Poemas neste tema
Vida e Existência
Mário Hélio
16-VI(Niilismo)
a inutilidade da existência
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.
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Mário Hélio
16-VI(Niilismo)
a inutilidade da existência
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.
1 025
1
Mário Hélio
16-VI(Niilismo)
a inutilidade da existência
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.
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Manoel Andrade Silva
O Mar se Apaixona
O Mar se Apaixona...
Desde a agitação das águas
Ao beijar suas areias
A doce jovem que se banhava,
Fez o Poeta descrever sua beleza,
Por ver que o próprio mar
Por ela também se apaixonava.
Vendo a eclipsá-la as fúrias de sua espuma,
Via o abismo da morte
Quando o mar se enfurecia.
E o mar bravio quase absorvia,
Lançando-lhe as suas águas,
Como quem lança um verde manto,
Louco, apaixonadamente lhe cobria.
E ela enfrenta alegremente as ondas,
E o mar apertando-lhe apaixonadamente,
Se inflamava ferozmente e torturado,
Como quem encontrou sua própria amada...
O mar achava que tinha todo o seu direito
Deixando-me inquieto e com receio
Porque era em suas águas que banhava
Suas nádegas, seu corpo e seus lindos seios!
Aí eu gritei, Mar!!!
Quantas figuras peregrinas
Vejo banhar-se no teu vasto leito,
Exceto esta, sem alcançar no entanto
O verde cristalino destea enorme manto,
Diferente repleto de ternura,
Vou retirar de sua imensidão esta beleza,
Que embebebou-o e alimentou este seu sonho,
De um mar manso, transformou-se em mar medonho!
O mar responde:
- Minha linfa e cristalina,
Falando ao surgir das ondas,
Tua deusa, tua musa, tua beleza
Foi Deus quem fez, com sua pureza...
Quero levar comigo, longe, às profundezas,
E retirar-lhe deste mundo de maldades,
Guardando-lhe para toda a eternidade,
Na calmaria da imensidão de minha grandeza!
- Não Mar! Gritei novamente,
Isto não é verdade, estás doente!
Querer levar contigo e matar,
É sacrilégio, é praticar crime profano;
Aplacar, por ser poderoso, é ser vesano!
Deus te fez assim para uma eternidade,
Estás sonhando um sonho de verdade;
Fostes criado para banhar a humanidade,
Por milênios de anos e mais anos;
Se levares muitos inocente, com maldade,
Nunca passarás de um enorme oceano!
Depois que falei como um poeta apaixonado,
o mar responde novamente:
- Poeta, encontraste esta eloqüência
Em minha beleza, em minha amplidão?
Retrocedo pela sua emoção!
Diga a esta divindade e beleza,
Se encontrares no seu corpo impureza,
Não tenho culpa, condene esta humanidade,
Por lançarem em minhas águas seus detritos,
Sem respeito, ignorância e maldade!
Vou seguir meu destino apaixonado e aflito,
Deus me fez grandioso e infinito,
Vou obedecer a lei da eternidade!
Chorando agradecido, responde o Poeta:
- Obrigado, obrigado Oceano!
Deus o fez com todo seu poder
Por sua criatividade e por ser soberano;
Criou-te para banhar toda a humanidade,
És lindo, grandioso de verdade!
Perdoaste minha musa cheio de mágoa,
Mas prometo-lhe por esta linda luz
Deste sol que hoje nos clareia,
Que trarei por muitas vezes,
Minha musa, minha sereia,
Para banhar-se em suas águas
E beijar suas areias!
Desde a agitação das águas
Ao beijar suas areias
A doce jovem que se banhava,
Fez o Poeta descrever sua beleza,
Por ver que o próprio mar
Por ela também se apaixonava.
Vendo a eclipsá-la as fúrias de sua espuma,
Via o abismo da morte
Quando o mar se enfurecia.
E o mar bravio quase absorvia,
Lançando-lhe as suas águas,
Como quem lança um verde manto,
Louco, apaixonadamente lhe cobria.
