Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Tomas Tranströmer
O som
O melro soprou o seu canto nos ossos dos mortos.
De pé, debaixo de uma árvore, sentíamos o tempo descer e descer.
O pátio da escola e o pátio da igreja encontraram-se e espraiaram-se
um no outro como duas tempestades no mar.
O som dos sinos da igreja elevou-se , levado pela alavanca suave
do planador.
Deixaram para trás um silêncio poderoso na terra
e os passos calmos de uma árvore, os passos calmos de uma árvore.
De pé, debaixo de uma árvore, sentíamos o tempo descer e descer.
O pátio da escola e o pátio da igreja encontraram-se e espraiaram-se
um no outro como duas tempestades no mar.
O som dos sinos da igreja elevou-se , levado pela alavanca suave
do planador.
Deixaram para trás um silêncio poderoso na terra
e os passos calmos de uma árvore, os passos calmos de uma árvore.
658
Mauro Mota
DOMINGO NO RECIFE
O número encarnado no calendário,
retalho do vestido esvoaçante
na tarde de regata, derradeira
mancha de sangue,
o corpo recomposto nessa mancha
deslizando na superfície do domingo.
Domingo urbano colorido de acácias,
que acharam nesta floração apenas
as sombras dos antigos namorados
(Ó pedra tumular do banco do jardim público).
Dia nítido lavado pelo Capibaribe,
o rio ninando o Recife,
o Recife criança em seus braços maternos.
Domingos de várias ressurreições,
da mãe levando o menino para a missa,
do primeiro cinema impróprio pra menores,
do circo, do clarinete de “seu” Miguel.
Domingo colonial imutável no bairro de São José.
Vêm da igreja a música do órgão e as vozes femininas
de dois séculos.
Um voo de pomba acaricia o espaço quieto.
O Espírito Santo baixará no pátio de São Pedro.
Domingo feito de silêncio e sombras descendo a escada,
perturbas somente a paz dos arquivos,
libertas o tempo prisioneiro nas gavetas.
As palavras das cartas soam como vozes,
as dedicatórias saem do mutismo
da caligrafia para os lábios úmidos dos retratos.
Exuma-se o baralho
na mesa de jantar (as primas em dezembro)
os valetes dormindo para sempre,
as damas louras consumidas.
Vejo, do cais da Rua da Aurora, o domingo fugindo nas ioles,
na cor da tarde, no voo dos passarinhos,
na bicicleta de Suzana.
Assisto ao suicídio do domingo no Recife,
o domingo jogando-se da torre do Diario
na música do carrilhão batendo meia-noite.
Receio de entrar na madrugada fria.
Recolho na praça as horas despedaçadas.
Quero que este domingo seja a antecipação da eternidade.
retalho do vestido esvoaçante
na tarde de regata, derradeira
mancha de sangue,
o corpo recomposto nessa mancha
deslizando na superfície do domingo.
Domingo urbano colorido de acácias,
que acharam nesta floração apenas
as sombras dos antigos namorados
(Ó pedra tumular do banco do jardim público).
Dia nítido lavado pelo Capibaribe,
o rio ninando o Recife,
o Recife criança em seus braços maternos.
Domingos de várias ressurreições,
da mãe levando o menino para a missa,
do primeiro cinema impróprio pra menores,
do circo, do clarinete de “seu” Miguel.
Domingo colonial imutável no bairro de São José.
Vêm da igreja a música do órgão e as vozes femininas
de dois séculos.
Um voo de pomba acaricia o espaço quieto.
O Espírito Santo baixará no pátio de São Pedro.
Domingo feito de silêncio e sombras descendo a escada,
perturbas somente a paz dos arquivos,
libertas o tempo prisioneiro nas gavetas.
As palavras das cartas soam como vozes,
as dedicatórias saem do mutismo
da caligrafia para os lábios úmidos dos retratos.
Exuma-se o baralho
na mesa de jantar (as primas em dezembro)
os valetes dormindo para sempre,
as damas louras consumidas.
Vejo, do cais da Rua da Aurora, o domingo fugindo nas ioles,
na cor da tarde, no voo dos passarinhos,
na bicicleta de Suzana.
Assisto ao suicídio do domingo no Recife,
o domingo jogando-se da torre do Diario
na música do carrilhão batendo meia-noite.
Receio de entrar na madrugada fria.
Recolho na praça as horas despedaçadas.
