Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Cida Pedrosa
a mulher virou homem
: a mulher virou homem o trabalho
e a desigualdade por baixo da saia: trouxa
na cabeça camisa cáqui de mangas compridas
chapéu de palha quartinha de cabaça e só
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
e a desigualdade por baixo da saia: trouxa
na cabeça camisa cáqui de mangas compridas
chapéu de palha quartinha de cabaça e só
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
820
Cida Pedrosa
a mulher virou homem
: a mulher virou homem o trabalho
e a desigualdade por baixo da saia: trouxa
na cabeça camisa cáqui de mangas compridas
chapéu de palha quartinha de cabaça e só
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
e a desigualdade por baixo da saia: trouxa
na cabeça camisa cáqui de mangas compridas
chapéu de palha quartinha de cabaça e só
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
820
Horácio Costa
Cuneiforme
Continuo “imerso em mim e
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).
Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.
Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).
Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.
Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
612
Marco Lucchesi
Vestígios de mar
Vestígios de mar
na cerração do hospital
vejo as costas de Benin e
Moçambique
sou um navio
desapossado
preso a liames
e cordoalhas
içam
da garganta
a âncora
que baixaram de madrugada
a voz
do médico
ao longe
você sabe
onde está?
claro que sim
estou
em mar português
e o Patriarca de Lisboa
manda lembranças
ao Samorim
para Marcos Mendonça
na cerração do hospital
vejo as costas de Benin e
Moçambique
sou um navio
desapossado
preso a liames
e cordoalhas
içam
da garganta
a âncora
que baixaram de madrugada
a voz
do médico
ao longe
você sabe
onde está?
claro que sim
estou
em mar português
e o Patriarca de Lisboa
manda lembranças
ao Samorim
para Marcos Mendonça
742
Domingos Pellegrini
Manhã
Os galos disputando a alvorada
o retorno dos pés para as sandálias
o espelho que me olha e sempre cala
a pia minha mais gentil criada
Fogão com seu milagre que não falha
armário com modéstia tão calada
perto da geladeira dedicada
a resmungar tanto quanto trabalha
O céu a me espiar pelas janelas
novidades florindo no jardim
formigas a cuidar da vida delas
Sangrando sol varrendo as amarguras
sem pesadelos nem sonhos enfim
cada manhã me pare e inaugura
o retorno dos pés para as sandálias
o espelho que me olha e sempre cala
a pia minha mais gentil criada
Fogão com seu milagre que não falha
armário com modéstia tão calada
perto da geladeira dedicada
a resmungar tanto quanto trabalha
O céu a me espiar pelas janelas
novidades florindo no jardim
formigas a cuidar da vida delas
Sangrando sol varrendo as amarguras
sem pesadelos nem sonhos enfim
cada manhã me pare e inaugura
667
Paulo Henriques Britto
No trivial do sanduíche
No trivial do sanduíche a morte aguarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.
A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,
recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.
A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.
A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,
recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.
A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.
717
Cida Pedrosa
UM CERTO SOL SOBRE SÃO PAULO
para maria josé oiticica
o sol se põe em são paulo
a brisa rasteira
rasteja meus pés
que se põem entre o azul
e o mostarda do sofá da tua sala
o sol se põe
sob os aviões da planície
e eu
pássaro aceso
espero
nesta casa de marias
que voam nas asas da panair
o sol se põe sob são paulo
e eu
pássaro sem saída
grito
teu nome de ateu
são paulo anda à margem
à margem de mim
à margem de ti
à margem de nós
são paulo anda à margem do mar
e o pôr do sol voa mais alto
que as luzes de neon
o sol se põe em são paulo
a brisa rasteira
rasteja meus pés
que se põem entre o azul
e o mostarda do sofá da tua sala
o sol se põe
sob os aviões da planície
e eu
pássaro aceso
espero
nesta casa de marias
que voam nas asas da panair
o sol se põe sob são paulo
e eu
pássaro sem saída
grito
teu nome de ateu
são paulo anda à margem
à margem de mim
à margem de ti
à margem de nós
são paulo anda à margem do mar
e o pôr do sol voa mais alto
que as luzes de neon
813
Cida Pedrosa
Tereza
mãos enormes
as de Geraldo
tão grandes que não cabem
no corpo magro de tereza
quando se casaram
tinham planos de comprar uma casa
de varanda
e passar uma semana em bariloche
neste tempo
os peitos de tereza
cabiam inteiros nas mãos de geraldo
mãos enormes
as de geraldo
tão grandes que se espremem nas algemas
e não podem mais acenar para tereza
que nesta hora é conduzida
no carro do IML
para exame de corpo de delito
sob suspeita de estrangulamento
as de Geraldo
tão grandes que não cabem
no corpo magro de tereza
quando se casaram
tinham planos de comprar uma casa
de varanda
e passar uma semana em bariloche
neste tempo
os peitos de tereza
cabiam inteiros nas mãos de geraldo
mãos enormes
as de geraldo
tão grandes que se espremem nas algemas
e não podem mais acenar para tereza
que nesta hora é conduzida
no carro do IML
para exame de corpo de delito
sob suspeita de estrangulamento
865
Horácio Costa
Caixa de água azul
Entre a ramagem da árvore desconhecida,
Caducifólia, nem de Jessé ou genealógica,
Um volume azul sobre uma laje, caixa de água
De polietileno ou poliuretano.
