Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Renato Rezende
A Perna
Numa esquina perto da minha casa
vive uma mendiga
de perna amputada.
Tenho vontade de beijar
a perna que falta.
Acariciar
aquele pedaço de nada.
A mão dela está queimada
e parece que foi costurada
de volta ao braço.
Com essa mão ela pede esmola.
Hoje passei por lá
e vi que a perna dela
(a outra)
estava bronzeada.
Ela é loira, ela é moça, é a flor
da perna amputada.
Me deu vontade
de entrar em seu corpo
(fragmentado)
a meio metro da calçada.
Entrar em seu corpo e ser ela,
ser a perna que falta.
Ser a falta da perna dela.
Tive vontade de amar
e ser nada.
São Paulo, 6 de agosto 1992
vive uma mendiga
de perna amputada.
Tenho vontade de beijar
a perna que falta.
Acariciar
aquele pedaço de nada.
A mão dela está queimada
e parece que foi costurada
de volta ao braço.
Com essa mão ela pede esmola.
Hoje passei por lá
e vi que a perna dela
(a outra)
estava bronzeada.
Ela é loira, ela é moça, é a flor
da perna amputada.
Me deu vontade
de entrar em seu corpo
(fragmentado)
a meio metro da calçada.
Entrar em seu corpo e ser ela,
ser a perna que falta.
Ser a falta da perna dela.
Tive vontade de amar
e ser nada.
São Paulo, 6 de agosto 1992
1 093
Luci Collin
READILHO
isto que é uma coisa obsoleta
o conteúdo não salvo
a alvura do tempo presente
isto diacrônico e de origem obscura
envelhecido aos doze anos
aos treze sangrando
a voz mais oca nas conversações de inocência
uma fruta incluindo meus braços
incluindo as falhas que manifesto
isto que é alagadiço e eufórico
nesta nova temporada
as palavras repousam sobre os cílios
quem vem são camaleões e votos fuscos
estes homens grandes têm passos que valem
ouros
isto é a cidade da tela que é apenas luzes e umidades
é combinação de suspiros amarfanhados
numa grande angular o tabuleiro vira a pista molhada
acusações e controvérsias não cabem
num copo
os que querem por primeiro
são os favoritos da tia rose
mas suas músicas desapareceram das jukeboxes
e os dias líquidos e enfileirados não param de rir
os remendos lutam com suas vozes de banheiro
como é possível conspirar contra o concreto
as pontes têm esta precisão encomendada
as emancipadas linhas e o subir escadarias
este chacoalhar do metrô e esta guerra
são o último gole
já em si
o conteúdo não salvo
a alvura do tempo presente
isto diacrônico e de origem obscura
envelhecido aos doze anos
aos treze sangrando
a voz mais oca nas conversações de inocência
uma fruta incluindo meus braços
incluindo as falhas que manifesto
isto que é alagadiço e eufórico
nesta nova temporada
as palavras repousam sobre os cílios
quem vem são camaleões e votos fuscos
estes homens grandes têm passos que valem
ouros
isto é a cidade da tela que é apenas luzes e umidades
é combinação de suspiros amarfanhados
numa grande angular o tabuleiro vira a pista molhada
acusações e controvérsias não cabem
num copo
os que querem por primeiro
são os favoritos da tia rose
mas suas músicas desapareceram das jukeboxes
e os dias líquidos e enfileirados não param de rir
os remendos lutam com suas vozes de banheiro
como é possível conspirar contra o concreto
as pontes têm esta precisão encomendada
as emancipadas linhas e o subir escadarias
este chacoalhar do metrô e esta guerra
são o último gole
já em si
593
Reynaldo Jardim
O que se odeia no índio
O que se odeia no índio
não é apenas o ocupado espaço.
O que se odeia no índio
é o puro animal que nele habita,
é a sua cor em bronze arquitetada.
A precisão com que a flecha voa
e abate a caça; o gesto largo
com que abraça o rio; o gosto de
afagar as penas e tecer o cocar;
O que se odeia no índio
é o andar sem ruído; a presteza
segura de cada movimento; a eugenia
nítida do corpo erguido
contra a luz do sol.
O que se odeia no índio é o sol.
A árvore se odeia no índio.
O rio se odeia no índio.
O corpo a corpo com a vida
se odeia no índio.
O que se odeia no índio
é a permanência da infância.
E a liberdade aberta
se odeia no índio.
não é apenas o ocupado espaço.
O que se odeia no índio
é o puro animal que nele habita,
é a sua cor em bronze arquitetada.
