Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Manuel de Freitas
5 412971 117161
Tem cara de perder. Esta semana
voltou a não levar preservativos
e nunca mais comprou comida para o cão.
Se calhar divorciaram-se, e sicou ela
com o bicho. Só não percebo como é que
Ele sozinho consegue beber tanto leite.
perdeu também um pouco da arrogância
com que habitualmente me passava
o visa. Mas devia ser bonito, em novo
voltou a não levar preservativos
e nunca mais comprou comida para o cão.
Se calhar divorciaram-se, e sicou ela
com o bicho. Só não percebo como é que
Ele sozinho consegue beber tanto leite.
perdeu também um pouco da arrogância
com que habitualmente me passava
o visa. Mas devia ser bonito, em novo
1 019
Jaime Rocha
o homem que dorme
E se uma avenida fosse um lago
comprido e a água passasse por
uma turbina e decidisse afundar
a cidade até só o castelo ser visto
dentro de um barco.
Não há tempo
para os vinhos nascerem.
Os dias passam num instante como
o reflexo de um farol num espelho.
O azedo das ruas transforma-se
num cenário que só um jornal
impresso pode descrever_____.
Um homem anda com embrulhos
de plástico. Toda a gente sabe que
dorme na soleira de uma empresa
de candeeiros. É uma sombra,
um rasto.
Mas ninguém se aperceberá
da sua morte.
comprido e a água passasse por
uma turbina e decidisse afundar
a cidade até só o castelo ser visto
dentro de um barco.
Não há tempo
para os vinhos nascerem.
Os dias passam num instante como
o reflexo de um farol num espelho.
O azedo das ruas transforma-se
num cenário que só um jornal
impresso pode descrever_____.
Um homem anda com embrulhos
de plástico. Toda a gente sabe que
dorme na soleira de uma empresa
de candeeiros. É uma sombra,
um rasto.
Mas ninguém se aperceberá
da sua morte.
722
Manuel de Freitas
CENTRO COMERCIAL I I
Uma hipótese de morte com fato de treino
em fim-de-semana cheio de graça. Perdido e
contente como os filhos hão-de ser,
pura imagem de horror
a demorar-se num século vazio.
A autoridade do dinheiro quase nada
esconde já a pobreza vegetal, a
essência decompondo-se. Ele não sabe. Sei eu
por si este pânico, a desmesura triste
de o olhar enjoado, enquanto o silêncio sangra
e quase fede – menos contudo do que as tripas
inúteis deste domingo absurdamente igual
a todos os outros que nos falta viver,
arrastar com fúnebres cuidados
para num arremesso de baba feliz
ganhar o futuro, a morte precisa
que nessa palavra dizemos.
em fim-de-semana cheio de graça. Perdido e
contente como os filhos hão-de ser,
pura imagem de horror
a demorar-se num século vazio.
A autoridade do dinheiro quase nada
esconde já a pobreza vegetal, a
essência decompondo-se. Ele não sabe. Sei eu
por si este pânico, a desmesura triste
de o olhar enjoado, enquanto o silêncio sangra
e quase fede – menos contudo do que as tripas
inúteis deste domingo absurdamente igual
a todos os outros que nos falta viver,
arrastar com fúnebres cuidados
para num arremesso de baba feliz
ganhar o futuro, a morte precisa
que nessa palavra dizemos.
990
Jaime Rocha
RUÍNAS
É um espaço de morte onde vai um corvo
comer todas as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e procura no meio
da vegetação algumas larvas e o cheiro
de outros corvos. É um cheiro novo, azeitado,
que consegue surpreender quem pára um carro
junto a uma montanha.
Nessas ruínas passa um rio que está sujo
e que mostra ao longo das margens mais
de duzentos peixes mortos. É um rio esverdeado
sem vegetação, apenas com uma baba, onde
os corvos vão beber. Tem sons que desaparecem
de repente. Dentro dessas ruínas existem vários
objectos de ferro, outros de plástico.
Tudo está ordenado conforme o seu tempo de uso
e o espaço que ocupam. A um canto que é o canto
mais antigo das ruínas existe já uma grande
quantidade de musgo e cogumelos castanhos
dispersos subindo por uma árvore. É a árvore
dos corvos e é dali que se vê o horizonte,
umas vezes deserto outras com um vento
acinzentado. Os objectos de plástico mudam
de sítio e de cor durante a noite. Quase sempre
são levados pelos ratos para um esconderijo
escavado na terra, sem saída.
É um rio podre, embora nas palavras se possa
inventar uma lenda com um monge de branco
e uma estátua enfeitada de organdi, cheirando
a tabaco. Quando está cheio, ele reflecte
as ruínas com exactidão, as cores, os volumes,
os ácidos, uma temperatura quase quente,
como se as pedras e o barro fervessem para dentro.
Quando seca, as crostas aparecem circulares,
levantadas pelos bichos. E toda a força da terra
então resplandece chamando os lenhadores
e os machados. Os corvos fogem no chão do rio.
Uma cobra de água rodopia da nascente para a foz,
amaciando as ruínas. Todo o espaço está morto
sem barcos, um corpo que é um osso apenas
e que aguarda a chuva.
Esse rio existe nas ruínas, não está desenhado
num livro. Os corvos que lá vão também existem
porque bebem a água todas as manhãs. E isso
é um alimento sedutor. Alguém escreveu a tinta
junto à árvore do canto mais antigo das ruínas.
É onde antes íam mulheres lavar a roupa
e se banhavam mergulhando com os corvos,
quase sempre para nunca mais voltar
comer todas as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e procura no meio
da vegetação algumas larvas e o cheiro
de outros corvos. É um cheiro novo, azeitado,
que consegue surpreender quem pára um carro
junto a uma montanha.
