapareceu a janela,
a cabeça de vaca de fogo, aparece
a cabeça. Onde era a cortina fria,
de pássaro escutando.
Em marte, como a roupa bate no vento
e na terra as ferraduras batem
no meu cabelo.
Como o fogo dentro da pedra turquesa,
em marte aparece a tua
cabeça de vaca. Por detrás da fria cortina —
eu queria dizer.

Agora sei que devo saber, só.
As letras da chuva loucas nas costas —
escrevendo, escrevendo.
Só, eu sei a dormir. Com um ramo
de peixes e um violino
no meio dos 11, dos mm, dos ii
da chuva.
Com meu ramo de violinos, só eu
no meio da chuva. Agora
sei que devo escrever os meus peixes.
A tua cabeça
aparece na janela de marte em fogo.
O fogo que anda em ti que andas como uma
pedra turquesa,
ao lado da fria cortina. Olhando, escutando
como um pássaro, onde chove.
Como só agora sei com as letras.

A chuva abre-te, o dia bate, a roupa
tropeça com as ferraduras
no meu cabelo. E só agora fazes
teu gesto com chuva, no meio das letras.
Abre-te, oh abre-te. Na cortina,
agora, a tua cabeça ao lado dos peixes —
escutando, escrevendo,
como só agora eu sei: o meu ramo
de violinos.

Escuta: o copo, a catedral, o livro,
o candeeiro.
Eu agora sei escrevendo de lado o fogo
da cabeça. Escuta: descasco
maçãs, cômo maçãs, as maçãs
aparecem na sua cor ao meio — e juntam-se
entre si, e vão sonhar. Escuta:
chovendo, escutando, escrevendo.
A roupa bate no vento.
Escuta como só agora bate a cor
nas maçãs. Atua cabeça, a cortina fria.

Dou-te as letras dos peixes, escutando —
só agora, só agora.
Escutando em ti, abrindo
com a tua chave todas as tuas maçãs
na sua cor. Só agora
escrevendo eu sei.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Mortos Perigosos, Fim.

Os jardins contorcem-se entre o estio e as trevas.
Avança o ar a correr com as patas
sobre a camisa branca. Então o espaço
é surpreendido pelos mortos que transpiram
em seus blusões de ouro. Da noite
chegam paisagens de água
que batem
em suas grutas tremendamente claras.

Mugidores rebanhos de camélias monstruosas,
montanhas às varandas de palácios de seda
amarela. Que voam,
da raiz à flor, pelo escuro
interior da vocação. E os lugares
todos esperam doces assassinos que assomam
à pontuação da memória.

A noite levanta praias cruéis durante a combustão
das linhas
do sono. Pintados na atmosfera.
Com as costas respirando brutalmente — que melancolia
combatem, a reluzir,
sob as patas de constelações implacáveis.
Uma rede de mel
fervente, uma rede dolorosa de um mel
que se ilumina.
Arrancam-se os mortos dentre mel e madeira e dentre
ar e velocidade.

Uma avença incandescente na parte
mais forte da cabeça — a aterradora curva
suspirante
do seu sossego alto. Não os leves nos braços
por entre ramagens de ouro.
Estão pintados no fundo dos tempos
da primavera. Suas garras rutilantes latejam
com uma doçura horrível.

Um pouco à noite, quando os quartos
andam e a folhagem se retira para os confins
da cabeça, onde a loucura tem os mapas.
Não os toques, com dedos animais, em suas
semiluas de éter frio.
Porque há maneiras graves de os mortos
viajarem: sedas desenvoltas, força, mel,
glicínias,
planos de energia e de tristeza.

Não faças com que esse mês te procure.
Leva os mortos como se fossem um lenço verde
chegado
de uma cidade transparente. O sono está cheio
de álcool gelado, os campos
arqueiam-se pelo poder de vírgulas
selvagens. Nunca ouvi chamar os mortos
pelo nome dos seus retratos reclinados
brancos. Colinas
amedrontadas à chuva.
Penínsulas ligadas por cravinho e canela.

Toca-os com uma chama leve na crista negra.
Respira sobre laranjas que escaldam,
se as abres
com teus dedos — gota a gota aplicando
a soldadura. Saber que lenço
lhes pertence, que feixe
de linhas taciturnas urdiu sua cara
largada no ar. Ou quem vem desse
sensível bordado, ou
que força condensa sua cor de madeira enxuta.
Saber que alcançam tua voz
com sua pausa: uma flor
nos meios, sobre si mesma.
Não.

Oh, não leves os mortos como crianças passadas
a limpo, em tua morosa
vocação, até à carnívora gentileza
das visões. Como em redes
enxameadas, o mel fermenta em suas
cabeças um delírio
docemente animal. E se a paisagem quadrúpede
se encosta à janela,
este mês é olhado pelo espaço todo.

Não os conduzas aos símbolos nocturnos, dentre
mel e velocidade e dentre
madeira e ar. Não te sentes atrás
de um lenço parado. Enquanto os mortos
culminam como jacintos
a pulsar direitos—o teu coração pende
crivado de pinhões respirando. E a tua idade suspira
como um animal louco.
Quando.