A precisão com que a flecha voa
e abate a caça; o gesto largo
com que abraça o rio; o gosto de
afagar as penas e tecer o cocar;
O que se odeia no índio
é o andar sem ruído; a presteza
segura de cada movimento; a eugenia
nítida do corpo erguido
contra a luz do sol.
O que se odeia no índio é o sol.
A árvore se odeia no índio.
O rio se odeia no índio.
O corpo a corpo com a vida
se odeia no índio.
O que se odeia no índio
é a permanência da infância.
E a liberdade aberta
se odeia no índio.
1 022
Reynaldo Jardim
O que se odeia no índio
O que se odeia no índio
não é apenas o ocupado espaço.
O que se odeia no índio
é o puro animal que nele habita,
é a sua cor em bronze arquitetada.
A precisão com que a flecha voa
e abate a caça; o gesto largo
com que abraça o rio; o gosto de
afagar as penas e tecer o cocar;
O que se odeia no índio
é o andar sem ruído; a presteza
segura de cada movimento; a eugenia
nítida do corpo erguido
contra a luz do sol.
O que se odeia no índio é o sol.
A árvore se odeia no índio.
O rio se odeia no índio.
O corpo a corpo com a vida
se odeia no índio.
O que se odeia no índio
é a permanência da infância.
E a liberdade aberta
se odeia no índio.
não é apenas o ocupado espaço.
O que se odeia no índio
é o puro animal que nele habita,
é a sua cor em bronze arquitetada.
A precisão com que a flecha voa
e abate a caça; o gesto largo
com que abraça o rio; o gosto de
afagar as penas e tecer o cocar;
O que se odeia no índio
é o andar sem ruído; a presteza
segura de cada movimento; a eugenia
nítida do corpo erguido
contra a luz do sol.
O que se odeia no índio é o sol.
A árvore se odeia no índio.
O rio se odeia no índio.
O corpo a corpo com a vida
se odeia no índio.
O que se odeia no índio
é a permanência da infância.
E a liberdade aberta
se odeia no índio.
1 022
Reynaldo Jardim
O bom cabrito não berra
- O bom cabrito não berra,
o bom malandro não estrila,
o bom aluno não erra,
o bom humor desopila,
o bom cantador não teme
nem o Martinho da Vila.
- O bom cabrito não berra
porque não tem berrador.
O bom malandro não estila
porque sabe que o amor
consegue tudo o que quer,
cachaça, pão e mulher
na medida, peso e cor.
- O bom aluno não erra
e errando é que se aprende.
O erro de não errar
é que nunca se compreende
os erros de quem acerta
comprando o que não se vende,
vendendo que não se compra,
apagando o que se acende,
acendendo o que se apaga
sem nunca dizer: depende.
- O bom humor desopila
se for melhor, faz pensar
porque mantém chama viva
a verdade popular.
Coelho, Pato ou Galinha
humorista de verdade
nunca se há de chamar.
O melhor humor responde
Pelo nome de Jaguar.*
- O bom cantador não teme
porque se temer não canta.
E se cantar desafina
o som preso na garganta.
E o povo logo atina
com o medo do cantador
que em vez de cantar a vida
canta sua própria dor.
- Se o bom cabrito não berra
de berrar eu sou capaz.
Se o bom malandro não estrila
passo o malandro pra trás.
Se o bom aluno não erra
eu não erro muito mais.
Se o bom cantador não teme
de temer eu sou capaz.
o bom malandro não estrila,
o bom aluno não erra,
o bom humor desopila,
o bom cantador não teme
nem o Martinho da Vila.
- O bom cabrito não berra
porque não tem berrador.
O bom malandro não estila
porque sabe que o amor
consegue tudo o que quer,
cachaça, pão e mulher
na medida, peso e cor.
- O bom aluno não erra
e errando é que se aprende.
O erro de não errar
é que nunca se compreende
os erros de quem acerta
comprando o que não se vende,
vendendo que não se compra,
apagando o que se acende,
acendendo o que se apaga
sem nunca dizer: depende.
- O bom humor desopila
se for melhor, faz pensar
porque mantém chama viva
a verdade popular.
Coelho, Pato ou Galinha
humorista de verdade
nunca se há de chamar.
O melhor humor responde
Pelo nome de Jaguar.*
- O bom cantador não teme
porque se temer não canta.
E se cantar desafina
o som preso na garganta.
E o povo logo atina
com o medo do cantador
que em vez de cantar a vida
canta sua própria dor.
- Se o bom cabrito não berra
de berrar eu sou capaz.
Se o bom malandro não estrila
passo o malandro pra trás.
