Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Marly de Oliveira
Pior que o cão é sua fúria
Pior que o cão é sua fúria,
pior que o gato é sua garra,
pior que a sanha de ferir
a que se esconde
sob feição de amor.
Pior que a vida é a não-vida
do que se faz espectador;
nem mergulha, nem nada, nem conhece
o mar fundo:
está sempre à beira da estrada.
pior que o gato é sua garra,
pior que a sanha de ferir
a que se esconde
sob feição de amor.
Pior que a vida é a não-vida
do que se faz espectador;
nem mergulha, nem nada, nem conhece
o mar fundo:
está sempre à beira da estrada.
1 254
1
Manuel Sérgio
Senhor
Senhor
Quando eu morrer
(De tanto viver)
Coloca-me
Entre os que não
Te conheceram
E Te procuraram
De olhos magoados
Como pedaços da tarde
Entre os náufragos perdidos
Na cerração
Da vida
Coloca-me
Ao lado dos que foram pisados
Como as pedras da rua
E desprezados
No meio de armas e silêncios
E mesmo assim
Junto às margens de um cais
Foram esperando
Com marcas de certezas na alma
Como rastos de pés na areia
Senhor
Eu que abraço
Como quem Te comunga
Que não sei bater
A não ser
Com látegos feitos da luz da lua
Que mantenho os mesmos olhos de criança
Para ver diferente
Senhor
Sou por certo dos Teus
Senhor
Eu que em espaços úmidos
De ternura incorrupta
Beijei seios túmidos
E lábios
Que eram flores vermelhas ofegantes
Que me desfiz em mil acenos
A chamar
Senhor
Sou por certo dos Teus
Mas nem assim hesites um só instante
Em colocar-me
Ao lado dos que não Te conheceram
E Te procuraram
E deixa-me continuar
O mensageiro inquieto
Da Esperança perseguida
Inventada
E por uma grande coragem
Fecundada
Quando eu morrer
(De tanto viver)
Coloca-me
Entre os que não
Te conheceram
E Te procuraram
De olhos magoados
Como pedaços da tarde
Entre os náufragos perdidos
Na cerração
Da vida
Coloca-me
Ao lado dos que foram pisados
Como as pedras da rua
E desprezados
No meio de armas e silêncios
E mesmo assim
Junto às margens de um cais
Foram esperando
Com marcas de certezas na alma
Como rastos de pés na areia
Senhor
Eu que abraço
Como quem Te comunga
Que não sei bater
A não ser
Com látegos feitos da luz da lua
Que mantenho os mesmos olhos de criança
Para ver diferente
Senhor
Sou por certo dos Teus
Senhor
Eu que em espaços úmidos
De ternura incorrupta
Beijei seios túmidos
E lábios
Que eram flores vermelhas ofegantes
Que me desfiz em mil acenos
A chamar
Senhor
Sou por certo dos Teus
Mas nem assim hesites um só instante
Em colocar-me
Ao lado dos que não Te conheceram
E Te procuraram
E deixa-me continuar
O mensageiro inquieto
Da Esperança perseguida
Inventada
E por uma grande coragem
Fecundada
872
1
Mendes de Carvalho
Altifalantes
Altifalam vozes
nos salões e nas praças
nos ouvidos nos tumultos
martelam esmurram gritam palmejam
comunicam urram.
Conferências discursos aspectos e palestras
lições homenagens notas do dia e da semana
et nunc et semper.
Discursos almicos encomendados traduzidos
decorados divertidos ambaquistas.
Palavras datilografadas improvisos ponderados
palavras dinâmicas magnéticas.
Altifalam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.
nos salões e nas praças
nos ouvidos nos tumultos
martelam esmurram gritam palmejam
comunicam urram.
Conferências discursos aspectos e palestras
lições homenagens notas do dia e da semana
et nunc et semper.
Discursos almicos encomendados traduzidos
decorados divertidos ambaquistas.
Palavras datilografadas improvisos ponderados
palavras dinâmicas magnéticas.
