Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Raimundo Correia
Saudade
Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...
Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos...
Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;
E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...
Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos...
Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;
E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...
1 860
1
Renato Russo
Esperando Por Mim
Acho que você não percebeu
Que meu sorriso era sincero
Sou tão cínico às vezes
O tempo todo
Estou tentando me defender
Digam o que disserem
O mal do século é a solidão
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância
Esperando por um pouco de afeição
Hoje não estava nada bem
Mas a tempestade me distrai
Gosto dos pingos de chuva
Dos relâmpagos e dos trovões
Hoje à tarde foi um dia bom
Saí pra caminhar com meu pai
Conversamos sobre coisas da vida
E tivemos um momento de paz
É de noite que tudo faz sentido
No silêncio eu não ouço meus gritos
E o que disserem
Meu pai sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Minha mãe sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim
E o que disserem
Agora meu filho espera por mim
Estamos vivendo
E o que disserem
Os nossos dias serão para sempre
Que meu sorriso era sincero
Sou tão cínico às vezes
O tempo todo
Estou tentando me defender
Digam o que disserem
O mal do século é a solidão
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância
Esperando por um pouco de afeição
Hoje não estava nada bem
Mas a tempestade me distrai
Gosto dos pingos de chuva
Dos relâmpagos e dos trovões
Hoje à tarde foi um dia bom
Saí pra caminhar com meu pai
Conversamos sobre coisas da vida
E tivemos um momento de paz
É de noite que tudo faz sentido
No silêncio eu não ouço meus gritos
E o que disserem
Meu pai sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Minha mãe sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim
E o que disserem
Agora meu filho espera por mim
Estamos vivendo
E o que disserem
Os nossos dias serão para sempre
2 406
1
Fernando Py
Sextina 2
A Cyro Pimentel
A vida me anoitece
de sofrê-la no açoite
e vivê-la vazio
da beleza que a tece
— mudo me faço e noite
cego surdo e sombrio.
O futuro é sombrio
quando a alma anoitece
e me engolfo na noite
e me entrego ao açoite
— voltas que a vida tece
nesse abismo vazio.
De coração vazio
escondo-me em sombrio
casulo que me tece
a vida que anoitece
a alma ao pleno açoite
que me oferece a noite.
Faço-me a própria noite
e em minhalma o vazio
silêncio lembra o açoite
latejante sombrio
da idade que anoitece
— fiação que me tece.
Pois tudo que me tece
lembra a pedra da noite
no peito que anoitece
— a alma sente o vazio
desse peso sombrio
à maneira de açoite.
Claro nítido açoite
é o que a vida me tece
extraindo o sombrio
refugo dessa noite
— deixa na alma o vazio
do corpo que anoitece.
Este açoite anoitece
e me tece vazio
no sombrio da noite.
A vida me anoitece
de sofrê-la no açoite
e vivê-la vazio
da beleza que a tece
— mudo me faço e noite
cego surdo e sombrio.
O futuro é sombrio
quando a alma anoitece
e me engolfo na noite
e me entrego ao açoite
— voltas que a vida tece
nesse abismo vazio.
De coração vazio
escondo-me em sombrio
casulo que me tece
a vida que anoitece
a alma ao pleno açoite
que me oferece a noite.
Faço-me a própria noite
e em minhalma o vazio
silêncio lembra o açoite
latejante sombrio
da idade que anoitece
— fiação que me tece.
Pois tudo que me tece
lembra a pedra da noite
no peito que anoitece
— a alma sente o vazio
desse peso sombrio
à maneira de açoite.
Claro nítido açoite
é o que a vida me tece
extraindo o sombrio
refugo dessa noite
— deixa na alma o vazio
do corpo que anoitece.
Este açoite anoitece
e me tece vazio
no sombrio da noite.
1 068
1
Myriam Fraga
Liberdade
Tardo é o tempo da escolha
(Desespero de então saber-se exato)
Já edificada a mente
E o corpo
Coagulado em rígido horóscopo.
Prisioneiro de antigas trajetórias
Quando mediu-se rumo
E permanência
E no tempo projetou-se o itinerário.