Quero que este domingo seja a antecipação da eternidade.
753
Osman Lins
II – Flagrantes Esportivos
— Os voos sobre a neve —
O lenço polido e frio.
É uma cauda de noiva,
o longo lençol de neve.
As asas guardam em si as possibilidade de voo.
Mas as asas do homem não têm plumas,
não participam de alturas:
são instrumentos de abraços
e suas únicas relações com a distância são os gestos de adeus.
Descendo, velos, na branca esteira de neve,
Um homem colhe no corpo um impulso que o lançara no ar.
(assim é possível colher,
numa rápida visão da namorada,
a subsequente alegria)
E o homem desprende-se do solo,
braços abertos,
lança à face das montanhas sua transitória e audaciosa revolta.
Fenece o impulso, o voo se interrompe;
esvai-se a alegria,
o homem desce.
§
A Cesta Enganosa
Num gesto de prestidigitador que solta um pombo,
um jogador endereça a bola ao companheiro , que corre.
Entre sua mão e o solo, a esfera traça
. . . . . . . . . . . . . [o desenho de um sismógrafo,
— tal como Virgínia, vestido de cambraia,
naquelas tardes antigas,
com sua ternura infantil a sua bola azul.
Entre os dez homens aflitos
há uma serie de equívocos.
Todos correm, a bola passa
de mão em mão. Afinal,
afinal, serenamente, como se buscava um ninho,
como corpo fatigado que se aninhasse na rede,
flor num jarro transparente ou anular num anel,
a bola acerta com a cesta.
Mas, oh! A cesta está furada
e permanece vazia
como anel sem anular.
§
A Devolução do Tempo
O trampolim é um braço estendido
com a iminência de um milagre na extremidade da mão.
Calma,
como a assinalar o princípio da canção que
[o seu próprio corpo contará no ar.
a moça estende os braços.
Há um silencio místico:
Estamos em face do sobrenatural.
A água da piscina estremece,
tem frêmitos de folhagem.
Os calcanhares se erguem
— e este sinal tem qualquer coisa de fronte que se inclina para um beijo.
Numa decisão de suicida,
o corpo iluminado se projeta,
é linha e fuso,
e seta disparada.
Veloz,
estrela libertada que finge itinerário de pássaro,
a flama vertical desaparece.
(Quem me trará de volta a saltadora?)
Torne o sol tornem os relógios,
torne o meu encantamento.
como estrela dissipada,
que refizesse o caminho
da própria rebelião,
a saltadora ressurge.
Afla, leve, a flor das águas,
e pousa no trampolim:
a sombra de um passarinho
que pousasse em minha mão,
não seria leve assim.
O lenço polido e frio.
É uma cauda de noiva,
o longo lençol de neve.
As asas guardam em si as possibilidade de voo.
Mas as asas do homem não têm plumas,
não participam de alturas:
são instrumentos de abraços
e suas únicas relações com a distância são os gestos de adeus.
Descendo, velos, na branca esteira de neve,
Um homem colhe no corpo um impulso que o lançara no ar.
(assim é possível colher,
numa rápida visão da namorada,
a subsequente alegria)
E o homem desprende-se do solo,
braços abertos,
lança à face das montanhas sua transitória e audaciosa revolta.
Fenece o impulso, o voo se interrompe;
esvai-se a alegria,
o homem desce.
§
A Cesta Enganosa
Num gesto de prestidigitador que solta um pombo,
um jogador endereça a bola ao companheiro , que corre.
Entre sua mão e o solo, a esfera traça
. . . . . . . . . . . . . [o desenho de um sismógrafo,
— tal como Virgínia, vestido de cambraia,
naquelas tardes antigas,
com sua ternura infantil a sua bola azul.
Entre os dez homens aflitos
há uma serie de equívocos.
Todos correm, a bola passa
de mão em mão. Afinal,
afinal, serenamente, como se buscava um ninho,
como corpo fatigado que se aninhasse na rede,
flor num jarro transparente ou anular num anel,
a bola acerta com a cesta.
Mas, oh! A cesta está furada
e permanece vazia
como anel sem anular.
§
A Devolução do Tempo
O trampolim é um braço estendido
com a iminência de um milagre na extremidade da mão.
Calma,
como a assinalar o princípio da canção que
[o seu próprio corpo contará no ar.
a moça estende os braços.