Altifalam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.
963
1
Mendes de Carvalho
Altifalantes
Altifalam vozes
nos salões e nas praças
nos ouvidos nos tumultos
martelam esmurram gritam palmejam
comunicam urram.
Conferências discursos aspectos e palestras
lições homenagens notas do dia e da semana
et nunc et semper.
Discursos almicos encomendados traduzidos
decorados divertidos ambaquistas.
Palavras datilografadas improvisos ponderados
palavras dinâmicas magnéticas.
Altifalam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.
nos salões e nas praças
nos ouvidos nos tumultos
martelam esmurram gritam palmejam
comunicam urram.
Conferências discursos aspectos e palestras
lições homenagens notas do dia e da semana
et nunc et semper.
Discursos almicos encomendados traduzidos
decorados divertidos ambaquistas.
Palavras datilografadas improvisos ponderados
palavras dinâmicas magnéticas.
Altifalam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.
963
1
Mario Ribeiro Martins
Despedida
Os anos são passados que chegamos,
no templo do saber, cultura humana.
E no momento em que nos retiramos,
saudosos vamos desta caravana.
Na cidade ou sertão para onde vamos,
morando num palácio ou na choupana,
jamais esqueceremos quem amamos,
na escola do saber, tão soberana.
Depois de conquistarmos a vitória,
no templo do saber, com tanta glória,
é chegado o momento de partir...
E, ficarão aqui eternamente,
em nosso coração, principalmente,
SAUDADES DESTE TRISTE DESPEDIR.
no templo do saber, cultura humana.
E no momento em que nos retiramos,
saudosos vamos desta caravana.
Na cidade ou sertão para onde vamos,
morando num palácio ou na choupana,
jamais esqueceremos quem amamos,
na escola do saber, tão soberana.
Depois de conquistarmos a vitória,
no templo do saber, com tanta glória,
é chegado o momento de partir...
E, ficarão aqui eternamente,
em nosso coração, principalmente,
SAUDADES DESTE TRISTE DESPEDIR.
979
1
Micheliny Verunschk
Rápido Monólogo do Caçador Com Sua Caça
Trago
Pardos
Os olhos
De cobiça
Que atiro
Sobre ti,
Teu verbo/teu sexo:
Tua presa
de
marfim.
Pardos
Os olhos
De cobiça
Que atiro
Sobre ti,
Teu verbo/teu sexo:
Tua presa
de
marfim.
1 259
1
Miguel de Couto Guerreiro
Lisboa Emaraçada, no Século Iluminado
I — Como passa o mau por bom
Faz do diabo o povo um santo;
Ajuda o adulador;
Cala o sábio, por temor
De se opor a povo tanto…
E vai o diabo em andor.
II — Século iluminado
O Século iluminado
Ouço a este chamar.
E ninguém pode negar
Que está bem adiantado
Em mentir e em enganar.
III — Dos sabichões do tempo
Nenhuma razão alcanço
Para andar empanturrada
Esta gente iluminada.
Dizem que os velhos têm ranço…
E eles menos, que têm nada.
IV — Da causa de muitos erros
Tanto néscio! Tanto insano!
Donde vem tal desatino?
Tudo nasce de um engano,
Que é pelo poder humano
Medir o Poder Divino.
( in Antologia de Poetas Alentejanos)
Faz do diabo o povo um santo;
Ajuda o adulador;
Cala o sábio, por temor
De se opor a povo tanto…
E vai o diabo em andor.
II — Século iluminado
O Século iluminado
Ouço a este chamar.
E ninguém pode negar
Que está bem adiantado
Em mentir e em enganar.
III — Dos sabichões do tempo
Nenhuma razão alcanço
Para andar empanturrada
Esta gente iluminada.
Dizem que os velhos têm ranço…
E eles menos, que têm nada.
IV — Da causa de muitos erros
Tanto néscio! Tanto insano!
Donde vem tal desatino?
Tudo nasce de um engano,
Que é pelo poder humano
Medir o Poder Divino.