Notação distante na paisagem urbana,
Obsedante recordação no agora-agora,
Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,
Suites Parioli, México, Capital.
O mar, não. O mar, não. O mar, não. O mar, não.
Um exagero de zéfiros, então: o expresso
Descia a serra em Simcas-Chambord tangerina,
Rumo à baía divisada entre montanhas:
Ao longe, o porto e as torres, guindastes e praias;
Ao pé a pantanosa terra, como espaguete, úmida.
O talento da oitava real quereríamos,
O seu sempre imarcescível horizonte.
Nele seguia a senhora duas vezes por ano,
Qual a ordem das vogais, dos ritos identitários,
às vilegiaturas; se lhe encolhera
o mundo à mínima possível transumância.
Para lá da paisagem, a sós uiva o engenho,
Aquilo que em linguagem transforma a língua.
A árvore que se agita em eterno lenho
Enraíza no presente o espectro que míngua.
Ia a senhora, olhos de pomba, um único anel
De coral; cruzou-se a morte entre ela e o poema.
O mar, não. Caixa de água azul entre prédios alheios.
Este o horizonte, marchetado em fragmentos,
Reduzido a um puzzle no qual o montador
A si se vê como uma das peças faltantes.
O agora não sabe o que diz: memoria vincitrix.
Desce uma vez mais o expresso a estrada de Santos.
Caducifólia, nem de Jessé ou genealógica,
Um volume azul sobre uma laje, caixa de água
De polietileno ou poliuretano.
Notação distante na paisagem urbana,
Obsedante recordação no agora-agora,
Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,
Suites Parioli, México, Capital.
O mar, não. O mar, não. O mar, não. O mar, não.
Um exagero de zéfiros, então: o expresso
Descia a serra em Simcas-Chambord tangerina,
Rumo à baía divisada entre montanhas:
Ao longe, o porto e as torres, guindastes e praias;
Ao pé a pantanosa terra, como espaguete, úmida.
O talento da oitava real quereríamos,
O seu sempre imarcescível horizonte.
Nele seguia a senhora duas vezes por ano,
Qual a ordem das vogais, dos ritos identitários,
às vilegiaturas; se lhe encolhera
o mundo à mínima possível transumância.
Para lá da paisagem, a sós uiva o engenho,
Aquilo que em linguagem transforma a língua.
A árvore que se agita em eterno lenho
Enraíza no presente o espectro que míngua.
Ia a senhora, olhos de pomba, um único anel
De coral; cruzou-se a morte entre ela e o poema.
O mar, não. Caixa de água azul entre prédios alheios.
Este o horizonte, marchetado em fragmentos,
Reduzido a um puzzle no qual o montador
A si se vê como uma das peças faltantes.
O agora não sabe o que diz: memoria vincitrix.
Desce uma vez mais o expresso a estrada de Santos.
