Poemas neste tema
Vida e Existência
Ruy Cinatti
Vigília
Paralelamente sigo dois caminhos
Abstrato na visão de um céu profundo.
Nem um nem outro me serve, nem aquele
Destino que se insinua
Com voz semelhante à minha. O melhor mundo
Está por descobrir. Não seque a lua
Nem o perfil da proa. Vai direito
Ao vago, incerto, misterioso
Bater das velas sinalado de oculto.
Quero-me mais dentro de mim, mais desumano
Em comunhão suprema, surto e alado
Nas aragens noturnas que desdobram as vagas,
Chamam dorsos de peixe à tona de água
E precipitam asas na esteira de luz.
Da vida nada senão a melhoria
De um paraíso sonhado e procurado
Com ternura, coragem e espírito sereno.
Doçura luminosa de um olhar. Ameno
Brincar de almas verticais em pleno
Sol de alvorada que descerra as pálpebras.
Abstrato na visão de um céu profundo.
Nem um nem outro me serve, nem aquele
Destino que se insinua
Com voz semelhante à minha. O melhor mundo
Está por descobrir. Não seque a lua
Nem o perfil da proa. Vai direito
Ao vago, incerto, misterioso
Bater das velas sinalado de oculto.
Quero-me mais dentro de mim, mais desumano
Em comunhão suprema, surto e alado
Nas aragens noturnas que desdobram as vagas,
Chamam dorsos de peixe à tona de água
E precipitam asas na esteira de luz.
Da vida nada senão a melhoria
De um paraíso sonhado e procurado
Com ternura, coragem e espírito sereno.
Doçura luminosa de um olhar. Ameno
Brincar de almas verticais em pleno
Sol de alvorada que descerra as pálpebras.
2 505
1
José Costa Matos
Desperdício
Como as espigas,
as lições também apodrecem
no esquecimento das colheitas.
as lições também apodrecem
no esquecimento das colheitas.
915
1
José Costa Matos
Desperdício
Como as espigas,
as lições também apodrecem
no esquecimento das colheitas.
as lições também apodrecem
no esquecimento das colheitas.
915
1
Chico Buarque
Carolina
Carolina
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei que não vai dar
Seu pranto não vai nada mudar
Eu já convidei para dançar
É hora, já sei, de aproveitar
Lá fora, amor
Uma rosa nasceu
Todo mundo sambou
Uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo
Pela janela, ói que lindo
Mas Carolina não viu
Carolina
Nos seus olhos tristes
Guarda tanto amor
O amor que já não existe
Eu bem que avisei, vai acabar
De tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar
Agora não sei como explicar
Lá fora, amor
Uma rosa morreu
Uma festa acabou
Nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela
O tempo passou na janela
Só Carolina não viu
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei que não vai dar
Seu pranto não vai nada mudar
Eu já convidei para dançar
É hora, já sei, de aproveitar
Lá fora, amor
Uma rosa nasceu
Todo mundo sambou
Uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo
Pela janela, ói que lindo
Mas Carolina não viu
Carolina
Nos seus olhos tristes
Guarda tanto amor
O amor que já não existe
Eu bem que avisei, vai acabar
De tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar
Agora não sei como explicar
Lá fora, amor
Uma rosa morreu
Uma festa acabou
Nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela
O tempo passou na janela
Só Carolina não viu
2 226
1
José Costa Matos
Passaram
Passaram como infâncias... águas... tais
como os aviões, avoantes, folhas secas,
manhãs de flores, tardes de pardais
e as falsificações de eternidades.
Que levaram, enfim? Toda essa gente
quis carregar alguma coisa, é certo:
planta que desce um galho sobre a rua
perde uma folha pra quem passa perto.
Passaram. Padres que não leram Bíblias,
Picassos que perderam seus pincéis,
astrônomos que olhavam para o chão.
Estiveram na escola, eram doutores.
E fica, indecifrada, a alma dos dias,
cartas de Deus que poucos sabem ler.
