Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Rogério Bessa
Soneto da Amada
vou perdido e achado em ti
em tempo partida do mundo sem tempo
tempo de omissão de todos os cuidados
para o mundo da tua presença
vou achado e perdido em ti
duas vidas solam um só tempo
vida de mãos dadas
de morno amor de seios
vou perdido e achado em ti
dormindo no sem tempo
à sombra do eterno
vou durmo esqueço à sombra em ti a
árvore de natal está linda
perdido e achado caminho e não ando.
em tempo partida do mundo sem tempo
tempo de omissão de todos os cuidados
para o mundo da tua presença
vou achado e perdido em ti
duas vidas solam um só tempo
vida de mãos dadas
de morno amor de seios
vou perdido e achado em ti
dormindo no sem tempo
à sombra do eterno
vou durmo esqueço à sombra em ti a
árvore de natal está linda
perdido e achado caminho e não ando.
962
Renato Castelo Branco
O Instante
É um instante
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.
É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,
De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.
É um instante de glória,
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.
É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,
De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.
É um instante de glória,
1 151
Rogério Bessa
Elegia do Coentro
o canteiro não o faz mais verde
namoram-lhe as sementes os pássaros
cuidado de mulher o ajeita
do vento que o entortou
vegetal de vida útil e breve
que nasce verde e verde morre
não lhe será longa a vida
as folhas amarelecendo
coentro, tempero de alguns
destempero de si próprio
utilidade verde da vida
brevidade verde de si mesmo.
namoram-lhe as sementes os pássaros
cuidado de mulher o ajeita
do vento que o entortou
vegetal de vida útil e breve
que nasce verde e verde morre
não lhe será longa a vida
as folhas amarelecendo
coentro, tempero de alguns
destempero de si próprio
utilidade verde da vida
brevidade verde de si mesmo.
1 612
Prado Kelly
Relógio
Teces, fios do Tempo, as Horas... Em nevoentos
dias, severo deus, Cronos vívido, escreves,
na eterna oscilação dos nossos pensamentos,
glórias benditas, gozos suaves, sonhos leves.
E, enquanto marcas, no fragor dos sentimentos,
horas rubras de chama e horas frias de neves,
para instantes de dor teus compassos são lentos,
para sonhos de amor teus minutos são breves.
Dá-me repouso, ó Tempo, e dai-me, Horas augustas,
a esmola do sossego e a mercê do abandono.
Quero dormir... A treva é a luz das almas justas.
E, ó Destino, concede à minha alma incendida
a Morte, pois a Morte é o infinito do sono
e o sono, mais que tudo, é o conforto da Vida.
dias, severo deus, Cronos vívido, escreves,
na eterna oscilação dos nossos pensamentos,
glórias benditas, gozos suaves, sonhos leves.
E, enquanto marcas, no fragor dos sentimentos,
horas rubras de chama e horas frias de neves,
para instantes de dor teus compassos são lentos,
para sonhos de amor teus minutos são breves.
Dá-me repouso, ó Tempo, e dai-me, Horas augustas,
a esmola do sossego e a mercê do abandono.
Quero dormir... A treva é a luz das almas justas.
E, ó Destino, concede à minha alma incendida
a Morte, pois a Morte é o infinito do sono
e o sono, mais que tudo, é o conforto da Vida.
662
Moranno Portela
Maturidade
Tudo finda.
Tudo um dia finda
e nem percebemos
essa morte súbita
e escorregadia a carcomer
os nervos do que foi espanto.
Vem desde antes
mesmo ainda antes
da elaboração do existir
esse morrer constante
que dá-se à vida.
Vida:
nome tanto para
tão pouca fruta
que não cessa de madurar seu fruto
e infalível apodrecer
em semente.
Tudo um dia finda
e nem percebemos
essa morte súbita
e escorregadia a carcomer
os nervos do que foi espanto.
Vem desde antes
mesmo ainda antes
da elaboração do existir
esse morrer constante
que dá-se à vida.