Nessas ruínas passa um rio que está sujo
e que mostra ao longo das margens mais
de duzentos peixes mortos. É um rio esverdeado
sem vegetação, apenas com uma baba, onde
os corvos vão beber. Tem sons que desaparecem
de repente. Dentro dessas ruínas existem vários
objectos de ferro, outros de plástico.
Tudo está ordenado conforme o seu tempo de uso
e o espaço que ocupam. A um canto que é o canto
mais antigo das ruínas existe já uma grande
quantidade de musgo e cogumelos castanhos
dispersos subindo por uma árvore. É a árvore
dos corvos e é dali que se vê o horizonte,
umas vezes deserto outras com um vento
acinzentado. Os objectos de plástico mudam
de sítio e de cor durante a noite. Quase sempre
são levados pelos ratos para um esconderijo
escavado na terra, sem saída.
É um rio podre, embora nas palavras se possa
inventar uma lenda com um monge de branco
e uma estátua enfeitada de organdi, cheirando
a tabaco. Quando está cheio, ele reflecte
as ruínas com exactidão, as cores, os volumes,
os ácidos, uma temperatura quase quente,
como se as pedras e o barro fervessem para dentro.
Quando seca, as crostas aparecem circulares,
levantadas pelos bichos. E toda a força da terra
então resplandece chamando os lenhadores
e os machados. Os corvos fogem no chão do rio.
Uma cobra de água rodopia da nascente para a foz,
amaciando as ruínas. Todo o espaço está morto
sem barcos, um corpo que é um osso apenas
e que aguarda a chuva.
Esse rio existe nas ruínas, não está desenhado
num livro. Os corvos que lá vão também existem
porque bebem a água todas as manhãs. E isso
é um alimento sedutor. Alguém escreveu a tinta
junto à árvore do canto mais antigo das ruínas.
É onde antes íam mulheres lavar a roupa
e se banhavam mergulhando com os corvos,
quase sempre para nunca mais voltar
732
Jaime Rocha
48 A mulher mostra-se na luz
A mulher mostra-se na luz, entre a folhagem.
A cor dos seus cabelos está intacta. Ela tece
um caminho para o homem, mas as mãos dele
colaram-se ao cimento, os seus olhos pararam
no tempo. Todo o seu corpo se assemelha agora
a uma árvore acorrentada pelas heras onde não
entra a música, nem o tempo que separa os dias.
As ondas sustiveram o movimento em direcção
à praia, regressando ao outro lado do horizonte.
As nuvens caíram. As aves perderam as asas.
Tudo, até os cães, desapareceu na escuridão.
Apenas umas pétalas esvoaçaram ao acaso,
seguindo o rasto dos morcegos, num último
torpor, numa vergonha.
A cor dos seus cabelos está intacta. Ela tece
um caminho para o homem, mas as mãos dele
colaram-se ao cimento, os seus olhos pararam
no tempo. Todo o seu corpo se assemelha agora
a uma árvore acorrentada pelas heras onde não
entra a música, nem o tempo que separa os dias.
As ondas sustiveram o movimento em direcção
à praia, regressando ao outro lado do horizonte.
As nuvens caíram. As aves perderam as asas.
Tudo, até os cães, desapareceu na escuridão.
Apenas umas pétalas esvoaçaram ao acaso,
seguindo o rasto dos morcegos, num último
torpor, numa vergonha.
1 123
Manuel de Freitas
CANSADA DE SERVIR NINGUÉM
A primeira e talvez a única
condição da poesia: a falsidade.
Posso no entanto jurar que foi
hoje mesmo, pelo fim da tarde, que
ela entrou desconexa, com um anel rutilante
em cada dedo, na taberna de praça das Flores.
O velho, sentado à minha mesa, teve
de ouvir uma canção de marinheiros,
inevitavelmente triste. Só então
me apercebi, como ele, de que trazia ao colo
uma pomba. Pediu-lhe que voasse
- e ela voou, contornando as moscas
deste Verão precoce, em direcção ao jardim
(sempre tiveram jeito para voar, as pombas).
Quase não vi aquelas mãos caírem sobre
uns seios gastos, a pretexto do colar.
Benilde, sentada, apenas viu nisso tudo
uma espécie de loucura mansa,
o modo como a tarde docilmente se despede,
à sombra parada do relógio. Sessenta
anos de balcão pesavam-lhe hoje mais nas pernas,
indiferentes aos poemas que nunca lerá,
enquanto um último refrão, entre muletas
e copos vazios, nos volta a impor a única verdade.
A pomba - de um branco acastanhado -
parecia não se importar muito.
condição da poesia: a falsidade.
Posso no entanto jurar que foi
hoje mesmo, pelo fim da tarde, que
ela entrou desconexa, com um anel rutilante
em cada dedo, na taberna de praça das Flores.
O velho, sentado à minha mesa, teve
de ouvir uma canção de marinheiros,
inevitavelmente triste. Só então
me apercebi, como ele, de que trazia ao colo
uma pomba. Pediu-lhe que voasse
- e ela voou, contornando as moscas
deste Verão precoce, em direcção ao jardim
(sempre tiveram jeito para voar, as pombas).
Quase não vi aquelas mãos caírem sobre
uns seios gastos, a pretexto do colar.
Benilde, sentada, apenas viu nisso tudo
uma espécie de loucura mansa,
o modo como a tarde docilmente se despede,
à sombra parada do relógio. Sessenta
anos de balcão pesavam-lhe hoje mais nas pernas,
indiferentes aos poemas que nunca lerá,
enquanto um último refrão, entre muletas
e copos vazios, nos volta a impor a única verdade.
A pomba - de um branco acastanhado -
parecia não se importar muito.
1 138
Manuel de Freitas
URINOL
As melhores horas da nossa vida,
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.
São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insetos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.
Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora - contente e tão triste -
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.
Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar,
no dia
em que formos
morrer.
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.
São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insetos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.
Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora - contente e tão triste -
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.
Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar,
no dia
em que formos
morrer.