Se o bom aluno não erra
eu não erro muito mais.
Se o bom cantador não teme
de temer eu sou capaz.
796
Reynaldo Jardim
Não somos um
Não lhe direi o impossível,
a verdade alastrou-me:
o seu valor equivale
à densidade dos outros.
Não somos um. Que outrora
éramos um, ou pensamos
sermos eu, você, o outro,
três elementos distintos.
Cada movimento teu
altera, sem restrição,
o passo próximo dado
pelo seu pai ou amigo.
A função é coligada,
contínua, una, solúvel,
se arrebentarmos todos,
você se dissolverá.
Calarei o impossível
a multidão alastrou-me.
O meu valor equivale
à conjunta redenção.
a verdade alastrou-me:
o seu valor equivale
à densidade dos outros.
Não somos um. Que outrora
éramos um, ou pensamos
sermos eu, você, o outro,
três elementos distintos.
Cada movimento teu
altera, sem restrição,
o passo próximo dado
pelo seu pai ou amigo.
A função é coligada,
contínua, una, solúvel,
se arrebentarmos todos,
você se dissolverá.
Calarei o impossível
a multidão alastrou-me.
O meu valor equivale
à conjunta redenção.
720
Ricardo Aleixo
NUMA FESTA
Creio ter ouvido certo.
Alguém do grupo junto
à janela pronunciou,
enquanto eu observava,
apenas por fastio,
o deslizar de um peixe
amarelo no aquário, sozinho,
a palavra sodomita.
Nunca a ouvira antes.
Pareceu-me grave — naquele
lugar,
naquele instante e nos dias
seguintes —,
bíblica.
Alguém do grupo junto
à janela pronunciou,
enquanto eu observava,
apenas por fastio,
o deslizar de um peixe
amarelo no aquário, sozinho,
a palavra sodomita.
Nunca a ouvira antes.
Pareceu-me grave — naquele
lugar,
naquele instante e nos dias
seguintes —,
bíblica.
592
Reynaldo Jardim
Desamores
Quero me despojar
de tudo o que não tenho.
Limpar meus horizontes
de artes e de engenho.
Quero me desfazer
de tudo o que não tive.
A certeza certeira
de quem viveu não vive.
Quero me entristecer
de alegria e calma.
Olhar no espelho e ver
a cara de minha alma.
E quero dessofrer
o que nunca sofri.
O gosto do prazer:
sumo de sapoti.
de tudo o que não tenho.
Limpar meus horizontes
de artes e de engenho.
Quero me desfazer
de tudo o que não tive.
A certeza certeira
de quem viveu não vive.
Quero me entristecer
de alegria e calma.
Olhar no espelho e ver
a cara de minha alma.
E quero dessofrer
o que nunca sofri.
O gosto do prazer:
sumo de sapoti.
631
Ricardo Aleixo
Misturam-se ao rumor do mar
Misturam-se ao rumor do mar,
mas são e serão sempre o que são:
ecos de tentativas de conversa
em línguas estranhas entre elas,
dentro dos tumbeiros, a caminho
de novos sucessivos desastres.
Como ouvi-las sem tentar inter-
pretá-las, dada a total impossibi-
lidade de ignorar suas cadências,
suas inflexões, o granulado dos
seus timbres, seu quê de coisa e de
água fluindo em meio a água e mais
água e um nunca se acabar de água?
mas são e serão sempre o que são:
ecos de tentativas de conversa
em línguas estranhas entre elas,
dentro dos tumbeiros, a caminho
de novos sucessivos desastres.
Como ouvi-las sem tentar inter-
pretá-las, dada a total impossibi-
lidade de ignorar suas cadências,
suas inflexões, o granulado dos
seus timbres, seu quê de coisa e de
água fluindo em meio a água e mais
água e um nunca se acabar de água?
704
Ricardo Aleixo
NANÃ
Mãe sem marido,
avó do universo.
Senhora da alvura.
Nanã, a de rosto
sempre coberto.
Ó poderosa
dona dos cauris,
filha do grande pássaro Atioró.
Água.
Lama.
Morte.
Mãe do segredo
do mundo.
O úmido.
O que flui.
Água.
Lama.
Filhos.
Teus gestos
lentos
no fundo
da água escura.
avó do universo.
Senhora da alvura.
Nanã, a de rosto
sempre coberto.
Ó poderosa
dona dos cauris,
filha do grande pássaro Atioró.
Água.
Lama.
Morte.
Mãe do segredo
do mundo.
O úmido.
O que flui.
Água.
Lama.