Vida:
nome tanto para
tão pouca fruta
que não cessa de madurar seu fruto
e infalível apodrecer
em semente.
960
Moranno Portela
Tempo Íntimo
Inscreve teu poema no tempo
como no tempo estás inscrito: —
um silencioso grito
juntando os cacos da solidão.
Estás partido,
e teu poema é só um eco
sem raízes ou audível chão.
Contudo cantas,
e tua voz, rouca, vai desvendando
as faces do mundo
sob tua pele escondidas.
Canta, canta que aprenderás
o tempo, teu relógio de pulso
ecoando efêmero teu coração
— o relógio enorme da catedral
e o silêncio.
como no tempo estás inscrito: —
um silencioso grito
juntando os cacos da solidão.
Estás partido,
e teu poema é só um eco
sem raízes ou audível chão.
Contudo cantas,
e tua voz, rouca, vai desvendando
as faces do mundo
sob tua pele escondidas.
Canta, canta que aprenderás
o tempo, teu relógio de pulso
ecoando efêmero teu coração
— o relógio enorme da catedral
e o silêncio.
953
Madi
Tudo Muda, Tudo Cansa
Tudo Muda, Tudo Cansa
Aos poucos,
os longos anos de amor tudo muda
Aos poucos,
também, tudo cansa
À conta-gotas,
lá se foi o que era doce
Aí, a cama fica estreita
Aí, você sonha em ter uma só para você
Daí, as noites de amor são só de vez em quando
Aos poucos,
os longos anos de amor tudo muda
Aos poucos,
também, tudo cansa
À conta-gotas,
lá se foi o que era doce
Aí, a cama fica estreita
Aí, você sonha em ter uma só para você
Daí, as noites de amor são só de vez em quando
879
Madi
O Passar das Horas
O Passar das Horas
São 23h55 de um sábado — 28 de dezembro de um ano qualquer
O meu amor por ti nasceu num ano bissexto
Há horas você foi embora
e para me distrair fui à livraria comprar poemas
Os últimos de Drummond
Há horas você foi embora
e não tem poema que me console
Tenho andado frágil,
sensível,
chorando à toa,
mostrando o coração
A minha versão atual não é moderna
Visto a roupagem do desgaste
e, sem fazer questão do meu resgate, vou ainda mais longe:
me ofereço como quem oferece rosas num mercado ambulante,
sem promover contra você rebelião ou levante
São 23h55 de um sábado — 28 de dezembro de um ano qualquer
O meu amor por ti nasceu num ano bissexto
Há horas você foi embora
e para me distrair fui à livraria comprar poemas
Os últimos de Drummond
Há horas você foi embora
e não tem poema que me console
Tenho andado frágil,
sensível,
chorando à toa,
mostrando o coração
A minha versão atual não é moderna
Visto a roupagem do desgaste
e, sem fazer questão do meu resgate, vou ainda mais longe:
me ofereço como quem oferece rosas num mercado ambulante,
sem promover contra você rebelião ou levante
910
Mário da Silveira
Coroa de Rosas e de Espinhos
Sedenta de ódio, cega de despeito,
Nesta penosa e transitória lida,
A alma dos homens, pérfida e atrevida,
Perde às cousas mais nobres o respeito.
Dizem: "Tudo o que sentes no teu peito
Há de um dia passar, — porque na vida
Tudo é incenso sutil, poeira diluída,
O que é terreno é efêmero e imperfeito.
Um grande amor é corno o resto... A gente
Quando menos espera, logo sente
Apagar-se o clarão da ignota chama."
Eu sei que tudo é como o fumo leve:
Foge: mas, porque a vida seja breve,
Há sempre um dia mais para quem ama.
Nesta penosa e transitória lida,
A alma dos homens, pérfida e atrevida,
Perde às cousas mais nobres o respeito.