De O Povoamento da Solidão (1991)
como os aviões, avoantes, folhas secas,
manhãs de flores, tardes de pardais
e as falsificações de eternidades.
Que levaram, enfim? Toda essa gente
quis carregar alguma coisa, é certo:
planta que desce um galho sobre a rua
perde uma folha pra quem passa perto.
Passaram. Padres que não leram Bíblias,
Picassos que perderam seus pincéis,
astrônomos que olhavam para o chão.
Estiveram na escola, eram doutores.
E fica, indecifrada, a alma dos dias,
cartas de Deus que poucos sabem ler.
De O Povoamento da Solidão (1991)
861
1
José Costa Matos
Passaram
Passaram como infâncias... águas... tais
como os aviões, avoantes, folhas secas,
manhãs de flores, tardes de pardais
e as falsificações de eternidades.
Que levaram, enfim? Toda essa gente
quis carregar alguma coisa, é certo:
planta que desce um galho sobre a rua
perde uma folha pra quem passa perto.
Passaram. Padres que não leram Bíblias,
Picassos que perderam seus pincéis,
astrônomos que olhavam para o chão.
Estiveram na escola, eram doutores.
E fica, indecifrada, a alma dos dias,
cartas de Deus que poucos sabem ler.
De O Povoamento da Solidão (1991)
como os aviões, avoantes, folhas secas,
manhãs de flores, tardes de pardais
e as falsificações de eternidades.
Que levaram, enfim? Toda essa gente
quis carregar alguma coisa, é certo:
planta que desce um galho sobre a rua
perde uma folha pra quem passa perto.
Passaram. Padres que não leram Bíblias,
Picassos que perderam seus pincéis,
astrônomos que olhavam para o chão.
Estiveram na escola, eram doutores.
E fica, indecifrada, a alma dos dias,
cartas de Deus que poucos sabem ler.
De O Povoamento da Solidão (1991)
861
1
José Costa Matos
Passaram
Passaram como infâncias... águas... tais
como os aviões, avoantes, folhas secas,
manhãs de flores, tardes de pardais
e as falsificações de eternidades.
Que levaram, enfim? Toda essa gente
quis carregar alguma coisa, é certo:
planta que desce um galho sobre a rua
perde uma folha pra quem passa perto.
Passaram. Padres que não leram Bíblias,
Picassos que perderam seus pincéis,
astrônomos que olhavam para o chão.
Estiveram na escola, eram doutores.
E fica, indecifrada, a alma dos dias,
cartas de Deus que poucos sabem ler.
De O Povoamento da Solidão (1991)
como os aviões, avoantes, folhas secas,
manhãs de flores, tardes de pardais
e as falsificações de eternidades.
Que levaram, enfim? Toda essa gente
quis carregar alguma coisa, é certo:
planta que desce um galho sobre a rua
perde uma folha pra quem passa perto.
Passaram. Padres que não leram Bíblias,
Picassos que perderam seus pincéis,
astrônomos que olhavam para o chão.
Estiveram na escola, eram doutores.
E fica, indecifrada, a alma dos dias,
cartas de Deus que poucos sabem ler.
De O Povoamento da Solidão (1991)
861
1
Alexandre Dáskalos
Carta
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo pra sofrer
Boca Para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica jeito
Para o branco me dizer
"Obra de preto sem jeito"
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois ... e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum ...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pai da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão.
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo pra sofrer
Boca Para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica jeito
Para o branco me dizer
"Obra de preto sem jeito"
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois ... e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum ...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pai da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão.