E ela enfrenta alegremente as ondas,
E o mar apertando-lhe apaixonadamente,
Se inflamava ferozmente e torturado,
Como quem encontrou sua própria amada...
O mar achava que tinha todo o seu direito
Deixando-me inquieto e com receio
Porque era em suas águas que banhava
Suas nádegas, seu corpo e seus lindos seios!
Aí eu gritei, Mar!!!
Quantas figuras peregrinas
Vejo banhar-se no teu vasto leito,
Exceto esta, sem alcançar no entanto
O verde cristalino destea enorme manto,
Diferente repleto de ternura,
Vou retirar de sua imensidão esta beleza,
Que embebebou-o e alimentou este seu sonho,
De um mar manso, transformou-se em mar medonho!
O mar responde:
- Minha linfa e cristalina,
Falando ao surgir das ondas,
Tua deusa, tua musa, tua beleza
Foi Deus quem fez, com sua pureza...
Quero levar comigo, longe, às profundezas,
E retirar-lhe deste mundo de maldades,
Guardando-lhe para toda a eternidade,
Na calmaria da imensidão de minha grandeza!
- Não Mar! Gritei novamente,
Isto não é verdade, estás doente!
Querer levar contigo e matar,
É sacrilégio, é praticar crime profano;
Aplacar, por ser poderoso, é ser vesano!
Deus te fez assim para uma eternidade,
Estás sonhando um sonho de verdade;
Fostes criado para banhar a humanidade,
Por milênios de anos e mais anos;
Se levares muitos inocente, com maldade,
Nunca passarás de um enorme oceano!
Depois que falei como um poeta apaixonado,
o mar responde novamente:
- Poeta, encontraste esta eloqüência
Em minha beleza, em minha amplidão?
Retrocedo pela sua emoção!
Diga a esta divindade e beleza,
Se encontrares no seu corpo impureza,
Não tenho culpa, condene esta humanidade,
Por lançarem em minhas águas seus detritos,
Sem respeito, ignorância e maldade!
Vou seguir meu destino apaixonado e aflito,
Deus me fez grandioso e infinito,
Vou obedecer a lei da eternidade!
Chorando agradecido, responde o Poeta:
- Obrigado, obrigado Oceano!
Deus o fez com todo seu poder
Por sua criatividade e por ser soberano;
Criou-te para banhar toda a humanidade,
És lindo, grandioso de verdade!
Perdoaste minha musa cheio de mágoa,
Mas prometo-lhe por esta linda luz
Deste sol que hoje nos clareia,
Que trarei por muitas vezes,
Minha musa, minha sereia,
Para banhar-se em suas águas
E beijar suas areias!
1 064
1
Machado de Assis
Uma Criatura
Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.
2 436
1
Machado de Assis
Uma Criatura
Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.
2 436
1
Machado de Assis
Uma Criatura
Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.
2 436
1
Carlos Anísio Melhor
Ode
Breves encontros
Contatos Leves
Não chegaram
com
ter
tua presença.
Mas é certeza solar
Que contém os fragmentos
por entre as horas e as horas
— Espaço aberto no tempo
Que tu existes aqui
Do teu múltiplo olhar.
E o mais
é
sentimento
Que esboça
Retrato
impresso
No ar.
Contatos Leves
Não chegaram
com
ter
tua presença.
Mas é certeza solar
Que contém os fragmentos
por entre as horas e as horas
— Espaço aberto no tempo
Que tu existes aqui
Do teu múltiplo olhar.
E o mais
é
sentimento
Que esboça
Retrato
impresso
No ar.
910
1
Lucy Teixeira
Elegia Fundamental
Metamorfose,
os fundamentos de tua lógica
são cimentados de lâminas vivas,
Voraz, Vastíssima, cujos pé não vejo,
as tuas normas
em que ventre ou motor se organizaram?,
pura dilaceração continuada.