Dizem: "Tudo o que sentes no teu peito
Há de um dia passar, — porque na vida
Tudo é incenso sutil, poeira diluída,
O que é terreno é efêmero e imperfeito.
Um grande amor é corno o resto... A gente
Quando menos espera, logo sente
Apagar-se o clarão da ignota chama."
Eu sei que tudo é como o fumo leve:
Foge: mas, porque a vida seja breve,
Há sempre um dia mais para quem ama.
1 326
João Quental
A Idade Exigida
Sim, o barro vermelho das estradas que não sei...
Havia um tempo em que todos os vãos das portas
das casas, do mundo, de nada,
eram repletos de olhos de meninos
a espiar
a obscuridade.
Hoje não.
Ja não há mais casas,
nem meninos
nem vãos
obscuros...
Hoje é um dia em que me descubro sumido
na boca dos homens que perderam a vida a partir
tornar
seguir
rosnar
não quero que os dias sejam assim.
Pois não quero, nunca,
ter a idade exigida
para morrer, só, na poeira
do barro vermelho das estradas que não segui...
(1984)
Havia um tempo em que todos os vãos das portas
das casas, do mundo, de nada,
eram repletos de olhos de meninos
a espiar
a obscuridade.
Hoje não.
Ja não há mais casas,
nem meninos
nem vãos
obscuros...
Hoje é um dia em que me descubro sumido
na boca dos homens que perderam a vida a partir
tornar
seguir
rosnar
não quero que os dias sejam assim.
Pois não quero, nunca,
ter a idade exigida
para morrer, só, na poeira
do barro vermelho das estradas que não segui...
(1984)
936
Ferro do Lago
Minha Rua
Espio da janela a minha rua
em seu sono de lâmpadas elétricas.
(Na pausa repentina do silêncio,
passos notivagueiam pelo asfalto.)
A quietação fermenta o melancólico
pensamento das coisas esquecidas,
e entre as folhas das árvores o tempo
deixa escorrer de leve a sua areia.
Outra vez a olharei. E quando olhar
esta rua a alongar-se pela noite,
talvez não pense nada, apenas veja
as árvores, as lâmpadas — e as casas
brancas e emudecidas como túmulos
e, como túmulos, com o seu mistério.
em seu sono de lâmpadas elétricas.
(Na pausa repentina do silêncio,
passos notivagueiam pelo asfalto.)
A quietação fermenta o melancólico
pensamento das coisas esquecidas,
e entre as folhas das árvores o tempo
deixa escorrer de leve a sua areia.
Outra vez a olharei. E quando olhar
esta rua a alongar-se pela noite,
talvez não pense nada, apenas veja
as árvores, as lâmpadas — e as casas
brancas e emudecidas como túmulos
e, como túmulos, com o seu mistério.
868
Francisco Miguel de Moura
Soneto dos Cinqüentanos
Aos cinqüenta bebidos, me apeteço
porque a vida me ofertou de espinhos.
flores poucas, encantos mitigados.
E em todo passo a busca de sentidos.
Feliz por ser fidel no que me arrimo.
São secretas conquistas, muito humanas.
Sorrio ao que me passa e vai ao vento:
— Eu sou vagar, sou tempo e não me canso.
Meu corpo alcança o corpo mais cansado,
minha alma inflama a irmã insubmissa,
sem barulhar a paz que me guerreia.
Semeio amor. Na dúvida, campeio
o que me arma de força e decisão.
E vou seguindo. E sei que vou ficando...
porque a vida me ofertou de espinhos.
flores poucas, encantos mitigados.
E em todo passo a busca de sentidos.
Feliz por ser fidel no que me arrimo.
São secretas conquistas, muito humanas.
Sorrio ao que me passa e vai ao vento:
— Eu sou vagar, sou tempo e não me canso.
Meu corpo alcança o corpo mais cansado,
minha alma inflama a irmã insubmissa,
sem barulhar a paz que me guerreia.