2 050
1
Carlos Lima
Dístomo
Amor e morte
limites em que se move a humana dança
A lógica do tempo no mal entendido céu dos geômetras
o absurdo de um cadáver que se arrasta
pela virulência inútil nos olhos do tempo
espreitando os vermes dos dias futuros
na cama dos sonhos de ingênuos crimes infantis
apaixonado pelo uivo da lua e o vermelho cio das nuvens
Amor e morte
limites em que se move a humana dança
Há neste dia uma ternura de punhais
ferindo com mãos obsessivas o esqueleto da noite
e não perdoa a imperfeição dos seres
Vendi a alma ao diabo não me engano
é contra o real, contra o real
que na nossa arte conspiramos
A insanidade da noite
trará o falso lenitivo de um soneto
ou essa tranqüilidade de cachorros ociosos
após lamber o osso de uma verdade satisfatória?
limites em que se move a humana dança
A lógica do tempo no mal entendido céu dos geômetras
o absurdo de um cadáver que se arrasta
pela virulência inútil nos olhos do tempo
espreitando os vermes dos dias futuros
na cama dos sonhos de ingênuos crimes infantis
apaixonado pelo uivo da lua e o vermelho cio das nuvens
Amor e morte
limites em que se move a humana dança
Há neste dia uma ternura de punhais
ferindo com mãos obsessivas o esqueleto da noite
e não perdoa a imperfeição dos seres
Vendi a alma ao diabo não me engano
é contra o real, contra o real
que na nossa arte conspiramos
A insanidade da noite
trará o falso lenitivo de um soneto
ou essa tranqüilidade de cachorros ociosos
após lamber o osso de uma verdade satisfatória?
880
1
Clóvis Moura
O Rio Parnaíba
Gargarejo de mortes de afogados
e brilho de luar sobre o silêncio
ruídos sem barulho de asas brancas
invisíveis na esteira do mistério.
Embarcações fantasmas com seus remos
violando o espelho da corrente
e a história dos antigos moradores
que perlustraram a estrada do degredo.
Nas margens as perguntas os inquéritos
o tiro a interjeição e a morte cinza:
gargalhada de álcool nas bodegas.
A indiferença escorre como gosma
e o rio na derrota da incerteza
leva faunas estranhas no seu ventre.
e brilho de luar sobre o silêncio
ruídos sem barulho de asas brancas
invisíveis na esteira do mistério.
Embarcações fantasmas com seus remos
violando o espelho da corrente
e a história dos antigos moradores
que perlustraram a estrada do degredo.
Nas margens as perguntas os inquéritos
o tiro a interjeição e a morte cinza:
gargalhada de álcool nas bodegas.
A indiferença escorre como gosma
e o rio na derrota da incerteza
leva faunas estranhas no seu ventre.
2 991
1
Clóvis Ramos
O Cego Bartimeu
Há poesia em tudo o que é divino.
Nas bodas de Caná como na Ceia.
Embora eu seja um poeta pequenino,
cantar o Deus de Amor minhalma anseia.
Quando Jesus seguia, sol a pino,
de Jericó na estrada — sol e areia — ,
o cego Bartimeu — homem franzino —
de ser repreendido não receia.
— "Ó Filho de Davi, tem piedade!"
Jesus parou. — "Que queres que te faça?"
— "Que eu veja, meu Senhor!" E a claridade
do dia iluminou aqueles olhos,
aquele coração cheio de graça,
aquela alma liberta dos escolhos!
Nas bodas de Caná como na Ceia.
Embora eu seja um poeta pequenino,
cantar o Deus de Amor minhalma anseia.
Quando Jesus seguia, sol a pino,
de Jericó na estrada — sol e areia — ,
o cego Bartimeu — homem franzino —
de ser repreendido não receia.
— "Ó Filho de Davi, tem piedade!"
Jesus parou. — "Que queres que te faça?"
— "Que eu veja, meu Senhor!" E a claridade
do dia iluminou aqueles olhos,
aquele coração cheio de graça,
aquela alma liberta dos escolhos!
1 283
1
José Costa Matos
Presságios
Como foi bela e sábia a vida que tivemos!
Lições em tudo... em tudo... em tudo... até nas brigas
havia água e semente e terra e sol e espigas,
pra nossa fome de entender tudo o que vemos
neste mundo de Deus. As coisas mais antigas
vividas por nós dois mostravam que os extremos
são somas, em nós dois, dos anseios supremos
de socorrer quem tomba ao peso das fadigas.