Antes da escolha — o homem
A cartilagem,
Sua carapaça de gesso repetida,
A face anterior
Criada em série.
Apodrecido no íntimo
Âmago (ou silêncio)
Nos pés a ferrugem,
A grilheta da classe,
O caminho traçado,
O pai,
Ou o que chamamos destino.
(Desespero de então saber-se exato)
Já edificada a mente
E o corpo
Coagulado em rígido horóscopo.
Prisioneiro de antigas trajetórias
Quando mediu-se rumo
E permanência
E no tempo projetou-se o itinerário.
Antes da escolha — o homem
A cartilagem,
Sua carapaça de gesso repetida,
A face anterior
Criada em série.
Apodrecido no íntimo
Âmago (ou silêncio)
Nos pés a ferrugem,
A grilheta da classe,
O caminho traçado,
O pai,
Ou o que chamamos destino.
1 088
1
Mário Donizete Massari
Dimensão das horas
Dimensão das horas
nos caminhos do homem
fogo nas retinas
paixões, fadiga . . .
"a vida tragada e
consumida em
memoráveis porres
de melancolia . . ."
cinzas na avenida
e o homem caminha
Flutua no ar
qual bêbado no seu
mundo
por que não dizer lindo,
pois qualquer mundo é lindo
quando se é livre e
não lhe cobram por isso.
E a vida se molda
na dimensão das horas
vadias . . .
nos caminhos do homem
fogo nas retinas
paixões, fadiga . . .
"a vida tragada e
consumida em
memoráveis porres
de melancolia . . ."
cinzas na avenida
e o homem caminha
Flutua no ar
qual bêbado no seu
mundo
por que não dizer lindo,
pois qualquer mundo é lindo
quando se é livre e
não lhe cobram por isso.
E a vida se molda
na dimensão das horas
vadias . . .
958
1
Mário Donizete Massari
Infância
Pés no chão
alma descalça . . .
A vida passa
os pés se calçam
a alma se veste
Os pés são os mesmos,
os caminhos segredos,
chega o medo . . .
A escuridão
ilusão . . .
Da infância resta
o chão
— e os pés a fugir
da solidão.
alma descalça . . .
A vida passa
os pés se calçam
a alma se veste
Os pés são os mesmos,
os caminhos segredos,
chega o medo . . .
A escuridão
ilusão . . .
Da infância resta
o chão
— e os pés a fugir
da solidão.
956
1
Mário Dionísio
Ode
Oh tempo de hoje
a tua face
é odiada
por milhões
Quem não te amaldiçoou
ao menos uma vez?
e não crispou
as mãos e o rosto ao menos uma vez
ao remoinho impiedoso
das tuas contradições?
Meu tempo meu tempo
feito de braços decepados
com gritos reprimidos
tua poesia de dentes cariados
teus sonhos desmentidos
e ainda sempre amados
Vêem-te o esgar
Vivem-te o bafo pestilento
todos te odeiam Sim
Mas eu amo-te tempo
dos meus dias
e dou-te com fervor
a toda a hora
o mais profundo e mais inolvidável
que há em mim
a tua face
é odiada
por milhões
Quem não te amaldiçoou
ao menos uma vez?
e não crispou
as mãos e o rosto ao menos uma vez
ao remoinho impiedoso
das tuas contradições?
Meu tempo meu tempo
feito de braços decepados
com gritos reprimidos
tua poesia de dentes cariados
teus sonhos desmentidos
e ainda sempre amados
Vêem-te o esgar
Vivem-te o bafo pestilento
todos te odeiam Sim
Mas eu amo-te tempo
dos meus dias
e dou-te com fervor
a toda a hora
o mais profundo e mais inolvidável
que há em mim
1 651
1
Mário Faustino
Sinto que o Mês Presente Me Assassina
Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.