Semeio amor. Na dúvida, campeio
o que me arma de força e decisão.
E vou seguindo. E sei que vou ficando...
966
João Quental
Certa Vez de Manhã Cedo
Certa vez, de manhã cedo, o verão é um inseto morto
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
817
Heitor Lima
Cinzas
A última brasa ardeu na cinza adusta:
Tudo passou, tudo se fez em poeira...
E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.
O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira...
Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!
Chama efêmera, o amor! Baldado surto,
A glória! Ah! coração mesquinho e raso...
Ah! pensamento presumido e curto...
E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
— Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.
Tudo passou, tudo se fez em poeira...
E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.
O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira...
Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!
Chama efêmera, o amor! Baldado surto,
A glória! Ah! coração mesquinho e raso...
Ah! pensamento presumido e curto...
E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
— Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.
1 028
Ferro do Lago
Soneto
As horas escorrem lentas
na goteira dos segundos:
dentro das tardes cinzentas
erram lamentos profundos.
As estrelas sonolentas
são olhos de moribundos,
refletem lutas cruentas
desenroladas nos mundos...
Sou triste, porém me oculto
dos outros, no desencanto
que é meu e de mais ninguém:
não quero, em meio ao tumulto
dos tristes, sorver o espanto
que os encarcera também.
na goteira dos segundos:
dentro das tardes cinzentas
erram lamentos profundos.
As estrelas sonolentas
são olhos de moribundos,
refletem lutas cruentas
desenroladas nos mundos...
Sou triste, porém me oculto
dos outros, no desencanto
que é meu e de mais ninguém:
não quero, em meio ao tumulto
dos tristes, sorver o espanto
que os encarcera também.
936
Elmar Carvalho
Eterno Retorno
memória:
lâmina de desassossego
cornucópia insana insaciável
a jorrar o passado
que não morre nunca
sempre ressuscitado
no eterno regresso
a nós mesmos.
Ó emoções redivivas
e ampliadas
das sensações
de nervos expostos
nas carnes pulsantes
de um passado
sempre lembrado.
recordações
que dão e são vida
de becos escuros, sem saída
de amores
hoje boleros
bolores em flores
de ilusões perdidas
que se fazem dores
na florida ferida da saudade.
evocações
de dribles esquecidos
de gols frustrados e acontecidos
de um jogo que nunca termina
de uma malsinada sina sinuosa
de lágrimas caudalosas
incontidas, vertidas
das vertentes profundas
do peito — porto
sem tino e sem destino
feito somente de desatino.
as mulheres amadas
na juventude fugaz
não envelhecem
não se corrompem
não morrem jamais
preservadas intactas e belas
na câmara ardente
incandescente da memória.
recordações de fantasmas
que já nos abandonaram
de amigos mortos
que nos acompanham
cada vez mais vivos
de sustos e gritos
de proscritos e malditos
de agouros e assombrações
de desdouros e sombras vãs, malsãs
oriundas dos porões escavados
nos subterrâneos dos sobrados
subterfúgios e refúgios
da memória.
O passado poderoso e renitente
retorna e continua vivido e presente
se contorcendo se retorcendo
e se reacontecendo.
lâmina de desassossego
cornucópia insana insaciável
a jorrar o passado
que não morre nunca
sempre ressuscitado
no eterno regresso
a nós mesmos.
Ó emoções redivivas
e ampliadas
das sensações
de nervos expostos
nas carnes pulsantes
de um passado
sempre lembrado.
recordações
que dão e são vida
de becos escuros, sem saída
de amores
hoje boleros
bolores em flores
de ilusões perdidas
que se fazem dores
na florida ferida da saudade.
evocações
de dribles esquecidos
de gols frustrados e acontecidos
de um jogo que nunca termina
de uma malsinada sina sinuosa
de lágrimas caudalosas
incontidas, vertidas
das vertentes profundas
do peito — porto
sem tino e sem destino
feito somente de desatino.
as mulheres amadas
na juventude fugaz
não envelhecem
não se corrompem
não morrem jamais
preservadas intactas e belas
na câmara ardente
incandescente da memória.
recordações de fantasmas
que já nos abandonaram
de amigos mortos
que nos acompanham
cada vez mais vivos
de sustos e gritos
de proscritos e malditos
de agouros e assombrações
de desdouros e sombras vãs, malsãs
oriundas dos porões escavados
nos subterrâneos dos sobrados
subterfúgios e refúgios
da memória.
