Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Cora Coralina
Velho Sobrado
Um montão disforme. Taipas e pedras,
abraçadas a grossas aroeiras,
toscamente esquadriadas.
Folhas de janelas.
Pedaços de batentes.
Almofadados de portas.
Vidraças estilhaçadas.
Ferragens retorcidas.
Abandono. Silêncio. Desordem.
Ausência, sobretudo.
O avanço vegetal acoberta o quadro.
Carrapateiras cacheadas.
São-caetano com seu verde planejamento,
pendurado de frutinhas ouro-rosa.
Uma bucha de cordoalha enfolhada,
berrante de flores amarelas
cingindo tudo.
Dá guarda, perfilado, um pé de mamão-macho.
No alto, instala-se, dominadora,
uma jovem gameleira, dona do futuro.
Cortina vulgar de decência urbana
defende a nudez dolorosa das ruínas do sobrado
— um muro.
Fechado. Largado.
O velho sobrado colonial
de cinco sacadas,
de ferro forjado,
cede.
Bem que podia ser conservado,
bem que devia ser retocado,
tão alto, tão nobre-senhorial.
O sobradão dos Vieiras
cai aos pedaços,
abandonado.
Parede hoje. Parede amanhã.
Caliça, telhas e pedras
se amontoando com estrondo.
Famílias alarmadas se mudando.
Assustados - passantes e vizinhos.
Aos poucos, a " fortaleza " desabando.
Quem se lembra?
Quem se esquece?
Padre Vicente José Vieira.
D. Irena Manso Serradourada.
D. Virgínia Vieira
- grande dama de outros tempos.
Flor de distinção e nobreza
na heráldica da cidade.
Benjamim Vieira,
Rodolfo Luz Vieira,
Ludugero,
Angela,
Débora, Maria...
tão distante a gente do sobrado...
Bailes e saraus antigos.
Cortesia. Sociedade goiana.
Senhoras e cavalheiros...
-tão desusados...
O Passado...
A escadaria de patamares
vai subindo... subindo...
Portas no alto.
À direita. À esquerda.
Se abrindo, familiares.
Salas. Antigos canapés.
Cadeiras em ordem.
Pelas paredes forradas de papel,
desenho de querubins, segurando
cornucópia e laços.
Retratos de antepassados,
solenes, empertigados.
Gente de dantes.
Grandes espelhos de cristal,
emoldurados de veludo negro.
Velhas credências torneadas
sustentando
jarrões pesados.
Antigas flores
de que ninguém mais fala!
Rosa cheirosa de Alexandria.
Sempre-viva. Cravinas.
Damas-entre-verdes .
Jasmim-do-cabo. Resedá.
Um aroma esquecido
- manjerona.
abraçadas a grossas aroeiras,
toscamente esquadriadas.
Folhas de janelas.
Pedaços de batentes.
Almofadados de portas.
Vidraças estilhaçadas.
Ferragens retorcidas.
Abandono. Silêncio. Desordem.
Ausência, sobretudo.
O avanço vegetal acoberta o quadro.
Carrapateiras cacheadas.
São-caetano com seu verde planejamento,
pendurado de frutinhas ouro-rosa.
Uma bucha de cordoalha enfolhada,
berrante de flores amarelas
cingindo tudo.
Dá guarda, perfilado, um pé de mamão-macho.
No alto, instala-se, dominadora,
uma jovem gameleira, dona do futuro.
Cortina vulgar de decência urbana
defende a nudez dolorosa das ruínas do sobrado
— um muro.
Fechado. Largado.
O velho sobrado colonial
de cinco sacadas,
de ferro forjado,
cede.
Bem que podia ser conservado,
bem que devia ser retocado,
tão alto, tão nobre-senhorial.
O sobradão dos Vieiras
cai aos pedaços,
abandonado.
Parede hoje. Parede amanhã.
Caliça, telhas e pedras
se amontoando com estrondo.
Famílias alarmadas se mudando.
Assustados - passantes e vizinhos.
Aos poucos, a " fortaleza " desabando.
Quem se lembra?
Quem se esquece?
Padre Vicente José Vieira.
D. Irena Manso Serradourada.
D. Virgínia Vieira
- grande dama de outros tempos.
Flor de distinção e nobreza
na heráldica da cidade.
Benjamim Vieira,
Rodolfo Luz Vieira,
Ludugero,
Angela,
Débora, Maria...
tão distante a gente do sobrado...
Bailes e saraus antigos.
Cortesia. Sociedade goiana.
Senhoras e cavalheiros...
-tão desusados...
O Passado...
A escadaria de patamares
vai subindo... subindo...
Portas no alto.
À direita. À esquerda.
Se abrindo, familiares.
Salas. Antigos canapés.
Cadeiras em ordem.
Pelas paredes forradas de papel,
desenho de querubins, segurando
cornucópia e laços.
Retratos de antepassados,
solenes, empertigados.
Gente de dantes.
Grandes espelhos de cristal,
emoldurados de veludo negro.
Velhas credências torneadas
sustentando
jarrões pesados.
Antigas flores
de que ninguém mais fala!
Rosa cheirosa de Alexandria.
Sempre-viva. Cravinas.
Damas-entre-verdes .
Jasmim-do-cabo. Resedá.
Um aroma esquecido
- manjerona.