1 204
João Filho
Quase Gregas - Primeira
Manhãs invadem manhãs.
Metal-flux do trânsito,
nimbos,
urubus no semáforo, arúspices,
lumes de asfalto,
dizem os cartazes.
Diriges. Na Oceânica, Cronos, chuvoso, investe.
Tudo pesa.
O medo é outro, aquele último.
Guerras anãs teu peito combate e se perde.
Diz Cronos
(que nos respira e não o contrário,
fuligem esfíngica):
“Com esses vastos vazios, que desejas?
Sei, nada afundando em nadas,
giros de séculos, mapas conduzem desgraças,
como quem oferta água, sol e pão,
mas é a face ambígua que oferecem,
a nutriz venenosa.
Colostro que dás mata o cerne;
nomeio-te inferno,
rodas no vácuo e a dúvida é o teu sustentáculo
e o não tens como norte,
tal morte é o teu níquel,
o vivo sem vida.”
Cronos se cala, entardece.
Na sístole-diástole, o trânsito espasma,
e junho – céu, Orla e mar embaralha em névoa cinzenta.
Do mar:
o salitre sonoro do vento.
Metal-flux do trânsito,
nimbos,
urubus no semáforo, arúspices,
lumes de asfalto,
dizem os cartazes.
Diriges. Na Oceânica, Cronos, chuvoso, investe.
Tudo pesa.
O medo é outro, aquele último.
Guerras anãs teu peito combate e se perde.
Diz Cronos
(que nos respira e não o contrário,
fuligem esfíngica):
“Com esses vastos vazios, que desejas?
Sei, nada afundando em nadas,
giros de séculos, mapas conduzem desgraças,
como quem oferta água, sol e pão,
mas é a face ambígua que oferecem,
a nutriz venenosa.
Colostro que dás mata o cerne;
nomeio-te inferno,
rodas no vácuo e a dúvida é o teu sustentáculo
e o não tens como norte,
tal morte é o teu níquel,
o vivo sem vida.”
Cronos se cala, entardece.
Na sístole-diástole, o trânsito espasma,
e junho – céu, Orla e mar embaralha em névoa cinzenta.
Do mar:
o salitre sonoro do vento.
669
Ademir Assunção
MICOSE NA PELE DO TEMPO
(segundo monólogo interior de Lili Maconha)
Há tempos o faquir polia as pontas dos pregos
com areia do Mojave.
Há tempos e dimensões perdidas
apenas esperando o momento certo da conexão.
Há o tempo lá fora, chuva de granizo,
fagulhas de fogos de artifício
e brumas que se movem.
Há o tempo dos estalidos distantes das estrelas.
E há o tempo do Aqui, esse templo da linguagem
que se enrola em frases-serpentes
enquanto escrevo
e que talvez continue traçando sinuosidades
muito tempo depois.
Mas de tempos em tempos
alguém estoura os miolos, alguém explode uma aeronave
alguém fecha o livro
e não o abre nunca mais.
Há tempos o faquir polia as pontas dos pregos
com areia do Mojave.
Há tempos e dimensões perdidas
apenas esperando o momento certo da conexão.
Há o tempo lá fora, chuva de granizo,
fagulhas de fogos de artifício
e brumas que se movem.
Há o tempo dos estalidos distantes das estrelas.
E há o tempo do Aqui, esse templo da linguagem
que se enrola em frases-serpentes
enquanto escrevo
e que talvez continue traçando sinuosidades
muito tempo depois.
Mas de tempos em tempos
alguém estoura os miolos, alguém explode uma aeronave
alguém fecha o livro
e não o abre nunca mais.
1 203
Grazia Deledda
Cai uma folha
Cai uma folha que parece
tingida pelo sol, que ao cair
tem a iridescência de uma mariposa;
mas assim que atinge o chão
funde-se com a sombra, já morta.
tingida pelo sol, que ao cair
tem a iridescência de uma mariposa;
mas assim que atinge o chão
funde-se com a sombra, já morta.
845
Salgado Maranhão
VULTO 1
Sozinho com os vampiros
e a madrugada,
ainda guardo
estas flores de pedra
(a noite é voraz,
mas a casa está fresca
para os colibris).
Rompendo as esquinas
e a largura das horas,
sou pouco mais
que um vulto
entre os bichos.
A cidade é um ganido
em meus ossos; a cidade
que me vende em retalhos. A mim
com meus desdobrados voos.
O tempo que me resgata
é surdo e não dói na carne.
O que dói é a vontade
aprendendo a sonhar.
e a madrugada,
ainda guardo
estas flores de pedra
(a noite é voraz,
mas a casa está fresca
para os colibris).
Rompendo as esquinas
e a largura das horas,
sou pouco mais
que um vulto
entre os bichos.
A cidade é um ganido
em meus ossos; a cidade
que me vende em retalhos. A mim
com meus desdobrados voos.
O tempo que me resgata
é surdo e não dói na carne.
O que dói é a vontade
aprendendo a sonhar.
734
Maria da Felicidade do Couto Browne
Que triste fim
Que triste fim, belas flores,
N’esse vaso vos espera?
Embora d’ouro cercadas;
Aqui não é vossa esfera!
Que dura mão, tão perfeitas
Vos foi no jardim cortar,
E a vossa curta existência
Inda mais acelerar?
Não tendes da terra sucos
Para vossa nutrição;
Nem da manhã o orvalho,
Nem da tarde a viração.
As luzes que vos rodeiam
Não têm do sol o calor;
Nem a água em que pousais
Entretém vosso verdor.
N’esse vaso vos espera?
Embora d’ouro cercadas;
Aqui não é vossa esfera!
Que dura mão, tão perfeitas
Vos foi no jardim cortar,
E a vossa curta existência
Inda mais acelerar?
Não tendes da terra sucos
Para vossa nutrição;
Nem da manhã o orvalho,
Nem da tarde a viração.