Era nosso o destino altíssimo de ver,
era nossa a ambição do topo das montanhas,
sabíamos o dia antes de alvorecer...
A tanta luz chegaste, a tanta fé subi,
chegamos a ser bons e a perfeições tamanhas,
que ainda estou a pensar que nunca te perdi...
Lições em tudo... em tudo... em tudo... até nas brigas
havia água e semente e terra e sol e espigas,
pra nossa fome de entender tudo o que vemos
neste mundo de Deus. As coisas mais antigas
vividas por nós dois mostravam que os extremos
são somas, em nós dois, dos anseios supremos
de socorrer quem tomba ao peso das fadigas.
Era nosso o destino altíssimo de ver,
era nossa a ambição do topo das montanhas,
sabíamos o dia antes de alvorecer...
A tanta luz chegaste, a tanta fé subi,
chegamos a ser bons e a perfeições tamanhas,
que ainda estou a pensar que nunca te perdi...
895
1
José Costa Matos
Presságios
Como foi bela e sábia a vida que tivemos!
Lições em tudo... em tudo... em tudo... até nas brigas
havia água e semente e terra e sol e espigas,
pra nossa fome de entender tudo o que vemos
neste mundo de Deus. As coisas mais antigas
vividas por nós dois mostravam que os extremos
são somas, em nós dois, dos anseios supremos
de socorrer quem tomba ao peso das fadigas.
Era nosso o destino altíssimo de ver,
era nossa a ambição do topo das montanhas,
sabíamos o dia antes de alvorecer...
A tanta luz chegaste, a tanta fé subi,
chegamos a ser bons e a perfeições tamanhas,
que ainda estou a pensar que nunca te perdi...
Lições em tudo... em tudo... em tudo... até nas brigas
havia água e semente e terra e sol e espigas,
pra nossa fome de entender tudo o que vemos
neste mundo de Deus. As coisas mais antigas
vividas por nós dois mostravam que os extremos
são somas, em nós dois, dos anseios supremos
de socorrer quem tomba ao peso das fadigas.
Era nosso o destino altíssimo de ver,
era nossa a ambição do topo das montanhas,
sabíamos o dia antes de alvorecer...
A tanta luz chegaste, a tanta fé subi,
chegamos a ser bons e a perfeições tamanhas,
que ainda estou a pensar que nunca te perdi...
895
1
Clóvis Moura
Rio Seco
Cemitério de peixes enterrados
no areal ardente e transparente,
pedras que furam os pés dos caminhantes
marcaram a transferência dos sedentos.
Pedaços de memórias marulhantes
ainda chegam à noite nos seus ecos
e roteiros de barcos são fantasmas
na memória de luas macilentas.
Há no sol que caustica as suas curvas
um sádico desdém por suas margens
que hoje se fundem ao leito que era líquido.
As carcaças de tíbias e caveiras
de bois marcam a distância do mistério
e o suor é sua linfa derradeira.
no areal ardente e transparente,
pedras que furam os pés dos caminhantes
marcaram a transferência dos sedentos.
Pedaços de memórias marulhantes
ainda chegam à noite nos seus ecos
e roteiros de barcos são fantasmas
na memória de luas macilentas.
Há no sol que caustica as suas curvas
um sádico desdém por suas margens
que hoje se fundem ao leito que era líquido.
As carcaças de tíbias e caveiras
de bois marcam a distância do mistério
e o suor é sua linfa derradeira.
2 604
1
Clóvis Moura
Rio Seco
Cemitério de peixes enterrados
no areal ardente e transparente,
pedras que furam os pés dos caminhantes
marcaram a transferência dos sedentos.
Pedaços de memórias marulhantes
ainda chegam à noite nos seus ecos
e roteiros de barcos são fantasmas
na memória de luas macilentas.
Há no sol que caustica as suas curvas
um sádico desdém por suas margens
que hoje se fundem ao leito que era líquido.
As carcaças de tíbias e caveiras
de bois marcam a distância do mistério
e o suor é sua linfa derradeira.
no areal ardente e transparente,
pedras que furam os pés dos caminhantes
marcaram a transferência dos sedentos.