5 481
1
Deborah Goulart Visnadi
Barquinho de Papel
Vela azul da cor do céu,
Vou com você velejar.
Sentir a brisa branda,
E sobre as ondas bailar!
A gaivota, ouvir cantar,
Depois, na areia ardente,
Entre as conchinhas do mar,
Parar muda, indiferente,
Para um descansar !
Vou com você velejar.
Sentir a brisa branda,
E sobre as ondas bailar!
A gaivota, ouvir cantar,
Depois, na areia ardente,
Entre as conchinhas do mar,
Parar muda, indiferente,
Para um descansar !
3 140
1
Deborah Goulart Visnadi
Barquinho de Papel
Vela azul da cor do céu,
Vou com você velejar.
Sentir a brisa branda,
E sobre as ondas bailar!
A gaivota, ouvir cantar,
Depois, na areia ardente,
Entre as conchinhas do mar,
Parar muda, indiferente,
Para um descansar !
Vou com você velejar.
Sentir a brisa branda,
E sobre as ondas bailar!
A gaivota, ouvir cantar,
Depois, na areia ardente,
Entre as conchinhas do mar,
Parar muda, indiferente,
Para um descansar !
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1
Dora Ferreira da Silva
Mulher e Pássaro
Linha invisível
liga-me àquela andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.
liga-me àquela andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.
2 167
1
Cleonice Rainho
A Borboleta Azul
Nosso jardim é uma festa
de borboletas:
pequenas e grandes,
listradas,
amarelas e pretas
e uma pintadinha
que é uma graça.
Mas a azul, azulzinha,
a preferida,
é como se fosse
minha filhinha:
vi-a nascer da lagarta,
virou crisálida,
depois borboleta.
Quando voou
pela primeira vez
bati palmas: Vivô!!!
Voa e volta leve,
azul, azulzinha
e pousa num cacho
de rosas brancas
sua casinha.
Às vezes se ajeita,
mansinha,
tomando a forma
de um coração.
Seu corpo sedoso,
macio,
parece vestido
com pano do céu.
de borboletas:
pequenas e grandes,
listradas,
amarelas e pretas
e uma pintadinha
que é uma graça.
Mas a azul, azulzinha,
a preferida,
é como se fosse
minha filhinha:
vi-a nascer da lagarta,
virou crisálida,
depois borboleta.
Quando voou
pela primeira vez
bati palmas: Vivô!!!
Voa e volta leve,
azul, azulzinha
e pousa num cacho
de rosas brancas
sua casinha.
Às vezes se ajeita,
mansinha,
tomando a forma
de um coração.
Seu corpo sedoso,
macio,
parece vestido
com pano do céu.
3 038
1
Cleonice Rainho
A Borboleta Azul
Nosso jardim é uma festa
de borboletas:
pequenas e grandes,
listradas,
amarelas e pretas
e uma pintadinha
que é uma graça.
Mas a azul, azulzinha,
a preferida,
é como se fosse
minha filhinha:
vi-a nascer da lagarta,
virou crisálida,
depois borboleta.
Quando voou
pela primeira vez
bati palmas: Vivô!!!
Voa e volta leve,
azul, azulzinha
e pousa num cacho
de rosas brancas
sua casinha.
Às vezes se ajeita,
mansinha,
tomando a forma
de um coração.
Seu corpo sedoso,
macio,
parece vestido
com pano do céu.
de borboletas:
pequenas e grandes,
listradas,
amarelas e pretas
e uma pintadinha
que é uma graça.
Mas a azul, azulzinha,
a preferida,
é como se fosse
minha filhinha:
vi-a nascer da lagarta,
virou crisálida,
depois borboleta.
Quando voou
pela primeira vez
bati palmas: Vivô!!!
Voa e volta leve,
azul, azulzinha
e pousa num cacho
de rosas brancas
sua casinha.
Às vezes se ajeita,
mansinha,
tomando a forma
de um coração.
Seu corpo sedoso,
macio,
parece vestido
com pano do céu.
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1
Dora Ferreira da Silva
Alguém
Alguém desfecha a flecha do vôo:
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou passaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou passaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.
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1
Eurícledes Formiga
Canto de Amor ao Mar
Sempre tua canção, clamor e apelo,
Sabendo a sal e longes na memória,
ao ver-te cavalgado pelos ventos
nas escarpas da noite, em atropelo,
aos chicotes de fogo dos relâmpagos,
ou nas planícies de ouro das manhãs.
Recomponho o perdido itinerário,
respirando teu hálito — salsugem,
nesse meu navegar irrevelado
de minha origem marinheira... escuto
vir da gávea oscilante da lembrança
a voz evocativa de outras terras
aonde me levaram teus caminhos!
Não reclamo apagasses os meus passos
nas areias soando como teclas
em tuas longas e alvas mãos de espumas;
nem choro ser degredo o ter ficado
no alto dos alcantis a contemplar-te,
já que salgas meus olhos embebidos
na poesia verde-azul de tuas águas.
Quantas vezes me deixo submergir
em teu bojo de lendas e perigos
e vou sonhar remotas abordagens
no tombadilho das escunas mortas!
Sinto-te gotejar pelo meu corpo,
nas pálpebras, na pele, transpirando
teu sangue-sal, banhando-me de ti
nas enseadas das reminiscências.
