Poemas neste tema
Vida
António Ramos Rosa
Aderência
A manhã molhada como uma moeda.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.
Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.
O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.
A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.
Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.
O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.
A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
1 168
António Ramos Rosa
O Fogo Me Inunda
Aí, no fogo, onde o gesto começa e a força rompe. A mão percorre o lombo, o dia cheio, as palavras esvaem-se no céu. Sopra uma árvore. Um tinido breve, uma cadeia de nomes, a brancura no silêncio que ondula. Viver é exalar esta frescura, colmá-la na planície. Ergue-se a crista até ao silêncio do céu, o espaço se abre à anunciação do vazio, um nome canta, chia, tudo é montanha livre, raça, inundação.
Correr na alegria do espaço — força, felicidade de veias rompendo, cabelos, sussurro de palmas, língua, sonora alma.
Embate de corpos, planície de ondas, rolar de seios, vozes que sopram, braços de vento, ar no ar, água, ar, fogo.
Tempestade de nomes, cristal de florestas, as harmonias dilaceram-se.
Ergue-se a voz da parede, até ao sol, e declina como uma ave subscrevendo o céu inteiro.
Vértice profundo, como um só tronco de veias, no estuário do dia.
Correr na alegria do espaço — força, felicidade de veias rompendo, cabelos, sussurro de palmas, língua, sonora alma.
Embate de corpos, planície de ondas, rolar de seios, vozes que sopram, braços de vento, ar no ar, água, ar, fogo.
Tempestade de nomes, cristal de florestas, as harmonias dilaceram-se.
Ergue-se a voz da parede, até ao sol, e declina como uma ave subscrevendo o céu inteiro.
Vértice profundo, como um só tronco de veias, no estuário do dia.
1 115
António Ramos Rosa
Caminhar Habitar
Se não tenho a força
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
1 016
António Ramos Rosa
É Breve o Dia
As nossas armas contemplam. propagam-se na difusão do ar. Instantâneas, encontram o diamante irrefrangível — a explosão estática.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
1 045
António Ramos Rosa
Ex-Voto
Pelo muito que oiço
pelo nada que sou
pelo galo que cantou
pelos meus ossos.
Pela simples paz
duma terra ao sol.
Pelo dia que nasce.
*
Melodia rente
à pobreza inerente
ao frágil caule
da vida desnuda.
Esplende no solo
da terra sem gente
de grãos para pombos,
miúdos escombros.
Na mínima renda
de pedras e pó,
sol de amor e paz.
*
Pela hora vagarosa,
pela mão do amigo,
pela colina ondulada.
Pelas ondas do corpo
da amada.
Pelas ervas, pelo tronco
e pela copa
de grande tranquilidade.
Pelo sono bem merecido
dum chão de terra batido,
pelo macadame da praia
e pela lisura das plantas
pés e palmas.
*
Pela verde melodia
de como é cedo viver.
Quando ainda era verde
um canavial de esperança.
E quando ainda cantava
um pássaro na espessura.
E entre o amor e a pedra
o brilho de um rio havia.
Quando ainda era que seja
o pó de oiro e o ar de abelhas.
*
Pela invenção do teu corpo
e pela paz que dorme nele.
É um país de pupilas
sobre dunas.
E pelos ombros das árvores
que não abraço.
pelo nada que sou
pelo galo que cantou
pelos meus ossos.
Pela simples paz
duma terra ao sol.
Pelo dia que nasce.
*
Melodia rente
à pobreza inerente
ao frágil caule
da vida desnuda.
Esplende no solo
da terra sem gente
de grãos para pombos,
miúdos escombros.
Na mínima renda
de pedras e pó,
sol de amor e paz.
*
Pela hora vagarosa,
pela mão do amigo,
pela colina ondulada.
Pelas ondas do corpo
da amada.
Pelas ervas, pelo tronco
e pela copa
de grande tranquilidade.
Pelo sono bem merecido
dum chão de terra batido,
pelo macadame da praia
e pela lisura das plantas
pés e palmas.
*
Pela verde melodia
de como é cedo viver.