Há um silencio místico:
Estamos em face do sobrenatural.
A água da piscina estremece,
tem frêmitos de folhagem.
Os calcanhares se erguem
— e este sinal tem qualquer coisa de fronte que se inclina para um beijo.
Numa decisão de suicida,
o corpo iluminado se projeta,
é linha e fuso,
e seta disparada.
Veloz,
estrela libertada que finge itinerário de pássaro,
a flama vertical desaparece.
(Quem me trará de volta a saltadora?)
Torne o sol tornem os relógios,
torne o meu encantamento.
como estrela dissipada,
que refizesse o caminho
da própria rebelião,
a saltadora ressurge.
Afla, leve, a flor das águas,
e pousa no trampolim:
a sombra de um passarinho
que pousasse em minha mão,
não seria leve assim.
568
Armando Cortes-Rodrigues
Anoitecer
Ficou o céu descorado…
E a Noite, que se avizinha,
Vem descendo ao povoado,
Como trôpega velhinha.
Para a guiar com cuidado
Veio-lhe ao encontro a Tardinha,
Não fosse a Noite sozinha
Perder-se em caminho errado.
Vão as duas caminhando…
E como o Sol já não arde,
Para o caminho ir mostrando
A primeira estrela brilha…
Então diz a Noite à Tarde:
– Vai-te deitar minha filha.
E a Noite, que se avizinha,
Vem descendo ao povoado,
Como trôpega velhinha.
Para a guiar com cuidado
Veio-lhe ao encontro a Tardinha,
Não fosse a Noite sozinha
Perder-se em caminho errado.
Vão as duas caminhando…
E como o Sol já não arde,
Para o caminho ir mostrando
A primeira estrela brilha…
Então diz a Noite à Tarde:
– Vai-te deitar minha filha.
726
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
BALOIÇO
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
1 066
Fernando Echevarría
Lentos nos Fomos Esquecendo
Lentos nos fomos esquecendo. Quando
o tempo da velhice nos foi vindo
a tez apareceu amorenada de anos
e afeita ao espírito.
A lavoura sabia aos nossos passos.
Até os desperdícios
iluminavam debilmente o armário
e a penumbra dos rincões escritos.
Mas nós só estávamos
em nos havermos esquecido.
Ou, às vezes, a aura do trabalho
quase fazia com que na mesa o sítio
aparecesse coroado de anos
sobre a mão a mover-se pelo seu próprio espírito.
o tempo da velhice nos foi vindo
a tez apareceu amorenada de anos
e afeita ao espírito.
A lavoura sabia aos nossos passos.
Até os desperdícios
iluminavam debilmente o armário
e a penumbra dos rincões escritos.
Mas nós só estávamos
em nos havermos esquecido.
Ou, às vezes, a aura do trabalho
quase fazia com que na mesa o sítio
aparecesse coroado de anos
sobre a mão a mover-se pelo seu próprio espírito.
671
Mário Chamie
Espaço inaugural
O espaço que se mede
e que se perde
não é o tempo perdido
da memória.
Esquece.
O tempo que se perde
é o mesmo que fenece
a cada hora.
Na hora do homem
em casa.
Na hora do homem
na rua.
Na hora do espanto
desse homem
sem tempo
no espaço de cada canto.
Mas o cansaço do tempo
que se perde
não impede o espaço
que se inaugura.
O espaço do homem
na praça.
O espaço do homem
em luta
com a fúria de outro tempo
sua surda fúria muda.
e que se perde
não é o tempo perdido
da memória.
Esquece.
O tempo que se perde
é o mesmo que fenece
a cada hora.
Na hora do homem
em casa.
Na hora do homem
na rua.
Na hora do espanto
desse homem
sem tempo
no espaço de cada canto.
Mas o cansaço do tempo
que se perde
não impede o espaço
que se inaugura.
O espaço do homem
na praça.
O espaço do homem
em luta
com a fúria de outro tempo
sua surda fúria muda.
964
Fernando Echevarría
Com a Altura da Idade a Casa se Acrescenta
Com a altura da idade a casa se acrescenta.
Não é que aumente a quantidade ao espaço.
Mas, sendo mais longínquos, o desapego pensa
maior distância quando se fica a olhá-lo.
Ou, se quiserem, uma realeza
se instala à volta dessa altura de anos,
de forma a que os objectos apareçam
na luz de quase já nem os amarmos.