Vem de longe esse vínculo profundo
de arco-íris e de algas que nos liga,
tanta é esta sensação de desaguar-me
em teu mundo abissal e confundir-me
com teus peixes, sargaços e corais,
ora a flutuar sobre ti como os santelmos,
ora a esgrimir os espadins da chuva
no convés de uma nau, como um pirata,
sob o alarido e o aplauso dos trovões!
Vejo-me assim, em honra de outros nautas,
heróis dos oceanos sem bandeiras,
marujos por amor às aventuras,
antepassados imemoriais.
Escuto-lhes a voz nas elegias
aos sóis que em teus abismos se afogaram
e às estrelas cadentes despencadas
do colo azul da noite como pérolas!
Para falar de amor à minha amada,
ponho tua harmonia nos meus versos;
eles recordam pequeninos búzios,
com tua alma cantando em seus recessos!
Não me é dado saber em quantos portos
ancorei minha nave... em suas quilhas
fulgem as tatuagens de saudades
com as transparências do teu ser ignoto!
Sei apenas que a música da vida
nasce contigo e cresce e envolve o mundo
e o coração-aquário do poeta!
Sabendo a sal e longes na memória,
ao ver-te cavalgado pelos ventos
nas escarpas da noite, em atropelo,
aos chicotes de fogo dos relâmpagos,
ou nas planícies de ouro das manhãs.
Recomponho o perdido itinerário,
respirando teu hálito — salsugem,
nesse meu navegar irrevelado
de minha origem marinheira... escuto
vir da gávea oscilante da lembrança
a voz evocativa de outras terras
aonde me levaram teus caminhos!
Não reclamo apagasses os meus passos
nas areias soando como teclas
em tuas longas e alvas mãos de espumas;
nem choro ser degredo o ter ficado
no alto dos alcantis a contemplar-te,
já que salgas meus olhos embebidos
na poesia verde-azul de tuas águas.
Quantas vezes me deixo submergir
em teu bojo de lendas e perigos
e vou sonhar remotas abordagens
no tombadilho das escunas mortas!
Sinto-te gotejar pelo meu corpo,
nas pálpebras, na pele, transpirando
teu sangue-sal, banhando-me de ti
nas enseadas das reminiscências.
Vem de longe esse vínculo profundo
de arco-íris e de algas que nos liga,
tanta é esta sensação de desaguar-me
em teu mundo abissal e confundir-me
com teus peixes, sargaços e corais,
ora a flutuar sobre ti como os santelmos,
ora a esgrimir os espadins da chuva
no convés de uma nau, como um pirata,
sob o alarido e o aplauso dos trovões!
Vejo-me assim, em honra de outros nautas,
heróis dos oceanos sem bandeiras,
marujos por amor às aventuras,
antepassados imemoriais.
Escuto-lhes a voz nas elegias
aos sóis que em teus abismos se afogaram
e às estrelas cadentes despencadas
do colo azul da noite como pérolas!
Para falar de amor à minha amada,
ponho tua harmonia nos meus versos;
eles recordam pequeninos búzios,
com tua alma cantando em seus recessos!
Não me é dado saber em quantos portos
ancorei minha nave... em suas quilhas
fulgem as tatuagens de saudades
com as transparências do teu ser ignoto!
Sei apenas que a música da vida
nasce contigo e cresce e envolve o mundo
e o coração-aquário do poeta!
1 261
1
Da Costa Santos
Pelo Alto Mar
Longe, pelo alto mar, onde a ave não se aninha,
rasgando os escarcéus da noite de áureos brilhos,
singra silenciosa a doida nau que é minha,
pesada de saudade e bambos amantilhos.
Um marinheiro canta e no convés caminha,
na loucura do mar olhando os tombadilhos,
para não sossobrar, sob a onda marinha,
essa nau que deixou para traz longos trilhos.
Velas brancas de luz no oceano, altaneiras,
enfunadas de vento, ao clarão das estrelas,
tendo no mastaréu o pano das bandeiras...
Toda a glória de amar, em sonhos rosicleres,
revive no pavor dos homens das procelas
e se afoga em canções no beijo das mulheres.
rasgando os escarcéus da noite de áureos brilhos,
singra silenciosa a doida nau que é minha,
pesada de saudade e bambos amantilhos.
Um marinheiro canta e no convés caminha,
na loucura do mar olhando os tombadilhos,
para não sossobrar, sob a onda marinha,
essa nau que deixou para traz longos trilhos.
Velas brancas de luz no oceano, altaneiras,
enfunadas de vento, ao clarão das estrelas,
tendo no mastaréu o pano das bandeiras...
Toda a glória de amar, em sonhos rosicleres,
revive no pavor dos homens das procelas
e se afoga em canções no beijo das mulheres.
949
1
Da Costa Santos
Pelo Alto Mar
Longe, pelo alto mar, onde a ave não se aninha,
rasgando os escarcéus da noite de áureos brilhos,
singra silenciosa a doida nau que é minha,
pesada de saudade e bambos amantilhos.
Um marinheiro canta e no convés caminha,
na loucura do mar olhando os tombadilhos,
para não sossobrar, sob a onda marinha,
essa nau que deixou para traz longos trilhos.
Velas brancas de luz no oceano, altaneiras,
enfunadas de vento, ao clarão das estrelas,
tendo no mastaréu o pano das bandeiras...