O passado poderoso e renitente
retorna e continua vivido e presente
se contorcendo se retorcendo
e se reacontecendo.
613
Waldemar Zweiter
Vida
A luz do sol
é forte
e brilhante
como a vida
Porém, cuidado:
pode apagar-se
com o passar de
uma simples nuvem.
é forte
e brilhante
como a vida
Porém, cuidado:
pode apagar-se
com o passar de
uma simples nuvem.
805
Vernaide Wanderley
Forragens e Desertos, nos
Versos da Escrivaninha
Minha escrivaninha é túmulo
e reboliço de lembranças;
armário entulhado de tormentas
e águas que retraçam rumos
e barram a invasão do tempo.
Sua desordem é castelo
e sertão dos meus desvelos;
redemoinho e povo desterrado,
exílio que modela dunas
e barra a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é mistério
nos fiapos do novelo que me tecem;
amor de gavetas, velhas bastilhas
e medo ou lucidez de resistências,
que barram a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é túmulo
e reboliço de lembranças;
armário entulhado de tormentas
e águas que retraçam rumos
e barram a invasão do tempo.
Sua desordem é castelo
e sertão dos meus desvelos;
redemoinho e povo desterrado,
exílio que modela dunas
e barra a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é mistério
nos fiapos do novelo que me tecem;
amor de gavetas, velhas bastilhas
e medo ou lucidez de resistências,
que barram a invasão do tempo.
752
Antônio Chaves
Mocidade
Ó mocidade! — borboleta louca
Que o casulo deixaste pressurosa,
Olha que o vento as asas te destouca,
Adeja menos, borboleta ansiosa.
Temo que as tuas límpidas antenas,
Que o teu corpo fragílimo, subindo,
um dia venham se cobrir das penas...
E se temo é porque — pálido monge
Sob a cúpula azul do céu aberto
Olho, e te vejo já de mim tão longe,
Tu, que eu julgava inda de mim tão perto.
Volta! vem descansar sobre as alfombras
Desta alma, que sorrir já não se atreve...
Olha que o prado vai se encher de sombras
E a terra toda se cobrir de neve.
Que o casulo deixaste pressurosa,
Olha que o vento as asas te destouca,
Adeja menos, borboleta ansiosa.
Temo que as tuas límpidas antenas,
Que o teu corpo fragílimo, subindo,
um dia venham se cobrir das penas...
E se temo é porque — pálido monge
Sob a cúpula azul do céu aberto
Olho, e te vejo já de mim tão longe,
Tu, que eu julgava inda de mim tão perto.
Volta! vem descansar sobre as alfombras
Desta alma, que sorrir já não se atreve...
Olha que o prado vai se encher de sombras
E a terra toda se cobrir de neve.
1 018
Ymah Théres
Sonata
Ao Poeta Francisco Carvalho
O corpo - presilha verde
na rede da vida imersa
pouco a pouco se dissipa
dos loucos búzios, dos mares.
Vira um lago, uma enseada
em que os espelhos transmigram
o corpo - corpo bebido
de veneno, morte lenta.
O corpo - metade breve
de arlequinadas memórias
nos mastros ocres da angústia
na devassa de ilusão.
Irmão vencido na guerra
das horas por sobre as horas
dos anos idos, dos vindos
o corpo - flor decepada.
Da haste, um relógio-pênsil
que se alteia e se debruça
nos movediços da argila
o corpo - ferida aberta.