Quando ainda era verde
um canavial de esperança.
E quando ainda cantava
um pássaro na espessura.
E entre o amor e a pedra
o brilho de um rio havia.
Quando ainda era que seja
o pó de oiro e o ar de abelhas.
*
Pela invenção do teu corpo
e pela paz que dorme nele.
É um país de pupilas
sobre dunas.
E pelos ombros das árvores
que não abraço.
1 160
António Ramos Rosa
Antecipação À Velhice
Põe o tempo o cuidado
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
663
António Ramos Rosa
Um Outro Sol, Um Outro Pão
Em vão acumulo. Em vão se acumula.
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.
Árvore! gritaste.
Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.
Árvore! gritaste.
Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?
756
António Ramos Rosa
Nós Somos
Como uma pequena lâmpada subsiste
e caminha no vento, nestes dias,
na vereda da noite, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra.
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo dum corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos, nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem.
e caminha no vento, nestes dias,
na vereda da noite, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra.
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo dum corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos, nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem.
795
António Ramos Rosa
A Última Oportunidade É Sempre
A última oportunidade é sempre
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua
eia! um homem
sem nada para a morte
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua
eia! um homem
sem nada para a morte
995
Natasha Tinet
Não tem geometria
Não tem geometria que explique
o gosto das cinco horas da manhã
a tragédia das amoras
a geologia de uma íris
a fúria dos grânulos de areia
contra os teus pés.
o gosto das cinco horas da manhã
a tragédia das amoras
a geologia de uma íris
a fúria dos grânulos de areia
contra os teus pés.
695
António Ramos Rosa
Telegrama Sem Classificação Especial
Estamos nus e gramamos.
Na grama secular um passarinho verde
canta para um poema lírico, para um poeta lírico,
que se nasceu
é certo que não cantou.
As paisagens continuam a existir.
As paisagens são suaves.
Continuam também a existir
outras coisas que dão matéria para poemas.
A vida continua.
Felizmente que há ódios, comichões, vaidades.
A estupidez, esta crassa crença intratável, esta confiança indestrutível em si mesmo,
é o que felizmente dá uma densidade, uma plenitude a isto.
Num mundo descoroçoante de puras imagens
é bom este banho de resistências, pressões, vontades, atritos,
é bom navegar.
Porque este presente é logo saudoso.
Na grama secular o passarinho canta.
Evidentemente que o poeta suicidou-se.
A vida continua.
Certas coisas que pareciam mortas
estão agora vivas ou, pelo menos, mexem-se.
Ausentes, dominam-nos.
Não é para nós que utilizam palavras,
que insistem,
não é para nós!
Estes grandes ornamentos, estes sábios discursos
fluem em visões, em ondas, como se não no presente.
Ter-se-á o presente extinguido?
A vida continua tão improvavelmente.
Na grama um passarinho canta.
Canta por cantar, ou não, canta.
Eu poderia, com rigor, agora
cantar:
Os anjos exactos
que empunham tesouras
de encontro aos factos
— ó minhas senhoras!
Ou rigorosamente ainda,
com veemente exactidão,
inutilizar o poema,
todos os poemas,
porque
Estamos nus e gramamos.
Na grama secular um passarinho verde
canta para um poema lírico, para um poeta lírico,
que se nasceu
é certo que não cantou.
As paisagens continuam a existir.
As paisagens são suaves.
Continuam também a existir
outras coisas que dão matéria para poemas.
A vida continua.
Felizmente que há ódios, comichões, vaidades.
A estupidez, esta crassa crença intratável, esta confiança indestrutível em si mesmo,
é o que felizmente dá uma densidade, uma plenitude a isto.
Num mundo descoroçoante de puras imagens
é bom este banho de resistências, pressões, vontades, atritos,
é bom navegar.
Porque este presente é logo saudoso.
Na grama secular o passarinho canta.
Evidentemente que o poeta suicidou-se.
A vida continua.
Certas coisas que pareciam mortas
estão agora vivas ou, pelo menos, mexem-se.