3 213
1
Mário Dionísio
Memória dum Pintor Desconhecido
Os presos contam os dias
eu as horas
nesta prisão maior onde um olhar ficou boiando
e uma voz um som de passos perseguidos
na sombra perseguindo a segurança
fugidia
Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade
com alma bem nascida entre o fragor de máquinas, cimento e energia
atômica indefeso entre irmãos de cárcere demando
a voz que foge os irmãos que não vejo
o brando olhar que guarda o meu desejo
e só consigo
ver o gomoso arrastar das horas e das horas
tantas horas
à baioneta marcadas por uma sentinela
aos quatro cantos da janela
gradeada
do dia-
a-dia onde não há
mais nada
Que nada são os dias e os anos
para um tão grande amor que vou pintando
com o próprio sangue os meus e teus enganos
que há de nascer que há de florir que há de
e há de e há de
quando?
eu as horas
nesta prisão maior onde um olhar ficou boiando
e uma voz um som de passos perseguidos
na sombra perseguindo a segurança
fugidia
Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade
com alma bem nascida entre o fragor de máquinas, cimento e energia
atômica indefeso entre irmãos de cárcere demando
a voz que foge os irmãos que não vejo
o brando olhar que guarda o meu desejo
e só consigo
ver o gomoso arrastar das horas e das horas
tantas horas
à baioneta marcadas por uma sentinela
aos quatro cantos da janela
gradeada
do dia-
a-dia onde não há
mais nada
Que nada são os dias e os anos
para um tão grande amor que vou pintando
com o próprio sangue os meus e teus enganos
que há de nascer que há de florir que há de
e há de e há de
quando?
1 710
1
Marigê Quirino Marchini
Sonetos do Imperfeito
- I -
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
782
1
Maria Braga Horta
O Trem de Ferro
Passa o rio
passa a ponte
passa o sol
e passa o vento
passa o cavalo no pasto
passa boi
passa boiada
passa o cachorro sarnento
de todos e de ninguém
passa a moça na janela
meninos jogando bola
meninos vendendo frutas
mendigos pedindo esmola
já passaram mais de cem.
O que passa neste trecho
passa no trecho que vem.
O trem passa sempre cheio:
mudança que vai, que vem.
Ninguém está satisfeito
onde está e com o que tem.
Passa a vida e passa o trem...
passa a ponte
passa o sol
e passa o vento
passa o cavalo no pasto
passa boi
passa boiada
passa o cachorro sarnento
de todos e de ninguém
passa a moça na janela
meninos jogando bola
meninos vendendo frutas
mendigos pedindo esmola
já passaram mais de cem.
O que passa neste trecho
passa no trecho que vem.
O trem passa sempre cheio:
mudança que vai, que vem.
Ninguém está satisfeito
onde está e com o que tem.
Passa a vida e passa o trem...
1 062
1
António Manuel Couto Viana
Bandeira Rota
Eu chego sempre tarde quando chego;
Esqueço-me de mim, a conversar comigo,
Cavaleiro manchego!
— Que nobres intenções, na hora de sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
(A noiva que me fora prometida
Vai subir ao altar, por outro acompanhada,
Eu disse-me, demais, ao ouvido: "Toda a vida!"
Foi a pensar em mim que me rasguei na ferida
E fiquei para trás, a tropeçar na espada).
Quando escrevo "aventura" desconheço
Que a palavra tem sangue e carne e alma.
Sei-a moldar, mas só em barro ou gesso;
Doce carícia lírica num verso,
Quando a paisagem se distende, calma.
Mas quando me soluçam "Vem!" e é guerra
E esperam por mim, pra um novo dia,
Indago-me: "0 que fica além da terra?"
Que enigmas de fé meu sonho encerra,
Mascarando em prudência a covardia!
Pé-ante-é, caminho, à espera, alerta,
Que venha ter comigo quem procuro;
Que metraga, em bandeja, uma vitória certa,
Que me enfie, no bolso, a índia descoberta
E eu possa, enfim, seguir, glorioso e seguro.
Por isso chego tarde quando chego;
Esquecido de mim, a conversar comigo.
Cavaleiro de manchego!
— Que nobres intenções, na hora do sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
Esqueço-me de mim, a conversar comigo,
Cavaleiro manchego!
— Que nobres intenções, na hora de sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
(A noiva que me fora prometida
Vai subir ao altar, por outro acompanhada,
Eu disse-me, demais, ao ouvido: "Toda a vida!"