( in Antologia de Poetas Alentejanos)
911
1
Miguel de Couto Guerreiro
Lisboa Emaraçada, no Século Iluminado
I — Como passa o mau por bom
Faz do diabo o povo um santo;
Ajuda o adulador;
Cala o sábio, por temor
De se opor a povo tanto…
E vai o diabo em andor.
II — Século iluminado
O Século iluminado
Ouço a este chamar.
E ninguém pode negar
Que está bem adiantado
Em mentir e em enganar.
III — Dos sabichões do tempo
Nenhuma razão alcanço
Para andar empanturrada
Esta gente iluminada.
Dizem que os velhos têm ranço…
E eles menos, que têm nada.
IV — Da causa de muitos erros
Tanto néscio! Tanto insano!
Donde vem tal desatino?
Tudo nasce de um engano,
Que é pelo poder humano
Medir o Poder Divino.
( in Antologia de Poetas Alentejanos)
Faz do diabo o povo um santo;
Ajuda o adulador;
Cala o sábio, por temor
De se opor a povo tanto…
E vai o diabo em andor.
II — Século iluminado
O Século iluminado
Ouço a este chamar.
E ninguém pode negar
Que está bem adiantado
Em mentir e em enganar.
III — Dos sabichões do tempo
Nenhuma razão alcanço
Para andar empanturrada
Esta gente iluminada.
Dizem que os velhos têm ranço…
E eles menos, que têm nada.
IV — Da causa de muitos erros
Tanto néscio! Tanto insano!
Donde vem tal desatino?
Tudo nasce de um engano,
Que é pelo poder humano
Medir o Poder Divino.
( in Antologia de Poetas Alentejanos)
911
1
Miguel de Couto Guerreiro
Lisboa Emaraçada, no Século Iluminado
I — Como passa o mau por bom
Faz do diabo o povo um santo;
Ajuda o adulador;
Cala o sábio, por temor
De se opor a povo tanto…
E vai o diabo em andor.
II — Século iluminado
O Século iluminado
Ouço a este chamar.
E ninguém pode negar
Que está bem adiantado
Em mentir e em enganar.
III — Dos sabichões do tempo
Nenhuma razão alcanço
Para andar empanturrada
Esta gente iluminada.
Dizem que os velhos têm ranço…
E eles menos, que têm nada.
IV — Da causa de muitos erros
Tanto néscio! Tanto insano!
Donde vem tal desatino?
Tudo nasce de um engano,
Que é pelo poder humano
Medir o Poder Divino.
( in Antologia de Poetas Alentejanos)
Faz do diabo o povo um santo;
Ajuda o adulador;
Cala o sábio, por temor
De se opor a povo tanto…
E vai o diabo em andor.
II — Século iluminado
O Século iluminado
Ouço a este chamar.
E ninguém pode negar
Que está bem adiantado
Em mentir e em enganar.
III — Dos sabichões do tempo
Nenhuma razão alcanço
Para andar empanturrada
Esta gente iluminada.
Dizem que os velhos têm ranço…
E eles menos, que têm nada.
IV — Da causa de muitos erros
Tanto néscio! Tanto insano!
Donde vem tal desatino?
Tudo nasce de um engano,
Que é pelo poder humano
Medir o Poder Divino.
( in Antologia de Poetas Alentejanos)
911
1
Manuel Geraldo
Memória I
Barco de fumo
Cérebros e ventres
Napalm e capim
Gatilho de arma
Espoleta e granada
Crâneos desfeitos
Vomitar de náuseas
Capim em fogo
Homens e gritos
Estoiros e rajadas
Vómitos de sangue
Alienação de um povo
Barco de fumo
Voltar à terra
Nascer de novo
Cérebros e ventres
Napalm e capim
Gatilho de arma
Espoleta e granada
Crâneos desfeitos
Vomitar de náuseas
Capim em fogo
Homens e gritos
Estoiros e rajadas
Vómitos de sangue
Alienação de um povo
Barco de fumo
Voltar à terra
Nascer de novo
988
1
Maria Rita Kehl
pompéia
Cachorros lâmpadas
pernas das meninas
rua de pedra se precipitando
do alto sobre o mundo incendiado
Avião furando nuvens
galho seco na sarjeta.
pernas das meninas
rua de pedra se precipitando
do alto sobre o mundo incendiado
Avião furando nuvens
galho seco na sarjeta.