Pedaços de memórias marulhantes
ainda chegam à noite nos seus ecos
e roteiros de barcos são fantasmas
na memória de luas macilentas.
Há no sol que caustica as suas curvas
um sádico desdém por suas margens
que hoje se fundem ao leito que era líquido.
As carcaças de tíbias e caveiras
de bois marcam a distância do mistério
e o suor é sua linfa derradeira.
2 604
1
Dante Milano
Terra de Ninguém
A sala recende
A terra molhada,
A caule úmido e raiz apodrecida.
As flores sobre o cadáver
Contraem pétalas enregeladas.
A figura de cera no caixão bordado
Sorri como um cego sorri
Com ar de náusea.
Os convidados expandem uma tristeza festiva.
O defunto recusa
Qualquer comunicação com a humanidade
Que lhe é de todo indiferente agora.
(Ele que morreu "pela Causa" e recebe honras fúnebres.)
Em sua torre de marfim,
Sob o céu absoluto da paisagem devastada,
Reina, altivo. (Há coroas, há bendeiras na sala.)
Passante! descobre-te e não rias,
Respeita a morte e o fedor se sua glória.
A terra molhada,
A caule úmido e raiz apodrecida.
As flores sobre o cadáver
Contraem pétalas enregeladas.
A figura de cera no caixão bordado
Sorri como um cego sorri
Com ar de náusea.
Os convidados expandem uma tristeza festiva.
O defunto recusa
Qualquer comunicação com a humanidade
Que lhe é de todo indiferente agora.
(Ele que morreu "pela Causa" e recebe honras fúnebres.)
Em sua torre de marfim,
Sob o céu absoluto da paisagem devastada,
Reina, altivo. (Há coroas, há bendeiras na sala.)
Passante! descobre-te e não rias,
Respeita a morte e o fedor se sua glória.
1 261
1
Deborah Brennand
Abril
Quem me dera voltar
ao primeiro jardim!
Conduzida por leões
mansos leões em volta
indo e vindo sem as patas
esmagarem as madressilvas.
Depois,
recostada em tronco antigo
da árvore que não existe,
ficar alheia. Esquecida,
até as estrelas surgirem
tal um enxame de abelhas
douradas, picando a sombra.
ao primeiro jardim!
Conduzida por leões
mansos leões em volta
indo e vindo sem as patas
esmagarem as madressilvas.
Depois,
recostada em tronco antigo
da árvore que não existe,
ficar alheia. Esquecida,
até as estrelas surgirem
tal um enxame de abelhas
douradas, picando a sombra.
1 158
1
Castro Alves
O Nadador
E-Lo que ao rio arroja-se.
As vagas bipartiram-se;
Mas rijas contraíram-se
Por sobre o nadador...
Depois sentreabre lúgubre
Um círculo simbólico...
É o riso diabólico
Do pego zombador!
Mas não! Do abismo — indômito
Surge-me um rosto pálido,
Como o Netuno esquálido,
Que amaina a crina ao mar;
Fita o batel longínquo
Na sombra do crepúsculo...
Rasga com férreo músculo
O rio par a par,
Vagas! Dalilas pérfidas!
Moças, que abris um túmulo,
Quando do amor no cúmulo
Fingis nos abraçar!
O nadador intrépido
Vos toca as tetas cérulas...
E após — zombando — as pérolas
Vos quebra do colar.
Vagas! Curvai-vos tímidas!
Abri fileiras pávidas
Às mãos possantes, ávidas
Do nadador audaz!...
Belo, de força olímpica
— Soltos cabelos úmidos —
Braços hercúleos, túmidos...
o rei dos vendavais!
Mas ai! Lá ruge próxima
A correnteza hórrida,
Como da zona tórrida
A boicininga a urrar...
É lá que o rio indômito,
Como o corcel da Ucrânia,
Rincha a saltar de insânia,
Freme e se atira ao mar.
Tremeste? Não! Quimporta-te
Da correnteza o estríduío?