As luzes que vos rodeiam
Não têm do sol o calor;
Nem a água em que pousais
Entretém vosso verdor.
835
Salgado Maranhão
Do Raio
Nem o acre sabor das uvas
nos aplaca. Nem a chuva
nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.
O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas
sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.
nos aplaca. Nem a chuva
nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.
O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas
sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.
785
Tatiana Faia
alguns sons antes da manhã
às vezes harmonia e desarmonia ganham fôlego
para se somarem em algo
que parece raro, definitivo, surpreendente
um cavalo ferido em contraluz
nos campos de nevoeiro
ergue-se finalmente diante dos olhos
não exactamente música
mas um pedaço da minha vida
cifrado no estrépito de uma voz
que desce em ângulos
de ironia e esperança
alegria e indiferença
e rebate na luz dos olhos baixos
acendendo-se apagando-se
trouxe-me aqui uma memória
que insistiria em atravessar um continente
por poucas horas, uma garrafa de vinho
a vitalidade de uma certa
quantidade de conversa fiada
numa sucessão de acontecimentos
que não conjuram exactamente uma ordem
embora tu ao contrário de mim
acredites que há no universo uma ordem
eu regressei mesmo pela extrema necessidade
de um pouco de caos
é preciso queimar este tempo
antes de entrarmos de novo na realidade
diz cinco minutos cinco horas
ou talvez a mais adequada forma fossem
as coisas mais imediatas mais fáceis
a espessura de um licor escuro e amargo
num copo minúsculo e raso
ou de uma chávena cheia de café
de manhã, no estômago vazio
os meus ouvidos atentíssimos
plantados entre os leões
assaltados pelo tilintar de colheres em chávenas
facas e garfos contra os pratos
famílias inteiras rindo
e enchendo as mesas para jantar
enquanto sobre mim se abate
a absurda ideia de que nem sequer
ouvi os teus passos afastarem-se
que devemos ser agora um pouco
menos misteriosos mas mais reais
em algum ponto da cidade
os sinos da catedral maceram o ar
e aquele martelo que ouvi
trabalhar ao longe
os golpes desferidos a intervalos regulares
sobre a pedra
foi-se silenciando
mas vai daqui a algumas horas ou dias ou meses
acertar-me em cheio no centro do torso
esmagar-me o peito no mais absurdo
tropeço de ternura
todo o vidro desta atmosfera é febril
tilinta nas conversas
que se vão distanciando
mas não há mais nenhum rosto
para além do teu
e não há já ninguém
não resta quase resíduo nenhum
de tudo o que existe e é real
a estas horas toda a cidade está vazia
daqui tu observas já
os pontos da cronologia
a que se hão-de agarrar
as garras e os ganchos desta madrugada
a fixação destes instantes
na história da vida de alguém
não sei como é que
à medida que o tempo acelera
à minha frente só a promessa
do incêndio da manhã
ainda a algumas horas de distância
é evidente
o girar cada vez mais rápido
de cada vez mais e mais cor
colando-se a cada minuto
de um carro que acelera a toda velocidade
para romper a primeira barreira da escuridão
quando ainda não percebo ao certo
se é noite ou manhã
e finalmente a abertura definitiva
um archote deflagrando entre dois instantes
precipitando-se da mão
de um anjo muito com os copos
e muito em desequilíbrio
que contra a harmonia do mais celeste dos coros
encena por apoteose
a tarefa de se atirar do alto da primeira arcada do céu
trazendo com ele fiapos de penas, confusão e desarmonia
como uma teimosa diva no último acto de uma ópera
de olhos fechados, de braços cruzados sobre o peito
para um tráfego de rolls royces lá em baixo
mas é ainda mais cómica a evidência
agora indisputada:
através do nevoeiro
despenhando-se contra os faróis:
a noite transformada em manhã
Roma, 19 de Dezembro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
para se somarem em algo
que parece raro, definitivo, surpreendente
um cavalo ferido em contraluz
nos campos de nevoeiro
ergue-se finalmente diante dos olhos
não exactamente música
mas um pedaço da minha vida
cifrado no estrépito de uma voz
que desce em ângulos
de ironia e esperança
alegria e indiferença
e rebate na luz dos olhos baixos
acendendo-se apagando-se
trouxe-me aqui uma memória
que insistiria em atravessar um continente
por poucas horas, uma garrafa de vinho
a vitalidade de uma certa
quantidade de conversa fiada
numa sucessão de acontecimentos
que não conjuram exactamente uma ordem
embora tu ao contrário de mim
acredites que há no universo uma ordem
eu regressei mesmo pela extrema necessidade
de um pouco de caos
é preciso queimar este tempo
antes de entrarmos de novo na realidade
diz cinco minutos cinco horas
ou talvez a mais adequada forma fossem
as coisas mais imediatas mais fáceis
a espessura de um licor escuro e amargo
num copo minúsculo e raso
ou de uma chávena cheia de café
de manhã, no estômago vazio
os meus ouvidos atentíssimos
plantados entre os leões
assaltados pelo tilintar de colheres em chávenas
facas e garfos contra os pratos
famílias inteiras rindo
e enchendo as mesas para jantar
enquanto sobre mim se abate
a absurda ideia de que nem sequer
ouvi os teus passos afastarem-se
que devemos ser agora um pouco
menos misteriosos mas mais reais
em algum ponto da cidade
os sinos da catedral maceram o ar
e aquele martelo que ouvi
trabalhar ao longe
os golpes desferidos a intervalos regulares
sobre a pedra
foi-se silenciando
mas vai daqui a algumas horas ou dias ou meses
acertar-me em cheio no centro do torso
esmagar-me o peito no mais absurdo
tropeço de ternura
todo o vidro desta atmosfera é febril
tilinta nas conversas
que se vão distanciando
mas não há mais nenhum rosto
para além do teu
e não há já ninguém
não resta quase resíduo nenhum
de tudo o que existe e é real
a estas horas toda a cidade está vazia
daqui tu observas já
os pontos da cronologia
a que se hão-de agarrar
as garras e os ganchos desta madrugada
a fixação destes instantes
na história da vida de alguém
não sei como é que
à medida que o tempo acelera
à minha frente só a promessa
do incêndio da manhã
ainda a algumas horas de distância
é evidente
o girar cada vez mais rápido
de cada vez mais e mais cor
colando-se a cada minuto
de um carro que acelera a toda velocidade
para romper a primeira barreira da escuridão
quando ainda não percebo ao certo