Foi a pensar em mim que me rasguei na ferida
E fiquei para trás, a tropeçar na espada).
Quando escrevo "aventura" desconheço
Que a palavra tem sangue e carne e alma.
Sei-a moldar, mas só em barro ou gesso;
Doce carícia lírica num verso,
Quando a paisagem se distende, calma.
Mas quando me soluçam "Vem!" e é guerra
E esperam por mim, pra um novo dia,
Indago-me: "0 que fica além da terra?"
Que enigmas de fé meu sonho encerra,
Mascarando em prudência a covardia!
Pé-ante-é, caminho, à espera, alerta,
Que venha ter comigo quem procuro;
Que metraga, em bandeja, uma vitória certa,
Que me enfie, no bolso, a índia descoberta
E eu possa, enfim, seguir, glorioso e seguro.
Por isso chego tarde quando chego;
Esquecido de mim, a conversar comigo.
Cavaleiro de manchego!
— Que nobres intenções, na hora do sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
1 483
1
Washington Queiroz
A Geografia dos Dias
p/ Tamires, meu filho
Esta geografia do silêncio,
a face muda / mudo
calendário - a passar, passar...
Os dias / ímpios
e os segredos invioláveis.
Meu filho tecendo nuvens
ante meu rosto mudo;
tecendo suas cirandas,
perplexo, - meu rosto mudo.
"- Pai, por que o rosto mudo?
por que o rosto mudo?"
- A geografia dos dias:
diáfana,
efêmera,
/meu rosto mudo.
Esta geografia do silêncio,
a face muda / mudo
calendário - a passar, passar...
Os dias / ímpios
e os segredos invioláveis.
Meu filho tecendo nuvens
ante meu rosto mudo;
tecendo suas cirandas,
perplexo, - meu rosto mudo.
"- Pai, por que o rosto mudo?
por que o rosto mudo?"
- A geografia dos dias:
diáfana,
efêmera,
/meu rosto mudo.
979
1
Gláucia Lemos
Poema para um Domingo
Um roupão amarelo, um abajur
um anjo de bronze sustentando a luz.
Um livro aberto e um blues.
A noite de um domingo.
E o show da solidão se repetindo.
Um cobertor de madras escocesas
uma lembrança de um beijo nos lábios
e uma certeza.
Este sempre espetáculo domingueiro
com luzes de néon ferindo o vidro
caindo no travesseiro.
Ao som do vento as esquadrias gemem.
Quando acontoecerá a última cena?
...Se os ponteiros não param essa ciranda.
(07.06.96)
um anjo de bronze sustentando a luz.
Um livro aberto e um blues.
A noite de um domingo.
E o show da solidão se repetindo.
Um cobertor de madras escocesas
uma lembrança de um beijo nos lábios
e uma certeza.
Este sempre espetáculo domingueiro
com luzes de néon ferindo o vidro
caindo no travesseiro.
Ao som do vento as esquadrias gemem.
Quando acontoecerá a última cena?
...Se os ponteiros não param essa ciranda.
(07.06.96)
1 278
1
Valéry Larbaud
Helenismo
Não sei por onde vou, por onde passo.
Caminho pelo tempo como um cego
E aquilo que mais quero já renego
Num ceticismo cheio de cansaço.
Sou livre: não mantenho nenhum laço
Além do que me prende ao mesmo ego.
E não tem porto o mar onde navego
Seguindo rotas que por sonhos traço.
Nem sei se é morte a vida ou vida a morte:
A realidade é um vinho muito forte
Que me entontece e deixa adormecido.
Por isso eu amo a Lua e o seu perfume
E sigo sendo o tal bípede implume
Que descreveu um grego falecido.
Caminho pelo tempo como um cego
E aquilo que mais quero já renego
Num ceticismo cheio de cansaço.
Sou livre: não mantenho nenhum laço
Além do que me prende ao mesmo ego.
E não tem porto o mar onde navego
Seguindo rotas que por sonhos traço.
Nem sei se é morte a vida ou vida a morte:
A realidade é um vinho muito forte
Que me entontece e deixa adormecido.