Se ao longe vês teu ídolo,
Ao longe irás também...
Salta à garupa úmida
Deste corcel titânico...
— Novo Mazeppa oceânico —
Além! além! além!...
As vagas bipartiram-se;
Mas rijas contraíram-se
Por sobre o nadador...
Depois sentreabre lúgubre
Um círculo simbólico...
É o riso diabólico
Do pego zombador!
Mas não! Do abismo — indômito
Surge-me um rosto pálido,
Como o Netuno esquálido,
Que amaina a crina ao mar;
Fita o batel longínquo
Na sombra do crepúsculo...
Rasga com férreo músculo
O rio par a par,
Vagas! Dalilas pérfidas!
Moças, que abris um túmulo,
Quando do amor no cúmulo
Fingis nos abraçar!
O nadador intrépido
Vos toca as tetas cérulas...
E após — zombando — as pérolas
Vos quebra do colar.
Vagas! Curvai-vos tímidas!
Abri fileiras pávidas
Às mãos possantes, ávidas
Do nadador audaz!...
Belo, de força olímpica
— Soltos cabelos úmidos —
Braços hercúleos, túmidos...
o rei dos vendavais!
Mas ai! Lá ruge próxima
A correnteza hórrida,
Como da zona tórrida
A boicininga a urrar...
É lá que o rio indômito,
Como o corcel da Ucrânia,
Rincha a saltar de insânia,
Freme e se atira ao mar.
Tremeste? Não! Quimporta-te
Da correnteza o estríduío?
Se ao longe vês teu ídolo,
Ao longe irás também...
Salta à garupa úmida
Deste corcel titânico...
— Novo Mazeppa oceânico —
Além! além! além!...
1 977
1
Castro Alves
O Nadador
E-Lo que ao rio arroja-se.
As vagas bipartiram-se;
Mas rijas contraíram-se
Por sobre o nadador...
Depois sentreabre lúgubre
Um círculo simbólico...
É o riso diabólico
Do pego zombador!
Mas não! Do abismo — indômito
Surge-me um rosto pálido,
Como o Netuno esquálido,
Que amaina a crina ao mar;
Fita o batel longínquo
Na sombra do crepúsculo...
Rasga com férreo músculo
O rio par a par,
Vagas! Dalilas pérfidas!
Moças, que abris um túmulo,
Quando do amor no cúmulo
Fingis nos abraçar!
O nadador intrépido
Vos toca as tetas cérulas...
E após — zombando — as pérolas
Vos quebra do colar.
Vagas! Curvai-vos tímidas!
Abri fileiras pávidas
Às mãos possantes, ávidas
Do nadador audaz!...
Belo, de força olímpica
— Soltos cabelos úmidos —
Braços hercúleos, túmidos...
o rei dos vendavais!
Mas ai! Lá ruge próxima
A correnteza hórrida,
Como da zona tórrida
A boicininga a urrar...
É lá que o rio indômito,
Como o corcel da Ucrânia,
Rincha a saltar de insânia,
Freme e se atira ao mar.
Tremeste? Não! Quimporta-te
Da correnteza o estríduío?
Se ao longe vês teu ídolo,
Ao longe irás também...
Salta à garupa úmida
Deste corcel titânico...
— Novo Mazeppa oceânico —
Além! além! além!...
As vagas bipartiram-se;
Mas rijas contraíram-se
Por sobre o nadador...
Depois sentreabre lúgubre
Um círculo simbólico...
É o riso diabólico
Do pego zombador!
Mas não! Do abismo — indômito
Surge-me um rosto pálido,
Como o Netuno esquálido,
Que amaina a crina ao mar;
Fita o batel longínquo
Na sombra do crepúsculo...
Rasga com férreo músculo
O rio par a par,
Vagas! Dalilas pérfidas!
Moças, que abris um túmulo,
Quando do amor no cúmulo
Fingis nos abraçar!
O nadador intrépido
Vos toca as tetas cérulas...
E após — zombando — as pérolas
Vos quebra do colar.
Vagas! Curvai-vos tímidas!