Toda a glória de amar, em sonhos rosicleres,
revive no pavor dos homens das procelas
e se afoga em canções no beijo das mulheres.
rasgando os escarcéus da noite de áureos brilhos,
singra silenciosa a doida nau que é minha,
pesada de saudade e bambos amantilhos.
Um marinheiro canta e no convés caminha,
na loucura do mar olhando os tombadilhos,
para não sossobrar, sob a onda marinha,
essa nau que deixou para traz longos trilhos.
Velas brancas de luz no oceano, altaneiras,
enfunadas de vento, ao clarão das estrelas,
tendo no mastaréu o pano das bandeiras...
Toda a glória de amar, em sonhos rosicleres,
revive no pavor dos homens das procelas
e se afoga em canções no beijo das mulheres.
949
1
Clóvis Moura
Rio Seco
Cemitério de peixes enterrados
no areal ardente e transparente,
pedras que furam os pés dos caminhantes
marcaram a transferência dos sedentos.
Pedaços de memórias marulhantes
ainda chegam à noite nos seus ecos
e roteiros de barcos são fantasmas
na memória de luas macilentas.
Há no sol que caustica as suas curvas
um sádico desdém por suas margens
que hoje se fundem ao leito que era líquido.
As carcaças de tíbias e caveiras
de bois marcam a distância do mistério
e o suor é sua linfa derradeira.
no areal ardente e transparente,
pedras que furam os pés dos caminhantes
marcaram a transferência dos sedentos.
Pedaços de memórias marulhantes
ainda chegam à noite nos seus ecos
e roteiros de barcos são fantasmas
na memória de luas macilentas.
Há no sol que caustica as suas curvas
um sádico desdém por suas margens
que hoje se fundem ao leito que era líquido.
As carcaças de tíbias e caveiras
de bois marcam a distância do mistério
e o suor é sua linfa derradeira.
2 603
1
Dora Ferreira da Silva
Valsas de Esquina de Mignone
Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.
Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.
Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.
1 525
1
Dora Ferreira da Silva
Valsas de Esquina de Mignone
Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.
Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.
Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.
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1
Carlos Lima
Dístomo
Amor e morte
limites em que se move a humana dança
A lógica do tempo no mal entendido céu dos geômetras
o absurdo de um cadáver que se arrasta
pela virulência inútil nos olhos do tempo
espreitando os vermes dos dias futuros
na cama dos sonhos de ingênuos crimes infantis
apaixonado pelo uivo da lua e o vermelho cio das nuvens
Amor e morte
limites em que se move a humana dança
Há neste dia uma ternura de punhais
ferindo com mãos obsessivas o esqueleto da noite
e não perdoa a imperfeição dos seres
Vendi a alma ao diabo não me engano
é contra o real, contra o real
que na nossa arte conspiramos
A insanidade da noite
trará o falso lenitivo de um soneto
ou essa tranqüilidade de cachorros ociosos
após lamber o osso de uma verdade satisfatória?
limites em que se move a humana dança
A lógica do tempo no mal entendido céu dos geômetras
o absurdo de um cadáver que se arrasta
pela virulência inútil nos olhos do tempo
espreitando os vermes dos dias futuros
na cama dos sonhos de ingênuos crimes infantis
apaixonado pelo uivo da lua e o vermelho cio das nuvens
Amor e morte
limites em que se move a humana dança
Há neste dia uma ternura de punhais
ferindo com mãos obsessivas o esqueleto da noite
e não perdoa a imperfeição dos seres
Vendi a alma ao diabo não me engano
é contra o real, contra o real
que na nossa arte conspiramos
A insanidade da noite
trará o falso lenitivo de um soneto
ou essa tranqüilidade de cachorros ociosos
após lamber o osso de uma verdade satisfatória?
878
1
Diogo Bernardes
Soneto
Leandro em noite escura ia rompendo
As altas ondas, delas rodeado
No meio do Helesponto, já cansado,
E o fogo já na torre morto vendo;
E vendo cada vez ir mais crescendo
O bravo vento, e o mar mais levantado;
De suas forças já desconfiado,
Os rogos quis provar, não lhe valendo.
"Ai ondas!" (suspirando começou):
Mas delas, sem lhe mais alento dar,
A fala contrastada, atrás tornou.
"Ai ondas! (outra vez diz) vento, mar,
Não me afogueis, vos rogo, enquanto vou;
Afogai-me depois quando tornar".
As altas ondas, delas rodeado
No meio do Helesponto, já cansado,
E o fogo já na torre morto vendo;
E vendo cada vez ir mais crescendo
O bravo vento, e o mar mais levantado;
De suas forças já desconfiado,
Os rogos quis provar, não lhe valendo.
"Ai ondas!" (suspirando começou):
Mas delas, sem lhe mais alento dar,
A fala contrastada, atrás tornou.
"Ai ondas! (outra vez diz) vento, mar,
Não me afogueis, vos rogo, enquanto vou;
Afogai-me depois quando tornar".
1 830
1
Clóvis Moura
O Rio Parnaíba
Gargarejo de mortes de afogados
e brilho de luar sobre o silêncio
ruídos sem barulho de asas brancas
invisíveis na esteira do mistério.
Embarcações fantasmas com seus remos
violando o espelho da corrente
e a história dos antigos moradores
que perlustraram a estrada do degredo.