709
Cida Pedrosa
O ORIENTE DA CIDADE
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era lúcida
a radiola de fichas juntava nossas coxas
os retalhos eram enfeites de salão
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era música
cama de loucos e as mulheres livres
para o copo para o corpo para as ruas
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era à prova de balas
a ponte era à prova de sonhos
a dor visitava o capibaribe
entre putas e pombos construí poemas
a cidade era lúcida
a radiola de fichas juntava nossas coxas
os retalhos eram enfeites de salão
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era música
cama de loucos e as mulheres livres
para o copo para o corpo para as ruas
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era à prova de balas
a ponte era à prova de sonhos
a dor visitava o capibaribe
entre putas e pombos construí poemas
786
Cida Pedrosa
fotografia de guerra
o menino de camisa vermelha e sapatinhos
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
921
Cida Pedrosa
fotografia de guerra
o menino de camisa vermelha e sapatinhos
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
921
Marco Lucchesi
Orquídeas
Orquídeas
resplandecem
no quintal
a geometria
de fogo
de suas pétalas
e a forma
do silêncio
em que se apóiam
trago
o coração perdido
e os olhos tersos
da breve epifania
toda flor
desponta
no seio do silêncio
e ao seio
do silêncio
acorre e se dissolve
lembro
de Hardy
indo ao
fundo
silêncio
dos gregos
teoremas
cheios
do frescor e da beleza
de quando foram descobertos
dois mil anos
e sequer
uma ruga
em seu puro semblante
(Euclides
e a infinidade
dos números primos
Pitágoras
e a raiz quadrada
irracional de dois)
os desenhos
do matemático
e do poeta devem
ser belos
flores
teoremas
desmaiam
em súbitos
jardins
orquídeas
e bromélias
florescem
em crepúsculos
fugazes
- a beleza é a primeira prova
da matemática
resplandecem
no quintal
a geometria
de fogo
de suas pétalas
e a forma
do silêncio
em que se apóiam
trago
o coração perdido
e os olhos tersos
da breve epifania
toda flor
desponta
no seio do silêncio
e ao seio
do silêncio
acorre e se dissolve
lembro
de Hardy
indo ao
fundo
silêncio
dos gregos
teoremas
cheios
do frescor e da beleza
de quando foram descobertos
dois mil anos
e sequer
uma ruga
em seu puro semblante
(Euclides
e a infinidade
dos números primos
Pitágoras
e a raiz quadrada
irracional de dois)
os desenhos
do matemático
e do poeta devem
ser belos
flores
teoremas
desmaiam
em súbitos
jardins
orquídeas
e bromélias
florescem
em crepúsculos
fugazes
- a beleza é a primeira prova
da matemática
771
Marco Lucchesi
Orquídeas
Orquídeas
resplandecem
no quintal
a geometria
de fogo
de suas pétalas
e a forma
do silêncio
em que se apóiam
trago
o coração perdido
e os olhos tersos
da breve epifania
toda flor
desponta
no seio do silêncio
e ao seio
do silêncio
acorre e se dissolve
lembro
de Hardy
indo ao
fundo
silêncio
dos gregos
teoremas
cheios
do frescor e da beleza
de quando foram descobertos
dois mil anos
e sequer
uma ruga
em seu puro semblante
(Euclides
e a infinidade
dos números primos
Pitágoras
e a raiz quadrada
irracional de dois)
os desenhos
do matemático
e do poeta devem
ser belos
flores
teoremas
desmaiam
em súbitos
jardins
orquídeas
e bromélias
florescem
em crepúsculos
fugazes
- a beleza é a primeira prova
da matemática
resplandecem
no quintal
a geometria
de fogo
de suas pétalas
e a forma
do silêncio
em que se apóiam
trago
o coração perdido
e os olhos tersos
da breve epifania
toda flor
desponta
no seio do silêncio
e ao seio
do silêncio
acorre e se dissolve
lembro
de Hardy
indo ao
fundo
silêncio
dos gregos
teoremas
cheios
do frescor e da beleza
de quando foram descobertos
dois mil anos
e sequer
uma ruga
em seu puro semblante
(Euclides
e a infinidade