Abri fileiras pávidas
Às mãos possantes, ávidas
Do nadador audaz!...
Belo, de força olímpica
— Soltos cabelos úmidos —
Braços hercúleos, túmidos...
o rei dos vendavais!
Mas ai! Lá ruge próxima
A correnteza hórrida,
Como da zona tórrida
A boicininga a urrar...
É lá que o rio indômito,
Como o corcel da Ucrânia,
Rincha a saltar de insânia,
Freme e se atira ao mar.
Tremeste? Não! Quimporta-te
Da correnteza o estríduío?
Se ao longe vês teu ídolo,
Ao longe irás também...
Salta à garupa úmida
Deste corcel titânico...
— Novo Mazeppa oceânico —
Além! além! além!...
1 977
1
Bráulio de Abreu
Volta da Pesca
A tarde vai morrendo mansa e boa...
Tudo é recolhimento, nostalgia.
Lá ma torre da Ajuda um sino soa,
Enche o espaço de sons da Ave Maria.
A sombra cai. Um Pássaro não voa.
Vão-se os violáceos tons do fim do dia.
Sobre, singrando o rio, uma canoa:
Volta Manuel Monção da pescaria.
Com seus oitenta esplêndidos janeiros,
Frente à casa da rua dos coqueiros,
Fundeia, apanha o cofo, o remo, a vela
E à noite, após o cafezinho quente,
Fuma e cochila, sossegadamente,
Sentado no sofá, junto à janela.
Tudo é recolhimento, nostalgia.
Lá ma torre da Ajuda um sino soa,
Enche o espaço de sons da Ave Maria.
A sombra cai. Um Pássaro não voa.
Vão-se os violáceos tons do fim do dia.
Sobre, singrando o rio, uma canoa:
Volta Manuel Monção da pescaria.
Com seus oitenta esplêndidos janeiros,
Frente à casa da rua dos coqueiros,
Fundeia, apanha o cofo, o remo, a vela
E à noite, após o cafezinho quente,
Fuma e cochila, sossegadamente,
Sentado no sofá, junto à janela.
820
1
Angela Carneiro
Sem Tempo
Me falta tempo
para ler todos os livros que quero
Me falta tempo para passeios e praias
e as locadoras com seus filmes
Felinis que não vi
e os museus que me esperam
me falta tempo.
Me falta tempo para amar os flertes
e aprofundar as amizades de coquetéis
me falta tempo para arrumar o armário
jogar coisas fora
passar a limpo a caderneta de telefone
redecorar o quarto
Me falta tempo para o orfanato
e ajudar o meu vizinho a pendurar o quadro na parede.
Me falta tempo para aprender japonês
pintar em tecido
tocar piano
tecer meus planos
Me falta tempo para as aquarelas que sonho
preciso anotar meus sonhos
Mas
me falta tempo.
Tempo para os amigos antigos que já me esqueceram
tempo para as músicas e cds
tempo para o estrangeiro, ilhas e cantões a conhecer
Me falta tempo para os poemas que a poesia me exige
e gravar os programas de TV
no entanto,
quantas vezes não tenho nada, absolutamente nada
para fazer.
para ler todos os livros que quero
Me falta tempo para passeios e praias
e as locadoras com seus filmes
Felinis que não vi
e os museus que me esperam
me falta tempo.
Me falta tempo para amar os flertes
e aprofundar as amizades de coquetéis
me falta tempo para arrumar o armário
jogar coisas fora
passar a limpo a caderneta de telefone
redecorar o quarto
Me falta tempo para o orfanato
e ajudar o meu vizinho a pendurar o quadro na parede.
Me falta tempo para aprender japonês
pintar em tecido
tocar piano
tecer meus planos
Me falta tempo para as aquarelas que sonho
preciso anotar meus sonhos
Mas
me falta tempo.
Tempo para os amigos antigos que já me esqueceram
tempo para as músicas e cds
tempo para o estrangeiro, ilhas e cantões a conhecer
Me falta tempo para os poemas que a poesia me exige
e gravar os programas de TV
no entanto,
quantas vezes não tenho nada, absolutamente nada
para fazer.