se é noite ou manhã
e finalmente a abertura definitiva
um archote deflagrando entre dois instantes
precipitando-se da mão
de um anjo muito com os copos
e muito em desequilíbrio
que contra a harmonia do mais celeste dos coros
encena por apoteose
a tarefa de se atirar do alto da primeira arcada do céu
trazendo com ele fiapos de penas, confusão e desarmonia
como uma teimosa diva no último acto de uma ópera
de olhos fechados, de braços cruzados sobre o peito
para um tráfego de rolls royces lá em baixo
mas é ainda mais cómica a evidência
agora indisputada:
através do nevoeiro
despenhando-se contra os faróis:
a noite transformada em manhã
Roma, 19 de Dezembro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
704
Tatiana Faia
o mistério dos homens adormecidos
alguns jazem no plaino abandonado
que a morna brisa aquece
no bolso direito das calças a cigarrilha breve
o peito exposto ao ar os braços cruzados
debaixo da nuca
na vulnerabilidade de um gesto
para lá da farda regimental
do fato e gravata de todos os dias
e depois da poeira sobre os sapatos
a respiração tão regular do corpo
é de repente um acidente da sorte
uma dádiva improvável e oportuna
trazendo de volta a desaceleração do quotidiano
alguns nem estão à espera de ver o mundo arder
cumprem os dias como se tudo
o que alguma vez lhes tivesse sido dado viver
fosse um dia só
e apenas uma só versão desse dia existisse
a profundidade existe apenas
quando jazem sem cuidado
ao comprido num sofá num vigésimo segundo andar
num apartamento de vinte cinco metros quadrados
rodeados por um marulhar de barulhos
por todos os lados e sem que o nada os acosse
um leve sorriso cai sobre os lábios
e um cigarro arde no cinzeiro
enquanto eles deslizam pelo aqueronte do sono adentro
sem espadas e sem escudos que lancem a agulha
da resistência ao desconhecido
noite adentro a confiança ou uma promessa
de amantes pode ser algo como isto
alguns regam as plantas cinco minutos antes
e desfazem os nós dos atacadores
e tiram ordeiramente os sapatos
e reconhecem até mesmo a proximidade da morte
mesmo agora enquanto comem uma refeição enlatada
enquanto me dou conta de que alguns são
ainda até atléticos e musculares e necessários
e mesmo a sua extrema necessidade
alimenta o desejo de todas as coisas
a precisão de alguns instantes quando
rapazes jogam à bola debaixo dos olhares de leões
e as cidades são imponentes e inteligentes e sem perdão
como os aborrecidamente espertos quartetos de mozart
alguns fecham os olhos e inadvertidamente
deitam abaixo a última parede do mito
aquela que postulava que a inteligência que permite
ler os dias é uma espera posta à destruição
adormecendo alguns entrelaçam as mãos sobre o peito
como guerreiros medievais sepultados em túmulos de pedra
no coração das cidades
e é estelar o seu abandono como um fragmento
de vidro que se ilumina de repente na escuridão do ar
e mergulhados profundamente no sono
intuem a profundidade do azul na obscuridade da noite
as chamas que marcam as amuradas da noite
as coordenadas do sal na pele
para lá das horas em que escreveram
linhas em que declararam conhecer bem o sal
que se cola à pele vindo das orlas de certas praias no atlântico
e no entanto alguns persistem e aceleram
para lá do sono em carros que cortam pela noite
demasiado cansados e um pouco decadentes
na fronteira com a extrema incoerência
um pouco para lá do cansaço
para lá do facilmente evidente
Nápoles, 8 de Outubro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
que a morna brisa aquece
no bolso direito das calças a cigarrilha breve
o peito exposto ao ar os braços cruzados
debaixo da nuca
na vulnerabilidade de um gesto
para lá da farda regimental
do fato e gravata de todos os dias
e depois da poeira sobre os sapatos
a respiração tão regular do corpo
é de repente um acidente da sorte
uma dádiva improvável e oportuna
trazendo de volta a desaceleração do quotidiano
alguns nem estão à espera de ver o mundo arder
cumprem os dias como se tudo
o que alguma vez lhes tivesse sido dado viver
fosse um dia só
e apenas uma só versão desse dia existisse
a profundidade existe apenas
quando jazem sem cuidado
ao comprido num sofá num vigésimo segundo andar
num apartamento de vinte cinco metros quadrados
rodeados por um marulhar de barulhos
por todos os lados e sem que o nada os acosse
um leve sorriso cai sobre os lábios
e um cigarro arde no cinzeiro
enquanto eles deslizam pelo aqueronte do sono adentro
sem espadas e sem escudos que lancem a agulha
da resistência ao desconhecido
noite adentro a confiança ou uma promessa
de amantes pode ser algo como isto
alguns regam as plantas cinco minutos antes
e desfazem os nós dos atacadores
e tiram ordeiramente os sapatos
e reconhecem até mesmo a proximidade da morte
mesmo agora enquanto comem uma refeição enlatada
enquanto me dou conta de que alguns são
ainda até atléticos e musculares e necessários
e mesmo a sua extrema necessidade
alimenta o desejo de todas as coisas
a precisão de alguns instantes quando
rapazes jogam à bola debaixo dos olhares de leões
e as cidades são imponentes e inteligentes e sem perdão
como os aborrecidamente espertos quartetos de mozart
alguns fecham os olhos e inadvertidamente
deitam abaixo a última parede do mito
aquela que postulava que a inteligência que permite
ler os dias é uma espera posta à destruição
adormecendo alguns entrelaçam as mãos sobre o peito
como guerreiros medievais sepultados em túmulos de pedra
no coração das cidades
e é estelar o seu abandono como um fragmento
de vidro que se ilumina de repente na escuridão do ar
e mergulhados profundamente no sono
intuem a profundidade do azul na obscuridade da noite
as chamas que marcam as amuradas da noite
as coordenadas do sal na pele
para lá das horas em que escreveram
linhas em que declararam conhecer bem o sal
que se cola à pele vindo das orlas de certas praias no atlântico
e no entanto alguns persistem e aceleram
para lá do sono em carros que cortam pela noite
demasiado cansados e um pouco decadentes
na fronteira com a extrema incoerência
um pouco para lá do cansaço
para lá do facilmente evidente
Nápoles, 8 de Outubro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
663
Charles Bukowski
Sol Se Pondo
ninguém está triste por eu ir embora,
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.