dos números primos
Pitágoras
e a raiz quadrada
irracional de dois)
os desenhos
do matemático
e do poeta devem
ser belos
flores
teoremas
desmaiam
em súbitos
jardins
orquídeas
e bromélias
florescem
em crepúsculos
fugazes
- a beleza é a primeira prova
da matemática
771
Cida Pedrosa
O surfista
um tempo
passa kombi
passa corpo
passa poste
passa árvore
e o menino pendurado na lanterna
dois tempos
passa moto
passa morte
passa gente
passa carro
e o menino pendurado na flanela
três tempos
passa ônibus-bicicleta-caminhão
pega brisa
pega onda
pirueta — flamboaiã
flexão — fio de cobre
e o menino pendurado na banguela
passa a via
passa o vulto
passa a vida
passa o passo
paira o ar
sangue e vidro
passa kombi
passa corpo
passa poste
passa árvore
e o menino pendurado na lanterna
dois tempos
passa moto
passa morte
passa gente
passa carro
e o menino pendurado na flanela
três tempos
passa ônibus-bicicleta-caminhão
pega brisa
pega onda
pirueta — flamboaiã
flexão — fio de cobre
e o menino pendurado na banguela
passa a via
passa o vulto
passa a vida
passa o passo
paira o ar
sangue e vidro
687
Horácio Costa
Ravenalas
“The Carmen Miranda’s Museum
Is more important than the Louvre”, disse-me
John Ashbery em Nova Iorque, e os olhos
Nadavam em gim. Olhando para o meu
Cocar kamaiurá, Octavio Paz exclamou
“Esto es mejor que un Picasso”. Estávamos
Na casa de Coyoacán: era a primeira vez
Que ele entrava na sala dramática. As plumas
Cor de rosa-flamingo e de araras azuis
Enchiam o espaço, abriam-se sobre
O céu da parede numa “iminência
De gritos”. Não sei se Octavio
De fato escreveu este verso, mas bem
Poderia. Na varanda de Pancho Vives,
Face ao Palácio Real, Gastón
Baquero, o habanero exilado, dizia:
“La Gran Vía es cubana. La Puerta del Sol
Es cubana. El Paseo de la Castellana
También es cubano.” Haroldo ria-se
Às escâncaras: era verão e à onze da noite
Mantinha-se a temperatura em 38º.
Meninos eu vi, lembro a Revista Manchete
Assim como Borges contradizendo
Luisa Valenzuela, quem lhe perguntara
Se a quantidade de espadas em sua obra
Apontava a uma putativa simbologia fálica:
“Eso es impúdico, señorita” –nos olhos
Do vate cego, ainda o brilho da desonra
Vislumbro. Ou creio vislumbrar. O Manuel
Tinha ido de New Haven a Nova Iorque
Ver o portenho, e out of the blue me observou,
Como si nada: “estaremos juntos muchos años”.
Nunca duvidei de sua intuição, não o contradisse
Mas quinze depois o abandonaria: já não podia mais,
Simplesmente já não pude mais.
Escrevo
Em Copacabana, lugar fabuloso entre todos,
E meca de memoriosos: ao longe, numa
Cobertura, descubro contra o azul
Umas improváveis ravenalas.
Também o banhista, qualquer cidadão poetisa
E sente irromper ouvidos adentro uma voz
Que não está, e que escuta como verso-fantasma:
Quantos vozes não escapam ao ar dessa forma
A cada manhã num preciso minuto
Como esse em que peso os meus: se senti-los
Fosse dar-lhes volume, uma debandada
De asas se abriria sobre o Rio de Janeiro,
Sob a forma de alguns versos de amor
Ou referentes à pátria ou aos antepassados
E outros, os mais, sem significado nenhum
Afora o afetivo, que concentra o tempo vivido:
O espaço da metrópole seria pequeno
Para tamanho hachurado lírico, para tanta
Chama sagrada, “Péri Hypsous”, para dardos
Que tais de palavras que se materializassem
E se reduzissem no momento de ouvirem-se
E que se reduzissem –por que não?- a estas,
Sim, fotogênicas de fato, ravenalas. “Leques
Contra o azul entre sol e súdito” –este, escrevi-o
Eu, numa outra manhã, lá no México
E eis-me de novo surfando a memória,
Como esses jovens as ondas. As vozes
Não se desprendem, recocheteiam, somam-se
E ecoam como a brisa que atravessa
Esse palmar suspenso e que
Só eu pareço escutar e pelo qual,
exoticista e tambor, arquiteto
E sintaxista, deixo-me deslizar.