Então a casa distende-se na intensa
inteligência de estarmos
a ver as coisas amarem-se a si mesmas.
Ou com a forma a difundir seu espaço.
Não é que aumente a quantidade ao espaço.
Mas, sendo mais longínquos, o desapego pensa
maior distância quando se fica a olhá-lo.
Ou, se quiserem, uma realeza
se instala à volta dessa altura de anos,
de forma a que os objectos apareçam
na luz de quase já nem os amarmos.
Então a casa distende-se na intensa
inteligência de estarmos
a ver as coisas amarem-se a si mesmas.
Ou com a forma a difundir seu espaço.
735
Fernando Echevarría
A Velhice é um Vento
A velhice é um vento que nos toma
no seu halo feliz de ensombramento.
E em nós depõe do que se deu à obra
somente o modo de não sentir o tempo,
senão no ritmo interior de a sombra
passar à transparência do momento.
Mas um momento de que baniram horas
o hábito e o jeito de estar vendo
para muito mais longe. Para de onde a obra
surde. E a velhice nos ilumina o vento.
no seu halo feliz de ensombramento.
E em nós depõe do que se deu à obra
somente o modo de não sentir o tempo,
senão no ritmo interior de a sombra
passar à transparência do momento.
Mas um momento de que baniram horas
o hábito e o jeito de estar vendo
para muito mais longe. Para de onde a obra
surde. E a velhice nos ilumina o vento.
761
Fernando Echevarría
Que Glória tão Completa
Que glória tão completa não estar nunca
onde ela sobe da multidão. Que glória
é ordem alastrando da estrutura
pela massa de vir a ser a obra
até que ser em si tanto a institua
que ser em si seja uma luz à volta.
E, que glória, perder-nos pela funda
atenção à tarefa, quando a nossa
corporeidade apenumbra
estarmos destruindo alguma sombra.
Então o afinco da paciência a blusa
quase ilumina. E as horas,
na oficina do tempo, ampliam sua
ondeação de se ir perdendo a história.
onde ela sobe da multidão. Que glória
é ordem alastrando da estrutura
pela massa de vir a ser a obra
até que ser em si tanto a institua
que ser em si seja uma luz à volta.
E, que glória, perder-nos pela funda
atenção à tarefa, quando a nossa
corporeidade apenumbra
estarmos destruindo alguma sombra.
Então o afinco da paciência a blusa
quase ilumina. E as horas,
na oficina do tempo, ampliam sua
ondeação de se ir perdendo a história.
716
Fernando Echevarría
O Tempo Vive
O tempo vive, quando os homens, nele,
se esquecem de si mesmos,
ficando, embora, a contemplar o estreme
reduto de estar sendo.
O tempo vive a refrescar a sede
dos animais e do vento,
quando a estrutura estremece
a dura escuridão que, desde dentro,
irrompe. E fica com o uivo agreste
espantando o seu estrondo de silêncio.
se esquecem de si mesmos,
ficando, embora, a contemplar o estreme
reduto de estar sendo.
O tempo vive a refrescar a sede
dos animais e do vento,
quando a estrutura estremece
a dura escuridão que, desde dentro,
irrompe. E fica com o uivo agreste
espantando o seu estrondo de silêncio.
620
Fernando Echevarría
Seria Eterno
Seria eterno, se não fosse entrando
por aquele país de solidão,
aonde ver a luz alarga, quando
e alarga, à volta, a vinda do verão.
Seria eterno. Assim somente o brando
movimento de entrar se lhe mensura,
conforme ver, ao ir-se dilatando,
amplia o campo útil da ternura.
E, enquanto entra, um cântico de brisa
lembra quanto por campos foi outrora
tempo apagando a sua face lisa,
qual se alisando, se apagasse a hora.
E, indo entrando, a solidão se irisa
e o vai esquecendo pelo tempo fora.
por aquele país de solidão,
aonde ver a luz alarga, quando
e alarga, à volta, a vinda do verão.
Seria eterno. Assim somente o brando
movimento de entrar se lhe mensura,
conforme ver, ao ir-se dilatando,
amplia o campo útil da ternura.
E, enquanto entra, um cântico de brisa
lembra quanto por campos foi outrora
tempo apagando a sua face lisa,
qual se alisando, se apagasse a hora.
E, indo entrando, a solidão se irisa
e o vai esquecendo pelo tempo fora.