isso incomoda mais aos jovens, acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz com que qualquer homem sonhe;
você gostaria de um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.
mar no nariz
mar no cabelo
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.
a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.
isso incomoda mais aos jovens, acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz com que qualquer homem sonhe;
você gostaria de um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.
mar no nariz
mar no cabelo
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.
a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?
1 220
Charles Bukowski
Especial De 1990
gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
1 131
Ernesto de Melo e Castro
Objecto-Casa
O objecto deste poema é aquela casa em frente
6 meses
3 meses
um telhado para colocar.
O objecto são umas quatro paredes
lentas
penosas
6 meses ou mais – quem sabe?
Pelas quartas-feiras
Uma carga de tijolo,
uma caixa grande de vidros de cor,
três centos de pregos,
para um homem lentamente habitar.
O objecto deste poema
é a lentidão sagrada do construir
da casa sita em frente da minha janela.
O objecto é o mistério da renovação do tempo.
O objecto é a quase realização
um telhado para colocar
6 meses
3 homens
uma habitação para cá do infinito.
Antologia para Iniciantes, Porto, Editora Ausência, 2003
6 meses
3 meses
um telhado para colocar.
O objecto são umas quatro paredes
lentas
penosas
6 meses ou mais – quem sabe?
Pelas quartas-feiras
Uma carga de tijolo,
uma caixa grande de vidros de cor,
três centos de pregos,
para um homem lentamente habitar.
O objecto deste poema
é a lentidão sagrada do construir
da casa sita em frente da minha janela.
O objecto é o mistério da renovação do tempo.
O objecto é a quase realização
um telhado para colocar
6 meses
3 homens
uma habitação para cá do infinito.
Antologia para Iniciantes, Porto, Editora Ausência, 2003
729
José Paulo Paes
A tinta de escrever
Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhas
mais duradouro o pergaminho
onde pudesses, arte longa em vida breve
inscrever, vitríolo o epigrama, lágrima
a elegia, bronze a epopeia.
Mas já que o duradouro de hoje nem
espera a tinta do jornal secar,
firma, azul, a tua promissória
ao minuto e adeus que agora é tudo História.
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhas
mais duradouro o pergaminho
onde pudesses, arte longa em vida breve
inscrever, vitríolo o epigrama, lágrima
a elegia, bronze a epopeia.
Mas já que o duradouro de hoje nem
espera a tinta do jornal secar,
firma, azul, a tua promissória
ao minuto e adeus que agora é tudo História.
1 446
Charles Bukowski
Uma Sede Imensa
tenho me tratado com anticorpos por quase 6 meses, baby, para curar um
caso de tuberculose, cara, sobrou para um velho como eu pegar
uma doença tão
antiquada, pegar uma do tamanho de uma bola de basquete ou como uma
sucuri
engolindo um macaco gibão; então agora estou me tratando com
anticorpos e me disseram para não beber
ou fumar por 6 meses, e falam sobre morder ferro com seus
dentes, eu tenho bebido e fumado pesadamente e firmemente com os
melhores
e os piores deles por mais de 50 anos, é,
e a parte mais difícil, parceiro, é eu conhecer gente demais que
bebe e fuma e eles continuam a beber e fumar direto na minha frente
como se
eu não estivesse me segurando para não quebrar seus crânios e rolá-los
pelo assoalho
ou só afugentá-los para bem longe da minha vista - uma vista que
anseia muito por qualquer coisa mesmo microscopicamente viciante.
a parte difícil seguinte disso é ficar sentado à máquina de escrever sem
aquilo,
quero dizer, isso foi meu show, minha dança, minha distração, minha
raison dºêtre, é isso, misturando fumaça e bebida com bater à máquina e
você pode
apostar que é onde a sorte chove dia e noite e o restante do tempo, e
você ouve a frase "cortar é um bode" mas eu não acho que seja
forte o bastante, deveria ser "fazer picadinho é um bode" ou "enterrando
o bode
ainda quente", enfim não tem sido fácil, não não não não não não não
não não não,
e quando eu olho para uma garrafa de cerveja
parece sol engarrafado, uma tragada de cigarro é como o sopro da vida
e uma garrafa de vinho tinto parece o sangue da própria vida.
para mim, é difícil pensar no futuro ou preocupar-me com isso: o
presente
imediato parece tão esmagador e agora eu simpatizo com todos aqueles
que fracassam
em dominar sua bebida e seu cigarro
pois estes últimos 6 meses têm sido os 6 meses mais longos da minha
vida!
desculpe aborrecê-lo com tudo isso, mas não é por isso que você está
aqui?