Nas margens as perguntas os inquéritos
o tiro a interjeição e a morte cinza:
gargalhada de álcool nas bodegas.
A indiferença escorre como gosma
e o rio na derrota da incerteza
leva faunas estranhas no seu ventre.
e brilho de luar sobre o silêncio
ruídos sem barulho de asas brancas
invisíveis na esteira do mistério.
Embarcações fantasmas com seus remos
violando o espelho da corrente
e a história dos antigos moradores
que perlustraram a estrada do degredo.
Nas margens as perguntas os inquéritos
o tiro a interjeição e a morte cinza:
gargalhada de álcool nas bodegas.
A indiferença escorre como gosma
e o rio na derrota da incerteza
leva faunas estranhas no seu ventre.
2 988
1
Clóvis Moura
O Rio Parnaíba
Gargarejo de mortes de afogados
e brilho de luar sobre o silêncio
ruídos sem barulho de asas brancas
invisíveis na esteira do mistério.
Embarcações fantasmas com seus remos
violando o espelho da corrente
e a história dos antigos moradores
que perlustraram a estrada do degredo.
Nas margens as perguntas os inquéritos
o tiro a interjeição e a morte cinza:
gargalhada de álcool nas bodegas.
A indiferença escorre como gosma
e o rio na derrota da incerteza
leva faunas estranhas no seu ventre.
e brilho de luar sobre o silêncio
ruídos sem barulho de asas brancas
invisíveis na esteira do mistério.
Embarcações fantasmas com seus remos
violando o espelho da corrente
e a história dos antigos moradores
que perlustraram a estrada do degredo.
Nas margens as perguntas os inquéritos
o tiro a interjeição e a morte cinza:
gargalhada de álcool nas bodegas.
A indiferença escorre como gosma
e o rio na derrota da incerteza
leva faunas estranhas no seu ventre.
2 988
1
Chagas Val
O Rio Dentro do Rrio
um rio que se define
no próprio espaço da fala
um rio dentro do rio
no seu leito permanente
jardins acesos nas margens
o áureo arroz explodindo
na manhã leitosa e branca
o milho ergue as espigas
na terra como um luar
o arco-íris entreabre-se
em cores azuis-suaves
como aves que voassem
no redondo silêncio alado.
o rio muge entre pedras
punhais e pontes mais claras
a água canta entre luzes
espelhos e alvas manhãs
mugindo dentro da noite
a foice
de suas águas
ferindo a face
de um espelho
e chove dentro da noite
no aceso silêncio espesso
no espaço aberto da fala
o rio dentro do rio
deságua no próprio curso
no seu uso mais corrente
as flores do rio cantam
abrindo os olhos nas margens
flutua alva a canoa
no metal claro da água
a lua leve no espaço
brota do rio e floresce
por entre margens e margens
à sombra azul do espelho
um fino punhal de prata
cravado no próprio peito
no leito
claro qual pássaro
voando dentro do sonho
e passa leve a canoa
a lua acesa na mata.
o ri dentro do rio
no curso de suas águas
floresce fundo no espelho
no alado silêncio vário
no seu caminho mais claro
é o Longa que se abre
à luz tenra da manhã
por entre pedras e pás-
saros o rio a relva
o riacho
no próprio espaço da fala
um rio dentro do rio
no seu leito permanente
jardins acesos nas margens
o áureo arroz explodindo
na manhã leitosa e branca
o milho ergue as espigas
na terra como um luar
o arco-íris entreabre-se
em cores azuis-suaves
como aves que voassem
no redondo silêncio alado.
o rio muge entre pedras
punhais e pontes mais claras
a água canta entre luzes
espelhos e alvas manhãs
mugindo dentro da noite
a foice
de suas águas
ferindo a face
de um espelho
e chove dentro da noite
no aceso silêncio espesso
no espaço aberto da fala
o rio dentro do rio
deságua no próprio curso
no seu uso mais corrente
as flores do rio cantam
abrindo os olhos nas margens
flutua alva a canoa
no metal claro da água
a lua leve no espaço
brota do rio e floresce
por entre margens e margens
à sombra azul do espelho
um fino punhal de prata
cravado no próprio peito
no leito
claro qual pássaro
voando dentro do sonho
e passa leve a canoa
a lua acesa na mata.
o ri dentro do rio
no curso de suas águas
floresce fundo no espelho
no alado silêncio vário
no seu caminho mais claro
é o Longa que se abre
à luz tenra da manhã
por entre pedras e pás-
saros o rio a relva
o riacho
909
1
Chagas Val
O Rio Dentro do Rrio
um rio que se define
no próprio espaço da fala
um rio dentro do rio
no seu leito permanente
jardins acesos nas margens
o áureo arroz explodindo
na manhã leitosa e branca
o milho ergue as espigas
na terra como um luar
o arco-íris entreabre-se
em cores azuis-suaves
como aves que voassem
no redondo silêncio alado.
o rio muge entre pedras
punhais e pontes mais claras
a água canta entre luzes
espelhos e alvas manhãs
mugindo dentro da noite
a foice
de suas águas
ferindo a face
de um espelho
e chove dentro da noite
no aceso silêncio espesso
no espaço aberto da fala
o rio dentro do rio
deságua no próprio curso
no seu uso mais corrente
as flores do rio cantam
abrindo os olhos nas margens
flutua alva a canoa
no metal claro da água
a lua leve no espaço
brota do rio e floresce
por entre margens e margens
à sombra azul do espelho
um fino punhal de prata
cravado no próprio peito
no leito
claro qual pássaro
voando dentro do sonho
e passa leve a canoa
a lua acesa na mata.