Ausentes, dominam-nos.
Não é para nós que utilizam palavras,
que insistem,
não é para nós!
Estes grandes ornamentos, estes sábios discursos
fluem em visões, em ondas, como se não no presente.
Ter-se-á o presente extinguido?
A vida continua tão improvavelmente.
Na grama um passarinho canta.
Canta por cantar, ou não, canta.
Eu poderia, com rigor, agora
cantar:
Os anjos exactos
que empunham tesouras
de encontro aos factos
— ó minhas senhoras!
Ou rigorosamente ainda,
com veemente exactidão,
inutilizar o poema,
todos os poemas,
porque
Estamos nus e gramamos.
1 264
Louise Glück
A rosa branca
Isto é a terra? Então
não sou daqui
Quem és tu na janela acesa,
agora à sombra das folhas trêmulas
do viburno?
Podes sobreviver onde não vou durar
Além do próximo verão?
A noite inteira os galhos esguios da árvore
movem-se e sussurram à janela iluminada.
Explica a minha vida, tu que não fazes sinal algum,
embora eu chame por ti na noite:
não sou como tu, tenho apenas
meu corpo como voz; não posso
desaparecer no silêncio —
E na manhã fria
sobre a superfície escura da terra
vagueiam ecos da minha voz,
brancura que firme se consome em escuridão
como se finalmente fizesses um sinal
para me convencer de que também não pudeste sobreviver aqui
ou para me mostrar que não és a luz que chamei
mas o breu atrás dela.
não sou daqui
Quem és tu na janela acesa,
agora à sombra das folhas trêmulas
do viburno?
Podes sobreviver onde não vou durar
Além do próximo verão?
A noite inteira os galhos esguios da árvore
movem-se e sussurram à janela iluminada.
Explica a minha vida, tu que não fazes sinal algum,
embora eu chame por ti na noite:
não sou como tu, tenho apenas
meu corpo como voz; não posso
desaparecer no silêncio —
E na manhã fria
sobre a superfície escura da terra
vagueiam ecos da minha voz,
brancura que firme se consome em escuridão
como se finalmente fizesses um sinal
para me convencer de que também não pudeste sobreviver aqui
ou para me mostrar que não és a luz que chamei
mas o breu atrás dela.
949
Francisco Mallmann
V
esse é um exercício de morte
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
779
Odysséas Elýtis
O tempo é a sombra célere dos pássaros
Meus olhos escancarados em meio às suas imagens
Por sobre o verde ditoso das folhas
As borboletas vivem grandes peripécias
Entrementes a inocência
Despe sua última mentira
Doce doce peripécia
A Vida.
Por sobre o verde ditoso das folhas
As borboletas vivem grandes peripécias
Entrementes a inocência
Despe sua última mentira
Doce doce peripécia
A Vida.
901
João Cabral de Melo Neto
Os Três Mal-Amados
O amor comeu meu nome, minha identidade,
meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor
comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,
minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus
testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de
poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações
em verso. Comeu no dicionário as palavras que
poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso:
pente, navalha, escovas, tesouras de unhas,
canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de
meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada
no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto
mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu
a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de
propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde
irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua
chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba
de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam
sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas
de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a
água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os
mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde
ácido das plantas de cana cobrindo os morros
regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo
trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de
cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas
coisas de que eu desesperava por não saber falar
delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas
folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de
meu relógio, os anos que as linhas de minha mão
asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro
grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da
terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e
minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu
silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte”.
meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor
comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,
minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus
testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de
poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações
em verso. Comeu no dicionário as palavras que
poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso:
pente, navalha, escovas, tesouras de unhas,
canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de
meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada
no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto
mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu
a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de
propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde
irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua
chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba
de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam
sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas
de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a
água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os
mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde
ácido das plantas de cana cobrindo os morros
regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo
trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de
cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas
coisas de que eu desesperava por não saber falar
delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas
folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de
meu relógio, os anos que as linhas de minha mão
asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro
grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da
terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e
minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu
silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte”.