Bola de neve que o tempo
brinca brinca de escurar
jasmim que perde seu viço
o corpo - luz que se apaga.
Dos imos do coração
uma canção que trescala
o corpo, breve que passa
no arranho da solidão.
O corpo - presilha verde
na rede da vida imersa
pouco a pouco se dissipa
dos loucos búzios, dos mares.
Vira um lago, uma enseada
em que os espelhos transmigram
o corpo - corpo bebido
de veneno, morte lenta.
O corpo - metade breve
de arlequinadas memórias
nos mastros ocres da angústia
na devassa de ilusão.
Irmão vencido na guerra
das horas por sobre as horas
dos anos idos, dos vindos
o corpo - flor decepada.
Da haste, um relógio-pênsil
que se alteia e se debruça
nos movediços da argila
o corpo - ferida aberta.
Bola de neve que o tempo
brinca brinca de escurar
jasmim que perde seu viço
o corpo - luz que se apaga.
Dos imos do coração
uma canção que trescala
o corpo, breve que passa
no arranho da solidão.
925
Américo Facó
Sextina da Véspera
Um pensamento parte
Confluente da tarde,
— Banho de ouro em que a Rosa
Abre um ventre divino
À cadência amorosa
Do tempo e do destino.
Um só — tempo e destino,
Ambos em toda a parte:
Noite inquieta, amorosa
Manhã, morosa tarde...
Tempo — sono divino!
Destino — sonho... Rosa!
Sonho da tarde — Rosa!
Não lhe diz o destino
O que o tempo, divino,
Esquece em toda a parte;
Só lhe murmura a tarde
A delícia amorosa...
Vibra a luz amorosa,
Anima, aviva a Rosa,
— Excelência da tarde,
Surpresa do destino,
Em que ventura é parte
Sem o tempo — divino.
Tarde — rubor divino!
A luz tomba amorosa,
Toda se dá, se parte,
Esplendor cor-de-rosa...
Idéia do destino
Em que se perde a tarde!
Confluente da tarde,
— Banho de ouro em que a Rosa
Abre um ventre divino
À cadência amorosa
Do tempo e do destino.
Um só — tempo e destino,
Ambos em toda a parte:
Noite inquieta, amorosa
Manhã, morosa tarde...
Tempo — sono divino!
Destino — sonho... Rosa!
Sonho da tarde — Rosa!
Não lhe diz o destino
O que o tempo, divino,
Esquece em toda a parte;
Só lhe murmura a tarde
A delícia amorosa...
Vibra a luz amorosa,
Anima, aviva a Rosa,
— Excelência da tarde,
Surpresa do destino,
Em que ventura é parte
Sem o tempo — divino.
Tarde — rubor divino!
A luz tomba amorosa,
Toda se dá, se parte,
Esplendor cor-de-rosa...
Idéia do destino
Em que se perde a tarde!
1 421
Carlos Augusto Viana
Jorge Tuffic
I
O tempo, bem o sabes, escorre das mãos,
e todas as horas são abissais.
Em qualquer cidade, as ruas,
assim como o grande rio,
desembocam sobre o imponderável.
Por isso, teus pés aprenderam, muito cedo,
a desembrulhar os caminhos.
Tua passagem,
o espanto da abstrata carne.
Tua palavra,
o desespero das traças. Teu olho
sobre a mulher que flutuava à janela.
Tuas mãos
doadas aos jarros de flores murchas.
Teu peito,
um cais soçobrado na madrugada.
Muitas terras percorreste,
e hoje, cada uma delas,
dentro de ti, é inefável lavoura.
II
O teu país, hoje, veste-se de líquidos tecidos
e deixa em estilhaços os vidros do sol.
Da praia de Iracema, contemplas o mar,
a brancura extenuada de suas espumas,
onde gaivotas bicam a pele de sombras esbraseadas.
Além desse mar, por certo, estende-se o rio,
— a tua primeira cartilha de espantos.