Obsessão cantando o seu nome ininterrupto,
nunca verei a tua face,
negra e fulgurante,
vagarosa e veloz,
impiedosa coisa inabalável
que me namora a coisa mais esplêndida;
ainda não, prestidigitadora,
a divertir-se já com o que me foi
suave raiz cujo perfume queimo
neste campo onde se luta uma lembrança.
Começa o teu sigilado festim,
enquanto as correias do ar,
sustentam o pavilhão onde ficamos
cada vez menos acariciados
e gradualmente aturdidos.
Começa o teu discurso, dragão,
e cresta, e cresta
onde em nós é que dói.
.........................................................
Pela manhã
ergue-se o ervatário
indo colher no campo
vagas ervas medicinais.
Colhe a luz do teu sorriso,
plantador cujas mãos,
cobertas de anéis de areia
agora possuem a Terra.
os fundamentos de tua lógica
são cimentados de lâminas vivas,
Voraz, Vastíssima, cujos pé não vejo,
as tuas normas
em que ventre ou motor se organizaram?,
pura dilaceração continuada.
Obsessão cantando o seu nome ininterrupto,
nunca verei a tua face,
negra e fulgurante,
vagarosa e veloz,
impiedosa coisa inabalável
que me namora a coisa mais esplêndida;
ainda não, prestidigitadora,
a divertir-se já com o que me foi
suave raiz cujo perfume queimo
neste campo onde se luta uma lembrança.
Começa o teu sigilado festim,
enquanto as correias do ar,
sustentam o pavilhão onde ficamos
cada vez menos acariciados
e gradualmente aturdidos.
Começa o teu discurso, dragão,
e cresta, e cresta
onde em nós é que dói.
.........................................................
Pela manhã
ergue-se o ervatário
indo colher no campo
vagas ervas medicinais.
Colhe a luz do teu sorriso,
plantador cujas mãos,
cobertas de anéis de areia
agora possuem a Terra.
1 230
1
Lucy Teixeira
Elegia Fundamental
Metamorfose,
os fundamentos de tua lógica
são cimentados de lâminas vivas,
Voraz, Vastíssima, cujos pé não vejo,
as tuas normas
em que ventre ou motor se organizaram?,
pura dilaceração continuada.
Obsessão cantando o seu nome ininterrupto,
nunca verei a tua face,
negra e fulgurante,
vagarosa e veloz,
impiedosa coisa inabalável
que me namora a coisa mais esplêndida;
ainda não, prestidigitadora,
a divertir-se já com o que me foi
suave raiz cujo perfume queimo
neste campo onde se luta uma lembrança.
Começa o teu sigilado festim,
enquanto as correias do ar,
sustentam o pavilhão onde ficamos
cada vez menos acariciados
e gradualmente aturdidos.
Começa o teu discurso, dragão,
e cresta, e cresta
onde em nós é que dói.
.........................................................
Pela manhã
ergue-se o ervatário
indo colher no campo
vagas ervas medicinais.
Colhe a luz do teu sorriso,
plantador cujas mãos,
cobertas de anéis de areia
agora possuem a Terra.
os fundamentos de tua lógica
são cimentados de lâminas vivas,
Voraz, Vastíssima, cujos pé não vejo,
as tuas normas
em que ventre ou motor se organizaram?,
pura dilaceração continuada.
Obsessão cantando o seu nome ininterrupto,
nunca verei a tua face,
negra e fulgurante,
vagarosa e veloz,
impiedosa coisa inabalável
que me namora a coisa mais esplêndida;
ainda não, prestidigitadora,
a divertir-se já com o que me foi
suave raiz cujo perfume queimo
neste campo onde se luta uma lembrança.
Começa o teu sigilado festim,
enquanto as correias do ar,
sustentam o pavilhão onde ficamos
cada vez menos acariciados
e gradualmente aturdidos.
Começa o teu discurso, dragão,
e cresta, e cresta
onde em nós é que dói.
.........................................................
Pela manhã
ergue-se o ervatário
indo colher no campo
vagas ervas medicinais.
Colhe a luz do teu sorriso,
plantador cujas mãos,
cobertas de anéis de areia
agora possuem a Terra.