1 375
Edmir Domingues
A brisa terral
Baseado em crônica de Rubem Braga
Congelemos sentimentos.
Joaquina me atormenta,
e eu que não posso guardá-la!
e eu que não quero perdê-la!
A solução: congelemos.
Congelemos promissórias
(também a literatura)
a voz mansa da cantora
e o vento manso do mar .
Quando, insensato, esse vento
percorre-me a casa toda
onde estou posto em sossego;
vem falar-me de viagens,
fabulosas aventuras,
me conta o mito distante
da virgem nua do Báltico,
me conta no meu ouvido
o murmúrio da sereia
que está lânguida de amor
numa pequena ilha grega,
ai de mim, que ela me espera,
que me espera e eu lá não vou.
Feito o que, pela janela
sai levando-me a fumaça
do cigarro que eu fumava
e a paz que a minh alma tinha.
Fico imóvel, cai a noite,
chega-me o vento da terra,
me diz que em alguma curva
de qualquer obscuro rio
dos confins deste país,
um galho de ingá repousa
pendurado no remanso;
junto o mugido de um boi
o ranger de uma porteira
o pio triste das aves
mulheres fazendo esteiras
de quem as faces não vejo;
são escuras, vejo apenas
cabelos negros e lisos
elas falam muito baixo
das suas vozes me chega
apenas leve murmúrio.
Homens há, consertam redes,
tiram água da cacimba.
Então toca o telefone
e eis que estou no apartamento
presa de tempo e de espaço;
preciso por a gravata
e o paletó e sair.
Urge tomar providências
enquanto pessoas outras
preferem tomar maconha.
De eficiência me visto
envio flores às damas
parabéns aos cavalheiros
para sentir-me distinto.
Mas quando o garçon pergunta
o que desejo beber
eu minto, pedindo uísque
quando uisque não queria.
Queria aquela caneca
azul, de flores vermelhas,
apanhar na talha escura
a água que há na cacimba.
Não congelemos mais nada
e nada reestruturemos.
Pois há uma leve brisa
com cheiro quente de mato.
Há grilos na noite. E a vida
é uma coisa natural.
616
Edmir Domingues
Lição de abismo
A árvore. Onde estará?
Em que lote, em que terreno,
em que bosque, em que floresta,
terá crescido, e sugado
a vida do pó da terra?
Será que ainda existe a árvore?
a copa de passarinhos
verde e viva, verdejando,
uma sombra ao pé da estrada?
Ou será que está cortada,
desfeita em pranchas polidas,
empilhadas, empoeiradas,
madeira de serraria?
0 ferro. Em que mina o ferro
simples minério repousa
a sua paz mineral?
Será que já foi colhido
por negros braços mineiros
e trazido à luz do sol?
Será que já soube a forja
o fogo, o malho, a bigorna,
onde depois de batido
será composto em martelo?
Estará pronto o martelo?
O cabo talvez tirado
dos rijos galhos cortados
da planta desfeita em pranchas?
Os pregos. Já serão pregos
já maquinofaturados
talvez desse mesmo ferro
de que foi feito o martelo?
A mão. Que estará fazendo
a mão, neste exato instante?
Será jovem, será velha
a mão, será negra ou branca?
E assim, já composto o quadro,
quando estarão todos juntos,
a mão, o martelo, os pregos,
a madeira (e o seu destino),
para que, juntos, componham
meu caixão, meu ataúde?
Talvez a mão distraída,
pregando os pregos não sinta
que a boca do mesmo corpo
trauteia a canção da vida,
um canto simples de amor.
Talvez tudo esteja pronto,
o trabalho esteja feito,
e já se veja o ataúde
brilhando no mostruário.
E só não tenha chegado,
para o final da comédia,
o momento que não tarda
que vem por certo em caminho.
Em que lote, em que terreno,
em que bosque, em que floresta,
terá crescido, e sugado
a vida do pó da terra?
Será que ainda existe a árvore?
a copa de passarinhos
verde e viva, verdejando,
uma sombra ao pé da estrada?