757
Fernando Echevarría
Felizes
Felizes. Porque, ao fundo de si mesmos,
cheios andam de quanto vão pensando.
E, disso cheios,
nada mais sabem. Dão para aquele lado
onde o mundo acabou, mas resta o eco
de o haverem pensado até ao cabo
e irem agora criar o movimento
que subsiste no tempo
de o mundo ainda estar a ser criado.
Por isso são felizes. Foram sendo
até, perdido o tempo, só em memória o estarem habitando.
cheios andam de quanto vão pensando.
E, disso cheios,
nada mais sabem. Dão para aquele lado
onde o mundo acabou, mas resta o eco
de o haverem pensado até ao cabo
e irem agora criar o movimento
que subsiste no tempo
de o mundo ainda estar a ser criado.
Por isso são felizes. Foram sendo
até, perdido o tempo, só em memória o estarem habitando.
704
Fernando Guimarães
A Posse
Que súbita suspeita — dália enorme —
passara como a sombra nos teus cílios,
se a manhã chega enquanto de nós foge
o tempo que já tinha destruído.
Um rosto sobre o peito o que escutava?
A canção, um contorno de mamilos
breve, se erguida a curva nas espáduas
era o desejo, e calma, largos rios.
Cabelos desgrenhados, fugitivos,
e vento não havia, ou quase chama
nos rins, na pele, um cancro que consome
este pecado casto, e já os lábios
se fecham, quando rápida ou mais funda
em nós cresceu a ferida dos sentidos.
passara como a sombra nos teus cílios,
se a manhã chega enquanto de nós foge
o tempo que já tinha destruído.
Um rosto sobre o peito o que escutava?
A canção, um contorno de mamilos
breve, se erguida a curva nas espáduas
era o desejo, e calma, largos rios.
Cabelos desgrenhados, fugitivos,
e vento não havia, ou quase chama
nos rins, na pele, um cancro que consome
este pecado casto, e já os lábios
se fecham, quando rápida ou mais funda
em nós cresceu a ferida dos sentidos.
758
Fernando Echevarría
A Solidão é Sempre Fundamento da Liberdade
A solidão é sempre fundamento
da liberdade. Mas também do espaço
por onde se desenvolve o alargar do tempo
à volta da atenção estrita do acto.
Húmus, e alma, é a solidão. E vento,
quando da imóvel solenidade clama
o mudo susto do grito, ainda suspenso
do nome que vai ser sua prisão pensada.
A menos que esse nome seja estremecimento
fruto de solidão compenetrada
que, por dentro da sombra, nomeia o movimento
de cada corpo entrando por sua luz sagrada.
da liberdade. Mas também do espaço
por onde se desenvolve o alargar do tempo
à volta da atenção estrita do acto.
Húmus, e alma, é a solidão. E vento,
quando da imóvel solenidade clama
o mudo susto do grito, ainda suspenso
do nome que vai ser sua prisão pensada.
A menos que esse nome seja estremecimento
fruto de solidão compenetrada
que, por dentro da sombra, nomeia o movimento
de cada corpo entrando por sua luz sagrada.
862
Júlio Maria dos Reis Pereira
Envelhecer
É bom envelhecer!
Sentir cair o tempo,
magro fio de areia,
numa ampulheta inexistente!
Passam casais jovens
abraçados!...
As árvores
balançam novos ramos!...
E o fio de areia
a cair, a cair, a cair...
Sentir cair o tempo,
magro fio de areia,
numa ampulheta inexistente!
Passam casais jovens
abraçados!...
As árvores
balançam novos ramos!...
E o fio de areia
a cair, a cair, a cair...
819
Manuel Gusmão
o comboio de corda
o comboio de corda
cruza o sítio de partida
e fecha um dos zeros
do ∞ deitado no mapa
celeste
e se leste
até ao fim o seu movimento
viste-o fechar o outro zero
e caíste infinitamente
na terra finita.
cruza o sítio de partida
e fecha um dos zeros
do ∞ deitado no mapa
celeste
e se leste
até ao fim o seu movimento
viste-o fechar o outro zero
e caíste infinitamente
na terra finita.
1 200
Eucanaã Ferraz
TRAÇO
Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.
No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.
Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.
Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.
Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.
No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.
Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.
Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.
Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
771
Júlio Maria dos Reis Pereira
Nunca Envelhecerás
A tua cabeleira
é já grisalha ou mesmo branca?