1 315
1
Mário Donizete Massari
Dimensão das horas
Dimensão das horas
nos caminhos do homem
fogo nas retinas
paixões, fadiga . . .
"a vida tragada e
consumida em
memoráveis porres
de melancolia . . ."
cinzas na avenida
e o homem caminha
Flutua no ar
qual bêbado no seu
mundo
por que não dizer lindo,
pois qualquer mundo é lindo
quando se é livre e
não lhe cobram por isso.
E a vida se molda
na dimensão das horas
vadias . . .
nos caminhos do homem
fogo nas retinas
paixões, fadiga . . .
"a vida tragada e
consumida em
memoráveis porres
de melancolia . . ."
cinzas na avenida
e o homem caminha
Flutua no ar
qual bêbado no seu
mundo
por que não dizer lindo,
pois qualquer mundo é lindo
quando se é livre e
não lhe cobram por isso.
E a vida se molda
na dimensão das horas
vadias . . .
956
1
Mário Donizete Massari
Canto de um povo
Ontem chorei
lágrimas?
Não. Já não as derramo.
Ontem cantei
e até uma rosa plantei
(poeta que sou)
não floresceu.
Eu tinha em mente
uma canção
que apesar de
não ser algo novo,
falasse do povo.
A canção seria a mesma,
mas o cantor
seria o próprio povo.
Mas as portas fecharam
os lábios calaram
e eu fiquei só
com a canção e
a minha dor.
Eu vi a multidão
Eu vi o amor
diluído em dor.
E a canção
que pensei
calou-se em meu peito
em forma de pranto.
lágrimas?
Não. Já não as derramo.
Ontem cantei
e até uma rosa plantei
(poeta que sou)
não floresceu.
Eu tinha em mente
uma canção
que apesar de
não ser algo novo,
falasse do povo.
A canção seria a mesma,
mas o cantor
seria o próprio povo.
Mas as portas fecharam
os lábios calaram
e eu fiquei só
com a canção e
a minha dor.
Eu vi a multidão
Eu vi o amor
diluído em dor.
E a canção
que pensei
calou-se em meu peito
em forma de pranto.
892
1
Murillo Mendes
Modinha do Empregado de Banco
Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.
Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.
Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.
1 330
1
Murillo Mendes
Modinha do Empregado de Banco
Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.
Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.
Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.
1 330
1
Murillo Mendes
Modinha do Empregado de Banco
Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.
Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.
Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.
1 330
1
Manuel Geraldo
Memória III
Pardas
as noites
Bazucas rasantes
Uivos de medo
Palhotas queimadas
Silêncios vaiados
Rajadas em fúria
Velhos crianças
De corpos varados
as noites
Bazucas rasantes
Uivos de medo
Palhotas queimadas
Silêncios vaiados
Rajadas em fúria
Velhos crianças
De corpos varados
844
1
Manuel Geraldo
Memória V
Numa alucinação
De credos vesgos
Milhares
de entre nós
Fora ceifados
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
De credos vesgos
Milhares
de entre nós
Fora ceifados
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
885
1
Mendes de Carvalho
S Romão
S. Romão é a terra e o mar
T. o vento o luar a noite total e o sol.
Em S. Romão cada um é rei de si mesmo
e lá os reis a valer não têm qualquer realidade
Em S. Romão podemos ficar ao sol
podemos perder-nos dentro da noite
podemos não fazer coisíssima nenhuma
podemos erguer um hino à preguiça
podemos ficar budamente de mãos na barriga
podemos ter poesia que não venha nos livros
podemos ter um cão nosso conhecido
sem nunca nos ter sido apresentado
um cão sem coleira que ladra à lua
livremente cão esquecido do fisco.