Ou será que está cortada,
desfeita em pranchas polidas,
empilhadas, empoeiradas,
madeira de serraria?
0 ferro. Em que mina o ferro
simples minério repousa
a sua paz mineral?
Será que já foi colhido
por negros braços mineiros
e trazido à luz do sol?
Será que já soube a forja
o fogo, o malho, a bigorna,
onde depois de batido
será composto em martelo?
Estará pronto o martelo?
O cabo talvez tirado
dos rijos galhos cortados
da planta desfeita em pranchas?
Os pregos. Já serão pregos
já maquinofaturados
talvez desse mesmo ferro
de que foi feito o martelo?
A mão. Que estará fazendo
a mão, neste exato instante?
Será jovem, será velha
a mão, será negra ou branca?
E assim, já composto o quadro,
quando estarão todos juntos,
a mão, o martelo, os pregos,
a madeira (e o seu destino),
para que, juntos, componham
meu caixão, meu ataúde?
Talvez a mão distraída,
pregando os pregos não sinta
que a boca do mesmo corpo
trauteia a canção da vida,
um canto simples de amor.
Talvez tudo esteja pronto,
o trabalho esteja feito,
e já se veja o ataúde
brilhando no mostruário.
E só não tenha chegado,
para o final da comédia,
o momento que não tarda
que vem por certo em caminho.
644
Edmir Domingues
Sobre um tema de Li Tai Pó.
Na noite (se profunda) as nossas asas
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
783
Edmir Domingues
Poema para a filha
Nasce a criança, e o mundo não merece
a dádiva da flor, o mundo amargo
onde as cores antigas se transformam
nessas cores de sombra, as mais escuras.
Mundo de aroma pouco (mas no entanto
de amargura bastante) nos exige
após as danças lubricas que dança
nossa cabeça em sangue, a vida nossa.
Nasce a criança. Nasce, e no princípio
o verbo e já sofrer se tem vagidos,
enquanto dor também se faz no ventre
da frutificação, na madre aberta.
(Dor que só sabe um dia paralelo
havendo o sacrifício prematuro
nas bocas dos fuzis e nas granadas
que em trabalho sem bênção se produzem).
E as bandeiras da infância, penduradas
nas cordas de secar, são sempre brancas,
como branca se pinta a pomba branca,
insígnia dessa paz que é carecida.
Infância que não volta, e que alimenta
toda a vida futura que lhe segue,
e se bem resumida inda é o bastante
para trazer-nos vivos muitos anos.
Seja pois para a filha a infância alegre
assim permitam deuses queiram ventos,
com pássaros trazendo a primavera,
rosas trazendo cores, borboletas.
Para que ame esta vida como a vida
precisa ser amada, ainda que triste,
se há beleza nos campos, nas marinhas,
na imensa paz dos bois que estão pastando.
E se lhe for a infância assim tranquila
como deseja o pai que se lhe seja,
mister se faz que aceite o ensinamento
do pobre pai que, cedo, dá conselho.
Não volte nunca, adulta, à terra antiga
onde viveu na infância as horas doces,
que o tempo faz pequeno o que foi grande,
reduz a nada aquilo que foi tudo,
amesquinha a paisagem, fere e mata
a esperança de glória acalentada,
que se desfaz, fumaça sem sonância
ante os muros de pedra da evidência.
Não volte e viva. E viva amando a vida
apesar das traições que a vida encerra
pensando um mundo grande como aquele
que as paisagens da infância nos ofertam.
a dádiva da flor, o mundo amargo
onde as cores antigas se transformam
nessas cores de sombra, as mais escuras.
Mundo de aroma pouco (mas no entanto
de amargura bastante) nos exige
após as danças lubricas que dança
nossa cabeça em sangue, a vida nossa.
Nasce a criança. Nasce, e no princípio
o verbo e já sofrer se tem vagidos,
enquanto dor também se faz no ventre
da frutificação, na madre aberta.
(Dor que só sabe um dia paralelo
havendo o sacrifício prematuro
nas bocas dos fuzis e nas granadas
que em trabalho sem bênção se produzem).
