Poemas neste tema
Vento e Ar
Cleonice Rainho
A Pipa e o Vento
Aprumo a máquina,
dou linha à pipa
e ela sobe alto
pela força do vento.
O vento é feliz
porque leva a pipa,
a pipa é feliz
porque tem o vento.
Se tudo correr bem,
pipa e vento,
num lindo momento,
vão chegar ao céu.
dou linha à pipa
e ela sobe alto
pela força do vento.
O vento é feliz
porque leva a pipa,
a pipa é feliz
porque tem o vento.
Se tudo correr bem,
pipa e vento,
num lindo momento,
vão chegar ao céu.
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3
Fernando Pessoa
14 - Não me importo com as rimas. Raras vezes
Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento...
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento...
3 053
3
Maria da Saudade Cortesão Mendes
Ofélia
Que perfil perdi no vento
Que rosto perdi na água,
Transparência perturbada,
Íris d’água cor do tempo.
Nunca a figura do sonho
Me pareceu tão velada —
Vejo só a meia-lua
Da sua nuca inclinada.
Edifício d’água e sombra
Que a corrente desmanchava
E em meus cabelos ao sul
As grinaldas desfolhava.
Deixai-me afundar nas frias
Solidões de junco e mágoa,
E de mim própria ausente
Repousar à sombra d’água.
Que rosto perdi na água,
Transparência perturbada,
Íris d’água cor do tempo.
Nunca a figura do sonho
Me pareceu tão velada —
Vejo só a meia-lua
Da sua nuca inclinada.
Edifício d’água e sombra
Que a corrente desmanchava
E em meus cabelos ao sul
As grinaldas desfolhava.
Deixai-me afundar nas frias
Solidões de junco e mágoa,
E de mim própria ausente
Repousar à sombra d’água.
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2
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Vento
O vento sopra contra
As janelas fechadas
Na planície imensa
Na planície absorta
Na planície que está morta,
E os cabelos do ar ondulam loucos
Tão compridos que dão a volta ao mundo.
Sento-me ao lado das coisas
E bordo toda a noite a minha vida
Aqueles dias tecidos
Que tinham um ar de fantasia
Quando vieram brincar dentro de mim.
E o vento contra as janelas
Faz-me pensar que eu talvez seja um pássaro.
As janelas fechadas
Na planície imensa
Na planície absorta
Na planície que está morta,
E os cabelos do ar ondulam loucos
Tão compridos que dão a volta ao mundo.
Sento-me ao lado das coisas
E bordo toda a noite a minha vida
Aqueles dias tecidos
Que tinham um ar de fantasia
Quando vieram brincar dentro de mim.
E o vento contra as janelas
Faz-me pensar que eu talvez seja um pássaro.
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2
Ruy Belo
Planta alta e trigueira
As plantas acenavam ao vento de agosto, nas suas hastes finas e verdes. E disse-me a mais faladora de todas, alta e trigueira:
_ Dás-me dez anos da tua vida?
Eu só tinha cinco anos, pus-me a contar pelos dedos, vi que ia ficar com muito pouco.
_ Dou_ disse eu.
E ainda hoje, que nunca mais soube de mim, vou com o vento, balouçando. E agosto é todo o ano para mim.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 180 | Editorial Presença Lda., 1984
_ Dás-me dez anos da tua vida?
Eu só tinha cinco anos, pus-me a contar pelos dedos, vi que ia ficar com muito pouco.
_ Dou_ disse eu.
E ainda hoje, que nunca mais soube de mim, vou com o vento, balouçando. E agosto é todo o ano para mim.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 180 | Editorial Presença Lda., 1984
1 644
2
Nuno Júdice
Poema de amor
O céu, as linhas de luz na água,
caminhos diferentes para o coração.
A queda de sons diversos na atenta coincidência
dos ouvidos. A relação de uma límpida tarde
com um movimento de ombros junto do teu corpo,
na luminosa sequência da tua voz.
Um andar divino de transparente espectro
sobre o fundo de árvores;
o acentuar da impressão dos teus olhos
na quente atmosfera estagnada.