O nome deste lugar anfíbio é fictício
para que não o descubram os turistas
que andam sempre com o nariz no ar
e não seja enviado em cartaz para o estrangeiro
e nem sequer o descubra o Manuel Bandeira
que é amigo do rei de Pasárgada
e este não sabe andar sem comitiva
para que nenhum americano vá construir uma pousada
para week-end vinícola.
Em S. Romão não há pintores paisagistas
nem hoteleiros
nem urbanistas.
Em S. Romão ninguém pensa salvar o mundo
o que só acontece às pessoas perdidas de todo
e aos escritores neorealísticamente locais
que conhecem todas as misérias por fora.
S. Romão não é porto de abrigo
Desde já aviso à navegação.
Não há faroleiro os rochedos são perigosos
o mar sem distância é aventura
promessa de peixe
certeza de fome.
T. o vento o luar a noite total e o sol.
Em S. Romão cada um é rei de si mesmo
e lá os reis a valer não têm qualquer realidade
Em S. Romão podemos ficar ao sol
podemos perder-nos dentro da noite
podemos não fazer coisíssima nenhuma
podemos erguer um hino à preguiça
podemos ficar budamente de mãos na barriga
podemos ter poesia que não venha nos livros
podemos ter um cão nosso conhecido
sem nunca nos ter sido apresentado
um cão sem coleira que ladra à lua
livremente cão esquecido do fisco.
O nome deste lugar anfíbio é fictício
para que não o descubram os turistas
que andam sempre com o nariz no ar
e não seja enviado em cartaz para o estrangeiro
e nem sequer o descubra o Manuel Bandeira
que é amigo do rei de Pasárgada
e este não sabe andar sem comitiva
para que nenhum americano vá construir uma pousada
para week-end vinícola.
Em S. Romão não há pintores paisagistas
nem hoteleiros
nem urbanistas.
Em S. Romão ninguém pensa salvar o mundo
o que só acontece às pessoas perdidas de todo
e aos escritores neorealísticamente locais
que conhecem todas as misérias por fora.
S. Romão não é porto de abrigo
Desde já aviso à navegação.
Não há faroleiro os rochedos são perigosos
o mar sem distância é aventura
promessa de peixe
certeza de fome.
969
1
Mendes de Carvalho
S Romão
S. Romão é a terra e o mar
T. o vento o luar a noite total e o sol.
Em S. Romão cada um é rei de si mesmo
e lá os reis a valer não têm qualquer realidade
Em S. Romão podemos ficar ao sol
podemos perder-nos dentro da noite
podemos não fazer coisíssima nenhuma
podemos erguer um hino à preguiça
podemos ficar budamente de mãos na barriga
podemos ter poesia que não venha nos livros
podemos ter um cão nosso conhecido
sem nunca nos ter sido apresentado
um cão sem coleira que ladra à lua
livremente cão esquecido do fisco.
O nome deste lugar anfíbio é fictício
para que não o descubram os turistas
que andam sempre com o nariz no ar
e não seja enviado em cartaz para o estrangeiro
e nem sequer o descubra o Manuel Bandeira
que é amigo do rei de Pasárgada
e este não sabe andar sem comitiva
para que nenhum americano vá construir uma pousada
para week-end vinícola.
Em S. Romão não há pintores paisagistas
nem hoteleiros
nem urbanistas.
Em S. Romão ninguém pensa salvar o mundo
o que só acontece às pessoas perdidas de todo
e aos escritores neorealísticamente locais
que conhecem todas as misérias por fora.
S. Romão não é porto de abrigo
Desde já aviso à navegação.
Não há faroleiro os rochedos são perigosos
o mar sem distância é aventura
promessa de peixe
certeza de fome.