Por certo, é sobre ele que lanças o teu olhar
quando te enches de longos fragmentos de silêncio.
Navegas na concha negra de suas lendas
e, náufrago, agarras-te à fúria silenciosa de suas margens.
III
Entre ti e o grande rio,
um secreto dicionário.
Com suas palavras-árvore,
com suas palavras-pássaro,
com suas palavras-pórtico,
com suas palavras-lótus.
Entre ti e o grande rio,
as léguas de um estuário.
Onde florescem os álamos,
onde adormecem os pântanos,
onde se tecem os cânticos,
onde fenecem as pátinas.
Entre ti e o grande rio,
Há um secreto calendário.
As horas de tuas lágrimas,
as horas enchendo cântaros,
as horas colhendo lâminas
as horas de teus átrios.
Entre ti e o grande rio,
há um tecido visionário.
Com que se cosem as túnicas
para os mais secretos ritos:
raízes das noites únicas,
húmus que alimentam mitos.
IV
Ainda hoje, conservas contigo
os trôpegos relâmpagos,
uma floresta de vozes,
o cristal da mais límpida estrela.
Ainda hoje, conservas contigo
o claro augúrio de Vésper
soletrando o silêncio dos mortos
que vencem o lodo da memória.
Ainda hoje, conservas contigo
a solidão e o diamante de seus gumes,
o barro e a insônia de sua herança,
o verbo e o labirinto de suas fábulas.
Mas, dentre todos os abismos,
— aquele que se esgarça
entre o rio e o mar,
é o que mais te alucina.
V
Estendeste — e ainda estendes — tuas mãos
para as flores crestadas, a cinza em vôo dos pássaros,
o cromo das esperas, o gesso da insônia,
a lâmina inexorável dos espelhos. Estendidas,
tuas mãos nos oferecem a Varanda de Pássaros,
o Chão sem Mácula, a Faturação do ócio,
a terra e o sangue cravados na Lâmina Agreste.
Cúmplices dos minerais e dos jardins,
das ruas ladrilhadas de silêncio,
dos gritos que tombam dos espelhos,
do sono geométrico dos peixes,
— tuas mãos estendidas para o que,
na carne, é flor e tortura.
Estendidas, tuas mãos não te pertencem,
mas ao que te olha desde que nasceste,
ao que te suga e ao que, realejo,
desfolha-se em música. Tuas mãos
— se estendidas — libertam-nos da ferrugem
e, água clara, banham a fadiga dos frutos.
VI
A poesia
(como descobriste?)
é um ser sem origem.
A poesia,
se há desertos,
abriga-se
em sua própria sombra.
A poesia,
ave solitária,
recusa
o ofertório das palmeiras.
A poesia,
lobo enrodilhado,
oferece a noite
a cada uma de suas presas.
A poesia tem rugas
como a pele de um rio.
Adormecem flautas
sob rochas antiquíssimas.
VII
Os pássaros, mais que as árvores,
deram-te lições de raízes. Os silêncios,
mais que as palavras, apontaram-te
a fragilidade. Teus olhos,
mais que os pés, sangraram
aos espinhos da pátria. A cítara,
mais que a lâmina, os dedos dilacerados.
A pétala, mais que a rosa,
o aroma irremediável. A pedra,
mais que a água, o musgo do efêmero.
A noite, mais que o dia,
a chama dos minutos.
o pó, mais que a carne,
à casa regressa.
O tempo, bem o sabes, escorre das mãos,
e todas as horas são abissais.
Em qualquer cidade, as ruas,
assim como o grande rio,
desembocam sobre o imponderável.
Por isso, teus pés aprenderam, muito cedo,
a desembrulhar os caminhos.
Tua passagem,
o espanto da abstrata carne.
Tua palavra,
o desespero das traças. Teu olho
sobre a mulher que flutuava à janela.
Tuas mãos
doadas aos jarros de flores murchas.