caso de tuberculose, cara, sobrou para um velho como eu pegar
uma doença tão
antiquada, pegar uma do tamanho de uma bola de basquete ou como uma
sucuri
engolindo um macaco gibão; então agora estou me tratando com
anticorpos e me disseram para não beber
ou fumar por 6 meses, e falam sobre morder ferro com seus
dentes, eu tenho bebido e fumado pesadamente e firmemente com os
melhores
e os piores deles por mais de 50 anos, é,
e a parte mais difícil, parceiro, é eu conhecer gente demais que
bebe e fuma e eles continuam a beber e fumar direto na minha frente
como se
eu não estivesse me segurando para não quebrar seus crânios e rolá-los
pelo assoalho
ou só afugentá-los para bem longe da minha vista - uma vista que
anseia muito por qualquer coisa mesmo microscopicamente viciante.
a parte difícil seguinte disso é ficar sentado à máquina de escrever sem
aquilo,
quero dizer, isso foi meu show, minha dança, minha distração, minha
raison dºêtre, é isso, misturando fumaça e bebida com bater à máquina e
você pode
apostar que é onde a sorte chove dia e noite e o restante do tempo, e
você ouve a frase "cortar é um bode" mas eu não acho que seja
forte o bastante, deveria ser "fazer picadinho é um bode" ou "enterrando
o bode
ainda quente", enfim não tem sido fácil, não não não não não não não
não não não,
e quando eu olho para uma garrafa de cerveja
parece sol engarrafado, uma tragada de cigarro é como o sopro da vida
e uma garrafa de vinho tinto parece o sangue da própria vida.
para mim, é difícil pensar no futuro ou preocupar-me com isso: o
presente
imediato parece tão esmagador e agora eu simpatizo com todos aqueles
que fracassam
em dominar sua bebida e seu cigarro
pois estes últimos 6 meses têm sido os 6 meses mais longos da minha
vida!
desculpe aborrecê-lo com tudo isso, mas não é por isso que você está
aqui?
633
Charles Bukowski
Pobre Noite
acho que estou no primeiro
período a seco da minha vida.
chegando aos 62
a gente teme a senilidade e
um fim
para a sorte.
bebo devagar
dois grandes copos de vinho
e encaro
a página em branco.
sempre veio com tamanha
facilidade.
sempre dei risada dos
escritores que proclamavam que
a criação era
dolorosa.
mudo de estação
no rádio, sirvo-me de
mais vinho.
"papai", ela abre a
porta, "você tem
fósforos?"
"com certeza", eu digo e
lhe passo uns
livros.
ela sai.
Henry Miller está morto.
Saroyan. Jeffers.
Nelson Algren.
Todos eles já estão mortos
há um bom tempo.
"papai", ela volta,
"esta caneta que estou usando é
horrível. você tem alguma
outra caneta?"
"com certeza", eu digo e
lhe passo uma caneta
boa.
"há fumaça demais
nesta sala!"
ela abre a janela.
"você devia deixar um pouco
dessa fumaça sair!"
"você tem razão",
eu digo.
ela sai
e eu gosto da sua
preocupação.
mas então eu estou só
com minha página em branco
outra vez.
a) então
escrevi tudo isso para
preencher o espaço
em branco.
b) então chegou a decisão
de rasgar tudo ou
guardar.
c) será que
fiz
a coisa certa?
período a seco da minha vida.
chegando aos 62
a gente teme a senilidade e
um fim
para a sorte.
bebo devagar
dois grandes copos de vinho
e encaro
a página em branco.
sempre veio com tamanha
facilidade.
sempre dei risada dos
escritores que proclamavam que
a criação era
dolorosa.
mudo de estação
no rádio, sirvo-me de
mais vinho.
"papai", ela abre a
porta, "você tem
fósforos?"
"com certeza", eu digo e
lhe passo uns
livros.
ela sai.
Henry Miller está morto.
Saroyan. Jeffers.
Nelson Algren.
Todos eles já estão mortos
há um bom tempo.
"papai", ela volta,
"esta caneta que estou usando é
horrível. você tem alguma
outra caneta?"
"com certeza", eu digo e
lhe passo uma caneta
boa.
"há fumaça demais
nesta sala!"
ela abre a janela.
"você devia deixar um pouco
dessa fumaça sair!"
"você tem razão",
eu digo.
ela sai
e eu gosto da sua
preocupação.
mas então eu estou só
com minha página em branco
outra vez.
a) então
escrevi tudo isso para
preencher o espaço
em branco.
b) então chegou a decisão
de rasgar tudo ou
guardar.
c) será que
fiz
a coisa certa?
1 062
Charles Bukowski
2 Vistas
meu amigo diz, como é que você pode escrever tantos poemas
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
1 151
Charles Bukowski
Dois Tipos de Inferno
frequentei o mesmo bar por 7 anos, das 6 da manhã
até as 2 da madrugada.
às vezes eu não me lembrava de haver voltado
para meu quarto.
era como se eu ficasse sentado naquela banqueta do bar
continuamente.
eu não tinha dinheiro mas de algum modo os drinques iam
chegando.
eu não era o palhaço do bar mas sim o
louco do bar.
mas com frequência um louco pode encontrar alguém ainda mais
louco para
lhe oferecer bebidas.
afortunadamente,
era um lugar
cheio de gente.
mas eu tinha um objetivo: eu estava esperando que
algo extraordinário
acontecesse.
mas enquanto os anos se passavam à deriva
nada acontecia a não ser que eu
provocasse.
um espelho de bar quebrado, uma luta com um gigante
de mais de dois metros, um flerte com uma lésbica,
a habilidade de dar nome aos bois e de
resolver discussões que eu não havia
começado etc.
um dia eu simplesmente me levantei e caí fora.
simples assim.
e quando comecei a beber sozinho achei minha própria companhia
mais que satisfatória.
então, como se os deuses estivessem chateados por minha paz de
espírito, as mulheres começaram a bater à minha porta.
os deuses estavam mandando mulheres para o
louco!
as mulheres chegavam uma por vez e quando uma ia embora
os deuses imediatamente - sem dar nenhuma folga - me mandavam
outra.
e cada uma delas parecia à primeira vista ser um milagre renovado, mas
então tudo
que à primeira vista parecia maravilhoso acabava
mal.
minha culpa, é claro, era o que elas habitualmente me
diziam
os deuses simplesmente não deixarão um homem beber sozinho; eles têm
ciúmes dos
prazeres simples; assim eles mandam que uma mulher vá
bater em sua porta.
lembro todos aqueles hotéis baratos; era como se todas as mulheres
fossem uma; a primeira batida delicada na madeira e então,
"oh, ouvi você tocando aquela música adorável em seu rádio. somos
vizinhos. moro aqui no 603 mas nunca o vi
no saguão antes!"