E as bandeiras da infância, penduradas
nas cordas de secar, são sempre brancas,
como branca se pinta a pomba branca,
insígnia dessa paz que é carecida.
Infância que não volta, e que alimenta
toda a vida futura que lhe segue,
e se bem resumida inda é o bastante
para trazer-nos vivos muitos anos.
Seja pois para a filha a infância alegre
assim permitam deuses queiram ventos,
com pássaros trazendo a primavera,
rosas trazendo cores, borboletas.
Para que ame esta vida como a vida
precisa ser amada, ainda que triste,
se há beleza nos campos, nas marinhas,
na imensa paz dos bois que estão pastando.
E se lhe for a infância assim tranquila
como deseja o pai que se lhe seja,
mister se faz que aceite o ensinamento
do pobre pai que, cedo, dá conselho.
Não volte nunca, adulta, à terra antiga
onde viveu na infância as horas doces,
que o tempo faz pequeno o que foi grande,
reduz a nada aquilo que foi tudo,
amesquinha a paisagem, fere e mata
a esperança de glória acalentada,
que se desfaz, fumaça sem sonância
ante os muros de pedra da evidência.
Não volte e viva. E viva amando a vida
apesar das traições que a vida encerra
pensando um mundo grande como aquele
que as paisagens da infância nos ofertam.
610
Cesare Pavese
TERRA RUBRA TERRA PRETA
Terra rubra terra preta,
você veio do mar,
do verde ressequido,
onde há palavras
antigas e fadiga sanguínea
e gerânios dentre as pedras,
você não sabe o quanto trazes
de mar, de palavras e de fadiga;
você, rica como uma recordação,
como o campo árido,
você, palavra dura e docíssima,
antiga pelo sangue
reunido nos olhos;
jovem, como um fruto
que é memória e estação,
sua respiração repousa
sob o céu de agosto,
e as olivas do teu olhar
adoçam o mar,
e você vive e revive
sem surpresa, certeira
como a terra, algoz
de estações e de sonhos
que ao luar se revelam
antiguíssimos, como
as mãos da tua mãe,
a tigela do braseiro.
você veio do mar,
do verde ressequido,
onde há palavras
antigas e fadiga sanguínea
e gerânios dentre as pedras,
você não sabe o quanto trazes
de mar, de palavras e de fadiga;
você, rica como uma recordação,
como o campo árido,
você, palavra dura e docíssima,
antiga pelo sangue
reunido nos olhos;
jovem, como um fruto
que é memória e estação,
sua respiração repousa
sob o céu de agosto,
e as olivas do teu olhar
adoçam o mar,
e você vive e revive
sem surpresa, certeira
como a terra, algoz
de estações e de sonhos
que ao luar se revelam
antiguíssimos, como
as mãos da tua mãe,
a tigela do braseiro.
805
Edmir Domingues
Louvado a Tarcísio
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo Tarcísio, e a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
Tarcísio, pastor de livros,
que os apascenta no amor.
Que o Livro, todos o sabem,
guarda os risos do Prazer,
guarda os suspiros da Dor.
O livro é carta de rumos,
rosa dos ventos, o mapa
de acertos e desaprumos,
dos roteiros misteriosos
dos ontens, dos amanhãs.
Das rotas das caravelas,
das órbitas parabólicas
de prateadas astronaves,
dos bergantins naufragados,
dos galeões com seus tesouros,
todos fortuna do mar,
dos olhos dos batiscafos
nas profundezas do abismo.
O livro é um mundo guardado
na menor das dimensões,
ora em verdade e crueza
ora em sonhos e ilusões,
o livro é um mundo de coisas
difíceis de descrever,
quem tiver curiosidade
compareça à Livro Sete
para ouvir, sentir e ver.
Outros mundos, muitos mundos,
todos o Livro contém,
Livro, resumo da Vida,
com todo o Mal, todo o Bem,
que guarda em si todo o Tudo,
que guarda em si todo o Sem.
Tarcísio, Pastor de Livros,
merece o nosso louvor.