(P.S. Não há hierarquia na memória
E não se sabe ao certo o que a dispara:
tão importante o pergaminho quanto o plástico-bolha,
assim como o botton e o brasão, e o salmo
conversa com o conteúdo da filipeta e tudo,
na verdade, é um só monumento).
Is more important than the Louvre”, disse-me
John Ashbery em Nova Iorque, e os olhos
Nadavam em gim. Olhando para o meu
Cocar kamaiurá, Octavio Paz exclamou
“Esto es mejor que un Picasso”. Estávamos
Na casa de Coyoacán: era a primeira vez
Que ele entrava na sala dramática. As plumas
Cor de rosa-flamingo e de araras azuis
Enchiam o espaço, abriam-se sobre
O céu da parede numa “iminência
De gritos”. Não sei se Octavio
De fato escreveu este verso, mas bem
Poderia. Na varanda de Pancho Vives,
Face ao Palácio Real, Gastón
Baquero, o habanero exilado, dizia:
“La Gran Vía es cubana. La Puerta del Sol
Es cubana. El Paseo de la Castellana
También es cubano.” Haroldo ria-se
Às escâncaras: era verão e à onze da noite
Mantinha-se a temperatura em 38º.
Meninos eu vi, lembro a Revista Manchete
Assim como Borges contradizendo
Luisa Valenzuela, quem lhe perguntara
Se a quantidade de espadas em sua obra
Apontava a uma putativa simbologia fálica:
“Eso es impúdico, señorita” –nos olhos
Do vate cego, ainda o brilho da desonra
Vislumbro. Ou creio vislumbrar. O Manuel
Tinha ido de New Haven a Nova Iorque
Ver o portenho, e out of the blue me observou,
Como si nada: “estaremos juntos muchos años”.
Nunca duvidei de sua intuição, não o contradisse
Mas quinze depois o abandonaria: já não podia mais,
Simplesmente já não pude mais.
Escrevo
Em Copacabana, lugar fabuloso entre todos,
E meca de memoriosos: ao longe, numa
Cobertura, descubro contra o azul
Umas improváveis ravenalas.
Também o banhista, qualquer cidadão poetisa
E sente irromper ouvidos adentro uma voz
Que não está, e que escuta como verso-fantasma:
Quantos vozes não escapam ao ar dessa forma
A cada manhã num preciso minuto
Como esse em que peso os meus: se senti-los
Fosse dar-lhes volume, uma debandada
De asas se abriria sobre o Rio de Janeiro,
Sob a forma de alguns versos de amor
Ou referentes à pátria ou aos antepassados
E outros, os mais, sem significado nenhum
Afora o afetivo, que concentra o tempo vivido:
O espaço da metrópole seria pequeno
Para tamanho hachurado lírico, para tanta
Chama sagrada, “Péri Hypsous”, para dardos
Que tais de palavras que se materializassem
E se reduzissem no momento de ouvirem-se
E que se reduzissem –por que não?- a estas,
Sim, fotogênicas de fato, ravenalas. “Leques
Contra o azul entre sol e súdito” –este, escrevi-o
Eu, numa outra manhã, lá no México
E eis-me de novo surfando a memória,
Como esses jovens as ondas. As vozes
Não se desprendem, recocheteiam, somam-se
E ecoam como a brisa que atravessa
Esse palmar suspenso e que
Só eu pareço escutar e pelo qual,
exoticista e tambor, arquiteto
E sintaxista, deixo-me deslizar.
(P.S. Não há hierarquia na memória
E não se sabe ao certo o que a dispara:
tão importante o pergaminho quanto o plástico-bolha,
assim como o botton e o brasão, e o salmo
conversa com o conteúdo da filipeta e tudo,
na verdade, é um só monumento).