Filhos.
Teus gestos
lentos
no fundo
da água escura.
828
Ricardo Aleixo
Alheio
escolho ouvir,
sei muito bem que o risco não é pequeno, meio
adormecido no banco do
ônibus, a não ser que ela voltasse a cabeça, não
pensamos palavras,
mas a cada novo
ângulo descortinado, sempre a ponto
de cair, é
quando o sujeito retorna, escolho
não falar, não
considero prudente
falar, ela insiste,
a imagem fixa na retina,
rastros na areia, chega
um momento em que já não se pode
recuar, um garoto sonha e ri muito
alto, guardar sigilo,
uma página em branco,
o pensamento um corte,
animais de corpos cilíndricos,
imaginar o que há
dentro de uma árvore,
escolho olhar o fogo, ainda ontem, o todo inacabado,
dois seixos na beira do lago, falava alheio,
uma sequência de desvios, ouvia sem entender,
estou só, aqui, escrito
sei muito bem que o risco não é pequeno, meio
adormecido no banco do
ônibus, a não ser que ela voltasse a cabeça, não
pensamos palavras,
mas a cada novo
ângulo descortinado, sempre a ponto
de cair, é
quando o sujeito retorna, escolho
não falar, não
considero prudente
falar, ela insiste,
a imagem fixa na retina,
rastros na areia, chega
um momento em que já não se pode
recuar, um garoto sonha e ri muito
alto, guardar sigilo,
uma página em branco,
o pensamento um corte,
animais de corpos cilíndricos,
imaginar o que há
dentro de uma árvore,
escolho olhar o fogo, ainda ontem, o todo inacabado,
dois seixos na beira do lago, falava alheio,
uma sequência de desvios, ouvia sem entender,
estou só, aqui, escrito
761
Reynaldo Jardim
A coisa útil
Um fruto (ou mesmo o pão)
é útil à proporção que alimenta.
A couve-flor (ou mesmo o ar)
é bela porque germina.
Assim o trigo e o canavial,
o café e o porto,
a mulher e o tempo.
Sementes de gordos horizontes.
Comei deste poema
um gomo ou a laranja integral.
O pó não alimenta,
mas na terra o pasto viceja.
No pensamento vazio nada vive,
mas onde houver substância,
ali o alimento existe.
Mastigai o poema,
com casca, polpa, germens, ácidos.
Os resíduos seguirão o doloroso fim.
A seiva enriquecerá teu plasma sanguíneo:
em ferro e iodo,
em sol e tempo
e horizontes palpáveis.
Uma fruta (ou mesmo a harmonia),
o agrião, as greves e as alfaces,
- palavras indigestas à poesia…
No entanto, o nutritivo poema se fermenta
e sobre cidades, soldado, fábrica, menino,
explica a anemia,
nutre a revolução.
é útil à proporção que alimenta.
A couve-flor (ou mesmo o ar)
é bela porque germina.
Assim o trigo e o canavial,
o café e o porto,
a mulher e o tempo.
Sementes de gordos horizontes.
Comei deste poema
um gomo ou a laranja integral.
O pó não alimenta,
mas na terra o pasto viceja.
No pensamento vazio nada vive,
mas onde houver substância,
ali o alimento existe.
Mastigai o poema,
com casca, polpa, germens, ácidos.
Os resíduos seguirão o doloroso fim.
A seiva enriquecerá teu plasma sanguíneo:
em ferro e iodo,
em sol e tempo
e horizontes palpáveis.
Uma fruta (ou mesmo a harmonia),
o agrião, as greves e as alfaces,
- palavras indigestas à poesia…
No entanto, o nutritivo poema se fermenta
e sobre cidades, soldado, fábrica, menino,
explica a anemia,
nutre a revolução.
748
Reynaldo Jardim
A coisa útil
Um fruto (ou mesmo o pão)
é útil à proporção que alimenta.
A couve-flor (ou mesmo o ar)
é bela porque germina.
Assim o trigo e o canavial,
o café e o porto,
a mulher e o tempo.
Sementes de gordos horizontes.
Comei deste poema
um gomo ou a laranja integral.
O pó não alimenta,
mas na terra o pasto viceja.
No pensamento vazio nada vive,
mas onde houver substância,
ali o alimento existe.
Mastigai o poema,
com casca, polpa, germens, ácidos.
Os resíduos seguirão o doloroso fim.
A seiva enriquecerá teu plasma sanguíneo:
em ferro e iodo,
em sol e tempo
e horizontes palpáveis.