o ri dentro do rio
no curso de suas águas
floresce fundo no espelho
no alado silêncio vário
no seu caminho mais claro
é o Longa que se abre
à luz tenra da manhã
por entre pedras e pás-
saros o rio a relva
o riacho
no próprio espaço da fala
um rio dentro do rio
no seu leito permanente
jardins acesos nas margens
o áureo arroz explodindo
na manhã leitosa e branca
o milho ergue as espigas
na terra como um luar
o arco-íris entreabre-se
em cores azuis-suaves
como aves que voassem
no redondo silêncio alado.
o rio muge entre pedras
punhais e pontes mais claras
a água canta entre luzes
espelhos e alvas manhãs
mugindo dentro da noite
a foice
de suas águas
ferindo a face
de um espelho
e chove dentro da noite
no aceso silêncio espesso
no espaço aberto da fala
o rio dentro do rio
deságua no próprio curso
no seu uso mais corrente
as flores do rio cantam
abrindo os olhos nas margens
flutua alva a canoa
no metal claro da água
a lua leve no espaço
brota do rio e floresce
por entre margens e margens
à sombra azul do espelho
um fino punhal de prata
cravado no próprio peito
no leito
claro qual pássaro
voando dentro do sonho
e passa leve a canoa
a lua acesa na mata.
o ri dentro do rio
no curso de suas águas
floresce fundo no espelho
no alado silêncio vário
no seu caminho mais claro
é o Longa que se abre
à luz tenra da manhã
por entre pedras e pás-
saros o rio a relva
o riacho
909
1
Chagas Val
O Rio Dentro do Rrio
um rio que se define
no próprio espaço da fala
um rio dentro do rio
no seu leito permanente
jardins acesos nas margens
o áureo arroz explodindo
na manhã leitosa e branca
o milho ergue as espigas
na terra como um luar
o arco-íris entreabre-se
em cores azuis-suaves
como aves que voassem
no redondo silêncio alado.
o rio muge entre pedras
punhais e pontes mais claras
a água canta entre luzes
espelhos e alvas manhãs
mugindo dentro da noite
a foice
de suas águas
ferindo a face
de um espelho
e chove dentro da noite
no aceso silêncio espesso
no espaço aberto da fala
o rio dentro do rio
deságua no próprio curso
no seu uso mais corrente
as flores do rio cantam
abrindo os olhos nas margens
flutua alva a canoa
no metal claro da água
a lua leve no espaço
brota do rio e floresce
por entre margens e margens
à sombra azul do espelho
um fino punhal de prata
cravado no próprio peito
no leito
claro qual pássaro
voando dentro do sonho
e passa leve a canoa
a lua acesa na mata.
o ri dentro do rio
no curso de suas águas
floresce fundo no espelho
no alado silêncio vário
no seu caminho mais claro
é o Longa que se abre
à luz tenra da manhã
por entre pedras e pás-
saros o rio a relva
o riacho
no próprio espaço da fala
um rio dentro do rio
no seu leito permanente
jardins acesos nas margens
o áureo arroz explodindo
na manhã leitosa e branca
o milho ergue as espigas
na terra como um luar
o arco-íris entreabre-se
em cores azuis-suaves
como aves que voassem
no redondo silêncio alado.
o rio muge entre pedras
punhais e pontes mais claras
a água canta entre luzes
espelhos e alvas manhãs
mugindo dentro da noite
a foice
de suas águas
ferindo a face
de um espelho
e chove dentro da noite
no aceso silêncio espesso
no espaço aberto da fala
o rio dentro do rio
deságua no próprio curso
no seu uso mais corrente
as flores do rio cantam
abrindo os olhos nas margens
flutua alva a canoa
no metal claro da água
a lua leve no espaço
brota do rio e floresce
por entre margens e margens
à sombra azul do espelho
um fino punhal de prata
cravado no próprio peito
no leito
claro qual pássaro
voando dentro do sonho
e passa leve a canoa
a lua acesa na mata.
o ri dentro do rio
no curso de suas águas
floresce fundo no espelho
no alado silêncio vário
no seu caminho mais claro
é o Longa que se abre
à luz tenra da manhã
por entre pedras e pás-
saros o rio a relva
o riacho
909
1
Chagas Val
O Rio Dentro do Rrio
um rio que se define
no próprio espaço da fala
um rio dentro do rio
no seu leito permanente
jardins acesos nas margens
o áureo arroz explodindo
na manhã leitosa e branca
o milho ergue as espigas
na terra como um luar
o arco-íris entreabre-se
em cores azuis-suaves
como aves que voassem
no redondo silêncio alado.
o rio muge entre pedras
punhais e pontes mais claras
a água canta entre luzes
espelhos e alvas manhãs
mugindo dentro da noite
a foice
de suas águas
ferindo a face
de um espelho
e chove dentro da noite
no aceso silêncio espesso
no espaço aberto da fala
o rio dentro do rio
deságua no próprio curso
no seu uso mais corrente
as flores do rio cantam
abrindo os olhos nas margens
flutua alva a canoa
no metal claro da água
a lua leve no espaço
brota do rio e floresce
por entre margens e margens
à sombra azul do espelho
um fino punhal de prata
cravado no próprio peito
no leito
claro qual pássaro
voando dentro do sonho
e passa leve a canoa
a lua acesa na mata.