T. o vento o luar a noite total e o sol.
Em S. Romão cada um é rei de si mesmo
e lá os reis a valer não têm qualquer realidade
Em S. Romão podemos ficar ao sol
podemos perder-nos dentro da noite
podemos não fazer coisíssima nenhuma
podemos erguer um hino à preguiça
podemos ficar budamente de mãos na barriga
podemos ter poesia que não venha nos livros
podemos ter um cão nosso conhecido
sem nunca nos ter sido apresentado
um cão sem coleira que ladra à lua
livremente cão esquecido do fisco.
O nome deste lugar anfíbio é fictício
para que não o descubram os turistas
que andam sempre com o nariz no ar
e não seja enviado em cartaz para o estrangeiro
e nem sequer o descubra o Manuel Bandeira
que é amigo do rei de Pasárgada
e este não sabe andar sem comitiva
para que nenhum americano vá construir uma pousada
para week-end vinícola.
Em S. Romão não há pintores paisagistas
nem hoteleiros
nem urbanistas.
Em S. Romão ninguém pensa salvar o mundo
o que só acontece às pessoas perdidas de todo
e aos escritores neorealísticamente locais
que conhecem todas as misérias por fora.
S. Romão não é porto de abrigo
Desde já aviso à navegação.
Não há faroleiro os rochedos são perigosos
o mar sem distância é aventura
promessa de peixe
certeza de fome.
969
1
Manuel Geraldo
Memória IV
No chão
Pelo capim
Punhais afiados
Balas granadas
Surdos marchámos
Por matas
E picadas
Cedo chegámos
Gentios metralhámos
Pelo capim
Punhais afiados
Balas granadas
Surdos marchámos
Por matas
E picadas
Cedo chegámos
Gentios metralhámos
891
1
Augusto Meyer
Canção do Negrinho do Pastoreio
Negrinho do Pastoreiro,
Venho acender a velinha
que palpita em teu louvor.
A luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.
A luz da vela me mostre
onde está Nosso Senhor.
Eu quero ver outra luz
clarão santo, clarão grande
como a verdade e o caminho
na falação de Jesus.
Negrinho do Pastoreiro
diz que Você acha tudo
se a gente acender um lume
de velinha em seu louvor.
Vou levando esta luzinha
treme, treme, protegida
contra o vento, contra a noite. . .
É uma esperança queimando
na palma da minha mão.
Que não se apague este lume!
Há sempre um novo clarão.
Quem espera acha o caminho
pela voz do coração.
Eu quero achar-me, Negrinho!
(Diz que Você acha tudo).
Ando tão longe, perdido...
Eu quero achar-me, Negrinho:
a luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.
Negrinho, Você que achou
pela mão da sua Madrinha
os trinta tordilhos negros
e varou a noite toda
de vela acesa na mão,
(piava a coruja rouca
no arrepio da escuridão,
manhãzinha, a estrela dalva
na luz do galo cantava,
mas quando a vela pingava,
cada pingo era um clarão).
Negrinho, Você que achou,
me leve à estrada batida
que vai dar no coração.
(Ah! os caminhos da vida
ninguém sabe onde é que estão!)
Negrinho, Você que foi
amarrado num palanque,
rebenqueado a sangue
pelo rebenque do seu patrão,
e depois foi enterrado
na cova de um formigueiro
pra ser comido inteirinho
sem a luz da extrema-unção,
se levantou saradinho,
se levantou inteirinho.
Seu riso ficou mais branco
de enxergar Nossa Senhora
com seu Filho pela mão.
Negrinho santo, Negrinho,
Negrinho do Pastoreio,
Você me ensine o caminho,
pra chegar à devoção,
pra sangrar na cruz bendita
pelo cravos da Paixão.
Negrinho santo, Negrinho,
Quero aprender a não ser!
Quero ser como a semente
Na falação de Jesus,
semente que só vivia
e dava fruto enterrada,
apodrecendo no chão.
Venho acender a velinha
que palpita em teu louvor.
A luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.
A luz da vela me mostre
onde está Nosso Senhor.