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Castro Alves
Poesias Colegiais
Ao Natalício do meu Diretor,
o Ilmo. Sr. Dr. Abílio César Borges
I
Grato sempre à mocidade,
Belo dia, hás de raiar;
Sempre ela muito contente
Mil flores te há de ofertar!
Sempre em ti se entregará
Ao prazer com expansão;
Mil cultos render-te-á
Nos altares dafeição.
Pois em ti, sublime dia,
Do alto dos céus baixou
O anjo que à mocidade
Dos rigores libertou.
Baixou este grande homem,
Que tanto anima a instrução,
Estimulando coamor
O infantil coração.
II
Nasceu hoje meu bom Diretor,
Para honra do grande Brasil,
Preparando na infância, que educa,
Para a pátria futuro gentil.
É por isso que o sol orgulhoso
Ergue a fronte soberba e brilhante;
É por isso que as flores exalam
Um perfume mais doce e fragrante.
É por isso que tão cristalinos
Os regatos se alongam ao mar,
E as aves coas cores tão vivas
Brincam — ternas — voando no ar.
E os ventos tão meigos e frescos
Sussurrando as campinas percorrem.
E as abelhas em busca de mel
Às florinhas contentes já correm.
É por isso enfim que tão bela
A natura se ostenta no mundo;
É por isso que a infância já sente
Regozijos do peito no fundo.
III
Eia! cantemos cantemos!...
Com grinaldas coroemos
Neste belo e grande dia
Do natalício de amor
O nosso bom Diretor,
Que tão zeloso nos guia.
Bahia, Ginásio Baiano, 9 de setembro de 1860
o Ilmo. Sr. Dr. Abílio César Borges
I
Grato sempre à mocidade,
Belo dia, hás de raiar;
Sempre ela muito contente
Mil flores te há de ofertar!
Sempre em ti se entregará
Ao prazer com expansão;
Mil cultos render-te-á
Nos altares dafeição.
Pois em ti, sublime dia,
Do alto dos céus baixou
O anjo que à mocidade
Dos rigores libertou.
Baixou este grande homem,
Que tanto anima a instrução,
Estimulando coamor
O infantil coração.
II
Nasceu hoje meu bom Diretor,
Para honra do grande Brasil,
Preparando na infância, que educa,
Para a pátria futuro gentil.
É por isso que o sol orgulhoso
Ergue a fronte soberba e brilhante;
É por isso que as flores exalam
Um perfume mais doce e fragrante.
É por isso que tão cristalinos
Os regatos se alongam ao mar,
E as aves coas cores tão vivas
Brincam — ternas — voando no ar.
E os ventos tão meigos e frescos
Sussurrando as campinas percorrem.
E as abelhas em busca de mel
Às florinhas contentes já correm.
É por isso enfim que tão bela
A natura se ostenta no mundo;
É por isso que a infância já sente
Regozijos do peito no fundo.
III
Eia! cantemos cantemos!...
Com grinaldas coroemos
Neste belo e grande dia
Do natalício de amor
O nosso bom Diretor,
Que tão zeloso nos guia.
Bahia, Ginásio Baiano, 9 de setembro de 1860
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Branquinho da Fonseca
As Viagens
Antes seja afastado do que já alcancei que o seja daquilo para que vou. A posse é um declínio.
Antes um pássaro a voar que dois na mão. Dois pássaros na mão são o que já não falta. Um pássaro a voar: é ir com os olhos a voar com ele; ir sobre os montes, sobre os rios, sobre os mares; dar a volta ao mundo e continuar; é ter um motivo de viver — é não ter chegado ainda.
Antes um pássaro a voar que dois na mão. Dois pássaros na mão são o que já não falta. Um pássaro a voar: é ir com os olhos a voar com ele; ir sobre os montes, sobre os rios, sobre os mares; dar a volta ao mundo e continuar; é ter um motivo de viver — é não ter chegado ainda.
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