Para mim é toda loira
e circundada de estrelas.
Sobre ela
o tempo não poisou
o inverno dos anos
que se escoam maldosos
insinuando rugas, fios brancos...
Ao teu corpo colou-se
o vestido de seda,
como segunda pele;
entre os seios pequenos
viceja perene
um raminho de cravos...
Pétalas esguias
emolduram-te os dedos...
E revoadas de aves
traçam ao teu redor
volutas de primavera.
Nunca envelhecerás na minha lembrança!...
é já grisalha ou mesmo branca?
Para mim é toda loira
e circundada de estrelas.
Sobre ela
o tempo não poisou
o inverno dos anos
que se escoam maldosos
insinuando rugas, fios brancos...
Ao teu corpo colou-se
o vestido de seda,
como segunda pele;
entre os seios pequenos
viceja perene
um raminho de cravos...
Pétalas esguias
emolduram-te os dedos...
E revoadas de aves
traçam ao teu redor
volutas de primavera.
Nunca envelhecerás na minha lembrança!...
699
Júlio Maria dos Reis Pereira
Ali
Ali sofreste. Ali amaste.
Ali é a pedra do teu lar.
Ali é o teu, bem teu lugar.
Ali a praça onde jogaste
o que o destino te quis dar.
Ali ficou tua pegada
impressa, firme, sobre o chão.
Ninguém a vê sob o montão
de cinza fria e poeirada?
Distingue-a, sim, teu coração.
Podem talvez o vento, a neve,
roubar a flor que tu criaste?
Ali sofreste. Ali amaste.
Ali sentiste a vida breve.
Ali sorriste. Ali choraste.
Ali é a pedra do teu lar.
Ali é o teu, bem teu lugar.
Ali a praça onde jogaste
o que o destino te quis dar.
Ali ficou tua pegada
impressa, firme, sobre o chão.
Ninguém a vê sob o montão
de cinza fria e poeirada?
Distingue-a, sim, teu coração.
Podem talvez o vento, a neve,
roubar a flor que tu criaste?
Ali sofreste. Ali amaste.
Ali sentiste a vida breve.
Ali sorriste. Ali choraste.
717
Júlio Maria dos Reis Pereira
Música
A doce, iriada melodia,
roxa sombra na tarde escarlate,
chorosa, ouço-a; bate
e verte quentura na minha alma fria.
Quantos anos galgaram lépidos,
furtivos, maldosos, sobre a minha cabeça!
E não há tempo que, húmido, arrefeça
a toada suave de tons tépidos...
Remédio para as minhas feridas,
para os nervos pacífico brometo,
quando eu seguir no caixão preto,
entre velas e ladainhas,
meus ouvidos tapados a algodão
hão-de ouvi-la, tal como nessa tarde,
tão discreta, suave e sem alarde,
sobrepondo-se ao cantochão...
roxa sombra na tarde escarlate,
chorosa, ouço-a; bate
e verte quentura na minha alma fria.
Quantos anos galgaram lépidos,
furtivos, maldosos, sobre a minha cabeça!
E não há tempo que, húmido, arrefeça
a toada suave de tons tépidos...
Remédio para as minhas feridas,
para os nervos pacífico brometo,
quando eu seguir no caixão preto,
entre velas e ladainhas,
meus ouvidos tapados a algodão
hão-de ouvi-la, tal como nessa tarde,
tão discreta, suave e sem alarde,
sobrepondo-se ao cantochão...
729
Jaime Rocha
48 A mulher mostra-se na luz
A mulher mostra-se na luz, entre a folhagem.
A cor dos seus cabelos está intacta. Ela tece
um caminho para o homem, mas as mãos dele
colaram-se ao cimento, os seus olhos pararam
no tempo. Todo o seu corpo se assemelha agora
a uma árvore acorrentada pelas heras onde não
entra a música, nem o tempo que separa os dias.
As ondas sustiveram o movimento em direcção
à praia, regressando ao outro lado do horizonte.
As nuvens caíram. As aves perderam as asas.
Tudo, até os cães, desapareceu na escuridão.
Apenas umas pétalas esvoaçaram ao acaso,
seguindo o rasto dos morcegos, num último
torpor, numa vergonha.