Eu quero ver outra luz
clarão santo, clarão grande
como a verdade e o caminho
na falação de Jesus.
Negrinho do Pastoreiro
diz que Você acha tudo
se a gente acender um lume
de velinha em seu louvor.
Vou levando esta luzinha
treme, treme, protegida
contra o vento, contra a noite. . .
É uma esperança queimando
na palma da minha mão.
Que não se apague este lume!
Há sempre um novo clarão.
Quem espera acha o caminho
pela voz do coração.
Eu quero achar-me, Negrinho!
(Diz que Você acha tudo).
Ando tão longe, perdido...
Eu quero achar-me, Negrinho:
a luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.
Negrinho, Você que achou
pela mão da sua Madrinha
os trinta tordilhos negros
e varou a noite toda
de vela acesa na mão,
(piava a coruja rouca
no arrepio da escuridão,
manhãzinha, a estrela dalva
na luz do galo cantava,
mas quando a vela pingava,
cada pingo era um clarão).
Negrinho, Você que achou,
me leve à estrada batida
que vai dar no coração.
(Ah! os caminhos da vida
ninguém sabe onde é que estão!)
Negrinho, Você que foi
amarrado num palanque,
rebenqueado a sangue
pelo rebenque do seu patrão,
e depois foi enterrado
na cova de um formigueiro
pra ser comido inteirinho
sem a luz da extrema-unção,
se levantou saradinho,
se levantou inteirinho.
Seu riso ficou mais branco
de enxergar Nossa Senhora
com seu Filho pela mão.
Negrinho santo, Negrinho,
Negrinho do Pastoreio,
Você me ensine o caminho,
pra chegar à devoção,
pra sangrar na cruz bendita
pelo cravos da Paixão.
Negrinho santo, Negrinho,
Quero aprender a não ser!
Quero ser como a semente
Na falação de Jesus,
semente que só vivia
e dava fruto enterrada,
apodrecendo no chão.
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Manuel Geraldo
Memória II
E à tarde
Os soldados voltavam
Traziam feridas
E balas a menos
Traziam memórias
De sonhos traídos
Traziam fadigas
De corpos caídos
Nos sacos e rostos
Traziam o regresso
Traziam memórias
Soldados sem armas
Voltavam em transe
Não eram os mesmos
Os soldados voltavam
Traziam feridas
E balas a menos
Traziam memórias
De sonhos traídos
Traziam fadigas
De corpos caídos
Nos sacos e rostos
Traziam o regresso
Traziam memórias
Soldados sem armas
Voltavam em transe
Não eram os mesmos
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Luís Veiga Leitão
Corredor
Cem metros à sombra — temperatura
de tantos corpos e almas em rodagem.
Neste muro cercado, a maior viagem
sob um céu de pedra escura.
Sombras em fila, espectros talvez,
desplantam ecos da raiz do chão.
Lembram comboios que vêm e vão
sob túneis de pez.
E vêm e vão com pés humanos
ressoando movimentos tardos,
levando fardos, trazendo fardos
das horas sem dias e meses sem anos.
E vêm e vão, sempre, sempre a rodar
na linha dos railes espectrais,
sem descarregadores na gare,
sem guindastes no cais.
E vêm e vão pela via larga
das redes do sonho e da lembrança,
levando a carga, trazendo a carga
de toneladas de esperança.
de tantos corpos e almas em rodagem.
Neste muro cercado, a maior viagem
sob um céu de pedra escura.
Sombras em fila, espectros talvez,
desplantam ecos da raiz do chão.
Lembram comboios que vêm e vão
sob túneis de pez.
E vêm e vão com pés humanos
ressoando movimentos tardos,
levando fardos, trazendo fardos
das horas sem dias e meses sem anos.
E vêm e vão, sempre, sempre a rodar
na linha dos railes espectrais,
sem descarregadores na gare,
sem guindastes no cais.
E vêm e vão pela via larga
das redes do sonho e da lembrança,
levando a carga, trazendo a carga
de toneladas de esperança.
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