1965-68.
1 047
Herberto Helder

Herberto Helder

Comunicação Académica

Gato dormindo debaixo de um pimenteiro: gato amarelo folhas verdíssimas pimentos vermelhos: sono redondo: sombras pequenas de pimentos vermelhos no sono do gato: folhas sombrias dentro do amarelo: pimentos dormindo num gato vermelho: verdes redondos no sono do pimenteiro: o amarelo: da cabeça do gato nascem pimentos verdíssimos de sono: sono vermelho: sombras amarelas no gato redondo de sono verdíssimo debaixo de um pimenteiro amarelo: a sombra do gato dando folhas redondas sonhando amarelo sobre dormindo os pimentos: água: secura sombria do gato vermelho: o sonho da água dorme no pimenteiro: a sombra da cal das paredes secas dorme no gato de água amarela: a cal dá pimentos que sonham nas folhas do gato: o sono da cal dá sombras redondas no gato enrolado no vermelho: a água é uma sombra o gato é uma folha o sono é um pimenteiro: a cal é o verdíssimo do sono seco dando sombra no amarelo: pimenteiro redondo: pimentos de cal enrolados no sonho do silêncio amarelo: o silêncio dá gatos que sonham pimentos que dão sono na cal que dá sombra nas folhas que dão água na secura do tempo vermelho: o tempo enrola-se debaixo da cabeça do pimenteiro que se enrola no gato de cal do sono amarelo: o sono de dentro dos pimentos debaixo do redondo verdíssimo enrolado no sonho: e dorme o pimenteiro com as sombras do gato redondo enrolando-se nas folhas: silêncio de sonho sono de tempo: tudo amarelo: noite do pimenteiro sono da cal folhas do gato sonho das sombras do verdíssimo vermelho: secura da noite: noite do gato na noite da cal com a noite das folhas dentro da noite do verdíssimo debaixo da noite do sonho diante da noite do pimenteiro após a noite da água conforme a noite debaixo com a noite enrolada contra a noite do amarelo desde a noite das sombras consoante a noite redonda para a noite de dentro durante a noite do vermelho detrás da noite dos tempos debaixo da noite sem à frente do com da noite conforme a noite conforme: a noite dos tempos: um gato de dentro desaparecendo num pimenteiro: pimenteiro desaparecendo: a cal morrendo no sonho das folhas pequenas: o silêncio de tudo no mundo inteiro:

et caeteramente vosso inteiro:

herberto helder:

em janeiro:

mil novecentos e sessenta e três

1963.
1 488
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 4

Contou que caminhava pela praia, nu, correndo.
A areia, o sol, o mar e a profundidade extenuante do céu embriagavam-no.
Tinha extrema consciência da sua nudez, e isso também o embriagava.
Ia com um projecto, ou uma missão, estava carregado disso, mas tratava-se de uma coisa inominável.
Na praia havia gente, gente — parece — com aquela disponibilidade sem expectativa de gente na praia.
Estavam em fato de banho, ociosos e alheios, e quando ele passou pelo meio dessa gente, a nudez que tinha ainda o embriagou mais.
Depois encontrou três degraus de pedra, e subiu-os.
Continuou a correr, mas — segundo contou — o céu, a água e a areia, agora perdidos, haviam deixado nele um espaço vazio onde a ideia de missão se pôs a crescer, de modo que ele se encontrava como que louco da pressa e densidade da missão.
Corria por um labirinto de pedra negra, e nos corredores estreitos havia casas baixas, também de pedra, sem telhado e sem portas e janelas.
Eram cubos negros abertos em cima e com buracos rectangulares a diversos níveis.
Correndo pelos labirintos, cheio da sua pressa e com a espessa ansiedade daquela mensagem tão obscura, viu de súbito que tinha dois longos pénis brancos, delgados e longos como duas serpentes, e que se contorciam e enroscavam um no outro.
Não sentiu medo, sequer espanto, pois imaginava que isso também fazia parte da missão.
Mas quando avistou uma mulher que vinha em sentido contrário ao dele, procurou tapar com as mãos aqueles pénis-serpentes nascidos da mesma sombria raiz, quando corria pelos labirintos.
As serpentes, no entanto, escapavam-se por entre os dedos, desciam-lhe pelas pernas, subiam pelo ventre até ao peito, avançavam em todas as direcções, com as suas pequenas cabeças cruéis, sagazes e esfaimadas.
Cheio de terror, parou em frente de uma daquelas casas.
Quando entrou — contou ele — havia já perdido a sua força e leveza de mensageiro, e apenas sentia medo.
A casa estava vazia como todas as outras e, como elas, sem tecto e sem portas e janelas.
Naquele cubo negro e devassado, onde adivinhava excrementos e restos podres de comida, através de uma luz sinistra, pensou que viera de longe, percorrendo com a sua nudez os caminhos do dia e estes labirintos tenebrosos, apenas para se encontrar vazio, cercado pela podridão.
As duas serpentes brancas continuavam a fremir entre as suas pernas abertas.
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