Mas o súbito levantar do vento dissipou
a primitiva aparência. Um canto lívido
de mortas recordações apenas subsistiu,
o indefinido desgosto dos teus braços,
o remorso de gestos incompletos
que a memória suspende.
Nem me espanto já com a tua proximidade.
Bem vindos, decompostos lábios!
O ranger da cama sobrepõe-se
ao ruído das cigarras.
caminhos diferentes para o coração.
A queda de sons diversos na atenta coincidência
dos ouvidos. A relação de uma límpida tarde
com um movimento de ombros junto do teu corpo,
na luminosa sequência da tua voz.
Um andar divino de transparente espectro
sobre o fundo de árvores;
o acentuar da impressão dos teus olhos
na quente atmosfera estagnada.
Mas o súbito levantar do vento dissipou
a primitiva aparência. Um canto lívido
de mortas recordações apenas subsistiu,
o indefinido desgosto dos teus braços,
o remorso de gestos incompletos
que a memória suspende.
Nem me espanto já com a tua proximidade.
Bem vindos, decompostos lábios!
O ranger da cama sobrepõe-se
ao ruído das cigarras.
2 081
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Mandei Para o Largo o Barco Atrás do Vento
Mandei para o largo o barco atrás do vento
Sem saber se era eu o que partia.
Humilhei-me e exaltei-me contra o vento
Mas não houve terror nem sofrimento
Que à praia não trouxesse
Morto o vento.
Sem saber se era eu o que partia.
Humilhei-me e exaltei-me contra o vento
Mas não houve terror nem sofrimento
Que à praia não trouxesse
Morto o vento.
2 424
2
João Cabral de Melo Neto
O Vento no Carnaval
Não se vê no canavial
nenhuma planta com nome,
nenhuma planta maria,
planta com nome de homem.
É anônimo o canavial,
sem feições, como a campina;
é como um mar sem navios,
papel em branco de escrita.
É como um grande lençol
sem dobras e sem bainha;
penugem de moça ao sol,
roupa lavada estendida.
Contudo há no canavial
oculta fisionomia:
como em pulso de relógio
há possível melodia,
ou como de um avião
a paisagem se organiza,
ou há finos desenhos nas
pedras da praça vazia.
Se venta no canavial
estendido sob o sol
seu tecido inanimado
faz-se sensível lençol,
se muda em bandeira viva,
de cor verde sobre verde,
com estrelas verdes que
no verde nascem, se perdem.
Não lembra o canavial
então, as praças vazias:
não tem, como têm as pedras,
disciplina de milícias.
É solta sua simetria:
como a das ondas na areia
ou as ondas da multidão
lutando na praça cheia.
Então, é da praça cheia
que o canavial é a imagem:
vêem-se as mesmas correntes
que se fazem e desfazem,
voragens que se desatam,
redemoinhos iguais,
estrelas iguais àquelas
que o povo na praça faz.
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Paisagens com Figuras.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.150-151. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
nenhuma planta com nome,
nenhuma planta maria,
planta com nome de homem.
É anônimo o canavial,
sem feições, como a campina;
é como um mar sem navios,
papel em branco de escrita.
É como um grande lençol
sem dobras e sem bainha;
penugem de moça ao sol,
roupa lavada estendida.
Contudo há no canavial
oculta fisionomia:
como em pulso de relógio
há possível melodia,
ou como de um avião
a paisagem se organiza,
ou há finos desenhos nas
pedras da praça vazia.
Se venta no canavial
estendido sob o sol
seu tecido inanimado
faz-se sensível lençol,
se muda em bandeira viva,
de cor verde sobre verde,
com estrelas verdes que
no verde nascem, se perdem.
Não lembra o canavial
então, as praças vazias:
não tem, como têm as pedras,
disciplina de milícias.
É solta sua simetria:
como a das ondas na areia
ou as ondas da multidão
lutando na praça cheia.