o ri dentro do rio
no curso de suas águas
floresce fundo no espelho
no alado silêncio vário
no seu caminho mais claro
é o Longa que se abre
à luz tenra da manhã
por entre pedras e pás-
saros o rio a relva
o riacho
no próprio espaço da fala
um rio dentro do rio
no seu leito permanente
jardins acesos nas margens
o áureo arroz explodindo
na manhã leitosa e branca
o milho ergue as espigas
na terra como um luar
o arco-íris entreabre-se
em cores azuis-suaves
como aves que voassem
no redondo silêncio alado.
o rio muge entre pedras
punhais e pontes mais claras
a água canta entre luzes
espelhos e alvas manhãs
mugindo dentro da noite
a foice
de suas águas
ferindo a face
de um espelho
e chove dentro da noite
no aceso silêncio espesso
no espaço aberto da fala
o rio dentro do rio
deságua no próprio curso
no seu uso mais corrente
as flores do rio cantam
abrindo os olhos nas margens
flutua alva a canoa
no metal claro da água
a lua leve no espaço
brota do rio e floresce
por entre margens e margens
à sombra azul do espelho
um fino punhal de prata
cravado no próprio peito
no leito
claro qual pássaro
voando dentro do sonho
e passa leve a canoa
a lua acesa na mata.
o ri dentro do rio
no curso de suas águas
floresce fundo no espelho
no alado silêncio vário
no seu caminho mais claro
é o Longa que se abre
à luz tenra da manhã
por entre pedras e pás-
saros o rio a relva
o riacho
909
1
Castro Alves
AS TREVAS
(Traduzido de Lord Byron)
A meu amigo, o DR. Franco Meireles,
inspirado tradutor das "Melodias Hebraicas".
Tive um sonho que em tudo não foi sonho!...
O sol brilhante se apagava: e os astros,
Do eterno espaço na penumbra escura,
Sem raios, e sem trilhos, vagueavam.
A terra fria balouçava cega
E tétrica no espaço ermo de lua.
A manhã ia, vinha... e regressava...
Mas não trazia o dia! Os homens pasmos
Esqueciam no horror dessas ruínas
Suas paixões: E as almas conglobadas
Gelavam-se num grito de egoísmo
Que demandava "luz". Junto às fogueiras
Abrigavam-se. . . e os tronos e os palácios,
Os palácios dos reis, o albergue e a choça
Ardiam por fanais. Tinham nas chamas
As cidades morrido. Em torno às brasas
Dos seus lares os homens se grupavam,
Pra à vez extrema se fitarem juntos.
Feliz de quem vivia junto às lavas
Dos vulcões sob a tocha alcantilada!
Hórrida esprança acalentava o mundo!
As florestas ardiam! ... de hora em hora
Caindo seapagavam; crepitando,
Lascado otronco desabava em cinzas.
E tudo... tudo as trevas envolviam.
As frontesao clarão da luz doente
Tinham do inferno o aspecto... quando às vezes
As faíscas das chamas borrifavam-nas.
Uns, de bruços no chão, tapando os olhos
Choravam. Sobre as mãos cruzadas — outros —
Firmando a barba, desvairados riam.
Outros correndo à toa procuravam
O ardente pasto pra funéreas piras.
Inquietos, no esgar do desvario,
Os olhos levantavam pra o céu torvo,
Vasto sudário do universo — espectro —,
E após em terra se atirando em raivas,
Rangendo os dentes, blásfemos, uivavam!
Lúgubre grito os pássaros selvagens
Soltavam, revoando espavoridos
Num vôo tonto coas inúteis asas!
As feras stavam mansas e medrosas!
As víboras rojando senroscavam
Pelos membros dos homens, sibilantes,
Mas sem veneno... a fome lhes matavam!
E a guerra, que um momento sextinguira,
De novo se fartava. Só com sangue
Comprava-se o alimento, e após à parte
Cada um se sentava taciturno,
Pra fartar-se nas trevas infinitas!
Já não havia amor! ... O mundo inteiro
Era um só pensamento, e o pensamento
Era a morte sem glória e sem detença!
O estertor da fome apascentava-se
Nas entranhas ... Ossada ou carne pútrida
Ressupino, insepulto era o cadáver.
Mordiam-se entre si os moribundos
Mesmo os cães se atiravam sobre os donos,
Todos exceto um só... que defendia
O cadáver do seu, contra os ataques
Dos pássaros, das feras e dos homens,
Até que a fome os extinguisse, ou fossem
Os dentes frouxos saciar algures!
Ele mesmo alimento não buscava ...
Mas, gemendo num uivo longo e triste,
Morreu lambendo a mão, que inanimada
Já não podia lhe pagar o afeto.
Faminta a multidão morrera aos poucos.
Escaparam dous homens tão-somente
De uma grande cidade. E se odiavam.
... Foi junto dos tições quase apagados
De um altar, sobre o qual se amontoaram
Sacros objetos pra um profano uso,
Que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas
Reunindo nas mãos frias de espectros,
De seus sopros exaustos ao bafejo
Uma chama irrisória produziram! ...