A cor dos seus cabelos está intacta. Ela tece
um caminho para o homem, mas as mãos dele
colaram-se ao cimento, os seus olhos pararam
no tempo. Todo o seu corpo se assemelha agora
a uma árvore acorrentada pelas heras onde não
entra a música, nem o tempo que separa os dias.
As ondas sustiveram o movimento em direcção
à praia, regressando ao outro lado do horizonte.
As nuvens caíram. As aves perderam as asas.
Tudo, até os cães, desapareceu na escuridão.
Apenas umas pétalas esvoaçaram ao acaso,
seguindo o rasto dos morcegos, num último
torpor, numa vergonha.
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Júlio Maria dos Reis Pereira
A Minha Hora
Que horas são? O meu relógio está parado,
Há quanto tempo!...
Que pena o meu relógio estar parado
E eu não poder marcar esta hora extraordinária!
Hora em que o sonho ascende, lento, muito lento,
Hora som de violino a expirar... Hora vária,
Hora sombra alongada de convento...
Hora feita de nostalgia
Dos degredados...
Hora dos abandonados
E dos que o tédio abate sem cessar...
Hora dos que nunca tiveram alegria,
Hora dos que cismam noite e dia,
Hora dos que morrem sem amar...
Hora em que os doentes de corpo e alma,
Pedem ao Senhor para os sarar...
Hora de febre e de calma,
Hora em que morre o sol e nasce o luar...
Hora em que os pinheiros pela encosta acima,
São monges a rezar...
Hora irmã da caridade
Que dá remédio aos que o não têm...
Hora saudade...
Hora dos Pedro Sem...
Hora dos que choram por não ter vivido,
Hora dos que vivem a chorar alguém...
Hora dos que têm um sonho águia mas... ai!
Águia sem asas para voar...
Hora dos que não têm mãe nem pai
E dos que não têm um berço p'ra embalar...
Hora dos que passam por este mundo,
De olhos fechados, a sonhar...
Hora de sonhos... A minha hora
- 'Stertor's de sol, vagidos de luar -
Mas... ai! a lua lá vem agora...
- Senhora lua, minha senhora,
Mais um minuto para a minha hora,
Mais um minuto para sonhar...
Há quanto tempo!...
Que pena o meu relógio estar parado
E eu não poder marcar esta hora extraordinária!
Hora em que o sonho ascende, lento, muito lento,
Hora som de violino a expirar... Hora vária,
Hora sombra alongada de convento...
Hora feita de nostalgia
Dos degredados...
Hora dos abandonados
E dos que o tédio abate sem cessar...
Hora dos que nunca tiveram alegria,
Hora dos que cismam noite e dia,
Hora dos que morrem sem amar...
Hora em que os doentes de corpo e alma,
Pedem ao Senhor para os sarar...
Hora de febre e de calma,
Hora em que morre o sol e nasce o luar...
Hora em que os pinheiros pela encosta acima,
São monges a rezar...
Hora irmã da caridade
Que dá remédio aos que o não têm...
Hora saudade...
Hora dos Pedro Sem...
Hora dos que choram por não ter vivido,
Hora dos que vivem a chorar alguém...
Hora dos que têm um sonho águia mas... ai!
Águia sem asas para voar...
Hora dos que não têm mãe nem pai
E dos que não têm um berço p'ra embalar...
Hora dos que passam por este mundo,
De olhos fechados, a sonhar...
Hora de sonhos... A minha hora
- 'Stertor's de sol, vagidos de luar -
Mas... ai! a lua lá vem agora...
- Senhora lua, minha senhora,
Mais um minuto para a minha hora,
Mais um minuto para sonhar...
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Júlio Maria dos Reis Pereira
Quieta
Passaste
subtil
na tarde quieta.
O ar anil
ondulou…
Como uma seta
uma ave baixou
da velha torre
e pousou quieta.
Eu era o esteta
procurando
entre fórmulas mil
o ancoradouro, a meta…
Inúteis tentativas!…
Tudo passou…
Tudo queimou
o tempo vil…
Só perdurou
o ar anil
da tarde quieta.
subtil
na tarde quieta.
O ar anil
ondulou…
Como uma seta
uma ave baixou
da velha torre
e pousou quieta.
Eu era o esteta
procurando
entre fórmulas mil
o ancoradouro, a meta…
Inúteis tentativas!…
Tudo passou…
Tudo queimou
o tempo vil…
Só perdurou
o ar anil
da tarde quieta.
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