Teu peito,
um cais soçobrado na madrugada.
Muitas terras percorreste,
e hoje, cada uma delas,
dentro de ti, é inefável lavoura.
II
O teu país, hoje, veste-se de líquidos tecidos
e deixa em estilhaços os vidros do sol.
Da praia de Iracema, contemplas o mar,
a brancura extenuada de suas espumas,
onde gaivotas bicam a pele de sombras esbraseadas.
Além desse mar, por certo, estende-se o rio,
— a tua primeira cartilha de espantos.
Por certo, é sobre ele que lanças o teu olhar
quando te enches de longos fragmentos de silêncio.
Navegas na concha negra de suas lendas
e, náufrago, agarras-te à fúria silenciosa de suas margens.
III
Entre ti e o grande rio,
um secreto dicionário.
Com suas palavras-árvore,
com suas palavras-pássaro,
com suas palavras-pórtico,
com suas palavras-lótus.
Entre ti e o grande rio,
as léguas de um estuário.
Onde florescem os álamos,
onde adormecem os pântanos,
onde se tecem os cânticos,
onde fenecem as pátinas.
Entre ti e o grande rio,
Há um secreto calendário.
As horas de tuas lágrimas,
as horas enchendo cântaros,
as horas colhendo lâminas
as horas de teus átrios.
Entre ti e o grande rio,
há um tecido visionário.
Com que se cosem as túnicas
para os mais secretos ritos:
raízes das noites únicas,
húmus que alimentam mitos.
IV
Ainda hoje, conservas contigo
os trôpegos relâmpagos,
uma floresta de vozes,
o cristal da mais límpida estrela.
Ainda hoje, conservas contigo
o claro augúrio de Vésper
soletrando o silêncio dos mortos
que vencem o lodo da memória.
Ainda hoje, conservas contigo
a solidão e o diamante de seus gumes,
o barro e a insônia de sua herança,
o verbo e o labirinto de suas fábulas.
Mas, dentre todos os abismos,
— aquele que se esgarça
entre o rio e o mar,
é o que mais te alucina.
V
Estendeste — e ainda estendes — tuas mãos
para as flores crestadas, a cinza em vôo dos pássaros,
o cromo das esperas, o gesso da insônia,
a lâmina inexorável dos espelhos. Estendidas,
tuas mãos nos oferecem a Varanda de Pássaros,
o Chão sem Mácula, a Faturação do ócio,
a terra e o sangue cravados na Lâmina Agreste.
Cúmplices dos minerais e dos jardins,
das ruas ladrilhadas de silêncio,
dos gritos que tombam dos espelhos,
do sono geométrico dos peixes,
— tuas mãos estendidas para o que,
na carne, é flor e tortura.
Estendidas, tuas mãos não te pertencem,
mas ao que te olha desde que nasceste,
ao que te suga e ao que, realejo,
desfolha-se em música. Tuas mãos
— se estendidas — libertam-nos da ferrugem
e, água clara, banham a fadiga dos frutos.
VI
A poesia
(como descobriste?)
é um ser sem origem.
A poesia,
se há desertos,
abriga-se
em sua própria sombra.
A poesia,
ave solitária,
recusa
o ofertório das palmeiras.
A poesia,
lobo enrodilhado,
oferece a noite
a cada uma de suas presas.
A poesia tem rugas
como a pele de um rio.
Adormecem flautas
sob rochas antiquíssimas.
VII
Os pássaros, mais que as árvores,
deram-te lições de raízes. Os silêncios,
mais que as palavras, apontaram-te
a fragilidade. Teus olhos,
mais que os pés, sangraram
aos espinhos da pátria. A cítara,
mais que a lâmina, os dedos dilacerados.
A pétala, mais que a rosa,
o aroma irremediável. A pedra,
mais que a água, o musgo do efêmero.
A noite, mais que o dia,
a chama dos minutos.
o pó, mais que a carne,
à casa regressa.
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