Por isso eu amo a Lua e o seu perfume
E sigo sendo o tal bípede implume
Que descreveu um grego falecido.
939
1
Machado de Assis
Flor da Mocidade
Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.
És tu, rosa da mocidade,
Nascida aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.
1 696
1
José de Paula Ramos Jr.
Canção de Anquises
Não reflete o bronze polido
a imagem dos passados anos:
a fronte sem marca de cãs,
sem rugas, braços vigorosos,
luz no olhar, aprumado dorso,
o viço na pele rosada,
pernas firmes. Oh, juventude!
Um dia, no passado esplêndido,
subi ao leito de Afrodite.
Agora, vejo a decadente
massa deformada insinuar,
na comissura de meus lábios
pensos, a pena iniludível,
que aguarda a todo ser humano.
Ao pé das muralhas de Tróia
devastada, deponho a lança
inútil, que vibrou outrora.
a imagem dos passados anos:
a fronte sem marca de cãs,
sem rugas, braços vigorosos,
luz no olhar, aprumado dorso,
o viço na pele rosada,
pernas firmes. Oh, juventude!
Um dia, no passado esplêndido,
subi ao leito de Afrodite.
Agora, vejo a decadente
massa deformada insinuar,
na comissura de meus lábios
pensos, a pena iniludível,
que aguarda a todo ser humano.
Ao pé das muralhas de Tróia
devastada, deponho a lança
inútil, que vibrou outrora.
925
1
Luís Veiga Leitão
Corredor
Cem metros à sombra — temperatura
de tantos corpos e almas em rodagem.
Neste muro cercado, a maior viagem
sob um céu de pedra escura.
Sombras em fila, espectros talvez,
desplantam ecos da raiz do chão.
Lembram comboios que vêm e vão
sob túneis de pez.
E vêm e vão com pés humanos
ressoando movimentos tardos,
levando fardos, trazendo fardos
das horas sem dias e meses sem anos.
E vêm e vão, sempre, sempre a rodar
na linha dos railes espectrais,
sem descarregadores na gare,
sem guindastes no cais.
E vêm e vão pela via larga
das redes do sonho e da lembrança,
levando a carga, trazendo a carga
de toneladas de esperança.
de tantos corpos e almas em rodagem.
Neste muro cercado, a maior viagem
sob um céu de pedra escura.
Sombras em fila, espectros talvez,
desplantam ecos da raiz do chão.
Lembram comboios que vêm e vão
sob túneis de pez.
E vêm e vão com pés humanos
ressoando movimentos tardos,
levando fardos, trazendo fardos
das horas sem dias e meses sem anos.
E vêm e vão, sempre, sempre a rodar
na linha dos railes espectrais,
sem descarregadores na gare,
sem guindastes no cais.
E vêm e vão pela via larga
das redes do sonho e da lembrança,
levando a carga, trazendo a carga
de toneladas de esperança.
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Ives Gandra da Silva Martins
Olhar do Tempo
Olhar do tempo. Como eu sinto a messe,
Safra da terra, sem semente fora!
Ceifem a messe, que a safra apodrece,
Tempo de sempre, que se faz de agora.
Olhar do tempo. Como eu sinto o rio,
Estrada líquida, sem outra estrada!
Bebam a estrada, que desponta o estio,
Tempo de todos, que se faz de cada.
Olhar do tempo. Como eu sinto o espaço,
Tapete imenso, sem limite ao norte!
Durmam o norte, norteando o passo,
Tempo de vida que se faz de morte.
Olhar do tempo, como eu sinto a cruz!
Tempo de sombra, que se faz de luz.
Safra da terra, sem semente fora!
Ceifem a messe, que a safra apodrece,
Tempo de sempre, que se faz de agora.
Olhar do tempo. Como eu sinto o rio,
Estrada líquida, sem outra estrada!
Bebam a estrada, que desponta o estio,
Tempo de todos, que se faz de cada.
Olhar do tempo. Como eu sinto o espaço,
Tapete imenso, sem limite ao norte!