Então, é da praça cheia
que o canavial é a imagem:
vêem-se as mesmas correntes
que se fazem e desfazem,
voragens que se desatam,
redemoinhos iguais,
estrelas iguais àquelas
que o povo na praça faz.
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Paisagens com Figuras.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.150-151. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
6 201
2
Guilherme de Almeida
Velocidade
Não se lembram do Gigante das Botas de Sete Léguas?
Lá vai ele: vai varando, no seu vôo de asas cegas,
as distâncias...
E dispara,
nunca pára,
nem repara
para os lados,
para frente,
para trás...
Vai como um pária...
E vai levando um novelo embaraçado de fitas:
fitas
azuis,
brancas,
verdes,
amarelas...
imprevistas...
Vai varando o vento: — e o vento, ventando cada vez mais,
desembaraça o novelo, penteando com dedos de ar
o feixe fino de riscas,
tiras,
fitas,
faixas,
listas...
E estira-as,
puxa-as,
estica-as,
espicha-as bem para trás:
E as cores retesas dançam, sobem, descem de-va-gar
paralelamente,
paralelamente
horizontais,
sobre a cabeça espantada do Pequeno Polegar...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série III - Sete Poemas.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
Lá vai ele: vai varando, no seu vôo de asas cegas,
as distâncias...
E dispara,
nunca pára,
nem repara
para os lados,
para frente,
para trás...
Vai como um pária...
E vai levando um novelo embaraçado de fitas:
fitas
azuis,
brancas,
verdes,
amarelas...
imprevistas...
Vai varando o vento: — e o vento, ventando cada vez mais,
desembaraça o novelo, penteando com dedos de ar
o feixe fino de riscas,
tiras,
fitas,
faixas,
listas...
E estira-as,
puxa-as,
estica-as,
espicha-as bem para trás:
E as cores retesas dançam, sobem, descem de-va-gar
paralelamente,
paralelamente
horizontais,
sobre a cabeça espantada do Pequeno Polegar...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série III - Sete Poemas.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
4 365
2
Ribeiro Couto
Elegia
Que quer o vento?
A cada instante
Este lamento
Passa na porta
Dizendo: abre...
Vento que assusta
Nas horas frias
Na noite feia,
Vindo de longe,
Das ermas praias.
Andam de ronda
Nesse violento
Longo queixume,
As invisíveis
Bocas dos mortos.
Também um dia,
Estando eu morto,
Virei queixar-me
Na tua porta
Virei no vento
Mas não de inverno,
Nas horas frias
Das noites feias.
Virei no vento
Da primavera.
Em tua boca
Serei carícia,
Cheiro de flores
Que estão lá fora
Na noite quente.
Virei no vento...
Direi: acorda...
A cada instante
Este lamento
Passa na porta
Dizendo: abre...
Vento que assusta
Nas horas frias
Na noite feia,
Vindo de longe,
Das ermas praias.
Andam de ronda
Nesse violento
Longo queixume,
As invisíveis
Bocas dos mortos.
Também um dia,
Estando eu morto,
Virei queixar-me
Na tua porta
Virei no vento
Mas não de inverno,
Nas horas frias
Das noites feias.
Virei no vento
Da primavera.
Em tua boca
Serei carícia,
Cheiro de flores
Que estão lá fora
Na noite quente.
Virei no vento...
Direi: acorda...
2 198
2
Guilherme de Almeida
Maxixe
O chocalho dos sapos coaxa
como um caracaxá rachado. Tudo mexe.
Um vento frouxo enlaga uma nuvem baixa
fofa. E desce com ela, desce.
E não a deixa e puxa-a como uma faixa
e espicha-se e enrolam-se. E o feixe rola
e rebola como uma bola
na luz roxa
da tarde oca
boba
chocha.
como um caracaxá rachado. Tudo mexe.
Um vento frouxo enlaga uma nuvem baixa
fofa. E desce com ela, desce.
E não a deixa e puxa-a como uma faixa
e espicha-se e enrolam-se. E o feixe rola
e rebola como uma bola
na luz roxa
da tarde oca
boba
chocha.
3 783
2
Manuel Alegre
Canção tão simples
Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?
Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?
Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?
Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?
Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?
Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?
Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?
5 182
2
Fernando Pessoa
Hoje de manhã saí muito cedo,
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e assim quero que possa ser sempre –
Vou onde o vento me leva e não me sinto pensar.
13/06/1930
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e assim quero que possa ser sempre –
Vou onde o vento me leva e não me sinto pensar.
13/06/1930
2 692
2
Charles Bukowski
Vidas No Lixo
o vento sopra forte esta noite
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.
é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.
é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.
é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.
é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
1 507
1
Affonso Romano de Sant'Anna
Antes Que Escureça – 2
Levanto-me para olhar o mar
antes que escureça.
Sopra um vento de leste
e eu sei que as águas estão mais frias.
Considero as plantas do jardim.
Na estante os livros me contemplam.
Levanto os olhos pesquisando o nada
e vejo uma gaivota no horizonte.
Ruídos da tarde me enternecem:
– uma buzina
– um grito de criança
– o cão latindo persistente.
O Sol se põe à minha direita, exausto.
De tantas tardes esvaídas
esta grafou-se naturalmente no papel.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para estrelas.
Escrevo. Venta o leste.
Escurece. E algo em mim
aos poucos se esclarece.
antes que escureça.
Sopra um vento de leste
e eu sei que as águas estão mais frias.
Considero as plantas do jardim.
Na estante os livros me contemplam.
Levanto os olhos pesquisando o nada
e vejo uma gaivota no horizonte.
Ruídos da tarde me enternecem:
– uma buzina
– um grito de criança
– o cão latindo persistente.
O Sol se põe à minha direita, exausto.
De tantas tardes esvaídas
esta grafou-se naturalmente no papel.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para estrelas.
Escrevo. Venta o leste.
Escurece. E algo em mim
aos poucos se esclarece.
1 061
1
Ruy Belo
A laranjeira
De novo a laranjeira - olhai! - traz ante nós os frutos,
quais lágrimas vertidas
nos atormenta do amor
e de vermelho coloridas
Nos ramos de topázio
vede como as rútilas esferas
em ágata moldadas ficam expostas às suaves mãos do zéfiro
que têm martelinhos para uma a uma as percutir
E nós
ora as beijamos
ora nelas os aromas aspiramos
e assim elas parecem faces de donzela ou perfumados pomos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
quais lágrimas vertidas
nos atormenta do amor
e de vermelho coloridas
Nos ramos de topázio
vede como as rútilas esferas
em ágata moldadas ficam expostas às suaves mãos do zéfiro
que têm martelinhos para uma a uma as percutir
E nós
ora as beijamos
ora nelas os aromas aspiramos
e assim elas parecem faces de donzela ou perfumados pomos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
1 755
1
Ruy Belo
Grandeza do homem
Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 40 | Editorial Presença Lda., 1984
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 40 | Editorial Presença Lda., 1984
1 852
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Evadir-Me, Esquecer-Me, Regressar
Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
2 172
1
Nuno Júdice
Correspondência
Vejo as nuvens que avançam do Atlântico para o continente. E, por trás delas, como um pastor
exigente, o vento que as empurra. Depois,
as nuvens passam e volta o sol, com o azul
imutável das manhãs de outono, monótono e distante
como quem o olha, ao sair de casa, sem
tempo para pensar no tempo.
As nuvens, no entanto, continuam
o seu caminho: umas, desfazem-se em água
sobre campos vazios, ou descem para as grandes
cidades para as abraçar com um tédio
enevoado. As que me interessam, porém,
são as que sobem para norte, e ficam
mais frias à medida que as pressões continentais
abrandam o seu curso, Então, param
em dias cinzentos; e, por fim, escurecem
a tua alma, quando as olhas, e te apercebes
de que se aproxima um inverno
de solidão.
A não ser que leias, nesse obscuro céu,
esta carta que te mando.
exigente, o vento que as empurra. Depois,
as nuvens passam e volta o sol, com o azul
imutável das manhãs de outono, monótono e distante
como quem o olha, ao sair de casa, sem
tempo para pensar no tempo.