Ao clarão que tremia sobre as cinzas
Olharam-se e morreram dando um grito.
Mesmo da própria hediondez morreram,
Desconhecendo aquele em cuja fronte
Traçara a fome o nome de Duende!
O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida,
Populosa tornou-se numa massa
Sem estações, sem árvores, sem erva.
Sem verdura, sem homens e sem vida,
Caos de morte, inanimada argila!
Calaram-se o Oceano, o rio, os lagos!
Nada turbava a solidão profunda!
Os navios no mar apodreciam
Sem marujos! os mastros desabando
Dormiam sobre o abismo, sem que ao menos
Uma vaga na queda alevantassem,
Tinham morrido as vagas! e jaziam
As marés no seu túmulo... antes delas
A lua que as guiava era já morta!
No estagnado céu murchara o vento;
Esvaíram-se as nuvens. E nas trevas
Era só trevas o universo inteiro.
A meu amigo, o DR. Franco Meireles,
inspirado tradutor das "Melodias Hebraicas".
Tive um sonho que em tudo não foi sonho!...
O sol brilhante se apagava: e os astros,
Do eterno espaço na penumbra escura,
Sem raios, e sem trilhos, vagueavam.
A terra fria balouçava cega
E tétrica no espaço ermo de lua.
A manhã ia, vinha... e regressava...
Mas não trazia o dia! Os homens pasmos
Esqueciam no horror dessas ruínas
Suas paixões: E as almas conglobadas
Gelavam-se num grito de egoísmo
Que demandava "luz". Junto às fogueiras
Abrigavam-se. . . e os tronos e os palácios,
Os palácios dos reis, o albergue e a choça
Ardiam por fanais. Tinham nas chamas
As cidades morrido. Em torno às brasas
Dos seus lares os homens se grupavam,
Pra à vez extrema se fitarem juntos.
Feliz de quem vivia junto às lavas
Dos vulcões sob a tocha alcantilada!
Hórrida esprança acalentava o mundo!
As florestas ardiam! ... de hora em hora
Caindo seapagavam; crepitando,
Lascado otronco desabava em cinzas.
E tudo... tudo as trevas envolviam.
As frontesao clarão da luz doente
Tinham do inferno o aspecto... quando às vezes
As faíscas das chamas borrifavam-nas.
Uns, de bruços no chão, tapando os olhos
Choravam. Sobre as mãos cruzadas — outros —
Firmando a barba, desvairados riam.
Outros correndo à toa procuravam
O ardente pasto pra funéreas piras.
Inquietos, no esgar do desvario,
Os olhos levantavam pra o céu torvo,
Vasto sudário do universo — espectro —,
E após em terra se atirando em raivas,
Rangendo os dentes, blásfemos, uivavam!
Lúgubre grito os pássaros selvagens
Soltavam, revoando espavoridos
Num vôo tonto coas inúteis asas!
As feras stavam mansas e medrosas!
As víboras rojando senroscavam
Pelos membros dos homens, sibilantes,
Mas sem veneno... a fome lhes matavam!
E a guerra, que um momento sextinguira,
De novo se fartava. Só com sangue
Comprava-se o alimento, e após à parte
Cada um se sentava taciturno,
Pra fartar-se nas trevas infinitas!
Já não havia amor! ... O mundo inteiro
Era um só pensamento, e o pensamento
Era a morte sem glória e sem detença!
O estertor da fome apascentava-se
Nas entranhas ... Ossada ou carne pútrida
Ressupino, insepulto era o cadáver.
Mordiam-se entre si os moribundos
Mesmo os cães se atiravam sobre os donos,
Todos exceto um só... que defendia
O cadáver do seu, contra os ataques
Dos pássaros, das feras e dos homens,
Até que a fome os extinguisse, ou fossem
Os dentes frouxos saciar algures!
Ele mesmo alimento não buscava ...
Mas, gemendo num uivo longo e triste,
Morreu lambendo a mão, que inanimada
Já não podia lhe pagar o afeto.
Faminta a multidão morrera aos poucos.
Escaparam dous homens tão-somente
De uma grande cidade. E se odiavam.
... Foi junto dos tições quase apagados
De um altar, sobre o qual se amontoaram
Sacros objetos pra um profano uso,
Que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas
Reunindo nas mãos frias de espectros,
De seus sopros exaustos ao bafejo
Uma chama irrisória produziram! ...
Ao clarão que tremia sobre as cinzas
Olharam-se e morreram dando um grito.
Mesmo da própria hediondez morreram,
Desconhecendo aquele em cuja fronte
Traçara a fome o nome de Duende!
O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida,
Populosa tornou-se numa massa
Sem estações, sem árvores, sem erva.
Sem verdura, sem homens e sem vida,
Caos de morte, inanimada argila!
Calaram-se o Oceano, o rio, os lagos!
Nada turbava a solidão profunda!
Os navios no mar apodreciam
Sem marujos! os mastros desabando
Dormiam sobre o abismo, sem que ao menos
Uma vaga na queda alevantassem,
Tinham morrido as vagas! e jaziam
As marés no seu túmulo... antes delas
A lua que as guiava era já morta!
No estagnado céu murchara o vento;
Esvaíram-se as nuvens. E nas trevas
Era só trevas o universo inteiro.
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