Uma fruta (ou mesmo a harmonia),
o agrião, as greves e as alfaces,
- palavras indigestas à poesia…
No entanto, o nutritivo poema se fermenta
e sobre cidades, soldado, fábrica, menino,
explica a anemia,
nutre a revolução.
é útil à proporção que alimenta.
A couve-flor (ou mesmo o ar)
é bela porque germina.
Assim o trigo e o canavial,
o café e o porto,
a mulher e o tempo.
Sementes de gordos horizontes.
Comei deste poema
um gomo ou a laranja integral.
O pó não alimenta,
mas na terra o pasto viceja.
No pensamento vazio nada vive,
mas onde houver substância,
ali o alimento existe.
Mastigai o poema,
com casca, polpa, germens, ácidos.
Os resíduos seguirão o doloroso fim.
A seiva enriquecerá teu plasma sanguíneo:
em ferro e iodo,
em sol e tempo
e horizontes palpáveis.
Uma fruta (ou mesmo a harmonia),
o agrião, as greves e as alfaces,
- palavras indigestas à poesia…
No entanto, o nutritivo poema se fermenta
e sobre cidades, soldado, fábrica, menino,
explica a anemia,
nutre a revolução.
748
Ricardo Aleixo
Estrondo para Maria Esther Maciel
Naquele entrecho
mais lento dos
dias, aqui, onde,
não importa o
modo como os pés
pisem as folhas
ao caminhar, o
barulho quebradiço
da sombra deles
(espraiada entre
a calçada e as
pedras-escombros
da casa) bem poderia,
se ouvido por
uma detalhista
como você, ser
chamado de troar,
estouro, estrondo.
mais lento dos
dias, aqui, onde,
não importa o
modo como os pés
pisem as folhas
ao caminhar, o
barulho quebradiço
da sombra deles
(espraiada entre
a calçada e as
pedras-escombros
da casa) bem poderia,
se ouvido por
uma detalhista
como você, ser
chamado de troar,
estouro, estrondo.
680
Ricardo Aleixo
RAINHA ONÇA
Sou Elza.
Sou onça.
Canto
sem pedir
licença.
Sou onça.
Sou Elza.
Eu onço
desde
nascença.
Sou onça.
Canto
sem pedir
licença.
Sou onça.
Sou Elza.
Eu onço
desde
nascença.
783
Ricardo Aleixo
Labirinto
Conheço a cidade
como a sola do meu pé.
Espírito e corpo prontos
para evitar
outros humanos polícias
carros ônibus buracos
e dejetos na calçada,
incorporo hoje o Sombra amanhã
o Homem In
visível sexta à noite
o perigoso Ninguém
e sigo.
Como os cegos
conheço o labirinto
por pisá-lo
por tê-lo
de cor na ponta dos pés
à maneira também do que
fazem uns poucos
com a bola
num futebol descalço
qualquer. Conheço a
cidade toda (a
mínima dobra retas cada borda
curvas) e nela – à
custa de me
perder – me
reconheço.
como a sola do meu pé.
Espírito e corpo prontos
para evitar
outros humanos polícias
carros ônibus buracos
e dejetos na calçada,
incorporo hoje o Sombra amanhã
o Homem In
visível sexta à noite
o perigoso Ninguém
e sigo.
Como os cegos
conheço o labirinto
por pisá-lo
por tê-lo
de cor na ponta dos pés
à maneira também do que
fazem uns poucos
com a bola
num futebol descalço
qualquer. Conheço a
cidade toda (a
mínima dobra retas cada borda
curvas) e nela – à
custa de me
perder – me
reconheço.
986
Reynaldo Jardim
Receituário
De que fel preparava
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
720
Ricardo Aleixo
UMA ALEGRIA
jamais minas gerais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
662
Ricardo Aleixo
UMA ALEGRIA
jamais minas gerais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
662
Ricardo Aleixo
UMA ALEGRIA
jamais minas gerais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
662
Ricardo Aleixo
CINE-OLHO
Um
menino
não.
Era
mais
um
felino,
um
Exu
afelinado
chispando
entre
os
carros
um
ponto
riscado
a
laser
na
noite
de
rua
cheia
para
os
lados
do
Mercado.
menino
não.
Era
mais
um
felino,
um
Exu
afelinado
chispando
entre
os
carros
um
ponto
riscado
a
laser
na
noite
de
rua
cheia
para
os
lados
do
Mercado.
789
Ricardo Aleixo
Paupéria revisitada
Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
846
Ricardo Aleixo
Paupéria revisitada
Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
846
Ricardo Aleixo
Paupéria revisitada
Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
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