1 230
1
Luís de Siqueira da Gama
Soneto
Bela a rosa, hoje em Clície transformada
Lições de amor ensina à formosura;
a que de Vênus era rica usura,
já morta em vida, vive sepultada:
nos lutos de um véu negro amortalhada,
a toda a pressa, busca a sepultura,
semiviva na cova da clausura
quer defunta ocupar breve morada:
era na corte singular senhora,
soube esposo o Marquês fino querê-la;
e dura lho roubou parca traidora;
morreu de Inácia o Sol: e Clície bela,
não podendo deixar de ser Aurora,
entrou a ser na luz formosa estrela.
Lições de amor ensina à formosura;
a que de Vênus era rica usura,
já morta em vida, vive sepultada:
nos lutos de um véu negro amortalhada,
a toda a pressa, busca a sepultura,
semiviva na cova da clausura
quer defunta ocupar breve morada:
era na corte singular senhora,
soube esposo o Marquês fino querê-la;
e dura lho roubou parca traidora;
morreu de Inácia o Sol: e Clície bela,
não podendo deixar de ser Aurora,
entrou a ser na luz formosa estrela.
935
1
Maria Rita Kehl
recurso
O método faz milagres.
Passar no quarto das crianças antes de deitar
só matar os insetos comprovadamente nocivos
sair lá fora no escuro, cinco minutos na primeira noite,
dez na segunda, até conseguir no mínimo uma hora de contemplação
sem terror.
O método tece uma teia ——
horários —— rotas de ônibus —— receitas ——
telefonemas na 6a. ——
caderninhos ——
quando a trama é bem firme e cada gesto idiota adquire sentidos surpreendentes
imprescindíveis depois de algum tempo
capazes de sustentar uma existência inteira.
Passar no quarto das crianças antes de deitar
só matar os insetos comprovadamente nocivos
sair lá fora no escuro, cinco minutos na primeira noite,
dez na segunda, até conseguir no mínimo uma hora de contemplação
sem terror.
O método tece uma teia ——
horários —— rotas de ônibus —— receitas ——
telefonemas na 6a. ——
caderninhos ——
quando a trama é bem firme e cada gesto idiota adquire sentidos surpreendentes
imprescindíveis depois de algum tempo
capazes de sustentar uma existência inteira.
1 098
1
Marigê Quirino Marchini
Sonetos do Imperfeito
- I -
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
781
1
Marigê Quirino Marchini
Sonetos do Imperfeito
- I -
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
781
1
Marigê Quirino Marchini
Sonetos do Imperfeito
- I -
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
781
1
Marigê Quirino Marchini
Sonetos do Imperfeito
- I -
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
781
1
Marigê Quirino Marchini
Sonetos do Imperfeito
- I -
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
781
1
Sérgio Mattos
Imagem Pura
Num mundo indiferente e sem formas,
uma obsessão inacabada,
emergindo de uma pálida significação,
se alinhava em meu espírito
em busca duma imagem pura:
uma obsessão inacabada,
emergindo de uma pálida significação,
se alinhava em meu espírito
em busca duma imagem pura:
827
1
Sérgio Mattos
Imagem Pura
Num mundo indiferente e sem formas,
uma obsessão inacabada,
emergindo de uma pálida significação,
se alinhava em meu espírito
em busca duma imagem pura:
uma obsessão inacabada,
emergindo de uma pálida significação,
se alinhava em meu espírito
em busca duma imagem pura:
827
1
António Manuel Couto Viana
Bandeira Rota
Eu chego sempre tarde quando chego;
Esqueço-me de mim, a conversar comigo,
Cavaleiro manchego!
— Que nobres intenções, na hora de sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
(A noiva que me fora prometida
Vai subir ao altar, por outro acompanhada,
Eu disse-me, demais, ao ouvido: "Toda a vida!"
Foi a pensar em mim que me rasguei na ferida
E fiquei para trás, a tropeçar na espada).
Quando escrevo "aventura" desconheço
Que a palavra tem sangue e carne e alma.