"entre?
e lá se foi sua reclusão.
você também se lembra da vez em que
subiu atrás do gigante de 2 metros e derrubou seu
chapéu de caubói, berrando,
"aposto que você é alto demais para chupar os
peitos da sua mãe!"
e alguém no bar dizendo, "ei, senhor, esqueça, ele é um caso
psiquiátrico, é um chato, ele não sabe o que está
dizendo!"
"sei EXATAMENTE o que eu estou dizendo e vou dizer de novo,
"aposto que você é alto demais...""
ele ganhou a briga mas você não morreu, não do modo como você
morreu por dentro depois
de os deuses arranjarem para que todas aquelas mulheres viessem bater à
sua porta.
a troca de socos foi mais justa: ele era lento, estúpido e estava até um
pouco
assustado e a batalha foi a seu favor por algum tempo
do mesmo modo como aconteceu no começo com aquelas mulheres que
os deuses
lhe mandaram.
a diferença sendo, eu resolvi, que ao menos tive uma chance com as
mulheres.
até as 2 da madrugada.
às vezes eu não me lembrava de haver voltado
para meu quarto.
era como se eu ficasse sentado naquela banqueta do bar
continuamente.
eu não tinha dinheiro mas de algum modo os drinques iam
chegando.
eu não era o palhaço do bar mas sim o
louco do bar.
mas com frequência um louco pode encontrar alguém ainda mais
louco para
lhe oferecer bebidas.
afortunadamente,
era um lugar
cheio de gente.
mas eu tinha um objetivo: eu estava esperando que
algo extraordinário
acontecesse.
mas enquanto os anos se passavam à deriva
nada acontecia a não ser que eu
provocasse.
um espelho de bar quebrado, uma luta com um gigante
de mais de dois metros, um flerte com uma lésbica,
a habilidade de dar nome aos bois e de
resolver discussões que eu não havia
começado etc.
um dia eu simplesmente me levantei e caí fora.
simples assim.
e quando comecei a beber sozinho achei minha própria companhia
mais que satisfatória.
então, como se os deuses estivessem chateados por minha paz de
espírito, as mulheres começaram a bater à minha porta.
os deuses estavam mandando mulheres para o
louco!
as mulheres chegavam uma por vez e quando uma ia embora
os deuses imediatamente - sem dar nenhuma folga - me mandavam
outra.
e cada uma delas parecia à primeira vista ser um milagre renovado, mas
então tudo
que à primeira vista parecia maravilhoso acabava
mal.
minha culpa, é claro, era o que elas habitualmente me
diziam
os deuses simplesmente não deixarão um homem beber sozinho; eles têm
ciúmes dos
prazeres simples; assim eles mandam que uma mulher vá
bater em sua porta.
lembro todos aqueles hotéis baratos; era como se todas as mulheres
fossem uma; a primeira batida delicada na madeira e então,
"oh, ouvi você tocando aquela música adorável em seu rádio. somos
vizinhos. moro aqui no 603 mas nunca o vi
no saguão antes!"
"entre?
e lá se foi sua reclusão.
você também se lembra da vez em que
subiu atrás do gigante de 2 metros e derrubou seu
chapéu de caubói, berrando,
"aposto que você é alto demais para chupar os
peitos da sua mãe!"
e alguém no bar dizendo, "ei, senhor, esqueça, ele é um caso
psiquiátrico, é um chato, ele não sabe o que está
dizendo!"
"sei EXATAMENTE o que eu estou dizendo e vou dizer de novo,
"aposto que você é alto demais...""
ele ganhou a briga mas você não morreu, não do modo como você
morreu por dentro depois
de os deuses arranjarem para que todas aquelas mulheres viessem bater à
sua porta.
a troca de socos foi mais justa: ele era lento, estúpido e estava até um
pouco
assustado e a batalha foi a seu favor por algum tempo
do mesmo modo como aconteceu no começo com aquelas mulheres que
os deuses
lhe mandaram.
a diferença sendo, eu resolvi, que ao menos tive uma chance com as
mulheres.
1 247
Charles Bukowski
Possessão
uma velha senhora fala com uma garota que está
secando seu longo cabelo negro sentada em um degrau dos fundos,
ela aponta com o dedo e fala em uma língua estrangeira
e o sol está muito bonito
enquanto a velha senhora fala e penteia as mechas emaranhadas
(tantas luas se passaram desde então)
de repente a garotinha grita e sacode a cabeça
e juntas voltam para dentro da casa
onde ambas morrerão juntas,
mas não entendem elas
o que foi meu, não delas:
o cabelo, o longo cabelo negro seco ao sol,
e talvez a garota também?
secando seu longo cabelo negro sentada em um degrau dos fundos,
ela aponta com o dedo e fala em uma língua estrangeira
e o sol está muito bonito
enquanto a velha senhora fala e penteia as mechas emaranhadas
(tantas luas se passaram desde então)
de repente a garotinha grita e sacode a cabeça
e juntas voltam para dentro da casa
onde ambas morrerão juntas,
mas não entendem elas
o que foi meu, não delas:
o cabelo, o longo cabelo negro seco ao sol,
e talvez a garota também?
1 211