As nuvens, no entanto, continuam
o seu caminho: umas, desfazem-se em água
sobre campos vazios, ou descem para as grandes
cidades para as abraçar com um tédio
enevoado. As que me interessam, porém,
são as que sobem para norte, e ficam
mais frias à medida que as pressões continentais
abrandam o seu curso, Então, param
em dias cinzentos; e, por fim, escurecem
a tua alma, quando as olhas, e te apercebes
de que se aproxima um inverno
de solidão.
A não ser que leias, nesse obscuro céu,
esta carta que te mando.
1 690
1
Nuno Júdice
Branco (a Eugénio de Andrade)
Não queiras saber o que é o branco para
além do branco, a ilusão de que o mar
se prolonga nesse mar que o branco
devora, com os lábios do vento; nem
interrogues o rosto que se esconde
no horizonte do branco, onde só o
silêncio te dá a resposta que ignoras.
No entanto, se o olhar que esse
horizonte te devolve tem a luz do
rosto que só no branco entrevês,
quando o vento empurra as cortinas
do mar, talvez reconheças no seu
fundo o corpo que habita o céu
em que o branco coincide com o mar.
E nos olhos fechados de um rosto
preso à cama da madrugada, o branco
do horizonte submerge o mar que
avança por dentro do branco, como se
a luz do dia que o vento te abre
não fosse branca, como esse branco
lençol que esconde o corpo sob o mar.
E em cada nuvem que passa no branco
do céu, um rosto revela o branco
para além do horizonte que o branco descobre.
Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007
além do branco, a ilusão de que o mar
se prolonga nesse mar que o branco
devora, com os lábios do vento; nem
interrogues o rosto que se esconde
no horizonte do branco, onde só o
silêncio te dá a resposta que ignoras.
No entanto, se o olhar que esse
horizonte te devolve tem a luz do
rosto que só no branco entrevês,
quando o vento empurra as cortinas
do mar, talvez reconheças no seu
fundo o corpo que habita o céu
em que o branco coincide com o mar.
E nos olhos fechados de um rosto
preso à cama da madrugada, o branco
do horizonte submerge o mar que
avança por dentro do branco, como se
a luz do dia que o vento te abre
não fosse branca, como esse branco
lençol que esconde o corpo sob o mar.
E em cada nuvem que passa no branco
do céu, um rosto revela o branco
para além do horizonte que o branco descobre.
Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007
1 540
1
Fernando Pessoa
As tuas mãos terminam em segredo.
As tuas mãos terminam em segredo.
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo...
Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vento põe seu arrastado medo
Saudoso a longes velas de navios.
Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,
Será o haver cais num mar distante...
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante!
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo...
Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vento põe seu arrastado medo
Saudoso a longes velas de navios.
Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,
Será o haver cais num mar distante...
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante!
1 262
1
Lhasa de Sela
Ascendendo
Fiquei presa numa tormenta
E fui carregada pelo vento
Fui desviada, desviada
Fiquei presa numa tormenta
É o que me aconteceu
Por isso não liguei
E você não me viu por um tempo
Eu estava ascendendo
Atingindo o chão
E trincando e trincando
Eu fiquei presa numa tormenta
Coisas voavam por todos os lados
E portas fustigavam-se
E janelas quebravam-se
Eu não podia ouvir o que você dizia
Eu não podia ouvir o que você dizia
Eu estava ascendendo
Atingindo o chão
E trincando e trincando
Ascendendo
Ascendendo
(tradução/reescritura de Ricardo Domeneck)
471
1
Yu Xuanji
Para Feiqing em uma noite de inverno
Baixa poema invoco-te à luz da lanterna
à noite insone renego o frio das cobertas
Folhas ocupam o pátio como ao vento a dor
Entre as cortinas em gaze a lua declina
Triste a seguir a estrada uma estranha até o fim
em florescer e murchar conhece-se a flor
mesmo desconhecido seu pouso entre os plátanos
Encerra a tarde um arco os pardais em alarde
1 033
1