Sei-a moldar, mas só em barro ou gesso;
Doce carícia lírica num verso,
Quando a paisagem se distende, calma.
Mas quando me soluçam "Vem!" e é guerra
E esperam por mim, pra um novo dia,
Indago-me: "0 que fica além da terra?"
Que enigmas de fé meu sonho encerra,
Mascarando em prudência a covardia!
Pé-ante-é, caminho, à espera, alerta,
Que venha ter comigo quem procuro;
Que metraga, em bandeja, uma vitória certa,
Que me enfie, no bolso, a índia descoberta
E eu possa, enfim, seguir, glorioso e seguro.
Por isso chego tarde quando chego;
Esquecido de mim, a conversar comigo.
Cavaleiro de manchego!
— Que nobres intenções, na hora do sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
Esqueço-me de mim, a conversar comigo,
Cavaleiro manchego!
— Que nobres intenções, na hora de sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
(A noiva que me fora prometida
Vai subir ao altar, por outro acompanhada,
Eu disse-me, demais, ao ouvido: "Toda a vida!"
Foi a pensar em mim que me rasguei na ferida
E fiquei para trás, a tropeçar na espada).
Quando escrevo "aventura" desconheço
Que a palavra tem sangue e carne e alma.
Sei-a moldar, mas só em barro ou gesso;
Doce carícia lírica num verso,
Quando a paisagem se distende, calma.
Mas quando me soluçam "Vem!" e é guerra
E esperam por mim, pra um novo dia,
Indago-me: "0 que fica além da terra?"
Que enigmas de fé meu sonho encerra,
Mascarando em prudência a covardia!
Pé-ante-é, caminho, à espera, alerta,
Que venha ter comigo quem procuro;
Que metraga, em bandeja, uma vitória certa,
Que me enfie, no bolso, a índia descoberta
E eu possa, enfim, seguir, glorioso e seguro.
Por isso chego tarde quando chego;
Esquecido de mim, a conversar comigo.
Cavaleiro de manchego!
— Que nobres intenções, na hora do sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
1 482
1
António Manuel Couto Viana
Bandeira Rota
Eu chego sempre tarde quando chego;
Esqueço-me de mim, a conversar comigo,
Cavaleiro manchego!
— Que nobres intenções, na hora de sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
(A noiva que me fora prometida
Vai subir ao altar, por outro acompanhada,
Eu disse-me, demais, ao ouvido: "Toda a vida!"
Foi a pensar em mim que me rasguei na ferida
E fiquei para trás, a tropeçar na espada).
Quando escrevo "aventura" desconheço
Que a palavra tem sangue e carne e alma.
Sei-a moldar, mas só em barro ou gesso;
Doce carícia lírica num verso,
Quando a paisagem se distende, calma.
Mas quando me soluçam "Vem!" e é guerra
E esperam por mim, pra um novo dia,
Indago-me: "0 que fica além da terra?"
Que enigmas de fé meu sonho encerra,
Mascarando em prudência a covardia!
Pé-ante-é, caminho, à espera, alerta,
Que venha ter comigo quem procuro;
Que metraga, em bandeja, uma vitória certa,
Que me enfie, no bolso, a índia descoberta
E eu possa, enfim, seguir, glorioso e seguro.
Por isso chego tarde quando chego;
Esquecido de mim, a conversar comigo.
Cavaleiro de manchego!
— Que nobres intenções, na hora do sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
Esqueço-me de mim, a conversar comigo,
Cavaleiro manchego!
— Que nobres intenções, na hora de sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
(A noiva que me fora prometida
Vai subir ao altar, por outro acompanhada,
Eu disse-me, demais, ao ouvido: "Toda a vida!"
Foi a pensar em mim que me rasguei na ferida
E fiquei para trás, a tropeçar na espada).
Quando escrevo "aventura" desconheço
Que a palavra tem sangue e carne e alma.
Sei-a moldar, mas só em barro ou gesso;
Doce carícia lírica num verso,
Quando a paisagem se distende, calma.