699
Horácio Costa
A rã
Sim, naquele volet gauche
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rã não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rã não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
796
Horácio Costa
DULCÍMERO E FORMAÇÃO BRASILEIRA
Para João Silvério Trevisan
pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:
o dulcímero
e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:
queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira
e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito
porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos
então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo
a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí
porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como
faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:
agora só há verba para estudar
o dulcímero
pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:
o dulcímero
e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:
queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira
e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito
porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos
então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo
a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí
porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como
faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:
agora só há verba para estudar
o dulcímero
593
Horácio Costa
DULCÍMERO E FORMAÇÃO BRASILEIRA
Para João Silvério Trevisan
pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:
o dulcímero
e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:
queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira
e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito
porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos
então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo
a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí
porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como
faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:
agora só há verba para estudar
o dulcímero
pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:
o dulcímero
e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:
queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira
e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito
porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos
então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo
a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí
porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como
faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:
agora só há verba para estudar
o dulcímero
593
Horácio Costa
DULCÍMERO E FORMAÇÃO BRASILEIRA
Para João Silvério Trevisan
pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:
o dulcímero
e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:
queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira
e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito
porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos
então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo
a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí
porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como
faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:
agora só há verba para estudar
o dulcímero
pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:
o dulcímero
e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:
queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira
e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito
porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos
então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo
a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí
porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como
faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:
agora só há verba para estudar
o dulcímero
593
Cida Pedrosa
Milena
gosto quando milena fala
dos homens
que comeu durante a noite
é a única voz soante
nesta cantina de repartição
onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril
sem a voz de milena
o café desce amargo
dos homens
que comeu durante a noite
é a única voz soante
nesta cantina de repartição
onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril
sem a voz de milena
o café desce amargo
910
Cida Pedrosa
Milena
gosto quando milena fala
dos homens
que comeu durante a noite
é a única voz soante
nesta cantina de repartição
onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril
sem a voz de milena
o café desce amargo
dos homens
que comeu durante a noite
é a única voz soante
nesta cantina de repartição
onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril
sem a voz de milena
o café desce amargo
910
Cida Pedrosa
Milena
gosto quando milena fala
dos homens
que comeu durante a noite
é a única voz soante
nesta cantina de repartição
onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril
sem a voz de milena
o café desce amargo
dos homens
que comeu durante a noite
é a única voz soante
nesta cantina de repartição
onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril
sem a voz de milena
o café desce amargo
910
Alexandre Guarnieri
Motim 2.0
“às ordens, hei-me!”, “às ordens, hei-me!”,
ó rei errado! que cansei de estar calado
aos despautérios do patrão!
contra as egrégoras brutais
deste transporte lento, gangrênico:
ergo-me! contra as regras cegas
desse presente de grego, ergo-me!
contra o determinado tédio inédito,
sem término, sem trégua, numa guerra
contra o dono dessa redoma total
cujo domínio sombrio mina em mim
o dom de homem, ergo-me! entretanto
um nome sempre me reencontra: o meu,
tornado mero número no ministério,
na carteira de trabalho, na zona eleitoral,
a mera estatística nas fileiras da mídia,
um álibi, “eis-me!”, um pobre anônimo,
rasgado e desgraçado, mas apto ao bom combate,
grato pela chance de gritar nas ruas
contra o desrespeito do governo,
nesta câmara de gás lacrimogêneo,
lacrada, a que chamamos, hoje,
Brasil ou
Rio de Janeiro
ó rei errado! que cansei de estar calado
aos despautérios do patrão!
contra as egrégoras brutais
deste transporte lento, gangrênico:
ergo-me! contra as regras cegas
desse presente de grego, ergo-me!
contra o determinado tédio inédito,
sem término, sem trégua, numa guerra
contra o dono dessa redoma total
cujo domínio sombrio mina em mim
o dom de homem, ergo-me! entretanto
um nome sempre me reencontra: o meu,
tornado mero número no ministério,
na carteira de trabalho, na zona eleitoral,
a mera estatística nas fileiras da mídia,
um álibi, “eis-me!”, um pobre anônimo,
rasgado e desgraçado, mas apto ao bom combate,
grato pela chance de gritar nas ruas
contra o desrespeito do governo,
nesta câmara de gás lacrimogêneo,
lacrada, a que chamamos, hoje,
Brasil ou
Rio de Janeiro
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