Por isso louvo Tarcísio
e a luz do espírito louvo,
como também louvo a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
o Espírito Santo louvo,
louvo Tarcísio, e a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
Tarcísio, pastor de livros,
que os apascenta no amor.
Que o Livro, todos o sabem,
guarda os risos do Prazer,
guarda os suspiros da Dor.
O livro é carta de rumos,
rosa dos ventos, o mapa
de acertos e desaprumos,
dos roteiros misteriosos
dos ontens, dos amanhãs.
Das rotas das caravelas,
das órbitas parabólicas
de prateadas astronaves,
dos bergantins naufragados,
dos galeões com seus tesouros,
todos fortuna do mar,
dos olhos dos batiscafos
nas profundezas do abismo.
O livro é um mundo guardado
na menor das dimensões,
ora em verdade e crueza
ora em sonhos e ilusões,
o livro é um mundo de coisas
difíceis de descrever,
quem tiver curiosidade
compareça à Livro Sete
para ouvir, sentir e ver.
Outros mundos, muitos mundos,
todos o Livro contém,
Livro, resumo da Vida,
com todo o Mal, todo o Bem,
que guarda em si todo o Tudo,
que guarda em si todo o Sem.
Tarcísio, Pastor de Livros,
merece o nosso louvor.
Por isso louvo Tarcísio
e a luz do espírito louvo,
como também louvo a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
605
Edmir Domingues
Schoteinós
(em grego: obscuro)
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
564
Edmir Domingues
Sextina da rosa do amor e da morte
De que uma rosa é uma rosa
é uma rosa, até quando
lhe seja dado viver,
disse poeta. É a vida
que ao cabelo prende o pente
até que Destino a mata.
Quem sabe a tocaia, a mata,
a bala ferindo a rosa,
com outras balas no pente?
Da assassina à espreita quando
tudo eram flores na vida
e um puro sabor viver.
Mas vale a pena viver?
Não é a vida o que mata?
A morte é o fruto da vida
que floresce como rosa
e em versos se torna quando
sabe à lã cardada ao pente.
No campo marinho o pente,
concha bivalve, a viver
no meio das algas, quando
pescador o apresa e mata,
para alimento, que é rosa
que sustenta e enfeita a vida.
O artesão que ganha a vida
tece em seu tear, no pente,
a teia. Motivo: rosa.
Que se destina a viver
matando o tédio que mata,
não se sabe aonde, quando.
Rosas serão pedras, quando
em carga tornar-se a vida.
O desespero que mata
retira ao cabelo o pente,
que é desalento o viver
num país que não tem rosa.
No entanto viver é a Vida
na escura rosa do pente
ainda quando ou fere ou mata.
1995.
És o editor deste autor: Alterar texto Publicar texto ou poema Ap
é uma rosa, até quando
lhe seja dado viver,
disse poeta. É a vida
que ao cabelo prende o pente
até que Destino a mata.
Quem sabe a tocaia, a mata,
a bala ferindo a rosa,
com outras balas no pente?
Da assassina à espreita quando
tudo eram flores na vida
e um puro sabor viver.
Mas vale a pena viver?
Não é a vida o que mata?
A morte é o fruto da vida
que floresce como rosa
e em versos se torna quando
sabe à lã cardada ao pente.
No campo marinho o pente,
concha bivalve, a viver
no meio das algas, quando
pescador o apresa e mata,
para alimento, que é rosa
que sustenta e enfeita a vida.
O artesão que ganha a vida
tece em seu tear, no pente,
a teia. Motivo: rosa.
Que se destina a viver
matando o tédio que mata,
não se sabe aonde, quando.
Rosas serão pedras, quando
em carga tornar-se a vida.
O desespero que mata
retira ao cabelo o pente,
que é desalento o viver
num país que não tem rosa.
No entanto viver é a Vida
na escura rosa do pente
ainda quando ou fere ou mata.
1995.
És o editor deste autor: Alterar texto Publicar texto ou poema Ap
626
Ruy Belo
Guide Bleu
Haverá vento ainda haverá vento?
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
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