Mas quando me soluçam "Vem!" e é guerra
E esperam por mim, pra um novo dia,
Indago-me: "0 que fica além da terra?"
Que enigmas de fé meu sonho encerra,
Mascarando em prudência a covardia!
Pé-ante-é, caminho, à espera, alerta,
Que venha ter comigo quem procuro;
Que metraga, em bandeja, uma vitória certa,
Que me enfie, no bolso, a índia descoberta
E eu possa, enfim, seguir, glorioso e seguro.
Por isso chego tarde quando chego;
Esquecido de mim, a conversar comigo.
Cavaleiro de manchego!
— Que nobres intenções, na hora do sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
1 482
1
Maria Fernanda Mendonça Costa
Casa mal-assombrada
Eu vi
Monstros, morcegos e vampiros!
Lá tem um
velho vampiro
e sua mulher.
Bem de noite
ouvi um choro
e me levantei
Percebi que era um
nenê: a vampira teve bebê
Monstros, morcegos e vampiros!
Lá tem um
velho vampiro
e sua mulher.
Bem de noite
ouvi um choro
e me levantei
Percebi que era um
nenê: a vampira teve bebê
1 967
1
Marcelo Almeida de Oliveira
Ária para Ariano
Salve guerreiro!
vejo que o tempo
não secou tua alma,
continua ela molhada,
como a verde lama
do mangue cinzento
onde tens morada.
Ferozmente guarda a nascente,
cristalina progenitora,
semente já fora,
agora é raiz;
onde banhava nossos pais,
e onde todos devemos.
Salve irmão!
Continua na luta,
e saibas que
Tu és sua sina
e salvação.
Tu és uno!
Tu és una!
vejo que o tempo
não secou tua alma,
continua ela molhada,
como a verde lama
do mangue cinzento
onde tens morada.
Ferozmente guarda a nascente,
cristalina progenitora,
semente já fora,
agora é raiz;
onde banhava nossos pais,
e onde todos devemos.
Salve irmão!
Continua na luta,
e saibas que
Tu és sua sina
e salvação.
Tu és uno!
Tu és una!
951
1
Mário Beirão
A Epopéia dos Malteses
Choros que o pó amassaram,
Ódios, fel desesperança,
Minha crueza geraram:
Sou a estátua da Vingança!
Maltês meu nome de guerra!
Ver-me é logo pressentir
Que o vento sul se descerra
Já mirram searas de o ouvir!
De noite vou pelas eiras,
Alma em fogo — deitar fogo
A searas, medidas inteiras:
Abraso e assim desafogo!
Sou fera? Vá, que me dormem!
E vós outros que sereis?
Não sou fera, não, sou o Homem,
Escravo firmando leis!
Meu sangue reza nas veias;
Por quem reza? Por quem chora?
Pelos que em terras alheias
Foram escravos outrora!
Oculyo no chão barrento,
Com piedade, com ternura,
Os que dormem ao relento,
Os mortos sem sepultura!
Coveiro da própia raça!
Dor de além-dor! Ao que eu vim!
Grito eo medo me trespassa,
Acordo e fujo de mim!
Ódios, fel desesperança,
Minha crueza geraram:
Sou a estátua da Vingança!
Maltês meu nome de guerra!
Ver-me é logo pressentir
Que o vento sul se descerra
Já mirram searas de o ouvir!
De noite vou pelas eiras,
Alma em fogo — deitar fogo
A searas, medidas inteiras:
Abraso e assim desafogo!
Sou fera? Vá, que me dormem!
E vós outros que sereis?
Não sou fera, não, sou o Homem,
Escravo firmando leis!
Meu sangue reza nas veias;
Por quem reza? Por quem chora?
Pelos que em terras alheias
Foram escravos outrora!
Oculyo no chão barrento,
Com piedade, com ternura,
Os que dormem ao relento,
Os mortos sem sepultura!
Coveiro da própia raça!
Dor de além-dor! Ao que eu vim!
Grito eo medo me trespassa,
Acordo e fujo de mim!
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