Durmam o norte, norteando o passo,
Tempo de vida que se faz de morte.
Olhar do tempo, como eu sinto a cruz!
Tempo de sombra, que se faz de luz.
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Horácio Dídimo
As Doces Meninas de Outrora
as doces meninas de outrora
amanheceram
vestiram os vestidos novos
pintaram as unhas de vermelho
por um instante resplandeceram
depois baixaram as cabecinhas louras
e envelheceram como as flores
amanheceram
vestiram os vestidos novos
pintaram as unhas de vermelho
por um instante resplandeceram
depois baixaram as cabecinhas louras
e envelheceram como as flores
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Hélio Pellegrino
Viagem às Minas
Cicatrizes. Matrizes. Hemoptises. O sol posto,
no rosto lavrado. Escalavrado. A lavra lágrima
decorre, colorada. O escropo cáustico,
amarrado e amargo em punho cego,
prossegue seu trabalho. Em vão me pego
na vertente da areia que me sabe. Eu sou, tu és,
o amplo oceano do céu é uma amplidão parada,
o eterno
roreja tempo na pedra. Ó tempo eterno
da pedra, fundado e decifrado,
mais que a barca de Pedro, pedra viva
vivendo o seu silêncio — água múrmura.
À luz da tarde
verte seus ecos e mistérios,
nas montanhas tamanhas. Arde a tarde,
e a tarde arde. É tarde, é noite, é foice, é antemanhã.
O arco-íris,
suscitado em sua cova, ressuscita. Lua nova e sol posto
nascem do mesmo estojo. Pojo. Bojo. Sangradouro
de minérios domados. Esses gados.
no rosto lavrado. Escalavrado. A lavra lágrima
decorre, colorada. O escropo cáustico,
amarrado e amargo em punho cego,
prossegue seu trabalho. Em vão me pego
na vertente da areia que me sabe. Eu sou, tu és,
o amplo oceano do céu é uma amplidão parada,
o eterno
roreja tempo na pedra. Ó tempo eterno
da pedra, fundado e decifrado,
mais que a barca de Pedro, pedra viva
vivendo o seu silêncio — água múrmura.
À luz da tarde
verte seus ecos e mistérios,
nas montanhas tamanhas. Arde a tarde,
e a tarde arde. É tarde, é noite, é foice, é antemanhã.
O arco-íris,
suscitado em sua cova, ressuscita. Lua nova e sol posto
nascem do mesmo estojo. Pojo. Bojo. Sangradouro
de minérios domados. Esses gados.
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Ildásio Tavares
O Tempo dos Homens
O tempo dos homens é feito de pedra,
É feito de carne, de sangue, de dor,
O tempo dos homens é feito de tempo
Que é tempo sem tempo, sem luz, sem amor.
Trezentos e sessenta e cinco dias,
Seis horas,
Uns tantos minutos
E segundos,
Leva o mundo
Para girar girando em torno ao sol,
Em sucessão de
Primavera, Verão, Outono, Inverno,
Sol e Sombra,
Noite e Dia.
Eterna imperturbável harmonia.
Os homens não cansam, não param, não dobram,
Comendo, comendo, sem ver, sem olhar,
Os homens não pensam, não falam, não dormem,
No tempo sem tempo do tempo a passar,
É feito de carne, de sangue, de dor,
O tempo dos homens é feito de tempo
Que é tempo sem tempo, sem luz, sem amor.
Trezentos e sessenta e cinco dias,
Seis horas,
Uns tantos minutos
E segundos,
Leva o mundo
Para girar girando em torno ao sol,
Em sucessão de
Primavera, Verão, Outono, Inverno,
Sol e Sombra,
Noite e Dia.
Eterna imperturbável harmonia.
Os homens não cansam, não param, não dobram,
Comendo, comendo, sem ver, sem olhar,
Os homens não pensam, não falam, não dormem,
No tempo sem tempo do tempo a passar,
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Ildásio Tavares
Restos
Há um resto de noite pela rua
Que se dissolve em bruma e madrugada.
Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.
Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.
Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.
Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.
Que se dissolve em bruma e madrugada.
Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.
Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.
Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.
Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.
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